{"id":2728,"date":"2018-10-30T07:51:58","date_gmt":"2018-10-30T10:51:58","guid":{"rendered":"http:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/?p=2728"},"modified":"2018-10-30T07:51:58","modified_gmt":"2018-10-30T10:51:58","slug":"uma-introducao-ao-estatuto-ontologico-do-mal-em-santo-agostinho-o-problema-do-mal","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/?p=2728","title":{"rendered":"UMA INTRODU\u00c7\u00c3O AO ESTATUTO ONTOL\u00d3GICO DO MAL EM SANTO AGOSTINHO: o problema do mal"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\">Carlos Geovane Nunes Magri <a href=\"http:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/wp-admin\/post-new.php#_ftn1\" name=\"_ftnref1\"><sup>*<\/sup><\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Resumo: <\/strong>O presente artigo pretende servir de introdu\u00e7\u00e3o \u00e0 via de resolu\u00e7\u00e3o do problema do mal existente na filosofia de Santo Agostinho. Santo Agostinho passou pela seita Manique\u00edsta motivado pelas propostas que esta realizava e pelo teor de algumas respostas por ela feitas a problemas instigantes, como o problema do mal. Todavia, ap\u00f3s um per\u00edodo nesta seita, Agostinho sente que o manique\u00edsmo j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 capaz de solucionar os problemas que lhe eram apresentados; cr\u00ea tamb\u00e9m que, muitas vezes, a seita incorria em erros filos\u00f3fico-teol\u00f3gicos graves. Assim, Aur\u00e9lio Agostinho prop\u00f5e um estatuto ontol\u00f3gico do mal em sua filosofia como refuta\u00e7\u00e3o ao manique\u00edsmo e como resposta ao problema do mal.<\/p>\n<p><strong>Palavras chaves:<\/strong> Agostinho. Mal. Manique\u00edsmo. Pecado. Livre-arb\u00edtrio.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>INTRODU\u00c7\u00c3O<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Se Deus \u00e9 o criador de todas as coisas e, ao mesmo tempo, \u00e9 sumamente bom, como pode o mundo estar repleto de mal? Como podem coexistir Deus e o mal no mundo? Deus \u00e9 ent\u00e3o o autor do mal? Se sim, \u00e9 Ele sumamente bom mesmo? Se tal Deus existe, o que \u00e9 ent\u00e3o o mal? Qual sua natureza? De onde ele surge, ent\u00e3o? Toda essa s\u00e9rie de questionamentos, a qual se determina como fruto do problema do mal, instigou Aur\u00e9lio Agostinho a iniciar sua jornada em busca de respostas.<\/p>\n<p>Para que se possa compreender o caminho empreendido por Santo Agostinho na sua busca de respostas ao problema do mal, primeiro deve-se compreender a seita manique\u00edsta, da qual, por durante nove anos, Aur\u00e9lio Agostinho fez parte. No manique\u00edsmo, Agostinho encontra de in\u00edcio uma resposta aos seus questionamentos.<\/p>\n<p>Compreendido o pensamento manique\u00edsta, torna-se agora poss\u00edvel notar quais os pontos que motivaram Santo Agostinho a abandonar tal seita e iniciar sua caminhada no Cristianismo e na filosofia; ou seja, o que, dentro do pensamento maniqueu, foi insuficiente para sanar as d\u00favidas de Agostinho e com o que o fil\u00f3sofo crist\u00e3o n\u00e3o concordou para que buscasse refuta\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Para que seja feita uma r\u00e1pida e sucinta introdu\u00e7\u00e3o ao problema do mal na filosofia agostiniana \u2013 como \u00e9, de fato o prop\u00f3sito deste trabalho \u2013 analisar-se-\u00e1 a concep\u00e7\u00e3o de mal e o seu estatuto ontol\u00f3gico presente nas obras \u201cA natureza do bem\u201d, \u201cConfiss\u00f5es\u201d e \u201cO Livre-arb\u00edtrio\u201d. Com isso, demonstrar a resposta dada por Agostinho de Hipona \u00e0s perguntas apresentadas no in\u00edcio deste trabalho, refutando assim o manique\u00edsmo e apresentando uma resposta sistematizada ao problema do mal.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 proposta de tal trabalho se aprofundar nas quest\u00f5es fundantes do pensamento do autor; apenas ser\u00e3o expostas as concep\u00e7\u00f5es e os caminhos empreendidos por Aur\u00e9lio Agostinho em sua jornada a procura de refutar as heresias do manique\u00edsmo e solucionar o problema do mal.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>1 O PROBLEMA DO MAL E O MANIQUE\u00cdSMO<\/strong><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Brevemente, e de modo gen\u00e9rico, pode-se definir o problema do mal como um problema pertinente \u00e0 filosofia envolvendo a coexist\u00eancia do mal e Deus. O problema estipula que, sendo Deus sumamente bom, onipotente e onisciente, o mal n\u00e3o poderia existir; um ser bom e com poderes ilimitados n\u00e3o criaria um mundo mau; criaria um mundo perfeito. Ao olhar para o mundo e para os seus habitantes, conclui-se que o Deus descrito anteriormente n\u00e3o existe. Este \u00e9 o problema do mal. Como se pode compatibilizar a coexist\u00eancia de um mundo repleto de sofrimento e de mal com a exist\u00eancia de Deus?<\/p>\n<p>Uma das maiores respostas ao problema do mal foi a manique\u00edsta, que apresenta o bem e o mal como uma quest\u00e3o chave para a compreens\u00e3o do universo, ao inv\u00e9s apenas de evitar tal problema. A mat\u00e9ria, no manique\u00edsmo, foi feita como algo c\u00f3smico, colocando nela o problema do mal. Assim, Agostinho via nessa luta manique\u00edsta da alma com o corpo, tamb\u00e9m o dualismo da luta entre o bem e o mal no universo. Como afirma Agostinho (2014, p. 172):<\/p>\n<p>N\u00e3o tinha, no entanto, ideia clara e n\u00edtida da causa do mal. No entanto, qualquer que ela fosse, o procur\u00e1-la n\u00e3o poderia obrigar-me a ter por mut\u00e1vel um Deus imut\u00e1vel, se n\u00e3o quisesse tornar-me eu mesmo aquilo que eu procurava. Por isso, na minha busca tranquila, eu estava certo quanto \u00e0 falsidade da doutrina daqueles de quem me havia afastado por convic\u00e7\u00e3o.\u00a0 Via, realmente, que estudavam o problema da origem do mal, estando eles pr\u00f3prios imersos na mal\u00edcia, a ponto de preferirem imaginar tua subst\u00e2ncia sujeita ao mal, a se reconhecerem capazes de comet\u00ea-lo.<\/p>\n<p>Muito do que se sabe da doutrina manique\u00edsta est\u00e1 presente nos escritos de Agostinho, que na forma de um grande apologista refuta e combate tamanhas heresias e a ontologia do mal proposta pelos maniqueus. Sua refuta\u00e7\u00e3o se embasa numa exclus\u00e3o externa, visto que participou do grupo e depois passou a lutar contra ele.<\/p>\n<p>A doutrina manique\u00edsta que Agostinho apresenta em suas obras consiste na exist\u00eancia de duas naturezas: uma boa \u2013 Deus \u2013 e outra m\u00e1 \u2013 mat\u00e9ria ou Satan\u00e1s \u2013 n\u00e3o criada por Deus. Esta dualidade coeterna est\u00e1 presente em toda a cria\u00e7\u00e3o, incorrendo assim num grande erro por atribuir alguns bens para a natureza m\u00e1 e alguns males para a natureza boa, assim confundindo as coisas criadas. Nas palavras do pr\u00f3prio Agostinho (2005, p. 53):<\/p>\n<p>No que chamam de natureza do sumo mal eles mesmos sup\u00f5e, concomitantemente, muitos bens, a saber: a vida, o poder, a sa\u00fade, a mem\u00f3ria, a intelig\u00eancia, a temperan\u00e7a, a for\u00e7a, a riqueza, o sentimento, a luz, a suavidade, a medida, o n\u00famero, a paz, o modo, a esp\u00e9cie, a ordem; e, ao contr\u00e1rio do que chamam o sumo bem sup\u00f5e numerosos males: a morte, a doen\u00e7a, o esquecimento, a loucura, a perturba\u00e7\u00e3o, a impot\u00eancia, a pobreza, a insipi\u00eancia, a cegueira, a dor, a iniquidade, a desonra, a guerra, a destemperan\u00e7a, a deformidade, a perversidade.<\/p>\n<p>Assim, a doutrina manique\u00edsta responde ao problema do mal isentando o ser humano de qualquer responsabilidade e atribuindo a exist\u00eancia desse princ\u00edpio dual e contr\u00e1rio \u2013 bem e mal \u2013 uma constante luta. S\u00e3o propostas duas naturezas, boa e m\u00e1, e a causa do constante conflito entre elas se d\u00e1 pela inveja que uma tem da outra (das trevas para com a luz).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>2 O ESTATUTO ONTOL\u00d3GICO DO MAL EM SANTO AGOSTINHO<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O problema do mal \u00e9, segundo os manique\u00edstas, uma quest\u00e3o metaf\u00edsica e, justificando a exist\u00eancia do mal, os manique\u00edstas postularam um dualismo entre o bem e o mal. Agostinho, antes de sua convers\u00e3o, fazia parte da seita manique\u00edsta. Todavia, ap\u00f3s certo tempo, come\u00e7a a perceber s\u00e9rios problemas no sistema manique\u00edsta por causa das explica\u00e7\u00f5es dualistas, sobretudo entre o corpo e alma. Aos maniqueus, \u201ca alma humana \u00e9 perfeitamente boa [&#8230;], mas ela est\u00e1 presa ao corpo e suas concupisc\u00eancias.\u201d\u00a0 (EVANS, 1995, p. 33). No manique\u00edsmo, corpo e a alma possu\u00edam uma enorme adversidade, pois s\u00e3o duas subst\u00e2ncias que n\u00e3o se homogene\u00edzam, fazendo com que aconte\u00e7a essa separa\u00e7\u00e3o dual e acabem por gerar uma disputa entre si.<\/p>\n<p>Agostinho, assim frustrado por n\u00e3o encontrar solu\u00e7\u00f5es \u00e0s suas inquieta\u00e7\u00f5es no manique\u00edsmo, abandona a seita. \u201cAgostinho foi motivado desde o interior a abandonar os maniqueus pelo pr\u00f3prio conflito do qual esperara que os maniqueus o resgatassem\u201d. (EVANS, 1995, p. 35). Ap\u00f3s um per\u00edodo encontrando-se com Santo Ambr\u00f3sio, Agostino converte-se ao Cristianismo e inicia sua caminhada filos\u00f3fica para solucionar o problema do mal que h\u00e1 muito lhe instigava, refutando, desse modo, as cr\u00edticas ao Cristianismo propostas pela seita manique\u00edsta.<\/p>\n<p>Influenciado por Santo Ambr\u00f3sio e pelo neoplatonismo, Agostinho prop\u00f5e que o problema metaf\u00edsico do mal envolvia Deus, pois Deus \u00e9 o sumo bem e criador de todas as coisas. N\u00e3o h\u00e1 nenhum bem supremo a n\u00e3o ser Deus. Ele n\u00e3o pode mudar, visto que n\u00e3o h\u00e1 nada que possa adquirir para melhorar sua condi\u00e7\u00e3o de perfei\u00e7\u00e3o. Como Deus \u00e9 sumamente bom e cria tudo, o mal n\u00e3o pode ser parte da cria\u00e7\u00e3o divina. Agostinho encontra no neoplatonismo a chave da quest\u00e3o a ser resolvida: o mal n\u00e3o \u00e9 ser, mas sim defici\u00eancia e priva\u00e7\u00e3o de ser. Em sua obra \u201cConfiss\u00f5es\u201d, Agostinho (2014, p. 174-175) afirma que o mal, cuja origem buscava, n\u00e3o \u00e9 uma subst\u00e2ncia, porque, se fosse uma subst\u00e2ncia, seria um bem. E, na verdade, seria uma subst\u00e2ncia incorrupt\u00edvel e, por isso, sem d\u00favida um grande bem ou seria uma subst\u00e2ncia corrupt\u00edvel e, por isso, um bem que, de outra forma, n\u00e3o poderia estar sujeito \u00e0 corrup\u00e7\u00e3o. Por isso, afirma claramente como Deus, sendo sumamente bom, fez boas todas as coisas.<\/p>\n<p>Santo Agostinho, ap\u00f3s definir que o mal n\u00e3o pode ser criado por Deus, vai mais al\u00e9m e afirma poder-se examinar o problema do mal de tr\u00eas maneiras diferentes, criando um estatuto ontol\u00f3gico a respeito do mal. O mal pode ser visto, segundo a filosofia agostiniana, em tr\u00eas n\u00edveis: metaf\u00edsico-ontol\u00f3gico; moral e f\u00edsico. (REALE; ANTISERI, 1990, p. 455).<\/p>\n<p>O mal, do ponto de vista metaf\u00edsico ontol\u00f3gico, n\u00e3o existe enquanto subst\u00e2ncia. Ao realizar a cria\u00e7\u00e3o <em>ex nihil<\/em>, Deus conferiu \u00e0s coisas criadas, segundo sua vontade, o ser. Evidentemente, n\u00e3o a plenitude do ser, que s\u00f3 n\u2019Ele existe, mas apenas uma parcela de participa\u00e7\u00e3o. \u201cDessa medida diversa de participa\u00e7\u00e3o no ser decorre naturalmente certa grada\u00e7\u00e3o no ser criado.\u201d (AGOSTINHO apud BOEHNER; GILSON, 1991, p.181). No dom\u00ednio da cria\u00e7\u00e3o, o lugar mais elevado cabe ao ser humano.<\/p>\n<p>Do ponto de vista metaf\u00edsico-ontol\u00f3gico, n\u00e3o existe mal no cosmos, mas apenas <em>graus inferiores de ser em rela\u00e7\u00e3o a Deus<\/em>, que dependem da finitude da coisa criada e dos diferentes n\u00edveis dessa finitude. Mas mesmo aquilo que, numa considera\u00e7\u00e3o superficial, parece um \u201cdefeito\u201d (e, portanto, poderia parecer um mal), na realidade na \u00f3tica do universo visto em seu conjunto, desaparece: os graus inferiores do ser e as coisas finitas, mesmo as mais \u00ednfimas, revelam-se momentos articulados de um grande conjunto harm\u00f4nico. (REALE; ANTISERI, 1990, p. 455).<\/p>\n<p>H\u00e1, de fato, graus diferentes dos seres \u2013 uma hierarquia \u2013 que sup\u00f5e a todos os seres sua bondade, o seu sentido e a sua raz\u00e3o de ser, portanto, constituindo-se como algo positivo, mesmo que seja um ser tido por muitos como mal. Desta forma, percebe-se que, para Agostinho, o mal n\u00e3o \u00e9 uma subst\u00e2ncia, pois tudo o que existe \u00e9 bom, e admitir a exist\u00eancia de uma subst\u00e2ncia m\u00e1 \u00e9 atribuir ao criador (que \u00e9 bom) \u00e0 cria\u00e7\u00e3o de tal subst\u00e2ncia.<\/p>\n<p>No que diz respeito ao mal moral, tem-se o pecado. Este, por sua vez, depende da vontade, do livre-arb\u00edtrio. O homem \u00e9 livre e precisamente nisto reside a possibilidade de pecar, embora n\u00e3o seja o pecado elemento constituinte da ess\u00eancia mesma do livre-arb\u00edtrio. Assim como visto, Deus n\u00e3o \u00e9 o autor do mal, porque d\u2019Ele somente procede toda natureza e os atributos que a conservam, isto \u00e9, todas as coisas criadas de cujos atributos o mal \u00e9 a corrup\u00e7\u00e3o ou priva\u00e7\u00e3o. \u00c9 o homem, que por vontade livre corrompe a si mesmo e peca, o autor do mal. Todavia, isto n\u00e3o significa que a vontade humana seja, em sua ess\u00eancia, m\u00e1, tampouco os objetos do seu desejo, pois o mal n\u00e3o \u00e9 a inclina\u00e7\u00e3o a algo mau em vez de algo bom, mas sim a troca de um bem superior por um bem inferior, ou seja, uma invers\u00e3o na hierarquia de valores: quando se peca (e pecado, na compreens\u00e3o agostiniana, compreendido por afastar-se de Deus), troca-se o Sumamente Bom (Deus) por uma paix\u00e3o carnal, algo inferiormente bom.<\/p>\n<p>O mal moral \u00e9 o pecado. E o pecado depende de nossa m\u00e1 vontade [&#8230;] a m\u00e1 vontade n\u00e3o tem \u2018causa eficiente\u2019, mas, muito mais, uma \u2018causa deficiente\u2019. Por sua natureza, a vontade deveria tender para o bem supremo. Mas, como existem muitos bens criados e finitos, a vontade pode tender a eles e, subvertendo a ordem hier\u00e1rquica, pode preferir a criatura a Deus, preferindo os bens inferiores, aos bens superiores. Sendo assim, o mal deriva do fato de que n\u00e3o h\u00e1 um \u00fanico bem, e sim muitos bens, consistindo, precisamente, em uma escolha incorreta entre esses bens. O mal moral, portanto, \u00e9 \u2018aversio a Deo\u2019 e \u2018conversio ad creaturam\u2019. [&#8230;] O fato de se ter recebido de Deus uma vontade livre \u00e9 um grande bem. O mal \u00e9 o mau uso desse grande bem. [&#8230;] Por isso Agostinho pode dizer que \u2018o bem em mim \u00e9 obra tua, \u00e9 o teu dom; o mal em mim \u00e9 o meu pecado\u2019 (REALE; ANTISERI, 1990, p 456).<\/p>\n<p>Assim percebe-se que \u00e9 a vontade, ou liberdade, do homem que o leva ou n\u00e3o a pecar. Ent\u00e3o, tal vontade pode ser dividida em: boa vontade e m\u00e1 vontade. A boa vontade \u00e9 a vontade de viver em retid\u00e3o, o caminho da justi\u00e7a e da paz, junto a Deus. Desta forma Agostinho define a boa vontade e a coloca num patamar acima das riquezas, honras e prazeres do corpo. \u00c9 a boa vontade que garante ao homem condi\u00e7\u00f5es de fazer escolhas para o que \u00e9 eterno e imut\u00e1vel, da verdadeira alegria. O homem que faz uso da boa vontade, segundo Santo Agostinho, \u00e9 virtuoso e usar\u00e1 bem das virtudes: prud\u00eancia, for\u00e7a, temperan\u00e7a, justi\u00e7a.<\/p>\n<p>A m\u00e1 vontade se caracteriza pela concupisc\u00eancia, sendo adversa ao bem. Ela almeja as coisas temporais e terrenas. Ao fazer uso da m\u00e1 vontade, o homem cair\u00e1 numa vida infeliz, pois afastar-se-\u00e1 de Deus e pensar\u00e1 apenas em seu bem pr\u00f3prio, muitas vezes, para alcan\u00e7ar tal bem pr\u00f3prio, incorrendo em erros e em pecados. Disso, afirma-se que a vontade \u00e9 o que possibilita ao homem ir em dire\u00e7\u00e3o ao sumo Bem, ou ir em dire\u00e7\u00e3o \u00e0s coisas mut\u00e1veis; de pecar ou de n\u00e3o pecar; de praticar o mal, ou de n\u00e3o o praticar.<\/p>\n<p>Dentro do estatuto ontol\u00f3gico do mal em Agostinho, por fim existe o mal f\u00edsico. Este, compreendido por dores, sofrimentos, doen\u00e7as e morte, por sua vez. Significa, de modo gen\u00e9rico, consequ\u00eancia do pecado original, ou seja, \u00e9 uma consequ\u00eancia do mal moral.<\/p>\n<p>Se sabes ou acredita que Deus \u00e9 bom \u2013 e n\u00e3o nos \u00e9 permitido pensar de ouro modo-, Deus n\u00e3o pode praticar o mal. Por outro lado, se proclamamos ser ele justo \u2013 e neg\u00e1-lo seria blasf\u00eamias \u2013, Deus deve distribuir recompensas aos bons, assim como castigos aos maus. E por certo, tais castigos parecem males \u00e0queles que os padecem. (Agostinho, 1995, p. 25).<\/p>\n<p>Tudo o que se sofre, se padece, e que, em alguns casos, parece ser um mal, na verdade s\u00e3o apenas consequ\u00eancias do verdadeiro mal: o pecado \u2013 mal moral. \u201cA corrup\u00e7\u00e3o do corpo que pesa sobre a alma n\u00e3o \u00e9 a causa, mas a pena do primeiro pecado: n\u00e3o \u00e9 a carne corrupt\u00edvel que torna a alma pecadora, mas sim a alma pecadora que torna a carne corrupt\u00edvel.\u201d (REALE; ANTISERI, 1990, p. 456).<\/p>\n<p>Agostinho deixa claro que a causa de todos os males est\u00e1 relacionada com a cria\u00e7\u00e3o, mas em sua concep\u00e7\u00e3o, a natureza n\u00e3o \u00e9 respons\u00e1vel pelos pecados, pois est\u00e1 na vontade desregrada do homem a causa dos males. Se a vontade estivesse de acordo com a natureza, esta n\u00e3o lhe seria nociva e n\u00e3o seria desregrada. Assim, pode-se concluir que \u201ca raiz de todos os males n\u00e3o est\u00e1 na natureza. E isso basta, por enquanto, para refutarmos todos aqueles que pretendem responsabilizar a natureza dos seres pelos pecados. (AGOSTINHO, 1995, p. 206). A raiz dos males est\u00e1 na vontade desregrada do homem, na invers\u00e3o da hierarquia dos bens, no mau uso do livre-arb\u00edtrio.<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>CONCLUS\u00c3O<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>De acordo com o que foi apresentado, cumpre-se assim, a proposta deste trabalho: apenas servir de introdu\u00e7\u00e3o \u00e0 resposta ao problema do mal presente no pensamento de Santo Agostinho, atrav\u00e9s da elabora\u00e7\u00e3o de um estatuto ontol\u00f3gico do mal por parte deste autor. Sabe-se que, como algu\u00e9m que fez parte da seita manique\u00edsta por nove anos, Agostinho foi motivado pelo pensamento maniqueu a empreender sua jornada em busca de respostas.<\/p>\n<p>Em suma, pode-se dizer que a doutrina manique\u00edsta consiste na exist\u00eancia de dois reinos opostos, luz e trevas. Tal doutrina serviu de in\u00edcio para a refuta\u00e7\u00e3o do problema do mal, todavia sua fundamenta\u00e7\u00e3o te\u00f3rica resultou em algumas heresias \u00e0 f\u00e9 crist\u00e3 e alguns questionamentos permaneceram pendentes, o que levou o jovem Aur\u00e9lio Agostinho a abandonar a seita manique\u00edsta e, ap\u00f3s encontrar-se com Santo Ambr\u00f3sio, abra\u00e7ar definitivamente o Cristianismo, lan\u00e7ando sua pr\u00f3pria filosofia.<\/p>\n<p>Influenciado por Santo Ambr\u00f3sio e pelo neoplatonismo (principalmente Plotino), Agostinho apresenta sua refuta\u00e7\u00e3o ao manique\u00edsmo e tenta solucionar o problema do mal com uma explica\u00e7\u00e3o que serviu e serve at\u00e9 hoje como ponto de refer\u00eancia. O problema do mal, segundo Santo Agostinho, pode ser analisado atrav\u00e9s de tr\u00eas aspectos: metaf\u00edsico-ontol\u00f3gico; moral e f\u00edsico.<\/p>\n<p>O mal, na filosofia agostiniana, n\u00e3o \u00e9 fruto de Deus (j\u00e1 que \u00e9 sumamente bom e criador de tudo), mas sim fruto da vontade humana que se afasta de Deus, ou seja, \u00e9 uma consequ\u00eancia do livre-arb\u00edtrio.\u00a0 O mal moral, na vis\u00e3o de Santo Agostinho, consiste na invers\u00e3o de valores que o homem cria, colocando o Sumamente Bom \u2013 Deus \u2013 em segundo plano, deixando assim com que os bens inferiores \u2013 paix\u00f5es terrenas \u2013 assumam o seu lugar na hierarquia de valores humanos. Cometer o mal \u00e9 furtar-se aos bens menores e privar-se dos bens eternos. O que, para muitos resulta num mal, \u00e9 uma tentativa do homem de buscar um bem para si, todavia sem compreender o bem maior. A vontade do homem o guia para buscar esses bens: ora uma boa vontade, ora uma m\u00e1 vontade. Assim, a vontade humana possui uma autonomia que permite ao homem escolher at\u00e9 mesmo aquilo que n\u00e3o est\u00e1 em conformidade com a raz\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>REFER\u00caNCIAS <\/strong><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>AGOSTINHO, Santo. <em>A Natureza do Bem<\/em>. Rio de Janeiro: S\u00e9timo Selo, 2005.<\/p>\n<p>______. <em>Confiss\u00f5es.<\/em> Tradu\u00e7\u00e3o de Maria Luiza Jardim Amarante. S\u00e3o Paulo: Paulus, 2014.<\/p>\n<p>______. <em>O livre-arb\u00edtrio.<\/em> Tradu\u00e7\u00e3o, organiza\u00e7\u00e3o, introdu\u00e7\u00e3o e notas de Nair de Assis. 2. ed. S\u00e3o Paulo: Paulus, 1995.<\/p>\n<p>BOEHNER, Philotheus. GILSON, Etienne. <em>Hist\u00f3ria da filosofia crist\u00e3<\/em>: Desde as Origens at\u00e9 Nicolau de Cusa. Tradu\u00e7\u00e3o e nota introdut\u00f3ria de Raimundo Vier. 5. ed. Petr\u00f3polis: Vozes, 1991.<\/p>\n<p>EVANS. G. R.\u00a0 <em>Agostinho sobre o mal<\/em>. Tradu\u00e7\u00e3o de Jo\u00e3o Resende Costa. S\u00e3o Paulo: Paulus, 1995.<\/p>\n<p>REALE, Giovanni. ANTISERI, Dario. <em>Hist\u00f3ria da filosofia<\/em>: Antiguidade e Idade M\u00e9dia. 3. ed. S\u00e3o Paulo: Paulus, 1990.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/wp-admin\/post-new.php#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">*<\/a> Graduando em Filosofia na FAM<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Carlos Geovane Nunes Magri * &nbsp; Resumo: O presente artigo pretende servir de introdu\u00e7\u00e3o \u00e0 via de resolu\u00e7\u00e3o do problema do mal existente na filosofia de Santo Agostinho. 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