{"id":2601,"date":"2014-08-02T18:30:35","date_gmt":"2014-08-02T21:30:35","guid":{"rendered":"http:\/\/pensamentoextemporaneo.wordpress.com\/?p=2601"},"modified":"2014-08-02T18:30:35","modified_gmt":"2014-08-02T21:30:35","slug":"reflexao-acerca-do-ensino-a-luz-do-martelo-de-nietzsche","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/?p=2601","title":{"rendered":"Reflex\u00e3o acerca do ensino \u00e0 luz do martelo de Nietzsche"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align:justify;\">Por\u00a0<b>J\u00fanior C\u00e9sar de Sousa*<\/b><\/p>\n<p style=\"text-align:right;\"><i>O grande pedagogo \u00e9 como a natureza: ele deve acumular obst\u00e1culos para que sejam ultrapassados. (F. Nietzsche, O euvres philophiques completes, XIX, 16[88]551)<\/i><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Um <i>insight <\/i>me surgiu durante a exposi\u00e7\u00e3o sobre <strong>Nietzsche<\/strong> e, arrisquei-me a escrev\u00ea-lo ainda que de forma breve e sem conhecimentos s\u00f3lidos acerca da filosofia deste fil\u00f3sofo. Mas mesmo assim, queria ousar e tentar. Falando de transvalora\u00e7\u00e3o dos valores, de resignifica\u00e7\u00f5es, redescobertas, de novas possibilidades frente aquilo que sempre aceitamos, da l\u00f3gica do \u201csempre foi assim\u201d, pensei que seria poss\u00edvel relacionar a situa\u00e7\u00e3o do ensino brasileiro (pelo menos dentro do cen\u00e1rio que eu trabalhei, ainda que de forma breve) com a proposta nietzschiana de romper com aquilo que j\u00e1 estava arraigado, pronto e determinado.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Sempre me questionava sobre a situa\u00e7\u00e3o que o ensino do nosso pa\u00eds vivia, ou seja, cada\u00a0 vez mais notava que o curr\u00edculo escolar estava pautado somente nos processos classificat\u00f3rios e eliminat\u00f3rios (vestibulares e concursos). Eu, graduando em Matem\u00e1tica, jovem e sonhador, queria propiciar um ensino em que os pr\u00f3prios alunos, principais benefici\u00e1rios do ensino, vissem as aplicabilidades te\u00f3ricas das disciplinas n\u00e3o somente nos processos classificat\u00f3rios.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">\u00c9 muito dif\u00edcil dar um tratamento mais concreto e significativo as teorias ensinadas, uma vez que o pr\u00f3prio estudante, na maioria das vezes quer \u00e9 apenas adquirir um conhecimento moment\u00e2neo (pseudo-conhecimento) para passar numa prova de vestibular ou concurso e pronto. Ele mesmo se fecha as possibilidades de aprendizagem escolar que lhes eram propostas para a aquisi\u00e7\u00e3o de um conhecimento mais significativo. Via claramente que aquele tipo de \u201cconhecimento adquirido&#8221; se dissolvia, prestando-se apenas para um dado instante no tempo.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Os professores por sua vez tinham que cumprir um cronograma estabelecido por seus superiores, afinal o mercado escolar tem como um de seus objetivos lucrar (no caso do ensino das redes privadas), n\u00e3o\u00a0exercendo\u00a0 propriamente\u00a0seu papel de ponte entre o estudante e o conhecimento. Infelizmente, as escolas acabam se tornando meros com\u00e9rcios onde os conte\u00fados s\u00e3o vistos apenas como uma sequ\u00eancia linear de informa\u00e7\u00f5es e pr\u00e9-requisitos associados \u00e0 cronogramas, em detrimento da qualidade do ensino em quest\u00e3o. Mas, de que vale apenas cumprir um cronograma pr\u00e9-estabelecido, sabendo que os alunos n\u00e3o adquiriram as compet\u00eancias m\u00ednimas necess\u00e1rias?<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Era (e \u00e9) fundamental neste \u00e2mbito &#8220;educacional&#8221; rever o processo de ensino aprendizagem, (embora uma perspectiva de mudan\u00e7a j\u00e1 se levanta, quando percebemos a tentativa de\u00a0reelaborar os m\u00e9todos avaliativos, privilegiando o racioc\u00ednio e n\u00e3o apenas a reten\u00e7\u00e3o de\u00a0 f\u00f3rmulas e procedimentos, ou seja,\u00a0 a mera repeti\u00e7\u00e3o e decoreba) Mas muito ainda precisa ser feito; afinal \u00e9 preciso \u201cmudar o pensamento\u201d de muitos professores educadores, diretores e aqueles que direta ou indiretamente est\u00e3o no meio educacional. \u00c9 necess\u00e1rio tamb\u00e9m capacitar melhor o meio docente, dando-lhes ferramentas para trabalhar, subsidiando meios para que a mudan\u00e7a ocorra, valorizando estes profissionais basilares da sociedade, com sal\u00e1rios dignos, planos de carreira. Em suma, dando aos educadores, a valora\u00e7\u00e3o que lhes s\u00e3o devidas. Fazia-se urgente uma maior motiva\u00e7\u00e3o tanto dos profissionais de educa\u00e7\u00e3o quanto de todo o corpo discente, que infelizmente vivem sobre a cultura do\u00a0utilitarismo e imediatismo e por conseguinte, da inconsist\u00eancia do saber, do querer apenas &#8220;passar&#8221; de ano, &#8221; passar&#8221; no vestibular e pronto!<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Talvez se o ensino fosse visto sob a \u00f3tica das redescobertas, possivelmente poder-se-ia ter um resultado mais eficaz; afinal o aluno poderia a partir de suas investiga\u00e7\u00f5es, \u201cre-descobrir\u201d um caminho para solu\u00e7\u00e3o de um problema, por exemplo; sem falar que esta seria uma forma de aprendizado na qual o aluno poderia trazer toda a sua carga de conhecimentos pr\u00e9vios, que nem sempre eram aproveitados em sala.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Com isso, quero dizer que o mundo do aluno seria valorizado, suas experi\u00eancias pr\u00e9vias sobre determinado assunto estariam em pauta. Nisso Nietzsche nos ilumina muito, ao dizer que <i>o conhecimento n\u00e3o \u00e9 explicar, mas interpretar<\/i>. Ou seja, o pr\u00f3prio aluno \u00e0 luz de sua cultura, seu universo traria para aula um jeito t\u00e3o correto de analisar a realidade quanto aqueles formais ensinados ou imposto pelo professor. Logo,o aluno seria instigado a investigar e, por conseguinte poderia com mais naturalidade, se apropriar do conhecimento adquirido por si mesmo, e, com efeito, estaria apto a usar este conhecimento quando necessitasse.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">No cotidiano, as crian\u00e7as e jovens lidam com o dinheiro, comprando objetos, brinquedos e roupas, outros ajudam seus pais no com\u00e9rcio, pesquisam pre\u00e7os e muito mais. Nestas pequenas situa\u00e7\u00f5es, a capacidade de trabalhar com o c\u00e1lculo mental vai se aperfei\u00e7oando pouco a pouco. Este conhecimento pr\u00e9vio e pr\u00e1tico nem sempre \u00e9 considerado em sala de aula como ferramenta de apoio que antecede o formalismo das mesmas opera\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Quando se desconsidera o que o aluno j\u00e1 traz consigo, ele fica condicionado a um n\u00e3o-vislumbramento de suas potencialidades de racioc\u00ednio e abstra\u00e7\u00e3o, como se uma viseira o direcionasse a um caminho pr\u00e9-determinado que o faz aceitar um modelo definido como \u00fanico, e acaba impedindo as descobertas feitas por si mesmo. Segundo Nietzsche isso seria o mesmo que <i>castrar o intelecto, <\/i>pois o conhecimento nunca \u00e9 neutro, ele sempre traz em suas motiva\u00e7\u00f5es elementos inconscientes, que fazem parte do universo cotidiano da pessoa.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Nietzsche n\u00e3o comunga muito do ensino tradicional (prim\u00e1rio, ginasial e universidade), mas prop\u00f5e uma educa\u00e7\u00e3o na qual se valorizaria mais a cultura (a cultura seria a base do ensino), o contato com os pais e os mais idosos e, posteriormente o ensino t\u00e9cnico como apuramento profissional, e o superior enquanto uma cultura realmente superior (maturidade). Todavia, Nietzsche apontava para uma humanidade capaz de criar novos valores.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">A educa\u00e7\u00e3o que Nietzsche valoriza mais a cultura e a auto-forma\u00e7\u00e3o, capazes de refletir sobre aquilo que j\u00e1 est\u00e1 previamente determinado \u2013 costumes, leis, valores, etc \u2013 fazendo assim, um reinterpretar a realidade, um redescobrir de sentidos.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Para o fil\u00f3sofo do martelo, a educa\u00e7\u00e3o deveria propiciar aos alunos n\u00e3o somente um despertar das representa\u00e7\u00f5es na consci\u00eancia, mas na possibilidade dos alunos decifrarem tais representa\u00e7\u00f5es, compreendendo um ver e vislumbrar daquilo que nelas se oculta. Talvez um \u201cver para al\u00e9m de\u201d. Da\u00ed, segue-se necessariamente que o professor seja capaz de instigar, provocar, impulsionar novas possibilidades; mas primeiramente, ele (o professor) deve estar imbu\u00eddo desta perspic\u00e1cia, que segundo Nietzsche, se adquire de uma boa educa\u00e7\u00e3o, maturidade, ambienta\u00e7\u00e3o cultural. Com isso, Nietzsche sugere que o professor esteja formado conscientemente de sua pr\u00f3pria experi\u00eancia individual.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Creio que as tr\u00eas metamorfoses que Nietzsche prop\u00f5e na obra <i>Zaratrusta<\/i> vai ao encontro daquilo que aqui procurei refletir. Talvez a atitude mais coerente diante do processo de ensino-aprendizagem deva ser realmente a passagem pelas tr\u00eas metamorfoses, nas quais deve-se primeiramente se libertar do <i>esp\u00edrito do camelo<\/i>, que est\u00e1 impregnado por tudo aquilo que j\u00e1 \u00e9 fruto de uma tradi\u00e7\u00e3o consolidada, que aceita tudo sem questionar, afinal tudo j\u00e1 est\u00e1 dado, pronto e acabado. \u00c9 preciso evoluir e sofrer a metamorfose do le\u00e3o, que assume uma postura de n\u00e3o-aceita\u00e7\u00e3o frente aos pseudos-determinismos (<i>sempre-foi-assim; conven\u00e7\u00f5es)<\/i>. O <i>esp\u00edrito de le\u00e3o<\/i> \u00e9 questionador, corajoso, busca autonomia e, j\u00e1 n\u00e3o aceita as imposi\u00e7\u00f5es. Procura a liberdade de pensamento, mas ainda n\u00e3o consegue criar novos valores nem resignificar antigos paradigmas. Logo, ainda \u00e9 preciso sofrer mais uma metamorfose, e transforma-se no em crian\u00e7a, uma vez que o <i>esp\u00edrito de crian\u00e7a<\/i>, \u00e9 aventureiro, cria valores, n\u00e3o tem medo e, por isso mesmo, d\u00e1 o seu significado a realidade, descobre por si mesmo e desbrava o novo. Portanto, exige como nos alerta Nietzsche:supera\u00e7\u00e3o de si.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Vejo que necessitamos de um ensino que ajude os estudantes a amadurecer a capacidade cr\u00edtica, auxiliando-os em seu papel de agente transformador da realidade vigente, ou seja, que eles sejam cidad\u00e3os mais entrosados com seu ambiente. As mudan\u00e7as sem d\u00favida s\u00e3o dif\u00edceis e muitas n\u00e3o s\u00e3o bem aceitas, mas se ningu\u00e9m toma uma iniciativa em busca de melhorias educacionais, ficaremos condicionados a uma estagna\u00e7\u00e3o do ensino (que j\u00e1 vivemos), e o este ciclo vicioso vai se arrastando anos a fora, como se tudo estivesse normal e sob controle. Precisamos romper com a cegueira, enxergando que \u00e9 preciso mudar, e mudar urgente! \u00c9 esse <i>esp\u00edrito de crian\u00e7a<\/i> que devemos promover, instigar. O ensino precisa ser redescoberto, reconstru\u00eddo.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">* o autor \u00e9 formado em matem\u00e1tica e cursa filosofia na FAM<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\"><b><i>Fonte de consulta<\/i><\/b><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">NIETZSCHE, Friedrich. <i>Escritos sobre educa\u00e7\u00e3o. <\/i>Tradu\u00e7\u00e3o No\u00e9li Correia de Melo Sobrinho. Rio de Janeiro: PUC-RJ; S\u00e3o Paulo: Loyola, 2003.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Notas de aula de Antropologia I, 2013.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por\u00a0J\u00fanior C\u00e9sar de Sousa* O grande pedagogo \u00e9 como a natureza: ele deve acumular obst\u00e1culos para que sejam ultrapassados. (F. Nietzsche, O euvres philophiques completes, XIX, 16[88]551) Um insight me surgiu durante a exposi\u00e7\u00e3o sobre Nietzsche e, arrisquei-me a escrev\u00ea-lo ainda que de forma breve e sem conhecimentos s\u00f3lidos acerca da filosofia deste fil\u00f3sofo. 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