{"id":2612,"date":"2014-08-11T17:04:39","date_gmt":"2014-08-11T20:04:39","guid":{"rendered":"http:\/\/pensamentoextemporaneo.wordpress.com\/?p=2612"},"modified":"2014-08-11T17:04:39","modified_gmt":"2014-08-11T20:04:39","slug":"a-sensibilidade-e-o-entendimento-os-dois-troncos-da-teoria-do-conhecimento-de-kant","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/?p=2612","title":{"rendered":"A SENSIBILIDADE E O ENTENDIMENTO: OS DOIS TRONCOS DA TEORIA DO CONHECIMENTO DE KANT"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align:right;\">por\u00a0<b>Irineu Altair da Silva<\/b><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Emmanuel Kant, fil\u00f3sofo alem\u00e3o de grande import\u00e2ncia na filosofia moderna, ficou conhecido tamb\u00e9m como o fil\u00f3sofo das tr\u00eas cr\u00edticas, por destacar em suas principais obras \u2013 cr\u00edtica da raz\u00e3o pura, cr\u00edtica da raz\u00e3o pr\u00e1tica e cr\u00edtica da faculdade do ju\u00edzo \u2013 os limites da raz\u00e3o na produ\u00e7\u00e3o de conhecimento. Para isso ele formula uma concep\u00e7\u00e3o pr\u00f3pria de filosofia transcendental, a qual tem por base a teoria de conhecimento que se baseia na an\u00e1lise das condi\u00e7\u00f5es de possibilidade do conhecimento, isto \u00e9, a rela\u00e7\u00e3o que h\u00e1 entre o sujeito e o objeto na experi\u00eancia de conhecimento.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Segundo o autor, todo o conhecimento humano est\u00e1 alicer\u00e7ado em dois troncos: a sensibilidade e o entendimento. Pela primeira s\u00e3o-nos dados os objetos, e pela segunda esses objetos s\u00e3o pensados.\u00a0 Assim podemos dizer que o nosso conhecimento \u00e9 formado com a contribui\u00e7\u00e3o das intui\u00e7\u00f5es que s\u00e3o fornecidas pela nossa sensibilidade. Contudo, essas intui\u00e7\u00f5es precisam ser articuladas por esquemas a priori que s\u00e3o constitutivos da pr\u00f3pria racionalidade humana, da pr\u00f3pria condi\u00e7\u00e3o do conhecimento. Isto significa que o conhecimento \u00e9 adquirido, em parte pela experi\u00eancia da rala\u00e7\u00e3o entre o sujeito e o objeto, e em parte por algo que \u00e9 produzido pelo pr\u00f3prio sujeito. O conhecimento ent\u00e3o, para Kant, n\u00e3o \u00e9 reprodu\u00e7\u00e3o passiva de um objeto por meio do sujeito, mas constru\u00e7\u00e3o ativa do objeto por parte do sujeito.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">S\u00f3 a sensibilidade nos fornece intui\u00e7\u00f5es com as quais o entendimento trabalha. Assim, uma defini\u00e7\u00e3o mais prim\u00e1ria de conhecimento em Kant \u00e9 \u201cdar forma a uma mat\u00e9ria dada.\u201d Mas Kant vai mais al\u00e9m e introduz o conceito de intui\u00e7\u00e3o pura, ou seja, forma pura da sensibilidade. Essas intui\u00e7\u00f5es puras s\u00e3o o espa\u00e7o e o tempo. Resta-nos ent\u00e3o, entendermos o que significam esses conceitos.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Primeiramente \u00e9 importante esclarecer o que significa, no pensamento kantiano, intuir. Para o autor, a intui\u00e7\u00e3o \u00e9 a vis\u00e3o direta e imediata de um objeto de pensamento atualmente presente ao esp\u00edrito e apreendido em sua realidade individual. Nesse sentido, toda intui\u00e7\u00e3o \u00e9 sempre sens\u00edvel. Dessa forma, podemos dizer que conhecer \u00e9 primeiramente intuir.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">O espa\u00e7o \u00e9 uma condi\u00e7\u00e3o subjetiva da sensibilidade que permite a intui\u00e7\u00e3o externa e sua representa\u00e7\u00e3o \u00e9 uma condi\u00e7\u00e3o subjetiva. Ele abrange todas as coisas que nos possam aparecer exteriormente, mas n\u00e3o todas as coisas em si mesmas.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">O tempo \u00e9 a condi\u00e7\u00e3o de possibilidade de movimento, ele n\u00e3o \u00e9 um conceito discursivo, mas uma forma pura da intui\u00e7\u00e3o sens\u00edvel. Isto significa que o tempo n\u00e3o tem um objeto ao qual se deve atribu\u00ed-lo, sua representa\u00e7\u00e3o \u00e9 ilimitada. Ele \u00e9 ent\u00e3o, condi\u00e7\u00e3o para unifica\u00e7\u00e3o de todo o diverso, tanto dos fen\u00f4menos internos quanto dos fen\u00f4menos externos. Isso implica dizer que o tempo \u00e9 a condi\u00e7\u00e3o imediata dos fen\u00f4menos internos e condi\u00e7\u00e3o mediada dos fen\u00f4menos externos.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Estes conceitos s\u00e3o de vital import\u00e2ncia na teoria do conhecimento em Kant pois, para ele, de\u00a0 acordo com o que foi exposto at\u00e9 agora, nada fora do espa\u00e7o e do tempo pode ser conhecido. No espa\u00e7o e no tempo as coisas se apresentam pela forma como afetam nossos sentidos, por\u00e9m isso n\u00e3o significa que sejam apenas apar\u00eancias, s\u00e3o \u201calgo realmente dado\u201d. Mas, como o seu conhecer depende do modo de intui\u00e7\u00e3o do sujeito na rela\u00e7\u00e3o com o objeto, distingue-se o seu fen\u00f4meno daquilo que ele \u00e9 em si.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">A coisa em si est\u00e1 para al\u00e9m da experi\u00eancia poss\u00edvel. A estrutura da sensibilidade n\u00e3o permite ao sujeito chegar \u00e0 coisa em si, mas apenas ao fen\u00f4meno. Este sim \u00e9 produto de uma experi\u00eancia poss\u00edvel, ele \u00e9 o que aparece do objeto ao sujeito. Essa distin\u00e7\u00e3o ente a coisa em si (n\u00fameno) e o fen\u00f4meno n\u00e3o se d\u00e1 no objeto, mas sempre na rela\u00e7\u00e3o entre o sujeito e o objeto no processo do conhecimento.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Outros dois conceitos importantes na teoria do conhecimento em Kant s\u00e3o a mat\u00e9ria e a forma. Em linhas gerais, aquilo que depende da sensa\u00e7\u00e3o que pr\u00f3prio sujeito tem do objeto constitui a mat\u00e9ria do conhecimento. O que depende do sujeito constitui a forma do conhecimento. Por isso podemos afirmar: \u201cconhecer \u00e9 dar forma \u00e0 mat\u00e9ria dada.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Dessa forma podemos concluir que o pensamento de Kant introduz uma nova forma de vis\u00e3o na teoria do conhecimento deixando de lado o modelo cl\u00e1ssico, o qual se pautava numa adequa\u00e7\u00e3o do intelecto \u00e0 coisa, e mostrando a import\u00e2ncia do sujeito no processo do conhecimento. O conhecimento se d\u00e1 na rela\u00e7\u00e3o entre o sujeito e o objeto, em que o objeto \u00e9 a mat\u00e9ria que no contato com o sujeito ganha forma. O sujeito capta o fen\u00f4meno do objeto (uma vez que a coisa em si, o n\u00fameno, \u00e9 incognosc\u00edvel) pela sensibilidade e pelo entendimento atrav\u00e9s das formas puras de intui\u00e7\u00e3o: espa\u00e7o e tempo. Dessa forma o objeto formal do conhecimento \u00e9 o fen\u00f4meno, pois apenas ele \u00e9 o que podemos captar do objeto e n\u00e3o a coisa em si.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Assim a sensibilidade \u00e9 o elemento passivo no processo do conhecimento, j\u00e1 o entendimento \u00e9 o elemento ativo, pois nele se pode pensar o objeto da intui\u00e7\u00e3o sens\u00edvel. Contudo n\u00e3o h\u00e1 uma primazia de um sobre o outro, s\u00e3o eles de igual import\u00e2ncia nesse processo. Por isso Kant, (2011) afirma: \u201cPensamentos sem conte\u00fados s\u00e3o vazios; intui\u00e7\u00f5es sem conceitos s\u00e3o cegas.\u201d O conhecimento para Kant ent\u00e3o acontece na rela\u00e7\u00e3o entre o sujeito e o objeto passando pelas formas puras da sensibilidade: o espa\u00e7o e o tempo, bem como sua constitui\u00e7\u00e3o dada por mat\u00e9ria e forma.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\"><b>Refer\u00eancias:<\/b><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">KANT, Emmanuel. <i>Cr\u00edtica da raz\u00e3o pura. <\/i>Tradu\u00e7\u00e3o Manuela Pinto dos Santos; Alexandre Fradique. 5 ed. Lisboa: Funda\u00e7\u00e3o Calouste Gullbenkian, 2011.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">LEITE, Flamarion Tavares. <i>10 Li\u00e7\u00f5es sobre Kant. <\/i>Petr\u00f3polis: Vozes, 2011.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">MOMDIN, Battista. Curso de filosofia. Tradu\u00e7\u00e3o do italiano de Benoni Lemos. 11 ed, vol. 2. S\u00e3o Paulo:\u00a0 Paulus, 2009.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>por\u00a0Irineu Altair da Silva Emmanuel Kant, fil\u00f3sofo alem\u00e3o de grande import\u00e2ncia na filosofia moderna, ficou conhecido tamb\u00e9m como o fil\u00f3sofo das tr\u00eas cr\u00edticas, por destacar em suas principais obras \u2013 cr\u00edtica da raz\u00e3o pura, cr\u00edtica da raz\u00e3o pr\u00e1tica e cr\u00edtica da faculdade do ju\u00edzo \u2013 os limites da raz\u00e3o na produ\u00e7\u00e3o de conhecimento. 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