{"id":2622,"date":"2015-05-26T17:15:57","date_gmt":"2015-05-26T20:15:57","guid":{"rendered":"http:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/?p=2622"},"modified":"2015-11-05T08:02:09","modified_gmt":"2015-11-05T10:02:09","slug":"resenha","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/?p=2622","title":{"rendered":"Resenha do livro: &#8220;Hist\u00f3ria da Ideia de Natureza&#8221; &#8211; Robert Lenoble"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\">feita por\u00a0<span lang=\"PT-BR\">H\u00e9rcules Amorim Werneck*<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">LENOBLE, Robert.\u00a0<em>Hist\u00f3ria da Ideia de Natureza.<\/em>\u00a0Tradu\u00e7\u00e3o Teresa Louro P\u00e9rez. Lisboa: Edi\u00e7\u00f5es 70, 2002.\u00a0p. 257-279.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0Robert Lenoble come\u00e7ou a sua carreira ensinando filosofia em col\u00e9gios secund\u00e1rios, mas em breve come\u00e7ou a dedicar-se a investiga\u00e7\u00f5es pessoais. Doutorou-se em letras em 1943 com duas teses: uma consagrada a Mersenne, outra \u00e0 no\u00e7\u00e3o de experi\u00eancia. Em 1947 entrou para o Centre National de la Recherche Scientifique, e passou a consagrar-se totalmente \u00e0 investiga\u00e7\u00e3o da hist\u00f3ria das ci\u00eancias e reflex\u00e3o filos\u00f3fica, tendo escrito artigos para diversas revistas. Desempenhou um papel importante na edi\u00e7\u00e3o da correspond\u00eancia de Mersenne. Colaborou na elabora\u00e7\u00e3o da Encyclop\u00e9die de la Pl\u00e9iade e da Histoire g\u00e9n\u00e9rale des sciences. Faleceu em janeiro de 1959, deixando uma obra importante como fil\u00f3sofo e historiador das ci\u00eancias.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na obra\u00a0<em>Hist\u00f3ria da Ideia de Natureza<\/em>, estruturada em dez cap\u00edtulos, o autor examina as diversas formas que a ideia de natureza assumiu sucessivamente ao longo da hist\u00f3ria e das v\u00e1rias correntes de pensamento que a caracterizaram, no campo da cultura do ocidente. Todavia,\u00a0enfocaremos o quarto cap\u00edtulo que trata do fen\u00f4meno mecanicista do s\u00e9culo XVII, com particular aten\u00e7\u00e3o aos grandes pensadores daquela \u00e9poca: Galileu, Mersenne, Descartes e Pascal.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Segundo o autor, a evolu\u00e7\u00e3o das ideias do s\u00e9culo XVI era sem d\u00favida impulsionada pelo fasc\u00ednio do homem pelo est\u00e9tico. No s\u00e9culo seguinte a ci\u00eancia atrav\u00e9s dos seus relevantes progressos iriam tomar este papel e se tornaria o instrumento humano para a conquista da natureza. Ela [a natureza], at\u00e9 ent\u00e3o, tratada como deusa universal, sofrer\u00e1 a tentativa de ser mecanizada para melhor ser compreendida, ser dominada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Desde a Gr\u00e9cia antiga um abismo entre a ci\u00eancia e a t\u00e9cnica ou arte era constatado. Esta, manipulava o acidente, dominava as perspectivas e gerava a opini\u00e3o. Al\u00e9m de possibilitar que o homem melhorasse sua atua\u00e7\u00e3o como um tipo de obreiro e tamb\u00e9m aperfei\u00e7oasse suas habilidades de criar as suas pr\u00f3prias ferramentas. J\u00e1 aquela se incumbia de conhecer as coisas eternas: subst\u00e2ncias, ess\u00eancias, movimentos necess\u00e1rios etc.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">De fato, o s\u00e9culo XVII foi tomado por a\u00e7\u00f5es que mudariam de forma crucial a maneira\u00a0 com a qual o homem se comportaria diante da natureza: Galileu pede aos engenheiros que descobrissem a real estrutura do mundo; a partir da\u00ed, a experi\u00eancia direta\u00a0 sobre a natureza interromper\u00e1 definitivamente a contempla\u00e7\u00e3o e o respeito que o ser humano tinha perante a mesma. Agora, ele quer tornar-se senhor e dominador. Quer utilizar-se dela e conquist\u00e1-la.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por sua vez, Pascal disse que a verdade sobre a natureza n\u00e3o est\u00e1 na raz\u00e3o sobre as ess\u00eancias, mas nas experi\u00eancias que se devem realizar sobre a mesma. Com isso, os princ\u00edpios da f\u00edsica se multiplicaram, seus algozes querem se elevar ao status de Deus para conhecer o segredo do engenheiro divino, e assim compreender como o universo fora criado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Alguns pensadores, tais como: Mersenne, Roberval, Pascal, Torricelli, Vi\u00e8te, Fermat, Stevin, Beekman, Huygen, Hobbes e Boyle tiveram discurso afinado ao declararem que a Natureza \u00e9 uma m\u00e1quina e que a ci\u00eancia \u00e9 a t\u00e9cnica de explora\u00e7\u00e3o da mesma.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ao falar sobre a posi\u00e7\u00e3o da religi\u00e3o diante tal mudan\u00e7a de paradigma ocorrida no s\u00e9culo XVII, o autor mostra que esta n\u00e3o concordou com a ci\u00eancia, no entanto, abriu-se ao\u00a0 di\u00e1logo para com a mesma naquele contexto de grande revolu\u00e7\u00e3o da f\u00edsica. Para a Igreja, serviu de forma mais emblem\u00e1tica o pensamento baseado nos textos b\u00edblicos em que o pr\u00f3prio Deus, durante o ato da cria\u00e7\u00e3o do universo, aquele que d\u00e1 o direito ao homem de dominar todos os seres. Portanto, homem e natureza n\u00e3o est\u00e3o na equival\u00eancia de valores pois o para\u00edso est\u00e1 sob a administra\u00e7\u00e3o daquela criatura que foi feita a imagem de Deus.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para o autor aqui se conclu\u00ed que uma vis\u00e3o mecanicista da natureza \u00e9 portanto observada pela primeira vez na dimens\u00e3o teol\u00f3gica. O homem quer conhecer atrav\u00e9s da atividade cient\u00edfica o conjunto de fen\u00f4menos que existem no universo; quer imitar o criador e entender as engrenagens desta m\u00e1quina denominada natureza.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O pragmatismo cient\u00edfico daquele s\u00e9culo acredita que a f\u00edsica n\u00e3o \u00e9 uma defini\u00e7\u00e3o da natureza, mas uma adapta\u00e7\u00e3o, em fun\u00e7\u00e3o dos sentidos e dos princ\u00edpios do homem. Sejam os pragmatistas como Mersenne ou metaf\u00edsicos como Descartes, todos os mecanicistas idealizam ent\u00e3o a natureza como sendo uma obra constru\u00edda por Deus e a cujo homem \u00e9 outorgada a faculdade de descobrir as partes distintas deste projeto perfeito e misterioso para depois fabric\u00e1-lo ao seu modo na expectativa de produzir os mesmos resultados.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O autor observou que com a chegada da ci\u00eancia mecanicista \u00e9 marcada o in\u00edcio da conquista efetiva da natureza e a sua separa\u00e7\u00e3o radical do destino do homem. Este se sente seguro, emancipado e sai sem medo de angustiar-se, at\u00e9 porque a religi\u00e3o lhe far\u00e1 companhia e n\u00e3o o deixar\u00e1 se sentir s\u00f3. Uma vez mecanizada, ela [a natureza] tornara-se um objeto passivo de explora\u00e7\u00e3o e do uso da t\u00e9cnica experimental. Com a revolu\u00e7\u00e3o industrial nascente ser\u00e1 ent\u00e3o levada ao extremo da sua capacidade de experimento.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O texto muito bem elaborado pelo autor \u00e9 de f\u00e1cil leitura e retrata o rompimento de uma rela\u00e7\u00e3o respeitosa e balanceada entre o homem e a natureza. Esta \u00faltima, pode se dizer, exercia, at\u00e9 ent\u00e3o, um tipo de fasc\u00ednio e de medo, pelos mist\u00e9rios que sua complexidade trazia em si mesma. Pelo avan\u00e7o cient\u00edfico e conjuntamente ao in\u00edcio do processo industrial em s\u00e9rie, a divindade da natureza \u00e9 banalizada, e aquilo que antes era em sua totalidade desconhecida ao homem, passa a ser um produto de sua explora\u00e7\u00e3o sem precedentes.\u00a0 A natureza sofrer\u00e1 as ofensivas mecanicistas do homem, que tende a humanizar tudo, porque desta maneira, ele, criatura, deseja tomar o papel do criador e decide por si mesmo p\u00f4r os limites para as suas a\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esta obra \u00e9 indicada especialmente a todos aqueles que se interessam pelos estudos dos ramos da Cosmologia e da Hist\u00f3ria da Filosofia nas quais s\u00e3o abordados os fatos hist\u00f3ricos em que o homem rompe o relacionamento com a natureza, e ao fazer ci\u00eancia, quer desvendar o mist\u00e9rio que consiste esta m\u00e1quina. O texto tamb\u00e9m presta importante colabora\u00e7\u00e3o para que se analise o surgimento das variadas correntes de pensamento que justificariam as a\u00e7\u00f5es humanas e impulsionariam o progresso cient\u00edfico, cultural e pol\u00edtico no ocidente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">*graduando em filosofia na FAM<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>feita por\u00a0H\u00e9rcules Amorim Werneck* LENOBLE, Robert.\u00a0Hist\u00f3ria da Ideia de Natureza.\u00a0Tradu\u00e7\u00e3o Teresa Louro P\u00e9rez. Lisboa: Edi\u00e7\u00f5es 70, 2002.\u00a0p. 257-279. \u00a0Robert Lenoble come\u00e7ou a sua carreira ensinando filosofia em col\u00e9gios secund\u00e1rios, mas em breve come\u00e7ou a dedicar-se a investiga\u00e7\u00f5es pessoais. 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