{"id":2687,"date":"2018-06-03T20:59:10","date_gmt":"2018-06-03T23:59:10","guid":{"rendered":"http:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/?p=2687"},"modified":"2018-06-03T21:00:37","modified_gmt":"2018-06-04T00:00:37","slug":"passado-presente-e-futuro-em-aristoteles","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/?p=2687","title":{"rendered":"PASSADO, PRESENTE E FUTURO EM ARIST\u00d3TELES"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\">Eudvanio Dias Soares<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">*<\/a><\/p>\n<p><strong>Resumo: <\/strong>O presente trabalho objetiva apresentar um estudo sobre o tempo, fundamentado na <em>F\u00edsica <\/em>de Arist\u00f3teles e especialmente na obra <em>Os sentidos do tempo em Arist\u00f3teles <\/em>de Fernando Rey Puente. Objetiva ainda expor algumas considera\u00e7\u00f5es sobre a bifacialidade do tempo e, com isso, suas inst\u00e2ncias temporais: passado, presente e futuro, levando em considera\u00e7\u00e3o o sentido f\u00edsico do tempo, assim como de sua dimens\u00e3o pr\u00e1tica para o ser humano. Cada uma destas inst\u00e2ncias temporais ser\u00e1 abordada dentro da perspectiva aristot\u00e9lica nos sentidos anteriormente citados. Vale ressaltar que se abordar\u00e1 neste trabalho o sentido f\u00edsico e a dimens\u00e3o pr\u00e1tica do tempo para o homem, n\u00e3o tendo, portanto, o objetivo de tratar de seu sentido cosmol\u00f3gico e\/ou metaf\u00edsico.<\/p>\n<p><strong>Palavras-chave: <\/strong>Tempo. Agora. Passado. Futuro. Arist\u00f3teles.<\/p>\n<p><strong>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 <\/strong><\/p>\n<p><strong>Considera\u00e7\u00f5es iniciais<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O ser humano encontra-se imerso na a\u00e7\u00e3o do tempo. Todas as suas rela\u00e7\u00f5es, atividades e movimentos tendem para um fim futuro, s\u00e3o por vezes pautadas em experi\u00eancias passadas, e obviamente acontecem num tempo presente, mais incisivamente no agora, \u00fanica inst\u00e2ncia do tempo em que o movimento pode de fato acontecer. Esta sua referida imers\u00e3o no tempo torna-o objeto de grandes questionamentos. Parte da\u00ed a necessidade de se compreender o tempo.<\/p>\n<p>O presente artigo objetiva apresentar um estudo sobre o tempo, fundamentado na <em>F\u00edsica <\/em>de Arist\u00f3teles e especialmente na obra <em>Os sentidos do tempo em Arist\u00f3teles <\/em>de Fernando Rey Puente. Objetiva ainda expor algumas considera\u00e7\u00f5es sobre a bifacialidade do tempo e suas inst\u00e2ncias temporais, levando em considera\u00e7\u00e3o o sentido f\u00edsico do tempo, assim como de sua dimens\u00e3o pr\u00e1tica para o ser humano.<\/p>\n<p>Em primeiro lugar o passado: o passado como um ser que j\u00e1 foi e n\u00e3o \u00e9 mais, e neste sentido que n\u00e3o pode tornar a ser; as implica\u00e7\u00f5es do passado na a\u00e7\u00e3o humana, assim como o porqu\u00ea da sensa\u00e7\u00e3o de se poder \u201cpresentificar\u201d eventos que j\u00e1 se passaram; a import\u00e2ncia do passado na dimens\u00e3o pr\u00e1tica do tempo para o homem tamb\u00e9m ser\u00e1 abordada nesta mesma discuss\u00e3o.<\/p>\n<p>Metodologicamente, por tratar-se da bifacialidade passado-futuro do tempo, em que ambos configuram-se como n\u00e3o ser, em segundo lugar tratar-se-\u00e1 do futuro: o futuro como inst\u00e2ncia do tempo que ainda n\u00e3o \u00e9, portanto, ser em devir; assim como no que se refere ao passado, prop\u00f5e-se tamb\u00e9m explanar sobre as implica\u00e7\u00f5es do futuro nas a\u00e7\u00f5es humanas e de como o futuro, mesmo ainda n\u00e3o sendo, pode ter tanta influ\u00eancia no agora.<\/p>\n<p>Por fim, o presente: o presente como aquilo que ainda n\u00e3o \u00e9 e ainda n\u00e3o foi. O presente, neste caso, trata-se do limite que separa esses dois instantes (passado e futuro): o agora. Questionamentos como qual o limite do agora, quando o futuro deixa de ser futuro para ser agora e o agora deixa de ser agora para ser passado ser\u00e3o discutidos neste trabalho, assim como passado e futuro s\u00e3o inst\u00e2ncias cruciais para se bem agir no presente, dentro da dimens\u00e3o pr\u00e1tica do tempo.<\/p>\n<p>Vale ressaltar que se abordar\u00e1 neste trabalho o sentido f\u00edsico e a dimens\u00e3o pr\u00e1tica do tempo para o homem, n\u00e3o tendo, portanto, o objetivo de tratar de seu sentido cosmol\u00f3gico e metaf\u00edsico.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>1 O passado: a inst\u00e2ncia do tempo que j\u00e1 se passou <\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O passado \u00e9 uma das faces referentes ao tempo. \u00c9 \u201cum ser que j\u00e1 foi e que j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 mais.\u201d (BITTAR, 2003, p. 397) Ele \u00e9 a unidade do tempo que j\u00e1 passou, que n\u00e3o pode mais retornar. Foi enquanto agora, enquanto unidade que se denomina presente. Deixa de ser enquanto passado, enquanto unidade do tempo que j\u00e1 passou. Ele \u00e9 uma unidade irretorn\u00e1vel, pois passou do ser ao n\u00e3o ser, e n\u00e3o retorna do n\u00e3o ser ao ser.<\/p>\n<p>Arist\u00f3teles define o tempo na <em>F\u00edsica: <\/em>\u201cPorque o tempo \u00e9 apenas isto: o n\u00famero do movimento segundo o antes e o depois.\u201d (Phys. 219 b<sub>1-2<\/sub>, tradu\u00e7\u00e3o nossa)<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[1]<\/a> \u00c9 justamente o <em>antes<\/em> da descri\u00e7\u00e3o do tempo de Arist\u00f3teles que corresponde ao passado. O anterior que j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 mais. O passado, desta forma, parece tornar-se inacess\u00edvel. N\u00e3o pode tornar a ser e gera uma s\u00e9rie de problemas na quest\u00e3o do tempo. Enquanto n\u00e3o ser, como pode ele fazer parte do tempo que \u00e9 ser? \u00c9 como se o tempo dependesse da destrui\u00e7\u00e3o do agora para advir um novo agora, e o primeiro agora destru\u00eddo torna-se passado, enquanto o agora que o procede deixa de ser futuro.<\/p>\n<p>Este \u00e9 um problema apresentado por Fernando Rey Puente na sua obra <em>Os sentidos do tempo em Arist\u00f3teles, <\/em>em que ele destaca essa aporia da condi\u00e7\u00e3o deficit\u00e1ria do tempo:<\/p>\n<p>A primeira aporia acerca do tempo aponta para o seu modo deficit\u00e1rio de ser: uma parte dele n\u00e3o \u00e9 mais, a outra ainda n\u00e3o \u00e9; logo, seu <em>modus essendi <\/em>n\u00e3o \u00e9 completo. Ele carece de dimens\u00e3o presente, isto \u00e9, daquela parte que <em>\u00e9 <\/em>e n\u00e3o foi ou ser\u00e1. Todavia, quer consideremos \u201co tempo infinito\u201d, que \u201co tempo que \u00e9 sempre apreendido\u201d, em ambos os casos ele comp\u00f5e-se dessas partes que n\u00e3o existem no presente. [&#8230;] No primeiro caso, considera-se o tempo em sua totalidade, j\u00e1 no segundo leva-se em conta apenas um intervalo desse tempo infinito, em outras palavras, considera-se somente um intervalo de tempo voluntariamente delimitado. (PUENTE, 2001, p. 123)<\/p>\n<p>A presen\u00e7a do passado, assim como do futuro, como inst\u00e2ncias do tempo, que deixou de ser e que ainda n\u00e3o \u00e9, respectivamente, pode aparentemente comprometer a exist\u00eancia do tempo enquanto ser. O pr\u00f3prio Arist\u00f3teles ir\u00e1 levantar este problema: \u201cMas parece imposs\u00edvel que o que est\u00e1 composto de n\u00e3o ser tenha parte no ser.\u201d (Phys. 218 a<sub>3,<\/sub> tradu\u00e7\u00e3o nossa.) <a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\">[2]<\/a> De fato o problema \u00e9 aparente, Arist\u00f3teles diz que <em>parece<\/em> ser imposs\u00edvel, n\u00e3o que <em>seja<\/em> imposs\u00edvel. O passado, sendo o ser que deixa de ser, n\u00e3o impede que o tempo seja considerado ser.<\/p>\n<p>Essa aporia principal exprime-se por meio de duas linhas argumentativas: a primeira assinala a impossibilidade do tempo formado de partes que n\u00e3o s\u00e3o, de \u201cparticipar de uma subst\u00e2ncia\u201d; a segunda, que de certa forma complementa a primeira, aponta para uma situa\u00e7\u00e3o inversa, pois parte da suposi\u00e7\u00e3o de que o que pode ser dividido em partes, se existe, necessariamente deve possuir ao menos uma, se n\u00e3o todas as partes que o constituem. (PUENTE, 2001, p. 123)<\/p>\n<p>O passado e o futuro, e t\u00e3o somente eles, destruiriam a no\u00e7\u00e3o de ser do tempo. O que assegura a sua exist\u00eancia \u00e9 sua parte constitutiva que pode ser considerada como ser, \u201cisso nos leva a pensar no agora, pois este, ao contr\u00e1rio do que j\u00e1 foi e do que ainda est\u00e1 por vir, existe efetivamente agora.\u201d (PUENTE, 2001, p. 124)<\/p>\n<p>O tempo, enquanto n\u00famero do movimento segundo anterior e posterior (Phys. 219 b<sub>1-2 <\/sub>), permite que se identifique o passado como o movimento que j\u00e1 foi executado, que j\u00e1 foi realizado, e que n\u00e3o pode tornar a s\u00ea-lo feito uma vez que j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 mais. Pode-se, a partir desta considera\u00e7\u00e3o, dizer que o acesso ao passado \u00e9 imposs\u00edvel no que diz a respeito ao tempo. Em outros termos \u00e9 imposs\u00edvel atualiz\u00e1-lo, numa tentativa de refazer o movimento, de execut\u00e1-lo novamente, de \u201cpresentific\u00e1-lo<em>\u201d<\/em>.<\/p>\n<p>Entretanto o passado pode ser mensurado, dito, pensado. O que viria a tornar isso poss\u00edvel? Para isto \u00e9 preciso considerar o tempo n\u00e3o apenas como um ser f\u00edsico, mas considerar a sua dimens\u00e3o pr\u00e1tica em rela\u00e7\u00e3o ao homem. (PUENTE, 2001, p. 309) Dimens\u00e3o pr\u00e1tica esta que pode ser considerada a partir da inser\u00e7\u00e3o do homem no tempo: o ser humano \u00e9 temporal.<\/p>\n<p>Para realizar esta considera\u00e7\u00e3o, seguir-se-\u00e1 neste trabalho a leitura de Fernando Rey Puente, que toma como base para a ressignifica\u00e7\u00e3o do tempo no \u00e2mbito da a\u00e7\u00e3o humana as obras <em>\u00c9tica a Nic\u00f4maco, \u00c9tica a Eudemo <\/em>e<em> Categorias.<\/em>(PUENTE, 2001. P. 318-319) Nestas obras, segundo ele, h\u00e1 uma diferencia\u00e7\u00e3o do termo grego referente ao tempo, enquanto na <em>F\u00edsica <\/em>predomina o termo <em>\u039a\u03c1\u03cc\u03bd\u03bf\u03c2 (Khr\u00f3nos)<\/em>, nestas outras obras encontra-se o termo <em>\u039a\u03b1\u03b9\u03c1\u03cc\u03c2<\/em> (<em>Kair\u00f3s)<\/em>. E, a saber, ambos utilizados para falar do tempo.<\/p>\n<p>De qualquer modo, o que o Estagirita quer dizer, na verdade, com esses dois termos \u00e9 o mesmo, a saber, que <em>\u039a\u03b1\u03b9\u03c1\u03cc\u03c2 <\/em>\u00e9 o tempo visto em sua dimens\u00e3o qualitativa e n\u00e3o sem sua dimens\u00e3o quantitativa (como era preferentemente o caso da <em>F\u00edsica<\/em>) (PUENTE, 2001, p. 319)<\/p>\n<p>O <em>\u039a\u03b1\u03b9\u03c1\u03cc\u03c2 <\/em>\u00e9 assim, na categoria do tempo, o momento oportuno para a realiza\u00e7\u00e3o de uma a\u00e7\u00e3o. (PUENTE, 2001, p. 319) Este salto do \u00e2mbito quantitativo do tempo para o seu qualitativo \u00e9 essencial para compreender a interroga\u00e7\u00e3o anteriormente realizada sobre o passado que se pode mensurar, mesmo enquanto n\u00e3o ser, sobre essa tentativa de \u201csalvar\u201d o passado de sua corrup\u00e7\u00e3o e total impossibilidade de mensura\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Concentremo-nos no ponto que nos interessa, a dimens\u00e3o temporal de uma a\u00e7\u00e3o. Segundo esse crit\u00e9rio, uma paix\u00e3o ou um ato ser\u00e3o considerados virtuosos, se e somente se, ocorrerem no tempo oportuno (\u039a\u03b1\u03b9\u03c1\u03cc\u03c2). O erro no tocante do tempo, portanto, consistir\u00e1 em que experimentemos uma paix\u00e3o ou em que atuemos antes ou depois desse momento ideal. V\u00ea-se aqui claramente como tamb\u00e9m os conceitos meramente quantitativos do anterior e posterior s\u00e3o alterados ao receber uma atribui\u00e7\u00e3o valorativa. Assim, o anterior n\u00e3o \u00e9 simplesmente um agora neutro que antecede o momento oportuno, mas \u00e9 o momento no qual a a\u00e7\u00e3o ou a paix\u00e3o ser\u00e3o deficientes, lacunares, ou seja, \u00e9 um momento qualificado negativamente. (PUENTE, 2001, p. 321)<\/p>\n<p>Em outros termos, \u00e9 no passado que residem as a\u00e7\u00f5es humanas j\u00e1 realizadas, quer tenham sido elas boas e significativas, quer tenham sido elas m\u00e1s e infrut\u00edferas. \u00c9 no passado, neste antes qualitativo, que est\u00e3o situados os movimentos humanos de suas a\u00e7\u00f5es. A\u00e7\u00f5es estas que t\u00eam implica\u00e7\u00f5es em sua vida, e consequentemente em seu presente. Mas embora se possa compreender a import\u00e2ncia do passado para o ser humano, na dimens\u00e3o pr\u00e1tica do tempo, \u00e9 preciso ainda apontar a forma como esse passado \u00e9 mensurado pelo ser humano.<\/p>\n<p>Salvaguardado pelo ser humano em um \u00e2mbito de relato ou narra\u00e7\u00e3o dos fatos passados, a hist\u00f3ria \u00e9 a respons\u00e1vel pelo registro do passado e seu acesso no presente. (PUENTE, 2001, p. 334-335) Um acesso que se d\u00e1 como rememora\u00e7\u00e3o do movimento realizado, e n\u00e3o como retorno deste mesmo movimento. Puente recorre a <em>Po\u00e9tica <\/em>para fundamentar este seu pensamento, reitera que o voc\u00e1bulo \u201chist\u00f3ria\u201d possui ainda outro sentido que pode ser traduzido como \u201cinvestiga\u00e7\u00e3o preliminar\u201d, assinalando a primeira e fundamental etapa de qualquer ci\u00eancia. (PUENTE, 2001, p. 334)<\/p>\n<p>[&#8230;] o termo <em>\u1f31\u03c3\u03c4\u03bf\u03c1\u03af\u03b1 <\/em>assinala uma etapa inicial e necess\u00e1ria de todo conhecimento art\u00edstico e cient\u00edfico, pois indica precisamente a articula\u00e7\u00e3o da multiplicidade sensorial por meio de rela\u00e7\u00f5es de iner\u00eancia entre os predicados encontrados e o sujeito em quest\u00e3o. (PUENTE, 2001, p. 335)<\/p>\n<p>Isso quer dizer que o conhecimento cient\u00edfico depende do que j\u00e1 se foi produzido naquele mesmo assunto para prosseguir com a pesquisa, garantindo assim o seu progresso. Os resultados obtidos no tempo anterior ao presente s\u00e3o necess\u00e1rios para que se d\u00ea continuidade ao processo, do contr\u00e1rio nenhum campo do saber progrediria, mas estaria num eterno come\u00e7o, onde apenas as atitudes do agora seriam consideradas. Sem a <em>\u1f31\u03c3\u03c4\u03bf\u03c1\u03af\u03b1 <\/em>seriam apagadas todas as grandes descobertas realizadas e que hoje se encontram no passado. Tais descobertas n\u00e3o precisam mais ser realizadas, desde que se tenha acesso a elas, ainda que o movimento de descobrimento n\u00e3o possa mais ser realizado. Um acesso aos movimentos realizados no passado garante o progresso das descobertas e atitudes humanas.<\/p>\n<p>Segundo essa concep\u00e7\u00e3o, da sensa\u00e7\u00e3o gera-se uma imagem, e quando esta \u00e9 contemplada como c\u00f3pia e n\u00e3o em si mesma ent\u00e3o estamos diante de uma lembran\u00e7a cuja evoca\u00e7\u00e3o denominamos mem\u00f3ria. Por fim, da multiplicidade de mem\u00f3rias acerca de uma mesma coisa produz-se a experi\u00eancia. (PUENTE, 2001, p. 336)<\/p>\n<p>A mem\u00f3ria \u00e9 assim respons\u00e1vel por trazer as experi\u00eancias do passado para o \u00e2mbito do agora, como que fomento necess\u00e1rio para as atitudes humanas serem pautadas no erro ou no acerto, ou ainda na sucess\u00e3o de eventos j\u00e1 vividos, numa continuidade do processo, num progresso. \u201c[&#8230;] \u00e9 gra\u00e7as a um grande conhecimento acerca dos eventos passados que nos tornamos aptos a criar narrativas veross\u00edmeis e at\u00e9 mesmo necess\u00e1rias acerca de uma determinada a\u00e7\u00e3o.\u201d (PUENTE, 2001, p. 337)<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>2 O futuro: a inst\u00e2ncia do tempo em devir<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O futuro, assim como o passado, \u00e9 uma das faces referentes ao tempo. Pode-se caracterizar \u201co futuro como um ser em devir, uma pot\u00eancia a atualizar-se.\u201d (BITTAR, 2003, p. 397) Considerando o conceito de tempo na <em>F\u00edsica: <\/em>\u201cPorque o tempo \u00e9 apenas isto: o n\u00famero do movimento segundo o antes e depois,\u201d (Phys. 219 b<sub>1-2<\/sub>, tradu\u00e7\u00e3o nossa)<a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\">[3]<\/a> chegamos obviamente \u00e0 conclus\u00e3o que o depois do conceito trata-se do futuro.<\/p>\n<p>Ainda na perspectiva de Bittar, pode-se dizer que o futuro ainda n\u00e3o \u00e9. N\u00e3o \u00e9 enquanto agora, e quando o for, deixa assim de ser futuro, pois passa a ser. A pot\u00eancia atualiza-se e o futuro passa do ainda n\u00e3o \u00e9 ao ser, torna-se agora, presente. E tomando a discuss\u00e3o anterior sobre o passado, chega-se a conclus\u00e3o de que ele, o futuro, passar\u00e1 do agora para a inst\u00e2ncia do passado. Do ser em devir, ele passa pelo agora, e chega \u00e0quilo que j\u00e1 foi e n\u00e3o \u00e9 mais, o passado.<\/p>\n<p>Bertrand Russel afirma em sua <em>Hist\u00f3ria da Filosofia Ocidental <\/em>que Arist\u00f3teles \u201cParece que pensa no tempo como constitu\u00eddo de tantas horas, dias ou anos.\u201d (RUSSEL, 1957, p. 240) e que \u201cMovimento, diz ele, \u00e9 a realiza\u00e7\u00e3o do que existe em estado potencial.\u201d (RUSSEL, 1957, p. 239) Destas afirma\u00e7\u00f5es de Russel pode-se afirmar que o que existe em estado potencial, em rela\u00e7\u00e3o ao tempo, \u00e9 o que se denomina futuro, ou seja, as horas, dias e anos que ainda est\u00e3o por vir.<\/p>\n<p>Tomando mais uma vez a aporia que Fernando Rey Puente levanta, pode-se atrav\u00e9s do exposto sobre o futuro chegar a novas conclus\u00f5es.<\/p>\n<p>A primeira aporia acerca do tempo aponta para o seu modo deficit\u00e1rio de ser: uma parte dele n\u00e3o \u00e9 mais, a outra ainda n\u00e3o \u00e9; logo, seu <em>modus essendi <\/em>n\u00e3o \u00e9 completo. Ele carece de dimens\u00e3o presente, isto \u00e9, daquela parte que <em>\u00e9 <\/em>e n\u00e3o foi ou ser\u00e1. (PUENTE, 2001, p. 123)<\/p>\n<p>O presente \u00e9 o que garante o ser do tempo. Ele que \u00e9 e n\u00e3o foi ou ser\u00e1. Mas o tempo, sendo a realiza\u00e7\u00e3o do que ainda est\u00e1 em potencial, \u00e9 assegurado pela atualiza\u00e7\u00e3o da pot\u00eancia denominada futuro. Ou seja, sem a inst\u00e2ncia do futuro, o tempo n\u00e3o existiria, pois \u00e9 o seu devir que garante a realiza\u00e7\u00e3o do cont\u00ednuo movimento que \u00e9 necess\u00e1rio para a concep\u00e7\u00e3o do tempo.<\/p>\n<p>Em outros termos, pode-se tomar o que diz Anthony Kenny acerca do tempo na vis\u00e3o aristot\u00e9lica, em que ele exemplifica o movimento caracter\u00edstico do tempo como uma jornada, que pressup\u00f5e ponto de partida e fim:<\/p>\n<p>A parte de uma jornada que est\u00e1 mais pr\u00f3xima de seu ponto de partida ocorre antes da parte que est\u00e1 mais pr\u00f3xima de seu fim. Essa rela\u00e7\u00e3o espacial entre pr\u00f3ximo e distante fornece a base para a rela\u00e7\u00e3o de antes e depois no movimento; e estes s\u00e3o o \u201cantes\u201d e \u201cdepois\u201d que aparecem na defini\u00e7\u00e3o aristot\u00e9lica de tempo. \u00c9 o <em>antes <\/em>e o <em>depois <\/em>no movimento que possibilitam o <em>antes <\/em>e o <em>depois <\/em>no tempo. (KENNY, 2008, p. 224)<\/p>\n<p>Quando se inicia uma jornada pressup\u00f5e-se que ela acontece no agora, pois \u00e9 apenas no presente que se realiza o movimento. O antes deste movimento \u00e9 passado, n\u00e3o mais pode ser realizado, apenas rememorado, enquanto o futuro \u00e9 a pot\u00eancia desta jornada que se atualiza. \u201cDizemos quanto tempo se passou gra\u00e7as \u00e0 observa\u00e7\u00e3o do processo de alguma mudan\u00e7a. N\u00f3s hoje em dia, sabemos o tempo correto pela identifica\u00e7\u00e3o dos pontos a que chegaram os ponteiros do rel\u00f3gio em sua jornada em torno da face do rel\u00f3gio.\u201d (KENNY, 2008, p. 224-225) E essa observa\u00e7\u00e3o do instrumento que mede o tempo transcorrido d\u00e1 a no\u00e7\u00e3o da durabilidade da a\u00e7\u00e3o, de quando ela pode ter seu fim realizado. O rel\u00f3gio diz o in\u00edcio e fim de uma a\u00e7\u00e3o, mas n\u00e3o do tempo, j\u00e1 que este \u00e9 cont\u00ednuo.<\/p>\n<p>O futuro se atualiza, e torna-se presente. Mas \u00e9 em fun\u00e7\u00e3o do futuro que muitas atitudes humanas s\u00e3o tomadas. Ainda no exemplo de Anthony Kenny, toda jornada pressup\u00f5e um fim, e essa finalidade n\u00e3o \u00e9 imediata. O ser humano a realiza com vistas em algo que \u00e9 para um depois e n\u00e3o para um agora. O futuro, assim, mesmo ainda n\u00e3o sendo e estando por advir, move as a\u00e7\u00f5es humanas realizadas no agora. O que assegura essa import\u00e2ncia do futuro para as a\u00e7\u00f5es humanas?<\/p>\n<p>Faz-se necess\u00e1rio retomar a diferen\u00e7a entre <em>\u039a\u03c1\u03cc\u03bd\u03bf\u03c2 (Khr\u00f3nos) e<\/em> <em>\u039a\u03b1\u03b9\u03c1\u03cc\u03c2<\/em> (<em>Kair\u00f3s)<\/em>, onde o tempo n\u00e3o mais \u00e9 visto apenas no ponto de vista quantitativo, mas qualitativo, respectivamente nos termos.<\/p>\n<p>Puente faz men\u00e7\u00e3o a <em>Ret\u00f3rica <\/em>de Arist\u00f3teles, mais precisamente o segundo livro, em que ele \u201c[&#8230;] esclarece-nos acerca da estrutura intrinsecamente temporal de algumas emo\u00e7\u00f5es.\u201d (PUENTE, 2001, p. 330) Emo\u00e7\u00f5es estas que est\u00e3o pautadas, sobretudo, em um devir. O efeito das emo\u00e7\u00f5es ainda n\u00e3o ocorreu, mas pode ser como que pressentido pelo ser humano. \u201cAssim, por exemplo, o medo \u00e9 descrito como o sofrimento ou um dist\u00farbio originado pela imagina\u00e7\u00e3o de um mal destrutivo ou doloroso que possa nos acometer no futuro. (cf. Rhet. 1382 a<sub>21-22<\/sub>)\u201d (PUENTE, 2001, p. 330)<\/p>\n<p>Esse pressentimento do que ainda ir\u00e1 acontecer n\u00e3o passa de uma proje\u00e7\u00e3o. Diferentemente do passado que se pode acessar pela hist\u00f3ria, o futuro n\u00e3o permite que o fa\u00e7a, uma vez que o passado (como movimento realizado) pode estar presente na mem\u00f3ria, atrav\u00e9s da capta\u00e7\u00e3o deste mesmo movimento pelos sentidos e transformados em imagens. (PUENTE, 2001, p. 336) N\u00e3o cabe, portanto \u00e0 hist\u00f3ria esse processo de proje\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u201cO Estagirita inicia o nono cap\u00edtulo de sua obra<a href=\"#_ftn5\" name=\"_ftnref5\">[4]<\/a> afirmando n\u00e3o ser fun\u00e7\u00e3o do poeta narrar sobre as coisas ocorridas, mas sobre o que poderia acontecer, isto \u00e9, sobre as coisas poss\u00edveis segundo verossimilhan\u00e7a ou necessidade.\u201d (PUENTE, 2001, p. 333) Cabe \u00e0 poesia, \u00e0 figura do poeta, esse \u201cacesso\u201d ao futuro, um ato que reside no campo da possibilidade, uma vez que do futuro s\u00f3 se pode dizer o que possivelmente ocorrer\u00e1, j\u00e1 que ele, mais vez reafirma-se, \u00e9 um ser em devir.<\/p>\n<p>Associa-se a experi\u00eancia advinda da mem\u00f3ria das imagens do passado, com a proje\u00e7\u00e3o que se faz em rela\u00e7\u00e3o ao futuro. S\u00e3o os dois termos que se designam hist\u00f3ria (relato do passado e investiga\u00e7\u00e3o preliminar) conformando o que se projeta do futuro, \u201c[&#8230;] como, por exemplo, quando dizemos que toda vez que Kalias ou S\u00f3crates, estando acometidos por uma determinada enfermidade, tomaram um determinado medicamento produziu-se neles a sa\u00fade. (cf. Met. 981 a<sub>7-9<\/sub>)\u201d (PUENTE, 2001, p. 336) A proje\u00e7\u00e3o s\u00f3 torna-se veross\u00edmil atrav\u00e9s da experi\u00eancia que se tem acerca daquela a\u00e7\u00e3o. \u201cA experi\u00eancia \u00e9 incapaz de unificar e ordenar as sensa\u00e7\u00f5es, as imagens e as lembran\u00e7as, mas pode apenas descrever a ordem casual em que esses estados mentais produziram.\u201d (PUENTE, 2001, p. 337) E tratando-se de proje\u00e7\u00e3o e possibilidade, a hist\u00f3ria n\u00e3o pode dar conta do futuro, apenas aquele que o faz atrav\u00e9s da proje\u00e7\u00e3o, da cria\u00e7\u00e3o, levando em conta n\u00e3o apenas uma unidade de tempo como crit\u00e9rio. Este \u00e9 o poeta. (PUENTE, 2001, p. 333)<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>3 O presente: a inst\u00e2ncia do tempo que ainda n\u00e3o \u00e9 e que ainda n\u00e3o foi<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Discorridos os assuntos referentes ao passado e ao futuro faz-se necess\u00e1rio tratar do presente. Diante da bifacialidade do tempo, sendo esta passado-futuro, ambos como partes constitutivas do tempo que n\u00e3o podem assegurar sua exist\u00eancia por serem eles, respectivamente, um ser que j\u00e1 foi e n\u00e3o \u00e9 mais e um ser em devir, resta-nos assegurar a exist\u00eancia do tempo com o presente. Presente que s\u00f3 pode ser definido como um ser que ainda n\u00e3o \u00e9 e que ainda n\u00e3o foi, pois do contr\u00e1rio, se j\u00e1 foi \u00e9 passado e se ainda n\u00e3o \u00e9 \u00e9 futuro. (BITTAR, 2003, p. 397)<\/p>\n<p>Mas na <em>F\u00edsica, <\/em>Arist\u00f3teles ir\u00e1 dizer que o tempo \u00e9 o n\u00famero do movimento segundo o anterior e o posterior, a saber, passado e futuro. (<em>Phys. 219 b1-2.<\/em>) O presente, neste caso, trata-se do limite que separa essas dois instantes, n\u00e3o podendo ser chamado, simplesmente, de instante presente.<\/p>\n<p>Um uso infeliz, porque o <em>instante presente <\/em>\u00e9 uma no\u00e7\u00e3o incoerente. \u201cPresente\u201d \u00e9 um adjetivo aplic\u00e1vel somente a per\u00edodos, tais como o presente ano ou o presente s\u00e9culo. Instantes s\u00e3o as fronteiras dos per\u00edodos: os per\u00edodos futuros s\u00e3o ligados por instantes futuros; os per\u00edodos passados s\u00e3o ligados por instantes passados. Mas os per\u00edodos presentes n\u00e3o s\u00e3o ligados por instantes presentes, mas por dois instantes, um dos quais \u00e9 passado, o outro futuro. N\u00e3o existe presente instant\u00e2neo. (KENNY, 2008, p. 226)<\/p>\n<p>Arist\u00f3teles, na <em>F\u00edsica<\/em>, fala ami\u00fade do agora, como esse limite entre o futuro e o passado. Pode-se dizer que o tempo \u00e9 composto de agoras, sendo um deles o limite entre o agora que j\u00e1 passou e n\u00e3o \u00e9 mais e o agora que vir\u00e1 e ainda n\u00e3o \u00e9, e entre eles, efetivamente, o agora que ainda n\u00e3o \u00e9 e ainda n\u00e3o foi. Sendo assim, este intercalar de \u201cagoras\u201d traz a aporia do agora como aquele que passa, mas permanece sempre agora, e embora sendo agora, \u00e9 sempre outro diferente.<\/p>\n<p>O agora n\u00e3o \u00e9 uma parte, pois uma parte \u00e9 a medida do todo, e o todo tem de ser composto por partes, mas n\u00e3o parece que o tempo \u00e9 composto por agoras. Al\u00e9m disso, n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil de ver se o agora, que parece ser o limite entre o passado e o futuro, permanece sempre um e ele mesmo o \u00e9 sempre outro diferente. (Phys. 218 a<sub>8<\/sub>, tradu\u00e7\u00e3o nossa)<a href=\"#_ftn6\" name=\"_ftnref6\">[5]<\/a><\/p>\n<p>O agora garante a exist\u00eancia do tempo, mas a defesa de sua pr\u00f3pria exist\u00eancia percorre um caminho de aporias. Garante a exist\u00eancia do tempo, pois \u201c[&#8230;] se o tempo n\u00e3o pode existir nem pode ser pensado sem o \u201cagora&#8221;, e se o &#8220;agora&#8221; \u00e9 um certo meio, que \u00e9 tanto in\u00edcio e fim, o in\u00edcio do tempo futuro e o fim do tempo passado, ent\u00e3o o tempo deve existir sempre.\u201d (Phys. 251b <sub>19-20<\/sub>, tradu\u00e7\u00e3o nossa)<a href=\"#_ftn7\" name=\"_ftnref7\">[6]<\/a> Mas o tempo \u00e9 considerado por Arist\u00f3teles como um cont\u00ednuo, e se o agora \u00e9 apenas o limite entre o anterior e o posterior, em que ele consiste de fato?<\/p>\n<p>Em outros termos: ao se pensar a infinitude do tempo o agora deve ser pensado n\u00e3o mais como um dos limites que determinam um intervalo temporal, mas sim como um limite \u00fanico e indivis\u00edvel que conecta incessantemente o passado e o futuro. <a href=\"#_ftn8\" name=\"_ftnref8\">[7]<\/a> (PUENTE, 2001, p. 125)<\/p>\n<p>Podem-se levantar dentro desta discuss\u00e3o duas afirma\u00e7\u00f5es sobre o agora: a primeira delas \u00e9 de que o agora \u00e9 sempre diverso, diferente, novo; e a segunda delas \u00e9 que cada um desses agoras d\u00e1 lugar ao outro, ou seja, um agora \u00e9 destru\u00eddo para que outro possa existir, j\u00e1 que sendo eles partes consecutivas do tempo, n\u00e3o podem ambos existir ao mesmo tempo. A primeira afirma\u00e7\u00e3o leva a segunda e conduz a discuss\u00e3o para uma situa\u00e7\u00e3o apor\u00e9tica.<\/p>\n<p>[&#8230;] dado n\u00e3o ser poss\u00edvel estarem presentes simultaneamente no tempo partes diversas entre si, exceto se uma delas for contida pela outra, como, por exemplo, diz-se um dia estar contido em um determinado m\u00eas (o exemplo \u00e9 de Simpl\u00edcio cf. <em>In Arist. Phys., <\/em>698, 10-12), ent\u00e3o \u00e9 necess\u00e1rio que o primeiro agora seja destru\u00eddo para que possa advir um novo agora. Mas quando ele poderia ser destru\u00eddo? (PUENTE, 2001, p 125)<\/p>\n<p>Os agoras devem ser um anterior e outro posterior, diferentes entre si e diferentes no interior da sucess\u00e3o, ambos devem ainda ser diversos daquilo que se situa entre eles. Isto entre eles \u00e9 o tempo por eles delimitado, \u00e9 o agora-limite. (PUENTE, 2001, p. 206) Para se destruir um agora para advir outro agora \u00e9 necess\u00e1rio pensar quantitativamente o que representa um espa\u00e7o de tempo determinado agora, mas \u00e9 preciso levar em considera\u00e7\u00e3o que a divis\u00e3o do tempo pelo agora \u00e9 apenas conceitual. (PUENTE, 2001, p. 215) Como afirma a pr\u00f3pria <em>F\u00edsica <\/em>\u201cNo que \u00e9 cont\u00ednuo h\u00e1 um infinito n\u00famero de metades, n\u00e3o em ato, mas sim potencialmente.\u201d (Phys. 263 a <sub>28-29<\/sub>, tradu\u00e7\u00e3o nossa)<a href=\"#_ftn9\" name=\"_ftnref9\">[8]<\/a><\/p>\n<p>Nesse passo o Estagirita afirma que o agora, considerado como \u201caquilo que era em um momento qualquer\u201d, \u00e9 o mesmo, entretanto, \u201cpor meio de seu ser pr\u00f3prio \u00e9 diverso\u201d O que quer dizer isto? Quer dizer que, nas palavras de Heidegger, \u201cem cada agora o agora \u00e9 um outro, mas cada outro agora \u00e9 enquanto agora sempre agora\u201d<a href=\"#_ftn10\" name=\"_ftnref10\">[9]<\/a>. Em outros termos: o que h\u00e1 de id\u00eantico em cada novo agora \u00e9 que ele tamb\u00e9m ocorre agora, sua \u201cagoridade\u201d \u00e9, por assim dizer, sempre a mesma, ou seja, seu \u201csubstrato\u201d \u00e9 o mesmo. Seu ser, todavia, \u00e9 sempre outro, pois ele, embora pensado sempre no agora atual, refere-se sempre a uma outra fase da transla\u00e7\u00e3o ou altera\u00e7\u00e3o determinada pelo deslocamento ou pela mudan\u00e7a do que se transladou ou se alterou. (PUENTE, 2001, p. 209-210)<\/p>\n<p>Nesta afirma\u00e7\u00e3o \u00e9 defendida tanto a identidade como a diversidade dos agoras, antes quebrada, considerando o que o agora \u00e9 em seu substrato e tamb\u00e9m em rela\u00e7\u00e3o ao que ele \u00e9 em seu ser.<\/p>\n<p>Na dimens\u00e3o pr\u00e1tica do tempo, o agora ou o presente, \u00e9 o momento em que a a\u00e7\u00e3o \u00e9 praticada. A hist\u00f3ria, que rememora o passado, o faz no presente; assim como a proje\u00e7\u00e3o do futuro que se faz atrav\u00e9s da poesia acontece no agora. \u00c9 no presente que o ser humano toma estas duas ferramentas como fomento necess\u00e1rio para compreender a din\u00e2mica do tempo no qual est\u00e1 inserido. E por mais apor\u00e9tica que possa tornar-se a discuss\u00e3o sobre o agora, \u00e9 nele que o ser humano percebe o tempo.<\/p>\n<p>O tempo (<em>chr\u00f3nos<\/em>) deve ser definido, para que se dispersem todas as d\u00favidas levantadas, a partir da percep\u00e7\u00e3o sens\u00f3ria. Percebemos o tempo, n\u00e3o por si, pois sua vis\u00e3o \u00e9 imposs\u00edvel, sua audi\u00e7\u00e3o muito mais, imposs\u00edvel o s\u00e3o tamb\u00e9m a degusta\u00e7\u00e3o, o olfato ou o tato desta entidade <em>i-material<\/em>, <em>in-corp\u00f3rea<\/em>, <em>intang\u00edvel<\/em>, mas, sobretudo, simb\u00f3lica, ponto de refer\u00eancia e crit\u00e9rio de apoio para o transcurso existencial de todas as coisas. (BITTAR, 2003, p. 398)<\/p>\n<p>No que concerne \u00e0 dimens\u00e3o pr\u00e1tica do tempo, tendo em vista toda a explana\u00e7\u00e3o sobre este mesmo tema nas abordagens sobre o passado e o futuro e ainda na dedu\u00e7\u00e3o natural de que a praticidade do tempo enquanto instante de atua\u00e7\u00e3o s\u00f3 pode ser o agora, o presente \u00e9 para o ser humano o instante de realiza\u00e7\u00e3o de suas atividades e movimentos.<\/p>\n<p>Submetidos ao tempo, os homens vivem sempre no agora, pois o agora sempre ser\u00e1 agora, deixa de ser quando passa, torna-se agora quando se atualiza a pot\u00eancia em devir. A vida acontece, pois, no agora. O agora, instante, lapso, est\u00e1 sempre presente, o tempo torna-se assim indistingu\u00edvel do agora. (BITTAR, 2003, p. 399) As rela\u00e7\u00f5es, rememora\u00e7\u00f5es, proje\u00e7\u00f5es, atitudes, todos os movimentos que s\u00e3o operados na natureza acontecem dentro da a\u00e7\u00e3o do tempo. \u201cA realiza\u00e7\u00e3o temporal do ser permite dizer, afinal, que o \u2018ser-no-tempo\u2019 \u00e9 um ser imerso na a\u00e7\u00e3o qual do tempo, tomado em sua totalidade, assim como o conte\u00fado encontra-se tomado pela grandeza do continente. \u201d <a href=\"#_ftn11\" name=\"_ftnref11\">[10]<\/a> (BITTAR, 2003, p. 399)<\/p>\n<p>Se o <em>\u039a\u03b1\u03b9\u03c1\u03cc\u03c2 <\/em>\u00e9 assim, na categoria do tempo, o momento oportuno para a realiza\u00e7\u00e3o de uma a\u00e7\u00e3o (PUENTE, 2001, p. 319), e a a\u00e7\u00e3o s\u00f3 pode ser realizada no momento presente, o <em>\u039a\u03b1\u03b9\u03c1\u03cc\u03c2 <\/em>se configura no momento oportuno que s\u00f3 pode ser vivido no presente. Nem todo momento presente pode ser o momento oportuno para realizar uma a\u00e7\u00e3o, mas se toda a\u00e7\u00e3o s\u00f3 pode ser realizada no momento presente, todo momento oportuno, todo <em>\u039a\u03b1\u03b9\u03c1\u03cc\u03c2<\/em>, ser\u00e1 presente. O momento oportuno para a a\u00e7\u00e3o \u00e9 sempre um agora.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Considera\u00e7\u00f5es finais<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Diante do exposto pode-se concluir que o tempo \u00e9 um cont\u00ednuo. Sua divis\u00e3o atrav\u00e9s de agoras \u00e9 apenas conceitual, assim como a sua defini\u00e7\u00e3o se d\u00e1 pela sua percep\u00e7\u00e3o sens\u00f3ria. Imersos no tempo, o ser humano pauta todas as suas a\u00e7\u00f5es em fun\u00e7\u00e3o das horas, dias, meses e anos. \u00c9 o tempo que submete o ser humano \u00e0 sua a\u00e7\u00e3o, e n\u00e3o o ser humano que submete o tempo ao seu poder.<\/p>\n<p>Irretorn\u00e1vel, o passado n\u00e3o permite altera\u00e7\u00f5es, n\u00e3o pode ser revivido, tampouco podem ser executados novamente os movimentos que nele foram realizados. Se foram realizados \u00e9 porque um dia ele foi presente, mas do ser passou ao n\u00e3o ser. Apenas a mem\u00f3ria pode fazer com que o passado seja mensurado, dito e utilizado como exemplo. A hist\u00f3ria \u00e9 respons\u00e1vel por preservar os feitos que no passado foram realizados e permitir que o homem siga num progresso no tempo.<\/p>\n<p>O futuro ainda n\u00e3o \u00e9, e, portanto, nada pode ser realizado nele, mas pode ser realizado em vistas dele. A garantia de um futuro pr\u00f3spero depende das a\u00e7\u00f5es que se realizam agora. E neste sentido o futuro pode ser projetado. S\u00f3 se colher\u00e1 X se hoje se plantar X, e se hoje for o momento oportuno para a semeadura de X. O futuro ainda n\u00e3o \u00e9, mas s\u00f3 ser\u00e1 como planejado se projetado no presente e neste mesmo momento come\u00e7ar a ser constru\u00eddo.<\/p>\n<p>O agora \u00e9 o \u00fanico momento em que a a\u00e7\u00e3o pode acontecer de fato. \u00c9 no conceitual presente que os movimentos s\u00e3o realizados, as decis\u00f5es s\u00e3o tomadas, os projetos s\u00e3o criados e executados. Ainda que inspirados na mem\u00f3ria de feitos passados, ainda que em vistas de um futuro pr\u00f3spero, \u00e9 no agora que todas as atitudes precisam ser tomadas, as mudan\u00e7as de postura, as atitudes. Muitas a\u00e7\u00f5es pedem um momento oportuno para serem realizadas, se este n\u00e3o o for, \u00e9 fundamental esperar que a pot\u00eancia se atualize. Nem todo agora ser\u00e1 um momento oportuno, mas todo momento oportuno ser\u00e1 sempre um agora.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>ARISTOTELES. <em>F\u00edsica. <\/em>Traducci\u00f3n Guillermo R. de Echand\u00eda. Madrid: Gredos, 1995. PDF dispon\u00edvel em &lt;<a href=\"http:\/\/bz.otsoa.net\/Libros%20de%20Divulgacion%25\">http:\/\/bz.otsoa.net\/Libros%20de%20Divulgacion%<\/a> 20 Cientifica\/Historicos%20de%20Ciencia\/Aristoteles%20-%20Fisica.pdf&gt; Acessado em 27\/08\/2016.<\/p>\n<p>BITTAR, Eduardo C. B. <em>Curso de Filosofia Aristot\u00e9lica. <\/em>Leitura e interpreta\u00e7\u00e3o do pensamento aristot\u00e9lico. Barueri: Manole, 2003.<\/p>\n<p>KENNY, Anthony. <em>Filosofia Antiga: <\/em>Uma nova hist\u00f3ria da filosofia ocidental. Vol. I. Tradu\u00e7\u00e3o Carlos Alberto B\u00e1rbaro. S\u00e3o Paulo: Loyola, 2008.<\/p>\n<p>PUENTE, Fernando Rey. <em>Os sentidos do tempo em Arist\u00f3teles. <\/em>S\u00e3o Paulo: Loyola, 2001.<\/p>\n<p>RUSSEL, Bertrand. <em>Hist\u00f3ria da Filosofia Ocidental. <\/em>Livro Primeiro. Tradu\u00e7\u00e3o Brenno Silveira. S\u00e3o Paulo: Companhia Editora Nacional, 1957.<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">*<\/a> Bacharelando em Filosofia pela Faculdade Arquidiocesana de Mariana.<\/p>\n<p><em><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\"><strong>[1]<\/strong><\/a> Porque el tiempo es justamente esto: n\u00famero del movimiento seg\u00fan el antes y despu\u00e9s.<\/em><\/p>\n<p><em><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\"><strong>[2]<\/strong><\/a> Pero parece imposible que lo que est\u00e1 compuesto de no ser tenga parte en el ser.<\/em><\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\">[3]<\/a> <em>Porque el tiempo es justamente esto: n\u00famero del movimiento seg\u00fan el antes y despu\u00e9s.<\/em><\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref5\" name=\"_ftn5\">[4]<\/a> Trata-se da obra <em>Po\u00e9tica <\/em>de Arist\u00f3teles.<\/p>\n<p><em><a href=\"#_ftnref6\" name=\"_ftn6\"><strong>[5]<\/strong><\/a> El ahora no es una parte, pues una parte es la medida del todo, y el todo tiene que estar compuesto de partes, pero no parece que el tiempo est\u00e9 compuesto de ahoras. Adem\u00e1s, no es f\u00e1cil ver si el ahora, que parece ser el l\u00edmite entre el pasado y el futuro, permanece siempre uno y el mismo o es siempre otro distinto.<\/em><\/p>\n<p><em><a href=\"#_ftnref7\" name=\"_ftn7\"><strong>[6]<\/strong><\/a> Pero si el tiempo no puede existir ni se puede pensar sin el \u00abahora\u00bb, y si el \u00abahora\u00bb es un cierto medio, que sea a la vez principio y fin, el principio del tempo futuro y el fin del tiempo pasado, entonces el tiempo tiene que existir siempre.<\/em><\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref8\" name=\"_ftn8\">[7]<\/a> Cf. o minucioso coment\u00e1rio de E. Cavagnaro-Stuijt, <em>Aristotele e il tempo. Analisi di \u201cPhysica\u201d, IV, 10-14, <\/em>Leeuwarden, 1995, p. 47. (Nota da pr\u00f3pria obra)<\/p>\n<p><em><a href=\"#_ftnref9\" name=\"_ftn9\"><strong>[8]<\/strong><\/a> &#8230; en lo que es continuo hay un infinito n\u00famero de mitades, no en actualidad,sino potencialmente.<\/em><\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref10\" name=\"_ftn10\">[9]<\/a> Cf. M. Heidegger, op. cit., p.350: \u201cIn jedem Jetzt ist das Jetzt ein anderes, aber jedes andere Jetzt ist als Jetzt doch immer Jetzt\u201d. (Nota da pr\u00f3pria obra)<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref11\" name=\"_ftn11\">[10]<\/a> F\u00edsica, IV, 221a, 25\/30<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Eudvanio Dias Soares* Resumo: O presente trabalho objetiva apresentar um estudo sobre o tempo, fundamentado na F\u00edsica de Arist\u00f3teles e especialmente na obra Os sentidos do tempo em Arist\u00f3teles de Fernando Rey Puente. 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