{"id":2661,"date":"2016-12-07T08:15:26","date_gmt":"2016-12-07T10:15:26","guid":{"rendered":"http:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/?p=2661"},"modified":"2016-12-07T08:15:26","modified_gmt":"2016-12-07T10:15:26","slug":"fe-e-razao-no-monologio-e-no-proslogio-de-anselmo-de-cantuaria","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/?p=2661","title":{"rendered":"F\u00c9 E RAZ\u00c3O NO MONOL\u00d3GIO E NO PROSL\u00d3GIO DE ANSELMO DE CANTU\u00c1RIA"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\">Carlos Heitor Fideles\u00b9<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Considera\u00e7\u00f5es iniciais<br \/>\nA rela\u00e7\u00e3o entre f\u00e9 e raz\u00e3o sempre se mostrou protagonista de diversas discuss\u00f5es e obras, sobretudo por trazer consigo o problema dos limites de uma e outra. Na filosofia da Idade M\u00e9dia, esse tema acabou ficando sublinhado, uma vez que diante da influ\u00eancia do cristianismo foram desenvolvidos temas complexos e que por muitas vezes desafiavam a raz\u00e3o. Como falar, por exemplo, de Deus se valendo apenas da raz\u00e3o? Eram com perguntas como essa que os fil\u00f3sofos dessa \u00e9poca se deparavam cotidianamente.<\/p>\n<p>1 M\u00e9todo Anselmiano<\/p>\n<p>No que diz respeito ao m\u00e9todo usado por Anselmo para apoiar sua argumenta\u00e7\u00e3o, vemos no pr\u00f3logo do Monol\u00f3gio qual \u00e9 o caminho usado pelo autor. Ele afirma que escreve a pedido dos seus irm\u00e3os de h\u00e1bito que desejam ter por escrito aquilo que Anselmo j\u00e1 os havia dito em conversas informais acerca da ess\u00eancia divina. Contudo, os monges formulam o m\u00e9todo que deve ser usado.<\/p>\n<p>O m\u00e9todo seguinte: sem, absolutamente, recorrer, em nada, \u00e0 autoridade das Sagradas Escrituras, tudo aquilo que fosse exposto ficasse demonstrado pelo encadeamento l\u00f3gico da raz\u00e3o, empregando argumentos simples, com um estilo acess\u00edvel, para que se tornasse evidente pela pr\u00f3pria clareza da verdade. (ANSELMO, 1973,p.11)<\/p>\n<p>Com isso, percebemos o enorme esfor\u00e7o que Anselmo se prop\u00f5e a realizar em suas obras. Ele precisa selecionar e organizar argumentos convincentes que consigam comprovar a racionalidade da f\u00e9, mas ao mesmo tempo, esses argumentos n\u00e3o podem contradizer as Sagradas Escrituras. Justamente por isso, Anselmo busca uma concilia\u00e7\u00e3o, um equil\u00edbrio entre a f\u00e9 e raz\u00e3o. Contudo, nesse esfor\u00e7o por apresentar argumentos que sejam aceitos pela raz\u00e3o, Anselmo n\u00e3o perde de vista a f\u00e9, ao contr\u00e1rio, \u201co ponto de partida intelectual arranca sempre da f\u00e9, por\u00e9m apela para a raz\u00e3o para descobrir nela o significado oculto.\u201d (STREFLING, 1993,p.31)<\/p>\n<p>J\u00e1 no in\u00edcio do Prosl\u00f3gio, Anselmo acena para uma outra possibilidade. Ele pr\u00f3prio afirma que sua primeira obra (Monol\u00f3gio) se tornara de dif\u00edcil compreens\u00e3o, muito em virtude da grande quantidade de argumentos que se desenvolvem no interior da obra. Diante dessa realidade, Anselmo passa a se questionar \u201cse n\u00e3o seria poss\u00edvel encontrar um \u00fanico argumento que, v\u00e1lido em si e por si, sem nenhum outro, permitisse demonstrar que Deus existe verdadeiramente\u201d (ANSELMO,1973, p.103). \u00c9 dessa maneira que nasce o Prosl\u00f3gio, que traz consigo o famoso Argumento Ontol\u00f3gico, que at\u00e9 hoje \u00e9 discutido por diversos fil\u00f3sofos. Esse argumento buscava ser, segundo Anselmo (1973,p.103), \u201cum argumento suficiente, em suma, para fornecer provas adequadas sobre aquilo que cremos acerca da subst\u00e2ncia divina.\u201d<\/p>\n<p>2 O \u201cMonol\u00f3gio\u201d<\/p>\n<p>O Monol\u00f3gio \u00e9 a primeira obra sistem\u00e1tica de Anselmo de Cantu\u00e1ria. Nessa obra, como supracitado, Anselmo, fazendo uso do procedimento sola ratione, quer apresentar o conte\u00fado da f\u00e9 de forma racional. Segundo Tomatis (2003,p.11) \u201cno Monologion Anselmo [&#8230;] quer tornar racionalmente aceit\u00e1veis as verdades e as raz\u00f5es da f\u00e9 e da revela\u00e7\u00e3o.\u201d<\/p>\n<p>O pr\u00f3prio Anselmo mostra que apresentar o conte\u00fado da f\u00e9 de forma racional, pode contribuir para aquele que n\u00e3o cr\u00ea nas verdades da f\u00e9, simplesmente pela f\u00e9, mas pode conseguir crer a partir desse esfor\u00e7o racional.<\/p>\n<p>Se houvesse algu\u00e9m que, pelo fato de nunca ter ouvido falar nisso ou por n\u00e3o acreditar, ignorasse existir uma natureza superior [&#8230;] penso que tal pessoa, embora de intelig\u00eancia med\u00edocre, possa chegar a convencer-se, ao menos em grande parte, dessas coisas, usando apenas a raz\u00e3o. (ANSELMO, 1973,p. 13)<\/p>\n<p>Com isso, nota-se que Anselmo, empreende uma busca pela ratio fidei, mas entendida aqui como \u201ca busca da raz\u00e3o da f\u00e9 n\u00e3o enquanto f\u00e9 subjetiva, mas entendida objetivamente como f\u00e9.\u201d (TOMATIS, 2003, p.11)<\/p>\n<p>No que se refere \u00e0 estrutura, pode-se perceber no Monol\u00f3gio tr\u00eas momentos, todas em intima sintonia uma com a outra, de modo que \u201cestes momentos n\u00e3o podem, em absoluto, ser compreendidos independentemente uns dos outros.\u201d ( VASCONCELLOS,2005, p. 65) Essa divis\u00e3o, por\u00e9m n\u00e3o \u00e9 proposta pelo autor, que divide sua obra em cap\u00edtulos, tal divis\u00e3o \u00e9 proposta por comentadores de Anselmo, como Vasconcellos (2005,p.65) que diz:<\/p>\n<p>Nos cap\u00edtulos iniciais, mostra a ess\u00eancia soberana (Deus) por si, apresentando suas propriedades. Depois, na maior parte da obra, fala da estrutura trinit\u00e1ria do ser. Encaminhando-se para o final de seu texto, trata do esp\u00edrito humano, o qual \u00e9 imagem do esp\u00edrito divino.<\/p>\n<p>2.1 As provas da exist\u00eancia de Deus<\/p>\n<p>No Monol\u00f3gio, Anselmo apresenta tr\u00eas provas da exist\u00eancia de Deus, partindo das criaturas para chegar \u00e0 afirma\u00e7\u00e3o da exist\u00eancia do Criador. Como se prop\u00f4s j\u00e1 no pr\u00f3logo do Monol\u00f3gio, Anselmo apresenta tamb\u00e9m essas tr\u00eas provas tamb\u00e9m se valendo da raz\u00e3o. Na primeira prova, Anselmo argumenta a partir dos bens particulares. A exist\u00eancia de bens particulares e em graus variados atesta a exist\u00eancia de Deus, pois para que esses bens particulares existam \u00e9 preciso que possuam um principio comum de bondade e esse principio deve necessariamente ser maior que os bens particulares.<\/p>\n<p>A segunda prova se aproxima muita da primeira, por\u00e9m Anselmo deixa de falar de atributos como a bondade para falar da totalidade das coisas, que \u00e9 o pr\u00f3prio ser.. Para Anselmo tudo o que existe deriva de um princ\u00edpio anterior, pois \u00e9 imposs\u00edvel algo derivar do nada. Com esta prova, Anselmo busca encontrar o princ\u00edpio de todas as coisas e para ele, esse princ\u00edpio superior \u00e9 Deus.<\/p>\n<p>Na terceira prova, Anselmo aponta para os graus de perfei\u00e7\u00e3o das coisas. Ele admite que no universo h\u00e1 uma hierarquia onde por exemplo o cavalo \u00e9 superior a \u00e1rvore e o homem superior ao cavalo. Nesse sentido, \u00e9 preciso aceitar que nessa hierarquia exista um ser que seja superior a todos os outros e em Anselmo, esse ser superior \u00e9 Deus.<br \/>\nTodas essas provas apresentadas por Anselmo devem ser consideradas como a posteriori pois partem das criaturas at\u00e9 chegarem a exist\u00eancia de Deus.<\/p>\n<p>3 O \u201cProsl\u00f3gio\u201d<\/p>\n<p>O Prosl\u00f3gio, obra na qual se encontra o famoso Argumento Ontol\u00f3gico Anselmiano, foi escrita pouco tempo depois da conclus\u00e3o do Monol\u00f3gio. Ap\u00f3s a conclus\u00e3o de sua primeira obra, Anselmo percebe que ela havia ficado um pouco confusa em virtude dos muitos argumentos e decide escrever outra obra em que um \u00fanico argumento pudesse mostrar aquilo que Anselmo procura afirmar. Esse argumento procurado por Anselmo deve ser \u201cmuito s\u00f3lido, que n\u00e3o precise se apoiar em qualquer realidade externa que seja ou em multiplicidade de argumentos, mas evidente na pura interioridade do homem.\u201d (TOMATIS, 2003, p.11)<\/p>\n<p>Outra distin\u00e7\u00e3o importante entre o Monol\u00f3gio e o Prosl\u00f3gio \u00e9 que enquanto no primeiro Anselmo busca a raz\u00e3o da f\u00e9, no segundo ele busca encontrar um caminho que conduza a pr\u00f3pria f\u00e9 a se esfor\u00e7ar a encontrar a luz da raz\u00e3o.<\/p>\n<p>No Proslogion ele [&#8230;] n\u00e3o deseja encontrar apenas a ratio fidei, [&#8230;] mas quer que seja a pr\u00f3pria f\u00e9 [&#8230;]na rela\u00e7\u00e3o direta com Deus realizada pelo intelecto, a procurar uma luz de tal forma transparente e pura que ilumine sem desvanecer a profundidade do col\u00f3quio do crente com Deus. (TOMATIS, 2003, p. 11)<\/p>\n<p>Outra novidade do Prosl\u00f3gio em rela\u00e7\u00e3o ao Monol\u00f3gio \u00e9 a forma da argumenta\u00e7\u00e3o. Enquanto no Monol\u00f3gio as provas da exist\u00eancia de Deus s\u00e3o provas a posteriori, no Prosl\u00f3gio o Argumento Ontol\u00f3gico visa ser uma prova a priori da exist\u00eancia de Deus.<\/p>\n<p>No que diz respeito \u00e0 estrutura, no Prosl\u00f3gio toda a argumenta\u00e7\u00e3o gira em torno do Argumento Ontol\u00f3gico. H\u00e1 por parte dos comentadores uma divis\u00e3o dos cap\u00edtulos da obra, mas aqui n\u00e3o nos deteremos sobre isso, uma vez que toda obra \u00e9 concorde em apontar para o Argumento Ontol\u00f3gico.<\/p>\n<p>3.1 O Argumento Ontol\u00f3gico<br \/>\nJ\u00e1 no in\u00edcio do Prosl\u00f3gio, lemos que Deus \u00e9 o \u201cser do qual n\u00e3o se pode pensar nada maior.\u201d (ANSELMO 1973, p.108) \u00c9 justamente acerca desse Deus do qual n\u00e3o se pode pensar nada maior que Anselmo quer tratar em seu Argumento Ontol\u00f3gico e provar via raz\u00e3o sua exist\u00eancia. O Argumento Ontol\u00f3gico assume grande relevo no pensamento de Anselmo, por ser considerado por muitos como a maior contribui\u00e7\u00e3o desse pensador para a filosofia, al\u00e9m de que esse argumento \u00e9 retomado por diversos pensadores ao longo da filosofia. Nosso trabalho aqui, n\u00e3o ser\u00e1 o de analisar o argumento a partir da l\u00f3gica, mas apenas apresent\u00e1-lo como mais um dos esfor\u00e7os de Anselmo na concilia\u00e7\u00e3o entre f\u00e9 e raz\u00e3o.<\/p>\n<p>Nos cap\u00edtulos II e III do Prosl\u00f3gio \u00e9 poss\u00edvel perceber a ess\u00eancia do Argumento Ontol\u00f3gico. Anselmo busca mostrar que Deus n\u00e3o pode existir somente na intelig\u00eancia, mas tamb\u00e9m na realidade. De forma sint\u00e9tica, assim encontramos o Argumento Ontol\u00f3gico de Anselmo no Prosl\u00f3gio<\/p>\n<p>Se, portanto, \u201co ser do qual n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel pensar nada maior\u201d existisse somente na intelig\u00eancia, este mesmo ser, do qual n\u00e3o se pode pensar nada maior, tornar-se ia o ser do qual \u00e9 poss\u00edvel, ao contr\u00e1rio, pensar algo maior: o que, certamente \u00e9 absurdo. [&#8230;] Com efeito, pode-se pensar na exist\u00eancia de um ser que n\u00e3o admite ser pensado como n\u00e3o existente. Ora, aquilo que n\u00e3o pode ser pensado como n\u00e3o existente, sem d\u00favida, \u00e9 maior que aquilo que pode ser pensado como n\u00e3o existente. Por isso, \u201co ser do qual n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel pensar nada maior\u201d, n\u00e3o seria \u201co ser do qual n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel pensar nada maior\u201d, o que il\u00f3gico. Existe, portanto, verdadeiramente \u201co ser do qual n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel pensar nada maior\u201d; e existe de tal forma, que nem sequer \u00e9 admitido pens\u00e1-lo como n\u00e3o existente. E esse ser, \u00f3 Senhor, nosso Deus, \u00e9s tu. (ANSELMO, 1973, p. 108-109)<\/p>\n<p>Com isso, percebe-se que tamb\u00e9m no Argumento Ontol\u00f3gico Anselmo cumpre aquilo que prop\u00f4s quando estipulou seu m\u00e9todo. De forma racional, conduz o argumento at\u00e9 tornar aceit\u00e1vel algo do campo da f\u00e9.<\/p>\n<p>4 Considera\u00e7\u00f5es finais<\/p>\n<p>Com isso, nota-se a concilia\u00e7\u00e3o entre f\u00e9 e raz\u00e3o proposta por Anselmo. Todo esfor\u00e7o de Anselmo, passa pela via de uma argumenta\u00e7\u00e3o racional que fale sobre assuntos da f\u00e9. Ele n\u00e3o v\u00ea uma rela\u00e7\u00e3o antag\u00f4nica entre f\u00e9 e raz\u00e3o, ao contr\u00e1rio, ele busca uma harmonia, um equil\u00edbrio entre essas. Partindo sempre da f\u00e9, Anselmo consegue significativos resultados, para mostrar \u00e0queles que ainda n\u00e3o s\u00e3o crentes, mat\u00e9rias pr\u00f3prias do conte\u00fado da f\u00e9. Talvez seja por esse enorme esfor\u00e7o, e mais que esfor\u00e7o, pelo sucesso em conciliar f\u00e9 e raz\u00e3o que Anselmo seja at\u00e9 hoje lembrado na hist\u00f3ria da filosofia. Com suas provas da exist\u00eancia de Deus no Monol\u00f3gio e com o Argumento Ontol\u00f3gico no Prosl\u00f3gio, Anselmo pode entrar para o seleto grupo dos que conseguiram conciliar de modo harm\u00f4nico f\u00e9 e raz\u00e3o.<\/p>\n<p>Refer\u00eancias<br \/>\nANSELMO, Santo. Monol\u00f3gio. Prosl\u00f3gio. Verdade. O gram\u00e1tico. Tradu\u00e7\u00e3o Angelo Ricci. S\u00e3o Paulo: Abril Cultural, 1973. . (Os pensadores).<br \/>\nSTREFLING, S\u00e9rgio Ricardo. O argumento ontol\u00f3gico de Santo Anselmo. Porto Alegre: EDIPUCRS, 1993. 103p.<br \/>\nTOMATIS, Francisco. O argumento ontol\u00f3gico: A exist\u00eancia de Deus de Anselmo a Schelling. Tradu\u00e7\u00e3o S\u00e9rgio Jos\u00e9 Schirato. S\u00e3o Paulo: Paulus, 2003.105p.<br \/>\nVASCONCELOS, Manoel Luiz Cardoso. Fides ratio auctoritas: o esfor\u00e7o dial\u00e9tico no Monol\u00f3gion. As rela\u00e7\u00f5es entre f\u00e9, raz\u00e3o e autoridade. Porto Alegre: EDIPUCRS, 2005. 264p<\/p>\n<p>NOTAS:<br \/>\n\u00b9 Graduando em filosofia na FAM<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Carlos Heitor Fideles\u00b9 &nbsp; Considera\u00e7\u00f5es iniciais A rela\u00e7\u00e3o entre f\u00e9 e raz\u00e3o sempre se mostrou protagonista de diversas discuss\u00f5es e obras, sobretudo por trazer consigo o problema dos limites de uma e outra. 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