{"id":2695,"date":"2018-06-11T12:42:56","date_gmt":"2018-06-11T15:42:56","guid":{"rendered":"http:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/?p=2695"},"modified":"2018-10-17T10:55:07","modified_gmt":"2018-10-17T13:55:07","slug":"epinomis-enredo-e-analise","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/?p=2695","title":{"rendered":"\u201cEPINOMIS\u201d: enredo e an\u00e1lise"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\">Jos\u00e9 M\u00e1rio Santana Barbosa<a href=\"http:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/wp-admin\/post-new.php#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">*<\/a><\/p>\n<p><strong>Resumo: <\/strong>Por meio deste estudo, pretende-se apresentar o enredo da obra <em>Epinomis<\/em>, di\u00e1logo que aparece ao final da obra <em>As Leis<\/em>, de Plat\u00e3o. A grande quest\u00e3o da obra \u00e9: o que \u00e9 preciso para se tornar um s\u00e1bio? Assim, al\u00e9m de serem apresentadas as hip\u00f3teses do autor, ser\u00e3o analisadas, aqui, as raz\u00f5es expostas para que ele chegasse ao resultado final \u2013 o conhecimento da astronomia \u2013, bem como as rela\u00e7\u00f5es que esse pensamento estabelece com o conhecimento que temos na atualidade sobre Plat\u00e3o e os conceitos utilizados por ele e seus seguidores, tais como logos, <em>alma<\/em>, <em>cosmos <\/em>e <em>sabedoria<\/em>.<\/p>\n<p><strong>Palavras-chave: <\/strong>Epinomis. Plat\u00e3o. Sabedoria. Logos. Alma.<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>INTRODU\u00c7\u00c3O<\/strong><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>A sabedoria sempre foi (e ser\u00e1) alvo de interesse daqueles que despertaram para a curiosidade de saber a origem, o real funcionamento e o objetivo de cada coisa criada. E n\u00e3o o foi diferente com Plat\u00e3o e sua escola filos\u00f3fica. A partir de um di\u00e1logo entre Cl\u00ednias e um estrangeiro ateniense, o autor de Epinomis retoma de forma clara e exortativa a ideia da sabedoria e indica o caminho para se chegar at\u00e9 ela.<\/p>\n<p>A obra inicia perpassando a no\u00e7\u00e3o de n\u00famero, cujo conhecimento, segundo o autor, \u00e9 obrigat\u00f3rio para se chegar \u00e0 sabedoria, uma vez que todas as outras ci\u00eancias sendo espec\u00edficas, s\u00e3o tamb\u00e9m limitadas. Mais do que um mero aprendizado num\u00e9rico, isso significa um apelo ao uso da raz\u00e3o (<em>logos<\/em>), por meio do discurso e da argumenta\u00e7\u00e3o, como forma de se chegar ao mais pleno saber.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s isso, s\u00e3o caracterizados conceitos principais para Plat\u00e3o, como a presen\u00e7a no universo de corpos primordiais (terra, fogo, \u00e9ter, ar e \u00e1gua); <em>alma<\/em> (primordial ao corpo, dotada de movimentos imut\u00e1veis e circulares); e<em> cosmos<\/em> (a presen\u00e7a de todo esse ordenamento exemplificada pelos movimentos dos astros). Tudo isso tem como objetivo o alcance da verdadeira <em>sabedoria<\/em>, que s\u00f3 ser\u00e1 encontrada quando o homem a buscar onde ela superabunda: em deus e na sua cria\u00e7\u00e3o mais perfeita, os astros.<\/p>\n<p><b>\u00a0<\/b><\/p>\n<p>1 <b>Considera\u00e7\u00f5es iniciais<\/b><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Epinomis<\/em> (\u201caquele que vem ap\u00f3s as leis\u201d), ou <em>O Fil\u00f3sofo<\/em>, \u00e9 uma obra classificada como \u201ccontestada\u201d, uma vez que \u00e9 considerada por alguns como um di\u00e1logo aut\u00eantico, a \u00faltima grande obra de Plat\u00e3o \u2013 o d\u00e9cimo terceiro livro das <em>Leis<\/em> \u2013, e por outros (a maioria) como um di\u00e1logo ap\u00f3crifo (WATANABE, 1996, p. 51), sendo possivelmente de autoria de um de seus disc\u00edpulos, F\u00edlipos de Opus (LA\u00c9RCIO, 2008, p. 94). Portanto, foi quase sempre ligado \u00e0s <em>Leis<\/em> que esse di\u00e1logo chegou at\u00e9 n\u00f3s, o que possibilitou uma poss\u00edvel e evidente interpreta\u00e7\u00e3o de ser Plat\u00e3o o autor da obra. Os personagens presentes no discurso s\u00e3o Cl\u00ednias de Creta, o estrangeiro de Atenas e Megilo de Lacedem\u00f4nia (que n\u00e3o pronuncia sequer uma palavra, em toda a obra).<\/p>\n<p>A obra inicia com um di\u00e1logo entre Cl\u00ednias e o ateniense, estando o primeiro interessado em discernir o que \u00e9 mais importante que um homem aprenda para se tornar um s\u00e1bio, preocupado em uma resposta universalmente verdadeira. Desesperan\u00e7oso, o ateniense acredita, contudo, n\u00e3o ser poss\u00edvel que as pessoas alcancem a felicidade, na grande maioria dos casos, devido \u00e0s pr\u00f3prias finitude e limita\u00e7\u00e3o humanas; logo, tamb\u00e9m tornar-se s\u00e1bio n\u00e3o \u00e9 uma op\u00e7\u00e3o encontrada em todos, especialmente naqueles que possuem algum conhecimento especializado.<\/p>\n<p>A partir de ent\u00e3o s\u00e3o analisadas algumas das ci\u00eancias que n\u00e3o conduzem ningu\u00e9m \u00e0 sabedoria, tendo em vista seu car\u00e1ter espec\u00edfico \u2013 s\u00e3o muito \u00fateis \u00e0 sociedade, mas n\u00e3o s\u00e3o consider\u00e1veis no que diz respeito \u00e0 virtude \u2013, para buscar-se alguma que n\u00e3o o seja, e aprend\u00ea-la. S\u00e3o elas: o conhecimento do comportamento dos animais, o conhecimento e a produ\u00e7\u00e3o de alimentos, o cultivo da terra, a constru\u00e7\u00e3o, a carpintaria, o artesanato, a ca\u00e7a, a interpreta\u00e7\u00e3o de or\u00e1culos, as artes em geral (em especial a trag\u00e9dia), a guerra, a medicina e a navega\u00e7\u00e3o. Al\u00e9m delas, a ci\u00eancia da defesa em processos devido \u00e0 habilidade discursiva (sof\u00edstica) e at\u00e9 mesmo a \u201cintelig\u00eancia\u201d (caracterizada por f\u00e1cil aprendizado, boa mem\u00f3ria e facilidade de s\u00edntese, em linhas gerais) n\u00e3o tornam seu possuidor s\u00e1bio.<\/p>\n<p>Nenhuma delas, mesmo se fosse totalmente aprendida, conduziria algu\u00e9m \u00e0 sabedoria; e o autor indica qual poderia ser o \u201cesbo\u00e7o\u201d dessa ci\u00eancia: o conhecimento do n\u00famero.<\/p>\n<p>De todas as ci\u00eancias atualmente existentes, qual delas \u2013 se desaparecesse completamente do \u00e2mbito da ra\u00e7a humana ou n\u00e3o tivesse sido desenvolvida \u2013 faria do ser humano o mais estulto e est\u00fapido dos seres vivos? A rigor, n\u00e3o \u00e9 nem um pouco dif\u00edcil identific\u00e1-la. Se compararmos, por assim dizer, uma ci\u00eancia com a outra, perceberemos que aquela que concedeu o dom do n\u00famero produziria aquele efeito sobre toda a ra\u00e7a dos mortais. (PLAT\u00c3O, s.d., p. 519)<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong><i>2 Logos<\/i><\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Com desejo de seguir essa ideia \u2013 o n\u00famero \u2013, o ateniense identifica no C\u00e9u (deus e f\u00edsico) o lugar onde procurar a sabedoria, estando este em profunda rela\u00e7\u00e3o com o primeiro, sendo fonte de intelig\u00eancia e de tudo o que \u00e9 bom. Com n\u00famero, o autor de Epinomis deseja indicar o uso do discurso racional, isto \u00e9, do <em>logos<\/em>, para alcan\u00e7ar a virtude. Sem ele, todas as artes ditas anteriormente s\u00e3o exclu\u00eddas.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, enquanto nada o impede de deter o resto da virtude \u2013 coragem e temperan\u00e7a \u2013 ningu\u00e9m que seja destitu\u00eddo da capacidade do verdadeiro discurso [racional] se tornar\u00e1 jamais s\u00e1bio, e todo aquele a quem falte sabedoria, que \u00e9 a parte maior da virtude, n\u00e3o poder\u00e1 jamais tornar-se inteiramente bom ou, consequentemente, feliz. (PLAT\u00c3O, s.d., p. 520)<\/p>\n<p>Prossegue-se, a partir daqui, com a an\u00e1lise do n\u00famero. De fato, como conseguir entender essa import\u00e2ncia t\u00e3o grande, superior \u00e0s demais artes? O n\u00famero, na verdade, est\u00e1 presente em tudo o que \u00e9 belo e ordenado, em contraste com tudo o que \u00e9 irracional, desordenado, carecendo de n\u00famero (mal). O n\u00famero \u00e9-nos mostrado pela \u201cdivindade\u201d primeiramente pelo c\u00e9u \u2013 por meio de seus corpos celestes \u2013, que o ensina incessantemente a n\u00f3s. Como exemplo, temos o ciclo regular da Lua, poss\u00edvel de ser entendido por todos n\u00f3s.<\/p>\n<p>Gra\u00e7as a estes eventos celestiais temos colheitas, a terra gera alimentos para todos os seres vivos e os ventos que sopram e as chuvas que caem n\u00e3o s\u00e3o violentos e imoderados; se, contrariando a isto, algum desses fen\u00f4menos trouxer consigo o mal, n\u00e3o \u00e9 a divindade que deveremos censurar, mas sim os seres humanos por n\u00e3o ordenarem corretamente suas pr\u00f3prias vidas. (PLAT\u00c3O, s.d., p. 522)<\/p>\n<p>Em Plat\u00e3o, <em>logos<\/em> adquire sentidos bastante marcantes. Primeiramente, o termo define a express\u00e3o do pensamento, isto \u00e9, emitir \u201ccom sons\u201d aquilo que se pensa, ato complementar \u00e0 \u201cfala interior\u201d, o pr\u00f3prio pensamento (<em>dianoia<\/em>). Al\u00e9m do mais, em sua obra o conceito <em>logos didonai<\/em> \u00e9 muito verificado, definindo um estado de \u201cpresta\u00e7\u00e3o de contas\u201d inicialmente feito da parte de um funcion\u00e1rio para seu patr\u00e3o, mas muito presente no discurso de Plat\u00e3o, principalmente na pessoa de S\u00f3crates que, por meio da indaga\u00e7\u00e3o e da refuta\u00e7\u00e3o que fazia a seus \u201copositores\u201d em um debate, buscava leva-los \u00e0 virtude (<em>aret\u00e9<\/em>) (SCH\u00c4FER, 2012, p. 203).<\/p>\n<p>Para Plat\u00e3o, como presente em algumas de suas obras, o <em>logos<\/em> \u00e9, especialmente, a confirma\u00e7\u00e3o, por meio do discurso, de um pensamento interior, sendo que este s\u00f3 se justifica por meio daquele. Esse discurso deve ser, ele inteiro, coerente e verdadeiro, para se poder a partir da justifica\u00e7\u00e3o dos argumentos utilizados, apoiar-se a conclus\u00e3o.<\/p>\n<p>\u00c9 exatamente isso que se percebe em <em>Epinomis<\/em>. Apoiado em argumentos consideravelmente simples, mas devidamente embasados, tais como a ineg\u00e1vel imutabilidade do movimento dos astros, bem como a presen\u00e7a do n\u00famero em sua rota perfeita, o autor da obra deseja mostrar-nos a virtude do conhecimento por meio da racionalidade \u2013 e do discurso \u2013, ponto crucial e principal para aquele que deseja se tornar verdadeiramente s\u00e1bio.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong><em>3 Alma<\/em><\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Anteriormente (como consta no livro <em>As Leis<\/em>), os participantes do di\u00e1logo j\u00e1 haviam chegado \u00e0 conclus\u00e3o de que a alma \u00e9 mais velha e mais digna que o corpo, uma vez que o que conduz \u00e9 mais velho que o que \u00e9 conduzido. De seres vivos (\u201cassocia\u00e7\u00e3o\u201d entre alma e corpo), o estrangeiro de Atenas destaca cinco corpos \u201cprimordiais\u201d: fogo, \u00e1gua, ar, terra e \u00e9ter. Esses elementos constituem, juntos, todas as esp\u00e9cies \u2013 vis\u00edveis ou n\u00e3o \u2013 que habitam o mundo; contudo, alguns elementos se encontram em maiores propor\u00e7\u00f5es em determinados seres, determinando sua \u201cfun\u00e7\u00e3o principal\u201d, o que os difere dos demais (GOCHEVA, p. 11, [200-?]). Inicia-se, pois, o estudo do elemento terrestre, a terra (reinos animal e vegetal). Esse inclui todos os seres vivos (dentre eles, os humanos), os quais t\u00eam como composi\u00e7\u00e3o majorit\u00e1ria a terra na sua natureza s\u00f3lida.<\/p>\n<p>O fogo \u00e9 o elemento que constitui os \u201castros divinos\u201d, \u201cincorrupt\u00edveis, imortais e com plena e absoluta necessidade divinos, ou cada um conta com uma exist\u00eancia de tal longevidade que possivelmente jamais exigiriam que fosse mais extensa\u201d (PLAT\u00c3O, s.d., p. 526).<\/p>\n<p>Consideremos, portanto, primeiramente que esses seres, que o reiteremos, s\u00e3o de duas esp\u00e9cies: uma e outra vis\u00edveis, uma de fogo, a julg\u00e1-lo externamente na sua inteireza; a outra, de terra, a esp\u00e9cie terrestre movendo-se em desordem, e a esp\u00e9cie \u00edgnea, ao contr\u00e1rio, movendo-se em perfeita ordem. Ora, aquela que se move desordenadamente \u2013 que constitui, na maior parte, os seres de nossa Terra \u2013 \u00e9 imperioso que a consideremos como destitu\u00edda de intelig\u00eancia; aquela que segue sua rota ordenadamente no c\u00e9u, por isso mesmo, propicia uma forte prova de sua intelig\u00eancia, pois seguir sempre exatamente a mesma via, agir ou sofrer de modo id\u00eantico basta para manifestar uma vida inteligente. (PLAT\u00c3O, s.d., p. 526)<\/p>\n<p>Portanto, para o autor de Epinomis, a sabedoria dos astros reside no fato de eles repetirem continuamente os mesmos movimentos desde sempre, ao inv\u00e9s de serem \u201cerrantes\u201d. Isso \u00e9 bastante contr\u00e1rio a uma ideia vigente naquela \u00e9poca at\u00e9 os dias de hoje, que diz que os seres que sempre produzem o mesmo movimento, s\u00e3o destitu\u00eddos de alma: \u201cE a multid\u00e3o tem seguido os insensatos, ao ponto de ter o humano como inteligente e vivo porque se move e o divino como privado de intelig\u00eancia porque permanece nas mesmas \u00f3rbitas.\u201d (PLAT\u00c3O, s.d., p. 527). Dessa maneira, fica evidente, para o autor, a presen\u00e7a de alma nos astros.<\/p>\n<p>a menos que uma alma estivesse ligada a cada um deles ou mesmo dentro de cada um deles, a terra, o c\u00e9u, todos os astros e todas as massas deles formadas n\u00e3o poderiam executar com precis\u00e3o seus movimentos anuais, mensais e di\u00e1rios, convertendo tudo que se produz em bens para n\u00f3s. (PLAT\u00c3O, s.d., p. 527-528)<\/p>\n<p>Al\u00e9m das duas esp\u00e9cies vis\u00edveis, terra (mortal) e fogo (imortal), s\u00e3o agora apresentadas as outras tr\u00eas \u201cintermedi\u00e1rias\u201d: \u00e9ter (de cuja estrutura a alma utiliza para \u201cconfeccionar\u201d seres vivos); ar; e \u00e1gua (composto principal de alguns \u201csemideuses\u201d). Al\u00e9m do mais, o c\u00e9u \u00e9 povoado por seres vivos que comunicam-se entre si, divididos por cinco esp\u00e9cies, come\u00e7ando com os deuses vis\u00edveis e terminando com o homem. Ap\u00f3s os deuses vis\u00edveis, est\u00e3o os dem\u00f4nios (<em>d\u00e1imons<\/em>), compostos de ar e \u00e9ter, que, no sentido plat\u00f4nico, n\u00e3o t\u00eam uma defini\u00e7\u00e3o \u201cnegativa\u201d; ao contr\u00e1rio, possuem a mesma \u201cimport\u00e2ncia\u201d que os deuses, sendo guias e protetores da alma do homem, intermediando entre este e aqueles.<\/p>\n<p>Alma (ou <em>psych\u00e9<\/em>) segundo o conceito plat\u00f4nico \u00e9 a liga\u00e7\u00e3o entre o divino e o \u201cmortal\u201d, \u00e9 algo que se move por si mesma \u2013 em movimento imutavelmente correto e circular \u2013 e move os demais corpos. A alma \u00e9, indubitavelmente para Plat\u00e3o, anterior e superior ao corpo, uma vez que \u201co que move\u201d \u00e9 mais importante que o \u201cmovido\u201d, sendo assim, imut\u00e1vel e imortal.<\/p>\n<p>Assim, \u00e9 a alma a \u00fanica capaz de produzir, por si mesma, movimentos intelig\u00edveis, tais como percep\u00e7\u00f5es, conhecimentos, saber, opini\u00f5es, vontade, prazer. Isso ocorre devido a ser a alma a \u201cutilit\u00e1ria\u201d dos corpos por ela animados, tidos como \u201crecept\u00e1culos\u201d de sua a\u00e7\u00e3o. Al\u00e9m disso, na morte a alma se separa do corpo, que assume integralmente sua condi\u00e7\u00e3o org\u00e2nica determinada \u2013 a desintegra\u00e7\u00e3o \u2013 e esta vive para sempre (SCH\u00c4FER, 2012, p. 36).<\/p>\n<p>H\u00e1, portanto, na obra de Plat\u00e3o e de seus seguidores \u2013 inclusive em <em>Epinomis <\/em>\u2013 um claro objetivo de levar-se \u00e0 contempla\u00e7\u00e3o do divino, por meio da compara\u00e7\u00e3o com a pr\u00f3pria ess\u00eancia humana (ser corpo, isto \u00e9, mat\u00e9ria e alma). Daqui depreende-se que a alma do mundo \u00e9 perfeita, indivis\u00edvel e condutora dos demais corpos, entre eles os astros. E essa alma \u00e9 indiscutivelmente boa \u2013 o que se comprova por seus movimentos ordenados e perfeitamente num\u00e9ricos \u2013, em detrimento de uma poss\u00edvel m\u00e1 que possa existir no mundo.<\/p>\n<p>O material misturado dessa maneira \u00e9 moldado, num processo adicional, por meio de complicadas propor\u00e7\u00f5es matem\u00e1ticas ou geom\u00e9tricas e dividido em diferentes partes, de modo que a alma do mundo assim moldada \u00e9 um produto complexo, cujas partes individuais s\u00e3o ligadas entre si por regras matematicamente descrit\u00edveis. (SCH\u00c4FER, 2012, p. 40-41)<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong><em>4 Cosmos<\/em><\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Pr\u00f3ximo ao final do discurso, de maneira bastante descritiva, o ateniense passa, ap\u00f3s a descri\u00e7\u00e3o das esp\u00e9cies, a explicitar as oito pot\u00eancias irm\u00e3s (pois trabalham \u201cem conjunto\u201d) que povoam o c\u00e9u: Sol, Lua e astros (j\u00e1 citados); V\u00eanus, Merc\u00fario, Saturno, J\u00fapiter e Marte. Plat\u00e3o ainda critica os fil\u00f3sofos pr\u00e9-socr\u00e1ticos, que acreditavam ser o corpo, a mat\u00e9ria primordial \u00e0 alma.<\/p>\n<p>Agora mostra-se bastante plaus\u00edvel que quando os seres humanos pensaram pela primeira vez como os deuses vieram a ser e no que se assemelhavam, e que feitos realizaram uma vez vindos a ser, o que disseram n\u00e3o se revelou aceit\u00e1vel ou agrad\u00e1vel \u00e0s pessoas sensatas, como tampouco se revelaram as narrativas posteriores, nas quais o fogo, a \u00e1gua e os outros corpos foram considerados mais velhos, e a alma admir\u00e1vel, mais nova (PLAT\u00c3O, s.d., p. 534).<\/p>\n<p>Associado \u00e0 cosmologia, o conceito <em>cosmos<\/em> (ou <em>ordem<\/em>) tem uma grande import\u00e2ncia e influenciou muito a Plat\u00e3o e seus disc\u00edpulos. Contudo, n\u00e3o apenas relacionado a esse sentido, <em>cosmos<\/em> abrange, al\u00e9m dele, duas outras esferas de pensamento: a psicologia e a filosofia pol\u00edtica, estando as tr\u00eas estritamente inter-relacionadas, no que diz respeito a princ\u00edpios de ordem amplos que \u201cregem\u201d tanto o universo, quanto a alma do homem e a constitui\u00e7\u00e3o s\u00f3cio-pol\u00edtica do Estado (SCH\u00c4FER, 2012, p. 231). No sentido cosmol\u00f3gico, assume aqui grande import\u00e2ncia o conceito de <em>harmonia. <\/em>De fato, algo ordenado, para Plat\u00e3o, era algo harm\u00f4nico, que respeitava a ciclos cont\u00ednuos e imut\u00e1veis, rotinas fixas e regulares, a exemplo da constitui\u00e7\u00e3o dos astros no universo, como explicitado na obra Epinomis.<\/p>\n<p>Um importante pressuposto para a concep\u00e7\u00e3o plat\u00f4nica de ordem parece consistir na cosmologia e especialmente na astronomia. O ponto decisivo a\u00ed \u00e9 que os movimentos dos corpos celestes transcorrem de modo regular, uniforme e \u2013 pelo menos no caso das estrelas fixas \u2013 idealmente circular. [&#8230;] A alta regularidade dos movimentos celestes e sua precisa descritibilidade com os meios sutis da matem\u00e1tica provocaram nos expertos da astronomia, segundo Plat\u00e3o, uma forma cientificamente refletida de religiosidade (SCH\u00c4FER, 2012, p. 232).<\/p>\n<p>De fato, \u00e9 essa a recomenda\u00e7\u00e3o que Plat\u00e3o faz ao homem que deseja ser s\u00e1bio em diversos de seus escritos, com na <em>Rep\u00fablica<\/em>: imitar aquilo que \u00e9 ordenado (SCH\u00c4FER, 2012, p. 232), isto \u00e9 os astros do universo, que, segundo Plat\u00e3o, s\u00e3o manifesto claro da cria\u00e7\u00e3o de deus (o <em>demiurgo<\/em>) que, perfeito como \u00e9, quer que tudo seja semelhante a ele.<\/p>\n<p>Faz todo sentido, pois, o autor de <em>Epinomis<\/em> ter feito tanta quest\u00e3o de demonstrar a circularidade e a perfei\u00e7\u00e3o dos movimentos do Universo e usar deles para chegar finalmente a deus. Sim, pois por meio da observa\u00e7\u00e3o e do conhecimento daquilo que \u00e9 mais ordenado e imut\u00e1vel no mundo vis\u00edvel (os astros em seus movimentos), pode-se compreender com mais clareza as ideias de harmonia e perfei\u00e7\u00e3o, que devem ser buscadas sempre por aqueles que desejam ser conhecedores da verdadeira sabedoria.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong><em>5 Sabedoria<\/em><\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A grande revela\u00e7\u00e3o, pois, de qual ci\u00eancia seria primordial que todos aprendessem para, a partir de suas li\u00e7\u00f5es, reverenciar aos deuses e se tornar s\u00e1bio vem em seguida: a astronomia, mas n\u00e3o aquela marcada simplesmente pela observa\u00e7\u00e3o do movimento dos astros, mas sim aquela que tem a capacidade de, a partir deles, prever novos acontecimentos, a partir dos anteriores. E \u00e9 por meio do estudo dos n\u00fameros (matem\u00e1tica, geometrias) que se habitua algu\u00e9m \u2013 que j\u00e1 tenha uma natureza pr\u00f3pria \u201cfavor\u00e1vel\u201d \u00e0 compreens\u00e3o \u2013 ao aprendizado e torna-o verdadeiramente s\u00e1bio.<\/p>\n<p>Precisamos, inclusive, deter um conhecimento apurado da exatid\u00e3o do tempo, captar como ele cumpre com precis\u00e3o todos os fen\u00f4menos celestes. Se o fizermos, ent\u00e3o todos que creem na verdade de nosso racioc\u00ednio segundo o qual a alma \u00e9 a uma vez mais velha e mais divina que o corpo dever\u00e3o reconhecer que o ad\u00e1gio <em>tudo est\u00e1 repleto de deuses<\/em> \u00e9 cabalmente correto e suficiente e, ademais, que nunca somos negligenciados devido ao esquecimento ou inc\u00faria dos seres que nos s\u00e3o superiores. (PLAT\u00c3O, s.d., p. 538)<\/p>\n<p>Mais do que apenas conhecimento ou habilidade (<em>tecn\u00e9<\/em>) para uma ci\u00eancia espec\u00edfica \u2013 como era corrente no pensamento \u00e0 \u00e9poca \u2013, sabedoria (ou <em>sophia<\/em>) para Plat\u00e3o \u00e9 o ato de \u201cdesmascarar\u201d o saber superficial tido por muitos como universal, por meio da dial\u00e9tica e da mai\u00eautica (para fazer nascer novas ideias e revelar as \u201ccaducas\u201d). Al\u00e9m disso, no pensamento plat\u00f4nico a <em>sophia<\/em> conduz o s\u00e1bio \u00e0 contempla\u00e7\u00e3o do vis\u00edvel, do intelig\u00edvel, levando-o a uma perfeita ordena\u00e7\u00e3o da alma, uma vez que somente deus possui o pensamento perfeito, o que impulsiona o homem a buscar vencer sua ignor\u00e2ncia. Dessa maneira, o homem passa a ser verdadeiramente fil\u00f3sofo (\u201camigo do saber\u201d).<\/p>\n<p>Incerto sobre o sentido exato do or\u00e1culo proferido pelo Apolo d\u00e9lfico de que ele era o mais s\u00e1bio entre os homens, S\u00f3crates come\u00e7ou a examinar a <em>sophia<\/em> de seus pr\u00f3ximos (<em>Apol.<\/em> 20e-21e, 23a-c). Com efeito, esse processo revelou a superioridade da <em>sophia <\/em>socr\u00e1tica em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s pessoas examinadas, pois, por causa de sua incontest\u00e1vel compet\u00eancia numa \u00e1rea t\u00e9cnica particular, elas se deixaram induzir \u00e0 ideia de que tinham sabedoria em todos os outros assuntos (<em>Apol. <\/em>22d-e). Mas, de fato, essa sabedoria humana, que se pauta pelo dom\u00ednio sobre a vida pr\u00e1tica, \u00e9 insignificante em compara\u00e7\u00e3o com a sabedoria de Deus (<em>Apol. <\/em>23a; <em>Teet.<\/em> 176c-d) (SCH\u00c4FER, 2012, p. 284).<\/p>\n<p>O autor conclui a obra, portanto, indicando o \u201ccaminho certo\u201d, o m\u00e9todo para se buscar a compreens\u00e3o verdadeira do homem, e a forma de se alcan\u00e7ar finalmente a sabedoria. Ele \u00e9 o n\u00famero, por meio, principalmente, da evolu\u00e7\u00e3o dos astros, uma vez que eles representam claramente a perfei\u00e7\u00e3o de deus e a imutabilidade e perfei\u00e7\u00e3o de sua virtude. Dessa maneira, o autor retoma e justifica sua posi\u00e7\u00e3o inicial de que exceto em alguns poucos casos, o homem \u00e9 incapaz de conquistar plenamente a felicidade. De fato, \u201csomente aqueles que [&#8230;] abarcaram todas as mat\u00e9rias vinculadas \u00e0 ci\u00eancia aben\u00e7oada (e indicamos quais s\u00e3o elas) conquistaram e det\u00eam todos os dons da divindade na devida medida\u201d (PLAT\u00c3O, s.d., 539). Essas pessoas devem assumir os cargos mais importantes e levar tamb\u00e9m as demais a esse conhecimento.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>CONCLUS\u00c3O<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Ao final da an\u00e1lise de<em> Epinomis<\/em>, alguns termos e conceitos de Plat\u00e3o podem ser percebidos no texto e analisados de forma mais din\u00e2mica. De fato, o autor da obra, ao indicar o caminho para que seus disc\u00edpulos alcan\u00e7assem a <em>sabedoria<\/em>, indicava muito mais do que um mero conhecimento \u2013 superficial e limitado \u2013 de uma ci\u00eancia independente, no caso, a astronomia, mesmo que ela tenha sido indicada como um conhecimento obrigat\u00f3rio para tal. Mais do que isso, a obra indica de maneira muito clara uma tend\u00eancia presente no pensamento plat\u00f4nico: \u00a0a de querer justificar os acontecimentos presentes no mundo, por meio de uma ideia transcendental, divina.<\/p>\n<p>Assim, \u00e9-nos mostrada, em toda a sua perfei\u00e7\u00e3o, o complexo e perfeito sistema do <em>cosmos<\/em>, dotado de astros possuidores, sem d\u00favida alguma, de uma <em>alma<\/em> divina que os ordena e \u00e0 qual devemos nos espelhar para tamb\u00e9m embasarmos nossas a\u00e7\u00f5es. Nessa obra, o autor, tamb\u00e9m faz uma analogia entre o n\u00famero e a raz\u00e3o (<em>logos<\/em>). Assim, da mesma maneira como os astros seguem uma \u201crotina\u201d fixa, uma vez que repetem seus movimentos a cada novo ciclo, tamb\u00e9m a vida humana deve marcada por uma linearidade. Dessa maneira, o s\u00e1bio n\u00e3o \u00e9 apenas aquele que conhece a astronomia e os n\u00fameros, mas tamb\u00e9m aquele que sabe pautar todas as suas atitudes em reflex\u00f5es racionais, uma vez que o \u201cbem maior\u201d, que \u00e9 deus, \u00e9 imut\u00e1vel e perfeito.<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>REFER\u00caNCIAS BIBLIOGR\u00c1FICAS<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>GOCHEVA, Dimka. <em>Understanding the five bodies in the Epinomis<\/em>. [200-?]. Dispon\u00edvel em: &lt;https:\/\/aaduce.files.wordpress.com\/2012\/12\/epindimka_1_-tekst.pdf&gt;. Acesso em 22 maio 2016.<\/p>\n<p>LA\u00c9RCIO, Di\u00f3genes. <em>Vidas e doutrinas dos fil\u00f3sofos ilustres<\/em>. Tradu\u00e7\u00e3o de M\u00e1rio da Gama Kury. 2. ed. Bras\u00edlia: UnB, 2008.<\/p>\n<p>PLAT\u00c3O. <em>As Leis<\/em>. Biblioteca da UEFS. 2010. Dispon\u00edvel em: &lt;http:\/\/www2.uefs.br\/filosofia-bv\/pdfs\/platao_24.pdf&gt;. Acesso em: 22 maio 2016.<\/p>\n<p>SCH\u00c4FER, Christian. <em>L\u00e9xico de Plat\u00e3o<\/em>. Tradu\u00e7\u00e3o de Milton Camargo Mota. S\u00e3o Paulo: Edi\u00e7\u00f5es Loyola, 2012.<\/p>\n<p>WATANABE, Lygia Araujo. <em>Plat\u00e3o<\/em>: por mitos e hip\u00f3teses. S\u00e3o Paulo: Editora Moderna, 1996.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/wp-admin\/post-new.php#_ftnref1\" name=\"_ftn1\"><\/a>* Bacharelando em Filosofia pela FAM.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Jos\u00e9 M\u00e1rio Santana Barbosa* Resumo: Por meio deste estudo, pretende-se apresentar o enredo da obra Epinomis, di\u00e1logo que aparece ao final da obra As Leis, de Plat\u00e3o. A grande quest\u00e3o da obra \u00e9: o que \u00e9 preciso para se tornar um s\u00e1bio? 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