{"id":2619,"date":"2014-10-27T19:48:58","date_gmt":"2014-10-27T21:48:58","guid":{"rendered":"http:\/\/pensamentoextemporaneo.wordpress.com\/?p=2619"},"modified":"2014-10-27T19:48:58","modified_gmt":"2014-10-27T21:48:58","slug":"o-modus-operandi-do-totalitarismo-e-a-banalizacao-do-mal-em-hannah-arendt","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/?p=2619","title":{"rendered":"O MODUS OPERANDI DO TOTALITARISMO E A BANALIZA\u00c7\u00c3O DO MAL EM HANNAH ARENDT"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align:right;\">por Luiz Henrique De Moraes Silva*<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\"><b>Resumo: <\/b>O artigo que segue aborda o problema do nazismo e dos regimes totalit\u00e1rios que assassinaram milh\u00f5es de inocentes com a cumplicidade de homens como Adolf Eichmann, que relegou sua consci\u00eancia e sua capacidade de ju\u00edzo moral ao Estado nazista e assumiu, como dever de um trabalho banal, o encargo de enviar vag\u00f5es lotados de judeus para os campos de exterm\u00ednio. Antes de instaurar o terror genocida, contudo, os governos totalit\u00e1rios come\u00e7am a se impor pela for\u00e7a da ideologia e pela gradual supress\u00e3o da individualidade dos cidad\u00e3os, das liberdades civis e dos direitos humanos fundamentais. Refletindo sobre os cerceamentos e horrores do passado, somos instados a pensar mais seriamente sobre a liberdade, os direitos humanos, a moralidade, a democracia e a vigil\u00e2ncia necess\u00e1ria para que as sociedades livres se conservem como tais e para que a viol\u00eancia estatal n\u00e3o torne, nunca mais, a cair na banalidade.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\"><b>Introdu\u00e7\u00e3o<\/b><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">No livro <i>Eichmann em Jerusal\u00e9m<\/i>, que no Brasil ganhou o t\u00edtulo de <i>A Banalidade do Mal<\/i>, a fil\u00f3sofa Hannah Arendt explora o julgamento de Adolf Eichmann, tenente-coronel da SS, a pol\u00edcia pol\u00edtica do governo hitlerista. Iniciado em Jerusal\u00e9m, no dia 11 de abril de 1961, o julgamento deu ocasi\u00e3o a Arendt para refletir sobre a mentalidade de um homem que esteve a servi\u00e7o da viol\u00eancia incrivelmente atroz perpetrada no contexto do arianismo nazista. No regime do III Reich, Eichmann era o respons\u00e1vel por coordenar o transporte dos judeus em massa para os campos de concentra\u00e7\u00e3o e de exterm\u00ednio. Seu trabalho estava estreitamente ligado com a pol\u00edtica de genoc\u00eddio eufemisticamente chamada pelos nazistas de \u201cSolu\u00e7\u00e3o Final da Quest\u00e3o Judaica\u201d, que consistia na execu\u00e7\u00e3o do maior n\u00famero poss\u00edvel de homens e mulheres pertencentes \u00e0quela etnia.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Arendt fala com propriedade sobre o julgamento de Eichmann porque ela pr\u00f3pria esteve presente no tribunal para acompanhar aquele evento. Mesmo sendo ela uma judia e tendo, portanto, raz\u00f5es para se deixar envolver emocionalmente pelo caso, Hannah Arendt analisa a figura de Eichmann de forma muito objetiva e com um ponderado distanciamento. A autora n\u00e3o deixa de considerar os poss\u00edveis fatores atenuantes da culpabilidade de Eichmann e tampouco se dispensa do ingrato dever de denunciar a cumplicidade de certos judeus com o regime que exterminou tantos milh\u00f5es de seres humanos de sua pr\u00f3pria etnia. Tal den\u00fancia lhe valeu muitas cr\u00edticas e persegui\u00e7\u00f5es da parte da comunidade judaica internacional.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Nos par\u00e1grafos que seguem, discorreremos especialmente sobre as considera\u00e7\u00f5es que a fil\u00f3sofa tece no cap\u00edtulo VIII, intitulado <i>Deveres de um Cidad\u00e3o Respeitador das Leis<\/i>. Nele, a autora procura delinear os contornos psicol\u00f3gicos do acusado, a partir de suas pr\u00f3prias observa\u00e7\u00f5es. Trata-se de um cap\u00edtulo em que aparece, de forma muito criteriosa, as reflex\u00f5es da autora sobre os fatores que levaram ao obscurecimento da consci\u00eancia moral de Eichmann. Arendt constata, como veremos, uma aliena\u00e7\u00e3o moral causada pela submiss\u00e3o cega e incondicional ao sistema pol\u00edtico vigente, \u00e0 ideologia imperante e ao l\u00edder a quem os alem\u00e3es confiavam o seu futuro.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\"><b>De monstro insens\u00edvel a burocrata obediente<\/b><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Eichmann procurou defender-se das acusa\u00e7\u00f5es que o promotor lhe fazia apresentando-se como mero cumpridor das leis e das ordens que procediam de Adolf Hitler, chamado pelos nazistas de <i>F\u00fchrer<\/i>, que significa \u201cl\u00edder\u201d, \u201cguia\u201d ou \u201ccondutor\u201d. Esta atitude de servilismo amoral e acr\u00edtico, contudo, foi pelo pr\u00f3prio Eichmann criticada em determinados momentos do julgamento. Hannah Arendt afirma que o agente nazista ora ressaltava os v\u00edcios dessa postura, ora apontava as suas virtudes:<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\"><em>&#8230; tanto quanto podia ver, seus atos eram os de um cidad\u00e3o respeitador das leis. Ele cumpria o seu dever, como repetiu insistentemente \u00e0 pol\u00edcia e \u00e0 corte. Ele n\u00e3o s\u00f3 obedecia ordens, ele tamb\u00e9m obedecia \u00e0 lei. [&#8230;] Como al\u00e9m de cumprir aquilo que ele concebia como deveres de um cidad\u00e3o respeitador das leis, ele tamb\u00e9m agia sob ordens \u2013 sempre o cuidado de estar \u201ccoberto\u201d \u2013, ele acabou completamente confuso e terminou frisando alternativamente as virtudes e os v\u00edcios da obedi\u00eancia cega, ou a \u201cobedi\u00eancia cadav\u00e9rica\u201d, (kadavergehorsam), como ele pr\u00f3prio a chamou. (ARENDT, 1999, p. 152)<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Pelas declara\u00e7\u00f5es de Eichmann a respeito de seus atos passados como oficial nazista, Hannah Arendt intuiu que, conforme ia se acostumando ao seu trabalho criminoso, Eichmann tamb\u00e9m teria perdido a necessidade de sentir qualquer coisa sobre o que estava fazendo. N\u00e3o o fazia por \u00f3dio aos judeus, nem sentia pena deles; apenas cumpria o seu trabalho. A princ\u00edpio, uma esp\u00e9cie de suspens\u00e3o da consci\u00eancia moral estaria por tr\u00e1s dos crimes de Eichmann. Uma declara\u00e7\u00e3o do acusado sobre a sua moralidade pessoal, entretanto, surpreendeu a fil\u00f3sofa:<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\"><em>&#8230;ele declarou, de repente, com grande \u00eanfase, que tinha vivido toda a sua vida de acordo com os princ\u00edpios morais de Kant, e particularmente segundo a defini\u00e7\u00e3o kantiana do dever. Isso era aparentemente ultrajante, e tamb\u00e9m incompreens\u00edvel, uma vez que a filosofia moral de Kant est\u00e1 intimamente ligada \u00e0 faculdade de ju\u00edzo do homem, o que elimina a obedi\u00eancia cega. (ARENDT, 1999, p. 153)<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Um dos ju\u00edzes teria, ent\u00e3o, questionado o r\u00e9u a respeito de sua suposta \u00e9tica kantiana e, para a surpresa dos presentes, Eichmann respondeu dando uma defini\u00e7\u00e3o correta do imperativo categ\u00f3rico de Kant, segundo o qual toda vontade humana deve ter, por crit\u00e9rio de licitude, a aceita\u00e7\u00e3o que o ato dela decorrente possa ser universalizado, isto \u00e9, tomado como padr\u00e3o de conduta para toda a humanidade. Submetido a mais questionamentos, o r\u00e9u, ent\u00e3o, passa a afirmar que abandonou, a certa altura de sua vida, os princ\u00edpios morais kantianos, e que seus crimes decorreram tamb\u00e9m de uma sensa\u00e7\u00e3o de impot\u00eancia perante o sistema no qual estava inserido e do qual fora uma esp\u00e9cie de c\u00famplice passivo:<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\"><em>E explicou que, a partir do momento em que fora encarregado de efetivar a Solu\u00e7\u00e3o Final, deixara de viver segundo os princ\u00edpios kantianos, que sabia disso e se consolava com a ideia de que n\u00e3o era mais \u201csenhor de seus pr\u00f3prios atos\u201d, de que era incapaz de \u201cmudar qualquer coisa\u201d. (ARENDT, 1999, p. 153)<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Ao declarar que n\u00e3o era mais \u201csenhor de seus pr\u00f3prios atos\u201d, o r\u00e9u parece querer se eximir da responsabilidade por seus crimes. E referiu-se \u00e0 \u00e9poca em que serviu ao regime nazista como um \u201cper\u00edodo de crime legalizado pelo Estado\u201d (idem, p. 153). Arendt, no entanto, considera que Eichmann teria distorcido o teor do imperativo categ\u00f3rico de Kant para que servisse como lenitivo para a sua consci\u00eancia e justificativa para os seus delitos:<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\"><em>Ele distorcera seu teor para: aja como se o princ\u00edpio de suas a\u00e7\u00f5es fosse o mesmo do legislador ou da legisla\u00e7\u00e3o local \u2013 ou, na formula\u00e7\u00e3o de Hans Frank para o \u201cimperativo categ\u00f3rico do Terceiro Reich\u201d, que Eichmann deve ter conhecido: \u201cAja de tal modo que o F\u00fchrer, se souber da sua atitude, a aprove\u201d (ARENDT, 1999, p. 153)<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Assim, Eichmann procurava, debalde, se justificar recorrendo \u00e0 sua impot\u00eancia perante o Estado e invocando o senso do dever e a sua submiss\u00e3o \u00e0s leis vigentes, numa forma de legalismo insens\u00edvel que, na literatura, poderia ser comparado ao personagem <i>Javert<\/i>, de Victor Hugo. Tais tentativas de se justificar, entretanto, foram v\u00e3s e s\u00f3 fizeram-no se condenar ainda mais diante dos olhos dos ju\u00edzes, conforme testemunha Arendt. Dificilmente se poderia esperar resultado diverso da pena capital para o oficial da SS respons\u00e1vel por enviar centenas de vag\u00f5es lotados de judeus para os campos de exterm\u00ednio.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Em <i>A vida do esp\u00edrito,<\/i> Hannah Arendt indica que o mal causado por Eichmann poderia ser proveniente simplesmente de um agir irrefletido, de um modo de a\u00e7\u00e3o destitu\u00eddo de ju\u00edzo racional, despojado do ato de pensar criticamente que, em geral, deve preceder as a\u00e7\u00f5es humanas. Arendt parece considerar que o mal pode derivar, n\u00e3o raramente, daquelas a\u00e7\u00f5es graves nas quais a faculdade humana de pensar est\u00e1 ausente. Ao tentar tra\u00e7ar um perfil psicol\u00f3gico de Eichmann a partir de suas observa\u00e7\u00f5es no tribunal, a autora se surpreende ao perceber que o acusado n\u00e3o se encaixava no perfil de uma personalidade profundamente perversa, conforme seria de se esperar:<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\"><em>Aquilo com que me defrontei, entretanto, era inteiramente diferente e, no entanto, inegavelmente factual. O que me deixou aturdida foi que a consp\u00edcua superficialidade do agente tornava imposs\u00edvel retra\u00e7ar o mal incontest\u00e1vel de seus atos, em suas ra\u00edzes ou motivos, em quaisquer n\u00edveis mais profundos. Os atos eram monstruosos, mas o agente \u2013 ao menos aquele que estava agora em julgamento \u2013 era bastante comum, banal, e n\u00e3o demon\u00edaco ou monstruoso. Nele n\u00e3o se encontrava sinal de firmes convic\u00e7\u00f5es ideol\u00f3gicas ou de motiva\u00e7\u00f5es especificamente m\u00e1s, e a \u00fanica caracter\u00edstica not\u00f3ria que se podia perceber, tanto em seu comportamento anterior quanto durante o pr\u00f3prio julgamento e o sum\u00e1rio da culpa que o antecedeu, era algo de inteiramente negativo: n\u00e3o era estupidez, mas irreflex\u00e3o. (ARENDT, 1991, p. 5-6).<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\"><b>A m\u00e1quina de exterm\u00ednio do arianismo nacional-socialista<\/b><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Hitler acreditava que as na\u00e7\u00f5es europeias deveriam se unir para resolver, juntas, a chamada \u201cquest\u00e3o judaica\u201d. Em seu racismo extremista e ideol\u00f3gico, o <i>F\u00fchrer<\/i> pensava que era preciso livrar a Europa inteira daquela ra\u00e7a indesejada que, no seu conceito, era composta de gente irremediavelmente desonesta, ambiciosa, fraudulenta e exploradora dos trabalhadores arianos. Aproveitando-se do antissemitismo enraizado em muitos pa\u00edses europeus, o ditador fez acordos com governantes autorit\u00e1rios e antissemitas de outras na\u00e7\u00f5es, atesta Arendt (1999, p. 159), conseguindo que judeus de v\u00e1rias na\u00e7\u00f5es fossem enviados para a execu\u00e7\u00e3o em Auschwitz e em outros campos de morte.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Eichmann coordenou diversas daquelas deporta\u00e7\u00f5es. Era considerado um especialista em log\u00edstica, um profissional muito eficiente na organiza\u00e7\u00e3o e transporte das v\u00edtimas. Os governos que aceitassem mandar seus judeus para o exterm\u00ednio podiam confiscar os bens das v\u00edtimas para si. Os alem\u00e3es cobravam deles apenas um \u201ccusto de deporta\u00e7\u00e3o e exterm\u00ednio\u201d por cabe\u00e7a, que variava de pa\u00eds para pa\u00eds (ARENDT, 1999, p. 159). A ind\u00fastria da morte de Hitler funcionava celeremente, sobretudo quando Eichmann come\u00e7ou a enviar os numerosos judeus da Hungria para Auschwitz:<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\"><em>&#8230; em nenhum outro lugar tantas pessoas foram deportadas e exterminadas num per\u00edodo t\u00e3o curto. Em menos de dois meses, 147 trens, levando 434.351 pessoas em vag\u00f5es de carga lacrada, cem pessoas por vag\u00e3o, deixaram o pa\u00eds, e as c\u00e2maras de g\u00e1s de Auschwitz mal conseguiam dar conta dessa multid\u00e3o. (ARENDT, 1999, p. 157-158)<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Refletindo sobre aquela incompreens\u00edvel barb\u00e1rie, Hannah Arendt chega a conjecturar, em sua obra <i>Origens do totalitarismo,<\/i> que o homem precisa elevar-se acima de sua pr\u00f3pria natureza, que por vezes se revela animalesca, para ser, de fato, humano:<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\"><em>A experi\u00eancia dos campos de concentra\u00e7\u00e3o demonstra realmente que os seres humanos podem transformar-se em esp\u00e9cimes do animal humano, e que a \u2018natureza\u2019 do homem s\u00f3 \u00e9 \u2018humana\u2019 na medida em que d\u00e1 ao homem a possibilidade de tornar- se algo eminentemente n\u00e3o-natural, isto \u00e9, um homem. (ARENDT, 1989, p. 506).\u00a0<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Os oficiais da SS eram treinados para n\u00e3o se abalar emocionalmente quando tivessem que executar algu\u00e9m. Eram treinados para obedecer as ordens que lhes eram dadas sem hesitar. No caso de Eichmann vemos essa supress\u00e3o da consci\u00eancia moral levada \u00e0s \u00faltimas consequ\u00eancias: encaminhar centenas de seres humanos para a execu\u00e7\u00e3o havia se tornado, para ele, algo banal. Uma pr\u00e1tica perversa se tornara um trivial \u201ccumprimento do dever\u201d, a ponto de Arendt afirmar que, ao contrariar Himmler \u2013 chefe da SS que, vendo aproximar-se a derrota da Alemanha, estava relaxando a pol\u00edtica de exterm\u00ednio de judeus \u2013 Eichmann manteve uma atitude inflex\u00edvel de seguir trabalhando para executar a \u201cSolu\u00e7\u00e3o Final\u201d at\u00e9 o \u00faltimo ano da guerra n\u00e3o porque fosse um nazista fan\u00e1tico, mas porque, em sua consci\u00eancia, sentia-se impelido a cumprir seu \u201cdever\u201d genocida.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Por isso, a autora reflete que, depois daquelas atrocidades, os Estados precisam se orientar por novos princ\u00edpios pol\u00edticos que sejam preventivos, que reconhe\u00e7am a dignidade de cada ser humano e que n\u00e3o se permitam sobrepujar os direitos individuais das pessoas nem reduzi-las \u00e0 condi\u00e7\u00e3o de coisas descart\u00e1veis. Adverte, contudo, que qualquer forma de poder institucional, mesmo quando se apresenta com princ\u00edpios humanit\u00e1rios, deve ser limitado e controlado para que nunca extrapole suas atribui\u00e7\u00f5es:<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\"><em>O anti-semitismo (n\u00e3o apenas o \u00f3dio aos judeus), o imperialismo (n\u00e3o apenas a conquista) e o totalitarismo (n\u00e3o apenas a ditadura) \u2013 um ap\u00f3s o outro, um mais brutalmente que o outro \u2013 demonstraram que a dignidade humana precisa de nova garantia, somente encontr\u00e1vel em novos princ\u00edpios pol\u00edticos e em uma nova lei na terra, cuja vig\u00eancia dessa vez alcance toda a humanidade, mas cujo poder deve permanecer estritamente limitado, estabelecido e controlado por entidades territoriais novamente definidas. (ARENDT, 1989, p. 13).<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\"><b>A dissolu\u00e7\u00e3o dos direitos individuais no coletivismo estatista<\/b><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Hannah Arendt assegura que o primeiro passo que o totalitarismo d\u00e1 para a implanta\u00e7\u00e3o de um regime de terror, de um sistema de dom\u00ednio total sobre os cidad\u00e3os, efetua-se suprimindo a pessoa jur\u00eddica dos seres humanos, isto \u00e9, abolindo os direitos civis que possam amea\u00e7ar a nova ordem de coisas. O totalitarismo cria expedientes para destruir a subjetividade das pessoas. Destr\u00f3i, primeiramente, as liberdades fundamentais que s\u00e3o condi\u00e7\u00e3o basilar para a atividade pol\u00edtica dos cidad\u00e3os. Em seguida, promove gradualmente a morte moral dos seres humanos submetidos, acabando com o senso de solidariedade humana pela via da demoniza\u00e7\u00e3o dos opositores do regime.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Assim, os direitos individuais s\u00e3o progressivamente dissolvidos e o senso comum \u00e9 corrompido pela ideologia totalit\u00e1ria propagandeada \u00e0 exaust\u00e3o. O livre pensar, a livre iniciativa, a livre express\u00e3o e o direito \u00e0 obje\u00e7\u00e3o de consci\u00eancia s\u00e3o sacrificados no altar da coletividade que se materializa no deus-Estado. Uma vez que o Estado totalit\u00e1rio consegue, com pretextos sociais e aparentemente humanit\u00e1rios embutidos no discurso ideol\u00f3gico, sufocar a individualidade dos cidad\u00e3os, a a\u00e7\u00e3o humana consciente, moral e livre deixa de ser reconhecida como direito natural e fica restrita \u00e0s concess\u00f5es estatais. Proibir um homem (ou uma mulher) de agir licitamente conforme a sua delibera\u00e7\u00e3o individual \u00e9 desumaniz\u00e1-lo: \u201cPorque destruir a individualidade \u00e9 destruir a espontaneidade, a capacidade do homem de iniciar algo novo com os seus pr\u00f3prios recursos, algo que n\u00e3o possa ser explicado \u00e0 base de rea\u00e7\u00e3o ao ambiente e aos fatos.\u201d (ARENDT, 1989, p. 506).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Os movimentos pol\u00edticos de car\u00e1ter revolucion\u00e1rio e totalit\u00e1rio s\u00e3o baseados em discursos utopistas e ideologias que valorizam excessivamente os ideais abstratos em detrimento da realidade concreta. Prometem um futuro ideal para as massas, um amanh\u00e3 livre das mazelas do hoje. E, a pretexto de concretizar seus ideais de um mundo perfeito para o amanh\u00e3, consideram leg\u00edtimo o cerceamento dos direitos individuais dos cidad\u00e3os de hoje. Para sustentar sua ideologia revolucion\u00e1ria rom\u00e2ntica, o movimento totalit\u00e1rio, uma vez no poder, lan\u00e7a m\u00e3o da viol\u00eancia contra os desafetos e opositores, revelando assim o seu car\u00e1ter intrinsecamente opressor:<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\"><em>Para o movimento, a viol\u00eancia organizada \u00e9 o mais eficaz dos muros protetores que cercam o seu mundo fict\u00edcio, cuja \u2018realidade\u2019 \u00e9 comprovada quando um membro receia mais abandonar o movimento do que as consequ\u00eancias da sua cumplicidade e atos ilegais, e se sente mais seguro como membro do que como oponente. (ARENDT, 1989, p. 422).<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Existem casos em que, antes mesmo de impor priva\u00e7\u00f5es exteriores, como viver longe da fam\u00edlia ou viver em campos de concentra\u00e7\u00e3o, o totalitarismo destr\u00f3i a liberdade interior das pessoas, tirando-lhes a vontade de viver e a capacidade de agir. Entretanto, mesmo quando as v\u00edtimas alimentam em si o amor pela vida e pela liberdade, o totalitarismo as oprime pela falta de espa\u00e7o, seja o espa\u00e7o simb\u00f3lico \u2013 como um poder ideol\u00f3gico onipresente que sufoca as percep\u00e7\u00f5es individuais \u2013 seja o espa\u00e7o f\u00edsico:<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\"><em>Pressionando os homens, uns contra os outros, o terror total destr\u00f3i o espa\u00e7o entre eles; comparado \u00e0s condi\u00e7\u00f5es que prevalecem dentro do cintur\u00e3o de ferro, at\u00e9 mesmo o deserto da tirania, por ainda constituir algum tipo de espa\u00e7o, parece uma garantia de liberdade. O governo totalit\u00e1rio n\u00e3o restringe simplesmente os direitos nem simplesmente suprime as liberdades essenciais; tampouco, pelo menos ao que saibamos, consegue erradicar do cora\u00e7\u00e3o dos homens o amor \u00e0 liberdade, que \u00e9 simplesmente a capacidade de mover-se, a qual n\u00e3o pode existir sem espa\u00e7o. (ARENDT, 1989, p. 518).<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\"><b>Conclus\u00e3o<\/b><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Numa intui\u00e7\u00e3o aparentemente paradoxal, mas muito verdadeira, Arendt sugere que o melhor lugar para se refletir sobre a liberdade \u00e9 dentro dos regimes totalit\u00e1rios, nos quais ela se encontra gravemente restringida. Devemos deslocar o nosso pensamento e refletir sobre a liberdade a partir daquelas realidades torturantes e extremas. Pois, quando se pensa a partir do contexto de Dachau, Auschwitz, Treblinka ou dos <i>gulags<\/i> sovi\u00e9ticos, vem \u00e0 tona uma necessidade b\u00e1sica fort\u00edssima que parece n\u00e3o existir quando pensamos a partir das sociedades livres: a necessidade de estar livre de qualquer forma de coa\u00e7\u00e3o externa, de n\u00e3o sofrer viol\u00eancia, de poder ir e vir quando quiser, de ser remunerado com justi\u00e7a pelo pr\u00f3prio trabalho, de poder seguir a pr\u00f3pria consci\u00eancia e poder agir e se expressar livremente. Em um contexto de opress\u00e3o e c\u00e1rcere \u00e9 que as liberdades civis s\u00e3o mais apreciadas e valorizadas, assim como o \u201csentido para a vida\u201d passou a ser algo profundamente valorizado por Viktor Frankl depois que ele passou pela experi\u00eancia traum\u00e1tica de confinamento nos campos nazistas.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">No pensamento arendtiano, a liberdade \u00e9 fundamental na <i>polis<\/i> porque a condi\u00e7\u00e3o humana a pressup\u00f5e e, sem ela, a vida pol\u00edtica deixa de ter sentido. Nesta perspectiva, Hannah nos ajuda a pensar a liberdade como horizonte a ser sempre perseguido, como uma meta da vida pol\u00edtica. E uma maneira de fomentar a valoriza\u00e7\u00e3o das liberdades civis pelas novas gera\u00e7\u00f5es \u00e9 record\u00e1-las que, num passado n\u00e3o t\u00e3o distante, os direitos humanos foram espezinhados por sistemas de governo que foram tidos por muitos como \u201cesclarecidos\u201d, \u201cprogressistas\u201d e \u201cevolu\u00eddos\u201d, sistemas liderados por tiranos cru\u00e9is que chegaram a ser chamados de \u201csalvadores\u201d e \u201cgrandes estadistas\u201d. Thomas Jefferson com muita raz\u00e3o afirmou que \u201co pre\u00e7o da liberdade \u00e9 a eterna vigil\u00e2ncia\u201d, e a reflex\u00e3o de Arendt certamente nos ajuda a estimarmos mais a democracia e a vigiar para que as mentalidades totalit\u00e1rias e as ideologias revolucion\u00e1rias que subsistem em nossos dias n\u00e3o consigam sobrepujar, com sutilezas ideol\u00f3gicas, aparelhamento das institui\u00e7\u00f5es e linguagem politicamente correta, as liberdades e direitos naturais que emanam do pr\u00f3prio estatuto ontol\u00f3gico do ser humano e que s\u00e3o o esteio da vida em sociedade.<\/p>\n<p><b>Bibliografia:<\/b><\/p>\n<p>* O autor tem gradua\u00e7\u00e3o em comunica\u00e7\u00e3o e cursa filosofia na FAM<\/p>\n<p>ARENDT, Hannah. <i>A vida do esp\u00edrito: o pensar, o querer, o julgar<\/i>. Tradu\u00e7\u00e3o: Antonio Abranches et al. Rio de Janeiro: Relume &#8211; Dumar\u00e1, 1991.<\/p>\n<p>______. Deveres de um cidad\u00e3o respeitador das leis. In: ______. <i>Eichmann em Jerusal\u00e9m: um relato sobre a banalidade do mal<\/i>. Tradu\u00e7\u00e3o: Jos\u00e9 Rubens Siqueira. S\u00e3o Paulo: <a href=\"http:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Companhia_das_Letras\">Companhia das Letras<\/a>, 1999.<\/p>\n<p>______. <i>Origens do Totalitarismo<\/i>. Tradu\u00e7\u00e3o: Roberto Raposo. 2.ed. S\u00e3o Paulo: Companhia da Letras, 1989.<\/p>\n<p>ASSIS, Fabiano A. de. <i>Poder e Viol\u00eancia: sobre os elementos constituintes da pol\u00edtica em Hannah Arendt.<\/i> 2013. 50 f. Trabalho de Conclus\u00e3o de Curso (Gradua\u00e7\u00e3o em Filosofia) \u2013 Faculdade Arquidiocesana de Mariana, Mariana, 2013.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>por Luiz Henrique De Moraes Silva* Resumo: O artigo que segue aborda o problema do nazismo e dos regimes totalit\u00e1rios que assassinaram milh\u00f5es de inocentes com a cumplicidade de homens como Adolf Eichmann, que relegou sua consci\u00eancia e sua capacidade de ju\u00edzo moral ao Estado nazista e assumiu, como dever de um trabalho banal, o &hellip; <\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_mi_skip_tracking":false,"footnotes":""},"categories":[147],"tags":[369],"class_list":{"0":"entry","1":"post","2":"publish","3":"author-admin","4":"post-2619","6":"format-standard","7":"category-sem-categoria","8":"post_tag-liberdade-totalitarismo-nazismo-legalismo-coletivismo-banalidade-do-mal"},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2619","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=2619"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2619\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=2619"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=2619"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=2619"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}