{"id":2685,"date":"2018-06-03T20:54:57","date_gmt":"2018-06-03T23:54:57","guid":{"rendered":"http:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/?p=2685"},"modified":"2018-06-03T20:54:57","modified_gmt":"2018-06-03T23:54:57","slug":"o-homem-epicureu","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/?p=2685","title":{"rendered":"O HOMEM EPICUREU"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\">Eudvanio Dias Soares<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">*<\/a><\/p>\n<p><strong>Resumo: <\/strong>Epicuro, fundador da escola helen\u00edstica do epicurismo, \u00e9 conhecido por sua doutrina de vida orientada para o prazer. O prazer \u00e9 a palavra que marca o pensamento epicurista. Na constru\u00e7\u00e3o de sua filosofia, Epicuro deixa evidente qual sua compreens\u00e3o de homem, e com isso \u00e9 poss\u00edvel dizer de uma antropologia epicurista. O presente artigo visa expor alguns elementos desta antropologia para construir a imagem do homem epicureu, perpassando pelos caminhos da filosofia de Epicuro; da estrutura da forma\u00e7\u00e3o f\u00edsica e ps\u00edquica do ser humano; e chegando enfim ao auge de sua filosofia, a busca pelo prazer. N\u00e3o \u00e9 objetivo deste trabalho expor a estrutura geral da escola epicurista, mas aquilo que concerne \u00e0 sua antropologia.<\/p>\n<p><strong>Palavras-chave: <\/strong>Antropologia. Homem. Epicuro. Prazer. Filosofia.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Considera\u00e7\u00f5es iniciais<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Epicuro, pensador do per\u00edodo helen\u00edstico do s\u00e9culo quarto antes de Cristo, desenvolveu para si e seus seguidores uma doutrina de vida baseada na imperturbabilidade da alma, a escola epicurista. Uma indiferen\u00e7a em rela\u00e7\u00e3o aos desafios e problemas da vida daquele per\u00edodo. O cume desta forma de viver \u00e9 a busca do prazer.<\/p>\n<p>Tra\u00e7ando este caminho, Epicuro trata de quest\u00f5es inerentes ao ser humano e de sua estrutura corporal e ps\u00edquica, despontando numa \u00e9tica baseada na finalidade das a\u00e7\u00f5es humanas como o prazer. Tais pontos permitem dizer de uma Antropologia Epicurista, que \u00e9 o tema deste trabalho.<\/p>\n<p>O homem epicureu pode ser precipitadamente considerado como aquele que busca o prazer desmedido, desregrado, e por consequ\u00eancia torna-se um homem sem regras para orient\u00e1-lo. Essa vis\u00e3o pessimista do homem, que beira o animalesco, n\u00e3o est\u00e1 presente na teoria de Epicuro, e por isso, \u00e9 sem raz\u00e3o o excessivo uso de forma negativa do termo <em>hedonismo<\/em> nos dias atuais para dizer da escola epicurista. O presente trabalho visa mostrar qual a vis\u00e3o de Epicuro sobre o homem, e qual deve ser o seu comportamento em vistas da busca do prazer.<\/p>\n<p>Perpassar-se-\u00e1 pelo caminho das bases da filosofia epicurista; da forma\u00e7\u00e3o estrutural do ser humano e de sua rela\u00e7\u00e3o com os deuses e a morte; e por fim, a busca pelo prazer, cume da teoria epicurista e finalidade das a\u00e7\u00f5es racionais humanas. Vale ressaltar que n\u00e3o \u00e9 objetivo deste artigo expor a estrutura geral da escola epicurista, mas aquilo que concerne \u00e0 sua antropologia.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>1 A filosofia epicurista<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Epicuro orienta sua filosofia por um caminho que conduz o homem a um estado de imperturbabilidade da alma, uma condi\u00e7\u00e3o proporcionada pelo prazer. Os caminhos desta filosofia direcionam seu olhar sobre o homem e, assim, consequentemente desenvolve-se uma antropologia. \u201cEla se orienta no sentido de tornar poss\u00edvel, no homem, o estado de imperturbabilidade (<em>ataraxia), <\/em>condi\u00e7\u00e3o para frui\u00e7\u00e3o est\u00e1vel do prazer.\u201d (VAZ, 2010, p. 41)<\/p>\n<p>Esse caminho em busca do prazer exige do homem um tr\u00edplice entendimento da vida, que parte da l\u00f3gica, perpassa pela f\u00edsica, para enfim despontar em uma \u00e9tica. Esse caminho se faz necess\u00e1rio para que o homem, atrav\u00e9s de sua racionalidade, busque corretamente as fontes do prazer verdadeiro, que \u00e9 a sua finalidade enquanto humano.<\/p>\n<p>Para tanto \u00e9 necess\u00e1rio que a raz\u00e3o humana seja conduzida retamente, tarefa que compete \u00e0 L\u00f3gica [&#8230;]; que o universo seja compreendido corretamente, o que \u00e9 obra da F\u00edsica; e, finalmente, que a a\u00e7\u00e3o humana seja dirigida para o seu verdadeiro fim, sendo este o objeto da \u00c9tica. (VAZ, 2010, p. 41)<\/p>\n<p>Quanto \u00e0 l\u00f3gica, Epicuro ir\u00e1 afirmar que o homem \u201ctem de saber extrair pelo racioc\u00ednio conclus\u00f5es concordantes com os fen\u00f4menos.\u201d (EPICURO, 1980, p. 14) Somente assim, ele ser\u00e1 assegurado de um entendimento das situa\u00e7\u00f5es em que est\u00e1 inserido. A adequa\u00e7\u00e3o do racioc\u00ednio com os fen\u00f4menos \u00e9 uma tarefa que somente o homem pode realizar, uma vez que \u00e9 dotado de racionalidade, e s\u00f3 assim pode alcan\u00e7ar a verdade dos fatos, adequando seu aparato racional ao objeto que contempla.<\/p>\n<p>A f\u00edsica \u00e9 o caminho proposto para entender o universo e seu funcionamento. Baseando-se especialmente no modelo atomista, Epicuro ir\u00e1 afirmar que o universo \u00e9 composto por part\u00edculas, que numa leitura atomista, denominam-se como \u00e1tomos. Sua concep\u00e7\u00e3o de um universo estritamente at\u00f4mico implica diretamente na forma\u00e7\u00e3o estrutural do homem, como ser\u00e1 mostrado adiante.<\/p>\n<p>Alguns corpos s\u00e3o compostos, e outros elementos dos compostos; e estes \u00faltimos s\u00e3o indivis\u00edveis e imut\u00e1veis, visto que \u00e9 for\u00e7oso que alguma coisa subsista na dissolu\u00e7\u00e3o dos compostos; Se assim n\u00e3o fosse, tudo deveria dissolver-se em nada. S\u00e3o s\u00f3lidos por natureza, porque n\u00e3o t\u00eam nem onde nem como dissolver-se. De maneira que os princ\u00edpios s\u00e3o subst\u00e2ncias corp\u00f3reas e indivis\u00edveis. (EPICURO, 1980, p. 15)<\/p>\n<p>A \u00e9tica epicurista \u00e9 o ponto alto de sua teoria, ponto este alcan\u00e7ado pelo caminho da l\u00f3gica e da f\u00edsica, que conduzem o homem ao seu fim: o prazer. Para Epicuro, o homem traz consigo a busca pelo prazer de forma inata. \u00c9 natural a ele buscar satisfazer seus desejos. O caminho proposto por Epicuro n\u00e3o \u00e9 de uma descoberta desse fim, mas de condu\u00e7\u00e3o a ele de forma segura e racional.<\/p>\n<p>Chamamos ao prazer princ\u00edpio e fim da vida feliz. Com efeito, sabemos que \u00e9 o primeiro bem, o bem inato, e que dele derivamos toda a escolha ou recusa e chegamos a ele valorizando todo bem com crit\u00e9rio do efeito que nos produz. (EPICURO, 1980, p. 17)<\/p>\n<p>Esta tr\u00edplice divis\u00e3o na filosofia epicurista tem como finalidade conduzir o homem por um caminho de entendimento da realidade e do universo em que est\u00e1 inserido, para que ele possa procurar a sua verdadeira felicidade. Por estar intrinsecamente ligado ao homem, desenvolve-se assim n\u00e3o apenas um caminho filos\u00f3fico, mas antropol\u00f3gico. \u201c\u00c9 como um programa para a busca e a conquista da <em>eudaimonia, <\/em>identificada como o prazer verdadeiro (<em>hedon\u00e9<\/em>) que o Epicurismo desenvolve sua antropologia.\u201d (VAZ, 2010, p. 41)<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>2<\/strong> <strong>A estrutura do homem<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Para a compreens\u00e3o estrutural do homem \u201cEpicuro vai buscar inspira\u00e7\u00e3o no materialismo atomista de Dem\u00f3crito, e sua antropologia \u00e9, pois, rigorosamente materialista. O homem \u00e9, essencialmente, um ser-que-sente.\u201d (VAZ, 2010, p. 41) O sentir est\u00e1 ligado diretamente ao seu aparato sensitivo, e \u00e9 por meio dele que o homem conhece e sente o mundo, e como citado anteriormente, por meio de sua racionalidade faz a adequa\u00e7\u00e3o do racioc\u00ednio com a realidade.<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[1]<\/a><\/p>\n<p>\u201cEpicuro acreditava serem os sentidos fontes confi\u00e1veis de informa\u00e7\u00e3o que operavam transmitindo imagens dos corpos exteriores aos \u00e1tomos de nossa alma.\u201d (KENNY, 2008, p. 126) Com essa afirma\u00e7\u00e3o pode-se presumir que Epicuro acreditava que na alma estava a sede da racionalidade, que recebia dos sentidos as informa\u00e7\u00f5es e ali eram processadas pelo intelecto.<\/p>\n<p>O que chama a aten\u00e7\u00e3o em Epicuro para a forma\u00e7\u00e3o estrutural do homem, \u00e9 que, embora ele conceba o ser humano como corpo e alma, ele considera ambos como agregados at\u00f4micos.<\/p>\n<p>A alma \u00e9 corp\u00f3rea, composta de part\u00edculas sutis, difusa por toda a estrutura corporal, muito semelhante a um sopro que contenha uma mistura de calor, semelhante um pouco a um e um pouco a outro, e tamb\u00e9m muito diferente deles pela sutileza das part\u00edculas, e tamb\u00e9m por este lado capaz de sentir-se em harmonia com o resto do organismo. (EPICURO, 1980, p. 16)<\/p>\n<p>Vale frisar que para ele corpo e alma, embora sejam realidades distintas (e possuam estruturas at\u00f4micas diferentes), se relacionam intimamente, e um sem o outro n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel. Alma e corpo est\u00e3o intrinsecamente ligados, e essa rela\u00e7\u00e3o \u00e9 que forma o ser humano. Um depende do outro: o corpo, que possui o aparato sensitivo; a alma, que possui o aparato racional. \u201cA \u2018carne\u2019 n\u00e3o est\u00e1, ent\u00e3o, separada da \u2018alma\u2019, se \u00e9 verdade que n\u00e3o h\u00e1 prazer ou sofrimento sem que se tenha consci\u00eancia e sem que o estado de consci\u00eancia se reproduza, por sua vez, na \u2018carne\u2019.\u201d (HADOT, 2014, p. 170-171)<\/p>\n<p>Epicuro n\u00e3o descarta a ideia dos deuses transcendentes, mas considera o homem, atrav\u00e9s de sua forma\u00e7\u00e3o, uma realidade independente em rela\u00e7\u00e3o a eles. O homem n\u00e3o se relaciona com os deuses, e a rec\u00edproca tamb\u00e9m \u00e9 verdadeira, uma vez que \u201csomos agentes livres, gra\u00e7as \u00e0 inflex\u00e3o dos \u00e1tomos, somos senhores de nosso pr\u00f3prio destino: os deuses nem fazem exig\u00eancias nem interferem em nossas escolhas.\u201d (KENNY, 2008, p. 126) O homem \u00e9 livre em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s realidades divinas.<\/p>\n<p>Um corpo e uma alma at\u00f4micos trazem consigo implica\u00e7\u00f5es para o ser humano no que diz respeito \u00e0 morte. Epicuro evidencia que com a morte cessa-se o ser humano, uma vez que tanto no corpo como na alma ocorre o desagregamento destes \u00e1tomos. E ap\u00f3s a morte, nada mais \u00e9, pois nada mais pode ser sentido. \u201cAcostuma-te \u00e0 ideia de que a morte para n\u00f3s n\u00e3o \u00e9 nada, visto que todo o bem e todo o mal residem nas sensa\u00e7\u00f5es, e a morte \u00e9 justamente a priva\u00e7\u00e3o das sensa\u00e7\u00f5es.\u201d (EPICURO, 2002, p. 27)<\/p>\n<p>A concep\u00e7\u00e3o de alma como imaterial \u00e9 descartada por Epicuro, \u201ca concep\u00e7\u00e3o de <em>psych\u00e9 <\/em>\u00e9 [&#8230;] estritamente f\u00edsica, ela n\u00e3o \u00e9 sen\u00e3o um agregado de \u00e1tomos e se dissolve com a morte.\u201d (VAZ, 2010, p. 41) Com o dissolver da alma, qualquer realidade p\u00f3s-morte tamb\u00e9m \u00e9 descartada, talvez da\u00ed o ideal de uma vida feliz no <em>hic et nunc, <\/em>j\u00e1 que qualquer realidade posterior n\u00e3o \u00e9 dada ao homem epicureu.<\/p>\n<p>Estas duas afirma\u00e7\u00f5es sobre os deuses e sobre a morte conduzem o homem a um est\u00e1gio de imperturbabilidade da alma em rela\u00e7\u00e3o a estes mesmos temas. Os deuses n\u00e3o se relacionam com os homens e nem a morte \u00e9 sentida, pois a morte \u00e9 justamente a priva\u00e7\u00e3o das sensa\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Assim, de um lado, o homem n\u00e3o teme os deuses, pois eles n\u00e3o exercem nenhuma a\u00e7\u00e3o sobre o mundo e sobre os homens, e, de outro, o homem n\u00e3o deve mais temer a morte, porque a alma, composta de \u00e1tomos, desagrega-se como o corpo, quando morre, e perde toda sensibilidade. (HADOT, 2014, p. 178)<\/p>\n<p>N\u00e3o existe dualismo em Epicuro, apenas dualidade. Corpo e alma s\u00e3o materiais, corp\u00f3reos, e se relacionam intimamente na constru\u00e7\u00e3o estrutural do ser humano. Um sem o outro n\u00e3o \u00e9 <em>homem. <\/em>Apenas juntos eles podem desempenhar seu papel e atingir a sua finalidade: o prazer.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>3 A busca pelo prazer<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u201cA voz da carne diz: n\u00e3o se deve sofrer a fome, a sede e o frio; aquele que \u00e9 senhor disso, e tem a esperan\u00e7a de possu\u00ed-lo no futuro, pode lutar at\u00e9 mesmo com Zeus pela felicidade.\u201d (EPICURO apud<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\">[2]<\/a> HADOT, 2016, p. 170) Com esse pensamento, Epicuro expressa o que ele compreende por felicidade. O homem deve ir at\u00e9 as \u00faltimas consequ\u00eancias na busca por ela. Esta referida felicidade diz respeito ao prazer.<\/p>\n<p>A sua teoria sobre a busca do prazer \u00e9 ainda hoje altamente discutida e criticada. Em Epicuro pode parecer que n\u00e3o h\u00e1 limites para o prazer, e que este mesmo prazer deve ser sempre sem medida. \u201cA cr\u00edtica mais s\u00e9ria se concentrou sobre seu ensinamento de que as virtudes eram apenas meios de assegurar o prazer.\u201d (KENNY, 2008, p. 322) Epicuro torna-se defensor de uma \u00e9tica hedonista, o que pode soar pejorativo para os ouvidos contempor\u00e2neos.<\/p>\n<p>\u00c9 preciso antes esclarecer o que \u00e9 para Epicuro o prazer, n\u00e3o sendo este desenfreado ou sem medidas, mas sim um prazer que prov\u00e9m da l\u00f3gica da vida, e que quando perpassa os caminhos da filosofia adquire uma nova dimens\u00e3o. \u00c9 um prazer racional fundado na ascese dos desejos.<\/p>\n<p>A ascese dos desejos ser\u00e1 fundada na distin\u00e7\u00e3o entre os desejos naturais e necess\u00e1rios, os desejos naturais e desnecess\u00e1rios e os desejos vazios. [&#8230;] s\u00e3o naturais e necess\u00e1rios os desejos que levam \u00e0 satisfa\u00e7\u00e3o de libertar-se de uma dor e correspondem \u00e0s necessidades elementares, \u00e0s exig\u00eancias vitais. S\u00e3o naturais, mas desnecess\u00e1rios os desejos de comidas suntuosas ou ainda o desejo sexual. N\u00e3o s\u00e3o nem naturais nem necess\u00e1rios, mas produzidos por opini\u00f5es vazias, os desejos sem limites de riqueza, de gl\u00f3ria, ou de imortalidade. [&#8230;] A ascese dos desejos consistir\u00e1 em limit\u00e1-los, suprimindo os que n\u00e3o s\u00e3o naturais nem necess\u00e1rios, limitando o mais poss\u00edvel os que s\u00e3o naturais, mas desnecess\u00e1rios, pois eles n\u00e3o suprimem um sofrimento real, visam apenas \u00e0s varia\u00e7\u00f5es no prazer e podem arrastar a paix\u00f5es violentas e desmedidas. (HADOT, 2016, p. 174)<\/p>\n<p>Pode-se perceber claramente que n\u00e3o residem igualmente em todas as a\u00e7\u00f5es humanas o prazer procurado pelo homem epicureu, mas \u00e9 em vistas desse prazer que todas as a\u00e7\u00f5es do homem s\u00e3o realizadas quando se conhece seguramente os desejos que tem. \u201cO conhecimento seguro dos desejos leva a direcionar toda escolha e toda recusa para a sa\u00fade do corpo e para a serenidade do esp\u00edrito, visto que esta \u00e9 a finalidade da vida feliz: em raz\u00e3o desse fim praticamos todas as nossas a\u00e7\u00f5es, para nos afastarmos da dor e do medo.\u201d (EPICURO, 2002, p. 35)<\/p>\n<p>O prazer \u00e9 uma forma de sanar a dor e pode ser hierarquizado. O prazer \u00e9 assim a satisfa\u00e7\u00e3o do desejo, enquanto ato. Quando se est\u00e1 sanado o desejo, cessa-se o prazer. E, por isso, n\u00e3o \u00e9 no excesso que reside o prazer dito como verdadeira felicidade. \u201cO que permite que Epicuro combine o hedonismo te\u00f3rico ao asceticismo pr\u00e1tico \u00e9 sua compreens\u00e3o do prazer como essencialmente a satisfa\u00e7\u00e3o do desejo.\u201d (KENNY, 2008, p. 321)<\/p>\n<p>A racionalidade do prazer em Epicuro \u00e9 evidenciada pelo fato de ele afirmar que s\u00f3 aquele que ama a sabedoria pode atingir o verdadeiro prazer, s\u00f3 aquele que vive a <em>ataraxia <\/em>consegue se desprender dos excessos e viver o prazer de forma saud\u00e1vel.<\/p>\n<p>[&#8230;] o que importa, antes de tudo, \u00e9 libertar a \u201ccarne\u201d de seu sofrimento, o que lhe permite atingir o prazer. [&#8230;] na realidade, o indiv\u00edduo \u00e9 movido apenas pela procura de seu prazer e de seu interesse. No entanto o papel da filosofia consistir\u00e1 em saber procurar o prazer de maneira racional, isto \u00e9, em procurar o \u00fanico prazer verdadeiro, o puro prazer de existir, pois toda a infelicidade, toda a pena dos homens prov\u00e9m de que eles ignoram o verdadeiro prazer. (HADOT, 2014, p. 171)<\/p>\n<p>Em Epicuro pode-se perceber que nesta \u00f3tica da busca por uma vida prazerosa, o homem encontra sentido e significado at\u00e9 mesmo para os sofrimentos de que \u00e9 acometido em virtude de sua condi\u00e7\u00e3o humana limitada. Se o sofrimento humano \u00e9 forma ou caminho para se chegar a um estado de prazer, ele torna-se justific\u00e1vel e suport\u00e1vel. E como fuga deste sofrimento o homem est\u00e1 disposto a tamb\u00e9m abrir m\u00e3o de muitos prazeres, quando percebe que este n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o grande como o sofrimento de sua busca.<\/p>\n<p>Embora o prazer seja nosso bem primeiro e inato, nem por isso escolhemos qualquer prazer: h\u00e1 ocasi\u00f5es em que evitamos muitos prazeres, quando deles adv\u00eam efeitos o mais das vezes desagrad\u00e1veis; ao passo que consideramos muitos sofrimentos prefer\u00edveis aos prazeres, se um prazer maior advier depois de suportarmos essas dores por muito tempo. (EPICURO, 2002, p. 37-39)<\/p>\n<p>O prazer em Epicuro reside em coisas simples e isto faz parte do itiner\u00e1rio que ele prop\u00f5e na busca da felicidade. Contentar-se com o necess\u00e1rio para sanar a dor e o sofrimento. N\u00e3o s\u00e3o nas extravag\u00e2ncias de uma vida luxuosa que residem o prazer, mas na simplicidade das coisas. \u201cHabituar-se \u00e0s coisas simples, a um modo de vida n\u00e3o luxuoso, portanto, n\u00e3o s\u00f3 \u00e9 conveniente para a sa\u00fade, como ainda proporciona ao homem os meios para enfrentar corajosamente as adversidades da vida.\u201d (EPICURO, 2002, p. 41)<\/p>\n<p>E n\u00e3o apenas nas coisas reside o prazer, mas tamb\u00e9m nas pessoas, e \u00e9 importante frisar que o outro em Epicuro n\u00e3o se reduz a apenas objeto de desejo sexual, mas tamb\u00e9m de amizade e companhia, em que uma vida simples e oculta traz mais felicidade que uma vida p\u00fablica e cheia de regalias. \u201cUm tra\u00e7o que marcar\u00e1 profundamente a \u00e9tica epicurista ao longo do tempo \u00e9 a desvaloriza\u00e7\u00e3o da vida pol\u00edtica e a exalta\u00e7\u00e3o, em seu lugar, da \u201dvida escondida\u201d enriquecida com o cultivo da amizade (<em>phil\u00eda<\/em>).\u201d (VAZ, 2010, p. 42)<\/p>\n<p>O homem epicureu \u00e9 aquele que baseia sua vida na filosofia para se alcan\u00e7ar a realiza\u00e7\u00e3o dos seus desejos, e assim obter o prazer. Nem mesmo a morte \u00e9 capaz de trazer perturba\u00e7\u00e3o \u00e0quele que \u00e9 s\u00e1bio, pois ele conhece o que a morte significa. \u00c9 na sabedoria que reside a verdadeira felicidade, e por isso quem a encontra n\u00e3o se deixa abater pelos medos ou sofrimentos.<\/p>\n<p>At\u00e9 o fim de sua exist\u00eancia Epicuro insistiu que o prazer, para um fil\u00f3sofo, sob quaisquer circunst\u00e2ncias, deveria superar a dor. [&#8230;] Ele viveu segundo sua convic\u00e7\u00e3o de que a morte, embora inescap\u00e1vel, n\u00e3o \u00e9, se assumimos uma verdadeira vis\u00e3o filos\u00f3fica a seu respeito, um mal. (KENNY, 2008, p. 126)<\/p>\n<p>Em Epicuro o homem que busca a sabedoria automaticamente alcan\u00e7a o prazer verdadeiro. A filosofia \u00e9 o caminho para ensinar o homem a viver a sua vida corajosamente, sendo homem. \u201cAqui encontra a filosofia sua suprema miss\u00e3o, tornando-se de fato aquilo que Epicuro entende por ela: pr\u00e1tica de vida.\u201d (WEISCHEDEL, 2004, p. 71)<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Considera\u00e7\u00f5es finais<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O homem epicureu \u00e9 at\u00f4mico, no corpo e na alma. Sua antropologia \u00e9 essencialmente materialista. E o homem \u00e9 essencialmente um ser que sente. Seu corpo possui o aparato sensitivo que capta as imagens do ambiente. A alma, por sua vez, \u00e9 que recebe essas informa\u00e7\u00f5es racionalmente. Da\u00ed \u00e9 papel da l\u00f3gica correlacionar o que se pensa com o que se v\u00ea.<\/p>\n<p>Na compreens\u00e3o do universo, o homem vale-se da f\u00edsica, e destina as suas a\u00e7\u00f5es de modo a combater a dor e o sofrimento, busca para si o prazer racional. O prazer prov\u00e9m da ascese dos desejos, e cessa quando a necessidade \u00e9 suprida. O que excede a isso n\u00e3o \u00e9 prazer. Tal prazer n\u00e3o est\u00e1 somente nas coisas, mas nas rela\u00e7\u00f5es; n\u00e3o apenas nas rela\u00e7\u00f5es sexuais, mas tamb\u00e9m nas rela\u00e7\u00f5es de amizade sincera. O faz sem temer os deuses, que n\u00e3o se relacionam com ele; e n\u00e3o teme a morte, que n\u00e3o passa do fim das sensa\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Pode-se notar que o homem epicureu n\u00e3o est\u00e1, em v\u00e1rios aspectos, distante daquilo que a humanidade tem buscado: evitar a dor e o sofrimento, levar uma vida feliz e prazerosa. Disso pode-se concluir que muitas vezes \u00e9 sem raz\u00e3o dizer que o homem epicureu \u00e9 aquele que a qualquer custo busca o prazer desenfreado e sem medidas, que o torna mais animalesco do que racional. \u00c9 preciso, pois afirmar, que o homem epicureu busca sim o prazer, mas o prazer racional, em uma forma de vida desapegada das coisas materiais e dos status hierarquizadores.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>EPICURO. <em>Antologia de Textos. <\/em>Tradu\u00e7\u00e3o Agostinho da Silva et al. ed. 2. S\u00e3o Paulo: Abril Cultural, 1980. (Os pensadores)<\/p>\n<p>\u00ad\u00ad\u00ad______. <em>Carta sobre a felicidade: a Meneceu. <\/em>Tradu\u00e7\u00e3o \u00c1lvaro Lorencini e Enzo Del Carratore. S\u00e3o Paulo: Editora UNESP, 2002.<\/p>\n<p>HADOT, Pierre. <em>O que \u00e9 a filosofia antiga?<\/em> Tradu\u00e7\u00e3o Dion Davi Macedo. 6. ed. S\u00e3o Paulo: Loyola, 2014.<\/p>\n<p>KENNY, Anthony. <em>Uma nova hist\u00f3ria da filosofia ocidental.<\/em> Filosofia Antiga. Vol. I. Tradu\u00e7\u00e3o Carlos Alberto B\u00e1rbaro. S\u00e3o Paulo: Loyola, 2008.<\/p>\n<p>VAZ, Henrique C. de Lima. <em>Antropologia Filos\u00f3fica. <\/em>Volume I. ed. 10. S\u00e3o Paulo: Loyola, 2010.<\/p>\n<p>WEISCHEDEL, Wilhelm. <em>A escada dos fundos da filosofia. <\/em>A Vida Cotidiana e o Pensamento de 34 Grandes Fil\u00f3sofos. Tradu\u00e7\u00e3o Edson Dognaldo Gil. ed. 4. S\u00e3o Paulo: Angra, 2004.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">*<\/a> Bacharelando em Filosofia pela Faculdade Arquidiocesana de Mariana.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[1]<\/a> Cf. EPICURO, 1980, p. 14.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[2]<\/a> Senten\u00e7as Vaticanas, \u00a7 33, Balaud\u00e9. P. 213.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Eudvanio Dias Soares* Resumo: Epicuro, fundador da escola helen\u00edstica do epicurismo, \u00e9 conhecido por sua doutrina de vida orientada para o prazer. O prazer \u00e9 a palavra que marca o pensamento epicurista. 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