{"id":2656,"date":"2016-12-07T08:09:24","date_gmt":"2016-12-07T10:09:24","guid":{"rendered":"http:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/?p=2656"},"modified":"2016-12-07T08:09:24","modified_gmt":"2016-12-07T10:09:24","slug":"existencia-e-essencia-de-deus-segundo-tomas-de-aquino","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/?p=2656","title":{"rendered":"EXIST\u00caNCIA E ESS\u00caNCIA DE DEUS SEGUNDO TOM\u00c1S DE AQUINO"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\">Carlos Heitor Fideles\u00b9<\/p>\n<p>Pensar Deus sempre foi um desafio para a Filosofia. Muitos foram os que fizeram de Deus objeto de seu pensamento, por\u00e9m poucos conseguiram tratar de Deus racionalmente com a profundidade de Tom\u00e1s de Aquino. Neste trabalho buscaremos apresentar a compreens\u00e3o de Tom\u00e1s acerca da ess\u00eancia e da exist\u00eancia de Deus, mostrando como ele as compreende e como as articula.<\/p>\n<p>Na pesquisa metaf\u00edsica o problema da exist\u00eancia e da ess\u00eancia sempre se fez presente, fazendo com que diversos posicionamentos se confrontassem na busca em oferecer uma resposta satisfat\u00f3ria. Se ao tratar da ess\u00eancia das coisas cuja exist\u00eancia parece evidente ainda h\u00e1 discord\u00e2ncia no que concerne a ess\u00eancia e a rela\u00e7\u00e3o desta com a exist\u00eancia, quanto mais ao tratar dos mesmos problemas, mas quanto a Deus, cuja exist\u00eancia n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o evidente.<\/p>\n<p>O primeiro problema ao qual Tom\u00e1s se v\u00ea obrigado a responder \u00e9 quanto \u00e0 exist\u00eancia de Deus, que como dito, n\u00e3o parece ser t\u00e3o evidente. O pr\u00f3prio Tom\u00e1s (Suma Teol\u00f3gica I, q.2, a.1. RESP.) afirma que \u201ccomo n\u00e3o conhecemos a ess\u00eancia de Deus, esta proposi\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 evidente para n\u00f3s\u201d. Essa proposi\u00e7\u00e3o deixa claro qu\u00e3o pr\u00f3ximos s\u00e3o a exist\u00eancia e a ess\u00eancia de Deus, visto que pela afirma\u00e7\u00e3o de Tom\u00e1s, \u00e9 justamente por n\u00e3o se conhecer a ess\u00eancia de Deus que n\u00e3o se pode tamb\u00e9m afirmar a evid\u00eancia de sua exist\u00eancia. Todavia, Tom\u00e1s n\u00e3o se d\u00e1 por satisfeito com essa ideia de que a exist\u00eancia de Deus n\u00e3o \u00e9 evidente e busca provar que de fato Deus existe, dizendo que \u201cPode-se provar a exist\u00eancia de Deus, por cinco vias.\u201d (TOM\u00c1S DE AQUINO, Suma Teol\u00f3gica I, q.2, a.3. RESP) Por\u00e9m, n\u00e3o \u00e9 do intento do presente trabalho detalhar as vias propostas por Tom\u00e1s, apenas acenar para essa solu\u00e7\u00e3o de Tom\u00e1s quanto ao problema de exist\u00eancia de Deus.<\/p>\n<p>Passada a quest\u00e3o da exist\u00eancia de Deus, Tom\u00e1s v\u00ea a necessidade de discorrer sobre a ess\u00eancia de Deus. Uma pergunta que se coloca neste momento \u00e9 se em Deus a exist\u00eancia precede a ess\u00eancia ou a ess\u00eancia precede a exist\u00eancia. Antes de buscar apresentar a solu\u00e7\u00e3o para esse problema da anterioridade da ess\u00eancia ou da exist\u00eancia, \u00e9 preciso demonstrar o caminho que Tom\u00e1s percorre antes de propor uma solu\u00e7\u00e3o ao problema anteriormente citado.<\/p>\n<p>Tom\u00e1s entende que Deus \u00e9 ato puro de existir, sendo simples e n\u00e3o composto de nada. Primeiro Tom\u00e1s busca demonstrar que em Deus n\u00e3o existe um corpo. O pr\u00f3prio Tom\u00e1s (Suma Teol\u00f3gica I, q.3, a.1, RESP.), a esse respeito, assim afirma: \u201c\u00c9 preciso dizer de modo absoluto: Deus n\u00e3o \u00e9 um corpo\u201d. Completa ainda esta afirma\u00e7\u00e3o, o que Tom\u00e1s afirma ao dizer da impossibilidade de em Deus existir uma composi\u00e7\u00e3o de mat\u00e9ria e forma, dizendo que \u201c\u00c9 imposs\u00edvel haver em Deus alguma mat\u00e9ria. 1. Porque a mat\u00e9ria \u00e9 o que est\u00e1 em pot\u00eancia. J\u00e1 se demonstrou que Deus \u00e9 ato puro\u201d. (Suma Teol\u00f3gica I, q..3, a.2, RESP.) \u00c9 precisamente neste ser incorp\u00f3reo, que se encontram, ao mesmo tempo, o problema e o princ\u00edpio da solu\u00e7\u00e3o apresentada por Tom\u00e1s. Se encontra o problema, uma vez que, como dito antes, nos seres corp\u00f3reos \u00e9 mais f\u00e1cil identificar a exist\u00eancia e a rela\u00e7\u00e3o desta com a ess\u00eancia. Mas ao mesmo tempo se encontra o princ\u00edpio de solu\u00e7\u00e3o uma vez que a partir deste ato puro de existir que Tom\u00e1s ir\u00e1 resolver o problema da exist\u00eancia e da ess\u00eancia de Deus.<\/p>\n<p>Na compreens\u00e3o de Tom\u00e1s de Aquino, em Deus n\u00e3o h\u00e1 uma anterioridade nem da exist\u00eancia e nem da ess\u00eancia, mas sim uma coincid\u00eancia. Visto que Deus \u00e9 ato puro de existir, n\u00e3o havendo nele composi\u00e7\u00e3o, somente \u201cafirmando a completa identidade entre ess\u00eancia (essentia) e existir (esse) em Deus, que alcan\u00e7aremos a absoluta simplicidade divina.\u201d (SOUZA, p.6-7). Desse modo, percebe-se que somente procedendo pelo caminho percorrido por Tom\u00e1s, de afirmar a identidade da exist\u00eancia e da ess\u00eancia de Deus \u00e9 que se pode satisfazer a condi\u00e7\u00e3o de ato puro de ser de Deus. Tom\u00e1s (O ente a ess\u00eancia, 61) afirma que \u201ch\u00e1 algo, como Deus, cuja ess\u00eancia \u00e9 seu pr\u00f3prio ser\u201d. Em outro passagem, Tom\u00e1s (Suma Teol\u00f3gica I, q.3, a.4, RESP.) diz que \u201cDeus n\u00e3o somente \u00e9 sua ess\u00eancia, como foi demonstrado, mas tamb\u00e9m seu ser\u201d.<\/p>\n<p>Afirmado que em Deus ess\u00eancia e exist\u00eancia coincidem, Tom\u00e1s busca mostrar as raz\u00f5es pelas quais formula sua ideia. A partir da ideia de que Deus \u00e9 causa sui, Tom\u00e1s tenta mostrar que precisamente por essa condi\u00e7\u00e3o de Deus, nele ess\u00eancia e exist\u00eancia precisam coincidir<\/p>\n<p>\u201co que existe em algo que n\u00e3o pertence \u00e0 sua ess\u00eancia tem de ser causado ou pelos princ\u00edpios da ess\u00eancia [&#8230;] ou por algo exterior [&#8230;]. Portanto, se o pr\u00f3prio ser de uma coisa \u00e9 distinto de sua ess\u00eancia, \u00e9 necess\u00e1rio que este ser seja causado ou por algo exterior ou pelos princ\u00edpios essenciais dessa coisa. \u00c9 imposs\u00edvel, no entanto, que o ser seja causado apenas pelos princ\u00edpios essenciais da coisa;[&#8230;] \u00c9 preciso, pois, que o que tem o seu ser distinto de sua ess\u00eancia, o tenha causado por um outro. Ora, n\u00e3o se pode dizer isso de Deus, porque dizemos que Ele \u00e9 a causa eficiente primeira. Logo, \u00e9 imposs\u00edvel que em Deus uma coisa seja o ser e outra a ess\u00eancia. (TOM\u00c1S DE AQUINO, Suma Teol\u00f3gica I, q.3, a.4, RESP)<\/p>\n<p>Outro ponto levando e considera\u00e7\u00e3o por Tom\u00e1s em sua argumenta\u00e7\u00e3o \u00e9 em rela\u00e7\u00e3o a categoria aristot\u00e9lica de ato e pot\u00eancia. Para ele, se a ess\u00eancia e a exist\u00eancia n\u00e3o coincidirem em Deus, seu ser ser\u00e1 entendido como atualiza\u00e7\u00e3o de uma pot\u00eancia em rela\u00e7\u00e3o a sua ess\u00eancia, mas em Deus nada h\u00e1 de potencialidade. A esse respeito, Tom\u00e1s (Suma Teol\u00f3gica I, q. 3. a.4. RESP) diz que<\/p>\n<p>o ser \u00e9 a atualiza\u00e7\u00e3o de qualquer forma ou natureza. [&#8230;]\u00c9 preciso ent\u00e3o que o ser seja referido \u00e0 ess\u00eancia, que \u00e9 distinta dele, como o ato em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 potencialidade. E como em Deus nada \u00e9 potencial, [&#8230;] segue-se que nele a ess\u00eancia n\u00e3o \u00e9 distinta de seu ser. Sua ess\u00eancia \u00e9, portanto, seu ser.<\/p>\n<p>Tom\u00e1s discorre ainda sobre a participa\u00e7\u00e3o no ser. Para ele Deus \u00e9 o ser e n\u00e3o um ente por participa\u00e7\u00e3o. Caso Deus fosse um ente por participa\u00e7\u00e3o ele n\u00e3o seria um ente por ess\u00eancia. \u201cse [Deus] n\u00e3o fosse seu pr\u00f3prio ser, Ele seria um ente por participa\u00e7\u00e3o, e n\u00e3o por ess\u00eancia. N\u00e3o seria ent\u00e3o o primeiro ente, o que \u00e9 um absurdo. Logo, Deus \u00e9 o seu ser, e n\u00e3o apenas sua ess\u00eancia\u201d (TOM\u00c1S DE AQUINO, Suma Teol\u00f3gica I, q.3, a.4, RESP)<\/p>\n<p>Enfim, nota-se que Tom\u00e1s de Aquino realiza um esfor\u00e7o racional em solucionar de modo satisfat\u00f3rio o problema da exist\u00eancia e da ess\u00eancia de Deus. O modo como Tom\u00e1s responde a esse problema \u00e9 um modo bastante coerente com todo o seu pensamento. Al\u00e9m disso, a riqueza do pensamento de Tom\u00e1s contribui para pensar Deus tamb\u00e9m no per\u00edodo posterior ao \u201cdoutor ang\u00e9lico\u201d, muito por causa da profundidade da reflex\u00e3o Tomista.<\/p>\n<p>Refer\u00eancias<br \/>\nAQUINO, Tom\u00e1s. O ente e a ess\u00eancia. Tradu\u00e7\u00e3o Carlos Arthur do Nascimento. Petr\u00f3p\u00f3lis: Vozes, 1995.<\/p>\n<p>_____. Suma Teol\u00f3gica. Trad. Aimom- Marie Roguet et al. S\u00e3o Paulo: Loyola, 2001. v. I.<\/p>\n<p>CAMPOS, S\u00e1vio Laet de Barros. O Esse de Deus em Tom\u00e1s de Aquino. Dispon\u00edvel em &lt;http:\/\/filosofante.org\/filosofante\/not_arquivos\/pdf\/Esse_Deus.pdf&gt;. Acesso em 29 mai. 2015.<\/p>\n<p>Notas<br \/>\n\u00b9 Graduando em filosofia na FAM<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Carlos Heitor Fideles\u00b9 Pensar Deus sempre foi um desafio para a Filosofia. Muitos foram os que fizeram de Deus objeto de seu pensamento, por\u00e9m poucos conseguiram tratar de Deus racionalmente com a profundidade de Tom\u00e1s de Aquino. 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