{"id":2717,"date":"2018-10-17T10:46:00","date_gmt":"2018-10-17T13:46:00","guid":{"rendered":"http:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/?p=2717"},"modified":"2018-10-17T10:46:00","modified_gmt":"2018-10-17T13:46:00","slug":"sobre-as-provas-da-existencia-de-deus-na-obra-meditacoes-metafisicas-de-rene-descartes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/?p=2717","title":{"rendered":"SOBRE AS PROVAS DA EXIST\u00caNCIA DE DEUS NA OBRA \u201cMEDITA\u00c7\u00d5ES METAF\u00cdSICAS\u201d DE REN\u00c9 DESCARTES"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\">Fabr\u00edcio Lopes Fernandes<a href=\"http:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/wp-admin\/post-new.php#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">*<\/a><\/p>\n<p><strong>Resumo:<\/strong> Esta pesquisa visa refletir sobre um autor de suma import\u00e2ncia para o in\u00edcio e processo de debates filos\u00f3ficos do s\u00e9culo XVII: Ren\u00e9 Descartes. Em uma de suas principais obras, as <em>Medita\u00e7\u00f5es<\/em>, Descartes, depois de afirmar o <em>cogito cartesiano<\/em>, fala de suas premissas para provar a exist\u00eancia de Deus. Refletir-se-\u00e1 sobre o que ele prop\u00f5e, ressaltando tamb\u00e9m a import\u00e2ncia desse pensamento que inaugurou um novo estilo de estudo do metaf\u00edsico. Aqui, ser\u00e1 abordada esta quest\u00e3o filos\u00f3fica que perpassou as gera\u00e7\u00f5es da filosofia: o discurso sobre Deus e sobre a sua exist\u00eancia.<\/p>\n<p><strong>Palavras-chave:<\/strong> Deus. Descartes. Medita\u00e7\u00f5es. Ideia. Infinito<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>CONSIDERA\u00c7\u00d5ES INICIAIS<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Para entendermos um pouco mais sobre o discurso acerca de Deus elaborado por Descartes em sua obra <em>Medita\u00e7\u00f5es<\/em>, tentaremos de forma breve fazer seu percurso com rela\u00e7\u00e3o ao m\u00e9todo que o leva \u00e0 certeza do <em>cogito<\/em>. Em seguida, pretenderemos dizer um pouco de suas primeiras premissas em <em>Medita\u00e7\u00f5es<\/em> para dizer da exist\u00eancia de Deus, dando um pouco de \u00eanfase \u00e0 reflex\u00e3o sobre a possibilidade de exist\u00eancia de um Deus enganador. E, a partir disso, refletiremos um pouco de como Descartes saiu dessa problem\u00e1tica que atribuiria car\u00e1ter malicioso ao Deus perfeito que, em muitas religi\u00f5es, \u00e9 aclamado na figura paterna diante de tanto amor que sua figura parece transmitir a ponto de amar os seus mais do que uma m\u00e3e biol\u00f3gica.<\/p>\n<p>Enfim, quanto ao final das medita\u00e7\u00f5es, abordaremos as premissas que o autor se vale para dizer de Deus quanto \u00e0 sua rela\u00e7\u00e3o com a ideia de infinitude que trazemos em n\u00f3s. Propomo-nos, ent\u00e3o, a colocar mais \u00eanfase na ideia de perfei\u00e7\u00e3o que na de infinito para dizer do Divino. Ao explicitar o valor dessa prefer\u00eancia de termos que n\u00e3o \u00e9 a comum atribu\u00edda nesse momento comumente para dizer do princ\u00edpio importante para Ren\u00e9 Descartes em sua metaf\u00edsica do <em>T\u00e9los<\/em>.<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>1 O CAMINHO DA D\u00daVIDA PARA CHEGAR AO <em>COGITO<\/em><\/strong><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Descartes deseja abordar em sua obra <em>Medita\u00e7\u00f5es<\/em> como principais conceitos Deus, alma e corpo. A reflex\u00e3o do ser divino \u00e9 vista em seu pensamento como grande objeto para pesquisas e estudos para qualquer acad\u00eamico. Nesta obra, especificamente, nos encontraremos com este tipo de reflex\u00e3o juntamente com defini\u00e7\u00f5es espec\u00edficas de alma e corpo. Dividida em seis partes, as reflex\u00f5es que veremos s\u00e3o de sua obra <em>Medita\u00e7\u00f5es<\/em>, que fazem alus\u00e3o \u00e0s medita\u00e7\u00f5es religiosas, como um caminho feito para se explicar conceitos demonstr\u00e1veis atrav\u00e9s da racionalidade para se chegar a um verdadeiro conhecimento indubit\u00e1vel.<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong>Ele chama <em>Medita\u00e7\u00f5es<\/em> um pequeno tratado de Metaf\u00edsica que, segundo Emanuela Scribano, tem como pontos principais \u201cprovar a exist\u00eancia de Deus e a das nossas almas, quando s\u00e3o separadas do corpo, (bem como) de onde se segue sua imortalidade<a href=\"http:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/wp-admin\/post-new.php#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[1]<\/a>\u201d (SCRIBANO, 2007, p.10). \u00c9 uma obra que pertence ao \u00e2mbito metaf\u00edsico. Seu principal objetivo \u00e9 criar um m\u00e9todo que seja acess\u00edvel a todos.<\/p>\n<p>Se \u00e9 que eu creio que nada se poderia fazer mais \u00fatil na Filosofia do que procurar uma vez com curiosidade e cuidado as melhores e mais s\u00f3lidas raz\u00f5es e disp\u00f4-las numa ordem t\u00e3o clara e t\u00e3o exata que doravante seja certo a todo mundo serem verdadeiras demonstra\u00e7\u00f5es (DESCARTES, 1973, p. 84). <a href=\"http:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/wp-admin\/post-new.php#_ftn3\" name=\"_ftnref3\">[2]<\/a><\/p>\n<p>Na primeira medita\u00e7\u00e3o, Descartes faz-nos pensar que o mundo corp\u00f3reo que se apresenta a n\u00f3s, sendo da possibilidade de n\u00e3o existir. Logo ele fala da d\u00favida hiperb\u00f3lica. E questiona a validade expressa por verdades, inclusive a pr\u00f3pria matem\u00e1tica. Na biografia que Stephen Gaukroger faz do autor ele complementa que: \u201cNa Medita\u00e7\u00e3o Primeira, todavia, Descartes admite que verdades matem\u00e1ticas como <em>2+2=5<\/em> podem ser submetidas \u00e0 d\u00favida hiperb\u00f3lica e, nesse ponto, \u00e9 bem poss\u00edvel que haja uma contradi\u00e7\u00e3o l\u00f3gica\u201d (GAUKROGER, 1999, p. 416). Ou seja, tamb\u00e9m as verdades matem\u00e1ticas s\u00e3o incertas.<\/p>\n<p>No in\u00edcio da segunda medita\u00e7\u00e3o \u00e9 not\u00f3rio o uso da d\u00favida como m\u00e9todo da busca de alguma certeza segura. Isso n\u00e3o o prende ao ceticismo. Lembrando que Descartes buscava uma certeza de onde poderia fundar toda a sua filosofia. Colocou em d\u00favida tudo o que j\u00e1 tinha como conhecimento, visto que os sentidos enganam, e at\u00e9 mesmo a raz\u00e3o, com o argumento do sonho que utiliza para dizer de nossas incertezas quanto ao que \u00e9 real. Mas uma coisa lhe parece certa enquanto assim reflete. Ele pode duvidar de tudo o que julga conhecer, por\u00e9m n\u00e3o pode duvidar da pr\u00f3pria d\u00favida.<\/p>\n<p>Mas, logo depois que atentei que, enquanto queria pensar assim que tudo era falso, era necessariamente preciso que eu, que o pensava, fosse alguma coisa; e, notando que esta verdade, <em>Penso<\/em>, <em>logo<\/em> <em>existo<\/em>, era t\u00e3o firme e t\u00e3o certa que todas as mais extravagantes suposi\u00e7\u00f5es dos c\u00e9pticos n\u00e3o eram capazes da abal\u00e1-la, julguei que podia admiti-la sem escr\u00fapulo como o primeiro princ\u00edpio da filosofia que buscava. (DISCURSO, IV, AT VI, 32) <a href=\"http:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/wp-admin\/post-new.php#_ftn4\" name=\"_ftnref4\">[3]<\/a>.<\/p>\n<p>Essa mesma ideia \u00e9 questionada por muitos por parecer j\u00e1 presente em Agostinho em seu livro <em>Cidade<\/em> <em>de<\/em> <em>Deus <\/em>(livro 11, cap. 26) quando diz: <em>Si fallor, sum<\/em> \u201cSe engano existo\u201d. Para Georges Pascal quando Descartes \u00e9 interrogado por um correspondente sobre tal aparente reminisc\u00eancia, ele vai \u00e0 procura pela obra do Santo para se certificar. O que parecia indicar que n\u00e3o possu\u00edsse qualquer contato com essa cita\u00e7\u00e3o do santo antes.<\/p>\n<p>Mesmo a hip\u00f3tese de um enganador como ainda sugere Descartes, a certeza do <em>cogito<\/em> n\u00e3o pode ser abalada. O processo para se chegar a esta certeza indubit\u00e1vel, podemos dizer, se d\u00e1 do seguinte modo no sujeito. Primeiro, vale-se da d\u00favida de todo conhecimento j\u00e1 obtido. Logo ap\u00f3s, percebe que pode duvidar de tudo, exceto que duvida. Ent\u00e3o, uma certeza lhe apresenta claramente, que \u00e9 a de sermos seres que duvidam. Para Descartes, essa indubitabilidade da d\u00favida se assemelha ao pensar e, consequentemente, em seu pensamento, a uma certeza de exist\u00eancia.<\/p>\n<p>A reflex\u00e3o que alcan\u00e7a usando o m\u00e9todo da d\u00favida leva o fil\u00f3sofo a pensar na hip\u00f3tese de Deus enganador (excluindo lhe as caracter\u00edsticas que comumente lhe s\u00e3o atribu\u00eddas como; onipot\u00eancia, onipresen\u00e7a e onisci\u00eancia, sobretudo sua bondade) No entanto, Kenny defende que \u201cO princ\u00edpio de que Deus n\u00e3o \u00e9 enganador \u00e9 o fio que permitir\u00e1 a Descartes nos conduzir para fora dos desapontamentos do ceticismo\u201d (Kenny, 2009, p. 149). Ou seja, ao defender que Ele n\u00e3o pode ser enganador, a d\u00favida de que se valeu se resume a um exerc\u00edcio met\u00f3dico do conhecimento, e n\u00e3o uma afirma\u00e7\u00e3o propriamente de se aderir ao ceticismo.<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>2 PROVAS DA EXIST\u00caNCIA DE DEUS E A HIP\u00d3TESE DE UM ENGANADOR<\/strong><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>As primeiras provas da exist\u00eancia divina se encontram na terceira medita\u00e7\u00e3o. Para Ren\u00e9, Deus coloca a ideia da subst\u00e2ncia infinita no intelecto humano, pois por si s\u00f3 ele que \u00e9 finito n\u00e3o a poderia produzir, logo ele tem de existir para que isso ocorra. Todas as coisas que avaliamos por <em>claras e distintas<\/em> se fundam desta ideia de perfei\u00e7\u00e3o que encerra tudo o que \u00e9 real e verdadeiro. \u201cConcebo Deus atualmente infinito em t\u00e3o alto grau que nada se pode acrescentar \u00e0 soberana perfei\u00e7\u00e3o que ele possui\u201d (DESCARTES, 1973, p.117).<\/p>\n<p>Sobre a possibilidade de esta ideia de Deus ser falsa ele afirma: \u201cSendo esta ideia mui clara e distinta, e contendo em si mais realidade objetiva do que qualquer outra, n\u00e3o h\u00e1 nenhuma que seja verdadeira nem que possa ser menos suspeita de erro e de falsidade (DESCARTES, 1973, p.116)\u201d. Essa ideia, portanto n\u00e3o pode vir a ser falsa, pois vem de um ser soberanamente perfeito e infinito. O que ainda garante mais para Descartes \u00e9 por conter em si mesma, (ou seja, na ideia) uma presen\u00e7a de perfei\u00e7\u00e3o que independe de qualquer coisa.<\/p>\n<p>O pr\u00f3ximo argumento de Descartes \u00e9 sobre o efeito causal de si. Como subst\u00e2ncia de natureza pensante que tem em si a ideia de Deus, ele v\u00ea a necessidade de que a causa de sua natureza necessariamente tenha de ser de igual modo pensante possuindo em si toda a ideia de todas as perfei\u00e7\u00f5es a partir da conclus\u00e3o do <em>cogito<\/em> que alcan\u00e7ara. Sua reflex\u00e3o continua dizendo da impossibilidade de ter adquirido esta ideia dos sentidos, nem mesmo de seu pr\u00f3prio esp\u00edrito, mas que tenha sido adquirida do pr\u00f3prio Deus.<\/p>\n<p>Na quinta medita\u00e7\u00e3o Descartes fala que n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel separar a ess\u00eancia da exist\u00eancia de Deus. Pens\u00e1-lo assim seria conceb\u00ea-lo como algo que lhe falta uma exist\u00eancia consistente. Seria o mesmo que tentar separar a ess\u00eancia de um tri\u00e2ngulo retil\u00edneo de seus tr\u00eas \u00e2ngulos iguais a dois retos. Conceb\u00ea-lo separado n\u00e3o est\u00e1 em sua liberdade de ser pensante. \u00c9 colocado aqui tamb\u00e9m o conceito de necessidade da uni\u00e3o das duas realidades em Deus: liberdade e ser pensante em perfei\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Para o fil\u00f3sofo a partir de ent\u00e3o, torna\u2013se poss\u00edvel o adquirir de uma ci\u00eancia perfeita. Diferentemente de antes que nenhum conhecimento era perfeito sem esse fundamento que veio a encontrar. \u201cn\u00e3o somente das que existem nele, mas tamb\u00e9m das que pertencem \u00e0 natureza corp\u00f3rea\u201d (DESCARTES, 1973, p.136). A justifica\u00e7\u00e3o agora se d\u00e1 a soberania de Deus vista no corpo e na alma dos homens que criou com uma perfei\u00e7\u00e3o e efic\u00e1cia para a conserva\u00e7\u00e3o do pr\u00f3prio. E, portanto n\u00e3o h\u00e1 nada neles que torne incompat\u00edveis o poder e a bondade divina que os fizeram.<\/p>\n<p>\u201cH\u00e1 muito que tenho no meu esp\u00edrito certa opini\u00e3o de que h\u00e1 um Deus que tudo pode e por quem fui criado e produzido tal como sou\u201d (DESCARTES, 1973, p. 94). Descartes considera que ningu\u00e9m o pode garantir de que esse Deus de que fala n\u00e3o tenha feito \u00e0s coisas existirem tais como ele as percebe. E poderia ainda mais o enganar nas coisas que as outras pessoas consideram com maior certeza que seria enumerar lados de um quadrado, adi\u00e7\u00e3o de n\u00fameros por mais simples que se parece faz\u00ea-los. No entanto o fil\u00f3sofo diz que Deus n\u00e3o poderia querer decepcion\u00e1-lo assim, pois ele \u00e9 considerado sumamente bom.<\/p>\n<p>Caso venhamos negar a exist\u00eancia de um Deus t\u00e3o poderoso, poderemos supor um g\u00eanio maligno: \u201cSuporei, pois, que n\u00e3o h\u00e1 um verdadeiro deus, que \u00e9 a soberana fonte da verdade, mas certo g\u00eanio maligno\u201d (DESCARTES, 1973, p. 96). Tudo que, no entanto parecemos conhecer vem neste caso a ser uma ilus\u00e3o e engana\u00e7\u00e3o desse g\u00eanio maldoso. O g\u00eanio poder\u00e1 enganar sobre tudo que pensamos conhecer, todavia de que somos capazes de pensar e duvidar ele n\u00e3o pode nos enganar.<\/p>\n<p>Seu dever agora \u00e9 refutar a possibilidade de Deus ser enganador: \u201cPor que Deus n\u00e3o possui defeitos, argumenta Descartes, ele n\u00e3o pode ser enganador\u201d (Kenny, 2009, p. 149). Assim, Descartes consegue. \u00c9 o mesmo que pensarmos que a perfei\u00e7\u00e3o divina, n\u00e3o pode permitir que Ele fosse enganador. Assim sendo deixaria de ser t\u00e3o perfeito quanto nos parece. No entanto, a sua perfei\u00e7\u00e3o \u00e9 o que salvaguarda sua bondade, que \u00e9 infinita.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>3 A IDEIA DE DEUS: MAIS PERFEI\u00c7\u00c3O QUE INFINITUDE<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Falar de Deus em Descartes e nas <em>Medita\u00e7\u00f5es<\/em> n\u00e3o tem como deixar de dizer da ideia. Ela como se apresenta em nosso intelecto, sendo a causa de si mesma, torna-se umas das principais provas utilizadas pelo \u2018pai da modernidade\u2019<a href=\"http:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/wp-admin\/post-new.php#_ftn5\" name=\"_ftnref5\">[4]<\/a> para dizer do Divino.<\/p>\n<p>Se examinamos a apresenta\u00e7\u00e3o definitiva da filosofia primeira de Descartes, as <em>Medita\u00e7\u00f5es,<\/em> vemos que todas as v\u00e1rias provas diferentes da exist\u00eancia de Deus envolvem, como uma de suas premissas, uma refer\u00eancia explicita \u00e0 ideia de Deus (BEYSSADE, 2009, p. 215).<\/p>\n<p>Descartes em Medita\u00e7\u00f5es pressup\u00f5e primeiramente para falar de Deus a ideia como algo que foi dado a n\u00f3s. E a partir dessa ideia que nos foi dada ele d\u00e1 vida aos outros argumentos de prova de Deus. \u201cDever\u00edamos concluir da\u00ed que, ao seguirmos as provas a posteriori da exist\u00eancia de Deus de Descartes, testemunhamos a constru\u00e7\u00e3o de uma ideia de Deus\u201d (BEYSSADE, 2009, p. 219).<\/p>\n<p>O nosso pr\u00f3prio intelecto seguindo o percurso sugerido por Descartes nos leva a perceber essa ideia em n\u00f3s. Que podemos considerar como constru\u00edda, mas que na verdade se parece mais com uma descoberta. Pens\u00e1-la como uma ideia constru\u00edda \u00e9 desejar entende-la como algo que se faz num processo criat\u00f3rio. Um processo que esclarece e torna mais intelig\u00edvel o que \u00e9 pr\u00f3prio do intelecto humano como presen\u00e7a viva a ideia do perfeito, \u00e0 qual chamamos Deus. Por isso, uma ideia de constru\u00e7\u00e3o que se remete mais a uma redescoberta torna-se mais aceit\u00e1vel para n\u00e3o cairmos no risco de dizer que a metaf\u00edsica de descartes \u00e9 algo que ele criou, e n\u00e3o descobriu. Assim pensada, evitar-se-\u00e1 o risco de conceb\u00ea-la como simples cria\u00e7\u00e3o do intelecto subjetivo.<\/p>\n<p>Algu\u00e9m poderia talvez resumir a quest\u00e3o dizendo que Deus \u00e9 (neste sentido) tanto constru\u00eddo quanto definido como aquele objetivo que me esfor\u00e7o por alcan\u00e7ar, como aquilo que aspiro ser. N\u00e3o devemos confundir aqui ideias com pensamentos: alguns de meus pensamentos, como o desejo ou a d\u00favida, n\u00e3o s\u00e3o ideias; Uma ideia \u00e9 aquilo que representa um objeto (BEYSSADE, 2009, p. 219).<\/p>\n<p>\u201cA forma\u00e7\u00e3o da ideia de Deus equivale, efetivamente, \u00e0 determina\u00e7\u00e3o do objetivo ao qual eu viso\u201d (BEYSSADE, 2009, p. 220). Diante da d\u00favida e do sentimento de ser Descartes afirma que:\u00a0 \u201cuma coisa incompleta e dependente, a ideia de um ser completo e independente, ou seja, de Deus, a presenta-se a meu esp\u00edrito com igual distin\u00e7\u00e3o e clareza; e do simples fato de que essa ideia se encontra em mim, ou que sou e existo, eu que possuo esta ideia, concluo t\u00e3o evidentemente a exist\u00eancia de Deus e que a minha depende inteiramente dele em todos os momentos de minha vida, que n\u00e3o penso que o esp\u00edrito humano possa conhecer algo com maior evid\u00eancia e certeza\u201d (DESCARTES, 1973, p.123). Portanto, Deus \u00e9 considerado a coisa mais f\u00e1cil de conhecer. N\u00e3o associa\u00e7\u00e3o direta a ideia de n\u00famero, pois:<\/p>\n<p>A exist\u00eancia n\u00e3o pode ser derivada da ideia de um n\u00famero infinito (por que este n\u00famero pode ou n\u00e3o existir), ao passo que a exist\u00eancia origina-se necessariamente da ideia de Deus, uma vez que a exist\u00eancia \u00e9 uma de suas perfei\u00e7\u00f5es (BEYSSADE, 2009, p. 225).<\/p>\n<p>Do infinito n\u00e3o se pode deduzir a ideia de Deus pela sua incerteza de exist\u00eancia. Neste caso ele pode ser dubit\u00e1vel, assim como o autor apresenta a ideia de n\u00fameros. A ideia de Deus pelas suas perfei\u00e7\u00f5es pode oferecer possibilidade a exist\u00eancia de modo a ser unicamente necess\u00e1rio por essa via por participar de suas perfei\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Quanto mais a subst\u00e2ncia pensante n\u00e3o puder por hip\u00f3tese ser a causa de uma determinada ideia, mais realidade objetiva esta ideia tende ter em si. A causa da realidade objetiva da ideia de Deus possui grau de realidade que \u00e9 infinita. Aceitando estes princ\u00edpios, podemos concluir que a ideia de Deus ou \u00e9 causada por uma ideia que tenha mais realidade objetiva que a sua ou \u00e9 causada por uma <em>res<\/em>, isto \u00e9, uma realidade atual que tenha no m\u00ednimo a mesma perfei\u00e7\u00e3o contida objetivamente na ideia.<\/p>\n<p>O Deus de Descartes \u00e9 ao mesmo tempo perfeito e infinito. A infinitude age sobre a perfei\u00e7\u00e3o, tornando-a incompreens\u00edvel: nenhuma perfei\u00e7\u00e3o infinita encontra-se dentro de nossa compreens\u00e3o. Mas a perfei\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m age sobre a infinitude, tornando-a intelig\u00edvel: a infinitude de Deus \u00e9 positiva e perfeitamente entendida (BEYSSADE, 2009, p. 238).<\/p>\n<p>A infinitude \u00e9 compreendida por causa da perfei\u00e7\u00e3o. A infinitude em si n\u00e3o pode ser atingida pelo intelecto, todavia a perfei\u00e7\u00e3o pode conter em si a infinitude, ou seja, a infinitude pode ser abarcada pela perfei\u00e7\u00e3o em nosso intelecto pelo pensamento. Na interpreta\u00e7\u00e3o de Beyssade, Deus n\u00e3o \u00e9 compreendido apenas com a ideia de infinito em nosso intelecto, visto que n\u00e3o temos alcance dele todo em nosso pensamento, todavia com a perfei\u00e7\u00e3o ele \u00e9 compreendido, pois a ela temos com clareza em nosso intelecto agindo sobre o infinito.<\/p>\n<p>A ideia de Deus ultrapassa a capacidade finita do pensamento, tendo como explica\u00e7\u00e3o outra realidade atual, que \u00e9 o pr\u00f3prio Deus. A impress\u00e3o que temos aqui \u00e9 que, admitindo a exist\u00eancia da ideia de Deus deve-se admitir necessariamente sua exist\u00eancia atual por ser sua \u00fanica e poss\u00edvel causa.<\/p>\n<p>Para Descartes, a ideia do infinito \u00e9 anterior \u00e0 ideia do finito. A pr\u00f3pria ideia que temos de n\u00f3s mesmos \u00e9 derivada da ideia de Deus, embora s\u00f3 tenhamos um conhecimento claro disso ap\u00f3s meditarmos mais a fundo a quest\u00e3o. A ideia do infinito \u00e9 o arqu\u00e9tipo a partir do qual podemos compreender a pr\u00f3pria no\u00e7\u00e3o da subst\u00e2ncia pensante enquanto um ser finito, que duvida, que se engana, que pode aumentar seu conhecimento indefinidamente pela sua capacidade racional.<\/p>\n<p>A ideia de Deus \u00e9 mais clara do que a ideia de distin\u00e7\u00e3o do corpo e da alma. Embora este conhecimento n\u00e3o contenha todas as propriedades divinas e infinitas, o que \u00e9 justificado pela pr\u00f3pria natureza finita do entendimento, ele \u00e9 um conhecimento completo, no sentido de que ele n\u00e3o \u00e9 produzido por uma preven\u00e7\u00e3o ou precipita\u00e7\u00e3o do esp\u00edrito e nem \u00e9 derivado de alguma no\u00e7\u00e3o mais completa.<\/p>\n<p>\u201c[&#8230;] Descartes considera a intui\u00e7\u00e3o superior ao argumento como um m\u00e9todo de obter e verdade\u201d (Kenny, 2009, p. 153). Isso faz muita diferen\u00e7a na interpreta\u00e7\u00e3o de seu pensamento, sobretudo nessa quinta medita\u00e7\u00e3o. Com ela, a reflex\u00e3o gira em torno da justificativa da natureza corp\u00f3rea e da necessidade de Deus como necessidade da clareza de sua exist\u00eancia para a pr\u00f3pria certeza e fundamento em demonstra\u00e7\u00f5es das outras coisas do mundo.<\/p>\n<p>O caminho que Ren\u00e9 faz \u00e9 o seguinte: ele se pergunta se possui algum poder que o faz ser, j\u00e1 que \u00e9 algo que existe como pensante e se este poder reside nele (corpo). Todavia, chega a esta conclus\u00e3o: \u201cNada sinto de tal poder em mim, o que me faz reconhecer como suma clareza que dependo de algum ser diferente de mim mesmo\u201d (DESCARTES apud GAUKROGER, 1999, p. 428). Isso se explica, por exemplo, quando pensamos a ideia do tri\u00e2ngulo como ideias de coisas que realmente existem e n\u00e3o podem ser duvidosas ou falsas. Desta ideia ele pensa no quadrado como t\u00e3o real e do c\u00edrculo, mas da perfei\u00e7\u00e3o que um carrega em compara\u00e7\u00e3o ao outro. Logo, se Descartes ignorasse a exist\u00eancia de Deus como o Ser pelo qual todas estas coisas podem lhe ser demonstr\u00e1veis existirem, ele teria suas teorias enfraquecidas. A\u00ed sim cairia num ceticismo pelo qual se afirma que nada \u00e9 necess\u00e1rio.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>CONSIDERA\u00c7\u00d5ES FINAIS<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u00c9 ineg\u00e1vel a import\u00e2ncia da reflex\u00e3o do fil\u00f3sofo Descartes para o entendimento da filosofia moderna. Muito mais ainda no que concerne ao campo metaf\u00edsico. Conhecido \u2013 como vimos no texto &#8211; como pai da modernidade n\u00e3o \u00e9 por menos que seu pensamento venha ser t\u00e3o relevante para toda a filosofia, e n\u00e3o s\u00f3 ela, mas para todos os campos das ci\u00eancias modernas.<\/p>\n<p>Deus \u00e9 delimit\u00e1-lo para o fil\u00f3sofo em limites arbitr\u00e1rios. Por\u00e9m, \u00e9 poss\u00edvel dizer de provas favor\u00e1veis \u00e0 sua exist\u00eancia. Ele pode criar coisas que n\u00e3o podemos conhecer, por exemplo.<\/p>\n<p>Se na primeira prova, Descartes infere a exist\u00eancia de Deus a partir de sua ideia, na segunda o objetivo \u00e9 mostrar que, enquanto uma subst\u00e2ncia finita, eu n\u00e3o poderia ter a ideia de Deus sem que Ele existisse. Essa prova de Deus se d\u00e1 pelos seus efeitos. Na prova anterior, a batalha era para provar que a ideia de Deus n\u00e3o \u00e9 inventada pelo esp\u00edrito, enquanto que, aqui, o esfor\u00e7o \u00e9 demonstrar que a impossibilidade de ser causa de si \u00e9 a raz\u00e3o da impossibilidade de ser causa da ideia de Deus e, por isso, a causa dessa ideia n\u00e3o pode ser um ser finito, mas sim um ser infinito, ou seja, Deus.<\/p>\n<p>Na argumenta\u00e7\u00e3o ontol\u00f3gica, Descartes procura demonstrar que as ess\u00eancias das coisas corporais, que nada mais s\u00e3o que as ideias matem\u00e1ticas, s\u00e3o verdadeiras. Ele revela que ainda que concebamos todas as outras coisas como existentes, n\u00e3o se infere disso que elas existam, mas unicamente que elas podem existir, pois n\u00e3o \u00e9 necess\u00e1rio que sua exist\u00eancia atual esteja unida \u00e0s suas outras propriedades. Com a ideia de Deus acontece exatamente o contr\u00e1rio, isto \u00e9, a exist\u00eancia atual \u00e9 concebida clara e distintamente unida \u00e0s outras propriedades. A unidade das provas da exist\u00eancia de Deus \u00e9 atingida, portanto, atrav\u00e9s da uni\u00e3o da causa eficiente \u00e0 causa formal.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>REFER\u00caNCIAS<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>DESCARTES, Ren\u00e9. <em>Medita\u00e7\u00f5es<\/em>. Cole\u00e7\u00e3o os Pensadores. 1\u00ba edi\u00e7\u00e3o. Trad. De J. Guinsburg e Bento Prado J\u00fanior. S\u00e3o Paulo: Abril Cultural, 1973.<\/p>\n<p>BEYSSADE, Jean-Marie. <em>A ideia de Deus e as provas de sua exist\u00eancia<\/em>. In.<\/p>\n<p>COTTINGHAM, John (org.) <em>Descartes<\/em>; trad. De Andr\u00e9 O\u00eddes. \u00a0Aparecida, SP: Ideias e Letras, 2009.<\/p>\n<p>GAUKROGER, Stephen. <em>DESCARTES Uma biografia intelectual<\/em>. Trad. Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: UERJ, 2002.<\/p>\n<p>KENNY, Anthony. <em>Uma Nova Hist\u00f3ria da Filosofia Ocidental. Vol. III. O Despertar da Filosofia Moderna<\/em>. Trad. Carlos Alberto B\u00e1rbaro. S\u00e3o Paulo: Edi\u00e7\u00f5es Loyola, 2009.<\/p>\n<p>SCRIBANO, Emanuela. <em>Guia para leitura das Medita\u00e7\u00f5es metaf\u00edsicas de Descartes.<\/em> Trad. Silvana Cobucci Leite. S\u00e3o Paulo: Edi\u00e7\u00f5es Loyola, 2007.<\/p>\n<p>PASCAL, Geogers. <em>DESCARTES<\/em>. Trad Maria Ermantina Galv\u00e3o Alves. S\u00e3o Paulo: Martins Fontes, 1990.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/wp-admin\/post-new.php#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">*<\/a> Graduando em filosofia na FDLM.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/wp-admin\/post-new.php#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[1]<\/a> Par\u00eanteses nosso.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/wp-admin\/post-new.php#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[2]<\/a> Introdu\u00e7\u00e3o que faz a De\u00e3o e doutores da Sagrada Faculdade de Teologia de Paris.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/wp-admin\/post-new.php#_ftnref4\" name=\"_ftn4\">[3]<\/a> cf. DISCURSO, IV, AT VI, 32 <em>apud <\/em>\u00a0PASCAL, 1990, p. 39.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/wp-admin\/post-new.php#_ftnref5\" name=\"_ftn5\">[4]<\/a> <em>Pai da modernidade:<\/em> termo muito referido \u00e0 Descartes.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Fabr\u00edcio Lopes Fernandes* Resumo: Esta pesquisa visa refletir sobre um autor de suma import\u00e2ncia para o in\u00edcio e processo de debates filos\u00f3ficos do s\u00e9culo XVII: Ren\u00e9 Descartes. Em uma de suas principais obras, as Medita\u00e7\u00f5es, Descartes, depois de afirmar o cogito cartesiano, fala de suas premissas para provar a exist\u00eancia de Deus. Refletir-se-\u00e1 sobre o &hellip; <\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_mi_skip_tracking":false,"footnotes":""},"categories":[23,546],"tags":[],"class_list":{"0":"entry","1":"post","2":"publish","3":"author-admin","4":"post-2717","6":"format-standard","7":"category-descartes","8":"category-fabricio-lopes-fernandes"},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2717","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=2717"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2717\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2718,"href":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2717\/revisions\/2718"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=2717"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=2717"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=2717"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}