{"id":2481,"date":"2013-09-13T15:46:24","date_gmt":"2013-09-13T18:46:24","guid":{"rendered":"http:\/\/pensamentoextemporaneo.wordpress.com\/?p=2481"},"modified":"2013-09-13T15:46:24","modified_gmt":"2013-09-13T18:46:24","slug":"nietzsche-a-negacao-da-religiao-como-consequencia-do-niilismo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/?p=2481","title":{"rendered":"Nietzsche: a nega\u00e7\u00e3o da religi\u00e3o como consequ\u00eancia do niilismo"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align:justify;\"><strong>Daniel Fernandes Moreira<\/strong> *<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\"><strong>Fabr\u00edcio Sampaio Coelho<\/strong> **<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\"><b>Introdu\u00e7\u00e3o<\/b><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">A quest\u00e3o religiosa na vida de Nietzsche sempre foi pertinente: quando crian\u00e7a, a exemplo do pai, queria se tornar pastor. Na juventude entra para a universidade cursando teologia. Contudo, deixa inacabada essa faculdade e se entrega ao estudo da filologia que ir\u00e1 resultar na sua introdu\u00e7\u00e3o ao questionamento filos\u00f3fico. Entretanto, mesmo depois de abandonada a carreira religiosa e at\u00e9 mesmo a f\u00e9, a discuss\u00e3o sobre a religi\u00e3o permanece ativa e de s<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">uma import\u00e2ncia na filosofia nietzschiana. O presente artigo tem como objetivo analisar a rela\u00e7\u00e3o entre religi\u00e3o e morte de Deus. Para isso, nos valendo de algumas de suas obras, como <strong><i>A Gaia Ci\u00eancia<\/i> e <\/strong><i><strong>Humano<\/strong>, <strong>demasiado humano<\/strong><\/i>, teceremos, de forma introdut\u00f3ria, a constru\u00e7\u00e3o do niilismo na filosofia de Friedrich Nietzsche, a fim de demonstramos que, com a morte de Deus, n\u00e3o s\u00f3 os valores, o homem e o mundo, como compreendidos na modernidade, mas a religi\u00e3o perde seu espa\u00e7o e torna-se como que uma \u201cbengala\u201d para \u201cPessoas para quem a vida cotidiana \u00e9 muito vazia e mon\u00f3tona\u201d (NIETZSCHE, HH I \u00a7115, p. 89).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\"><b>A morte de Deus: uma possibilidade para o niilismo<\/b><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">A maior constata\u00e7\u00e3o do s\u00e9culo \u00e9 a morte de Deus, o descredito do Deus crist\u00e3o. Deus morreu! O Deus crist\u00e3o que outrora era o centro de tudo agora perdera seu espa\u00e7o. O Deus que era a base dos valores de toda a Europa n\u00e3o mais se sustenta e, consequentemente sua cren\u00e7a perde o valor. Para Nietzsche o homem moderno matou Deus, Ele n\u00e3o mais possui espa\u00e7o. Com o advento da ci\u00eancia, nos s\u00e9culos XVI e XVII, Deus come\u00e7a a n\u00e3o mais ser o fundamento de tudo, como se tinha, na Idade Media, no Teocentrismo. Agora Deus ocupa um segundo plano, caiu num descredito, o homem moderno \u00e9 para Nietzsche o assassino de Deus.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Como vemos, a morte de Deus \u00e9 um fato para o qual se encaminhava todo o Ocidente. Esta afirmativa n\u00e3o surge de um nada, mas como um fato constatado no per\u00edodo moderno sendo fruto final daquilo para o qual o Iluminismo se encaminhava. Com a Morte de Deus a grande quest\u00e3o que se levanta \u00e9: quem \u00e9 o respons\u00e1vel pela Sua morte? Quem matou Deus? Para Nietzsche, os grandes culpados por sua morte somos todos n\u00f3s, fomos n\u00f3s que matamos Deus. Como ele nos apresenta em <i>A Gaia Ci\u00eancia, <\/i>no aforisma do homem louco<i>:<\/i><\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align:justify;padding-left:30px;\">O homem louco se lan\u00e7ou para o meio deles e trespassou-os com seu olhar. \u201cpara onde foi Deus?\u201d, gritou ele, j\u00e1 lhes direi! N\u00f3s o matamos-voc\u00ea e eu. Somos todos seus assassinos! [&#8230;] que fizemos n\u00f3s, ao desatar a terra do seu sol? Para onde se move ela agora? Para onde nos movemos n\u00f3s? Para longe de todos os sois? N\u00e3o ca\u00edmos continuamente? Para tr\u00e1s, para os lados, para a frente, em todas as dire\u00e7\u00f5es? Existem ainda \u201cem cima\u201d e \u201cembaixo\u201d? N\u00e3o vagamos como que um nada infinito? N\u00e3o sentimos na pele o sopro do v\u00e1cuo?\u00a0 N\u00e3o se tornou ele mais frio? N\u00e3o anoitecer eternamente? N\u00e3o temos que acender lanternas de manh\u00e3? N\u00e3o ouvimos o barulho dos coveiros a enterrar Deus? N\u00e3o sentimos o cheiro de putrefa\u00e7\u00e3o divina?- tamb\u00e9m os deuses apodrecem! Deus est\u00e1 morto! E n\u00f3s o matamos! (NIETZSCHE, GC, \u00a7 125 p. 148).<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align:justify;\">Deus era o valor absoluto que regia o mundo e fundamentava as leis, mas agora que o Deus crist\u00e3o perdeu seu credito a quest\u00e3o que se levanta \u00e9 o que nos resta. \u201cO mais forte e mais sagrado que o mundo at\u00e9 ent\u00e3o possu\u00edra sangrou inteiro sob os nossos punhais \u2013 quem nos limpar\u00e1 deste sangue?\u201d (NIETZSCHE, GC, \u00a7 125 p. 148). Com a morte de Deus estamos condenados a vagar num vazio de sentido, o que \u00e9 agora a base que nos sustentar\u00e1?<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Ao se retirar aquele que era o fundamento de praticamente tudo o que se tinha de constitu\u00eddo, adv\u00e9m uma grande tens\u00e3o e expectativa. Nas palavras de Nietzsche este evento \u00e9 de fato extraordinariamente grande, e alcan\u00e7a uma dimens\u00e3o t\u00e3o extensa que foge a compreens\u00e3o de muitos. O problema que acarreta este fato \u00e9 demasiadamente extenso e, se esta cren\u00e7a vai ao ch\u00e3o, muitas outras seguir\u00e3o este acontecimento. Porque, basicamente, tudo o que at\u00e9 ent\u00e3o se tinha estava enraizado nela, por assim dizer, toda a moral europeia.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">\u00a0O maior acontecimento recente- o fato de que \u201cDeus est\u00e1 morto\u201d, de que a cren\u00e7a no Deus crist\u00e3o perdeu cr\u00e9dito- j\u00e1 come\u00e7a a lan\u00e7ar suas primeiras sombras sobre a Europa [&#8230;] Mas pode-se dizer, no essencial, que o evento mesmo \u00e9 demasiado grande, distante e \u00e0 margem da compreens\u00e3o da maioria, para que se possa imaginar que a not\u00edcia dele tenha sequer chegado; e menos ainda que muitos soubessem j\u00e1 o que realmente sucedeu- e tudo quanto ir\u00e1 desmoronar, agora que esta cren\u00e7a foi minada, porque estava sobre ela constru\u00edda, nela apoiado, nela arraigado: toda a moral europeia, por exemplo. (NIETZSCHE, GC, \u00a7 343 p. 233).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">\u00a0Com a morte de Deus o mundo agora vaga num vazio de sentido, em um niilismo. Contudo, o termo niilismo n\u00e3o \u00e9 uma palavra criada por Nietzsche, ela j\u00e1 existia bem antes, mas Nietzsche faz uma reinterpreta\u00e7\u00e3o deste termo: \u201cQuando Nietzsche utiliza algo de outro autor, o que ele faz muito, ele o reinterpreta profundamente.\u201d (LEFRANC, 2008, p.190).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">No entanto, \u00e9 em Nietzsche que o termo niilismo se torna objeto de uma reflex\u00e3o filos\u00f3fica, que ganha toda uma express\u00e3o. Ele \u00e9, nas palavras de Franco Volpi, \u201co profeta m\u00e1ximo e te\u00f3rico maior do niilismo\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">\u00c9 na obra de Nietzsche- Particularmente nos fragmentos dos anos 1880 publicados ap\u00f3s sua morte na duvidosa e discut\u00edvel compila\u00e7\u00e3o Der <a class=\"zem_slink\" title=\"Will to power\" href=\"http:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Will_to_power\" target=\"_blank\" rel=\"wikipedia\">Wille zur Macht<\/a> (A vontade de poder), com sua primeira edi\u00e7\u00e3o em 1901 e a segunda, bem mais volumosa, em, 1906- que o niilismo se torna o objeto de uma reflex\u00e3o filos\u00f3fica (&#8230;) n\u00e3o \u00e9 exagero, portanto, considerar Nietsche o profeta m\u00e1ximo e o te\u00f3rico maior do niilismo, algu\u00e9m que cedo intuiu a \u2018doen\u00e7a\u2019 do s\u00e9culo e sua respectiva terapia. (VOLPI, 1996, 43).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Em Nietzsche o termo niilismo \u00e9 tido como perda de valores, perda de sentido. Por isso podemos analisar diversas formas de vivencia do niilismo, das quais destacamos tr\u00eas: o niilismo passivo, o niilismo reativo e o niilismo ativo.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Niilismo passivo \u00e9 a nega\u00e7\u00e3o como qualidade da vontade de poder, uma fic\u00e7\u00e3o de valores superiores assumidos pela vida, uma vontade de nada expresso nos valores superiores. Nega-se a vida em prol de valores superiores. No querer alcan\u00e7ar um valor superior futuro ocorre \u00e0 nega\u00e7\u00e3o da vida. \u00c9 quando se nega a vida em raz\u00e3o de algo que pode se ter futuramente.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">O Niilismo reativo \u00e9 justamente uma rea\u00e7\u00e3o a esses valores superiores que s\u00e3o apresentados e contra esse mundo suprassens\u00edvel. Descarta-se esses valores superiores, nega-lhes a validade, a exist\u00eancia. Se com o niilismo passivo t\u00ednhamos um desprezo da vida pelo desejo dos valores superiores, no niilismo reativo temos a nega\u00e7\u00e3o desses valores absolutos. O niilista reativo nega a Deus, bem como todas as formas do suprassens\u00edvel: n\u00e3o existe o verdadeiro, Deus morreu.\u00a0 \u201cConta-se tamb\u00e9m que no mesmo dia o homem louco irrompeu em v\u00e1rias igrejas, e em cada uma entoou o seu <i>Requien aeternam deo. <\/i>Levado para fora e interrogado, limitava-se a responder: \u2018o que s\u00e3o ainda essas igrejas, se n\u00e3o os mausol\u00e9us e t\u00famulos de Deus?\u201d (NIETZSCHE, GC, \u00a7 125 p. 148.)<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">O niilismo ativo \u00e9 expresso pela for\u00e7a, um niilismo de luta e distin\u00e7\u00e3o. \u00c9 assumir a vida com todas as suas dimens\u00f5es sem buscar algo que seja superior a si e sem perder a vontade de viver. \u00c9 o niilismo que nos impele a uma nova forma de viv\u00eancia para al\u00e9m da religi\u00e3o e da moral:<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align:justify;\">Quando uma pessoa chega a convic\u00e7\u00e3o fundamental de que <i>tem<\/i> de ser comandada, torna-se \u2018crente\u2019; inversamente, pode-se imaginar um prazer e for\u00e7a na autodetermina\u00e7\u00e3o, uma <i>liberdade<\/i> da vontade, em que um esp\u00edrito se despede de toda cren\u00e7a, todo o desejo de certeza, treinado que \u00e9 em si equilibrar sobre t\u00eanues cordas e possibilidades e em dan\u00e7as at\u00e9 mesmo a beira de abismos. Um tal esp\u00edrito seria o <i>esp\u00edrito livre<\/i> por excel\u00eancia (NIETZSCHE, GC, \u00a7 347, p. 241)<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align:justify;\"><b>O edif\u00edcio religioso \u00e9 desmoronado<\/b><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Ap\u00f3s esta explana\u00e7\u00e3o sobre a g\u00eanese e desenvolvimento do pensamento niilista de nosso autor, devemos agora nos interrogar sobre qual ser\u00e1 a rela\u00e7\u00e3o entre ambos, a saber: niilismo e religi\u00e3o. Quest\u00e3o, ali\u00e1s, que \u00e9 o ponto de partida e de chegada para esse nosso trabalho. Como sabemos, Nietzsche \u00e9 de fam\u00edlia crist\u00e3, tendo como pai e av\u00f3s aut\u00eanticos crist\u00e3os e pastores. Contudo, essa rela\u00e7\u00e3o direta com o cristianismo n\u00e3o o impediu de dar tamb\u00e9m \u00e0 religi\u00e3o lugar no seu pensamento de desconstru\u00e7\u00e3o geneal\u00f3gica. Por isso, para melhor compreendermos onde se situa a cr\u00edtica nietzschiana \u00e0 religi\u00e3o, ser\u00e1 preciso que compreendamos como a religiosidade entrou na vida humana.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">A rela\u00e7\u00e3o homem-natureza, nos prim\u00f3rdios da humanidade n\u00e3o era t\u00e3o f\u00e1cil como vemos hoje. Para os primeiros homens ela permanecia um mist\u00e9rio impenetr\u00e1vel, pois que \u201cnaqueles tempos nada se sabia sobre as leis da natureza; seja na terra, seja no c\u00e9u, <i>nada <\/i>tinha que suceder; uma esta\u00e7\u00e3o, o sol, a chuva podiam vir ou faltar. N\u00e3o havia qualquer no\u00e7\u00e3o de causalidade <i>natural<\/i>\u201d (NIETZSCHE, HH I, \u00a7111, p. 83). Com isso, a natureza se apresentava carente de regras. Dessa forma, \u00e9 interpretada como um monstro que precisa ser domado. \u00c9 exatamente para isso que surge a religi\u00e3o: uma esp\u00e9cie de m\u00e1gica que pode dominar e driblar as monstruosidades da natureza. Portanto, \u201cquando se remava, n\u00e3o era o remo que movia o barco; remar era apenas uma cerim\u00f4nia m\u00e1gica, pela qual se for\u00e7ava o dem\u00f4nio a mover o barco\u201d (NIETZSCHE, HH I, \u00a7111, p. 83).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Contudo, a racionalidade humana desenvolveu-se e o grande mist\u00e9rio da natureza come\u00e7a a ser desvendado. Naturalmente, a religi\u00e3o perderia seu espa\u00e7o, pois que o homem agora \u00e9 capaz de superar as dificuldades e angustias diante da natureza, agora desvendada e dominada. Entretanto, o que aconteceu foi completamente oposto: a religi\u00e3o permaneceu presente, talvez de maneira mais consistente e forte do que anteriormente. A causa desse fixar-se se encontra no fato de que ela agora se vinculou a um \u201cSer supremo\u201d que tudo criou e exige do homem amor, respeito e obedi\u00eancia. A religi\u00e3o agora se torna moral, uma vez que \u201cexiste um Deus que de n\u00f3s exige o bem, que \u00e9 guardi\u00e3o e testemunha de toda a a\u00e7\u00e3o, todo momento, todo pensamento, que nos ama, que em toda desgra\u00e7a deseja o melhor para n\u00f3s\u201d (NIETZSCHE, HH I, \u00a7109, p. 79).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">O homem, que sempre lutou pela sua liberdade, mesmo perante os mais desoladores perigos, agora se torna preso a uma institui\u00e7\u00e3o que normatiza o que deve ser feito, o que deve ser preferido e o que deve ser deixado de lado. Como isso se torna poss\u00edvel? A religi\u00e3o possui dois artif\u00edcios que prendem o homem a si: aux\u00edlio na luta contra o infort\u00fanio e a presen\u00e7a de uma verdade absoluta.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">A ra\u00e7a humana est\u00e1 a todo momento desesperada para libertar-se de todo sofrimento e, quando encontra meios para super\u00e1-los, abra\u00e7a os at\u00e9 mesmo cegamente. Uma das possibilidades para libertar-se ser\u00e1 a busca da raiz do problema tentando san\u00e1-lo. Agindo desta forma o indiv\u00edduo n\u00e3o s\u00f3 se tornar\u00e1 mais forte, mas descobridor de suas limita\u00e7\u00f5es e, ao mesmo tempo, da sua for\u00e7a em super\u00e1-las. Contudo, o caminho proposto pela religi\u00e3o n\u00e3o \u00e9 esse: ela prop\u00f5e uma forma de ressignifica\u00e7\u00e3o do sofrimento: \u201cA religi\u00e3o e a arte (e tamb\u00e9m a filosofia metaf\u00edsica) se esfor\u00e7am em produzir a mudan\u00e7a da sensibilidade, em parte alternando nosso ju\u00edzo sobre os acontecimentos (\u2026), em parte despertando prazer na dor\u201d (NIETZSCHE, HH I, \u00a7108). Com isso, a religi\u00e3o n\u00e3o supera o sofrimento, muito menos faz com que o homem evolua, ela apenas os engana:<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align:justify;\">A alma humana e suas fronteiras, toda a extens\u00e3o at\u00e9 ao presente atingida nas experi\u00eancias da alma humana, os cumes, as profundezas e as dist\u00e2ncias dessas experi\u00eancias, toda a hist\u00f3ria da alma <i>at\u00e9 aos nossos dias <\/i>as suas possibilidades inexploradas: eis a reserva de ca\u00e7a destinada ao psicol\u00f3gico nato e amigo da \u201cgrande ca\u00e7ada\u201d. Mas quantas vezes, com desespero, diz para si mesmo: \u201cai de mim, que estou s\u00f3! T\u00e3o s\u00f3 e com essa floresta t\u00e3o vasta e virgem!\u201d Ent\u00e3o deseja algumas centenas de auxiliares e perspicazes c\u00e3es de ca\u00e7a que poderiam p\u00f4r na pista da alma humana, para a\u00ed perseguir a sua presa. Em v\u00e3o: ele verifica sempre, intensamente, com amarga decep\u00e7\u00e3o, quanto \u00e9 dif\u00edcil encontrar auxiliares e c\u00e3es para tudo aquilo que justamente agu\u00e7a a sua curiosidade. (NIETZSCHE, BM, \u00a745, p. 64).<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align:justify;\">Quanto \u00e0 verdade, Nietzsche n\u00e3o v\u00ea como a religi\u00e3o pode fundamentar-se e firmar-se afirmando possuir alguma verdade, pois que, \u201c<i>at\u00e9 hoje nenhuma religi\u00e3o, seja direta ou indiretamente, como dogma ou como alegoria, conteve uma s\u00f3 verdade<\/i>\u201d (NIETZSCHE, HH I, \u00a7 110, p. 82). A \u00fanica verdade que podemos retirar da religi\u00e3o para Nietzsche \u00e9 que ela permanece metaf\u00edsica e, enquanto metaf\u00edsica permanece moral.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\"><b>Conclus\u00e3o<\/b><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">A morte de Deus no pensamento Nietzschiano \u00e9 o \u00e1pice de uma desconstru\u00e7\u00e3o geneal\u00f3gica que perpassa toda obra de Nietzsche. Se anteriormente a constata\u00e7\u00e3o presente na <i>Gaia Ci\u00eancia<\/i> da morte de Deus, a religi\u00e3o j\u00e1 era tida como um amuleto ou caminho para uma ascens\u00e3o social, como vemos no aforisma 115 de <i>Humano, demasiado humano<\/i>. Agora ela se apresenta apenas como um caminho para que pessoas pobres em esp\u00edrito consigam superar seus sofrimentos.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Conclu\u00edmos, portanto, que a religi\u00e3o no pensamento nietzschiano esteve presente na humanidade como possibilidade para a instaura\u00e7\u00e3o do denominado niilismo passivo, no qual o homem renunciava a si mesmo para que valores superiores pudessem governar e administrar as suas a\u00e7\u00f5es. Por\u00e9m quando esse niilismo \u00e9 superado pelo niilismo reativo a religi\u00e3o perde sua fun\u00e7\u00e3o e se apodera apenas de esp\u00edritos pobres e inferiores que n\u00e3o conseguiram ainda assumir suas mazelas, seus defeitos e rir de tudo isso, procurando um eterno retorno na vivencia de um Al\u00e9m-do-homem.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">_________________________________<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">*Graduando em Filosofia pela Faculdade Arquidiocesana de Mariana Dom Luciano Mendes<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">** Graduando em Filosofia pela Faculdade Arquidiocesana de Mariana Dom Luciano Mendes<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\"><b>Refer\u00eancias<\/b><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">LEFRANC, Jean. <i>Compreender Nietzsche<\/i>. Trad. L\u00facia M. Endlich Orth. 4. ed. Petr\u00f3polis: Vozes, 2008.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">NIETZSCHE, F. <i>A Gaia Ci\u00eancia<\/i>. Trad. Paulo C\u00e9sar de Souza. S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras, 2001.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">______. <i>Al\u00e9m do bem e do mal. <\/i>Trad. Heloisa da Gra\u00e7a Burati. S\u00e3o Paulo: Rideel, 2005. (Biblioteca cl\u00e1ssica).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">______. <i>Humano, demasiado humano<\/i>: um livro para esp\u00edritos livres. Trad. Paulo C\u00e9sar de Souza. S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras, 2005. (Companhia de Bolso)<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">VOLPI, F. <i>O niilismo<\/i>. Trad. Aldo Vannucchi. S\u00e3o Paulo: Ed. Loyola, 1999. (Leituras Filos\u00f3ficas).<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Daniel Fernandes Moreira * Fabr\u00edcio Sampaio Coelho ** Introdu\u00e7\u00e3o A quest\u00e3o religiosa na vida de Nietzsche sempre foi pertinente: quando crian\u00e7a, a exemplo do pai, queria se tornar pastor. Na juventude entra para a universidade cursando teologia. Contudo, deixa inacabada essa faculdade e se entrega ao estudo da filologia que ir\u00e1 resultar na sua introdu\u00e7\u00e3o &hellip; <\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_mi_skip_tracking":false,"footnotes":""},"categories":[14,39,115],"tags":[174,253,325,343,401,404,537,408,409,452,509],"class_list":{"0":"entry","1":"post","2":"publish","3":"author-admin","4":"post-2481","6":"format-standard","7":"category-daniel-fernandes-moreira","8":"category-fabricio-sampaio-coelho","9":"category-nietzsche","10":"post_tag-a-gaia-ciencia","11":"post_tag-deus","12":"post_tag-friedrich-nietzsche","13":"post_tag-humano-demasiado-humano","14":"post_tag-morte","15":"post_tag-mundo-moderno","16":"post_tag-nietzsche","17":"post_tag-niilismo","18":"post_tag-o-que-e-niilismo","19":"post_tag-religiao","20":"post_tag-vazio"},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2481","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=2481"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2481\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=2481"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=2481"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=2481"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}