{"id":2689,"date":"2018-06-11T08:11:23","date_gmt":"2018-06-11T11:11:23","guid":{"rendered":"http:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/?p=2689"},"modified":"2018-06-11T08:11:23","modified_gmt":"2018-06-11T11:11:23","slug":"origem-e-desenvolvimento-da-linguagem-no-cratilo-de-platao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/?p=2689","title":{"rendered":"ORIGEM E DESENVOLVIMENTO DA LINGUAGEM NO CR\u00c1TILO, DE PLAT\u00c3O"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\">Jos\u00e9 M\u00e1rio Santana Barbosa<a href=\"http:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/wp-admin\/post-new.php#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">*<\/a><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><strong>Resumo: <\/strong>Esse estudo tem como objetivo analisar a origem e o desenvolvimento da linguagem, caracter\u00edstica essencial e diferencial do homem, como mecanismo de transmitir sua cultura, conhecer a si mesmo e viver em sociedade. Tentar\u00e1 se chegar ao mais pr\u00f3ximo da origem da linguagem, \u00e0 forma mais primitiva dela, buscando-se, assim, entender o surgimento do processo que passou a ser crucial para a distin\u00e7\u00e3o do homem dos demais seres que com ele habitam o mundo. Para tanto, ser\u00e1 utilizado como referencial, dentre outros, o pensamento contido na obra <em>Cr\u00e1tilo<\/em>, de Plat\u00e3o, na qual o autor preocupa-se exatamente com essa quest\u00e3o: a origem e a import\u00e2ncia da linguagem para o homem.<\/p>\n<p><strong>Palavras-chave: <\/strong>Linguagem. Pensamento. Cr\u00e1tilo. Antropologia.<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>INTRODU\u00c7\u00c3O<\/strong><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Inerente ao ser humano, diferenciando-o das demais esp\u00e9cies com as quais ele convive, a linguagem \u00e9, sem d\u00favidas, um instrumento de grande poder e valia, sem o qual n\u00e3o se pode nem mesmo imaginar uma vida em sociedade, tal qual a que conhecemos hoje. Contudo, longe de ser de f\u00e1cil compreens\u00e3o, a linguagem, quanto a seu in\u00edcio e mesmo quanto \u00e0 din\u00e2mica de seu desenvolvimento, adquire um car\u00e1ter bastante enigm\u00e1tico e ao que nos parece, intranspon\u00edvel.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Ao longo da hist\u00f3ria, foram muitas as tentativas de se chegar a uma conclus\u00e3o sobre essas perguntas, passando pelo uso da mitologia e finalmente pelo uso da raz\u00e3o propriamente dita. Esse \u00e9 o caso de alguns cientistas e estudiosos, como Charles Darwin que ligou a pr\u00f3pria evolu\u00e7\u00e3o da linguagem \u00e0 sua teoria da evolu\u00e7\u00e3o das esp\u00e9cies, passando de um estado primordial at\u00e9 o estado que hoje conhecemos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Antes disso, Plat\u00e3o, em sua obra<em> Cr\u00e1tilo<\/em>, j\u00e1 havia tentado desvendar esses mist\u00e9rios e indicar algumas conclus\u00f5es a respeito da fun\u00e7\u00e3o e do desenvolvimento da linguagem, como veremos nesse trabalho. Por meio do discurso entre S\u00f3crates, Herm\u00f3genes e Cr\u00e1tilo, ele desenvolve e tenta chegar \u00e0 origem de diversos nomes, tentando discernir sobre a \u201cnaturalidade\u201d e\/ou \u201cconvecionalidade\u201d deles, enquanto argumenta sobre a grande import\u00e2ncia da linguagem para o estabelecimento da cultura humana e sobre seu prov\u00e1vel in\u00edcio.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>1 <\/strong><strong>Exposi\u00e7\u00e3o do problema<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Ser como qualquer outro dos seres presentes no universo, o homem, indubitavelmente, possui caracter\u00edsticas que muito o distinguem destes. Uma delas \u00e9, por exemplo, a sua cultura, que \u00e9 t\u00e3o diferente nos diversos agrupamentos sociais ao redor do mundo. Ela \u00e9 perpetuada e acrescentada (moldada) continuamente, \u00e0 medida que suas informa\u00e7\u00f5es s\u00e3o repassadas ao longo das gera\u00e7\u00f5es, de \u201cpais para filhos\u201d, e adquirem, desses, novas informa\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Outro claro diferencial do ser humano sobre os demais \u00e9 a capacidade que ele tem de perceber a \u201csi mesmo\u201d, de tomar consci\u00eancia de sua exist\u00eancia no mundo e, a partir de ent\u00e3o, tomar decis\u00f5es que o permitam, inclusive, \u201cdominar\u201d (desde que com sabedoria e prud\u00eancia) as outras esp\u00e9cies, que n\u00e3o t\u00eam a mesma capacidade. Dessa maneira, o homem tem consci\u00eancia das coisas que o rodeiam e adquire, disso, a possibilidade de \u201cformar\u201d o mundo.<\/p>\n<p>Para realizar esse destino de pensar o ser, o pensamento investiga. Ele est\u00e1, sempre e por toda parte, na <em>quest\u00e3o do ser<\/em>. <em>Quest\u00e3o<\/em> significa busca, procura, investiga\u00e7\u00e3o; <em>ser<\/em> significa a <em>entidade <\/em>dos entes. A causa que move o pensamento a questionar est\u00e1 na pr\u00f3pria necessidade que ele sente de promover a ilumina\u00e7\u00e3o do ser. Por isso ilumina a realidade como o sol, o universo. (BUZZI, 1992, p. 15)<\/p>\n<p>A partir de ent\u00e3o, o homem, sendo ser que convive com seus semelhantes, estabelece rela\u00e7\u00f5es sim\u00e9tricas com eles, iniciando da\u00ed a vida em sociedade, marcada por rela\u00e7\u00f5es pessoais e funcionais m\u00fatuas entre seus membros, supera\u00e7\u00e3o e comunica\u00e7\u00e3o. O homem, vivendo em uma sociedade organizada, conhece-se, cuida de si pr\u00f3prio (distinguindo suas propriedades), vive em simetria com seu pr\u00f3ximo, cuida da natureza \u2013 da qual depende em toda a sua vida \u2013, utiliza das coisas e \u00e9, inclusive, livre para relacionar-se com o transcendental (divino).<\/p>\n<p>Contudo, algo muito importante e b\u00e1sico foi primordial para que toda essa cadeia se interligasse corretamente e chegasse ao resultado que foi mencionado. E isso \u00e9 a linguagem. Exclusiva ao homem, sem ela, de fato, seria imposs\u00edvel que se transmitisse qualquer tipo de conhecimento adquirido \u00e0s gera\u00e7\u00f5es posteriores. Seria tamb\u00e9m invi\u00e1vel que o homem cultivasse qualquer curiosidade sobre si mesmo, sobre o mundo em que vive e sua presen\u00e7a nele \u2013 tornando-o assim um ser como qualquer outro que, mesmo estando no mundo, n\u00e3o \u201c\u00e9\u201d no mundo. Isso faria com que nem mesmo o mundo \u201cexistisse\u201d, uma vez que ningu\u00e9m o nomearia, como veremos adiante.<\/p>\n<p>Sem a linguagem, evidentemente, o homem n\u00e3o conseguiria manter qualquer tipo de relacionamento sim\u00e9trico com seus semelhantes (de sua mesma esp\u00e9cie), ou seja, nunca formaria uma sociedade na qual estabelecesse rela\u00e7\u00f5es, passando a viver tal como os animais, que, t\u00e3o somente por instinto de sobreviv\u00eancia e reprodu\u00e7\u00e3o, formam bandos para viverem amparados uns pelos outros.<\/p>\n<p>N\u00e3o vivemos, pois, estupidamente no imediato das coisas, \u00e0 maneira animal, sem qualquer <em>sentido<\/em>. Estamos no <em>logos<\/em>, isto \u00e9, no fogo da linguagem, que nos d\u00e1 o poder de criar um mundo de s\u00edmbolos, inacess\u00edvel ao animal. Vivemos tudo no traspasse, na persuas\u00e3o, no <em>lance arriscado<\/em> e na luta das palavras, nos dentros de sua sedu\u00e7\u00e3o, na ard\u00eancia de seu sentido. (BUZZI, 1992, p. 238)<\/p>\n<p>Assim, devido \u00e0 linguagem, o homem n\u00e3o somente \u201cest\u00e1\u201d no mundo (como uma pedra), nem mesmo \u201cest\u00e1 e vive\u201d no mundo (como um animal), mas o homem, por sua capacidade de linguagem, \u201c\u00e9\u201d no mundo, e tem a capacidade de continuamente form\u00e1-lo, ou seja, nome\u00e1-lo, criando suas pr\u00f3prias regras.<\/p>\n<p>Muito interessantes e dignos de nota, aqui, s\u00e3o os escritos tidos por sagrados pelos seguidores tanto do juda\u00edsmo, quanto do cristianismo. Logo no primeiro livro, o g\u00eanesis (na Torah, para os judeus e na B\u00edblia, para os crist\u00e3os), ap\u00f3s Deus formar o mundo e ap\u00f3s tudo, criar o homem, Ele pede a esse que nomeie os outros animais e tamb\u00e9m a mulher. Isso tem uma significa\u00e7\u00e3o incrivelmente grande, n\u00e3o somente no \u00e2mbito religioso, mas, principalmente por tratar diretamente do assunto que desenvolvemos nesse breve estudo. O homem, somente depois de tomar consci\u00eancia de si e de ter uma linguagem que o permite comunicar-se com Deus e com as demais obras da \u201ccria\u00e7\u00e3o\u201d, pode nome\u00e1-las (\u201cformando-as\u201d); e \u00e9 ele que o deve fazer, por si s\u00f3, inevitavelmente.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>2 <strong>Linguagem no <em>Cr\u00e1tilo<\/em>, de Plat\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Em seu di\u00e1logo \u201cCr\u00e1tilo\u201d, Plat\u00e3o (por meio dos personagens S\u00f3crates, Herm\u00f3genes e Cr\u00e1tilo) muito apresenta sobre seu pensamento \u2013 tentando responder a algumas das d\u00favidas presentes \u00e0 \u00e9poca \u2013 a respeito da Linguagem. Basicamente, ao longo do di\u00e1logo, S\u00f3crates tenta discernir entre as teses opostas de Cr\u00e1tilo, que pensava ser o nome algo \u201cnatural\u201d, e de Herm\u00f3genes, para o qual os nomes t\u00eam uma origem convencional.<\/p>\n<p>Plat\u00e3o investiga, em sua obra, dentre outras coisas, se os nomes seriam ou n\u00e3o uma deriva\u00e7\u00e3o de outros nomes \u2013 chegando-se at\u00e9 a um \u201cnome primitivo, dado por um \u201cnormatizador\u201d \u2013 e se eles chegaram at\u00e9 n\u00f3s por meio da uni\u00e3o de vogais e consoantes, unindo as diversas fun\u00e7\u00f5es que o objeto a ser descrevido possui (por exemplo, a letra \u201cr\u201d tem um som que identifica movimento, o \u201cl\u201d indica leveza, a vogal \u201co\u201d representa completude etc). Mas alguns outros conceitos s\u00e3o descritos na obra e \u00e9 de grande import\u00e2ncia destaca-los aqui.<\/p>\n<p>Logo no in\u00edcio do texto, S\u00f3crates argumenta a favor de o \u201cfalar\u201d n\u00e3o ser uma possibilidade individual de cada pessoa, ou seja, cada um diz (e nomeia) aquilo que quer e da maneira como bem entende. Para Plat\u00e3o, nomear, assim como qualquer outra a\u00e7\u00e3o, deve ser feita n\u00e3o segundo a opini\u00e3o de todos, nem mesmo segundo crit\u00e9rios individuais, mas segundo a forma correta, a que respeita a natureza do falar.<\/p>\n<p>Logo, caso se almeje confirmar o que foi dito antes, conv\u00e9m nomear, n\u00e3o como quisermos, mas sim seguindo a natureza de como nomear e com o que devem ser nomeadas as coisas. (PLAT\u00c3O, 2014, 387.d.1 \u2013 387.d.5)<\/p>\n<p>Da mesma maneira como qualquer a\u00e7\u00e3o necessita de um instrumento, o nome o \u00e9 para o \u201cnomear\u201d. Contudo, em geral, todo instrumento de trabalho utilizado por um profissional, n\u00e3o \u00e9 produzido por ele pr\u00f3prio (n\u00e3o \u00e9 o m\u00fasico que faz a flauta, por exemplo). Da mesma maneira, o \u201cfalante\u201d n\u00e3o \u00e9 aquele que produz o nome; ele vem-nos da \u201cnormatiza\u00e7\u00e3o\u201d, feita por algu\u00e9m que adquiriu uma t\u00e9cnica para tal atividade, usando-a com muita sabedoria.<\/p>\n<p>De toda maneira, somente a pessoa que utiliza do instrumento \u00e9 capaz de avaliar se ele \u00e9 bom ou ruim. Dessa forma, \u00e9 ele quem deve tomar consci\u00eancia da produ\u00e7\u00e3o e question\u00e1-la, por meio da \u201cdial\u00e9tica\u201d, ou seja, dialogando com os demais \u201celos\u201d dessa cadeia. Assim, S\u00f3crates diz, no di\u00e1logo, que \u201cparece que, no caso do normatizador, seria um nome, e sob a conscientiza\u00e7\u00e3o do dial\u00e9tico, se ele almeja que os nomes sejam colocados com charme\u201d (PLAT\u00c3O, 2014, 390.d.1).<\/p>\n<p>Para Plat\u00e3o, o nome adquire uma import\u00e2ncia crucial: ele identifica a natureza de algo. Isto \u00e9, se algo \u00e9 da descend\u00eancia do \u201cbom\u201d e o \u00e9 semelhante, ele tamb\u00e9m deve ser nomeado assim. Da mesma forma, algo que destoa da naturalidade de seu antecedente, deve ter seu sentido contr\u00e1rio.<\/p>\n<p>Em <em>Cr\u00e1tilo<\/em>, S\u00f3crates prop\u00f5e, analisa e explica a raiz etimol\u00f3gica de diversos nomes e termos da cultura grega, inclusive de alguns deuses. Um exemplo disso \u00e9 a an\u00e1lise do nome \u201chumano\u201d:<\/p>\n<p>O nome \u201c<em>humano<\/em>\u201d assinala que, apesar de muitos outros animais possu\u00edrem a vis\u00e3o, nenhum deles aver\u00edgua, avalia ou <em>ruma<\/em> seu olhar para cima. J\u00e1 os humanos, enquanto veem, al\u00e9m de avaliar o que viram, <em>rumam<\/em> seu olhar para cima. Por conseguinte, um <em>humano<\/em>, sendo o \u00fanico dos animais que v\u00ea <em>rumando <\/em>o olhar para cima, \u00e9 corretamente nomeado de <em>humano<\/em>. (PLAT\u00c3O, 2014, 399.c.1 \u2013 399.c.5)<\/p>\n<p>Ao final, S\u00f3crates fica no \u201cmeio-termo\u201d entre a argumenta\u00e7\u00e3o de Cr\u00e1tilo e a de Herm\u00f3genes: chega \u00e0 conclus\u00e3o de que o nome tem, verdadeiramente, uma caracter\u00edstica est\u00e1vel que \u00e9 extremamente necess\u00e1ria, uma vez que ele \u00e9 necess\u00e1rio para denominar as coisas e o contr\u00e1rio faria com que uma grande desordem acontecesse dentro de uma certa linguagem. Contudo, o mais importante n\u00e3o \u00e9 a an\u00e1lise propriamente do nome (que \u00e9 limitado, uma vez que chega um momento em que n\u00e3o pode-se mais explicar claramente sua origem e deriva\u00e7\u00e3o), mas sim a an\u00e1lise da coisa a que ele se refere.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, qualquer humano, pleno de intelecto, n\u00e3o vai se apoiar nos nomes para cuidar de si ou da sua alma. N\u00e3o vai confiar neles, ou naqueles que os colocaram, para refor\u00e7ar uma especifica\u00e7\u00e3o nem reconhecer em si, ou entre o seres, que ningu\u00e9m est\u00e1 mais saud\u00e1vel que ningu\u00e9m j\u00e1 que tudo est\u00e1 numa correnteza dentro de um pote. (PLAT\u00c3O, 2014, 440.c.1 \u2013 440.c.5)<\/p>\n<p>Aqui, podemos perceber o grande diferencial na argumenta\u00e7\u00e3o de S\u00f3crates. Se tomado ao p\u00e9 da letra, o in\u00edcio de sua explana\u00e7\u00e3o poderia nos levar a pensar que, j\u00e1 que os nomes que temos e usamos nos dias de hoje s\u00e3o advindos do pensamento de nossos \u201cantepassados\u201d, utilizar da linguagem nos moldes atuais, de forma mec\u00e2nica, faria de n\u00f3s apenas repetidores e nunca \u201cpensadores\u201d daquilo que tentamos comunicar por meio de nossas palavras.<\/p>\n<p>Contudo, o nome n\u00e3o \u00e9 mais importante que aquilo que ele define. Logo, a linguagem expressa, sem d\u00favidas, a forma de pensar de um povo, uma vez que representa aquilo que \u00e9 maior que ela mesma, o pensamento.<\/p>\n<p>Outra importante observa\u00e7\u00e3o a ser feita \u00e9 o interesse de Plat\u00e3o em, por meio de S\u00f3crates, no <em>Cr\u00e1tilo<\/em>, desmascarar a tend\u00eancia que era corrente de que, se fosse pesquisada a origem das palavras, se chegaria a uma forma primitiva que representasse o valor real dessa palavra, isto \u00e9, a palavra indicaria exatamente a fun\u00e7\u00e3o do objeto que ela nomeava (uma fun\u00e7\u00e3o \u201conomatopeica\u201d).<\/p>\n<p>A descri\u00e7\u00e3o, feita por Plat\u00e3o, da teoria de que toda linguagem se origina da imita\u00e7\u00e3o dos sons acaba em grotesca caricatura. N\u00e3o obstante, a tese onomatopeica prevaleceu por muitos s\u00e9culos. Nem desapareceu por completo da literatura recente, embora j\u00e1 n\u00e3o se apresente nas mesmas formas ing\u00eanuas com que aparece no <em>Cr\u00e1tilo<\/em>. (CASSIRER, 1972, p. 180-181<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>3 Pensamento e linguagem<\/strong><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Como percebido, a quest\u00e3o a respeito da linguagem, de sua origem e de suas implica\u00e7\u00f5es para a vida do homem \u00e9 bastante antiga. Inclusive, pode-se dizer que a pr\u00f3pria hist\u00f3ria do homem \u201cpensante\u201d coincide com a hist\u00f3ria de sua linguagem.<\/p>\n<p>No in\u00edcio da civiliza\u00e7\u00e3o, segundo Ernst Cassirer, mito e linguagem caminhavam juntamente. Ap\u00f3s a transi\u00e7\u00e3o do mito ao <em>logos<\/em> propriamente dito, isto \u00e9, a \u201cfrustra\u00e7\u00e3o\u201d na natureza m\u00e1gica da palavra para um car\u00e1ter de realidade, a palavra passa a adquirir um car\u00e1ter l\u00f3gico de extrema relev\u00e2ncia at\u00e9 os dias atuais (CASSIRER, 1972, p. 175-178).<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 pensamento que n\u00e3o seja devidamente demonstrado por meio da linguagem. Ela \u00e9, verdadeiramente, a express\u00e3o da raz\u00e3o (<em>logos<\/em>) humana e, por isso, distingue-a das demais realidades presentes no mundo. A partir da linguagem, o homem adquire a capacidade de \u201ccriar\u201d, \u00e0 medida que pensa, dialoga, toma decis\u00f5es&#8230;<\/p>\n<p>S\u00f3 o homem fala; s\u00f3 ele \u00e9 vida que est\u00e1 na linguagem (<em>zo\u00f2n l\u00f3gon \u00e9chon<\/em>). S\u00f3 ele est\u00e1 no m\u00e1gico poder de usar a linguagem; de interpretar e recolher os entes, ca\u00eddos no ch\u00e3o como frutos de \u00e1rvore, para junto de sua companhia; de cham\u00e1-los pelo nome, de conhece-los e viv\u00ea-los no rasgo de uma ilumina\u00e7\u00e3o \u201cque vai rompendo rumo\u201d. (BUZZI, 1992, p. 235)<\/p>\n<p>A partir da evolu\u00e7\u00e3o do pensamento, a linguagem foi cada vez mais desempenhando um papel de destaque nas civiliza\u00e7\u00f5es antigas. Estava diretamente relacionada \u00e0 <em>sophia<\/em> (sabedoria) e sem ela era imposs\u00edvel que o homem exercesse fun\u00e7\u00f5es principais em seu quotidiano.<\/p>\n<p>Na vida ateniense do s\u00e9culo quinto, a linguagem se tornara instrumento para prop\u00f3sitos pr\u00e1ticos definidos e concretos, sendo a mais poderosa das armas nas grandes lutas pol\u00edticas. Sem ela ningu\u00e9m poderia esperar desempenhar um papel importante. Era de vital import\u00e2ncia seu emprego correto, aprimorando-a e agu\u00e7ando-a continuamente. (CASSIRER, 1972, p. 182)<\/p>\n<p>Mas antes disso, a linguagem j\u00e1 existia e desempenhava em todas as sociedades (uma vez que se desconhece alguma que porventura n\u00e3o a utilizasse) sua grande influ\u00eancia. Surge daqui, um importante e, at\u00e9 onde parece, \u201cindecifr\u00e1vel\u201d problema: onde e como surgiu a primeira forma de linguagem?<\/p>\n<p>Ao longo da hist\u00f3ria, essa pergunta sempre gerou muita curiosidade n\u00e3o somente da parte de estudiosos, mas tamb\u00e9m da de grande parte das pessoas. Narra\u00e7\u00f5es mitol\u00f3gicas, que envolviam muitas das vezes a presen\u00e7a do transcendente, que \u201cd\u00e1\u201d ao homem a linguagem que, a partir da\u00ed, se desenvolve, influenciaram o pensamento de muitas gera\u00e7\u00f5es sobre essa quest\u00e3o. Um claro exemplo disso \u00e9 a narra\u00e7\u00e3o b\u00edblica da Torre de Babel, onde Deus \u201cconfunde\u201d a l\u00edngua daqueles que queriam se assemelhar a Ele, dando in\u00edcio, pois, \u00e0 divis\u00e3o entre as l\u00ednguas (que, na realidade, reflete tamb\u00e9m a divis\u00e3o entre culturas e modos de pensar, que nunca mais seriam equivalentes entre povos da Terra). Toda essa tend\u00eancia, entretanto, n\u00e3o trouxe ao homem moderno grandes novidades e foi \u201cafastada\u201d desse debate, uma vez que nem de longe esbarra em algo que se pare\u00e7a com os prim\u00f3rdios da linguagem.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s grande dificuldade, pois, em definir algo sobre o in\u00edcio e o desenvolvimento da linguagem de forma clara, foi somente ap\u00f3s o evolucionismo de Charles Darwin que ganhou for\u00e7a uma teoria chamada de \u201cinterjeicional\u201d. A linguagem humana, ap\u00f3s o pensamento darwiniano ganhava um car\u00e1ter de certa forma natural, herdado de nossos antepassados, partindo da interjei\u00e7\u00e3o (primeiros sons que caracterizam emo\u00e7\u00f5es, sensa\u00e7\u00f5es etc) \u00e0 fala.<\/p>\n<p>N\u00e3o obstante, seu m\u00e9todo geral era facilmente aplic\u00e1vel aos fen\u00f4menos lingu\u00edsticos e, at\u00e9 neste campo, parecia abrir um caminho ainda inexplorado. Em <em>The Expression of the Emotions in Man and Animals<\/em>, Darwin mostrara que sons ou atos expressivos s\u00e3o ditados por certas necessidades e usados de acordo com regras biol\u00f3gicas definidas. Visto deste \u00e2ngulo, o velho quebra-cabe\u00e7a da linguagem poderia ser tratado de maneira rigorosamente emp\u00edrica e cient\u00edfica. (CASSIRER, 1972, p. 184)<\/p>\n<p>A teoria de Darwin, contudo, tamb\u00e9m passa longe de responder plenamente a esse anseio. Ela esbarra em quest\u00f5es como a d\u00favida quanto a ter existido, de fato, um \u201cestado humano\u201d em que ele utilizava apenas a linguagem intejeicional, al\u00e9m de nunca ter sido observado nada parecido a um animal esbo\u00e7ar qualquer possibilidade de sair desse estado para um estado \u201cemocional\u201d.<\/p>\n<p>Avan\u00e7ou um pouco nessa quest\u00e3o, o pensamento proposto por Otto Jespersen, que dizia ser a linguagem derivada t\u00e3o somente de sons e ru\u00eddos primordiais que nada significavam, chegando ao passo que conhecemos hoje: \u201cSegundo Jespersen, a linguagem surgiu quando a \u2018comunicabilidade prevaleceu sobre a exclama\u00e7\u00e3o\u2019\u201d (CASSIRER, 1972, p. 187). Ainda assim, essa e outras teorias posteriores que com ela concordam \u2013 algumas inclusive entrando no campo da gen\u00e9tica \u2013, n\u00e3o explicam o \u201cvazio\u201d presente entre a emiss\u00e3o do som e a elabora\u00e7\u00e3o da palavra, propriamente dita.<\/p>\n<p>A busca por um in\u00edcio comum da linguagem a todos os povos pode ser encarada \u2013 e de fato deve ser \u2013 como um \u201cbeco sem sa\u00edda\u201d, a exemplo da conclus\u00e3o tirada por S\u00f3crates no <em>Cr\u00e1tilo<\/em>, de Plat\u00e3o. Dificilmente chegaremos ao ponto de perceber o local, a data e a pr\u00f3pria constitui\u00e7\u00e3o da \u201cprimeira linguagem\u201d, se \u00e9 que ela realmente existiu. O que parece, de fato, \u00e9 que a linguagem, nos moldes como a conhecemos hoje, \u00e9 um emaranhado de in\u00fameras influ\u00eancias, dos mais diversos povos existentes (e tamb\u00e9m dos j\u00e1 ausentes) do mundo.<\/p>\n<p>A busca por uma l\u00edngua, dentre as que s\u00e3o faladas atualmente, que porventura seja aquela que apresente mais caracter\u00edsticas de naturalidade, desempenhando o papel \u201cprimeiro\u201d da linguagem, \u00e9 uma perda de tempo. At\u00e9 mesmo as l\u00ednguas tidas como simples, daqueles povos que menos se desenvolveram economicamente, possuem uma complexidade enorme.<\/p>\n<p>N\u00e3o conhecemos l\u00edngua nenhuma desprovida de elementos formais ou estruturais, se bem que a express\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es formais, como a diferen\u00e7a entre sujeito e objeto, entre atributo e predicado, varie amplamente de l\u00edngua para l\u00edngua. Sem forma, a l\u00edngua assume a apar\u00eancia n\u00e3o s\u00f3 de uma constru\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica altamente contest\u00e1vel, mas tamb\u00e9m de um conceito que se contradiz a si mesmo. As l\u00ednguas das na\u00e7\u00f5es menos civilizadas n\u00e3o s\u00e3o, de maneira alguma, informes; ao contr\u00e1rio, exibem, na maioria dos casos, estrutura complicad\u00edssima. (CASSIRER, 1972, p. 204-205)<\/p>\n<p>O que parece certo \u00e9 que foi atrelada ao pensamento que a linguagem se desenvolveu. Independentemente do lugar, da data e de sua \u201cforma primordial\u201d, foi a partir do momento em que surgiu no homem a caracter\u00edstica que tanto o diferencia das outras esp\u00e9cies (pensar, logo, conhecer-se e saber de sua exist\u00eancia no mundo), que o homem teve necessidade tamb\u00e9m de se comunicar para se relacionar com seus semelhantes, nomeando as demais coisas e delas fazendo uso. Aqui surgiu a linguagem.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>CONCLUS\u00c3O<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Ap\u00f3s a an\u00e1lise da filosofia contida na obra <em>Cr\u00e1tilo<\/em>, de Plat\u00e3o, bem como a compara\u00e7\u00e3o dela aos pensamentos de outros estudiosos, como Darwin, fica bem evidente a dificuldade da busca por uma reposta definitiva com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 origem e ao desenvolvimento da linguagem (de uma forma primordial a uma estrutura mais parecida com o que hoje conhecemos como linguagem). Tanto a teoria do evolucionismo de Darwin (ligado \u00e0 linguagem) e as de pensadores posteriores a ele, quanto a tentativa de Plat\u00e3o de chegar a um princ\u00edpio \u201cnormatizador\u201d esbarram no v\u00e1cuo que separa o momento entre a utiliza\u00e7\u00e3o de sons primitivos (ru\u00eddos, express\u00f5es meramente \u201canimais\u201d) e o in\u00edcio da utiliza\u00e7\u00e3o da linguagem, propriamente dita. Elas explicam \u2013 e convencem a respeito disto \u2013 a evolu\u00e7\u00e3o de uma linguagem a partir de modifica\u00e7\u00f5es em outras, mas param por a\u00ed.<\/p>\n<p>\u00c9 dif\u00edcil at\u00e9 mesmo esperar que um dia algu\u00e9m chegue a essa resposta com clareza, \u00e0 exemplo das discuss\u00f5es sobre a comprova\u00e7\u00e3o \u201cemp\u00edrica\u201d da origem do mundo. H\u00e1 consenso apenas em uma linha (que, na realidade \u00e9 a principal): a import\u00e2ncia da linguagem como crucial para, a partir do conhecimento de si mesmo, o homem construir, junto com os seus, a sociedade em que vive, relacionando-se com as demais coisas presentes no mundo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>REFER\u00caNCIAS BIBLIOGR\u00c1FICAS<\/strong><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>PLAT\u00c3O. <em>Cr\u00e1tilo: <\/em>ou sobre a corre\u00e7\u00e3o dos nomes. Tradu\u00e7\u00e3o de Celso de Oliveira Vieira. S\u00e3o Paulo: Paulus, 2014.<\/p>\n<p>BUZZI, Arc\u00e2ngelo R. <em>Introdu\u00e7\u00e3o ao pensar<\/em>: o ser, o conhecimento, a linguagem. 21. ed. Petr\u00f3polis: Vozes, 1992.<\/p>\n<p>CASSIRER, Ernst. <em>Antropologia filos\u00f3fica<\/em>: ensaio sobre o homem. Tradu\u00e7\u00e3o de Vicente Felix de Queiroz. S\u00e3o Paulo: Mestre Jou, 1972.<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/wp-admin\/post-new.php#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">*<\/a> Bacharelando em Filosofia pela FAM.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Jos\u00e9 M\u00e1rio Santana Barbosa* \u00a0Resumo: Esse estudo tem como objetivo analisar a origem e o desenvolvimento da linguagem, caracter\u00edstica essencial e diferencial do homem, como mecanismo de transmitir sua cultura, conhecer a si mesmo e viver em sociedade. 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