{"id":2701,"date":"2018-06-11T12:56:06","date_gmt":"2018-06-11T15:56:06","guid":{"rendered":"http:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/?p=2701"},"modified":"2018-06-11T14:06:41","modified_gmt":"2018-06-11T17:06:41","slug":"a-dialetica-platonica-como-ponte-entre-o-mundo-sensivel-e-o-mundo-inteligivel","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/?p=2701","title":{"rendered":"A DIAL\u00c9TICA PLAT\u00d4NICA COMO PONTE ENTRE O MUNDO SENS\u00cdVEL E O MUNDO INTELIG\u00cdVEL"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\">Jos\u00e9 M\u00e1rio Santana Barbosa<a href=\"http:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/wp-admin\/post-new.php#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">*<\/a><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><strong>Resumo: <\/strong>Com esse estudo buscar-se-\u00e1 compreender melhor a import\u00e2ncia da dial\u00e9tica na metaf\u00edsica de Plat\u00e3o, uma vez que ela \u00e9 considerada, nas entrelinhas de seu pensamento, a ponte capaz de realizar a passagem do mundo sens\u00edvel para o mundo intelig\u00edvel. Para isso, ser\u00e1 utilizado, mais especificamente, o livro VII da obra <em>A Rep\u00fablica<\/em>, um dos mais conhecidos textos plat\u00f4nicos, que, dentre outros temas, aborda a import\u00e2ncia do di\u00e1logo na perspectiva desejada, a partir do \u201cmito da caverna\u201d, e na sua rela\u00e7\u00e3o com o processo da forma\u00e7\u00e3o de um bom governante para a cidade. Al\u00e9m disso, este trabalho buscar\u00e1 contrapor brevemente o pensamento de Plat\u00e3o ao de seu disc\u00edpulo Arist\u00f3teles, a fim de melhor discutir a real validade da dial\u00e9tica na metaf\u00edsica e na filosofia em geral, bem como enriquec\u00ea-lo com o coment\u00e1rio de alguns estudiosos do tema.<\/p>\n<p><strong>Palavras-chave: <\/strong>Dial\u00e9tica. Metaf\u00edsica. Ontologia. Ideias. Ess\u00eancia.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>INTRODU\u00c7\u00c3O<\/strong><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Se h\u00e1 pol\u00eamicas quanto \u00e0 demarca\u00e7\u00e3o do nascimento da metaf\u00edsica com Arist\u00f3teles ou em algum fil\u00f3sofo anterior a ele, \u00e9 ineg\u00e1vel que, j\u00e1 em Plat\u00e3o (e at\u00e9 mesmo nos pr\u00e9-socr\u00e1ticos), se questionava a respeito de conceitos importantes, ainda que bastante complexos, como verdade, realidade e ess\u00eancia. \u00c9 nessa perspectiva que surge, nos escritos plat\u00f4nicos, a defini\u00e7\u00e3o de \u201cdial\u00e9tica\u201d, como ponte entre os mundos sens\u00edvel e intelig\u00edvel, entre as sensa\u00e7\u00f5es e as ideias, capaz de conduzir o homem ao verdadeiro Bem.<\/p>\n<p>O \u201cmito da caverna\u201d, apresentado no livro VII da <em>Rep\u00fablica<\/em>, de Plat\u00e3o, \u00e9 uma interessante alegoria que mostra o dif\u00edcil caminho que o fil\u00f3sofo deve percorrer em sua constante busca por encontrar a verdade. Dialogando com Gl\u00e1ucon, S\u00f3crates apresenta importantes tra\u00e7os da compreens\u00e3o plat\u00f4nica de alguns temas, que seriam posteriormente muito estudados ao longo da hist\u00f3ria da filosofia, dentre os quais a dial\u00e9tica, objeto de nosso estudo.<\/p>\n<p>Assim, com esse estudo, pretende-se compreender melhor, a abordagem plat\u00f4nica de dial\u00e9tica, mais especificamente a partir do que \u00e9 tratado no texto citado. Acrescentaremos, tamb\u00e9m, uma breve atualiza\u00e7\u00e3o do tema na filosofia de Arist\u00f3teles, bem como coment\u00e1rios a ele de outros estudiosos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>1 O MITO DA CAVERNA E A DIAL\u00c9TICA<\/strong><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>O livro VII da <em>Rep\u00fablica<\/em> inicia com a apresenta\u00e7\u00e3o de uma realidade falsa, na qual estavam mergulhados alguns homens. Presos no fundo de uma caverna, impossibilitados de olhar para frente, apenas experimentavam as sombras que podiam ver na parede anterior a eles, derivadas da imagem do que se passava l\u00e1 fora, a partir da luz de um long\u00ednquo fogo. Achando que viam objetos reais, tinham uma realidade um tanto quanto ilus\u00f3ria, em vistas do que ocorria l\u00e1 fora, de fato. Aqueles homens, conversando uns com os outros, tentavam identificar, \u00e0s suas maneiras, o que acontecia, e n\u00e3o tinham qualquer motivo para acreditar que estavam errados.<\/p>\n<p>Tendo sido possibilitada, a um deles, a oportunidade de se libertar da caverna e entrar em contato com a realidade do que se passava no exterior, este que foi liberto sofre forte desilus\u00e3o e descren\u00e7a, ao escutar que aquilo no qual ele acreditava anteriormente n\u00e3o passava de uma ilus\u00e3o. \u201cQue julgas tu que ele diria, se algu\u00e9m lhe afirmasse que at\u00e9 ent\u00e3o ele s\u00f3 vira coisas v\u00e3s, ao passo que agora estava mais perto da realidade e via de verdade, voltado para objetos mais reais?\u201d (PLAT\u00c3O, <em>A Rep\u00fablica<\/em>, VII, 515d)<\/p>\n<p>Plat\u00e3o parece, aqui, apresentar categoricamente a figura do homem acomodado a sua ignor\u00e2ncia, que n\u00e3o busca de forma alguma acrescentar conhecimento a sua vida. Para este, as coisas s\u00e3o da maneira que a\u00ed se v\u00ea; n\u00e3o \u00e9 necess\u00e1rio ir al\u00e9m, buscar uma explica\u00e7\u00e3o para suas sensa\u00e7\u00f5es. Quando finalmente cai em si, esse homem pode buscar e encontrar o Bem desejado, a contempla\u00e7\u00e3o das coisas superiores e, assim, esclarecer-se.<\/p>\n<p>A \u201cascens\u00e3o\u201d dial\u00e9tica na <em>Rep\u00fablica<\/em> exprime-se pela met\u00e1fora do \u201ccaminho\u201d ou da \u201cvia para o alto\u201d. Essa met\u00e1fora exprime otimamente o \u201cfinalismo\u201d do Bem, que aparece como termo no qual os caminheiros chegam enfim a descansar [&#8230;]. A subida do prisioneiro equivale \u00e0 subida da alma (<em>t\u00eas psykh\u00eas \u00e1no\u00eeon<\/em>: 517b) \u00e0 regi\u00e3o intelig\u00edvel (<em>eis t\u00f2n noet\u00f3n t\u00f3pon<\/em>: ibid.). No pr\u00f3prio mundo intelig\u00edvel deve-se ir at\u00e9 o termo, no qual a Ideia do Bem, n\u00e3o sem dificuldade, aparece como causa de tudo (<em>em t\u00f4i gnost\u00f4i teleuta\u00edoi he agatho\u00fb ide\u00e1 ka\u00ec m\u00f3gis hor\u00e2sthai<\/em>: ibid.). (VAZ, 2012, p. 207)<\/p>\n<p>Diante da cegueira, era necess\u00e1rio, para aquele homem, um certo tempo, para que ele se acostumasse com o mundo novo em que vivia. Para quem estava acostumado a ver apenas sombras, o primeiro passo para ver o Sol, por exemplo, seria v\u00ea-lo nas coisas, atrav\u00e9s das sombras que j\u00e1 conhecia; ap\u00f3s certo tempo, poderia ver o Sol em si mesmo; e ap\u00f3s mais algum tempo, poderia entender a origem e a atua\u00e7\u00e3o do Sol, como importante astro e causador de fen\u00f4menos c\u00edclicos, as esta\u00e7\u00f5es etc.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s contemplar t\u00e3o grande beleza, o cora\u00e7\u00e3o daquele homem se encheria de regozijo com a mudan\u00e7a que realizara em sua vida, passando das trevas da falsidade, ao conhecimento da realidade em si (trazendo para linguagem metaf\u00edsica, da ess\u00eancia das coisas). J\u00e1 n\u00e3o mais desejaria voltar para a caverna onde estava e, se a isso fosse obrigado, sofreria grande incompreens\u00e3o daqueles que ali permaneceram, sendo taxado de louco e ignorante.<\/p>\n<p>Meu caro Gl\u00e1ucon, este quadro \u2013 prossegui eu \u2013 deve agora aplicar-se a tudo quanto dissemos anteriormente, comparando o mundo vis\u00edvel atrav\u00e9s dos olhos \u00e0 caverna da pris\u00e3o, e a luz da fogueira que l\u00e1 existia \u00e0 for\u00e7a do Sol. Quanto \u00e0 subida ao mundo superior e \u00e0 vis\u00e3o do que l\u00e1 se encontra, se a tomares como a ascens\u00e3o da alma ao mundo intelig\u00edvel, n\u00e3o iludir\u00e1s a minha expectativa, j\u00e1 que \u00e9 teu desejo conhec\u00ea-la. O Deus sabe se ela \u00e9 verdadeira. Pois, segundo entendo, no limite do cognosc\u00edvel \u00e9 que se avista, a custo, a ideia do Bem; e, uma vez avistada, compreende-se que ela \u00e9 para todos a causa de quanto h\u00e1 de justo e belo [&#8230;]. (PLAT\u00c3O, <em>A Rep\u00fablica<\/em>, VII, 517a-517b)<\/p>\n<p>Apresentando essa \u201cconclus\u00e3o\u201d ao mito da caverna, Plat\u00e3o reafirma basicamente a compreens\u00e3o que se criou de seu pensamento ao longo da filosofia. As realidades nas quais estamos inseridos nem de longe representam aquilo que realmente s\u00e3o as coisas. A contraposi\u00e7\u00e3o entre os mundos sens\u00edvel e das ideias torna-se, aqui, muito clara e, aquele que desejar contemplar, um dia, a realidade dos fatos que o cercam e dos quais ele v\u00ea apenas \u201csombras\u201d, deve buscar sair da caverna e acostumar-se com a contempla\u00e7\u00e3o das coisas superiores.<\/p>\n<p>A passagem do sens\u00edvel para o real \u00e9 apresentada, como se v\u00ea, a partir de um processo doloroso e conturbado. N\u00e3o h\u00e1 qualquer facilidade em abandonar aquilo que se tem como certo, para aderir a algo novo. Esse caminho, Plat\u00e3o apresentar\u00e1 adiante, s\u00f3 pode ser alcan\u00e7ado de uma maneira: pela dial\u00e9tica.<\/p>\n<p>\u00c9 interessante ressaltar, a partir do mito da caverna, a estreita liga\u00e7\u00e3o que Plat\u00e3o estabelece, desde j\u00e1, entre o esclarecimento a partir da busca do conhecimento real das coisas e a passagem do mundo sens\u00edvel para as ideias. Assim como a sa\u00edda da caverna \u00e9 possibilitada pela liberta\u00e7\u00e3o do \u201cconhecimento\u201d, isto \u00e9, pelo contato com uma realidade superior \u00e0 que se estava habituado, tamb\u00e9m s\u00f3 se conhecer\u00e1 a verdadeira ess\u00eancia das coisas investigadas por meio do confronto entre aquilo que duas ou mais pessoas t\u00eam como certo, suas opini\u00f5es, buscando um conceito \u00fanico e verdadeiro.<\/p>\n<p>A dial\u00e9tica, como j\u00e1 vimos, \u00e9 um di\u00e1logo ou uma conversa em que os interlocutores possuem opini\u00f5es opostas sobre alguma coisa e devem discutir ou argumentar de modo a passar das opini\u00f5es contr\u00e1rias \u00e0 mesma ideia ou ao mesmo pensamento sobre aquilo que conversam. Devem passar de imagens contradit\u00f3rias a conceitos id\u00eanticos para todos os pensantes. (CHAU\u00cd, 1995, p. 181)<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>2 A EDUCA\u00c7\u00c3O E A DIAL\u00c9TICA<\/strong><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Dando continuidade ao texto, Plat\u00e3o toca em um assunto de grande import\u00e2ncia para seu tempo, sobre o qual, ao longo de toda a sua obra, o autor dedicaria numerosas p\u00e1ginas. S\u00f3crates apresenta para Gl\u00e1ucon a relev\u00e2ncia da educa\u00e7\u00e3o no processo de forma\u00e7\u00e3o dos indiv\u00edduos de uma sociedade madura e busca discutir com este, qual \u00e9 a melhor maneira de se chegar \u00e0 forma\u00e7\u00e3o ideal de um governante, aquele que, por direito, comandaria a cidade.<\/p>\n<p>Para S\u00f3crates, educar n\u00e3o \u00e9 conceder algo novo a quem n\u00e3o tem, como a vista a um cego, mas, sim, desviar a alma daqueles a quem se deseja educar \u201cdas coisas que se alteram, at\u00e9 ser capaz de suportar a contempla\u00e7\u00e3o do Ser e da parte mais brilhante do Ser\u201d (PLAT\u00c3O, <em>A Rep\u00fablica<\/em>, VII, 518c). Todas as faculdades do corpo podem, em condi\u00e7\u00f5es normais, criar-se pelo h\u00e1bito ou pela pr\u00e1tica, exceto o pensamento, que \u00e9, aqui, apresentado com um car\u00e1ter divino, inerente \u00e0 ess\u00eancia do homem.<\/p>\n<p>\u00c9 essa ascens\u00e3o de pensamento, das coisas transit\u00f3rias \u00e0s eternas e imut\u00e1veis, que deve buscar cada pessoa e que, de maneira especial, distingue aqueles que devem administrar as cidades, cuidando dos demais. Ap\u00f3s contemplar de maneira mais \u201c\u00edntima\u201d a verdade imut\u00e1vel das coisas, o antigo prisioneiro \u00e9 chamado a voltar \u00e0 caverna, observar novamente as trevas nas quais est\u00e3o imersos seus amigos e lev\u00e1-los ao esclarecimento e \u00e0 justi\u00e7a.<\/p>\n<p>Deve, portanto, cada um por sua vez descer \u00e0 habita\u00e7\u00e3o comum dos outros e habituar-se a observar as trevas. Com efeito, uma vez habituados, sereis mil vezes melhores do que os que l\u00e1 est\u00e3o e reconhecereis cada imagem, o que ela \u00e9 e o que representa, devido a terdes contemplado a verdade relativa ao belo, ao justo e ao bom. E assim teremos uma cidade para n\u00f3s e para v\u00f3s, que \u00e9 uma realidade, e n\u00e3o um sonho [&#8230;]. (PLAT\u00c3O, <em>A Rep\u00fablica<\/em>, VII, 520c)<\/p>\n<p>Apresentando possibilidades para se encontrar o verdadeiro bom governante, Plat\u00e3o exp\u00f5e as figuras do fil\u00f3sofo e do guerreiro, como poss\u00edveis \u201ccandidatos\u201d. N\u00e3o h\u00e1 como separar o processo de educa\u00e7\u00e3o dos dois. Para S\u00f3crates, a boa educa\u00e7\u00e3o dos jovens deve partir primeiramente das artes do autocontrole e do aprendizado, dando grande destaque a algumas: guerra, geometria, astronomia e m\u00fasica. Mas nenhuma delas, sozinha ou at\u00e9 mesmo junto \u00e0s demais, \u00e9 o caminho seguro para se chegar a uma boa e satisfat\u00f3ria educa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Somente por meio da dial\u00e9tica, alcan\u00e7a-se o objetivo da contempla\u00e7\u00e3o das coisas eternas e imut\u00e1veis, saindo da transitoriedade do mundo sens\u00edvel e conhecendo, de fato, as ess\u00eancias das coisas. Todo o conhecimento das ci\u00eancias \u00e9 importante, mas converge para que o processo dial\u00e9tico seja poss\u00edvel, caminho \u00faltimo para se chegar \u00e0 meta buscada.<\/p>\n<p>O di\u00e1logo isto \u00e9, a dial\u00e9tica ou filosofia, \u00e9 o caminho que nos conduz das sensa\u00e7\u00f5es, das percep\u00e7\u00f5es, das imagens e das opini\u00f5es \u00e0 contempla\u00e7\u00e3o intelectual do ser real das coisas, \u00e0 ideia verdadeira, que existe em si mesma no mundo das puras ideias ou no mundo intelig\u00edvel. (CHAU\u00cd, 1995, p. 215)<\/p>\n<p>A capacidade de conduzir uma discuss\u00e3o, de apresentar argumentos e refutar os do outro, enfim, o desejo de purificar aquilo que pensamos at\u00e9 o ponto de chegarmos a uma ideia comum a todos (ess\u00eancia), essa \u00e9 a verdadeira sabedoria, capaz de tirar o homem das trevas da caverna em que ele vive, bem como libertar os seus que continuam ali aprisionados. Assim, o fil\u00f3sofo \u2013 como conhecedor da \u201crealidade verdadeira\u201d \u2013 \u00e9 apresentado, de certo modo, como o \u00fanico homem capaz de levar a cidade \u00e0 perfei\u00e7\u00e3o desejada, a partir da justi\u00e7a, primeiro objeto do di\u00e1logo (VAZ, 2012, p. 203).<\/p>\n<p>O bom dial\u00e9tico, para Plat\u00e3o, \u00e9 aquele que possui vis\u00e3o de conjunto, aquele que conhece as ci\u00eancias de maneira profunda, mas que vai mais al\u00e9m delas. Um correto aprendizado das ci\u00eancias citadas \u00e9 indispens\u00e1vel no caminho que culmina com a contempla\u00e7\u00e3o do Bem, a partir da dial\u00e9tica. Esse conhecimento exige tempo e, portanto, \u00e9 imposs\u00edvel que algu\u00e9m possa exercer bem o processo dial\u00e9tico sem estar na idade adulta, tendo assim passado pelos \u201cest\u00e1gios anteriores\u201d.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>2.1. O PROCESSO DO CONHECIMENTO PARA ARIST\u00d3TELES<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Segundo Berti (1998, p. 18), Arist\u00f3teles dedica grandes obras para, de maneira in\u00e9dita, discorrer sistematicamente a respeito da dial\u00e9tica: oito livros dos <em>T\u00f3picos<\/em> e o livro <em>Refuta\u00e7\u00f5es sof\u00edsticas <\/em>(tamb\u00e9m conhecido como IX livro dos <em>T\u00f3picos<\/em>).<\/p>\n<p>Arist\u00f3teles discorda de Plat\u00e3o n\u00e3o apenas no que se refere \u00e0 dualidade presente no pensamento deste, com rela\u00e7\u00e3o \u00e0s realidades sens\u00edvel e intelig\u00edvel. Para o Estagirita, a dial\u00e9tica seria um processo muito v\u00e1lido e bom, n\u00e3o para conhecer a verdadeira ess\u00eancia das coisas, mas para o exerc\u00edcio dos discursos e da persuas\u00e3o. O confronto de ideias contradit\u00f3rias, baseadas em opini\u00f5es, n\u00e3o garante, de maneira alguma, que o resultado desse embate seja uma defini\u00e7\u00e3o satisfat\u00f3ria e verdadeira do que se busca.<\/p>\n<p>Contudo, longe de considerar a dial\u00e9tica uma ci\u00eancia in\u00fatil, como poderia parecer, Arist\u00f3teles admite sua import\u00e2ncia, uma vez que tamb\u00e9m a partir da opini\u00e3o podemos chegar \u201cpr\u00f3ximo\u201d \u00e0s verdades que buscamos.<\/p>\n<p>Aqui, realmente, ele [Arist\u00f3teles] n\u00e3o diz que a opini\u00e3o, e portanto a dial\u00e9tica, seja o oposto da verdade, mas que, caso se queira fazer dial\u00e9tica, discutir com os outros, \u00e9 necess\u00e1rio preocupar-se n\u00e3o tanto com as premissas que sejam verdadeiras, quanto com que sejam opinadas, isto \u00e9, partilhadas, aceitas (o que n\u00e3o exclui, naturalmente, que possam ser verdadeiras). (BERTI, 1998, p. 27).<\/p>\n<p>Se Arist\u00f3teles chama a aten\u00e7\u00e3o para a realidade f\u00edsica das coisas, que \u00e9 o pr\u00f3prio ser delas (e n\u00e3o um \u201cpseudo-ser\u201d, imita\u00e7\u00e3o das ideias, como pensara Plat\u00e3o), ele sugere a l\u00f3gica como \u00fanico m\u00e9todo v\u00e1lido para se alcan\u00e7ar o conhecimento, de fato. A partir dela, sim, pode-se basear em elementos concretos e imut\u00e1veis, seguindo racioc\u00ednios coerentes, que resultam em conhecimentos universais e necess\u00e1rios daquilo que se busca.<\/p>\n<p>A l\u00f3gica aristot\u00e9lica oferece procedimentos que devem ser empregados naqueles racioc\u00ednios que se referem a todas as coisas das quais possamos ter um conhecimento universal e necess\u00e1rio, e seu ponto de partida n\u00e3o s\u00e3o opini\u00f5es contr\u00e1rias, mas princ\u00edpios, regras e leis necess\u00e1rias e universais do pensamento. (CHAU\u00cd, 1995, p. 182)<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>CONCLUS\u00c3O<\/strong><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 bela e ineg\u00e1vel a liga\u00e7\u00e3o estabelecida, na obra estudada, entre a dial\u00e9tica e a passagem do mundo sens\u00edvel para o mundo intelig\u00edvel. O homem que deseja sair da escura caverna da ignor\u00e2ncia na qual est\u00e1 aprisionado deve aceitar o questionamento dos seus, a dor e o sofrimento do contato com a \u201cluz do Sol\u201d que ele n\u00e3o conhecia em si e, al\u00e9m disso, a incompreens\u00e3o do outro, no momento de seu retorno para junto daqueles que ainda n\u00e3o se libertaram. Somente esse duro processo de ascens\u00e3o das coisas mut\u00e1veis para as eternas \u00e9 capaz de produzir, como resultado, um conhecimento verdadeiro dos conceitos procurados e, consequentemente, a alegria daquele que se sente liberto da cegueira em que estava mergulhado.<\/p>\n<p>Eis por que a dial\u00e9tica \u00e9 considerada, pelos comentadores de Plat\u00e3o, a ponte que o autor indica como a transi\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria entre o mundo sens\u00edvel e o mundo intelig\u00edvel, cuja contempla\u00e7\u00e3o \u00e9 t\u00e3o desejada pelo fil\u00f3sofo. Por meio do di\u00e1logo, isto \u00e9, da contraposi\u00e7\u00e3o de ideias e opini\u00f5es, pode-se chegar a um conceito verdadeiro e \u00fanico daquilo que se busca e, assim, \u00e0 contempla\u00e7\u00e3o do Bem verdadeiro.<\/p>\n<p>Antecedida pelas outras ci\u00eancias indispens\u00e1veis \u00e0 forma\u00e7\u00e3o de um bom cidad\u00e3o, a dial\u00e9tica \u00e9 ainda apresentada como condi\u00e7\u00e3o imprescind\u00edvel para o governante da cidade, uma vez que ele deve ser capaz n\u00e3o apenas de libertar-se da escurid\u00e3o em que vive, mas, mais do que isso, descer novamente \u00e0 caverna e ajudar os demais a encontrarem-se com a verdade.<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>REFER\u00caNCIAS BIBLIOGR\u00c1FICAS:<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>BERTI, Enrico. <em>As raz\u00f5es de Arist\u00f3teles.<\/em> Tradu\u00e7\u00e3o de Dion Davi Macedo. S\u00e3o Paulo: Loyola, 1998.<\/p>\n<p>CHAU\u00cd, Marilena. <em>Convite \u00e0 Filosofia<\/em>. 2. ed. S\u00e3o Paulo: \u00c1tica, 1995.<\/p>\n<p>PLAT\u00c3O. <em>A Rep\u00fablica. <\/em>Tradu\u00e7\u00e3o de Maria Helena da Rocha Pereira. 7. ed. Lsboa: Calouste Gulbenkian, 1949.<\/p>\n<p>VAZ, Henrique Cl\u00e1udio de Lima. <em>Contempla\u00e7\u00e3o e dial\u00e9tica nos di\u00e1logos plat\u00f4nicos.<\/em> Tradu\u00e7\u00e3o de Juvenal Savian Filho. S\u00e3o Paulo: Loyola, 2012.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/wp-admin\/post-new.php#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">*<\/a> Bacharelando em Filosofia pela FAM<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Jos\u00e9 M\u00e1rio Santana Barbosa* \u00a0Resumo: Com esse estudo buscar-se-\u00e1 compreender melhor a import\u00e2ncia da dial\u00e9tica na metaf\u00edsica de Plat\u00e3o, uma vez que ela \u00e9 considerada, nas entrelinhas de seu pensamento, a ponte capaz de realizar a passagem do mundo sens\u00edvel para o mundo intelig\u00edvel. 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