{"id":2654,"date":"2016-12-05T09:53:46","date_gmt":"2016-12-05T11:53:46","guid":{"rendered":"http:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/?p=2654"},"modified":"2016-12-05T09:53:46","modified_gmt":"2016-12-05T11:53:46","slug":"a-religiao-em-sigmund-freud","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/?p=2654","title":{"rendered":"A RELIGI\u00c3O EM SIGMUND FREUD"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\">H\u00e9rcules Amorim Werneck\u00b9<\/p>\n<p>Resumo: O presente artigo falar\u00e1 de forma atenuada sobre alguns conceitos da psican\u00e1lise freudiana, seu pensamento a respeito da religi\u00e3o bem como suas justificativas sobre o surgimento e seu funcionamento na vida humana. Para falar da quest\u00e3o religiosa, Freud se vale justamente de sua teoria do desenvolvimento e aponta fatores desde a inf\u00e2ncia que culminam na cria\u00e7\u00e3o de Deus e no surgimento da religi\u00e3o como meio de se esconder dos perigos e se iludir em uma farsa que seja protetora. Daremos aten\u00e7\u00e3o especial ao Complexo de \u00c9dipo, que fala do relacionamento da crian\u00e7a com os pais e, depois, alude ao relacionamento com a figura de Deus, e trataremos tamb\u00e9m do entendimento freudiano da cultura e da religi\u00e3o entendida de forma an\u00e1loga como uma neurose.<\/p>\n<p>Palavras chaves: Freud. Complexo de \u00c9dipo. Cultura. Religi\u00e3o. Deus.<\/p>\n<p>INTRODU\u00c7\u00c3O<\/p>\n<p>Quais as influencias que a religi\u00e3o pode ter na vida de um indiv\u00edduo? O psicanalista Carl Gustav Jung afirma sua import\u00e2ncia e diz que a perda da f\u00e9 pode significar at\u00e9 mesmo origem de doen\u00e7as mentais, enquanto na autenticidade resulta em equil\u00edbrio. Mas, a perspectiva freudiana dentro da discuss\u00e3o acerca da religi\u00e3o e de Deus \u00e9 justamente outra. Podemos destacar Sigmund Freud como um combatente de tais perspectivas, afinal, sabemos que para ele a religi\u00e3o \u00e9 vista como uma ilus\u00e3o e uma farsa.<\/p>\n<p>Mas com que base Freud afirma isso? A partir de pesquisas sobre alguns temas de sua teoria psicanal\u00edtica como o Complexo de \u00c9dipo e as neuroses conseguimos entender a base de sua cr\u00edtica. Escrevemos, pois, este artigo a fim de explicar qual \u00e9 e seus fundamentos. Tomamos por base o ensaio \u201cFuturo de uma ilus\u00e3o\u201d de autoria do pr\u00f3prio autor estudado, e de comentadores, al\u00e9m do pr\u00f3prio conte\u00fado desenvolvido em sala de aula para tal trabalho.<\/p>\n<p>O presente artigo se desenvolve ent\u00e3o em tr\u00eas t\u00f3picos: no primeiro escreveremos sobre a cultura em Freud, no segundo trataremos sobre a religi\u00e3o observando-a sobre alguns aspectos como neurose universal e medida repressiva e, enfim, no terceiro t\u00f3pico falaremos sobre o Complexo de \u00c9dipo, a religi\u00e3o e Deus, abordando a an\u00e1lise de Freud sobre o conflito primordial e o Deus judeu-crist\u00e3o, a fim de compreendermos de modo mais amplo a religi\u00e3o e Deus no pensamento de Sigmund Freud.<\/p>\n<p>1. A cultura segundo Freud<\/p>\n<p>Iniciamos primeiramente falando das quest\u00f5es culturais em Freud, uma vez que, a partir deste ponto, ele entender\u00e1 e explicar\u00e1 o funcionamento da religi\u00e3o na vida do ser humano. Ele deixa bem claro que n\u00e3o diferencia cultura e civiliza\u00e7\u00e3o quando diz \u201cme refiro a tudo aquilo que em vida humana se elevou acima de suas condi\u00e7\u00f5es animais e se distingue da vida dos bichos\u201d (FREUD. 2010, p. 23) e ainda \u201c[&#8230;] e eu me recuso a separar cultura e civiliza\u00e7\u00e3o\u201d (FREUD. 2010, p. 23).<\/p>\n<p>H\u00e1 dentro desse processo cultural dois caminhos que se cruzam. O primeiro \u00e9 a capacidade de dominar as for\u00e7as da natureza para sua satisfa\u00e7\u00e3o e o segundo se d\u00e1 nas institui\u00e7\u00f5es que regularizam as rela\u00e7\u00f5es dos homens entre si. Essa interdepend\u00eancia se d\u00e1 por tr\u00eas motivos, a saber: a satisfa\u00e7\u00e3o dos impulsos, a contempla\u00e7\u00e3o do relacionamento com o outro como um bem, seja atrav\u00e9s de sua for\u00e7a de trabalho ou a n\u00edvel sexual e, em terceiro lugar, porque toda e qualquer pessoa \u00e9 inimiga da cultura.<\/p>\n<p>Freud considera que, por mais que os indiv\u00edduos n\u00e3o sobrevivam s\u00f3s, lhes \u00e9 penosa a cultura e a vida social. Na verdade, cada pessoa tem seus desejos pr\u00f3prios que, vivendo em comum, devem ser reprimidos a fim de n\u00e3o causar rep\u00fadio e rebeli\u00f5es no \u00e2mbito social. Segundo ele, parece que a cultura \u00e9 dada como algo imposto a todos os homens por uma minoria, e que, por isso, \u00e9 dif\u00edcil de ser aniquilada; e, se a cultura \u00e9 de dif\u00edcil assimila\u00e7\u00e3o, a culpa est\u00e1 nas imperfei\u00e7\u00f5es dos v\u00e1rios tipos culturais existentes.<\/p>\n<p>Havemos de concordar com ele quando diz que \u201c\u00e9 preciso contar com o fato de que em todos os homens h\u00e1 tend\u00eancias destrutivas, ou seja, antissociais e anti culturais, e que num grande n\u00famero de pessoas elas s\u00e3o fortes o bastante para determinar o seu comportamento na sociedade humana\u201d (FREUD. 2010, p. 23-24). Ele afirma ainda que toda cultura sai de uma coer\u00e7\u00e3o ao trabalho e do aprisionamento dos impulsos.<\/p>\n<p>Ela, ent\u00e3o, tira o homem de seu estado natural que \u00e9 ego\u00edsta e impulsivo a fim de priv\u00e1-lo de seu est\u00e1gio prim\u00e1rio e o moldar em vista \u00e0 viv\u00eancia social &#8211; seu maior desafio. Todos nascem com desejos como canibalismo, incesto ou desejo de matar, o que, para os neur\u00f3ticos \u00e9 associ\u00e1vel e para a sociedade \u00e9 repudi\u00e1vel. Ent\u00e3o, j\u00e1 admitimos que houve um avan\u00e7o moral atrav\u00e9s da cultura no sentido de preserva\u00e7\u00e3o da vida. Quanto a isso, Freud dir\u00e1 que at\u00e9 um tirano que recuse de toda maneira a cultura haveria de concordar com pelo menos uma lei: N\u00e3o matar\u00e1s!<\/p>\n<p>Segundo Freud, \u201ccomo \u00e9 ingrato, como \u00e9 m\u00edope, sobretudo, aspirar a uma aboli\u00e7\u00e3o da cultura!\u201d (FREUD. 2010, p. 33), porque, se assim se procede, o ser humano voltaria ao estado de natureza no qual a regra seria apenas seguir seus pr\u00f3prios extintos ego\u00edstas e sexuais. Neste sentido, ele falar\u00e1 do papel da religi\u00e3o, n\u00e3o como algo transcendente, mas como um meio de garantir \u00e0 sociedade, no discurso de algo divino que para ele \u00e9 uma grande farsa a ordem e a viv\u00eancia social. Sobre isso, veremos no t\u00f3pico a seguir.<\/p>\n<p>2. A religi\u00e3o segundo Freud<\/p>\n<p>Observando as religi\u00f5es, Freud destaca um aspecto importante a ser considerado: a Religi\u00e3o como uma neurose. Para ele, a experi\u00eancia da repress\u00e3o acontece a partir da pervers\u00e3o daquilo que \u00e9 visto como instinto natural no homem, entendido como puls\u00f5es sexuais, em vista de faz\u00ea-lo se expressar de outras formas menos prim\u00e1rias ou reprimir seus desejos mais \u00edntimos, muitas vezes reprov\u00e1veis, o que pode ocasionar neuroses, devido ao aprisionamento das emo\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>\u201cNela a dissocia\u00e7\u00e3o da consci\u00eancia (fen\u00f4meno fundamental que abriu as portas da psican\u00e1lise) possibilitou deparar-se com o processo denominado por Freud pervers\u00e3o da vontade. Isto \u00e9, um querer inconsciente, proveniente do recalcado, imp\u00f5e-se ao querer e \u00e0 vontade conscientes do sujeito\u201d (DOMINGUES MORANO. 2003, p. 35).<\/p>\n<p>Entendemos isso quando retomamos o princ\u00edpio de redu\u00e7\u00e3o-tens\u00e3o pelo qual funciona a mente humana. A mente tem puls\u00f5es que precisam ser de alguma forma saciadas, por exemplo a fome, a sede e o sono. Mas tamb\u00e9m existem puls\u00f5es chamadas prim\u00e1rias que, caso fossem realizadas poderiam se tornar alvo de rep\u00fadio pelo resto da sociedade. Para que isso n\u00e3o ocorra, devem ser sublimadas, ou seja, canalizadas para outras atividades mais \u00fateis e que tamb\u00e9m servir\u00e3o para reduzir a tens\u00e3o da mente do indiv\u00edduo. Constatou-se tamb\u00e9m que essas atitudes repudi\u00e1veis se evidenciam ao longo da cultura que se desenvolveu na humanidade e culminar\u00e1 no fato religioso, dando base ao pensamento freudiano de que a religi\u00e3o foi criada pelo homem em uma esp\u00e9cie de pacto que assegure a vida social, como j\u00e1 dito antes.<\/p>\n<p>Um n\u00famero imenso de homens aculturados, que recuaria horrorizado diante do assassinato e do incesto, n\u00e3o se priva de satisfazer sua cobi\u00e7a, seu gosto de agredir e seus apetites sexuais; n\u00e3o deixa de prejudicar os outros por meio da mentira, da fraude e da cal\u00fania caso possa permanecer impune ao faz\u00ea-lo; e \u00e9 poss\u00edvel que tenha sido sempre assim h\u00e1 muitas eras da cultura (FREUD. 2010, p. 29).<\/p>\n<p>Sigmund Freud observou uma semelhan\u00e7a entre a neurose obsessiva e os fen\u00f4menos culturais, dos quais o fen\u00f4meno religioso entra em uma posi\u00e7\u00e3o importante, ocasionando uma virada em sua percep\u00e7\u00e3o. \u00c9 importante ressaltar aqui que Freud enxerga as neuroses de duas formas, a saber: neuroses hist\u00e9ricas e neuroses obsessivas, da qual sobre este segundo modo, ele sustenta sua cr\u00edtica sobre a religi\u00e3o.<\/p>\n<p>Com o estabelecimento da analogia entre religi\u00e3o e neurose obsessiva, a experi\u00eancia religiosa n\u00e3o figurar\u00e1 mais apenas como fator de oposi\u00e7\u00e3o \u00e0s puls\u00f5es, como nos Estudos sobre a histeria, mas, sobretudo como express\u00e3o camuflada da pr\u00f3pria puls\u00e3o e dos sentimentos de culpa dela derivados (DOMINGUES MORANO. 2003, p. 36).<\/p>\n<p>N\u00e3o obstante, podemos imaginar muitas vezes a religi\u00e3o somente como elemento repressor das puls\u00f5es, e, portanto, apenas como um c\u00f3digo de conduta moral. Todavia, Freud analisa mais profundamente: a religi\u00e3o \u00e9, tamb\u00e9m, express\u00e3o da culpa dos instintos prim\u00e1rios, ou seja, ela representa um c\u00f3digo de moral que culpa o indiv\u00edduo dos seus instintos e puls\u00f5es.<\/p>\n<p>Segundo ele, existe uma esp\u00e9cie de compromisso entre puls\u00e3o e desejo, \u201cisto \u00e9, de uma transa\u00e7\u00e3o ou pacto estabelecido entre a puls\u00e3o, por um lado, e a proibi\u00e7\u00e3o da satisfa\u00e7\u00e3o dessa mesma puls\u00e3o, por outro\u201d (DOMINGUES MORANO. 2003, p. 36). Entretanto, tal pacto deixa o sujeito alienado e diante do recalcamento, tanto o neur\u00f3tico como o religioso s\u00e3o motivados pelas culpas e se escondem mediante cerimoniais.<\/p>\n<p>O indiv\u00edduo neur\u00f3tico cria uma s\u00e9rie de defesas devido \u00e0s puls\u00f5es sexuais que as teme e, da mesma forma, acontece com os religiosos quanto a seus instintos antissociais e ego\u00edstas. Para Sigmund Freud, por meio da religi\u00e3o, muitas vezes o humano faz o que ela pr\u00f3pria pro\u00edbe. Deste modo, Freud identifica a religi\u00e3o como uma \u201cneurose obsessiva universal\u201d.<\/p>\n<p>Algo importante a se destacar \u00e9 que, segundo o pr\u00f3prio Freud, nem todos est\u00e3o preparados para um ate\u00edsmo, uma vez que a religi\u00e3o \u00e9 um meio de prote\u00e7\u00e3o e apoio as neuroses. Vemos isso, por exemplo, no processo de sublima\u00e7\u00e3o e tamb\u00e9m na tentativa de uma resolu\u00e7\u00e3o harmonia ao conflito entre pai e filhos dado desde o Complexo de \u00c9dipo. Mas, se por um lado, Freud reconhecia uma devida import\u00e2ncia \u00e0 religi\u00e3o, por outro, entendida como algo contr\u00e1rio \u00e0 raz\u00e3o, uma farsa e uma ilus\u00e3o, segundo ele, o abandono da religi\u00e3o ir\u00e1 se cumprir com a fatalidade implac\u00e1vel de um processo de crescimento.<\/p>\n<p>3. O Complexo de \u00c9dipo, a Religi\u00e3o e Deus<\/p>\n<p>Chegamos, enfim, a um ponto importante do nosso trabalho, no qual Sigmund Freud fala da origem das religi\u00f5es associada a teoria edipiana. Lembramo-nos que o Complexo de \u00c9dipo acontece na fase f\u00e1lica do processo de desenvolvimento da pessoa e \u00e9 comum a todos. O nome vem do mito grego do Rei \u00c9dipo que tem como destino dado pelos deuses matar o pr\u00f3prio pai e desposar a pr\u00f3pria m\u00e3e.<\/p>\n<p>Segundo o psicanalista, o primeiro amor da crian\u00e7a \u00e9 a pr\u00f3pria m\u00e3e, aquela que o sustenta e protege. Diante disso, tendo em vista a percep\u00e7\u00e3o do beb\u00ea entre a rela\u00e7\u00e3o de intimidade dos pais, a crian\u00e7a, que ama a m\u00e3e, passa a receber seu pai como o principal rival. Mas no desenrolar do processo, a crian\u00e7a percebe o pai rival como um oponente mais forte e sente a chamada ansiedade de castra\u00e7\u00e3o, passando ent\u00e3o a expressar-lhe uma admira\u00e7\u00e3o que perdura pelo resto da fase da inf\u00e2ncia e os conte\u00fados desse processo s\u00e3o lan\u00e7ados no inconsciente.<\/p>\n<p>Diferentemente do que muitos pensam, nosso autor ao criar o termo do Complexo de \u00c9dipo como uma explica\u00e7\u00e3o n\u00e3o s\u00f3 de problemas mentais, mas ao explicar a religi\u00e3o a partir dele, Freud faz com que ele seja uma \u201cestrutura b\u00e1sica universal\u201d. A religi\u00e3o ent\u00e3o pode ser entendida como uma consequ\u00eancia edipiana, no qual a ang\u00fastia do homem religioso toma outras propor\u00e7\u00f5es, agora, dentro de uma forma\u00e7\u00e3o cultural e com um novo estilo de pai \u2013 todo poderoso.<\/p>\n<p>Analisemos primeiramente as necessidades dos beb\u00eas: eles t\u00eam depend\u00eancias narc\u00edsicas de objetos que lhe assegurem amparo e prote\u00e7\u00e3o, sendo que o primeiro seria a figura materna que oferece alimenta\u00e7\u00e3o e prote\u00e7\u00e3o contra todo tipo de realidade externa e ansiedade. Quando a crian\u00e7a cresce, descobre que a necessidade de se sentir amparado permanece devido a poderes superiores como a morte e os fen\u00f4menos naturais. Logo, a rela\u00e7\u00e3o atribu\u00edda \u00e0 figura paterna passa a ser direcionada a deuses criados pelos pr\u00f3prios homens e aos quais eles (os homens) temem, redirecionando seus sentimentos narc\u00edsicos para este divino que deve ser cultuado e adorado.<\/p>\n<p>Com efeito, Freud diz que: \u201cOs deuses conservam a sua tripla tarefa: afastar os pavores da natureza, reconciliar os homens com a crueldade do destino, em especial como ela se mostra na morte, e recompens\u00e1-los pelos sofrimentos e priva\u00e7\u00f5es que a conviv\u00eancia na cultura lhes imp\u00f5e\u201d (FREUD. 2010, p. 36). Todavia, os deuses v\u00e3o se retirando da primeira tarefa, pouco interferindo nela e se apoderando cada vez mais da terceira, \u201ca partir de ent\u00e3o, torna-se tarefa divina compensar as falhas e os danos da cultura, atentar para os sofrimentos que os homens se infligem mutuamente na vida em comum e vigiar o cumprimento dos preceitos culturais aos quais eles obedecem t\u00e3o mal\u201d (FREUD. 2010, p. 37).<\/p>\n<p>Podemos dizer ent\u00e3o que para Freud, a religi\u00e3o acontece devido ao reconhecimento do ser humano de que n\u00e3o pode ficar desamparado e que ela seria um tipo de neurose obsessiva das crian\u00e7as que na vida adulta se manifesta como religi\u00e3o; e a ideia de Deus surgiu do complexo de \u00c9dipo, do relacionamento com o pai e no qual a ambival\u00eancia entre amor e \u00f3dio tem um fundante papel.<\/p>\n<p>Contudo, a ideia elementar de um Ser supremo, de um Deus Pai, segundo Freud, deve se considerar objetivamente infundada. Como a fraqueza infantil faz sentir a necessidade de prote\u00e7\u00e3o, que a crian\u00e7a experimenta no amor paterno, assim a vis\u00e3o desta indig\u00eancia, que a acompanha durante toda a vida, a induz a criar para si um outro pai \u2013 mas desta vez muito mais poderoso. Tendo-se tornado adulto, remonta atrav\u00e9s da recorda\u00e7\u00e3o \u00e0 imagem do pai da \u00e9poca infantil, por ele t\u00e3o sobrestimado, eleva-o \u00e0 divindade e transporta-o para a realidade do presente. A for\u00e7a afetiva desta imagem nem\u00f4nica e a perman\u00eancia da necessidade de prote\u00e7\u00e3o s\u00e3o os dois caminhos que conduzem \u00e0 f\u00e9 num Deus (DEMPSEY. 1996, p. 42).<\/p>\n<p>\u00c9 importante analisarmos tamb\u00e9m, que esse conflito edipiano entre pais e filhos continua na vida adulta, e, se assim podemos dizer, de forma quase inconsciente, a partir da ideia de Deus, na qual Freud pensou uma situa\u00e7\u00e3o primeira onde o pai ciumento \u00e9 devorado pelos filhos que queriam ter as mulheres e n\u00e3o podiam devido ao ci\u00fame do pai. Diante desse assassinato, entendido por ele como um pecado origin\u00e1rio, surgiria a moral, a religi\u00e3o e o direito.<\/p>\n<p>No entanto, Freud explica que, se algum filho tomasse o lugar do pai, o crime se perpetuaria sempre. \u00c9, justamente sobre essa realidade que a religi\u00e3o se firma e d\u00e1 vida novamente ao pai de diversas formas: \u201csob a forma do animal tot\u00eamico do cl\u00e3, prosseguindo depois suas metamorfoses em her\u00f3is, deuses e dem\u00f4nios, para vir finalmente encontrar sua mais cabal ressurrei\u00e7\u00e3o na figura do Deus \u00fanico judeu-crist\u00e3o\u201d (DOMINGUES MORANO. 2003, p. 39).<\/p>\n<p>O cristianismo ent\u00e3o, segundo Freud, \u00e9 a religi\u00e3o que melhor expressa esse drama de pai e filho, ao afirmar o pecado original e a morte do filho como meio de livrar do pecado, desta forma, trazendo o pai \u00e0 tona novamente. Logo depois, o dogma da ressurrei\u00e7\u00e3o mais uma vez coloca o filho em posi\u00e7\u00e3o privilegiada em rela\u00e7\u00e3o ao pai. Para Freud, o juda\u00edsmo n\u00e3o soube reconhecer a morte do pai e, por isso foi fadado ao decl\u00ednio e \u00e0 persegui\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>CONSIDERA\u00c7\u00d5ES FINAIS<\/p>\n<p>Portanto, se nosso racioc\u00ednio e nossa exposi\u00e7\u00e3o estiverem articulados de maneira clara e correta, podemos concluir primeiramente que Sigmund Freud analisa o surgimento da religi\u00e3o tamb\u00e9m como meio de puni\u00e7\u00e3o das a\u00e7\u00f5es antissociais e ego\u00edstas do ser humano, vistas por Freud como o mais natural em n\u00f3s que deve ser sublimado, e a identificar em analogia a uma neurose obsessiva universal.<\/p>\n<p>Destacamos tamb\u00e9m que a figura de Deus, segundo ele, faz parte de um complexo primordial, sempre existente, entre pais e filhos e do qual a religi\u00e3o tomou posse para se fundar. Nisso consiste sua cr\u00edtica, no fato de se colocar a religi\u00e3o como algo transcendental, ao passo de que ele a entende como um contrato e uma neurose, ilus\u00e3o etc.<\/p>\n<p>Dizemos ainda que Freud reconhece que para alguns o abandono da religi\u00e3o n\u00e3o poderia ser avaliado totalmente positivo. Embora seja considerada por ele como uma neurose universal e uma farsa contr\u00e1ria \u00e0 raz\u00e3o, ela tamb\u00e9m pode ser um meio de prote\u00e7\u00e3o contra as neuroses hist\u00e9ricas.<\/p>\n<p>REFER\u00caNCIAS<\/p>\n<p>DEMPSEY, Peter J. R. Freud, Psican\u00e1lise e Catolicismo. Tradu\u00e7\u00e3o Pe. Jos\u00e9 Derntl. S\u00e3o Paulo: Edi\u00e7\u00e3o Paulinas, 1966.<\/p>\n<p>DOMINGUES MORANO, Carlos. Crer depois de Freud. Tradu\u00e7\u00e3o Eduardo Dias Gontijo. S\u00e3o Paulo: Loyola, 2003.<\/p>\n<p>FREUD, Sigmund. O futuro de uma ilus\u00e3o. Tradu\u00e7\u00e3o Renato Zwick. Porto Alegre: LePM Editores, 2010.<\/p>\n<p>Notas<br \/>\n\u00b9Graduando em Filosofia \u2013 FAM<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>H\u00e9rcules Amorim Werneck\u00b9 Resumo: O presente artigo falar\u00e1 de forma atenuada sobre alguns conceitos da psican\u00e1lise freudiana, seu pensamento a respeito da religi\u00e3o bem como suas justificativas sobre o surgimento e seu funcionamento na vida humana. Para falar da quest\u00e3o religiosa, Freud se vale justamente de sua teoria do desenvolvimento e aponta fatores desde a &hellip; <\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_mi_skip_tracking":false,"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":{"0":"entry","1":"post","2":"publish","3":"author-admin","4":"post-2654","6":"format-standard","7":"category-uncategorized"},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2654","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=2654"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2654\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2655,"href":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2654\/revisions\/2655"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=2654"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=2654"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=2654"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}