{"id":2697,"date":"2018-06-11T12:47:00","date_gmt":"2018-06-11T15:47:00","guid":{"rendered":"http:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/?p=2697"},"modified":"2018-10-17T10:52:25","modified_gmt":"2018-10-17T13:52:25","slug":"a-teogonia-enredo-e-analise","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/?p=2697","title":{"rendered":"A TEOGONIA: enredo e an\u00e1lise"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\">Jos\u00e9 M\u00e1rio Santana Barbosa<a href=\"http:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/wp-admin\/post-new.php#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">*<\/a><\/p>\n<p><strong>Resumo: <\/strong>A an\u00e1lise da Teogonia de Hes\u00edodo \u00e9, sem d\u00favidas, desafiadora. Nesse breve estudo n\u00e3o se objetiva de maneira nenhuma atingir-se o inalcan\u00e7\u00e1vel sentido completo da epopeia de Hes\u00edodo. O objetivo \u00e9, sim, indicar que a obra representa n\u00e3o somente uma descri\u00e7\u00e3o da cren\u00e7a polite\u00edsta na Gr\u00e9cia \u201carcaica\u201d, mas tamb\u00e9m um conjunto de fatos sociais complexos, inseridos em uma realidade social que dista s\u00e9culos da nossa, tendo portanto, caracter\u00edsticas imensamente distintas, algumas das quais ser\u00e3o aqui analisadas, juntamente com o enredo da obra.<\/p>\n<p><strong>Palavras-chave: <\/strong>Teogonia. Deuses. Gr\u00e9cia. Epopeia. Mito.<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>INTRODU\u00c7\u00c3O<\/strong><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Composta por Hes\u00edodo, a Teogonia gera at\u00e9 os dias atuais muito interesse da comunidade acad\u00eamica, especialmente \u00e0queles que muito se interessam por beber diretamente da fonte da busca pelo \u201csaber\u201d, onde a Filosofia come\u00e7ou.<\/p>\n<p>Mais do que uma obra hist\u00f3rica e \u201cfolcl\u00f3rica\u201d, contudo, a Teogonia possui aspectos muito importantes que n\u00e3o podem passar despercebidos e que, juntamente com uma breve exposi\u00e7\u00e3o do enredo da epopeia, ser\u00e3o o objetivo da discuss\u00e3o desse texto. S\u00e3o eles: as caracter\u00edsticas \u201chumanas\u201d atribu\u00eddas aos deuses, a influ\u00eancia do poeta (aedo) na sua elabora\u00e7\u00e3o, a conota\u00e7\u00e3o sagrada da Teogonia, a sua atemporalidade e os seus reais objetivos.<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>1 Exposi\u00e7\u00e3o do enredo<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A narra\u00e7\u00e3o inicia descrevendo as Musas, filhas de Zeus e Mem\u00f3ria e habitantes do Monte H\u00e9licon. S\u00e3o nove mo\u00e7as: Gl\u00f3ria, Alegria, Festa, Dan\u00e7arina, Alegra-coro, Amorosa, Hin\u00e1ria, Celeste e Belavoz. Do topo do monte e envoltas por espessa n\u00e9voa, as Musas cantam os feitos dos deuses, hineando em especial os de Zeus, o mais forte, criador de todos os outros. Foram elas tamb\u00e9m que ensinaram a Hes\u00edodo seu belo canto, enquanto ele pastoreava ovelhas aos p\u00e9s do H\u00e9licon.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Elas um dia a Hes\u00edodo ensinaram belo canto<\/p>\n<p>quando pastoreava ovelhas ao p\u00e9 do H\u00e9licon divino.<\/p>\n<p>Esta palavra primeiro disseram-me as Deusas<\/p>\n<p>Musas olimp\u00edades, virgens de Zeus porta-\u00e9gide:<\/p>\n<p>\u201cPastores agrestes, vis inf\u00e2mias e ventres s\u00f3,<\/p>\n<p>sabemos muitas mentiras dizer s\u00edmeis aos fatos<\/p>\n<p>e sabemos, se queremos, dar a ouvir revela\u00e7\u00f5es\u201d.<\/p>\n<p>Assim falaram as virgens do grande Zeus ver\u00eddicas,<\/p>\n<p>por cetro deram-me um ramo, a um loureiro vi\u00e7oso<\/p>\n<p>colhendo-o admir\u00e1vel, e inspiraram-me um canto<\/p>\n<p>divino para que eu glorie o futuro e o passado,<\/p>\n<p>impeliram-me a hinear o ser dos venturosos sempre vivos<\/p>\n<p>e a elas primeiro e por \u00faltimo sempre cantar. (HES\u00cdODO, 1995, p. 88-89)<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A partir de ent\u00e3o, as Musas come\u00e7am a narrar a hist\u00f3ria da cria\u00e7\u00e3o dos deuses, seguindo uma ordem mais ou menos \u201cgeneal\u00f3gica\u201d. Derivados dos deuses primordiais \u2013 Caos, Terra, T\u00e1rtaro e Eros \u2013, e a partir de rela\u00e7\u00f5es entre si, nascem os demais (que ir\u00e3o gerar outros): \u00c9rebo, Noite, \u00c9ter, Dia, C\u00e9u, Montanhas, Mar, Oceano, Coios, Crios, Hip\u00e9rion, J\u00e1peto, Teia, R\u00e9ia T\u00eamis, Mem\u00f3ria, Febi, T\u00e9tis, Crono, Ciclopes, Trov\u00e3o, Rel\u00e2mpago, Arges, Cotos, Briareu e Giges.<\/p>\n<p>Os filhos da uni\u00e3o \u201ctempestuosa\u201d entre Terra e C\u00e9u eram sempre escondidos pelo pai. A m\u00e3e prop\u00f4s aos filhos vingarem-se do C\u00e9u e Cronos, um deles, o fez, decepando o p\u00eanis do C\u00e9u, quando esse pairou sobre a Terra, querendo unir-se a ela. A partir de ent\u00e3o, a obra adquire um car\u00e1ter bastante descritivo da gera\u00e7\u00e3o dos deuses (e, por meio deles, dos elementos da natureza). S\u00e3o apresentadas, pois, as descend\u00eancias da Noite, do Mar e do C\u00e9u, bem como, posteriormente, as hist\u00f3rias de outros deuses \u2013 como Prometeu, Atlas, Heracles, Atena e H\u00e9cate \u2013 nas quais percebe-se um profundo car\u00e1ter de descri\u00e7\u00e3o cultural e social do per\u00edodo em que a Teogonia foi escrita.<\/p>\n<p>O conturbado nascimento de Zeus \u00e9 tamb\u00e9m narrado na Teogonia. R\u00e9ia e Cronos tiveram como filhos H\u00e9stia, Dem\u00e9ter, Hera, Hades, Treme-terra e Zeus. O pai, contudo, engolia vivos seus filhos logo que nasciam, objetivando nunca ter um \u201ccompetidor\u201d ao poderio que exercia. Muito desapontada, R\u00e9ia trama um plano e, quando nasce Zeus, esconde-o e d\u00e1 uma pedra para Cronos comer em seu lugar. Assim, Zeus cresce e, posteriormente, vence seu pai, libertando tamb\u00e9m seus irm\u00e3os que estavam presos dentro dele.<\/p>\n<p>Em Hes\u00edodo as palavras s\u00e3o for\u00e7as divinas, Deusas nascidas de Zeus e Mem\u00f3ria (as Musas), mas Hes\u00edodo j\u00e1 ouve o apelo do Todo-Uno e \u00e9 claramente percept\u00edvel na <em>Teogonia <\/em>a tend\u00eancia de toda a polimorfa realidade e os m\u00faltiplos \u00e2mbitos do Divino convergirem subordinados \u00e0 realeza de Zeus Pai dos homens e dos Deuses. (TORRANO, 1995, p. 13)<\/p>\n<p>Ao final, \u00e9 descrita uma guerra (\u201cTitanomaquia\u201d) entre os deuses do Olimpo (filhos de Cronos) e os deuses do \u00d3tris (os deuses Tit\u00e3s). Nela, Zeus convence os seus \u201cirm\u00e3os\u201d a se unirem para combater os Tit\u00e3s, que s\u00e3o vencidos em dif\u00edcil combate e finalmente aprisionados no distante T\u00e1rtaro, vasto abismo, lugar odiado pelos deuses. Ap\u00f3s a luta, Zeus ainda enfrenta e abate Tifeu, deus filho de Terra, que estava se tornando muito poderoso e tomando o lugar do mais forte dos deuses. A Teogonia termina fazendo, mais uma vez, uma \u201cgenealogia\u201d de outros deuses filhos de Zeus e da descend\u00eancia deles.<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>2 An\u00e1lise da obra<\/strong><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>A Teogonia tem um car\u00e1ter bastante peculiar: tentar representar, pela primeira vez em prosa, as tradi\u00e7\u00f5es orais, que se passavam de gera\u00e7\u00e3o em gera\u00e7\u00e3o na Gr\u00e9cia. Assim, essa obra tem o interesse de representar a \u201cforma\u00e7\u00e3o\u201d dos deuses (<em>the\u00f3s=<\/em>deus; <em>g\u00edgnesthai<\/em>=nascer), bem como, a partir disso, deixar clara a forma\u00e7\u00e3o de seres e fen\u00f4menos naturais e socioculturais do mundo antigo. Assim, longe de ser uma obra linear, a Teogonia adquire uma import\u00e2ncia fundamental por trazer at\u00e9 n\u00f3s uma vis\u00e3o de mundo escondida sob a \u201cn\u00e9voa\u201d do mito da origem dos deuses.<\/p>\n<p>A leitura da <em>Teogonia <\/em>ultrapassa e extrapola o interesse da mera erudi\u00e7\u00e3o acad\u00eamica, porque o mundo que este poema arcaico p\u00f5e \u00e0 luz, e no qual ele pr\u00f3prio vive, est\u00e1 vivo de um modo permanente e \u2014 enquanto formos homens \u2014 imortal. Um mundo m\u00e1gico, m\u00edtico, arquet\u00edpico e divino, que beira o Espanto e o Horror, que permite a experi\u00eancia do Sublime e do Terr\u00edvel, e ao qual o nosso pr\u00f3prio mundo mental e a nossa pr\u00f3pria vida est\u00e3o umbilicalmente ligados. (TORRANO, 1995, p. 14)<\/p>\n<p>De fato, algumas caracter\u00edsticas podem passar despercebidas e at\u00e9 mesmo nos enganar, quando n\u00e3o atentos \u00e0 leitura da obra. Uma tra\u00e7o indiscutivelmente diferente e estranho ao nosso mundo atual (especialmente \u00e0 realidade monote\u00edsta) \u00e9 a presen\u00e7a marcante de tra\u00e7os \u201climitadores\u201d humanos nos deuses identificados na Teogonia. \u00d3dio, raiva, vingan\u00e7a, alegria, desejos sexuais, medo s\u00e3o apenas alguns exemplos dessa t\u00e3o antag\u00f4nica realidade a n\u00f3s.<\/p>\n<p>A presen\u00e7a do poeta (o aedo) tamb\u00e9m chama muito a aten\u00e7\u00e3o. A Teogonia possui em sua sua estrutura a grande marca da oralidade presente \u00e0quela \u00e9poca. Os Mitos n\u00e3o eram perpetuados pela escrita, mas sim, pela figura do aedo, que canta as hist\u00f3rias, sendo um verdadeiro \u201cinstrumento da verdade\u201d. Tamb\u00e9m na epopeia hesi\u00f3dica esse tra\u00e7o \u00e9 marcante, como se percebe pela presen\u00e7a das Musas, que s\u00e3o aquelas respons\u00e1veis por cantar a Hes\u00edodo a obra que ele escreveu. Aqui, mais uma vez observa-se outro tra\u00e7o marcante: a Teogonia n\u00e3o \u00e9 tida como uma obra propriamente humana, mas sim, de origem divina, uma vez que foi cantada por deusas, as Musas.<\/p>\n<p>O poeta, portanto, tem na palavra cantada o poder de ultrapassar e superar todos os bloqueios e dist\u00e2ncias espaciais e temporais, um poder que s\u00f3 lhe \u00e9 conferido pela Mem\u00f3ria <em>(Mnemosyne) <\/em>atrav\u00e9s das palavras cantadas (Musas). Fecundada por Zeus Pai, que no pante\u00e3o hesi\u00f3dico encarna a Justi\u00e7a e a Soberania supremas, a Mem\u00f3ria gera e d\u00e1 \u00e0 luz as Palavras Cantadas, que na l\u00edngua de Hes\u00edodo se dizem Musas. Portanto, o canto (as Musas) \u00e9 nascido da Mem\u00f3ria (num sentido psicol\u00f3gico, inclusive) e do mais alto exerc\u00edcio do Poder (num sentido pol\u00edtico, inclusive). (TORRANO, 1995, p. 11)<\/p>\n<p>Outro importante aspecto a ser destacado \u00e9 a pr\u00f3pria atemporalidade que pode passar despercebida em uma descuidada an\u00e1lise da Teogonia. Isso pode ser demonstrado com a \u201ccontradi\u00e7\u00e3o\u201d da presen\u00e7a de Zeus, tanto como ser criado, nascido de Terra e Cronos, como deus criador de todos os outros deuses. Al\u00e9m do mais, a obra n\u00e3o se restringe somente a apresentar a simples origem dos deuses (como seres mitol\u00f3gicos), mas de indicar tamb\u00e9m, a partir dessa descri\u00e7\u00e3o, a origem de fen\u00f4menos j\u00e1 identificados \u00e0 \u00e9poca.<\/p>\n<p>Na <em>Titanomaquia<\/em> e na doutrina das grandes dinastias dos deuses entra em a\u00e7\u00e3o a ideia teol\u00f3gica que Hes\u00edodo tem de arquitetar uma evolu\u00e7\u00e3o do mundo, cheia de sentido, na qual, al\u00e9m das for\u00e7as tel\u00faricas e atmosf\u00e9ricas, intervenham poderes de car\u00e1ter moral. (JAEGER, 1995, p. 94)<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>CONCLUS\u00c3O<\/strong><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Analisada fria e descuidadamente, a Teogonia pode parecer uma obra linear, folcl\u00f3rica e, de certa maneira, at\u00e9 mesmo previs\u00edvel. Tal an\u00e1lise faria que incorr\u00eassemos no perigoso erro de pensar ser a Teogonia uma obra t\u00e3o somente de um valor hist\u00f3rico, que apenas indicaria o modo de se relacionar com o Sagrado dos habitantes da Gr\u00e9cia \u00e0quela \u00e9poca.<\/p>\n<p>Uma breve e limitada an\u00e1lise da obra como essa j\u00e1 \u00e9 suficiente para perceber o grande passo dado por Hes\u00edodo, o de transcrever em prosa \u2013 e, assim, perpetuar a cultura vigente \u2013, toda a realidade em que ele estava inserido, ainda que isso tenha causado uma grande \u201climita\u00e7\u00e3o\u201d \u00e0 originalidade do Mito, caracter\u00edstica intr\u00ednseca \u00e0 tradi\u00e7\u00e3o oral. A narra\u00e7\u00e3o da cria\u00e7\u00e3o dos deuses e dos seres e fen\u00f4menos naturais e sociais marcou uma \u00e9poca, possibilitando que, a partir dela, e na mesma regi\u00e3o em que ela foi identificada, surgisse anos mais tarde, uma ci\u00eancia toda voltada para a busca do \u201csaber\u201d e da verdade, a Filosofia.<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>REFER\u00caNCIAS BIBLIOGR\u00c1FICAS<\/strong><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>BRAND\u00c3O, Junito de Souza. <em>Mitologia Grega<\/em>. v. 1. Petr\u00f3polis: Vozes, 1986.<\/p>\n<p>HES\u00cdODO. <em>Teogonia<\/em>: a origem dos deuses. Estudo e tradu\u00e7\u00e3o de Jaa Torrano. 3. ed. S\u00e3o Paulo: Iluminuras, 1995.<\/p>\n<p>JAEGER, Werner. <em>Paideia<\/em>: a forma\u00e7\u00e3o do homem grego. Tradu\u00e7\u00e3o de Arthur M. Parreira. S\u00e3o Paulo: Martins Fontes, 1995.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/wp-admin\/post-new.php#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">*<\/a> Bacharelando em Filosofia pela FAM.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Jos\u00e9 M\u00e1rio Santana Barbosa* Resumo: A an\u00e1lise da Teogonia de Hes\u00edodo \u00e9, sem d\u00favidas, desafiadora. Nesse breve estudo n\u00e3o se objetiva de maneira nenhuma atingir-se o inalcan\u00e7\u00e1vel sentido completo da epopeia de Hes\u00edodo. 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