{"id":2558,"date":"2014-04-07T18:24:30","date_gmt":"2014-04-07T21:24:30","guid":{"rendered":"http:\/\/pensamentoextemporaneo.wordpress.com\/?p=2558"},"modified":"2014-04-07T18:24:30","modified_gmt":"2014-04-07T21:24:30","slug":"da-beleza-sensivel-ao-belo-inteligivel-a-compreensao-de-beleza-e-feiura-em-plotino","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/?p=2558","title":{"rendered":"Da beleza sens\u00edvel ao Belo intelig\u00edvel: a compreens\u00e3o de beleza e feiura em Plotino"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align:justify;\"><strong>Allan J\u00fanio Ferreira<\/strong><\/p>\n<p style=\"padding-left:270px;text-align:left;\">\n<blockquote>\n<p style=\"text-align:justify;\">\u201cEis o que experimentamos quando entramos em contato com a beleza: o maravilhamento, um s\u00fabito deleite, o desejo, o amor e uma alegre excita\u00e7\u00e3o.\u201d Plotino<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align:justify;\">\u201cAs mentes que se elevam para al\u00e9m do reino dos sentidos encontram uma beleza na conduta de vida: em atos, car\u00e1teres, bem como a encontram nas ci\u00eancias e nas virtudes. H\u00e1 uma beleza anterior a essa?\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Com esse questionamento Plotino inicia seu tratado <i>sobre o Belo<\/i>, 1\u00aa En\u00e9ada na ordem cronol\u00f3gica. Existe uma beleza anterior \u00e0s belezas que vemos gra\u00e7as aos nossos sentidos? Essa pergunta vai perpassar todo tratado e ser\u00e1 nosso objetivo demonstrar como Plotino responde a essa interroga\u00e7\u00e3o. Nesse artigo nos valeremos da en\u00e9ada <i>Sobre o Belo<\/i> explanando as caracter\u00edsticas da beleza sens\u00edvel e as caracter\u00edsticas da feiura que \u00e9 outro tema que Plotino inaugura nessa obra.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">A maioria das en\u00e9adas de Plotino tem uma linguagem m\u00edstica e espiritual, n\u00e3o seria diferente nesta. Plotino exprime toda uma linguagem po\u00e9tica, espiritual e m\u00edstica para falar do Belo. Como os artistas que contemplam o resultado de uma obra de arte, assim Plotino contempla o Belo, a beleza superior da qual todas as outras prov\u00e9m.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\"><b>1 A beleza que encanta os nossos olhos<\/b><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Ao falarmos de beleza ou simplesmente do belo, sempre nos remetemos \u00e0quelas belezas que vemos, as belezas do mundo sens\u00edvel. Contemplando uma \u00f3pera ou um bel\u00edssimo quadro onde se faz presente a harmonia e tonalidade das cores certamente nosso olhar se comover\u00e1 com tamanha beleza. Plotino inicia a en\u00e9ada sobre o belo explanando justamente sobre este tipo de beleza, ao belo que se dirige \u00e0 nossa vis\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"padding-left:120px;text-align:justify;\">O Belo dirige-se principalmente \u00e0 vis\u00e3o; mas tamb\u00e9m h\u00e1 uma beleza para a audi\u00e7\u00e3o, como em certas combina\u00e7\u00f5es de palavras e na m\u00fasica de toda esp\u00e9cie, pois a melodia e os ritmos s\u00e3o belos [&#8230;] o que atrai o olhar do espectador para os objetos belos e faz com que se alegre com a sua contempla\u00e7\u00e3o? (PLOTINO, 2007. p. 19)<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Para chegarmos ao Belo absoluto, princ\u00edpio de toda beleza, se faz necess\u00e1rio que compreendamos as outras belezas. Por que o espectador se encanta ao assistir uma pe\u00e7a teatral? O que o leva a aplaudir de p\u00e9 e se alegrar com a beleza do espet\u00e1culo? Essas perguntas precisam ser respondidas para avan\u00e7armos rumo ao belo intelig\u00edvel.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">A beleza sens\u00edvel ao nosso olhar e \u00e0 audi\u00e7\u00e3o \u00e9 bela porque as partes s\u00e3o belas. A escultura de um artista \u00e9 bela, pois nela h\u00e1 simetria entre as formas, as cores s\u00e3o harmoniosas e todas as partes est\u00e3o em seu devido lugar, o mesmo se diz de uma bela \u00f3pera, as notas est\u00e3o em harmonia, os instrumentos tocam sincronizados e o maestro rege com leveza e cuidado, por isso o conjunto se torna belo.<\/p>\n<p style=\"padding-left:120px;text-align:justify;\">Toda e qualquer beleza deste mundo adv\u00e9m da comunh\u00e3o com uma Forma ideal. Todas as coisas privadas de Forma e destinadas a receber uma forma ou uma ideia permanecem feias e estranhas ao pensamento divino enquanto n\u00e3o comungarem com um pensamento e uma Ideia. A fei\u00fara absoluta consiste nisso. Tudo o que n\u00e3o \u00e9 dominado por uma Ideia e por um pensamento (logos) \u00e9 algo feio (PLOTINO, 2007.p. 22).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Plotino conclui que \u201ca beleza das coisas naturais prov\u00e9m de sua comunh\u00e3o com um pensamento [raz\u00e3o, logos] que prov\u00e9m dos deuses.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">2. A compreens\u00e3o de\u00a0 feiura<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Outro aspecto consider\u00e1vel na compreens\u00e3o da Beleza \u00e9 o seu ant\u00f4nimo a fei\u00fara. Esta est\u00e1 ligada profundamente com a alma e contr\u00e1ria a tudo que dissemos at\u00e9 ent\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">A fei\u00fara para Plotino \u00e9 a desordem, injusti\u00e7a, desejos incontrolados, perversid\u00e3o etc. A alma que cont\u00e9m esses adjetivos deixa de contemplar a beleza e se afunda no caos<\/p>\n<p style=\"padding-left:120px;text-align:justify;\">Imaginemos uma Alma feia, dissoluta e injusta, cheia de todas as concupisc\u00eancias e desequil\u00edbrios interiores, que por ser covarde est\u00e1 sempre com medo e por ser mesquinha est\u00e1 sempre com inveja. Uma alma que s\u00f3 pensa nas coisas perec\u00edveis e baixas, \u00e9 sempre perversa, deleita-se com os prazeres impuros, vive a vida das paix\u00f5es corporais e tem prazer com a sua pr\u00f3pria fei\u00fara. S\u00f3 podemos dizer que essa fei\u00fara veio at\u00e9 ela como um mal adquirido [&#8230;] (PLOTINO, 2007.p. 27).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">A alma n\u00e3o nasceu feia. Todos os males vieram posteriormente o que resultou na perca da pureza e se tornou \u201cuma vida mesclada de morte\u201d. A alma marcada pela fei\u00fara perde a capacidade de ver o que devia ver, contemplar o belo. Ela acolheu para si mesma outra forma que n\u00e3o era sua, uma mat\u00e9ria que n\u00e3o lhe pertencia e, por isso, para tornar a ser bela, ter\u00e1 que passar por um processo de \u201climpeza\u201d para retirar todas as impurezas que ela mesma adquiriu. Plotino ainda compara a fei\u00fara como o \u201cprimeiro mal\u201d e a beleza \u00e9 verdadeira realidade.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\"><b>3 O Belo intelig\u00edvel<\/b><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Depois de analisarmos a compreens\u00e3o de Plotino a respeito das belezas sens\u00edveis e sobre a fei\u00fara, resta-nos explanar um pouco sobre a beleza primeira, a beleza das belezas.\u00a0 Para se alcan\u00e7ar o Belo intelig\u00edvel \u00e9 preciso todo um processo de convers\u00e3o, desapegarmos de tudo o que \u00e9 sens\u00edvel e nos voltarmo-nos paras as coisas interiores. A alma deve passar por um processo de purifica\u00e7\u00e3o para voltar a contemplar o Belo, se admirar com a sua beleza e voltar a ser pura.<\/p>\n<p style=\"padding-left:120px;text-align:justify;\">Mas o que temos de fazer para chegar a isso? Qual \u00e9 o caminho para alcan\u00e7a-lo? Como poderemos ver essa Beleza imensa que permanece, por assim dizer, no interior do santu\u00e1rio e n\u00e3o se dirige para fora para ser vista pelo profano? Que aquele que pode faz\u00ea-lo siga-a at\u00e9 a sua interioridade, abandonando a vis\u00e3o dos olhos, e n\u00e3o se volte para o esplendor dos corpos que admirava antes. (PLOTINO, 2007.p. 32)<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">\n<p style=\"text-align:justify;\">As belezas corporais s\u00e3o apenas imagens do Belo e n\u00e3o devemos nos apegar a estas, mas antes voltarmo-nos para o nosso interior para ascendermos at\u00e9 a morada do Belo. Para isso \u00e9 preciso um processo de convers\u00e3o. Devemos abandonar totalmente a nossa vis\u00e3o das coisas sens\u00edveis e treinar o nosso olhar para o que est\u00e1 al\u00e9m delas. Pela fei\u00fara deca\u00edmos, ficamos cegos e nos esquecemos de contemplar a verdadeira beleza que est\u00e1 no alto, nos diz Plotino \u201cNossa p\u00e1tria \u00e9 o lugar de onde viemos e nosso Pai est\u00e1 l\u00e1\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Todos n\u00f3s possu\u00edmos certo olho interior que \u00e9 capaz de olhar para esse grande esplendor, mas poucos o usam. \u00c9 preciso que a alma habitue-se a contemplar as belas obras e ocupa\u00e7\u00f5es, depois contemplar as almas daqueles que praticam as belas a\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p style=\"padding-left:120px;text-align:justify;\">Em Sobre o belo Plotino ocupa-se da beleza vis\u00edvel, talvez o mova a preocupa\u00e7\u00e3o em mostrar que convers\u00e3o \u00e9 uma mudan\u00e7a no modo de ver as coisas, que converter-se \u00e9 n\u00e3o s\u00f3 ficar vendo a propor\u00e7\u00e3o ou o colorido, mas, para al\u00e9m disso, a beleza que transparece na beleza sens\u00edvel. Plotino parece estar mostrando atrav\u00e9s daquilo cuja materialidade n\u00e3o nos escapa e no vis\u00edvel, onde a forma s\u00f3 aparece atrav\u00e9s da rela\u00e7\u00e3o com a mat\u00e9ria, talvez mais do que em qualquer outro sens\u00edvel, que \u00e9 poss\u00edvel ver para al\u00e9m da materialidade dos corpos. E que tal vis\u00e3o da beleza \u00e9 convers\u00e3o, \u00e9 purifica\u00e7\u00e3o ( OLIVEIRA, 2005.p. 272).<\/p>\n<p style=\"padding-left:120px;text-align:justify;\">\n<p style=\"text-align:justify;\">O Belo plotiniano \u00e9 t\u00e3o superior que \u00e9 necess\u00e1rio desapegarmos de tudo o que for relacionado \u00e0 materialidade e focarmos na espiritualidade e interioridade. O Belo aqui pode ser confundido com o Bem, mas Plotino deixa claro que o Belo n\u00e3o \u00e9 o Bem, mas aquele reside no mundo intelig\u00edvel.<\/p>\n<p style=\"padding-left:120px;text-align:justify;\">Portanto, que todo aquele que queira contemplar a Deus e ao Belo se torne antes divino e belo. Tornando a subir, chegar\u00e1 primeiro \u00e0 Intelig\u00eancia; ver\u00e1 que as Id\u00e9ias s\u00e3o belas e reconhecer\u00e1 que essa \u00e9 a Beleza: que as ideias s\u00e3o belas, pois elas prov\u00eam da Intelig\u00eancia e do Ser. Para al\u00e9m da beleza est\u00e1 o que chamamos de \u201cnatureza do Bem\u201d que irradia de si a Beleza (PLOTINO, 2007.p. 34).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">\n<p style=\"text-align:justify;\"><b>4 Considera\u00e7\u00f5es Finais<\/b><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">O pensamento de Plotino acerca do Belo \u00e9 fascinante. Sua obra tem tra\u00e7os de uma espiritualidade intensa, o que nos leva a afirmar que se deve a essa espiritualidade que ele alcan\u00e7ou por algumas vezes o \u00eaxtase, como ele mesmo diz \u201cainda estando aqui na Terra, ter\u00e1s acendido\u201d. Plotino pai do neo platonismo \u00e9 um autor que muito contribuiu para a propaga\u00e7\u00e3o dos pensamentos Plat\u00f4nicos e para o Cristianismo, que s\u00e9culos depois iria utilizar os seus escritos a fim de cristianiz\u00e1-los. A en\u00e9ada <i>Sobre o Belo <\/i>pela ordem cronol\u00f3gica \u00e9 a primeira de muitas que viriam, mas percebe-se a grande capacidade do, at\u00e9 ent\u00e3o jovem autor, para escrever e encantar os seus leitores.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\"><b>5 Refer\u00eancias<\/b><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">OLIVEIRA, Loraine. O BELO EM PLOTINO: DO M\u00daLTIPLO AO UNO. <i>S\u00edntese revista de Filosofia, <\/i>Belo Horizonte, v. 32, n. 103, 2005. Dispon\u00edvel em: &lt;<a href=\"http:\/\/www.faje.edu.br\/periodicos\/index.php\/Sintese\/article\/viewArticle\/336\">http:\/\/www.faje.edu.br\/periodicos\/index.php\/Sintese\/article\/viewArticle\/336<\/a>&gt; Acesso em: 02 Jun. 2013.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">PLOTINO. Tratados das En\u00e9adas. Trad. Am\u00e9rico Sommerman. S\u00e3o Paulo: Polar Editorial, 2007.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Allan J\u00fanio Ferreira \u201cEis o que experimentamos quando entramos em contato com a beleza: o maravilhamento, um s\u00fabito deleite, o desejo, o amor e uma alegre excita\u00e7\u00e3o.\u201d Plotino \u201cAs mentes que se elevam para al\u00e9m do reino dos sentidos encontram uma beleza na conduta de vida: em atos, car\u00e1teres, bem como a encontram nas ci\u00eancias &hellip; <\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_mi_skip_tracking":false,"footnotes":""},"categories":[169,121],"tags":[431],"class_list":{"0":"entry","1":"post","2":"publish","3":"author-admin","4":"post-2558","6":"format-standard","7":"category-alan-junio-ferreira","8":"category-plotino","9":"post_tag-plotino-belo-feiura-sensivel-inteligivel"},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2558","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=2558"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2558\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=2558"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=2558"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=2558"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}