{"id":2630,"date":"2015-11-04T14:28:52","date_gmt":"2015-11-04T16:28:52","guid":{"rendered":"http:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/?p=2630"},"modified":"2015-11-04T14:30:07","modified_gmt":"2015-11-04T16:30:07","slug":"resenha-do-livro-a-ideia-da-fenomenologia-edmund-husserl","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/?p=2630","title":{"rendered":"Resenha do Livro: &#8220;A ideia da fenomenologia&#8221; &#8211; Edmund Husserl"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\">Feita por : Fl\u00e1vio Nogueira Cunha*<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">HUSSERL, Edmund. A ideia da fenomenologia. Tradu\u00e7\u00e3o Artur Mor\u00e3o. Lisboa: Ed. 70, 2000. p. 39-66.<\/p>\n<p>Edmund Husserl nasceu em 08 de abril de 1959 na cidade de Prossinitz, em Mor\u00e1via, territ\u00f3rio pertencente ao Imp\u00e9rio Austro-H\u00fangaro, e faleceu em 1938. Husserl estudou nas universidades de Leipzig, Berlim e Viena. Depois tornou-se professor e lecionou inicialmente na Universidade de Berlim e, posteriormente, nas Universidades de Viena, Halle, Gottingen e Freiburg-im-Breisgau, onde encerrou sua carreira. Durante o per\u00edodo em que lecionava, recebeu influ\u00eancia de Brentano e escreveu v\u00e1rias obras como Filosofia da Aritim\u00e9tica (1891), Investiga\u00e7\u00f5es L\u00f3gicas (1901 e 1902), Ideias Diretrizes para uma Fenomenologia-logica (1913), Medita\u00e7\u00f5es Cartesianas (1929) e A Ideia da Fenomenologia (1907). \u00c9 um dos grandes fil\u00f3sofos da fenomenologia, sendo ele quem faz a ruptura com a filosofia Moderna ao abrir as portas para a uma nova forma de racioc\u00ednio, isto \u00e9, a fenomenologia. Esta ci\u00eancia parte da matem\u00e1tica e da psicologia, e preocupa-se com o estudo dos fen\u00f4menos do modo que se apresentam ao sujeito. A imagina\u00e7\u00e3o, o espa\u00e7o, o tempo e a empatia s\u00e3o dados ao sujeito por meio da consci\u00eancia que os apreende.<\/p>\n<p>Na Obra A Ideia da Fenomenologia, Edmund Husserl preocupa-se em apresentar as ra\u00edzes da sua reflex\u00e3o filos\u00f3fica. Husserl divide A Ideia da Fenomenologia metodologicamente em cinco li\u00e7\u00f5es \u00e0s quais foram pronunciadas em 1907, onde ele apresenta uma nova vis\u00e3o da raz\u00e3o, o que implica em sua linha de pensamento. No texto que segue, ater-se-\u00e1 \u00e0 primeira e \u00e0 segunda li\u00e7\u00e3o em que Husserl procura apresentar as primeiras defini\u00e7\u00f5es de fenomenologia. Al\u00e9m disso, ele se preocupa em compreender a ess\u00eancia do conhecimento, ou seja, como \u00e9 poss\u00edvel o conhecimento.<\/p>\n<p>Na primeira li\u00e7\u00e3o, Husserl apresenta a distin\u00e7\u00e3o entre atitude espiritual natural, da qual prov\u00e9m a ci\u00eancia natural, e atitude espiritual filos\u00f3fica, da qual prov\u00e9m a ci\u00eancia filos\u00f3fica. A atitude espiritual natural n\u00e3o se at\u00e9m \u00e0 cr\u00edtica do conhecimento, ou seja, tal atitude n\u00e3o \u00e9 capaz de atingir o conhecimento, pois todas as coisas presentes no mundo tornam-se de alguma forma objeto da investiga\u00e7\u00e3o natural. Nesta atitude, as coisas est\u00e3o a\u00ed e caem \u201cnaturalmente\u201d sobre a percep\u00e7\u00e3o. Desse modo, as ci\u00eancias naturais podem ser ci\u00eancias da natureza e tamb\u00e9m da natureza ps\u00edquica, as ci\u00eancias do esp\u00edrito e as ci\u00eancias da matem\u00e1tica.<\/p>\n<p>Na atitude intelectual filos\u00f3fica, Husserl mostra que ela \u00e9 esclarecida em seus prop\u00f3sitos abisais, ou seja, percebe-se um mist\u00e9rio acerca da possibilidade do conhecimento. Dessa maneira, a ess\u00eancia do conhecimento se apresenta como um problema, isto \u00e9, como um mist\u00e9rio a ser investigado. \u00c9 desse mist\u00e9rio sobre a busca pela ess\u00eancia do conhecimento que surge a atitude intelectual filos\u00f3fica. Husserl busca fundamentar a ess\u00eancia do conhecimento e sua possibilidade. Ent\u00e3o, pode-se dizer que o conhecimento \u00e9 uma viv\u00eancia de natureza ps\u00edquica, pois o homem busca ter consci\u00eancia de seu pr\u00f3prio conhecimento. Ao afirmar que o conhecimento \u00e9 uma percep\u00e7\u00e3o ps\u00edquica, diz-se assim, que ele \u00e9 uma das formas de viv\u00eancia do sujeito que percepciona, logo, porquanto se d\u00e3o na consci\u00eancia. De tal modo, somente os fen\u00f4menos s\u00e3o verdadeiramente dados ao cognoscente e esta \u00e9 justamente a conex\u00e3o das suas viv\u00eancias.<\/p>\n<p>Diante dos problemas referentes \u00e0 correla\u00e7\u00e3o entre conhecimento, sentido do conhecimento e objeto do conhecimento, cabe \u00e0 teoria do conhecimento ou cr\u00edtica da raz\u00e3o teor\u00e9tica solucion\u00e1-los. Sua tarefa \u00e9 uma tarefa cr\u00edtica, ou seja, ela deve procurar refutar as teorias sobre a ess\u00eancia do conhecimento. Husserl afirma que s\u00f3 a reflex\u00e3o gnosiol\u00f3gica separa a ci\u00eancia natural e filos\u00f3fica. As ci\u00eancias naturais do ser n\u00e3o s\u00e3o ci\u00eancias definitivas do ser. \u00c9 preciso uma ci\u00eancia do ente, e esta \u00e9 a metaf\u00edsica. Ele finaliza a primeira li\u00e7\u00e3o ao apresentar a defini\u00e7\u00e3o de fenomenologia como sendo uma ci\u00eancia, ou uma conex\u00e3o de disciplinas cient\u00edficas, como o estudo ou a ci\u00eancia do fen\u00f4meno ou de tudo aquilo que se manifesta e se revela \u00e0 consci\u00eancia. Al\u00e9m disso, a fenomenologia designa um m\u00e9todo e uma atitude intelectual, e esta atitude refere-se \u00e0 atitude filos\u00f3fica ou ao m\u00e9todo filos\u00f3fico propriamente dito.<\/p>\n<p>Ao seguir sua reflex\u00e3o na segunda li\u00e7\u00e3o, Husserl afirma que ao iniciar uma cr\u00edtica ao conhecimento, o importante \u00e9 submeter o \u00edndice da questionabilidade do mundo, da natureza f\u00edsica e ps\u00edquica, ao pr\u00f3prio ser humano, assim como as ci\u00eancias que dizem respeito a essas realidades. Tudo isso \u00e9 colocado em quest\u00e3o. Logo, o conhecimento \u00e9 um problema de dif\u00edcil compreens\u00e3o, carente de elucida\u00e7\u00e3o e algo duvidoso, isto \u00e9, a obscuridade cr\u00edtico-cognoscitiva faz com que n\u00e3o se compreenda que sentido exista em um ser que seja em si e que seja conhecido no conhecimento. Isso mostra que a apreens\u00e3o do conhecimento \u00e9 um mist\u00e9rio.<\/p>\n<p>Edmund Husserl faz uma recorda\u00e7\u00e3o \u00e0 medita\u00e7\u00e3o de Descartes quanto \u00e0 d\u00favida hiperb\u00f3lica operada em suas Medita\u00e7\u00f5es Metaf\u00edsicas. Ele diz que mesmo que se duvide de tudo da maneira mais c\u00e9tica, \u00e9 imposs\u00edvel duvidar que se existe \u00e0 medida que se duvida, isto \u00e9, nem tudo pode ser duvidoso, pois, ao afirmar que tudo \u00e9 duvidoso, seria absurdo manter uma d\u00favida universal. E isto, como se pode ver, vale para todos os atos do cogito. Husserl compara a percep\u00e7\u00e3o intuitiva e a fantasia intuitiva. Ele d\u00e1 pouca import\u00e2ncia ao fato de ser verdadeiro ou n\u00e3o o que ele percebe, pois o que importa \u00e9 a verdade da sua percep\u00e7\u00e3o. Husserl prop\u00f5e uma nova ci\u00eancia da cr\u00edtica do conhecimento a fim de elucidar sobre a sua ess\u00eancia, apesar do conhecimento ser questionado.<\/p>\n<p>Husserl mostra que n\u00e3o se deve colocar radicalmente em quest\u00e3o tudo o que transcende a experi\u00eancia intuitiva e imanente do \u201ceu percebo\u201d na tentativa de recuperar algo transcendental exterior. A transcend\u00eancia segundo Husserl \u00e9 o problema inicial e guia da cr\u00edtica do conhecimento, ou seja, \u00e9 enigma que bloqueia o caminho do conhecimento natural, constituindo assim o impulso para as novas investiga\u00e7\u00f5es. Apesar do conhecimento ser questionado, isso n\u00e3o implica que ele negue sua possibilidade. Assim, o conhecimento \u00e9 uma coisa distinta do objeto do conhecimento, ou seja, o conhecimento est\u00e1 dado, mas o objeto n\u00e3o. N\u00e3o se pode interrogar o que \u00e9 percebido na cogitatio, uma vez que o percebido enquanto um poss\u00edvel objeto transcendente j\u00e1 fora repudiado pela d\u00favida. Dessa forma, Husserl conclui a segunda li\u00e7\u00e3o ao tratar da redu\u00e7\u00e3o gnosiol\u00f3gica. \u00c9 preciso afetar toda a transcend\u00eancia concomitante com o \u00edndice da indiferen\u00e7a, da nulidade gnosiol\u00f3gica com outro \u00edndice que afirma n\u00e3o se importar com a exist\u00eancia de todas as transcend\u00eancias, crendo nelas ou n\u00e3o. Desse modo, o conhecimento deve procurar conhecer o objeto.<\/p>\n<p>A obra A ideia da Fenomenologia \u00e9 apresentada em cinco li\u00e7\u00f5es, das quais foram explicitadas as duas primeiras. Husserl \u00e9 um autor exigente, e a leitura exige aten\u00e7\u00e3o e clareza dos termos que lhe s\u00e3o pr\u00f3prios. Nessas li\u00e7\u00f5es, ele se prop\u00f5e trabalhar como \u00e9 poss\u00edvel em geral o conhecimento e o que pode ser conhecido. Pode-se concluir a partir da leitura da primeira e segunda li\u00e7\u00e3o que a fenomenologia \u00e9 a ci\u00eancia do fen\u00f4meno, isto \u00e9, de tudo aquilo que se manifesta e se revela \u00e0 consci\u00eancia. Assim, a fenomenologia consiste num m\u00e9todo que se deriva de uma atitude sem pressupostos, que tem por objetivo dar bases s\u00f3lidas de uma ci\u00eancia rigorosa, isto \u00e9, procura voltar \u00e0 coisa como ela \u00e9. Segundo Husserl, a consci\u00eancia \u00e9 intencionalidade, uma vez que qualquer consci\u00eancia \u00e9 consci\u00eancia de algo. Sendo assim, a consci\u00eancia constitui uma atividade formada por atos dispostos num feixe vivencial e que torna poss\u00edvel perceber algo. Tais atos s\u00e3o a imagina\u00e7\u00e3o, percep\u00e7\u00e3o e viola\u00e7\u00e3o, sendo estes o que permite perceber alguma coisa. A consci\u00eancia possui um modo de ser e este \u00e9 a intencionalidade enquanto capacidade de transcender a outra coisa. A intencionalidade \u00e9 um modo de ser da consci\u00eancia enquanto um transcender em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 outra coisa. A consci\u00eancia n\u00e3o est\u00e1 no mundo, \u00e9 transcendental. De tal modo, como mostra Husserl, o objeto s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel de ser definido em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 consci\u00eancia, ou seja, o objeto \u00e9 objeto para algum determinado sujeito.<\/p>\n<p>Com esta obra de Husserl, percebe-se sua import\u00e2ncia no pensamento contempor\u00e2neo quando se prop\u00f5e a trabalhar a dimens\u00e3o do conhecimento. Mesmo diante do que Descartes e outros fil\u00f3sofos j\u00e1 trabalharam, Husserl vai al\u00e9m da reflex\u00e3o destes ao propor uma reflex\u00e3o com car\u00e1ter cient\u00edfico, tornando a fenomenologia n\u00e3o apenas uma atitude intelectual natural, mas uma atitude intelectual filos\u00f3fica. Para que a verdade filos\u00f3fica se torne permanente, \u00e9 preciso que ela alcance as coisas da forma como estas se apresentam \u00e0 consci\u00eancia. Assim, a filosofia deve buscar o alcance da ess\u00eancia do conhecimento. Esta obra de Husserl coloca todas as coisas enquanto fen\u00f4meno da consci\u00eancia, de tal modo que se pode interrogar como \u00e9 poss\u00edvel compreender que tudo o que est\u00e1 em torno de um sujeito, existe somente em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 consci\u00eancia. N\u00e3o seria permanecer subjetivista como Descartes e psicologista como Brentano?<\/p>\n<p>Esta obra de Edmund Husserl contribui muito e \u00e9 essencial para uma compreens\u00e3o filos\u00f3fica, principalmente no que diz respeito ao pensamento contempor\u00e2neo. \u00c9 dirigida a todo p\u00fablico da academia filos\u00f3fica, ou para quem se sente admirado pelo saber, pelo conhecimento, mas principalmente, para quem deseja pesquisar a contemporaneidade, pois Husserl est\u00e1 entre os autores que mais influenciaram este per\u00edodo.<\/p>\n<p>Notas<br \/>\n*Graduando em Filosofia na FAM<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Feita por : Fl\u00e1vio Nogueira Cunha* HUSSERL, Edmund. A ideia da fenomenologia. Tradu\u00e7\u00e3o Artur Mor\u00e3o. Lisboa: Ed. 70, 2000. p. 39-66. Edmund Husserl nasceu em 08 de abril de 1959 na cidade de Prossinitz, em Mor\u00e1via, territ\u00f3rio pertencente ao Imp\u00e9rio Austro-H\u00fangaro, e faleceu em 1938. 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