{"id":2542,"date":"2014-02-26T18:25:08","date_gmt":"2014-02-26T21:25:08","guid":{"rendered":"http:\/\/pensamentoextemporaneo.wordpress.com\/?p=2542"},"modified":"2014-02-26T18:25:08","modified_gmt":"2014-02-26T21:25:08","slug":"etica-e-estetica-1-a-mistica-do-uno-em-plotino","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/?p=2542","title":{"rendered":"\u00c9tica e Est\u00e9tica: a m\u00edstica do Uno em Plotino"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align:justify;\"><strong>Daniel Junior dos Santos<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">O que \u00e9 o belo? Qual \u00e9 o substrato, <i>t\u00e9los<\/i> da arte? Estas sem d\u00favida podem ser elencadas como uma das grandes perguntas que movimentaram e ainda movimentam o cen\u00e1rio art\u00edstico e filos\u00f3fico do pensamento acerca da est\u00e9tica (1). Situado neste vi\u00e9s e numa tradi\u00e7\u00e3o essencialmente metaf\u00edsica, Plotino (2), cristalizado como fil\u00f3sofo da unidade emerge atrav\u00e9s de sua filosofia do Uno em sua famosa obra <i>En\u00e9adas<\/i> uma reflex\u00e3o quanto ao Belo. Ainda que, n\u00e3o constitua um saber estritamente sistem\u00e1tico quanto ao universo est\u00e9tico, tal amor pela fonte da beleza que \u00e9 o Uno estampado em seus escritos, nos conduz mesmo que de forma indireta e necess\u00e1ria a uma est\u00e9tica, como nos sublinha (Reis, 2007, p. 3): \u201cA paix\u00e3o, <i>\u00c9ros<\/i>, pelo mundo intelig\u00edvel e, al\u00e9m deste, por aquilo que a tudo transcende, o Uno-Bem, \u00e9 a t\u00f4nica da obra de Plotino, e na medida em que a est\u00e9tica se reporta ao Belo, que \u00e9 objeto do <i>\u00c9ros<\/i>, deve-se pensar toda a obra de Plotino como uma est\u00e9tica\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Iluminados por esta luz que emana do Belo Intelig\u00edvel, o objetivo do presente artigo \u00e9 o de atrav\u00e9s da primeira <i>En\u00e9ada <\/i>intitulada <i>Sobre o Belo<\/i>, estabelecer um paralelo entre \u00e9tica e est\u00e9tica no pensamento plotiniano, apresentando a \u00e9tica enquanto ideal asc\u00e9tico de vida como necess\u00e1ria <i>condi\u00e7\u00e3o de possibilidade<\/i> no itiner\u00e1rio de retorno da alma ao Uno, ao Belo.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\"><b>1. A arte e o reconhecimento do Belo<\/b><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">No in\u00edcio do tratado (I, 6), das <i>En\u00e9adas<\/i>, Plotino abre a discuss\u00e3o no sentido de investigar sobre o que se entende quando afirmamos que algo \u00e9 belo.\u00a0 Num primeiro momento, parece haver duas ordens distintas de manifesta\u00e7\u00e3o e afeta\u00e7\u00e3o do belo: a beleza dos corpos, p. ex: a percep\u00e7\u00e3o de ritmos e melodias, como no caso da m\u00fasica, e a beleza de inst\u00e2ncias mais elevadas, como as ci\u00eancias e virtudes. Por conseguinte a isto, passa-se a considera\u00e7\u00e3o do que seja afinal a causa da beleza daquilo que \u00e9 mais claro e evidente a n\u00f3s, ou seja, a beleza dos corpos. Logo, surgem duas possibilidades: participa\u00e7\u00e3o ou identifica\u00e7\u00e3o com sua natureza. Contudo, a resposta \u00e9 n\u00edtida:<\/p>\n<blockquote><p>\u00c9 voz comum \u2013 generalizamos \u2013 que a beleza vis\u00edvel \u00e9 fruto da m\u00fatua simetria das partes entre si e em rela\u00e7\u00e3o ao todo, unida \u00e0 vistosidade das cores; de maneira que, neste caso e universalmente em todos os casos, ser belo \u00e9 ser sim\u00e9trico e proporcionado. De ser verdadeira tal suposi\u00e7\u00e3o seguir-se-ia necessariamente que nada simples seria formoso \u2013 unicamente o composto poderia s\u00ea-lo \u2013 e que a beleza seria privil\u00e9gio do todo, enquanto que as partes careceriam dela, tendo estas como exclusiva finalidade ao unirem-se no todo, que por elas seria belo. (EN, I, 6, 1, p. 48-49). \u00a0(3)<\/p><\/blockquote>\n<p style=\"text-align:justify;\">Em contrapartida a esta concep\u00e7\u00e3o comum de belo defendida pelos estoicos e enraizada na simetria \u2013 proporcionalidade das partes com o todo \u2013 e vice-versa, Plotino refuta-os dizendo que ao contr\u00e1rio de suas afirma\u00e7\u00f5es a beleza n\u00e3o se encontra nem no mundo material, muito menos na simetria, mas numa ordem superior e elevada ao corp\u00f3reo. \u201cBeleza da alma \u00e9 a virtude, beleza num sentido muito mais real que as outras das quais antes fal\u00e1vamos\u201d. (EN, I, 6, 1, p. 49). Assim sendo, a beleza dos corpos \u2013 mundo sens\u00edvel \u2013 adv\u00e9m pela impress\u00e3o da forma intelig\u00edvel do elemento nas outras coisas que n\u00e3o admite simetria, feiura, mutabilidade, corrup\u00e7\u00e3o, ou seja, a alma.<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align:justify;\">Deve-se estabelecer desde um princ\u00edpio que o belo \u00e9 tamb\u00e9m o bem; desse bem, a intelig\u00eancia tira imediatamente sua beleza, e a alma \u00e9 bela pela intelig\u00eancia: as outras belezas, a das a\u00e7\u00f5es e a das ocupa\u00e7\u00f5es, prov\u00eam de que a alma lhes imprime sua forma. Esta faz tamb\u00e9m tudo que chamamos os corpos; sendo algo divino, e como uma parte da beleza, faz bela todas as coisas que toca e que domina, enquanto lhes \u00e9 poss\u00edvel participar da beleza. (EN, I, 6, 6, p. 55).<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align:justify;\">Em consequ\u00eancia disso, se estabelece um par\u00e2metro universal de beleza: a Ideia, o Absoluto. Desta forma, de maneira geral, a beleza dos corpos \u00e9 entendida como a participa\u00e7\u00e3o junto ao Ideal divino, e a feiura dos corpos como a sua priva\u00e7\u00e3o (4). Por fim, aquilo que \u00e9 Belo em si mesmo, fonte de toda beleza sens\u00edvel e corp\u00f3rea, situa-se num plano sumamente superior e incorp\u00f3reo \u00e0 beleza sens\u00edvel, longe de toda determina\u00e7\u00e3o e passividade. A este primeiro princ\u00edpio indiz\u00edvel e indeterminado quanto \u00e0 sua natureza, fonte e energia de toda beleza nomeou-se analogamente de Uno:<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align:justify;\">Portanto, o Uno n\u00e3o \u00e9 a Intelig\u00eancia, mas est\u00e1 antes da Intelig\u00eancia. Pois a Intelig\u00eancia \u00e9 algo que faz parte dos seres, mas o Uno n\u00e3o \u00e9 algo, uma vez que est\u00e1 <i>antes do algo<\/i>. E o Uno tamb\u00e9m <i>n\u00e3o \u00e9<\/i> o Ser, pois o Ser tem, de certo modo, uma forma, que \u00e9 a do Ser; mas o Uno \u00e9 privado de forma, mesmo de forma intelig\u00edvel. Uma vez que a natureza do Uno gera todas as coisas, ele <i>n\u00e3o \u00e9<\/i> nenhuma delas. Assim, n\u00e3o se pode dizer nem que ele \u00e9 alguma coisa, nem que \u00e9 qualificado ou quantificado, nem que \u00e9 a Intelig\u00eancia ou a Alma. Ele n\u00e3o \u00e9 movido, mas tampouco est\u00e1 em repouso; n\u00e3o est\u00e1 num lugar, nem no tempo. Ele est\u00e1 em si mesmo, tendo a forma da unicidade. Ou melhor: \u00e9 sem forma (<i>amorphon<\/i>), anterior a toda forma, anterior ao movimento e anterior ao repouso, pois tais coisas se encontram no Ser, e s\u00e3o elas que fazem com que ele seja m\u00faltiplo. (EN, 9, 3, p. 126).<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align:justify;\">Assim sendo, este \u00e9 o papel da arte e do belo sens\u00edvel em todas as suas formas e manifesta\u00e7\u00f5es m\u00faltiplas na filosofia plotiniana: conduzir a alma no conhecimento e reconhecimento de si mesma, do Uno. Nos dizeres de Reis, (2007, p. 2; 12) a arte \u00e9 fruto, vest\u00edgio do processo de convers\u00e3o ao <i>no\u00fbs<\/i>, anaminese \u2013 caminho de ascese: \u201cForjar o belo na mat\u00e9ria \u00e9 buscar encontrar aquilo que amamos, que \u00e9 o mais pr\u00f3prio de nossa natureza, o intelig\u00edvel\u201d. Logo, o caminho de reconhecimento do que \u00e9 belo se d\u00e1 pelas faculdades da alma (sensa\u00e7\u00e3o, imagina\u00e7\u00e3o e mem\u00f3ria) ordenadas para o caminho da terapia, da interioridade, da vida, da beleza e da contempla\u00e7\u00e3o \u2013 <i>gn\u00f4thi seaut\u00f3n<\/i>:<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align:justify;\">\u00c9 necess\u00e1rio, pois, remontar-se novamente em dire\u00e7\u00e3o ao Bem, em dire\u00e7\u00e3o ao qual tende toda a alma. Se algu\u00e9m j\u00e1 os viu, sabe o que quero dizer, e em que sentido ele \u00e9 belo. Como bem \u00e9 desejado, e o desejo tende em dire\u00e7\u00e3o a ele; por\u00e9m s\u00f3 o alcan\u00e7am aqueles que sobem em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 regi\u00e3o superior, voltam-se para ele e se despojam das vestes de que se cobriram ao descer; \u00e0 maneira dos que sobem em dire\u00e7\u00e3o aos santu\u00e1rios dos templos, devem purificar-se, deixar suas vestes antigas e subir nus, at\u00e9 que, havendo abandonado nessa subida tudo aquilo que \u00e9 estranho a Deus, veem-se a si, s\u00f3s em sua solid\u00e3o, sua simplicidade e sua pureza. Para ele, que \u00e9 o ser do qual tudo depende, em dire\u00e7\u00e3o ao qual tudo olha, por ele que \u00e9 o ser, a vida e o pensamento; porque ele \u00e9 causa da vida, da intelig\u00eancia e do ser. (EN, I, 6, 7, p. 55).<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align:justify;\">Para este caminho de interioridade, subida, retorno e amor ao Uno s\u00e3o indispens\u00e1veis como condi\u00e7\u00e3o de possibilidade \u00e0 pr\u00e1tica da virtude, da vida \u00e9tica (5). Deste modo, aqueles ao contr\u00e1rio que se enveredam nos prazeres corporais tornam a alma feia, intemperante e corrompida, enquanto os que se colocam defronte aos atos e h\u00e1bitos virtuosos tornam-na mais semelhante e apta ao Uno. Destarte: \u201cO aperfei\u00e7oamento moral resulta em est\u00e9tica ou beleza interior, para contemplar a beleza divina, pois \u2018n\u00e3o pode ver a alma o belo, se n\u00e3o se converter em bela\u201d. (ULLMANN, 2008, p. 151).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Esta porta que d\u00e1 acesso ao Uno, Belo Intelig\u00edvel \u00e9 o que denominamos de ideal \u00e9tico-asc\u00e9tico (6) \u201cexplicitado e proposto\u201d pela est\u00e9tica plotiniana.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">\n<p style=\"text-align:justify;\"><b>2. O ref\u00fagio na interioridade: a ascese plotiniana<\/b><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Tendo como meios de condu\u00e7\u00e3o ao Uno o intelecto e a vontade (<i>epistroph\u00ea<\/i>), o ideal \u00e9tico-asc\u00e9tico encontrado nas <i>En\u00e9adas<\/i>, constitui uma experi\u00eancia de introvers\u00e3o e convers\u00e3o, e por isso, assemelhamento ao Belo intelig\u00edvel, ao Uno. Assim sendo, \u00e9 imposs\u00edvel a alma que conhece o Belo, o Bem n\u00e3o ser capaz de am\u00e1-lo e pratic\u00e1-lo.<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align:justify;\">Por isso se diz com raz\u00e3o que o bem e a beleza da alma consistem em se fazerem semelhantes a Deus, porque de Deus vem o belo e tudo o que constitui o dom\u00ednio da realidade. Por\u00e9m a beleza \u00e9 uma realidade verdadeira e a fealdade uma natureza diferente desta realidade. (EN, I, 6, 6, p. 54).<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align:justify;\">Destinada a retornar ao Uno, a alma se tornar\u00e1 mais bela s\u00f3 se for capaz de por esfor\u00e7o, ren\u00fancia, purifica\u00e7\u00e3o e transforma\u00e7\u00e3o de si mesma buscar fugir da beleza corporal que ao inv\u00e9s de ser uma reminisc\u00eancia ao Bem Intelig\u00edvel pode torna-se num feixe de fealdade e corrup\u00e7\u00e3o. Logo, enquanto caminho de autoconhecimento, ensimesmamento (<i>apha\u00edresis<\/i>), deve a alma n\u00e3o temer a morte, ou seja, a separa\u00e7\u00e3o da alma e do corpo, mas, empenhar-se a praticar a virtude (7), como a magnanimidade e a <i>phr\u00f3nesis<\/i>:<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align:justify;\">A magnanimidade \u00e9 o desprezo das coisas daqui embaixo. A prud\u00eancia \u00e9 o pensamento que se separa das coisas daqui embaixo, conduzindo a alma para cima. A alma purificada vem a tornar-se como uma forma, uma raz\u00e3o; torna-se toda incorp\u00f3rea e intelectiva, e pertence inteira ao divino, onde est\u00e1 a fonte da beleza, e de onde v\u00eam todas as coisas do mesmo g\u00eanero (da alma). (EN, I, 6, 6, p. 54).<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align:justify;\">\u00a0Ainda que n\u00e3o constitua de modo imediato um caminho idealizado e conquistado por todos, Plotino em sua obra <i>Sobre a Dial\u00e9tica <\/i>prop\u00f5e como modelos alternativos de convers\u00e3o ao Uno o do m\u00fasico, o do amante e do fil\u00f3sofo. Neste caso, adversos ao fil\u00f3sofo que admira, contempla e busca bens mais elevados em rela\u00e7\u00e3o ao mundo sens\u00edvel, tanto o m\u00fasico quanto o amante, ex\u00edmios \u201cdoutores\u201d do belo sens\u00edvel, devem ser educados num processo superior de aprendizagem do Belo Intelig\u00edvel. De tal modo:<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align:justify;\">O amante e o m\u00fasico devem ser educados a verem beleza tamb\u00e9m nos objetos que n\u00e3o os sens\u00edveis, e devem perceber ali sua maior intensidade. D\u00e1-se, ent\u00e3o, um primeiro passo na subida \u00e9tica por Plotino: o encantamento com a beleza do mundo sens\u00edvel e a correspondente sa\u00edda para outro n\u00edvel. (REIS, 2007, p. 6).<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align:justify;\">Conquanto, tal sa\u00edda do encantamento para a unidade que caracteriza o n\u00edvel da vis\u00e3o e da contempla\u00e7\u00e3o do Belo, s\u00f3 se dar\u00e1 pela escolha, h\u00e1bito da alma de se viver segundo o ideal \u00e9tico-asc\u00e9tico:<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align:justify;\">Porque se se veem as belezas corporais n\u00e3o se tem de correr at\u00e9 elas, e sim saber que elas s\u00e3o imagens, vest\u00edgios e sombras. \u00c9 necess\u00e1rio fugir em dire\u00e7\u00e3o a essa beleza da qual elas s\u00e3o imagens. Se se corre em dire\u00e7\u00e3o a elas para alcan\u00e7\u00e1-las como se fossem reais, faz-se como o homem que quis captar sua bela imagem refletida sobre as \u00e1guas: tendo-se afogado na profunda corrente, desapareceu [&#8230;]. Porque \u00e9 necess\u00e1rio que o olho se fa\u00e7a semelhante e parecido com o objeto visto, para poder contempl\u00e1-lo. Jamais veria um olho o Sol, sem haver-se tornado semelhante ao Sol; nenhuma alma veria o belo sem ser bela. Que tudo se fa\u00e7a, pois, primeiro divino e belo, se se quer contemplar a Deus e ao belo. (EN, I, 6, 9, p. 57).<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align:justify;\">\n<p style=\"text-align:justify;\"><b>3. O retorno ao Uno: a uni\u00e3o m\u00edstica\u00a0<\/b><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\"><i>Conditio sine qua non<\/i> de se garantir a <i>eudaimonia,<\/i> a contempla\u00e7\u00e3o verdadeira e perfeita do Belo, o ideal \u00e9tico-asc\u00e9tico enquanto exerc\u00edcio de purifica\u00e7\u00e3o da alma na pr\u00e1tica das virtudes explicitado pela est\u00e9tica plotiniana nos conduz n\u00e3o s\u00f3 simplesmente a uma viagem de retorno ao Uno, mas a uma uni\u00e3o m\u00edstica (8) (<i>h\u00e9n\u00f4sis<\/i>) com ele. Logo, constitui-se como experi\u00eancia intelectual, afetiva, amorosa de \u00eaxtase, de autotranscend\u00eancia:<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align:justify;\">Desse modo, o homem torna-se verdadeiramente homem, na sua espessura, n\u00e3o apenas ontol\u00f3gica, mas tamb\u00e9m moral e social, \u00e0 medida que aprende a pensar o Uno e a reportar-se a ele, de modo sempre mais intenso e construtivo, em todos os n\u00edveis. (ULLMANN, 2008, p. 156).<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align:justify;\">Neste caso, tal uni\u00e3o m\u00edstica pode ser caracterizada como o movimento dial\u00e9tico de convers\u00e3o a si (autoconhecimento) e de interioridade descritos pela passagem do <i>externo ao interno (ab exterioribus ad interiora)<\/i> e <i>do interno ao superior (ab interioribus ad superiora)<\/i>. Conquanto, \u201cpreviamente\u201d seja um projeto aberto a todos, poucos s\u00e3o os que conseguem atingir ao n\u00edvel superior, ou seja, \u00e0 sua pr\u00f3pria interioridade como \u00e9 o caso do m\u00fasico, do fil\u00f3sofo e o amante, e por isto a unifica\u00e7\u00e3o com o Uno. Independente disto, tal ideal \u00e9tico-asc\u00e9tico descortina-se como <i>horizonte e sentido de vida<\/i> para o homem.<\/p>\n<blockquote><p>Pelas virtudes, o homem conquista a liberdade interior, a qual o resguarda das inclina\u00e7\u00f5es, desejos e paix\u00f5es que buscam a satisfa\u00e7\u00e3o corporal. Subjuga-se, assim, o mal pela <i>aret\u00ea<\/i>, a fim de praticar um permanente exerc\u00edcio da presen\u00e7a de Deus. A virtude plotiniana tem por fito a uni\u00e3o com o divino. (ULLMANN, 2008, p. 143).<\/p><\/blockquote>\n<p style=\"text-align:justify;\">J\u00e1 no caso da rela\u00e7\u00e3o entre arte e artista, Plotino afirma que o verdadeiro artista n\u00e3o \u00e9 aquele que esculpe exteriormente exuberantes est\u00e1tuas \u2013 obras de arte \u2013, mas aquele que, esculpindo-se a si mesmo, e vivendo de modo art\u00edstico segundo a virtude, faz da pr\u00f3pria arte de viver uma verdadeira obra de arte, sendo capaz de existir pela e n\u00e3o da arte \u2013 <i>beleza interior<\/i>:<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align:justify;\">Volta-te a ti mesmo e olha se tu n\u00e3o v\u00eas todavia a beleza em ti; faze como o escultor de uma est\u00e1tua, que deve ser bela; toma uma parte, esculpe-a, pole-a e vai ensaiando at\u00e9 que tires linhas belas do m\u00e1rmore. Como aquele, tira o sup\u00e9rfluo, endireita o que \u00e9 obl\u00edquo, limpa o que est\u00e1 obscuro para torn\u00e1-lo brilhante, e n\u00e3o cesses de esculpir tua pr\u00f3pria est\u00e1tua, at\u00e9 que o resplendor divino da virtude se manifeste, at\u00e9 que vejas a temperan\u00e7a sentada sobre um trono sagrado. (EN, I, 6, 9, p. 57).<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align:justify;\">Em outra passagem, (Reis, 2007, p. 10), reafirma tal proposi\u00e7\u00e3o quando aponta a arte enquanto estrada para a beleza interior: \u201cA grande obra art\u00edstica de todos aqueles que buscam a realiza\u00e7\u00e3o do belo \u00e9 a pr\u00f3pria vida virtuosa, vida identificada com o mais sublime <i>n\u00f4us<\/i>\u201d. Destarte, encontrada mais intensamente no artista do que em sua obra concreta, a beleza, estampada exteriormente em suas obras \u00e9 no \u00e2mbito do autor <i>imagem<\/i> que re-vela seu percurso interior de: recolhimento, reconhecimento, convers\u00e3o e uni\u00e3o m\u00edstica com o Belo.<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align:justify;\">A tarefa rumo ao Belo \u00e9 sempre sobre aquele mesmo que o procura, e o aprendiz do Belo torna-se o pr\u00f3prio objeto a ser vasculhado, escrutinado. Tal \u00e9 a obra do homem virtuoso que aceita a necessidade de uma experi\u00eancia pessoal com o belo para a sua correta compreens\u00e3o, e por isso busca o mergulho na beleza intelig\u00edvel do <i>no\u00fbs. <\/i>(REIS, 2007, p. 9).<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align:justify;\">Em suma, ap\u00f3s termos percorrido tal trajet\u00f3ria a partir da reflex\u00e3o est\u00e9tica plotiniana, podemos concluir que esta \u00e9 fruto intr\u00ednseco da experi\u00eancia no\u00e9tico-\u00e9tica e por isto metaf\u00edsica do Belo. Deste modo, \u00e9tica e est\u00e9tica situam-se homogeneamente atreladas no que se denomina de experi\u00eancia de autotransc\u00eandencia \u2013 uni\u00e3o m\u00edstica com o Uno. Por conseguinte, a vida \u00e9tica segundo a virtude, apresenta-se como condi\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria e indispens\u00e1vel de purifica\u00e7\u00e3o e retorno da alma ao Uno. Parafraseando (Reis, 2007, p. 6): \u201cDe acordo com a mais \u00edntima conex\u00e3o entre \u00e9tica e est\u00e9tica, a possibilidade de compreens\u00e3o da Beleza est\u00e1 no exerc\u00edcio [<i>\u00e1skesis<\/i>] de transforma\u00e7\u00e3o pessoal rumo aos n\u00edveis superiores da realidade\u201d. Por tudo isto, viver segundo o ideal \u00e9tico-asc\u00e9tico \u00e9 viver como art\u00edfice de si mesmo, \u00e9 viver unificado, abandonado e assemelhado ao Belo.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">\n<p style=\"text-align:justify;\"><strong>\u00a0NOTAS:<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">1. \u00a0A reflex\u00e3o est\u00e9tica sobre o belo emergiu ao longo do pensamento filos\u00f3fico em diversas nuan\u00e7as. Entretanto, como deve se saber, no per\u00edodo cl\u00e1ssico da filosofia, (e aqui se insere o autor em quest\u00e3o), n\u00e3o se t\u00eam uma sistematiza\u00e7\u00e3o clara e precisa sobre a arte, como surgiria posteriormente no pensamento moderno e contempor\u00e2neo em pensadores como: Baumgarten, Kant, Hegel, dentre outros. Neste sentido embora os termos <i>est\u00e9tica<\/i> e <i>\u00e9tica<\/i> n\u00e3o apare\u00e7am estritamente como s\u00e3o significados e compreendidos, mas de forma indireta e subentendida no pensamento e na obra de Plotino, desenvolveremos nossa proposta a partir de tal eixo apresentando as contribui\u00e7\u00f5es e conflu\u00eancias destes ramos do saber na especula\u00e7\u00e3o sobre o Belo que este autor nos apresenta.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">2.\u00a0Grande pensador do final da antiguidade, fundador da linhagem do neoplatonismo, nascido na cidade de Lyko (Lic\u00f3polis do Alto Egito, no delta do Nilo). Descobriu a filosofia tardiamente aos 28 anos de idade atrav\u00e9s de seu grande mestre e s\u00e1bio Am\u00f4nio Sacas. Ap\u00f3s emigrar-se numa expedi\u00e7\u00e3o para a P\u00e9rsia em 243, estabelece-se em Roma, onde abre uma escola filos\u00f3fica com v\u00e1rios disc\u00edpulos, dentre eles: Porf\u00edrio (seu maior disc\u00edpulo e editor de seus escritos), Am\u00e9lio e Eust\u00e1quio. Sua filosofia pode ser denominada de \u201cfilosofia da unidade\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">3.\u00a0Usaremos em refer\u00eancia a En\u00e9ada (I, 6): DUARTE, Rodrigo (Org.). Sobre o Belo. In: PLOTINO. <i>Belo aut\u00f4nomo:<\/i> textos cl\u00e1ssicos de est\u00e9tica. 2 ed. rev. e ampl. Belo Horizonte: Aut\u00eantica; Cris\u00e1lida, 2012. p. 47 a 58. (Cole\u00e7\u00e3o Fil\u00f4\/Est\u00e9tica; 3).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">4.\u00a0(EN, I, 6, 2, p. 50)<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">5.(EN, I, 6, 5, p. 53).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">6. Embora tenha sua g\u00eanese na filosofia de Plat\u00e3o, tal proposta plotiniana de fuga das apar\u00eancias e retorno \u00e0 p\u00e1tria, \u201c<i>fuga do mundo, fuga do corpo<\/i>\u201d, n\u00e3o pode ser interpretada como um dualismo estritamente aos moldes plat\u00f4nicos, muito menos uma teoria solipicista e narcisista, pois a alma, assim como o mundo, a mat\u00e9ria constituem hip\u00f3stases \u2013 subst\u00e2ncias \u2013 subsequentes do Uno. Entretanto, n\u00e3o \u00e9 nosso objetivo aqui adentrar especificamente neste movimento de process\u00e3o ou emana\u00e7\u00e3o do Uno \u00e0 multiplicidade.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">7. Plotino distingue dois tipos de virtudes: as c\u00edvicas e as cat\u00e1rticas. \u201cAs primeiras \u2013 justi\u00e7a, prud\u00eancia, fortaleza e temperan\u00e7a \u2013 n\u00e3o representam um ponto de chegada, mas um ponto de partida, porque tra\u00e7am os limites aos desejos e moderam as paix\u00f5es. Elas s\u00e3o apenas condi\u00e7\u00e3o, para assemelhar-se a Deus. J\u00e1 as virtudes cat\u00e1rticas miram mais alto, porquanto liberam o homem das coisas sens\u00edveis [&#8230;] Assim, nesse n\u00edvel superior da virtude, a sabedoria contacta com o Esp\u00edrito; a justi\u00e7a \u00e9 o volver-se da alma ao Esp\u00edrito; a temperan\u00e7a \u00e9 a ades\u00e3o \u00edntima da alma ao Esp\u00edrito; a fortaleza \u00e9 a perseveran\u00e7a impass\u00edvel da alma no Esp\u00edrito, sem paix\u00e3o alguma no corpo\u201d. (ULLMANN, 2008, p. 167-168).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">8.\u00a0Tamb\u00e9m descrita como <i>h\u00e9n\u00f4sis<\/i>, \u00e0 m\u00edstica plotiniana: \u201c[&#8230;] tem como pressuposto profunda medita\u00e7\u00e3o e reflex\u00e3o. Por conseguinte, a reflex\u00e3o, a interioriza\u00e7\u00e3o em si pr\u00f3prio, a consci\u00eancia do que o homem \u00e9, constituem pre\u00e2mbulos da uni\u00e3o com o divino. Requerem-se, a par disso, a retid\u00e3o moral e o desprendimento das coisas terrenas, o que corresponde \u00e0 via purgativa. Imposs\u00edvel \u00e9, portanto, confundir a m\u00edstica de Plotino com transe xam\u00e2nico, histeria ou sonho de vision\u00e1rio, nem com acontecimento fortuito ou casual\u201d. (ULLMANN, 2008, p. 148).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">\n<p style=\"text-align:justify;\"><b>Refer\u00eancias<\/b><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">DUARTE, Rodrigo (Org.). Sobre o Belo. In: PLOTINO. <i>Belo aut\u00f4nomo<\/i>: textos cl\u00e1ssicos de est\u00e9tica. 2 ed. rev. e ampl. Belo Horizonte: Aut\u00eantica; Cris\u00e1lida, 2012. p. 47 a 58. (Cole\u00e7\u00e3o Fil\u00f4\/Est\u00e9tica; 3).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">PLOTINO. <i>Tratados das En\u00e9adas<\/i>. Tradu\u00e7\u00e3o, apresenta\u00e7\u00e3o, introdu\u00e7\u00e3o e notas de Am\u00e9rico Sommerman. S\u00e3o Paulo: Polar Editorial. 2000.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">REIS, Marcus. O aprendiz do Belo: a arte-\u00e9tica em Plotino. <i>Viso<\/i>. Cadernos de est\u00e9tica aplicada, [S.l], n. 3, p. 1-14, set.\/dez. 2007. Dispon\u00edvel em: &lt;http:\/\/www.revistaviso.com.br\/visArtigo.asp?sArti=17&gt;. Acessado em: 22. Nov. 2013.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">ULLMANN, Reinholdo Aloysio. <i>Plotino<\/i>: Um estudo das En\u00e9adas. 2. ed. Porto Alegre: Edipucrs. 2008. (Cole\u00e7\u00e3o Filosofia).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Daniel Junior dos Santos O que \u00e9 o belo? Qual \u00e9 o substrato, t\u00e9los da arte? Estas sem d\u00favida podem ser elencadas como uma das grandes perguntas que movimentaram e ainda movimentam o cen\u00e1rio art\u00edstico e filos\u00f3fico do pensamento acerca da est\u00e9tica (1). 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