{"id":2535,"date":"2013-11-21T00:53:16","date_gmt":"2013-11-21T02:53:16","guid":{"rendered":"http:\/\/pensamentoextemporaneo.wordpress.com\/?p=2535"},"modified":"2013-11-21T00:53:16","modified_gmt":"2013-11-21T02:53:16","slug":"ascese-filosofica-e-espiritual-na-hermeneutica-do-sujeito-de-michel-foucault","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/?p=2535","title":{"rendered":"Ascese filos\u00f3fica e espiritual na Hermen\u00eautica do Sujeito de Michel Foucault"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align:justify;\"><strong><span style=\"line-height:1.5;\">\u00a0<\/span>Rosemberg Nascimento*<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">\n<p style=\"text-align:justify;\">Este artigo tem como objetivo primordial fazer uma exposi\u00e7\u00e3o de maneira sucinta das aulas de Michel Foucault, do dia tr\u00eas de mar\u00e7o de 1982. A trajet\u00f3ria que perpassa o pensamento foucaultiano \u00e9 marcada pela hermen\u00eautica do sujeito. Assim sendo, delinearemos o percurso de explana\u00e7\u00e3o tanto da primeira quanto da segunda hora de aula.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Michel Foucault (1926-1984) no limiar da primeira hora do dia tr\u00eas de mar\u00e7o delineia uma an\u00e1lise dos efeitos que se remetem ao princ\u00edpio, \u00e0 convers\u00e3o do si ordenado pelo conhecimento. Por outro lado, esse converter-se de si, corresponde \u00e0 pr\u00e1tica de si. Na perspectiva dos gregos em geral, chamavam de<i> \u00e1skesis<\/i>. Em sua primeira explana\u00e7\u00e3o de seu curso, Foucault mostra minuciosamente no final da mesma o termo <i>grego \u00e1skesis<\/i>. Os gregos na \u00e9poca helen\u00edstica e romana est\u00e3o muito longe de compreender o termo que denominamos de ascese. \u201cNossa no\u00e7\u00e3o de ascese \u00e9, ali\u00e1s, mais ou menos modelada e impregnada pela concep\u00e7\u00e3o crist\u00e3\u201d. (FOUCAULT, 2004, p.399).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">\u00a0Ademais, a ascese dos fil\u00f3sofos pag\u00e3os ou a ascese da pr\u00e1tica de si na \u00e9poca helen\u00edstica e romana, ambas distinguem-se da ascese do ponto de vista crist\u00e3o em alguns aspectos. Na ascese filos\u00f3fica, ou na ascese da pr\u00e1tica de si, o objetivo n\u00e3o seria a ren\u00fancia propriamente de si do sujeito. Pelo contr\u00e1rio, \u201cna ascese filos\u00f3fica n\u00e3o se trata de regrar a ordem dos sacrif\u00edcios, das ren\u00fancias que se deve fazer de uma ou outra parte, de um ou outro aspecto do nosso ser. (&#8230;) trata-se de dotar-se de algo que n\u00e3o se tem, de algo que n\u00e3o se possui por natureza\u201d. (FOUCAULT, 2004, p.400). A ascese tem como finalidade constituir o sujeito que se constitu\u00eda a si mesmo.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">\u00a0Conforme afirma Foucault, \u201ca ascese filos\u00f3fica, a ascese da pr\u00e1tica de si n\u00e3o tem por pr\u00edncipio a submiss\u00e3o do indiv\u00edduo \u00e0 lei. Tem por princ\u00edpio ligar o indiv\u00edduo \u00e0 verdade\u201d. (FOUCAULT, 2004, p. 400). Assim, estes s\u00e3o os aspectos primordiais da ascese filos\u00f3fica. A ascese seria o que impele, isto \u00e9, o que permite adquirir os discursos verdadeiros, dos quais se tem necessidade em todas as circunst\u00e2ncias e acontecimentos a fim de o sujeito estabelecer uma rela\u00e7\u00e3o adequada e ao mesmo tempo plena consigo mesma. Vale salientar tamb\u00e9m que \u201ca ascese (&#8230;) \u00e9 o que permite fazer de si mesmo o sujeito que diz a verdade e que, por esta enuncia\u00e7\u00e3o da verdade, encontra-se transfigurado, e transfigurado precisamente pelo fato de dizer a verdade\u201d. (FOUCAULT, 2004, p.400).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">\u00a0Deste modo, sendo a ascese o que permite e, concomitamente, sustenta a veracidade do discurso, ela faz com que o sujeito tenha seguran\u00e7a para sustentar o discurso em seus argumentos. Com isso, a ascese faz com que o sujeito se torne o enunciado do pr\u00f3prio discurso. Na ascese crist\u00e3, percebe-se um movimento de ren\u00fancia a si ef\u00eamero, como movimento essencial que contribui a objetiva\u00e7\u00e3o de si em um discurso verdadeiro. O sustent\u00e1culo dessa ascese como subjetiva\u00e7\u00e3o do discurso verdadeiro ser\u00e3o as t\u00e9cnicas e tamb\u00e9m as pr\u00e1ticas das quais emergem a escuta, a leitura, a escrita e o di\u00e1logo. Contudo, Foucault elucida como podemos compreender o procedimento feito acerca da ascese por meio do di\u00e1logo de sujeitos.<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align:left;\">O primeiro procedimento na ascese e na subjetiva\u00e7\u00e3o do discurso verdadeiro, uma vez que o escutar, em uma cultura que sabemos bem ter sido fundamentalmente oral, \u00e9 o que permitir\u00e1 recolher o <i>l\u00f3gos<\/i>, recolher o que se diz de verdadeiro. (FOUCAULT, 2004, p.402).<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align:justify;\">A escuta \u00e9 o que possibilitar\u00e1 o sujeito convencer-se de que a verdade se encontra no <i>l\u00f3gos<\/i>. Foucault afirma que a verdade ouvida e escutada deve causar certa estranheza no sujeito. No entanto, os gregos reconheciam a partir da escuta a natureza amb\u00edgua existente na audi\u00e7\u00e3o do sujeito. \u201cNa audi\u00e7\u00e3o, mais do que em qualquer outro sentido, a alma encontra-se passiva em rela\u00e7\u00e3o ao mundo exterior e exposta a todos os acontecimentos que dele lhe adv\u00eam e que podem surpreend\u00ea-la\u201d. (FOUCAULT, 2004, p.402). Plutarco j\u00e1 dizia que n\u00e3o se pode ouvir o que se passa ao seu redor. O ouvir \u00e9 mais <i>pathetik\u00f3s,<\/i> passivo de todos os sentidos.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">\u00a0Na segunda hora de aula, Foucault delineia os princ\u00edpios fundamentais de uma doutrina do sujeito que fala. O objeto ou a finalidade de uma leitura filos\u00f3fica n\u00e3o est\u00e1 em obter conhecimento da obra de um determinado autor, nem mesmo tem por fun\u00e7\u00e3o aprofundar sua doutrina. Por meio da leitura \u00e9 que Foucault encontra o sentido do objetivo principal tratando-se de medita\u00e7\u00e3o. Neste sentido, ele faz uma exposi\u00e7\u00e3o acerca da tem\u00e1tica que inquieta o sujeito, a morte \u201cno sentido em que os latinos e os gregos entendiam, n\u00e3o significa pensar que se vai morrer. Nem mesmo significa convencer-se de que se vai efetivamente morrer\u201d. (FOUCAULT, 2004, p. 429). Al\u00e9m dessa medita\u00e7\u00e3o, Foucault atribui a palavra e, simultaneamente, a reconhece como esp\u00e9cie de signos, se assim podemos dizer dos jogos de linguagem que se d\u00e3o a partir do di\u00e1logo de sujeitos. Foucault diz que Santo Agostinho passou por um regime no qual a rela\u00e7\u00e3o do sujeito na busca da verdade n\u00e3o seria apenas condicionada a causa principal. O bispo de Hipona quer mostrar que seria imposs\u00edvel que o sujeito diga a verdade sobre si mesmo. Por mais que ele tente dizer, n\u00e3o conseguir\u00e1.<\/p>\n<blockquote><p>A obriga\u00e7\u00e3o que tem o sujeito de dizer-verdadeiro sobre si mesmo, ou ainda, o princ\u00edpio fundamental de que \u00e9 preciso o dizer-verdadeiro sobre si mesmo a fim de se estabelecer com a verdade em geral uma rela\u00e7\u00e3o tal que nela se possa encontrar a pr\u00f3pria salva\u00e7\u00e3o, (&#8230;) \u00e9 algo que de modo algum existiu na antiguidade grega, helen\u00edstica ou romana. (FOUCAULT, 2004, p.437).<\/p><\/blockquote>\n<p style=\"text-align:justify;\">\u00a0O sujeito, que \u00e9 guiado \u00e0 verdade pelo discurso do mestre, n\u00e3o tem que dizer a verdade sobre si mesmo. Pelo fato de o sujeito n\u00e3o ter que dizer algo sobre a verdade, consequentemente nem precisa falar dela. Concluindo essa exposi\u00e7\u00e3o Foucaultiana, surge um problema em meio ao que se passa nesse discurso. Seria poss\u00edvel existir no jogo da ascese, da subjetiva\u00e7\u00e3o progressiva do discurso verdadeiro a contribui\u00e7\u00e3o, de tal modo que o discurso do mestre se desenvolvesse. Observa-se que a <i>parrhes\u00eda<\/i> \u00e9 o fato de se dizer tudo. Usamos at\u00e9 algumas express\u00f5es relevantes como declara Foucault:<\/p>\n<blockquote><p>Franqueza, abertura de cora\u00e7\u00e3o, abertura de palavra, abertura de linguagem, liberdade de palavra. Os latinos geralmente traduzem <i>parrhes\u00eda<\/i> por <i>libertas<\/i>. \u00c9 a abertura que faz com que se diga, com que se diga o que se tem a dizer, com que se diga, o que se tem vontade de dizer, com que se diga o que se pensa dever dizer por que \u00e9 necess\u00e1rio, porque \u00e9 \u00fatil, porque verdadeiro. (FOUCAULT, 2004, p.440).<\/p><\/blockquote>\n<p style=\"text-align:justify;\">\u00a0Por conseguinte, o paradoxo <i>libertas<\/i> ou <i>parrhes\u00eda<\/i> \u00e9 uma qualidade moral do sujeito que fala, como afirma Foucault. Falar implica dizer o verdadeiro n\u00e3o impondo a maneira de uma esp\u00e9cie sem generalizar o sujeito que toma a palavra, que diz a verdade e acredita na mesma. O sentido moral de <i>parrehes\u00eda<\/i> para Foucault est\u00e1 intimamente ligado ao \u00e2mbito filos\u00f3fico, na arte de si mesmo e na pr\u00e1tica de si, significando uma t\u00e9cnica precisa e pertinente ao papel da linguagem e da palavra na ascese espiritual dos fil\u00f3sofos. N\u00e3o pode haver de maneira alguma o <i>l\u00f3gos<\/i> filos\u00f3fico sem esta esp\u00e9cie de corpo de linguagem que possui qualidades pr\u00f3prias, sua pl\u00e1stica pr\u00f3pria e efeitos pat\u00e9ticos que lhes s\u00e3o necess\u00e1rios. Dessa forma, <i>parrhes\u00eda<\/i> e <i>libertas<\/i> s\u00e3o as regras fundamentais que utilizamos para formular o discurso da verdade.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">\n<p style=\"text-align:justify;\">(*) Granduando na FAM<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\"><b>Refer\u00eancia<\/b><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">FOUCAULT, Michel. <i>A hermen\u00eautica do sujeito<\/i>. Tradu\u00e7\u00e3o M\u00e1rcio Alves da Fonseca; Salma Tannus Muchail. S\u00e3o Paulo: Martins Fontes, 2004. p. 399-439.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00a0Rosemberg Nascimento* Este artigo tem como objetivo primordial fazer uma exposi\u00e7\u00e3o de maneira sucinta das aulas de Michel Foucault, do dia tr\u00eas de mar\u00e7o de 1982. A trajet\u00f3ria que perpassa o pensamento foucaultiano \u00e9 marcada pela hermen\u00eautica do sujeito. 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