{"id":2707,"date":"2018-06-22T12:05:29","date_gmt":"2018-06-22T15:05:29","guid":{"rendered":"http:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/?p=2707"},"modified":"2018-10-17T10:50:45","modified_gmt":"2018-10-17T13:50:45","slug":"o-processo-dialogico-na-hermeneutica-de-gadamer-uma-ligacao-entre-a-tradicao-e-a-razao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/?p=2707","title":{"rendered":"O PROCESSO DIAL\u00d3GICO NA HERMEN\u00caUTICA DE GADAMER: uma liga\u00e7\u00e3o entre a tradi\u00e7\u00e3o e a raz\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\">Jos\u00e9 M\u00e1rio Santana Barbosa<a href=\"http:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/wp-admin\/post-new.php#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">*<\/a><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><strong>Resumo:<\/strong> Com esse presente estudo, pretende-se compreender melhor o processo dial\u00f3gico existente na hermen\u00eautica gadameriana, isto \u00e9, o constante di\u00e1logo existente entre tradi\u00e7\u00e3o e raz\u00e3o, mais especificamente no processo de interpreta\u00e7\u00e3o de textos. Para tanto, faz-se necess\u00e1ria a apresenta\u00e7\u00e3o, durante a exposi\u00e7\u00e3o desse problema, de uma vis\u00e3o geral de alguns outros importantes e \u201centrela\u00e7ados\u201d temas em sua obra, tais como <em>preconceito<\/em> e <em>historicidade<\/em>. Por fim, apresentar-se-\u00e1 uma breve an\u00e1lise do conceito <em>linguagem<\/em> e a import\u00e2ncia conferida a ela pelo autor, uma vez que, sem a mesma, seria imposs\u00edvel a ocorr\u00eancia de todo esse processo. O artigo se embasar\u00e1 especialmente na principal obra de Gadamer, \u201cVerdade e M\u00e9todo\u201d, da qual ser\u00e1 extra\u00edda a problem\u00e1tica citada, e ser\u00e1 acompanhado do coment\u00e1rio de estudiosos do tema, como J. Bleicher (de onde retirou-se o termo \u201cprocesso dial\u00f3gico\u201d) e outros.<\/p>\n<p><strong>Palavras-Chave: <\/strong>Hermen\u00eautica. Tradi\u00e7\u00e3o. Preconceito. Historicidade. Linguagem.<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>INTRODU\u00c7\u00c3O<\/strong><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Desde o s\u00e9culo passado a Hermen\u00eautica tem se consolidado como um dos mais importantes ramos da Filosofia, enquanto se ocupa basicamente com a interpreta\u00e7\u00e3o de textos. Nesse assunto, Hans-Georg Gadamer foi um dos maiores especialistas e seu pensamento tem grandes contributos a oferecer ao meio acad\u00eamico, ainda hoje.<\/p>\n<p>O objetivo primeiro deste trabalho \u00e9, portanto, apresentar em linhas gerais as bases desse pensamento, dando enfoque especial, primeiramente, nas origens do processo hermen\u00eautico e naquilo que ele significa. Ap\u00f3s, adentraremos com maior profundidade na an\u00e1lise de alguns dos mais importantes conceitos presentes na hermen\u00eautica gadameriana, quais sejam: preconceito, historicidade e linguagem, ressaltando a import\u00e2ncia desta para a exist\u00eancia de todo esse processo.<\/p>\n<p>Por fim, pretende-se explanar um pouco mais a respeito do processo dial\u00f3gico (segundo J. Bleicher) presente na obra de Gadamer, compreendendo um constante di\u00e1logo entre raz\u00e3o e tradi\u00e7\u00e3o, extremamente necess\u00e1rio para uma boa Hermen\u00eautica, evitando toda esp\u00e9cie de \u201csuperestima\u00e7\u00e3o\u201d de um aspecto em detrimento do outro.<\/p>\n<p>Al\u00e9m do estudo da obra principal de Gadamer, <em>Verdade e M\u00e9todo<\/em>, compararemos o que ali for encontrado com textos de comentadores pertinentes do autor e do tema buscado.<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>1 GADAMER E O PROCESSO HERMEN\u00caUTICO<\/strong><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>A hermen\u00eautica gadameriana dialoga em grande parte com a metaf\u00edsica de Heidegger. Se no pensamento deste, contudo, o desenvolvimento da \u201cpr\u00e9-estrutura da compreens\u00e3o\u201d consiste em um movimento circular de voltar \u00e0s coisas mesmas, eliminando-se todo precipitado hist\u00f3rico existente na compreens\u00e3o do <em>ser<\/em>, a proposta de Gadamer, ainda que mantenha esse mesmo prop\u00f3sito, vai um pouco al\u00e9m, \u00e0 medida em que libera seu pensamento das quest\u00f5es e condi\u00e7\u00f5es puramente ontol\u00f3gicas para fazer uma hermen\u00eautica que n\u00e3o apenas trata da arte, mas de todas as ci\u00eancias do esp\u00edrito.<\/p>\n<p>Gadamer n\u00e3o busca uma facilita\u00e7\u00e3o da compreens\u00e3o em si, mas, ao contr\u00e1rio, uma clarifica\u00e7\u00e3o da interpreta\u00e7\u00e3o que possibilita ao homem encontrar com as coisas e, s\u00f3 ent\u00e3o, compreend\u00ea-las. \u201cA purifica\u00e7\u00e3o\u201d de ideias incorretas assume, assim, um papel central na hermen\u00eautica gadameriana, que inicia com a elabora\u00e7\u00e3o de bons projetos que ser\u00e3o percorridos pelo pesquisador.<\/p>\n<p>Esse deixar-se determinar assim pela pr\u00f3pria coisa, evidentemente, n\u00e3o \u00e9 para o int\u00e9rprete uma decis\u00e3o \u201cheroica\u201d, tomada de uma vez por todas, mas verdadeiramente \u201ca tarefa primeira, constante e \u00faltima\u201d. Pois o que importa \u00e9 manter a vista atenta \u00e0 coisa, atrav\u00e9s de todos os desvios a que seve constantemente submetido o int\u00e9rprete em virtude das ideias que lhe ocorram. [&#8230;] Justamente todo esse constante reprojetar, que perfaz o movimento de sentido do compreender e do interpretar, \u00e9 o que constitui o processo que Heidegger descreve. Quem procura compreender est\u00e1 exposto a erros de opini\u00f5es pr\u00e9vias, as quais n\u00e3o se confirmam nas pr\u00f3prias coisas. (GADAMER, 1998, p. 402)<\/p>\n<p>Na vis\u00e3o de Gadamer, o processo de compreens\u00e3o \u2013 de modo especial na an\u00e1lise de textos, objeto central de seu estudo \u2013 abrange sempre dois grandes movimentos: a elabora\u00e7\u00e3o de uma opini\u00e3o pr\u00e9via (o que, mais tarde, o autor denominar\u00e1 <em>preconceito<\/em>) e a an\u00e1lise leg\u00edtima dos textos. Nesse processo, cabe ao pesquisador (em grande parte o fil\u00f3logo) n\u00e3o inserir seus pr\u00f3prios h\u00e1bitos lingu\u00edsticos na pesquisa, como nas sempre problem\u00e1ticas tradu\u00e7\u00f5es do texto original para outras l\u00ednguas estrangeiras. O autor deve sempre se deixar guiar pela linguagem da \u00e9poca do texto, bem como analisar o contexto do autor, ainda que isso seja imposs\u00edvel em sua totalidade \u2013 uma vez que, para Gadamer, h\u00e1 um inconsciente de nossos h\u00e1bitos que tendem a inserir nossos \u201cv\u00edcios lingu\u00edsticos\u201d em nossas compreens\u00f5es.<\/p>\n<p>O primeiro passo, pois, do processo hermen\u00eautico em si \u00e9 o choque do pesquisador com o texto. Isso acontece de modo an\u00e1logo ao aprendizado de uma l\u00edngua com a qual se tem pouca proximidade: \u00e0 medida em que cresce a pr\u00e1tica, aumenta tamb\u00e9m a fluidez do texto. Antes de tudo, entretanto, h\u00e1 a inevit\u00e1vel forma\u00e7\u00e3o de uma opini\u00e3o pr\u00e9via com rela\u00e7\u00e3o ao que o texto ir\u00e1 apresentar, bem como uma abertura do pesquisador \u00e0 proposta que o outro lhe apresentar\u00e1 em seu pensamento. Esse choque entre os sujeitos pesquisador e pesquisado \u00e9 o in\u00edcio e possibilita todo o processo de compreens\u00e3o.<\/p>\n<p><em>A tarefa hermen\u00eautica se converte por si mesma num questionamento pautado na coisa<\/em>, e j\u00e1 se encontra sempre determinada por este. Com isso o empreendimento hermen\u00eautico ganha um solo firme sob seus p\u00e9s. Aquele que quer compreender n\u00e3o pode se entregar, j\u00e1 desde o in\u00edcio, \u00e0 casualidade de suas pr\u00f3prias opini\u00f5es pr\u00e9vias e ignorar o mais obstinada e consequentemente poss\u00edvel a opini\u00e3o do texto \u2013 at\u00e9 que este, finalmente, j\u00e1 n\u00e3o possa ser ouvido e perca sua suposta compreens\u00e3o. Quem quer compreender um texto, em princ\u00edpio, [deve estar] disposto a deixar que ele diga alguma coisa por si. (GADAMER, 1998, p. 405)<\/p>\n<p>O estudo de Heidegger com rela\u00e7\u00e3o ao problema do <em>ser<\/em> \u00e9 o grande exemplo de um bom processo hermen\u00eautico, \u00e0 medida em que, amparado em uma no\u00e7\u00e3o pr\u00e9via daquilo que desejaria trabalhar, o autor analisa minuciosamente aquilo que os pensadores anteriores a ele falaram a fim de dialogar com eles e, assim, construir algum resultado que seja de algum modo mais seguro.<\/p>\n<p>Nesse sentido, a hermen\u00eautica gira mais em torno de perguntas do que propriamente de respostas. O int\u00e9rprete antes mesmo de entrar em contato com o texto j\u00e1 faz perguntas sobre ele, e muito mais durante o tempo em que o analisa. Esse cont\u00ednuo questionamento possibilita a chegada a uma poss\u00edvel interpreta\u00e7\u00e3o e, posteriormente, a respostas desejadas.<\/p>\n<p>A principal tarefa do int\u00e9rprete \u00e9 descobrir a pergunta a que o texto vem dar resposta; compreender um texto \u00e9 compreender a pergunta. Simultaneamente, um texto s\u00f3 se torna um objeto da interpreta\u00e7\u00e3o se confrontar o int\u00e9rprete com uma pergunta. Nesta l\u00f3gica de pergunta e resposta, um texto acaba por ser um acontecimento ao ser atualizado na compreens\u00e3o, que representa uma possibilidade hist\u00f3rica. (BLEICHER, 1992, p. 161)<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>1.1. O PRECONCEITO<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Como j\u00e1 pode ser percebido, o estudo do termo <em>preconceito<\/em> tem grande import\u00e2ncia no processo da hermen\u00eautica e, especialmente, na compreens\u00e3o de Gadamer. Para o autor, esse ju\u00edzo pr\u00e9vio que todo homem faz de tudo aquilo que ser\u00e1 submetido \u00e0 sua an\u00e1lise \u00e9 extremamente importante, \u00e0 medida em que \u00e9 o pr\u00f3prio \u201cponto de partida do problema hermen\u00eautico\u201d (GADAMER, 1998, p. 416).<\/p>\n<p>Contudo, desde o in\u00edcio da modernidade, com o <em>Aufkl\u00e4rung<\/em>, tem prevalecido na considera\u00e7\u00e3o da palavra preconceito um sentido pejorativo do mesmo. O bom cientista deve buscar livrar-se a todo custo dele para, assim, conseguir um resultado que seja verdadeiramente confi\u00e1vel e mais pr\u00f3ximo do verdadeiro. Desde Descartes, a partir da busca pela elimina\u00e7\u00e3o de toda d\u00favida, em um m\u00e9todo coerente e confi\u00e1vel, tudo o que o int\u00e9rprete oferece ao di\u00e1logo com o objeto de pesquisa deve ser reduzido, a tal ponto que apenas o pr\u00f3prio texto seja analisado em sua plenitude.<\/p>\n<p>Segundo Gadamer, nessa \u201cdespotencializa\u00e7\u00e3o da tradi\u00e7\u00e3o\u201d, claramente motivada por pretens\u00f5es contr\u00e1rias \u00e0 religi\u00e3o (eliminando, por exemplo, toda a tradi\u00e7\u00e3o da compreens\u00e3o das Sagradas Escrituras, a fim de analis\u00e1-las apenas de modo cient\u00edfico), o processo de conhecimento sofre uma grande perda, uma vez que os preconceitos fornecem, sim, grande parte das vezes, um apoio a mais ao pesquisador, a fim de iniciar sua pesquisa. Passado e presente, na hermen\u00eautica, formam como que um todo harm\u00f4nico que possibilita o processo de interpreta\u00e7\u00e3o e conhecimento.<\/p>\n<p>Enquanto o historicismo insistiu num distanciamento entre o presente e o passado, que resultou no postulado metodol\u00f3gico do reconhecimento de acontecimentos passados atrav\u00e9s de conceitos utilizados na altura, a fim de se chegar a resultados objetivos, a filosofia hermen\u00eautica considera cont\u00ednua esta \u201cdist\u00e2ncia\u201d, i.e., ligada pela tradi\u00e7\u00e3o que proporciona ao int\u00e9rprete o potencial cognitivo. (BLEICHER, 1992, p. 156)<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>2 O PROCESSO DIAL\u00d3GICO: RAZ\u00c3O E TRADI\u00c7\u00c3O<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Portanto, como visto, Gadamer valoriza grandemente n\u00e3o apenas o processo presente de pesquisa, isto \u00e9, o contato em si do pesquisador com o objeto de pesquisa. Antes de tudo, o sujeito cria quest\u00f5es em seu interior que buscar\u00e1 esclarecer ao longo da pesquisa e carrega consigo grande influ\u00eancia daquilo que a tradi\u00e7\u00e3o, um tanto quanto inconsciente, dita em seu meio social. H\u00e1, assim, um reconhecimento de uma import\u00e2ncia crucial do antigo, dando-lhe seu devido lugar retirado pelo pensamento posterior ao <em>Aufkl\u00e4rung<\/em>. A an\u00e1lise da tradi\u00e7\u00e3o deve ser respeitosa, sobretudo, com a intencionalidade do autor do texto a ser interpretado, evitando conceder certas caracter\u00edsticas cientificistas, a um texto que n\u00e3o o \u00e9, em si.<\/p>\n<p>\u00c9 a antiga pol\u00eamica entre o poeta e o fil\u00f3sofo, que entra agora no seu est\u00e1gio moderno de f\u00e9 na ci\u00eancia. Agora j\u00e1 n\u00e3o se diz que os poetas mentem muito, pois que eles n\u00e3o t\u00eam nada de verdadeiro para dizer, j\u00e1 que somente produzem um efeito est\u00e9tico e s\u00f3 pretendem estimular a atividade da fantasia e o sentimento vital do ouvinte ou do leitor atrav\u00e9s das cria\u00e7\u00f5es de sua fantasia. (GADAMER, 1998, p. 413)<\/p>\n<p>A cr\u00edtica ao historicismo proposto pelo Iluminismo tem um embasamento bastante simples e do qual n\u00e3o se pode fugir: at\u00e9 mesmo os pensadores contempor\u00e2neos est\u00e3o imersos em um ambiente hist\u00f3rico que deveria, se assim o fosse, restringir a amplitude das interpreta\u00e7\u00f5es que eles oferecem. Os pr\u00f3prios fil\u00f3sofos modernos, por exemplo, quando s\u00e3o estudados j\u00e1 n\u00e3o podem mais ter ignoradas suas condi\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas, sem um grande preju\u00edzo em sua compreens\u00e3o.<\/p>\n<p>O prop\u00f3sito de Gadamer \u00e9 claro: n\u00e3o se trata de recuperar um argumento reacion\u00e1rio, e, assim, deitar fora a ci\u00eancia, mas, por outro lado, mostrar que a funda\u00e7\u00e3o cient\u00edfica n\u00e3o \u00e9 um movimento oposto ao da tradi\u00e7\u00e3o. O que precisa ser evitado \u00e9 a dicotomia entre experi\u00eancia e a teoria, entre objetos e sujeito, entre a fonte de engano e o instrumento produtor de certezas ou, se for o caso, destruidor tenaz das mesmas. (CALDAS, 2010, p. 5)<\/p>\n<p>\u00c9 no pr\u00f3prio indiv\u00edduo que se d\u00e1 essa mescla entre aquilo que ele traz, inconscientemente ou n\u00e3o, e aquilo que o texto e a tradi\u00e7\u00e3o de interpreta\u00e7\u00e3o e do contexto do mesmo trazem consigo. Aqui \u00e9 muito bela a volta da Hermen\u00eautica \u00e0s suas origens, na significa\u00e7\u00e3o do deus Hermes, filho de Zeus e da ninfa atl\u00e2ntica Maya. Assumindo tanto caracter\u00edsticas divinas quanto humanas, a Hermes \u00e9 dada a possibilidade de ser essa ponte de di\u00e1logo entre as duas distintas realidades:<\/p>\n<p>Hermes ir\u00e1 assumir a fun\u00e7\u00e3o de mensageiro, ap\u00f3s participar dos segredos dos deuses. Ao mesmo tempo, Hermes tamb\u00e9m atende aos instintos, apetites, desejos irracionais. Em sua forma de atua\u00e7\u00e3o, transgride e obedece, \u00e9 imprevis\u00edvel, diurno e noturno, divino e humano. Por isso \u00e9-lhe atribu\u00edda a tarefa de mediador, abre caminhos na medida, assumindo a condi\u00e7\u00e3o de explorador do desconhecido, na proposi\u00e7\u00e3o em que consegue desalienar, dar uma ordem ao ca\u00f3tico. H\u00e1, portanto, uma duplicidade em Hermes, enquanto deus do deslocamento e dos imprevistos e deus da palavra subjacente. D\u00e1-se algo de desocultamento e de ocultamento, pelas vias da linguagem, em torno da fun\u00e7\u00e3o que Hermes exerce. (SCHUCK, 2007, p. 43)<\/p>\n<p>O indiv\u00edduo, assim, \u00e9 um ser n\u00e3o apenas de racioc\u00ednio pura e friamente falando, mas tamb\u00e9m de percep\u00e7\u00e3o do mundo que o cerca e, acima de tudo, de opini\u00e3o com rela\u00e7\u00e3o a tudo isso. \u201c<em>Por isso os preconceitos de um indiv\u00edduo s\u00e3o, muito mais que seus ju\u00edzos, a realidade hist\u00f3rica de seu ser<\/em>\u201d (GADAMER, 1998, p. 416). O apre\u00e7o pela raz\u00e3o \u00e9 um grande contributo trazido para a sociedade a partir do <em>Aufkl\u00e4rung<\/em>, fornecendo possibilidades ao homem de libera\u00e7\u00e3o de dogmatismos e purifica\u00e7\u00e3o de conhecimentos. Mas tamb\u00e9m a tradi\u00e7\u00e3o tem a sua import\u00e2ncia, na medida em que \u00e9 o \u201cfundamento\u201d da validez das atitudes sociais extremamente necess\u00e1rias para um bom processo de interpreta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, a cr\u00edtica \u00e0 autoridade tanto disseminada pela modernidade tem tamb\u00e9m sua import\u00e2ncia, na busca por um conceito final que valha sobre os anteriores. Mas \u00e9 ineg\u00e1vel a import\u00e2ncia da tradi\u00e7\u00e3o e a autoridade n\u00e3o pode ser rejeitada, uma vez que ela funda-se em si mesma, no pr\u00f3prio conhecimento autoral e popular que aos poucos vai se consolidando no pensamento cient\u00edfico.<\/p>\n<p>Portanto, um bom professor tem autoridade, n\u00e3o por m\u00e9rito da san\u00e7\u00e3o da puni\u00e7\u00e3o \u2013 sempre dispon\u00edvel, se necess\u00e1rio \u2013, mas por outras raz\u00f5es. Gadamer alega que a autoridade genu\u00edna do professor, ou qualquer outra pessoa em posse da autoridade real, n\u00e3o acontece por m\u00e9rito do investimento do poder social, mas sim da habilidade de levantar quest\u00f5es e fazer com que certos t\u00f3picos pare\u00e7am cruciais, importantes e merecedores de considera\u00e7\u00e3o (porque eles nos levam ao \u00e2mago daquilo que n\u00f3s somos, dentro dos nossos limitados horizontes culturais). (LAWN, 2007, p. 56)<\/p>\n<p>Assim, na hermen\u00eautica proposta por Gadamer deve-se encontrar \u201c<em>a resolu\u00e7\u00e3o da oposi\u00e7\u00e3o abstrata entre tradi\u00e7\u00e3o e investiga\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica, entre hist\u00f3ria e conhecimento dela mesma<\/em>\u201d (GADAMER, 1998, p. 424), num claro diagn\u00f3stico do que naturalmente j\u00e1 acontece a n\u00edvel cient\u00edfico a s\u00e9culos. Tanto as ci\u00eancias da natureza, como as do esp\u00edrito e mesmo a matem\u00e1tica, partem sempre de um estado atual de conhecimento \u2013 e o valorizam, pelo esfor\u00e7o hist\u00f3rico anterior para se chegar at\u00e9 ele \u2013 e buscam, ent\u00e3o, acrescentar algo de novo a ele.<\/p>\n<p>Eis, assim, o \u201cprocesso dial\u00f3gico\u201d da compreens\u00e3o presente em Gadamer e proposto por J. Bleicher. Mais do que a pura dial\u00e9tica existente entre estados de conhecimento que s\u00e3o extremamente dependentes entre si para sua exist\u00eancia, ele parte tamb\u00e9m de um estado atual de conhecimento, de um sujeito racional que percepciona tudo isso e busca, assim, chegar \u00e0 interpreta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A experi\u00eancia hermen\u00eautica n\u00e3o \u00e9 nem monol\u00f3gica, como a ci\u00eancia, nem dial\u00e9tica, como a hist\u00f3ria universal de Hegel. Como Gadamer a explica atrav\u00e9s do modelo do discurso\u00a0 humano, referi-la-ei como \u201cdial\u00f3gica\u201d e n\u00e3o como \u201cdial\u00e9tica\u201d. (BLEICHER, 1992, p. 160).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>3 <strong>A LINGUAGEM<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>N\u00e3o se pode tratar da hermen\u00eautica de Gadamer e deixar de citar a import\u00e2ncia que o autor confere ao problema da linguagem sem que o trabalho perca alguma confiabilidade. De fato, para o autor, todo o processo hermen\u00eautico \u00e9, no fundo, um \u201cprocesso lingu\u00edstico\u201d e a linguagem \u00e9 o meio necess\u00e1rio para a transmiss\u00e3o de alguma verdade, na elabora\u00e7\u00e3o de pensamento daquilo que \u201cdesde este momento \u00e9\u201d:<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 em v\u00e3o que a verdadeira problem\u00e1tica da compreens\u00e3o e a tentativa de domin\u00e1-la pela arte \u2013 o tema da hermen\u00eautica \u2013 pertence tradicionalmente ao \u00e2mbito da gram\u00e1tica e da ret\u00f3rica. A linguagem \u00e9 o meio em que se realiza o acordo dos interlocutores e o entendimento sobre a coisa. (GADAMER, 1998, p. 559-560)<\/p>\n<p>Usar da linguagem \u00e9, nesse processo hermen\u00eautico, colocar-se de acordo com o outro pesquisado, reproduzir o seu contexto, participando um pouco de seu meio, a fim de poder interpret\u00e1-lo com maior abrang\u00eancia. Isso \u00e9 claramente demonstrado pelo autor pelo problema presente nos processos de tradu\u00e7\u00e3o entre l\u00ednguas muito diferenciadas entre si. Nele, busca-se manter o sentido da palavra acima de tudo, ainda que, para isso, deva-se mudar radicalmente em alguns casos o seu arranjo morfol\u00f3gico. Dessa forma fica claro porque Gadamer tem uma posi\u00e7\u00e3o t\u00e3o contr\u00e1ria \u00e0 interpreta\u00e7\u00e3o de textos usando-se como base l\u00ednguas que n\u00e3o sejam a original do mesmo.<\/p>\n<p>O tradutor, nesse sentido, \u00e9 o int\u00e9rprete da l\u00edngua, aquele que ir\u00e1 percorrer as dist\u00e2ncias existentes entre o texto original e o modo lingu\u00edstico atual, devendo ser algumas vezes, inclusive, at\u00e9 mais fluente do que aquele. Uma certa dist\u00e2ncia entre os dois \u201cpolos\u201d \u00e9 extremamente did\u00e1tica e necess\u00e1ria, nesse sentido.<\/p>\n<p>Aproximando essa discuss\u00e3o [a contraposi\u00e7\u00e3o entre tradi\u00e7\u00e3o e autoridade] da quest\u00e3o da tradu\u00e7\u00e3o de textos, percebemos que \u00e9 preciso uma esp\u00e9cie de condi\u00e7\u00e3o, a partir da qual a pr\u00f3pria tradu\u00e7\u00e3o faz sentido. [&#8230;] A lira feita por Hermes emite sons que resultam em for\u00e7as capazes de transformar a ordem estabelecida pelos deuses, gerando o movimento nas coisas. Hermes age com ast\u00facia, fazendo a media\u00e7\u00e3o e, com isso, a garantia da instaura\u00e7\u00e3o de sentido. Isso revela que h\u00e1, portanto, a necessidade em conseguir certa dist\u00e2ncia entre dois lados, a saber, a autoridade e a tradi\u00e7\u00e3o, que marcam como pressuposto a media\u00e7\u00e3o que se deve buscar. (SHUCK, 2007, p. 126)<\/p>\n<p>O caminho que possibilita essa compreens\u00e3o \u00e9, mais uma vez, dial\u00f3gico, parafraseando a defini\u00e7\u00e3o de Bleicher. Somente uma uni\u00e3o entre a raz\u00e3o (o int\u00e9rprete) e a tradi\u00e7\u00e3o (o texto e tudo o que ele traz consigo) pode dar uma interpreta\u00e7\u00e3o segura e confi\u00e1vel ao pesquisador, chegando o mais pr\u00f3ximo poss\u00edvel da verdade. A linguagem \u00e9, mais do que nunca, o <em>medium<\/em> desse acordo:<\/p>\n<p><em>Pelo contr\u00e1rio, a linguagem \u00e9 o medium universal em que se realiza a pr\u00f3pria compreens\u00e3o. A forma de realiza\u00e7\u00e3o da compreens\u00e3o \u00e9 a interpreta\u00e7\u00e3o.<\/em> [&#8230;] Todo compreender \u00e9 interpretar, e todo interpretar se desenvolve no medium de uma linguagem que pretende deixar falar o objeto e \u00e9, ao mesmo tempo, a linguagem pr\u00f3pria de seu int\u00e9rprete. (GADAMER, 1998, p. 566-567)<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>CONCLUS\u00c3O<\/strong><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Poucos estudos s\u00e3o t\u00e3o embasados em fontes claras e seguras como o que foi visto na obra <em>Verdade e M\u00e9todo<\/em>, de Gadamer. O autor mostra com muita clareza e precis\u00e3o o cerne da Hermen\u00eautica, enquanto ci\u00eancia respons\u00e1vel pela interpreta\u00e7\u00e3o de pensamentos, muito especialmente ligada \u00e0 interpreta\u00e7\u00e3o de textos. Certamente, n\u00e3o apenas a Filosofia, mas todas as outras ci\u00eancias muito tem a aproveitar de seu pensamento.<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 como se desvencilhar do di\u00e1logo entre tradi\u00e7\u00e3o e raz\u00e3o. No \u00e2mbito da interpreta\u00e7\u00e3o, tanto \u00e9 importante aquilo que o autor traz consigo, seus conhecimentos e capacidades de avan\u00e7ar diante da pesquisa, quanto aquilo que \u00e9 presente no meio em que ele vive, as an\u00e1lises anteriores \u00e0 dele e at\u00e9 mesmo os preconceitos que ele mesmo faz da obra. A posi\u00e7\u00e3o de Gadamer \u00e9 extremamente conciliativa e muito tem a ensinar a uma sociedade que cada vez menos reconhece o esfor\u00e7o do outro, especialmente quando ele est\u00e1 na \u201cprimazia\u201d do conhecimento de alguma mat\u00e9ria.<\/p>\n<p>Eis o processo dial\u00f3gico na Hermen\u00eautica gadameriana: n\u00e3o apenas uma dial\u00e9tica entre raz\u00e3o e tradi\u00e7\u00e3o, na qual as duas apenas buscam chegar a um ponto em comum (como proporia a dial\u00e9tica plat\u00f4nica), nem mesmo uma ci\u00eancia monol\u00f3gica, que avan\u00e7aria propondo conceitos e objetivos fixos. A partir do processo de linguagem, a Hermen\u00eautica abrange as duas caracter\u00edsticas e vai al\u00e9m delas, dialogando atrav\u00e9s dos tempos, em busca de uma interpreta\u00e7\u00e3o o mais pr\u00f3ximo poss\u00edvel da verdade.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>REFER\u00caNCIAS BIBLIOGR\u00c1FICAS:<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>BLEICHER, Josef. <em>Hermen\u00eautica contempor\u00e2nea<\/em>. Tradu\u00e7\u00e3o de Maria Georgina Segurado. Lisboa: Edi\u00e7\u00f5es 70, 1992.<\/p>\n<p>CALDAS, Pedro Spinola Pereira. Hans-Georg Gadamer e a Teoria da Hist\u00f3ria. <em>Dimens\u00f5es<\/em>, Rio de Janeiro, v. 24, p. 55-74, 2010. Dispon\u00edvel em: &lt;www.periodicos.ufes.br\/dimensoes\/article\/download\/2524\/2020&gt;. Acesso em: 23 ago. 2017.<\/p>\n<p>GADAMER, Hans-Georg. <em>Verdade e M\u00e9todo<\/em>: tra\u00e7os fundamentais de uma hermen\u00eautica filos\u00f3fica. Tradu\u00e7\u00e3o de Fl\u00e1vio Paulo Meurer. 2. ed. Petr\u00f3polis: Vozes, 1998.<\/p>\n<p>LAWN, Chris. <em>Compreender Gadamer<\/em>. Tradu\u00e7\u00e3o de H\u00e9lio Magri Filho. Petr\u00f3polis: Vozes, 2007.<\/p>\n<p>SCHUCK, Rog\u00e9rio Jos\u00e9. <em>Atrav\u00e9s da compreens\u00e3o da historicidade para uma historicidade da compreens\u00e3o como apropria\u00e7\u00e3o da tradi\u00e7\u00e3o.<\/em> 2007. 193 f. Disserta\u00e7\u00e3o (Doutorado em Filosofia) \u2013 Pontif\u00edcia Universidade Cat\u00f3lica do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 2007. Dispon\u00edvel em: &lt;http:\/\/tede2.pucrs.br\/tede2\/bitstream\/tede\/2976\/1\/397345.pdf&gt;. Acesso em: 23 ago. 2017.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/wp-admin\/post-new.php#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">*<\/a> Bacharelando em Filosofia pela FDLM<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Jos\u00e9 M\u00e1rio Santana Barbosa* \u00a0Resumo: Com esse presente estudo, pretende-se compreender melhor o processo dial\u00f3gico existente na hermen\u00eautica gadameriana, isto \u00e9, o constante di\u00e1logo existente entre tradi\u00e7\u00e3o e raz\u00e3o, mais especificamente no processo de interpreta\u00e7\u00e3o de textos. Para tanto, faz-se necess\u00e1ria a apresenta\u00e7\u00e3o, durante a exposi\u00e7\u00e3o desse problema, de uma vis\u00e3o geral de alguns outros &hellip; <\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_mi_skip_tracking":false,"footnotes":""},"categories":[46,542],"tags":[],"class_list":{"0":"entry","1":"post","2":"publish","3":"author-admin","4":"post-2707","6":"format-standard","7":"category-gadamer","8":"category-jose-mario"},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2707","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=2707"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2707\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2721,"href":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2707\/revisions\/2721"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=2707"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=2707"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=2707"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}