{"id":2628,"date":"2015-11-04T14:17:42","date_gmt":"2015-11-04T16:17:42","guid":{"rendered":"http:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/?p=2628"},"modified":"2015-11-04T14:17:42","modified_gmt":"2015-11-04T16:17:42","slug":"agostinho-do-problema-da-linguagem-a-interioridade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/?p=2628","title":{"rendered":"AGOSTINHO: do problema da linguagem \u00e0 interioridade"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\">Geraldo F\u00e1bio de Menezes*<\/p>\n<p>Resumo: O presente artigo tem como finalidade apresentar rela\u00e7\u00e3o da problem\u00e1tica da linguagem e a interioridade na obra De magistro de Agostinho, um tema de cunho gnosiol\u00f3gico, interioridade pela qual o ser humano est\u00e1 em busca da verdade. Agostinho apresenta a problem\u00e1tica da linguagem como uma condi\u00e7\u00e3o humana necess\u00e1ria para se chegar \u00e0 verdade e que as palavras possuem a fun\u00e7\u00e3o de nos estimular a encontra-la no nosso interior. Esta verdade \u00e9 revela por Deus em nosso interior, onde habita Cristo mediador entre o sens\u00edvel e o intelig\u00edvel.<\/p>\n<p>1 Introdu\u00e7\u00e3o<\/p>\n<p>O homem possui caracter\u00edsticas pr\u00f3prias que o difere dos demais animais. Uma delas \u00e9 a possibilidade de se comunicar, isto \u00e9, com mais propriedade que os animais irracionais. A linguagem \u00e9 fundamental ao homem para alcan\u00e7ar a verdade, mas quando surgem problemas de comunica\u00e7\u00e3o faz com que nos questionemos acerca da conting\u00eancia da linguagem e do que somos capazes de aprender e ensinar. Em suma, consiste em um problema gnosiol\u00f3gico.<\/p>\n<p>A esse respeito, Agostinho declarou nas Confiss\u00f5es sua ang\u00fastia na busca da verdade, pois chegou ao ponto que ele n\u00e3o encontrava mais a possibilidade de conhecer por meio do exterior o que sempre esteve no seu interior: \u201cTarde Vos amei, \u00f3 Beleza t\u00e3o antiga e t\u00e3o nova, tarde Vos amei! Eis que habit\u00e1veis dentro de mim, e eu l\u00e1 fora a procurar-Vos! Disforme, lan\u00e7ava-me sobre estas formosuras que criastes. Est\u00e1veis comigo, e eu estava convosco!\u201d (AGOSTINHO, Confiss\u00f5es, X, 27). Tendo como base a obra De magistro de Agostinho, o presente artigo tem como objetivo apresentar o problema da linguagem na busca da verdade e a interioridade como \u00fanica forma de conhecer a verdade, e tamb\u00e9m esclarecer se \u00e9 poss\u00edvel ensinar e aprender por meio das palavras.<\/p>\n<p>2 O problema da linguagem para alcan\u00e7ar a verdade<\/p>\n<p>Agostinho no cap\u00edtulo VIII do De magistro, faz uma retrata\u00e7\u00e3o de tudo o que foi abordado nos cap\u00edtulos anteriores dizendo a seu filho Adeodato que deveriam abandonar algumas pequenas quest\u00f5es tratadas e aprofundar nas coisas que significam. Ent\u00e3o, ap\u00f3s esta pausa, Agostinho retoma o di\u00e1logo com Adeodato perguntando-lhe: \u201c[&#8230;] diz-me se \u2018homem \u00e9 homem\u2019\u201d (De magistro, VIII, 22). O objetivo de Agostinho ao introduzir esta pergunta \u00e9 para que seu filho respondesse com rapidez o que significa e n\u00e3o o sentido da frase, portanto que depois ele separa a palavra homem em s\u00edlabas para demonstrar a significa\u00e7\u00e3o da palavra ao objeto.<\/p>\n<p>Tomada a palavra homem por si mesma ela n\u00e3o \u00e9 a coisa em si, mas sinaliza a coisa. Sobre isto Agostinho afirma que a palavra \u00e9 somente som, quando n\u00e3o examinada pela raz\u00e3o: \u201c[&#8230;] depois de ter o sinal, a mente vai examinar o que este significa, e ap\u00f3s o exame \u00e9 que concede ou nega o que se diz.\u201d (De magistro, VIII, 23). Para que haja entendimento s\u00e3o necess\u00e1rios tr\u00eas elementos, como analisaremos a seguir:<\/p>\n<p>A voz n\u00e3o articula nem porta significa\u00e7\u00e3o, pode ser tanto animal como humana, a palavra \u00e9 articulada e pode ser apresentada de forma escrita tamb\u00e9m, mas ema n\u00e3o possui significa\u00e7\u00e3o a priori: \u00e9 o significante como vocal articulado; e o logos \u00e9 duplamente caracterizado pelo fato de que ele \u00e9 o significante e o portador de significa\u00e7\u00e3o. (FORATINNI, 2009, p. 100).<\/p>\n<p>Com isso, a palavra sendo sinal n\u00e3o tem sen\u00e3o o objetivo de apontar outro sinal. Assim, Agostinho aponta o problema da linguagem a partir da compreens\u00e3o de palavra, pois se tudo ser\u00e1 sinalizado pela palavra que tamb\u00e9m \u00e9 sinal, a realidade \u00e9 sinalizada e n\u00e3o \u00e9 ela mesma. A partir desta problem\u00e1tica o cap\u00edtulo d\u00e9cimo tem como objetivo discutir se \u00e9 poss\u00edvel ensinar algo sem sinais e que as coisas n\u00e3o se aprendem pelas palavras.<\/p>\n<p>O questionamento de Agostinho ao seu filho: \u201cEnsinar e significar s\u00e3o a mesma coisa ou diferem em algo?\u201d (De magistro, X, 30), introduz uma problem\u00e1tica de compreender ensino e significa\u00e7\u00e3o com o mesmo sentido, mas se assim for, o ensino tamb\u00e9m seria imperfeito como \u00e9 a significa\u00e7\u00e3o. Com isto n\u00e3o seria poss\u00edvel o conhecimento. Ent\u00e3o, o fil\u00f3sofo afirma: \u201cSe, portanto, usarmos os sinais para ensinar, n\u00e3o ensinamos para usar os sinais: uma coisa \u00e9 ensinar e outra \u00e9 usar os sinais (significar)\u201d (AGOSTINHO, De magistro, X, 30). Mas ser\u00e1 poss\u00edvel ensinar sem usar sinais?<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel ensinar sem usar sinais, pois ensinar, podemos dizer, \u00e9 marcar com sinal, pois toda realidade necessita ser sinalizada a fim de ser ensinada. J\u00e1 que pela palavra (sinal) em si n\u00e3o conhecemos a ess\u00eancia das coisas e que n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel ensinar sem o uso de sinais, sua fun\u00e7\u00e3o \u00e9 despertar \u00e0 busca da verdade:<\/p>\n<p>Pois, quando aprendi a pr\u00f3pria coisa, n\u00e3o acreditei nas palavras de outrem, mas nos meus olhos; talvez acreditasse tamb\u00e9m nelas, mas apenas para despertar a aten\u00e7\u00e3o, ou seja, para procurar com os olhos o que era para eu ver. (AGOSTINHO, De magistro, X, 35).<\/p>\n<p>3 A verdade que ensina interiormente<\/p>\n<p>Ap\u00f3s toda a problem\u00e1tica da linguagem, que com as palavras n\u00e3o aprendemos nada mais que palavras, Agostinho leva-nos do esgotamento do ensino exterior ao conhecimento adquirido pelo interior. E para exemplificar esta mudan\u00e7a, da exterioridade \u00e0 interioridade, o fil\u00f3sofo utiliza da hist\u00f3ria b\u00edblica dos jovens Ananias, Azarias e Misael:<\/p>\n<p>[&#8230;] os jovens Ananias, Azarias e Misael; nem os seus nomes me ajudaram ou poderiam ajudar a conhec\u00ea-los. E confesso que, mais que saber, posso dizer acreditar que tudo aquilo que se l\u00ea naquela narra\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica aconteceu naquele tempo assim foi escrito; e os pr\u00f3prios historiadores a que emprestamos f\u00e9 n\u00e3o ignoravam esta diferen\u00e7a. Diz profeta: \u201cSe n\u00e3o credes, n\u00e3o entendereis\u201d; certamente n\u00e3o diria isto se n\u00e3o julgasse necess\u00e1rio p\u00f4r uma diferen\u00e7a entre as duas coisas. Portanto, creio tudo o que entendo, mas nem tudo que creio tamb\u00e9m entendo. (AGOSTINHO, De magistro, XI, 37).<\/p>\n<p>Esta narra\u00e7\u00e3o b\u00edblica encontra-se no Livro de Daniel, cap\u00edtulo terceiro. O rei da Babil\u00f4nia, Nabucodonosor, condenou os tr\u00eas jovens hebreus \u00e0 fornalha, pois se recusaram a adorar a est\u00e1tua de ouro erigida pelo pr\u00f3prio rei. Por\u00e9m, eles suplicaram a Deus que os libertasse das chamas e das m\u00e3os do rei e assim aconteceu. Ent\u00e3o, o que Agostinho quer demonstrar com esta narra\u00e7\u00e3o \u00e9 que os tr\u00eas jovens recusaram adorar a um sinal falso, em favor do verdadeiro Deus. Por isso, Agostinho cita o profeta Isa\u00edas\u00b9 , porque \u00e9 necess\u00e1ria a f\u00e9 para se conhecer o verdadeiro Deus e confessa que somos incapazes de compreender tudo o cremos. Assim, o que ouvimos exteriormente nos estimula a encontrar a verdade que reside em nosso interior:<\/p>\n<p>Quem \u00e9 consultado ensina verdadeiramente, e este \u00e9 Cristo, que habita, como foi dito no homem interior, isto \u00e9: a virtude incomut\u00e1vel de Deus e a sempiterna Sabedoria, que toda alma racional consulta, mas que se revela a cada um quanto \u00e9 permitido pela pr\u00f3pria boa ou m\u00e1 vontade. (AGOSTINHO, De magistro , XI, 38).<\/p>\n<p>Assim, Cristo que reside em nosso interior est\u00e1 al\u00e9m de ser o mestre e o guia, mas ele \u00e9 a pr\u00f3pria verdade que habita em n\u00f3s. Com isto, n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel aos homens conhecer a verdade pelas palavras, isto \u00e9, pela exterioridade, mesmo que h\u00e1 homens que acreditam aprender pelas palavras, mas ao encontrarem a verdade interior esta \u00e9 a Sabedoria eterna que habita em n\u00f3s, o pr\u00f3prio Cristo. Cristo \u00e9 o mediador entre Deus e os homens, entre o sens\u00edvel e o intelig\u00edvel. Por isto \u00e9 Deus quem revela ao homem a verdade no seu interior:<\/p>\n<p>Por conseguinte, nem sequer a este, que v\u00ea coisas verdadeiras, ensino algo dizendo-lhe a verdade, porque aprende n\u00e3o pelas minhas palavras, mas pelas pr\u00f3prias coisa, que a ele interiormente revela Deus; por isto, interrogado sobre elas, sem mais, poderia responder. (AGOSTINHO, De magistro, XII, 40).<\/p>\n<p>4 Conclus\u00e3o<\/p>\n<p>A declara\u00e7\u00e3o de Agostinho na sua obra, Confiss\u00f5es, sobre a sua busca pela verdade, que \u00e9 poss\u00edvel percebermos dois sentimentos, a ang\u00fastia, pois encontrou tardiamente o que procurava fora e a felicidade, pois sempre estiveram juntos no seu interior. Isto j\u00e1 nos infere que \u00e9 necess\u00e1rio a raz\u00e3o e a f\u00e9 para encontrarmos a verdade. Mas sabemos que Agostinho se converteu ao cristianismo e para ele \u00e9 f\u00e1cil conciliar f\u00e9 e raz\u00e3o, por\u00e9m ele apresenta na sua obra, De magistro, a dificuldade de se aprender por meio das palavras e que s\u00f3 encontraremos a verdade no interior, e esta \u00e9 o pr\u00f3prio Cristo.<\/p>\n<p>Para Agostinho as palavras s\u00e3o sinais que sinalizam outro sinal, pois isto n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel conhecer a verdade pela exterioridade. Mas tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel ensinar ou aprender sem usar os sinais ou palavras, com isto a fun\u00e7\u00e3o da palavra \u00e9 despertar e estimular o homem a encontrar a verdade interior. Ent\u00e3o n\u00e3o \u00e9 o mestre que ensina ou aprendemos por si mesmos, mas Deus revela a verdade em n\u00f3s, ela \u00e9 o pr\u00f3prio Cristo mediador entre o conhecimento sens\u00edvel e o intelig\u00edvel:<\/p>\n<p>Aquele que procura conhecer um dos objetos da intelig\u00eancia ou dos sentidos, ou seja, qualquer forma de conhecimento, opera na interioridade, sem que nada do exterior penetra nesta. O que ocorre \u00e9 que ao notar (ouvir, ver ou ler) um signo, este estimula o homem a procurar o conhecimento, o estimula a aprender. Se o que foi dito \u00e9 verdade ou n\u00e3o, cabe somente a Cristo, que \u00e9 nosso Mestre Interior, nos ensinar. (FORATINNI, 2009, p. 106).<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, n\u00e3o encontraremos a verdade no exterior devido ao problema da linguagem humana e a raz\u00e3o humana chegar ao ponto de se esgotar. Mas estimulados pelas palavras buscaremos encontrar a verdade no nosso interior. A verdade habita em n\u00f3s, pois Deus nos revela Cristo com a verdade eterna e \u00e9 ele que nos ensina.<\/p>\n<p>Notas<\/p>\n<p>* Bacharelando em Filosofia \u2013 FAM.<br \/>\n\u00b9 Se n\u00e3o o crerdes, n\u00e3o vos mantereis firmes. (Is. 7, 9).<\/p>\n<p>Refer\u00eancias<\/p>\n<p>AGOSTINHO. Confiss\u00f5es. Tradu\u00e7\u00e3o J. Oliveira Santos, A. Ambr\u00f3sio de Pina. 3. ed. S\u00e3o Paulo: Abril Cultural, 1984. (Os Pensadores).<\/p>\n<p>______. De Magistro. Tradu\u00e7\u00e3o Angelo Ricci. 3. ed. S\u00e3o Paulo: Abril Cultural, 1984. (Os Pensadores).<\/p>\n<p>FORATINNI, Fernando Miramontes. Interioridade, Exterioridade e Linguagem em Santo Agostinho. Primeiros escritos, v. 1, n. 1, p. 97-107, 2009. Dispon\u00edvel em: &lt;http:\/\/www.academia.edu\/1312502\/Interioridade_Exterioridade_e_Linguagem_em_Santo_Agostinho&gt;. Acesso em 20 maio 2014.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Geraldo F\u00e1bio de Menezes* Resumo: O presente artigo tem como finalidade apresentar rela\u00e7\u00e3o da problem\u00e1tica da linguagem e a interioridade na obra De magistro de Agostinho, um tema de cunho gnosiol\u00f3gico, interioridade pela qual o ser humano est\u00e1 em busca da verdade. 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