{"id":2638,"date":"2016-02-18T13:21:24","date_gmt":"2016-02-18T15:21:24","guid":{"rendered":"http:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/?p=2638"},"modified":"2016-02-18T13:21:24","modified_gmt":"2016-02-18T15:21:24","slug":"relacao-entre-deus-e-homem-no-pensamento-echartiano","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/?p=2638","title":{"rendered":"RELA\u00c7\u00c3O ENTRE DEUS E HOMEM NO PENSAMENTO ECHARTIANO"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\"><em>\u201c(&#8230;) na ess\u00eancia da alma, que \u00e9 a sua parte mais secreta. Ali \u00e9 que est\u00e1 o silencioso meio que criatura alguma jamais chegou. (&#8230;) Ali Deus entra na alma com sua for\u00e7a total e n\u00e3o parcialmente\u201d.<\/em><br \/>\n<em> (Mestre Echart)<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">Cleiton Henrique Lopes*<\/p>\n<p>RESUMO: O presente trabalho aborda o pensamento do fil\u00f3sofo m\u00edtico alem\u00e3o, Mestre Echart. A pertin\u00eancia de se abordar o pensamento echartiano reside no contexto no qual ele est\u00e1 situado, a saber, no contexto de decl\u00ednio da filosofia escol\u00e1stica, ou seja, do colapso da d\u00edade f\u00e9-raz\u00e3o. Com isso, Echart se prop\u00f5e, atrav\u00e9s da filosofia e de elementos do misticismo, resguardar a perspectiva transcendental do homem e, assim, a retardar o rompimento da liga\u00e7\u00e3o entre f\u00e9 e raz\u00e3o. Neste contexto, o presente trabalho se prop\u00f5e a abordar o pensamento echartiano a partir de um dos seus pontos basilares: a rela\u00e7\u00e3o entre o homem e Deus.<br \/>\nPALAVRAS CHAVE: Filosofia escol\u00e1stica. F\u00e9. Raz\u00e3o. Misticismo<\/p>\n<p>CONSIDERA\u00c7\u00d5ES INICIAIS<\/p>\n<p>O s\u00e9culo XIV \u00e9 marcado pelo not\u00e1vel decl\u00ednio da Filosofia Escol\u00e1stica, ou seja, pela ruptura da d\u00edade f\u00e9-raz\u00e3o. Deste modo, tal contexto tornou o cen\u00e1rio propenso para o desenvolvimento do chamado misticismo especulativo, no qual, o homem mais uma vez defronta-se com o limiar da necessidade de uma nova forma de reestabelecer o contato com Deus, haja vista a realidade da dissolu\u00e7\u00e3o da pretens\u00e3o escol\u00e1stica de instrumentalizar a raz\u00e3o para alcan\u00e7\u00e1-lo. \u00c9 neste contexto que nosso autor, o alem\u00e3o Mestre Echart, desenvolve e sistematiza o seu pensamento.<br \/>\nAssim sendo, o presente trabalho visa, a partir das contribui\u00e7\u00f5es do pr\u00f3prio autor e de seus comentadores, estabelecer uma compreens\u00e3o de seu pensamento acerca da rela\u00e7\u00e3o entre Deus e homem, tendo em vista que a necessidade de se reestabelecer esta rela\u00e7\u00e3o \u00e9 um dado que marca o per\u00edodo e possibilita, de certa forma, o desenvolvimento de seu pensamento. Para isto, iremos partir da compreens\u00e3o que se tem de Deus e do homem no pensamento echartiano e, num passo ulterior, tentaremos estabelecer como se d\u00e1 a rela\u00e7\u00e3o entre os pares, tendo como perspectiva central de compreens\u00e3o o elemento da interioridade como via que a torna poss\u00edvel.<\/p>\n<p>1.1. Deus e a sua transcend\u00eancia sobre o homem<\/p>\n<p>O pensamento echartiano \u00e9 perpassado pela t\u00eanue rela\u00e7\u00e3o que se d\u00e1 entre Deus e homem. Mais precisamente, esta rela\u00e7\u00e3o \u00e9 caracterizada pela \u201cideia de unidade entre Deus e homem, entre o sobrenatural e o natural\u201d (REALE, Giovanni; ANTISERI, Dario. 1990, p. 645). Tal rela\u00e7\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel em um pensamento que, n\u00e3o obstante o fato de que ele est\u00e1 situado no contexto da filosofia Escol\u00e1stica, e, assim sendo, ser de teor filos\u00f3fico, \u00e9 embebido pelo elemento do misticismo, o qual caracteriza a filosofia de Mestre Echart. Assim sendo, \u201cna sua teodiceia, Echart procura focalizar, principalmente, a transcend\u00eancia de Deus sobre todo ser humano e criado\u201d (BOEHNER, Philotheus; GILSON, Etiene; 1988, p. 522).<br \/>\nTal transcend\u00eancia se sucede uma vez que \u201co ser e o conhecer coincidem realmente em Deus (&#8230;) porque Deus \u00e9 intelecto e conhecimento e o seu conhecer \u00e9 o fundamento do pr\u00f3prio ser\u201d (ECHART apude REALE, Giovanni; ANTISERI, Dario. 1990, p. 645). Deste modo, de certa forma, \u00e9 poss\u00edvel afirmar que Echart estabelece o conhecimento como sendo uma dada raz\u00e3o ontol\u00f3gica de Deus que o torna acess\u00edvel aos homens. Assim, \u201cDeus n\u00e3o conhece porque \u00e9, mas \u00e9 porque conhece\u201d (BOEHNER, Philotheus; GILSON, Etiene; 1988, p. 522).<br \/>\nNeste sentido, conforme destacam os autores BOEHNER e GILSON, Echart se apropria da cita\u00e7\u00e3o do evangelista Jo\u00e3o para elucidar tal fato estabelecido e, n\u00e3o obstante, se utiliza de uma dada par\u00f3dia de tal cita\u00e7\u00e3o para, assim, negar a primeira no intu\u00eddo de aproveitar-se ao m\u00e1ximo da ideia contida nesta \u00faltima . Mais precisamente, por um lado, trata-se da passagem na qual se encontra registrado o seguinte: \u201cno come\u00e7o era o Verbo, e o Verbo estava com Deus\u201d, e, por outro lado, \u201cn\u00e3o: \u2018no come\u00e7o era o Ser, e o Ser estava com Deus\u2019\u201d (1988, p. 522).<br \/>\nAssim, para dizer do Deus Criador, Echart parte do princ\u00edpio de que \u201cdesde sempre est\u00e1 presente em Deus a ideias das criaturas e a vontade de criar\u201d (REALE, Giovanni; ANTISERI, Dario. 1990 p. 645). Desta forma, o conhecer entra no primeiro grau da hierarquia das perfei\u00e7\u00f5es celestes, seguido pelo ser.<br \/>\nUma vez considerada a exist\u00eancia de um Deus Criador estabelece-se a necessidade de considerar ambos, ou seja, Criador e a criatura. Diante de tal quest\u00e3o, o pensamento echartiano, ao destacar o elemento do profundo conhecimento do Criador (donde prov\u00e9m, inclusive, o conhecimento humano) acaba por afirm\u00e1-Lo enquanto Criador de todas as coisas e, n\u00e3o obstante este fato, eleva o Criador a um patamar, em certo sentido , inalcan\u00e7\u00e1vel pela criatura: ele \u00e9 o Ser que supera o ser. Deste modo, \u201ctodas as coisas foram feitas pelo Verbo, isto \u00e9, pelo \u201cinteligere\u201d ou conhecer divino. Logo o ser n\u00e3o compete sen\u00e3o \u00e0quilo que foi feito pelo Verbo\u201d (BOEHNER, Philotheus; GILSON. 1988, p. 523).<br \/>\nComo, pois, n\u00e3o confundir o ser do Criador com o ser da criatura uma vez que ambos existem? Para evitar tal confus\u00e3o o pensamento echartiano considera o ser do Criador como \u201ca pureza do ser\u201d: \u201cDeus est\u00e1 isento do ser criado, ou o que vem a ser o mesmo, Deus est\u00e1 isento do ser (BOEHNER, Philotheus; GILSON. 1988, p. 523). Ou ainda, \u201cn\u00e3o h\u00e1 em Deus nenhum ser (cri\u00e1vel), Ele \u00e9 intelec\u00e7\u00e3o. Sabedoria. Conhecimento e Entendimento\u201d (BOEHNER, Philotheus; GILSON. 1988, p. 523). Neste sentido, \u201co mesmo Deus que est\u00e1 em todas as criaturas \u00e9 o mesmo que est\u00e1 acima delas, pois aquilo que \u00e9 uno em muitas coisas deve estar necessariamente acima das coisas\u201d (REALE, Giovanni; ANTISERI, Dario. 1990, p.646).<br \/>\nSe o ser de Deus n\u00e3o \u00e9 o mesmo ser das criaturas uma quest\u00e3o surge: quem \u00e9 Deus? Diante desta pergunta, por mais que se possa parecer contradit\u00f3rio, devido ao fato de que o autor considerado n\u00e3o pretende afirmar e associar a exist\u00eancia de Deus a ideia, a no\u00e7\u00e3o de ser, o mesmo \u00e9 for\u00e7ado a conceber Deus como sendo, em certa medida, um ser. Isto porque \u201cse fosse distinto de Deus, o ser n\u00e3o seria predic\u00e1vel Dele, nem se poderia afirmar que Deus existe (&#8230;) se n\u00e3o fosse id\u00eantico ao ser dever-se-ia postular uma coisas que lhe fosse anterior e O produzisse (BOEHNER, Philotheus; GILSON. 1988, p. 524).<br \/>\nAssim Deus, no pensamento echartiano, \u00e9 admitida a ideia de que Deus possui um ser. Com efeito, tal admiss\u00e3o, operosamente, vem refor\u00e7ar a ideia de Deus \u00e9 o Criador de todas as coisas. Pois, \u201cdado que o ser \u00e9 id\u00eantico a Deus, nada h\u00e1 se Deus n\u00e3o \u00e9, (&#8230;). Assim, como n\u00e3o haveria branco n\u00e3o fosse a brancura (BOEHNER, Philotheus; GILSON. 1988, p. 525).<\/p>\n<p>1.2. O homem como ser capaz de relacionar-se com Deus<\/p>\n<p>Uma vez estabelecida a transcend\u00eancia de Deus, o Criador, sobre o homem, a criatura, bem como, considerado a relev\u00e2ncia conferida pelo pensamento echartiano ao conhecer divino (\u201cintelegere\u201d), resta-nos dedicar um pouco mais neste segundo elemento desta rela\u00e7\u00e3o transcendental, ou seja, o homem. Neste sentido, vale destacar que, para os autores BOEHNER e GILSON (1988, p. 527), em sua antropologia, Echart, empenha-se em fazer ver a exist\u00eancia, no homem, de uma liga\u00e7\u00e3o imediata com Deus .<br \/>\nPara que esta rela\u00e7\u00e3o seja poss\u00edvel deve ser considerada uma express\u00e3o cara no pensamento echartiano: trata-se da \u201ccentelha da alma\u201d. Isto na medida em que, \u00e9 gra\u00e7as a esta centelha, que tal liga\u00e7\u00e3o torna-se poss\u00edvel. Haja vista que, para al\u00e9m de outras considera\u00e7\u00f5es, Echart bebe do pensamento agostiniano a no\u00e7\u00e3o de distin\u00e7\u00e3o entre \u201craz\u00e3o superior\u201d e \u201craz\u00e3o inferior\u201d, aqui tomadas como duas faces da alma.<br \/>\nCom efeito, para Echart, \u201co \u00e1pice ou a parte mais profunda da raz\u00e3o superior, por\u00e9m \u00e9 a centelha da alma, em que convergem as tr\u00eas pot\u00eancias nobres da alma, a raz\u00e3o, a vontade e a mem\u00f3ria, para formar o ponto de contato com a divindade\u201d (BOEHNER, Philotheus; GILSON. 1988, p. 527). Deste modo, cabe \u00e0 centelha da alma a nobre fun\u00e7\u00e3o de tornar o homem propenso para tomar contato (relacionar-se) com a divindade.<br \/>\nDesta forma, corroborando para a compreens\u00e3o da imagem do homem que, gra\u00e7as \u00e0 centelha da alma \u00e9 propenso a ter contato com a divindade, o pensamento echartiano a associa a centelha da alma com a imagem da Sant\u00edssima Trindade. Assim, \u201c[a centelha da alma] \u00e9, antes de mais nada, uma pot\u00eancia suprema e alt\u00edssima, pela qual a alma se abre \u00e0 verdade divina; \u00e9 ainda, uma pot\u00eancia pela qual a alma se abre a bondade e amor de Deus; e, finalmente, \u00e9 uma pot\u00eancia que torna a alma verdadeiramente livre\u201d (BOEHNER, Philotheus; GILSON. 1988, p. 527).<br \/>\nCom isso, a centelha da alma \u00e9 associada \u00e0 figura de Deus Pai na medida em que considera-se a abertura \u00e0 verdade divina, ou melhor, na medida em que se considera tal centelha como sendo a pot\u00eancia suprema e alt\u00edssima que permite tal feito. Por sua vez, a associa\u00e7\u00e3o ao Deus Filho, &#8211; express\u00e3o do amor do Pai que ao O enviar para fazer a Reden\u00e7\u00e3o, ao revelar \u00e0 humanidade o Deus amor -, se faz presente no sentido de esclarecer que a centelha em quest\u00e3o \u00e9 como que um meio concreto que torna a alma humana aberta para relacionar-se com Deus, fonte de todo conhecimento. J\u00e1 a associa\u00e7\u00e3o feita \u00e0 imagem do Esp\u00edrito Santo, o \u201cpneuma\u201d, o sopro da vida, \u00e9 justific\u00e1vel no sentido de apontar para o fato de que a centelha da alma possibilita ao homem a liberdade necess\u00e1ria para que esta rela\u00e7\u00e3o aconte\u00e7a.<br \/>\nDiante do que foi apresentado acerca do pensamento echartiano, ou seja, que gra\u00e7as a centelha da alma a alma humana \u00e9 propensa a relacionar-se com a divindade, vale a pena considerar o intelecto como elemento que corrobora em tal rela\u00e7\u00e3o. Para ele, \u201c[o intelecto humano] \u00e9 portador de vida divina, que ele \u2013 por mist\u00e9rio incompreens\u00edvel &#8211; \u00e9 capaz de atingir: a alma humana \u00e9 capaz de conceber a Deus\u201d (BOEHNER, Philotheus; GILSON. 1988, p. 528).<br \/>\nCom efeito, vale destacar que o intelecto, antes de qualquer coisa, aponta para a centelha da alma como caminho para decisiva participa\u00e7\u00e3o de Deus, haja vista que, para todos os efeitos, este \u00e9 dado ao homem n\u00e3o de maneira plena. Assim, \u201cna alma h\u00e1 algo criado, a saber, o intelecto. Se a alma fosse inteiramente intelecto, e se sua ess\u00eancia fosse \u2018puro intelecto\u2019 ela seria incriada\u201d (BOEHNER, Philotheus; GILSON. 1988, p. 528). Ou ainda, \u201ca alma n\u00e3o possui intelecto em forma absoluta, mas em forma atenuada; \u00e9 criado segundo o intelecto de Deus, do qual participa, assim como o branco participa da brancura\u201d (BOEHNER, Philotheus; GILSON. 1988, p. 528).<\/p>\n<p>1.3. A rela\u00e7\u00e3o entre Deus e homem como um processo de interioridade<\/p>\n<p>Uma vez considerada, por um lado, a transcend\u00eancia de Deus sobre o homem e, n\u00e3o obstante a este fato, por outro lado, considerada a capacidade que este \u00faltimo possui de voltar-se para Deus e, assim sendo, relacionar-se com Deus, torna-se necess\u00e1rio conferir um papel de destaque a esta rela\u00e7\u00e3o que, por sinal, \u00e9 cara no pensamento m\u00edstico de Mestre Echart. Qual \u00e9 o seu fundamento basilar? Qual a condi\u00e7\u00e3o b\u00e1sica? Como se d\u00e1 esta rela\u00e7\u00e3o?<br \/>\nAjuda-nos a responder a primeira pergunta constatarmos que, segundo o pensamento echartiano, o homem possui uma necessidade natural de relacionar-se com Deus. Assim, para Echart, \u201ctudo aquilo que existe, existe por obra do Ser divino, que \u2018ama necessariamente\u2019. Assim, as coisas e o pr\u00f3prio homem nada s\u00e3o sem Deus. Essa \u00e9 a raz\u00e3o pela qual o homem deve voltar-se para Deus: somente retornando a Deus \u00e9 que o homem se encontrar\u00e1 a si mesmo\u201d (REALE, Giovanni; ANTISERI, Dario. 1990, p. 646).<br \/>\nUma vez considerada esta necessidade b\u00e1sica, bem como, a transcend\u00eancia de Deus em rela\u00e7\u00e3o ao homem e a capacidade deste relacionar-se com Deus, torna-se necess\u00e1rio considerarmos o conte\u00fado da segunda pergunta, ou seja, aquilo que diz respeito a condi\u00e7\u00e3o para que esta rela\u00e7\u00e3o aconte\u00e7a. Neste sentido, Echart considera como condi\u00e7\u00e3o, n\u00e3o somente b\u00e1sica como, tamb\u00e9m, indispens\u00e1vel, a abertura da alma humana \u00e0 transcend\u00eancia divina, tendo como via b\u00e1sica para que isto aconte\u00e7a, o desapego das coisas terrenas:<\/p>\n<p>subordinando todas as virtudes crist\u00e3s ao desapego, que \u00e9 o estado da alma livre (\u2018ledic\u2019, \u2018esvaziada\u2019), de toda representa\u00e7\u00e3o ou imagem, ele [Mestre Echart] assimila o vazio interior da alma ao lugar natural de Deus e formula em termos quase \u2018f\u00edsicos\u2019 uma lei de comunica\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria que obriga Deus a prodigalizar-se, por causa do pr\u00f3prio ser, a toda alma pronta a acolh\u00ea-lo\u201d (LIBERA. 1988, p. 428).<\/p>\n<p>Ainda neste sentido, com efeito, agora bebendo direto da fonte, ou seja, da obra do pr\u00f3prio autor, neste caso, o cap\u00edtulo primeiro dos Serm\u00f5es Alem\u00e3es, escrito por ocasi\u00e3o do Natal, no qual o mesmo usa da imagem do \u201cnascimento\u201d para falar do fruto desta rela\u00e7\u00e3o, ou seja, o contato da alma com Deus, temos: \u201cpois tudo aquilo que falarei aqui [acerca do mencionado nascimento] \u00e9 para ser entendido do homem purificado e est\u00e1vel que trilha os caminhos de Deus; n\u00e3o \u00e9 claro do homem natural e sem pr\u00e1tica, pois este est\u00e1 totalmente distanciado desde o nascimento, al\u00e9m de o ignorar\u201d (p. 2). Ou seja, este nascimento, esta rela\u00e7\u00e3o transcendental, s\u00f3 pode se suceder naqueles que trilham os caminhos de Deus, que s\u00e3o purificados, est\u00e1veis e que, por assim ser, est\u00e3o abertos a tal rela\u00e7\u00e3o; deste modo, o contr\u00e1rio acontece com os que n\u00e3o est\u00e3o.<br \/>\nAssim sendo, uma vez considerada a necessidade natural do homem em relacionar-se com Deus, bem como, observada a abertura \u00e0 transcend\u00eancia divina como condi\u00e7\u00e3o b\u00e1sica, resta-nos responder a terceira pergunta: Como esta rela\u00e7\u00e3o se d\u00e1?<br \/>\nPara respond\u00ea-la \u00e9 necess\u00e1rio considerarmos que para Echart a via para tanto passa, antes de qualquer coisa, pelo processo de interioridade. Portanto, para que a rela\u00e7\u00e3o considerada se suceda \u00e9 necess\u00e1rio que o indiv\u00edduo volte-se, por completo, para o seu interior, para a parte mais nobre da alma, onde a alma \u00e9 propriamente receptiva a tal:<\/p>\n<p>(&#8230;) em que localidade exata da alma Deus o Pai d\u00e1 o seu recado, onde acontece o nascimento, e onde a alma \u00e9 receptiva a tal \u2013 naquela parte mais pura, elevada e s\u00fatil da alma. (&#8230;) a alma onde este nascimento ocorrer deve se manter pura e viver em nobre estilo, por completa dona de si mesma e voltada em sua totalidade para o interior: n\u00e3o saindo a todo instante pelos cinco sentidos para a multiplicidade das criaturas, mas voltada para dentro, recolhida na parte mais pura\u201d (ECHART, p. 2).<\/p>\n<p>Deste modo, partindo da considera\u00e7\u00e3o da interioridade como via de estabelecimento da rela\u00e7\u00e3o entre Deus e homem, Echart determina at\u00e9 mesmo o local indicado para que este \u201cnascimento\u201d aconte\u00e7a: \u201c[na] ess\u00eancia da alma, que \u00e9 a sua parte mais secreta. Ali \u00e9 que est\u00e1 o silencioso meio que criatura alguma jamais chegou\u201d (p. 3).<br \/>\nDiante disso, uma vez sendo considerado este lugar, ou seja, o \u201csilencioso meio\u201d, onde a alma est\u00e1 mais aberta para comunicar-se com Deus, Echart ainda faz uma considera\u00e7\u00e3o acerca de como esta rela\u00e7\u00e3o \u00e9 estabelecida: sem mediadores. Assim, \u201csem qualquer semelhan\u00e7a, intermedi\u00e1rio ou imagem \u2013 Deus age diretamente na alma; naquele ch\u00e3o do qual fal\u00e1vamos, onde imagem alguma jamais penetrou, apenas Ele mesmo com o seu Ser\u201d (ECHART, p. 4).<\/p>\n<p>CONSIDERA\u00c7\u00d5ES FINAIS<\/p>\n<p>Bem feitas as contas \u00e9 percept\u00edvel a influ\u00eancia do misticismo no pensamento Echartiano. Em decorr\u00eancia disso, \u00e9 dif\u00edcil precisar se o autor em quest\u00e3o \u00e9 um m\u00edstico que constr\u00f3i seu pensamento no per\u00edodo da Escol\u00e1stica ou um Escol\u00e1stico m\u00edstico. De certo prevalece a primeira op\u00e7\u00e3o dado o grau do misticismo encontrado em sua produ\u00e7\u00e3o.<br \/>\nNeste sentido, uma vez dado o relevo necess\u00e1rio ao misticismo como elemento fundante do pensamento echartiano, torna-se poss\u00edvel, desta forma, compreender a partir de que base ele consegue afirmar Deus como sendo Aquele que transcende ao homem e, por sua vez, atribuir a este \u00faltimo a capacidade de se relacionar com Deus, sobretudo, a partir da \u201ccentelha da alma\u201d. No entanto o que n\u00e3o pode passar por despercebido \u00e9 o fato de que, deste modo, Echart consegue, em certa medida, cumprir a tarefa que lhe era proposta: encontrar uma nova forma para que o homem pudesse relacionar-se com Deus da o colapso eminente da d\u00edade f\u00e9-raz\u00e3o.<br \/>\nCom efeito, o que mais corrobora para afirmar a presen\u00e7a do misticismo no pensamento echartiano \u00e9 a considera\u00e7\u00e3o desta rela\u00e7\u00e3o , ou seja, da rela\u00e7\u00e3o Deus e homem, tendo como ponto de partida a experi\u00eancia da interioridade como via para tal. Assim, nesta rela\u00e7\u00e3o, com tudo o que a respeito dela expomos no presente trabalho, o misticismo \u00e9 levado a cabo pelo mencionado autor.<\/p>\n<p>REFER\u00caNCIAS:<br \/>\nBOEHNER, Philotheus; GILSON, Etiene. Hist\u00f3ria da filosofia. Tradu\u00e7\u00e3o Raimundo Vier. 4. ed. Petr\u00f3polis: Vozes, 1988.<br \/>\nEchart, Mestre. Os serm\u00f5es alem\u00e3es completos. Tradu\u00e7\u00e3o Marcos Beltr\u00e3o. Dispon\u00edvel em: &lt;https:\/\/caminhodomeio.files.wordpress.com&gt; Acesso em: 07 de set. de 2015.<br \/>\nLIBERA, Alain de. Filosofia ocidental. Tradu\u00e7\u00e3o Nicol\u00e1s Nyimi Campan\u00e1rio. Yvone Maria de Campos Teixeira da Silva. S\u00e3o Paulo; Loyola, 1988.<br \/>\nREALE, Giovanni. ANTISERI, Dario. Hist\u00f3ria da filosofia: antiguidade e m\u00e9dia. S\u00e3o Paulo: Paulus, 1990.<\/p>\n<p>NOTAS:<br \/>\n* &#8211; Graduando do 2 \u00ba per\u00edodo do Curso de Filosofia da FAM (Faculdade Arquidiocesana de Mariana).<br \/>\n1 &#8211; Inalcan\u00e7\u00e1vel no sentido de se estabelecer uma dada equival\u00eancia, haja vista que, conforme veremos, \u00e9 o conhecimento, presente no Criador e na criatura, que permite ambos relacionar-se, obviamente, o tanto quanto a criatura esvaziar-se de si para acolher \u201cno ch\u00e3o da alma\u201d o Criador.<br \/>\n2 &#8211; Esta rela\u00e7\u00e3o ser\u00e1 melhor aprofundada no terceiro t\u00f3pico do nosso trabalho, com efeito, para melhor compreend\u00ea-la, a luz do que j\u00e1 dissemos acerca de Deus, cumpre-nos o dever de esclarecer um pouco mais sobre o homem no pensamento echartiano.<br \/>\n3 &#8211; Ainda n\u00e3o vamos adentrar nas condi\u00e7\u00f5es apontadas pelo autor para que, de fato, a alma alcance tal feito. Tal quest\u00e3o ser\u00e1 abordada, ainda que brevemente, no terceiro t\u00f3pico.<br \/>\n4 &#8211; Tal pensamento \u00e9 compreens\u00edvel o tanto quanto consideramos o que j\u00e1 afirmamos anteriormente, ou seja, que Deus exerce uma dada transcend\u00eancia sobre o homem e que este, por sua vez, \u00e9 capaz de relacionar-se com Deus (a partir da centelha da alma).<br \/>\n5 &#8211; (Apropriando-se do contexto da Festa Lit\u00fargica do Natal do Senhor, \u00e9 claro)<br \/>\n6 &#8211; A rela\u00e7\u00e3o entre Deus e homem como um processo de interioridade.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201c(&#8230;) na ess\u00eancia da alma, que \u00e9 a sua parte mais secreta. Ali \u00e9 que est\u00e1 o silencioso meio que criatura alguma jamais chegou. (&#8230;) Ali Deus entra na alma com sua for\u00e7a total e n\u00e3o parcialmente\u201d. (Mestre Echart) Cleiton Henrique Lopes* RESUMO: O presente trabalho aborda o pensamento do fil\u00f3sofo m\u00edtico alem\u00e3o, Mestre Echart. &hellip; <\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_mi_skip_tracking":false,"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":{"0":"entry","1":"post","2":"publish","3":"author-admin","4":"post-2638","6":"format-standard","7":"category-uncategorized"},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2638","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=2638"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2638\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2639,"href":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2638\/revisions\/2639"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=2638"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=2638"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=2638"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}