{"id":2730,"date":"2018-10-30T07:56:52","date_gmt":"2018-10-30T10:56:52","guid":{"rendered":"http:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/?p=2730"},"modified":"2018-10-30T07:56:52","modified_gmt":"2018-10-30T10:56:52","slug":"ontologia-e-o-movimento-em-aristoteles","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/?p=2730","title":{"rendered":"ONTOLOGIA E O MOVIMENTO EM ARIST\u00d3TELES"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\">Carlos Geovane Nunes Magri <a href=\"http:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/wp-admin\/post-new.php#_ftn1\" name=\"_ftnref1\"><sup>*<\/sup><\/a><\/p>\n<p><strong>Resumo: <\/strong>O presente artigo visa a justifica\u00e7\u00e3o do movimento segundo a filosofia de Arist\u00f3teles, e assim responder a seguinte pergunta: o movimento realmente existe? Os fil\u00f3sofos eleatas estabeleceram n\u00e3o existir movimento, pois a exist\u00eancia deste exigiria a coexist\u00eancia de um \u201cn\u00e3o ser\u201d. Arist\u00f3teles, na \u201cF\u00edsica\u201d e na \u201cMetaf\u00edsica\u201d, analisa alguns aspectos da filosofia eleata e da atomista \u2013 ora refutando, ora apoiando, j\u00e1 que eram at\u00e9 ent\u00e3o aceitas \u2013 e desenvolve sua ontologia, resolvendo de modo louv\u00e1vel esta problem\u00e1tica e comprovando a exist\u00eancia do movimento, ao passo que admite a inexist\u00eancia do \u201cn\u00e3o-ser\u201d no sentido eleata. Em verdade, Arist\u00f3teles retoma, de modo concreto e sistematizado, a unidade entre o pensamento e a realidade, distanciados entre si pelos eleatas. O presente artigo est\u00e1 estruturado em tr\u00eas partes: a) Ontologia e Movimento em alguns fil\u00f3sofos precedentes de Arist\u00f3teles \u2013 os eleatas Parm\u00eanides e Zen\u00e3o e os atomistas Dem\u00f3crito e Leucipo; b) Estrutura Ontol\u00f3gica da Filosofia de Arist\u00f3teles; e c) Justifica\u00e7\u00e3o do Movimento em Arist\u00f3teles.<\/p>\n<p><strong>Palavras chaves:<\/strong> Movimento. Ontologia. F\u00edsica. Metaf\u00edsica. Arist\u00f3teles.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>INTRODU\u00c7\u00c3O<\/strong><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>No desenvolver da filosofia antiga, os fil\u00f3sofos eleatas, representados principalmente em Parm\u00eanides e Zen\u00e3o, afirmaram que era imposs\u00edvel existir o movimento, pois como tudo \u00e9 uno e permanece inalter\u00e1vel, as coisas permanecem completamente im\u00f3veis. Atrav\u00e9s do desenvolvimento de sua filosofia, os eleatas estruturaram tamb\u00e9m toda uma ontologia, de modo gen\u00e9rico, resumida em afirmar que o ser existe e o n\u00e3o-ser n\u00e3o existe, sendo o ser imperec\u00edvel e indivis\u00edvel \u2013 ou seja, uno, cont\u00ednuo e eterno. Com isso, os eleatas afirmavam que, para o movimento existir, ele deveria ocorrer no n\u00e3o-ser (vazio). Visto que este n\u00e3o existe, n\u00e3o h\u00e1 movimento. Ao criarem tais afirma\u00e7\u00f5es, os eleatas pretendiam representar o distanciamento entre o pensamento e a realidade, n\u00e3o ligando, assim, o conhecimento ao sensorial.<\/p>\n<p>Para n\u00f3s, conceber a inexist\u00eancia de um movimento \u00e9 instigante e, em alguns pontos, at\u00e9 rid\u00edculo, pois podemos pensar: como n\u00e3o h\u00e1 movimento se agora mesmo estou eu a caminhar? Todavia, os argumentos apresentados pelos eleatas s\u00e3o em verdade consider\u00e1veis e at\u00e9 em alguns pontos, convincentes. Como ent\u00e3o resolver esta situa\u00e7\u00e3o? Ser\u00e1 que o movimento realmente n\u00e3o existe?<\/p>\n<p>Para que, de fato, consigamos compreender se o movimento realmente existe ou se \u00e9 apenas uma ilus\u00e3o, devemos nos embasar na filosofia de Arist\u00f3teles, que foi quem se destacou por refutar os argumentos eleatas e reintegrar o conhecimento ao sensorial. Arist\u00f3teles, tanto na \u201cF\u00edsica\u201d quanto na \u201cMetaf\u00edsica\u201d, apresenta sua estrutura ontol\u00f3gica, abarcando os principais pontos do \u201cser\u201d e a possibilidade de um certo \u201cn\u00e3o-ser\u201d. Com isso, ele torna poss\u00edvel dar um outro passo, que \u00e9 a justifica\u00e7\u00e3o do movimento, mostrando que este realmente existe.<\/p>\n<p>Compreendido isto, para justificarmos o movimento, primeiramente analisaremos a estrutura ontol\u00f3gica e do movimento nos fil\u00f3sofos eleatas \u2013 que geraram o problema da inexist\u00eancia do movimento \u2013 e tamb\u00e9m nos atomistas, que foram os primeiros a tentarem justificar o movimento ap\u00f3s a sua nega\u00e7\u00e3o total. Feito isso, passaremos a uma breve an\u00e1lise da estrutura ontol\u00f3gica aristot\u00e9lica. Por fim, justificaremos o movimento segundo a filosofia de Arist\u00f3teles, apenas nos limitando a responder \u00e0 uma pergunta: o movimento existe? N\u00e3o \u00e9 nosso objetivo entrarmos em detalhes sobre o movimento segundo Arist\u00f3teles, todas as suas caracter\u00edsticas ou suas possibilidades: nosso objetivo maior \u00e9 apenas provar sua exist\u00eancia.<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>1 ONTOLOGIA E MOVIMENTO EM ALGUNS FIL\u00d3SOFOS PRECEDENTES DE ARIST\u00d3TELES<\/strong><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Para que compreendamos os passos dados por Arist\u00f3teles em seu caminho percorrido na justifica\u00e7\u00e3o do movimento atrav\u00e9s da quest\u00e3o do \u201cser\u201d, devemos compreender qual a concep\u00e7\u00e3o ontol\u00f3gica e do movimento contidas na filosofia de alguns de seus predecessores, j\u00e1 que parte importante da filosofia aristot\u00e9lica, na quest\u00e3o ontol\u00f3gica e do movimento, consistir\u00e1 na refuta\u00e7\u00e3o ou na reafirma\u00e7\u00e3o de alguns conceitos outrora ditos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>1.1 Parm\u00eanides<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A estrutura ontol\u00f3gica por detr\u00e1s do pensamento de Parm\u00eanides refere-se a uma l\u00f3gica material, ligando diretamente ao f\u00edsico a quest\u00e3o do ser. Parm\u00eanides, atrav\u00e9s de seu poema \u201cSobre a Natureza\u201d, apresenta o caminho da verdade absoluta, caminho em que se encontra o grande princ\u00edpio da filosofia e, mais especificamente, da ontologia de Parm\u00eanides: \u201co ser \u00e9 e n\u00e3o pode n\u00e3o ser; o n\u00e3o ser n\u00e3o \u00e9 e n\u00e3o pode ser de modo algum\u201d. (REALE, 1994, p. 107). No poema, Parm\u00eanides diz:<\/p>\n<p>Anda da\u00ed e eu te direi (e tu trata de levares as minhas palavras contigo, depois de as teres escutado) os \u00fanicos caminhos da investiga\u00e7\u00e3o em que importa pensar. Um, [aquilo] que \u00e9 e que [lhe] \u00e9 imposs\u00edvel n\u00e3o ser, \u00e9 a via da Persuas\u00e3o (por ser companheira da Verdade); o outro, [aquilo] que n\u00e3o \u00e9 e que for\u00e7oso se torna que n\u00e3o exista, esse te declaro eu que \u00e9 uma vereda totalmente indiscern\u00edvel, pois n\u00e3o poder\u00e1s conhecer o que n\u00e3o \u00e9 \u2013 tal n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel \u2013 nem exprim\u00ed-lo por palavras. (PARM\u00caNIDES apud KIRK; RAVEN; SCHOFIELD 2010, p. 255).<\/p>\n<p>Segundo Parm\u00eanides, ser e n\u00e3o-ser s\u00e3o considerados integralmente: o ser \u00e9 plenitude, como o \u201cpositivo\u201d, e o n\u00e3o-ser \u00e9 a absoluta abstin\u00eancia, o plenamente escasso, como o \u201cnegativo\u201d. E um priva-se ao outro, n\u00e3o se correlacionando ou coexistindo; positivo totalmente, negativo totalmente. Muitos a isto atestam ser o in\u00edcio do princ\u00edpio de n\u00e3o-contradi\u00e7\u00e3o (contradit\u00f3rios n\u00e3o coexistirem simultaneamente). Nesse caso, ser e n\u00e3o-ser, contr\u00e1rios extremos, n\u00e3o coexistem: se existe o ser, \u00e9 imposs\u00edvel existir o n\u00e3o-ser.<\/p>\n<p>Para os gregos, o mundo era inteiro, uma totalidade: n\u00e3o havia espa\u00e7o vazio. O nada \u2013 n\u00e3o-ser \u2013 \u00e9 imposs\u00edvel. Apenas o ser \u00e9 pens\u00e1vel, cognosc\u00edvel, capaz de ser dito \u2013 demonstrado. Quanto ao n\u00e3o-ser, este \u00e9 totalmente impens\u00e1vel, incognosc\u00edvel e incapaz de ser dito \u2013 n\u00e3o demonstr\u00e1vel; desse modo, ser e pensar s\u00e3o quase que coincidentes. Parm\u00eanides, posteriormente, rejeita diretamente o n\u00e3o-ser, ao afirmar:<\/p>\n<p>Nunca foi nem ser\u00e1, pois agora \u00e9 como um todo, um s\u00f3, cont\u00ednuo. Pois que origem lhe poder\u00e1s buscar? Como e donde cresceu? N\u00e3o te permitirei que digas ou que penses a partir do que n\u00e3o \u00e9: <em>pois \u00e9 indiz\u00edvel e impens\u00e1vel o que n\u00e3o \u00e9<\/em>. (PARM\u00caNIDES apud KIRK; RAVEN; SCHOFIELD 2010, p. 260, grifo nosso).<\/p>\n<p>Com a rejei\u00e7\u00e3o do n\u00e3o-ser na quest\u00e3o ontol\u00f3gica, Parm\u00eanides segue adiante com sua filosofia e agora aborda a quest\u00e3o do movimento. Se n\u00e3o h\u00e1 n\u00e3o-ser, o ser n\u00e3o tem uma g\u00eanese, j\u00e1 que isto suporia ser ele n\u00e3o-ser anteriormente. Segue-se o mesmo quanto a corrup\u00e7\u00e3o: se um dia se deixa de ser, tornar-se-\u00e1 n\u00e3o-ser; mas, o n\u00e3o-ser n\u00e3o existe. Disso compreende-se que o ser deve ser ing\u00eanito e incorrupt\u00edvel, sem passado ou sem futuro, um eterno sem fim. E, se o n\u00e3o-ser \u00e9 eterno, n\u00e3o incorre em mudan\u00e7a; logo, n\u00e3o sofre movimento.<\/p>\n<p>Uma s\u00f3 via resta ao discurso: que \u00e9. Sobre esta via existem muitos sinais indicadores: que o ser \u00e9 ing\u00eanito e tamb\u00e9m imperec\u00edvel: pois \u00e9 um todo, <em>im\u00f3vel<\/em> e sem fim; nem era nem ser\u00e1, pois \u00e9 todo agora, uno, cont\u00ednuo. (PARM\u00caNIDES apud REALE, 1994, p. 109, grifo nosso).<\/p>\n<p>Diante disso, podemos inferir que a ontologia segundo Parm\u00eanides estipula a inexist\u00eancia do n\u00e3o-ser e, a partir disto, desenvolve-se a inexist\u00eancia do movimento. Para Parm\u00eanides, o ser \u00e9 imut\u00e1vel e absolutamente im\u00f3vel. \u201cEle \u00e9 perfeito e acabado e, como tal, n\u00e3o carece e n\u00e3o tem necessidade de nada e, por isso, permanece em si mesmo id\u00eantico no id\u00eantico.\u201d (Reale, 1994, p.109).<\/p>\n<p>N\u00e3o se pensava em buscar uma solu\u00e7\u00e3o diretamente para a quest\u00e3o do n\u00e3o-ser; como uma quest\u00e3o j\u00e1 presente como que cristalizada no pensamento grego, preferia-se afastar de tal pensamento e assim negar as consequ\u00eancias que ele trazia consigo, como o pr\u00f3prio movimento. \u201cPois nunca \u00e0 for\u00e7a ser\u00e1 mantida a demonstra\u00e7\u00e3o de que existe o que n\u00e3o \u00e9, mas deves afastar o teu pensamento desta via de investiga\u00e7\u00e3o\u201d (PARM\u00caNIDES apud KIRK; RAVEN; SCHOFIELD 2010, p. 258).<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>1.2 Zen\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Zen\u00e3o de El\u00e9ia foi disc\u00edpulo de Parm\u00eanides e, possivelmente, seu sucessor na escola. As teses de Parm\u00eanides foram bastante criticadas, ao passo que seus advers\u00e1rios as atacavam nos pontos que mais pareciam opor-se ao experimental; pontos como a nega\u00e7\u00e3o do movimento e da gera\u00e7\u00e3o, e da multiplicidade \u2013 j\u00e1 que, para Parm\u00eanides, tudo \u00e9 uno. Zen\u00e3o viu-se na obriga\u00e7\u00e3o de defender as teorias de Parm\u00eanides atrav\u00e9s de refuta\u00e7\u00f5es \u00e0s teses contr\u00e1rias. Com Zen\u00e3o, nasce o que, na L\u00f3gica contempor\u00e2nea, reconhece-se por m\u00e9todo da demonstra\u00e7\u00e3o atrav\u00e9s da redu\u00e7\u00e3o ao absurdo da tese contradit\u00f3ria.<\/p>\n<p>Como um bom disc\u00edpulo de Parm\u00eanides, Zen\u00e3o desacreditava tamb\u00e9m a exist\u00eancia de um n\u00e3o-ser para assim, posteriormente, lan\u00e7ar a sua tese mais conhecida \u2013 atrav\u00e9s de seus paradoxos que representavam um distanciamento entre pensamento e realidade \u2013 que \u00e9 a nega\u00e7\u00e3o do movimento. S\u00e3o propostos por Zen\u00e3o quatro paradoxos para a demonstra\u00e7\u00e3o da inexist\u00eancia de movimento: da dicotomia; de Aquiles; da flecha e do est\u00e1dio. Para a compreens\u00e3o da quest\u00e3o do movimento em Zen\u00e3o, basta-nos o primeiro argumento (Simpl\u00edcio apud REALE, 1994, p. 119):<\/p>\n<p>O primeiro argumento \u00e9 este: se existe o movimento, \u00e9 necess\u00e1rio que o m\u00f3vel percorra infinitos espa\u00e7os num tempo finito; mas isso \u00e9 imposs\u00edvel; portanto, o movimento n\u00e3o existe. Zen\u00e3o demonstrava a sua proposi\u00e7\u00e3o afirmando que o que se move deve percorrer certa dist\u00e2ncia: mas sendo toda dist\u00e2ncia divis\u00edvel ao infinito, o que se move deve primeiro atravessar a metade da dist\u00e2ncia que percorre e depois o todo. Mas antes de ter percorrido toda a metade da dist\u00e2ncia, deve atravessar a metade daquela e de novo a metade dessa \u00faltima. Mas se as metades s\u00e3o infinitas pelo fato de que \u00e9 poss\u00edvel tomar a metade de qualquer dist\u00e2ncia, \u00e9 imposs\u00edvel percorrer num tempo finito infinitas dist\u00e2ncias [&#8230;]. Ent\u00e3o, dado que toda grandeza admite divis\u00f5es infinitas, \u00e9 imposs\u00edvel percorrer qualquer grandeza num tempo finito.<\/p>\n<p>Diante de tal argumento, compreende-se que, para Zen\u00e3o, devido a divisibilidade infinita de grandezas, no caso, da medida da dist\u00e2ncia, faz-se imposs\u00edvel a exist\u00eancia do movimento. Para atingir um alvo, um corpo deve primeiro chegar a metade, todavia, para chegar a essa metade, deve alcan\u00e7ar a metade dessa mesma metade, e assim procede-se sucessivamente <em>ad infinitum<\/em>, pois sempre haver\u00e1 uma metade doutra metade.<\/p>\n<p>O mesmo acontece com os demais paradoxos criados por Zen\u00e3o: todos estipulam situa\u00e7\u00f5es que concorrem para a nega\u00e7\u00e3o do movimento. No caso da flecha, por exemplo, demonstra que uma flecha, que se acredita estar em movimento, est\u00e1 parada. Isto, porque em cada parte de tempo divis\u00edvel durante o voo da flecha, ela est\u00e1 ocupando um espa\u00e7o igual ao seu. Se algo que ocupa o espa\u00e7o igual ao seu est\u00e1 em repouso, a flecha estar\u00e1 em repouso em cada instante de tempo. (REALE, 1994, p. 120).<\/p>\n<p>At\u00e9 aqui, percorremos as quest\u00f5es ontol\u00f3gicas e de movimento dos eleatas Parm\u00eanides e Zen\u00e3o que, ao negarem a exist\u00eancia de um n\u00e3o-ser, afirmando-se assim a unidade das coisas, invalidaram tamb\u00e9m a exist\u00eancia de qualquer movimento. H\u00e1, at\u00e9 ent\u00e3o, uma estreita rela\u00e7\u00e3o entre n\u00e3o-ser e o movimento: este \u00e9 condi\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria daquele, que por sua vez \u00e9 condi\u00e7\u00e3o suficiente para este.<\/p>\n<p>Melisso de Samos, considerado como o \u201csistematizador do pensamento eleata\u201d, sintetiza e sistematiza de modo louv\u00e1vel o pensamento de Parm\u00eanides \u2013 defendido dialeticamente por Zen\u00e3o \u2013 e assim a rela\u00e7\u00e3o entre o n\u00e3o-ser e a inexist\u00eancia de movimento. Segue-se a cita\u00e7\u00e3o de Melisso<a href=\"http:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/wp-admin\/post-new.php#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[1]<\/a> (apud REALE, 1994, p. 127):<\/p>\n<p>E n\u00e3o existe nenhum vazio: de fato, o vazio \u00e9 nada; e o que \u00e9 nada n\u00e3o pode ser. E o ser tamb\u00e9m n\u00e3o se move; de fato, n\u00e3o pode deslocar-se para algum lugar, mas \u00e9 pleno. Com efeito, se existisse o vazio, ele poderia deslocar-se no vazio; mas, como n\u00e3o existe vazio, n\u00e3o h\u00e1 para onde ele possa deslocar-se.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>1.3 Leucipo e Dem\u00f3crito<\/strong><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Os atomistas tentam conciliar a raz\u00e3o e a experi\u00eancia sensorial, ao contr\u00e1rio do que Zen\u00e3o, com seus paradoxos, conseguiu realizar: dist\u00e2ncia entre pensamento e realidade. Leucipo, inicialmente, havia se associado \u00e0 filosofia de Parm\u00eanides; todavia, sua vis\u00e3o demonstra que trilhou um caminho totalmente oposto. Quanto a Dem\u00f3crito, acredita-se que foi disc\u00edpulo de Leucipo. \u00c9 geralmente aceito que o fundador da base da teoria at\u00f4mica \u00e9 Leucipo e que Dem\u00f3crito, como seu disc\u00edpulo, primeiramente aprendeu os fundamentos dessa teoria que, pouco a pouco, com a rela\u00e7\u00e3o disc\u00edpulo-mestre, ia se desenvolvendo e se fixando. De Leucipo, poucos s\u00e3o os fragmentos que chegaram at\u00e9 hoje; de Dem\u00f3crito, muitos chegaram por forma de testemunhos recolhidos em Diels-Kranz. Dem\u00f3crito, como figura \u00edmpar do atomismo da qual mais relatos nos chegaram hoje, \u00e9 por vezes considerado um precursor de Arist\u00f3teles, que o cita frequentemente, utilizando alguma parte da filosofia atomista para justificar a sua, lidando com claro respeito.<\/p>\n<p>Quanto a teoria atomista em si, esta parte inicialmente da releitura do pensamento eleata quanto a ontologia e a quest\u00e3o da unidade do mundo: o Universo \u00e9 cont\u00ednuo, \u00e9 uno. A respeito da ontologia, essa se v\u00ea expressa e bem justificada em um testemunho citado por Arist\u00f3teles<a href=\"http:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/wp-admin\/post-new.php#_ftn3\" name=\"_ftnref3\">[2]<\/a> (apud KIRK; RAVEN; SCHOFIELD 2010, p. 437, grifo nosso):<\/p>\n<p>Leucipo e seu companheiro Dem\u00f3crito sustentam que os elementos s\u00e3o o cheio e o vazio, aos quais d\u00e3o o nome de o que \u00e9 e o que n\u00e3o \u00e9, respectivamente. O que \u00e9 \u00e9 cheio e s\u00f3lido, o que n\u00e3o \u00e9 \u00e9 vazio e subtil. Visto o vazio existir em n\u00e3o menor grau que o corpo, segue-se que <em>o que n\u00e3o \u00e9 n\u00e3o existe menos do que o que \u00e9<\/em>. Os dois juntos constituem as causas materiais das coisas existentes.<\/p>\n<p>Atrav\u00e9s deste testemunho, Arist\u00f3teles demonstra que para os atomistas o n\u00e3o-ser existe e como tal em mesma propor\u00e7\u00e3o que o ser. Para que se compreenda a teoria atomista, deve-se ter claro que a ideia de \u00e1tomo por eles compreendida n\u00e3o equivale totalmente a no\u00e7\u00e3o at\u00f4mica da qu\u00edmica moderna. \u00c1tomo, nesse contexto equivale a uma unidade indivis\u00edvel e completa, t\u00e3o pequena que n\u00e3o pode ser vista. \u00c9 pleno e \u00fanico (uno): \u00e9 como a ideia do uno de Parm\u00eanides, todavia em uma escala incrivelmente menor. N\u00e3o \u00e9 o Universo que \u00e9 uno, mas sim seus in\u00fameros constituintes; o Universo \u00e9 m\u00faltiplo, plural, constitu\u00eddo de in\u00fameros \u00e1tomos (in\u00fameros \u201cunos\u201d) arranjados entre si. O que conjugava a diferen\u00e7a entre os corpos, a pluralidade das coisas, n\u00e3o \u00e9 o pr\u00f3prio ser em si, mas sim o seu arranjo, a sua disposi\u00e7\u00e3o: o ordenamento entre o ser e o n\u00e3o-ser; entre o \u00e1tomo e o vazio.<\/p>\n<p>Com esse rompimento com o pensamento dos eleatas, Leucipo e Dem\u00f3crito abrem um novo espa\u00e7o dentro da filosofia. Agora, o movimento n\u00e3o necessitaria de ser negado, mas sim encontra um espa\u00e7o, uma justifica\u00e7\u00e3o. Melisso, como sistematizador dos eleatas, cria sua hip\u00f3tese negativa atrav\u00e9s de uma contraposi\u00e7\u00e3o dial\u00e9tica de pleno e vazio; Leucipo constitui sua concep\u00e7\u00e3o at\u00f4mica invertendo a hip\u00f3tese de Melisso, assim positivando-a. Assim, Leucipo liga a possibilidade de movimento ao vazio. Temos:<\/p>\n<p>Assim, Leucipo e Dem\u00f3crito, que dizem que <em>os seus corpos prim\u00e1rios est\u00e3o sempre em movimento no vazio infinito<\/em>, deviam especificar de que esp\u00e9cie de movimento se tratava \u2013 isto \u00e9, qual \u00e9 o movimento que lhes \u00e9 natural. (ARIST\u00d3TELES<a href=\"http:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/wp-admin\/post-new.php#_ftn4\" name=\"_ftnref4\">[3]<\/a> apud KIRK; RAVEN; SCHOFIELD 2010, p. 447, grifo nosso).<\/p>\n<p>Aqui \u00e9 apresentado pela a teoria at\u00f4mica, de fato, o movimento, conciliando experi\u00eancia sensorial e raz\u00e3o. Todavia, como Arist\u00f3teles apresenta, Leucipo e Dem\u00f3crito n\u00e3o se preocuparam em dar quaisquer explica\u00e7\u00f5es do movimento original dos \u00e1tomos, restando-nos julgar apenas que tal movimento sempre existiu e, sucessivamente, sempre houve colis\u00f5es entre esses \u00e1tomos. Ent\u00e3o, gera\u00e7\u00e3o e corrup\u00e7\u00e3o n\u00e3o s\u00e3o \u201crumar para o\u201d ou \u201csurgir do\u201d nada, mas sim um rearranjo dos \u00e1tomos, que est\u00e3o em cont\u00ednuo movimento, ora se ajuntando (gera\u00e7\u00e3o), ora se afastando (corrup\u00e7\u00e3o).<\/p>\n<p>Com isso, conclu\u00edmos a jornada atrav\u00e9s de alguns predecessores de Arist\u00f3teles que se arriscaram no campo da ontologia e do movimento. Percebemos aqui uma contradi\u00e7\u00e3o entre os eleatas e os atomistas. Os atomistas, refutando os eleatas, justificam a exist\u00eancia do movimento atrav\u00e9s da exist\u00eancia do n\u00e3o-ser (at\u00e9 ent\u00e3o negada pelo pensamento grego).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>2 ESTRUTURA ONTOL\u00d3GICA DA FILOSOFIA DE ARIST\u00d3TELES<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Arist\u00f3teles, tanto em partes na sua obra F\u00edsica, quanto, principalmente, na Metaf\u00edsica, desenvolve de modo brilhante seu pensamento ontol\u00f3gico. Para que possamos, de fato, justificar o movimento em Arist\u00f3teles, faz-se necess\u00e1rio contemplarmos, mesmo que apenas em partes, sua ontologia, perpassando brevemente seus principais pontos. A compreens\u00e3o m\u00ednima da ontologia aristot\u00e9lica \u00e9 necess\u00e1ria para comprovar, por certo, o movimento pois este foi negado pelos predecessores de Arist\u00f3teles apenas por uma \u201cquest\u00e3o do ser\u201d: a inexist\u00eancia do n\u00e3o-ser.<\/p>\n<p>O primeiro passo a ser dado na ontologia de Arist\u00f3teles \u00e9 compreender, de fato, o que \u00e9 o \u201cser\u201d para este fil\u00f3sofo. Parm\u00eanides, juntamente com todo o eleatismo, prop\u00f4s que o ser s\u00f3 podia ser concebido enquanto uno, num \u00fanico sentido, assim, imobilizando-o. No primeiro livro da \u201cF\u00edsica\u201d, Arist\u00f3teles encontra a raiz do erro presente nessa afirma\u00e7\u00e3o defendida pelos eleatas, e formula a refuta\u00e7\u00e3o que serve de base para toda a sua ontologia:<\/p>\n<p>Alguns nos transmitiram ambos argumentos: a) o que afirma que tudo \u00e9 uno, se o \u201cser\u201d significa apenas uma coisa, supondo-se que o que \u00e9 n\u00e3o existe, e b) o argumento da dicotomia, que sup\u00f5e grandezas indivis\u00edveis. Mas, evidentemente, n\u00e3o \u00e9 verdade que, se \u201cser\u201d significa apenas uma coisa e n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel ao mesmo tempo a contradi\u00e7\u00e3o, ent\u00e3o o n\u00e3o-ser n\u00e3o \u00e9. Porque nada impede que haja, n\u00e3o o n\u00e3o-ser absoluto, mas um certo n\u00e3o-ser. Al\u00e9m disso, \u00e9 absurdo dizer que tudo \u00e9 Uno porque n\u00e3o pode haver nada fora do pr\u00f3prio ser. Pois, o que se pode entender pelo ser mesmo, sen\u00e3o o que propriamente \u00e9? Mas se isto \u00e9 assim, nada impede que as coisas sejam m\u00faltiplas. <em>\u00c9 evidente, ent\u00e3o, que o ser n\u00e3o pode ser uno nesse sentido<\/em>.<a href=\"http:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/wp-admin\/post-new.php#_ftn5\" name=\"_ftnref5\">[4]<\/a> (ARIST\u00d2TELES, F I 3, 187a, tradu\u00e7\u00e3o e grifo nossos) <a href=\"http:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/wp-admin\/post-new.php#_ftn6\" name=\"_ftnref6\"><sup>[5]<\/sup><\/a><\/p>\n<p>Arist\u00f3teles afirma assim que o ser n\u00e3o \u00e9 uno, mas sim m\u00faltiplo. N\u00e3o h\u00e1 mais a concep\u00e7\u00e3o de um universo constitu\u00eddo por um cont\u00ednuo, mas sim um universo m\u00faltiplo. O ser assim sendo m\u00faltiplo, possui in\u00fameros significados, todavia, n\u00e3o \u00e9 equ\u00edvoco. O ser deve ser compreendido como via intermedi\u00e1ria entre un\u00edvoco e equ\u00edvoco (REALE, 1994, p. 342). Todos os significados da multiplicidade do ser relacionam-se, de alguma maneira com algo em comum: com a subst\u00e2ncia. Subst\u00e2ncia, de forma gen\u00e9rica, \u00e9 compreendida pela conjuga\u00e7\u00e3o entre \u201cforma, mat\u00e9ria e s\u00ednolo (uni\u00e3o de mat\u00e9ria e forma, concreta, individual)\u201d, a natureza interior das coisas, o que \u00e9 ou ess\u00eancia \u00edntima das mesmas (ARIST\u00d3TELES, M Z 4) <a href=\"http:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/wp-admin\/post-new.php#_ftn7\" name=\"_ftnref7\">[6]<\/a>. \u00c9 como o dizer saud\u00e1vel, que engloba tudo aquilo que diz respeito \u00e0 sa\u00fade: conserv\u00e1-la, produzi-la, receb\u00ea-la; enfim, os muitos sentidos do termo saud\u00e1vel s\u00e3o todos relacionados com a sa\u00fade. \u00a0(ARIST\u00d3TELES, M G 2, 1003a).<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, com a afirma\u00e7\u00e3o supracitada, Arist\u00f3teles tamb\u00e9m afirma a exist\u00eancia de um certo n\u00e3o-ser (o que exigir\u00e1 a compreens\u00e3o de ato e pot\u00eancia, j\u00e1 que a concep\u00e7\u00e3o de n\u00e3o-ser, em Arist\u00f3teles, n\u00e3o \u00e9 completamente do modo parmediano), ao dizer que este n\u00e3o \u00e9 impedido por nada de existir. Aqui \u00e9 exigida determinada aten\u00e7\u00e3o, pois o n\u00e3o-ser compreendido no seu sentido eleata, postulado principalmente por Parm\u00eanides, \u00e9 vazio, \u00e9 \u201cn\u00e3o-natureza\u201d. Neste ponto, Arist\u00f3teles tamb\u00e9m afirma a impossibilidade deste n\u00e3o-ser, repetimos, aqui compreendido como n\u00e3o-natureza, como vazio: \u201cFique claro, ent\u00e3o, pelas considera\u00e7\u00f5es anteriores, que n\u00e3o existe um vazio separado.\u201d (ARIST\u00d3TELES, F IV, 8 216b, tradu\u00e7\u00e3o nossa)<a href=\"http:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/wp-admin\/post-new.php#_ftn8\" name=\"_ftnref8\">[7]<\/a>. O n\u00e3o-ser que Arist\u00f3teles permite existir \u00e9 um ser em pot\u00eancia, ou seja, um certo n\u00e3o-ser, um n\u00e3o-ser relativo. Este \u00e9 um dos pontos centrais que pretendemos alcan\u00e7ar na ontologia aristot\u00e9lica: ao contr\u00e1rio dos eleatas, n\u00e3o \u00e9 imposs\u00edvel se conceber um certo n\u00e3o-ser, posteriormente mais explicado como \u201cser em pot\u00eancia\u201d.<\/p>\n<p>Nota-se aqui certa discord\u00e2ncia e, ao mesmo tempo, concord\u00e2ncia entre o pensamento atomista e o pensamento de Arist\u00f3teles. Apesar de o autor n\u00e3o aceitar completamente as ideias atomistas (o vazio) e reconhecer que estes negligenciaram um ponto importante que \u00e9 saber de onde deriva e como existe nos seres o movimento, reconhece parte dos estudos dos atomistas como concretos e fundantes para sua filosofia, a ponto de fazer uso de cita\u00e7\u00f5es dos atomistas em sua obra:<\/p>\n<p>Porque alguns dos antigos fil\u00f3sofos [eleatas] conceberam o ser como necessariamente uno e im\u00f3vel: diziam, com efeito, que o vazio \u00e9 o n\u00e3o-ser, e n\u00e3o podia, portanto, haver movimento, n\u00e3o existindo o vazio separado; nem podia existir a multiplicidade, n\u00e3o havendo nada que separasse as coisas [&#8230;]. Leucipo, ao inv\u00e9s, afirma ter encontrado a via de racioc\u00ednios que, dando uma explica\u00e7\u00e3o de acordo com a percep\u00e7\u00e3o sens\u00edvel, n\u00e3o levasse a negar nem a gera\u00e7\u00e3o nem a destrui\u00e7\u00e3o nem o movimento nem a multiplicidade das coisas. Enquanto, de um lado, ele faz concordar a sua doutrina com os fen\u00f4menos, de outro, aos que sustentam o Uno porque n\u00e3o pode existir o movimento sem o vazio, ele concede que o vazio \u00e9 n\u00e3o-ser e que do Ser nada \u00e9 n\u00e3o-ser, pois o Ser em sentido pr\u00f3prio \u00e9 absolutamente pleno. Mas esse absolutamente pleno n\u00e3o \u00e9 uno, antes, um infinito n\u00famero de corpos, invis\u00edveis pela pequenez do seu volume. E estes corpos est\u00e3o em movimento no vazio (para ele, de fato, existe o vazio) e reunindo-se, d\u00e3o lugar \u00e0 gera\u00e7\u00e3o e, separando-se \u00e0 destrui\u00e7\u00e3o. [&#8230;] Os corpos, portanto, que se p\u00f5em em contato devem necessariamente ser indivis\u00edveis; e vazios os seus intervalos.\u00a0 (ARIST\u00d3TELES<a href=\"http:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/wp-admin\/post-new.php#_ftn9\" name=\"_ftnref9\">[8]<\/a> apud REALE, 1994, p. 152)<\/p>\n<p>Arist\u00f3teles afirma o chamado princ\u00edpio de n\u00e3o-contradi\u00e7\u00e3o: nada pode ser e n\u00e3o-ser ao mesmo tempo; formulado como lei do ser e do pensamento, indicando que este \u00e9 o princ\u00edpio entre todos os demais (ARIST\u00d3TELES, M, \u0393 1005 b 32-34). Todavia, em oposi\u00e7\u00e3o aos eleatas e em parcial conformidade com os atomistas, Arist\u00f3teles reconhece, relativamente, um certo n\u00e3o-ser como existente. N\u00e3o h\u00e1 aqui uma anula\u00e7\u00e3o ao afirmar o princ\u00edpio de contradi\u00e7\u00e3o \u2013 no qual o que \u00e9 \u00e9 e n\u00e3o pode n\u00e3o-ser \u2013 com a exist\u00eancia de certo n\u00e3o-ser.<\/p>\n<p>O que antes ficava apenas no sensorial e n\u00e3o conseguia ser conjugado pela raz\u00e3o (algo intensamente vivido pelos eleatas, principalmente Zen\u00e3o, que demonstraram um distanciamento entre raz\u00e3o e percep\u00e7\u00e3o sensorial), com os atomistas come\u00e7ou a ser raciocinado e em Arist\u00f3teles encontra sua mais perfeita sistematiza\u00e7\u00e3o. Fortificado por Arist\u00f3teles e ponto de reflex\u00e3o central para se compreender o movimento, o n\u00e3o-ser agora \u00e9 pens\u00e1vel, pelo menos de modo relativo. O n\u00e3o-ser em Arist\u00f3teles, todavia, n\u00e3o \u00e9 equivalente ao modelo dos atomistas. Como chave final de compreens\u00e3o da estrutura ontol\u00f3gica de Arist\u00f3teles, cabe agora a compreens\u00e3o de ato e pot\u00eancia. O ser \u00e9 o ser, de fato, em ato, e pode alcan\u00e7ar o ser, em pot\u00eancia.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, o ser ou o ente significa, por um lado, o ser em pot\u00eancia e, por outro, o ser em ato [&#8230;]. De fato, dizemos que v\u00ea tanto quem pode ver como quem v\u00ea em ato; e de maneira semelhante dizemos que sabe, tanto quem pode fazer uso do saber como quem faz uso dele em ato; e dizemos que est\u00e1 em repouso tanto quem j\u00e1 est\u00e1 em repouso como quem pode estar em repouso. Isso vale tamb\u00e9m para as subst\u00e2ncias: de fato, dizemos que um Hermes est\u00e1 na pedra e que a semirreta est\u00e1 na reta, e dizemos que \u00e9 trigo tamb\u00e9m o que ainda n\u00e3o est\u00e1 maduro. (ARIST\u00d3TELES, M \u0394 7, 1017b).<\/p>\n<p>Esta concep\u00e7\u00e3o de ato e pot\u00eancia se relaciona ao ser, em Arist\u00f3teles, na medida em que o ser pode ser compreendido como ser em ato, e o n\u00e3o-ser compreendido como o ser em pot\u00eancia. Assim, \u201crelativamente ao ser-em-ato, o ser em pot\u00eancia \u00e9 n\u00e3o-ser-em-ato\u201d (REALE, 2002, p. 75). \u00c9 o significado que o termo ser assume, em todos os usos precedentes, quando se entende dizer que esses est\u00e3o em pot\u00eancia. O exemplo de Hermes diz que sua imagem, antes de ser esculpida, est\u00e1 na pedra em pot\u00eancia. Ap\u00f3s ser esculpida, est\u00e1, de fato, em ato. Outro exemplo claro de ato e pot\u00eancia se d\u00e1 instrumentalmente com uma caneta. A caneta s\u00f3 a \u00e9, de fato, em ato, quando realiza sua finalidade de escrever. Enquanto produz, atrav\u00e9s da tinta, formas, a caneta realiza plenamente o que sua ess\u00eancia prescreve. Todavia, enquanto n\u00e3o est\u00e1 escrevendo, a caneta apenas a \u00e9 apenas em pot\u00eancia. Esta \u00e9 a chave da ontologia aristot\u00e9lica para se compreender o movimento: este ser em pot\u00eancia, reconhecido como n\u00e3o-ser de um modo relativo, n\u00e3o deve ser compreendido \u00e0 maneira dos atomistas.<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>3 JUSTIFICA\u00c7\u00c3O DO MOVIMENTO EM ARIST\u00d3TELES <\/strong><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Dentro da filosofia aristot\u00e9lica, trabalhado mais diretamente na \u201cF\u00edsica\u201d, o movimento tem um car\u00e1ter muito especial: \u00e9 a caracter\u00edstica fundante da realidade sens\u00edvel. E como tal, clara \u00e9 sua rela\u00e7\u00e3o com a natureza: \u201cposto que a natureza \u00e9 o princ\u00edpio do movimento e da mudan\u00e7a, e que nosso estudo versa sobre a natureza, n\u00e3o podemos deixar de investigar o que \u00e9 o movimento; porque se ignoramos o que \u00e9, necessariamente tamb\u00e9m ignoramos o que \u00e9 a natureza.\u201d (ARIST\u00d3TELES, F III, 1 200b, tradu\u00e7\u00e3o nossa)<a href=\"http:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/wp-admin\/post-new.php#_ftn10\" name=\"_ftnref10\">[9]<\/a>.<\/p>\n<p>Com essa afirma\u00e7\u00e3o, Arist\u00f3teles demonstra a necessidade de se compreender o movimento para se compreender a natureza, e estabelece a estrita rela\u00e7\u00e3o entre eles, a ponto de podermos afirmar que s\u00f3 h\u00e1 movimento na natureza (j\u00e1 que esta \u00e9 o princ\u00edpio do movimento). Assim, na n\u00e3o-natureza \u2013 o n\u00e3o-ser parmediano \u2013 n\u00e3o h\u00e1, de fato, o movimento, como atestaram os eleatas. Todavia, os eleatas tanto n\u00e3o conceberam outra forma de um certo n\u00e3o-ser, quanto n\u00e3o tentaram desvincular o movimento desta caracter\u00edstica e, separando o racional do sensorial, negligenciaram algo fundante \u00e0 natureza.<\/p>\n<p>Antes de conceituar o movimento ou sequer justifica-lo, devemos, ao menos, citar suas formas. Para Arist\u00f3teles, o movimento se d\u00e1: segundo a quantidade &#8211; o aumento e a diminui\u00e7\u00e3o \u2013 que se aplica aos seres vivos que, por exemplo, possuem uma estatura a atingir; segundo a qualidade, ou seja, a altera\u00e7\u00e3o: aplica-se, principalmente, \u00e0s qualidades sens\u00edveis, indo de um contr\u00e1rio ao outro; e segundo o lugar, assim, movimento percept\u00edvel por nossos sentidos, o transporte, o qual pode ser da direita para a esquerda, de frente para tr\u00e1s, ou de cima para baixo. Quanto ao movimento segundo a subst\u00e2ncia, este denomina-se mudan\u00e7a, ou seja, uma certa passagem do ser ao ser.<\/p>\n<p>O primeiro ponto realizado por Arist\u00f3teles para justificar o movimento \u00e9 dizer que n\u00e3o h\u00e1 uma estrita necessidade de haver vazio, ou seja, n\u00e3o-ser no sentido eleata ou atomista, para que haja movimento local (\u03ba\u03b9\u03bd\u03b5\u03c3\u03b9\u03c2) \u2013 o transporte do transport\u00e1vel. Este \u00e9 o ponto no qual pretendemos chegar com an\u00e1lise ontol\u00f3gica da obra aristot\u00e9lica realizada anteriormente. O movimento antes era negligenciado, pois exigia, para existir, o n\u00e3o-ser parmediano (n\u00e3o-natureza). Com os atomistas, o movimento \u00e9 novamente recuperado e parcialmente justificado. Todavia, mesmo os que parcialmente recuperaram e justificaram o movimento foram incapazes de sistematiza-lo, de estabelecer sua ess\u00eancia e de dissertar sobre como existe nos seres. Arist\u00f3teles estabelece duas vias para se justificar o movimento, tamb\u00e9m entendido por mudan\u00e7a. O movimento percebido por nossos sentidos, como os eleatas tentaram negar \u2013 principalmente com os paradoxos de Zen\u00e3o e a sistematiza\u00e7\u00e3o de Melisso \u2013 para Arist\u00f3teles \u00e9 denominado movimento local, transporte. A respeito deste movimento, o autor o justifica afirmando:<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o h\u00e1 necessidade de que exista o vazio para que exista movimento. N\u00e3o h\u00e1 absolutamente essa necessidade como condi\u00e7\u00e3o de todo movimento em geral, por uma raz\u00e3o que escapou a Melisso, a saber, porque o pleno pode alterar-se. Assim, nem o movimento local exige a exist\u00eancia do vazio; porque os corpos podem, simultaneamente, rearranjarem-se entre si, sem que se tenha de supor nenhuma extens\u00e3o separada e \u00e0 parte dos corpos que est\u00e3o em movimento. E isto \u00e9 evidente tamb\u00e9m nos v\u00f3rtices cont\u00ednuos, tais como, nos l\u00edquidos. (ARIST\u00d3TELES, F IV, 7 214a, tradu\u00e7\u00e3o nossa)<a href=\"http:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/wp-admin\/post-new.php#_ftn11\" name=\"_ftnref11\">[10]<\/a><\/p>\n<p>Um exemplo de tal movimento \u00e9 o da \u00e1gua girando dentro de um recipiente: ela realiza o movimento atrav\u00e9s de um rearranjo de suas partes (hoje compreendidas por mol\u00e9culas) em um local onde n\u00e3o h\u00e1, de fato, o vazio. Com isto, Arist\u00f3teles critica diretamente Melisso, como o sistematizador, e todo o pensamento eleata, trazendo de volta a no\u00e7\u00e3o do movimento, sistematizando-o, de fato.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disto, ainda a respeito dos eleatas, Arist\u00f3teles realiza a sua refuta\u00e7\u00e3o direta aos argumentos de Zen\u00e3o que tornavam inexistente o movimento, e assim justifica sua teoria. Como visto, um dos argumentos propostos por Zen\u00e3o \u00e9 o da dicotomia: o movimento \u00e9 imposs\u00edvel pois se o espa\u00e7o \u00e9 divis\u00edvel infinitamente, um movente que parte de um ponto A para um ponto B dever\u00e1 percorrer antes a metade da trajet\u00f3ria. Todavia, para que isto ocorra, ele deve antes percorrer a metade desta \u201cmetade da trajet\u00f3ria\u201d; e assim se seguir\u00e1 <em>ad infinitum<\/em>.<\/p>\n<p>Para refutar tal argumento e assim tornar mais consistente sua teoria, Arist\u00f3teles afirma que o infinito em divisibilidade n\u00e3o \u00e9 o mesmo que em extens\u00e3o; e que, se o tempo \u00e9 cont\u00ednuo, a magnitude tamb\u00e9m \u00e9 cont\u00ednua, j\u00e1 que se percorre a metade da dist\u00e2ncia na metade do tempo em que se gasta para percorrer o todo. A divis\u00e3o do tempo e da magnitude s\u00e3o as mesmas; e da mesma maneira, se um for infinito, o outro tamb\u00e9m ser\u00e1 (ARIST\u00d3TELES, F VI, 2 233a). Seguindo-se disto, Arist\u00f3teles afirma:<\/p>\n<p>Por isso segue-se ser falsa a argumenta\u00e7\u00e3o de Zen\u00e3o ao supor que os infinitos n\u00e3o podem ser percorridos ou que n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel tocar uma a uma um n\u00famero infinito de partes num tempo finito. Porque tanto a longitude como o tempo, e em geral todo cont\u00ednuo, s\u00e3o ditos infinitos de duas maneiras: ou por divis\u00e3o, ou por seus extremos. Certamente, n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel durante um tempo finito tocar coisas que sejam infinitas em quantidade, mas se pode toca-las se forem infinitas por divis\u00e3o, porque neste sentido o pr\u00f3prio tempo \u00e9 infinito. Assim, o tempo em que \u00e9 percorrida uma magnitude n\u00e3o \u00e9 finito, mas sim infinito, e as coisas infinitas s\u00e3o tocadas num tempo finito sen\u00e3o em infinitos intervalos de tempo. (F VI, 2 233a, tradu\u00e7\u00e3o nossa).<a href=\"http:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/wp-admin\/post-new.php#_ftn12\" name=\"_ftnref12\">[11]<\/a><\/p>\n<p>Zen\u00e3o se equivoca, segundo Arist\u00f3teles, pois o cont\u00ednuo do caminho a ser percorrido \u00e9 homog\u00eaneo. Ele pode ser dividido infinitamente, mas essa divis\u00e3o n\u00e3o \u00e9 natural e pode ser feita de v\u00e1rias maneiras. Um objeto pode ser dividido em v\u00e1rias partes e, quando concretamente assim \u00e9 feito, ocorre a divis\u00e3o em ato. Qui\u00e7\u00e1 consigamos dividir tal objeto em diversas partes; entretanto, antes de faz\u00ea-lo, tais divis\u00f5es s\u00f3 existem em pot\u00eancia. O fato de poder dividir um objeto em partes n\u00e3o significa que ele seja constitu\u00eddo de partes, pois essa possibilidade de dividi-lo \u00e9 pot\u00eancia, apenas, e n\u00e3o ato. No paradoxo de Zen\u00e3o, n\u00f3s \u00e9 que for\u00e7amos tal divis\u00e3o: o enunciado do problema concretiza indevidamente a potencialidade de divis\u00e3o.<\/p>\n<p>Em primeiro lugar, deve-se percorrer o caminho todo. \u00c9 por percorrer todo o caminho que ele percorre suas divis\u00f5es, e n\u00e3o o contr\u00e1rio, como o enunciado do paradoxo parece indicar. H\u00e1 uma preced\u00eancia do todo em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s partes. Arist\u00f3teles defende que se possa potencialmente dividir o cont\u00ednuo. Com isso, percebe-se que o Estagirita recorre a sua c\u00e9lebre distin\u00e7\u00e3o entre a pot\u00eancia e o ato, assim resultando que num cont\u00ednuo, h\u00e1 um n\u00famero infinito de metades, todavia s\u00f3 em pot\u00eancia, n\u00e3o em ato.<\/p>\n<p>Em rela\u00e7\u00e3o ao n\u00e3o-ser aristot\u00e9lico, este tamb\u00e9m realiza um tipo de movimento, ao qual Arist\u00f3teles denomina <em>mudan\u00e7a <\/em>(\u03bc\u03b5\u03c4\u03b1\u03b2\u03bf\u03bb\u03ae). Como se sabe, o ser tem muitos significados e um grupo desses significados \u00e9 dado pela dupla &#8220;ser como pot\u00eancia&#8221; e &#8220;ser como ato&#8221;. Em rela\u00e7\u00e3o ao ser-em-ato, o ser-em-pot\u00eancia pode ser considerado n\u00e3o-ser, mais precisamente, n\u00e3o-ser-em-ato. A mudan\u00e7a que este realiza \u00e9 precisamente a passagem do ser em pot\u00eancia para o ser em ato: \u00e9 a transforma\u00e7\u00e3o em ato daquilo que \u00e9 pot\u00eancia enquanto tal. Com ainda mais categoria: a mudan\u00e7a \u00e9 a passagem do \u201cser\u201d ao \u201cser\u201d. Assim, o movimento n\u00e3o pressup\u00f5e em absoluto o n\u00e3o-ser como nada, mas sim o n\u00e3o-ser como pot\u00eancia do ser, que assim se desenvolve no \u00e2mbito do ser, sendo passagem de ser (potencia) para ser (ato).<\/p>\n<p>E uma vez que toda mudan\u00e7a \u00e9 de algo a algo \u2013 como indica a palavra <em>metabole<\/em>, que indica algo \u201cdepois de\u201d (met\u00e1) outro algo, isto \u00e9, algo anterior e algo posterior -, o que muda tem que mudar em algumas destas quatro maneiras: de ser a ser; de ser a n\u00e3o-ser; de n\u00e3o-ser a ser; de n\u00e3o-ser a n\u00e3o-ser \u2013 e ser entendido por um termo afirmativo. Seguem-se, ent\u00e3o, a partir do que foi dito, que deve haver tr\u00eas classes de mudan\u00e7as: 1) de ser a ser; 2) de ser a n\u00e3o-ser; e 3) de n\u00e3o-ser a ser, j\u00e1 que n\u00e3o h\u00e1 mudan\u00e7a de n\u00e3o-ser a n\u00e3o-ser, pois estre estes n\u00e3o h\u00e1 oposi\u00e7\u00e3o de contrariedade nem contradi\u00e7\u00e3o. (ARIST\u00d3TELES, F, V 1, 225a, tradu\u00e7\u00e3o nossa).<a href=\"http:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/wp-admin\/post-new.php#_ftn13\" name=\"_ftnref13\">[12]<\/a><\/p>\n<p>A passagem do n\u00e3o-ser ao ser denomina-se gera\u00e7\u00e3o. A passagem do ser ao n\u00e3o-ser denomina-se corrup\u00e7\u00e3o. O movimento (compreendido enquanto mudan\u00e7a) ocorre da passagem do ser para o ser. \u00a0Um homem senado numa cadeira, por exemplo, tem a potencialidade para caminhar. Para que caminhe, ele deve passar de seu estado atual e iniciar outro estado. \u00c9 nesta transi\u00e7\u00e3o entre os estados de estar sentado e de caminhar que ocorre a mudan\u00e7a, que ocorre o movimento. \u00c9 da passagem da pot\u00eancia para o ato, do ser-em-potencia (n\u00e3o-ser) ao ser-em-ato (ser).<\/p>\n<p>Destarte, para que ocorra, a mudan\u00e7a pressup\u00f5e um substrato, que passa de um oposto a outro. A gera\u00e7\u00e3o \u00e9 o assumir a forma por parte da mat\u00e9ria; a corrup\u00e7\u00e3o \u00e9 o perder a forma; a altera\u00e7\u00e3o \u00e9 uma mudan\u00e7a da qualidade; o aumento e a diminui\u00e7\u00e3o s\u00e3o uma passagem de pequeno a grande e vice-versa; o movimento local \u00e9 passagem de um ponto para outro. Somente os compostos de mat\u00e9ria e forma podem sofrer muta\u00e7\u00f5es porque s\u00f3 a mat\u00e9ria implica potencialidade; a estrutura hilem\u00f3rfica do sens\u00edvel, que implica em potencialidade, constitui a raiz de todo movimento. Arist\u00f3teles afirma, definidamente, que o movimento \u201c\u00e9 a atualidade do potencial, quando o estar atualizando-se opera n\u00e3o enquanto em si mesmo, mas sim enquanto \u00e9 mov\u00edvel\u201d. (ARIST\u00d3TELES, F, III, 201a, tradu\u00e7\u00e3o nossa)<a href=\"http:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/wp-admin\/post-new.php#_ftn14\" name=\"_ftnref14\">[13]<\/a>.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>CONCLUS\u00c3O<\/strong><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Os eleatas foram os maiores respons\u00e1veis por um distanciamento entre o pensamento e os sentidos. Eles tentaram nos mostrar (principalmente Zen\u00e3o, com seus paradoxos) que o que a raz\u00e3o pensa n\u00e3o est\u00e1 estritamente ligado aos sentidos. As quest\u00f5es filos\u00f3ficas abordadas pelos eleatas tratavam diretamente da an\u00e1lise comparativa entre o conhecimento sens\u00edvel e o conhecimento racional, resultando para eles ser apenas o racional o concreto. Os eleatas assim fizeram ao tratar da ontologia e do movimento em sua filosofia.<\/p>\n<p>Para os eleatas, a ontologia se resumia em imutabilidade, unicidade e eternidade do ser, j\u00e1 que este n\u00e3o pode sofrer mudan\u00e7a. Al\u00e9m de afirmar que o ser n\u00e3o pode sofrer mudan\u00e7a, os eleatas negavam qualquer tipo de n\u00e3o-ser e, com isso, conclu\u00edram tamb\u00e9m que o ser deveria ser im\u00f3vel. Devido a continuidade do ser e a inexist\u00eancia de vazio para este transportar-se, o movimento n\u00e3o existe.<\/p>\n<p>Os atomistas, posteriores aos eleatas, tentaram resgatar a no\u00e7\u00e3o de movimento, supondo a exist\u00eancia de um n\u00e3o-ser: surgia, com Leucipo e Dem\u00f3crito, a no\u00e7\u00e3o de \u00e1tomo. Com a conjuga\u00e7\u00e3o de espa\u00e7os vazios entre os corpos \u2013 agora n\u00e3o mais cont\u00ednuos, mas sim constitu\u00eddos de in\u00fameros \u00e1tomos e espa\u00e7os vazios \u2013 o movimento era poss\u00edvel, pois os \u00e1tomos se rearranjavam com frequ\u00eancia nos corpos maiores. A conjuga\u00e7\u00e3o ser e n\u00e3o-ser \u00e9 que formava os corpos. Todavia, mesmo justificando o movimento, os atomistas n\u00e3o se aprofundaram nele, deixando quest\u00f5es importantes de lado, como saber de onde deriva o movimento e como este existe nos seres.<\/p>\n<p>Instigado por estas quest\u00f5es deixadas pelos atomistas; instigado pelo distanciamento eleata entre a raz\u00e3o e o sens\u00edvel com a nega\u00e7\u00e3o do movimento e instigado pela refuta\u00e7\u00e3o atomista aos eleatas para justificar o movimento, assim afirmando a exist\u00eancia do n\u00e3o-ser; Arist\u00f3teles sistematiza toda a sua ontologia e toda a quest\u00e3o do movimento, afirmando ser pens\u00e1vel o n\u00e3o-ser apenas de outra forma que n\u00e3o a atomista: um certo n\u00e3o-ser relativo \u2013 ser-em-pot\u00eancia.<\/p>\n<p>Ao desenvolver sua estrutura ontol\u00f3gica, Arist\u00f3teles refuta os eleatas, referindo-se diretamente aos paradoxos criados por Zen\u00e3o. Depois, mais especificamente ao dissertar sobre os conceitos de ato e pot\u00eancia, Arist\u00f3teles encontra s\u00f3lida base argumentativa para justificar o movimento, afirmando que ele existe, de fato.Com isso, Arist\u00f3teles resgata de forma sistematizada e concreta, a rela\u00e7\u00e3o entre o conhecimento sensorial e o conhecimento racional, n\u00e3o existindo agora um distanciamento entre eles, muito menos contradi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Como dito, este trabalho n\u00e3o tinha por pretens\u00e3o realizar uma minuciosa an\u00e1lise do movimento em Arist\u00f3teles, t\u00e3o pouco da sua ontologia. Pretendia-se apenas refutar a antiga ideia eleata da inexist\u00eancia do movimento e positivar a resposta a nossa hip\u00f3tese: o movimento realmente existe? Diante de tudo visto, sim.<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>REFER\u00caNCIAS <\/strong><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>ARIST\u00d3TELES. <em>F\u00edsica.<\/em> Traducci\u00f3n y notas de Guillermo R. de Echand\u00eda. Editorial Gredos, S.A., 1995. Dispon\u00edvel em: &lt;http:\/\/www.uruguaypiensa.org.uy\/imgnoticias\/662.pdf&gt;. Acesso em 15 ago. 2016.<\/p>\n<p>______. <em>Metaf\u00edsica<\/em>. Tradu\u00e7\u00e3o, texto e coment\u00e1rios de Giovanni Reale. Tradu\u00e7\u00e3o para o portugu\u00eas de Marcelo Perine. S\u00e3o Paulo: Loyola, 2002.<\/p>\n<p>BITTAR, Eduardo Carlos Bianca. <em>Curso de filosofia aristot\u00e9lica<\/em>: leitura e \u00a0\u00a0\u00a0\u00a0interpreta\u00e7\u00e3o do pensamento aristot\u00e9lico. Barueri, SP: Manole, 2003.<\/p>\n<p>KIRK, Geoffrey. RAVEN, J. E.. SCHOFIELD, Malcom. <em>Os fil\u00f3sofos Pr\u00e9-Socr\u00e1icos<\/em>. Tradu\u00e7\u00e3o de Carlos Alberto Louro Fonseca. Lisboa: Funda\u00e7\u00e3o Calouste Gulbenkian, 2010.<\/p>\n<p>PHILIPPE, Marie-Dominique. <em>Introdu\u00e7\u00e3o \u00e0 filosofia de Arist\u00f3teles<\/em>. Tradu\u00e7\u00e3o de Gabriel Hibon. S\u00e3o Paulo: Paulus, 2002.<\/p>\n<p>REALE, Giovanni. <em>\u00a0Hist\u00f3ria da filosofia antiga<\/em>. Tradu\u00e7\u00e3o de Henrique Cl\u00e1udio de Lima Vaz e Marcelo Perine. S\u00e3o Paulo: Loyola, 1994.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/wp-admin\/post-new.php#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">*<\/a> Graduando em Filosofia na FAM<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/wp-admin\/post-new.php#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[1]<\/a> Diels-Kranz, 30 B 7, \u00a7 7<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/wp-admin\/post-new.php#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[2]<\/a> METAF\u00cdSICA A 4, 985 b (DK 67 a 6)<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/wp-admin\/post-new.php#_ftnref4\" name=\"_ftn4\">[3]<\/a> De Caelo \u0393 2, 300 b 8<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/wp-admin\/post-new.php#_ftnref5\" name=\"_ftn5\">[4]<\/a> <em>Algunos nos han transmitido ambos argumentos: a) el que afirma que todas las cosas son una, porque \u00abser\u00bb s\u00f3lo significa una cosa, con lo cual supone que el no ser es, y b) el argumento de la dicotom\u00eda, que supone magnitudes indivisibles. Pero evidentemente no es verdad que, si \u00abser\u00bb s\u00f3lo significa una cosa y no es posible al mismo tiempo la contradicci\u00f3n, entonces el no-ser no es. Porque nada impide que haya, no el no-ser absoluto, sino un cierto no-ser. Por otra parte, es absurdo decir que Todo es uno porque no puede haber nada fuera del Ser mismo. Pues \u00bfqu\u00e9 se ha de entender por el Ser mismo sino \u00ablo que propiamente es\u00bb? Pero si esto es as\u00ed, nada impide que las cosas sean m\u00faltiples. Es evidente, entonces, que el ser no puede ser uno en ese sentido.<\/em><\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/wp-admin\/post-new.php#_ftnref6\" name=\"_ftn6\">[5]<\/a> A obra \u201cF\u00edsica\u201d de Arist\u00f3teles ser\u00e1 citada atrav\u00e9s abreviatura \u201cF\u201d seguida da numera\u00e7\u00e3o cl\u00e1ssica.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/wp-admin\/post-new.php#_ftnref7\" name=\"_ftn7\">[6]<\/a> A obra \u201cMetaf\u00edsica\u201d de Arist\u00f3teles ser\u00e1 citada atrav\u00e9s abreviatura \u201cM\u201d seguida da numera\u00e7\u00e3o cl\u00e1ssica.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/wp-admin\/post-new.php#_ftnref8\" name=\"_ftn8\">[7]<\/a> <em>Queda claro, entonces, por las anteriores consideraciones, que no existe un vac\u00edo separado.<\/em><\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/wp-admin\/post-new.php#_ftnref9\" name=\"_ftn9\">[8]<\/a> ARIST\u00d3TELES, <em>A gera\u00e7\u00e3o e a corrup\u00e7\u00e3o<\/em>, A 8, 324 b 35ss. (= DK 67 A 7)<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/wp-admin\/post-new.php#_ftnref10\" name=\"_ftn10\">[9]<\/a> <em>Puesto que la naturaleza es un principio del movimiento y del cambio, y nuestro estudio versa sobre la naturaleza, no podemos dejar de investigar qu\u00e9 es el movimiento; porque si ignor\u00e1semos lo que es, necesariamente ignorar\u00edamos tambi\u00e9n lo que es la naturaleza.<\/em><\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/wp-admin\/post-new.php#_ftnref11\" name=\"_ftn11\">[10]<\/a> <em>Pero no hay ninguna necesidad de que exista el vac\u00edo por el hecho de que exista el movimiento. No hay en absoluto tal necesidad como condici\u00f3n de todo movimiento en general, por una raz\u00f3n que se le escap\u00f3 a Meliso, a saber, porque lo lleno puede alterarse. As\u00ed, tampoco el movimiento local exige la existencia del vac\u00edo; porque los cuerpos pueden simult\u00e1neamente reemplazarse entre s\u00ed, sin que haya que suponer ninguna extensi\u00f3n separada y aparte de los cuerpos que est\u00e1n en movimiento. Y esto es evidente tambi\u00e9n en los torbellinos de los continuos, como, por ejemplo, en los de los l\u00edquidos.<\/em><\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/wp-admin\/post-new.php#_ftnref12\" name=\"_ftn12\">[11]<\/a> <em>De ah\u00ed que sea falsa la argumentaci\u00f3n de Zen\u00f3n al suponer que los infinitos no pueden ser recorridos o que no es posible tocar una a una un n\u00famero infinito de partes en un tiempo finito. Porque tanto la longitud como el tiempo, y en general todo continuo, se dice que son infinitos de dos maneras: o por divisi\u00f3n o por sus extremos. Ciertamente, no es posible durante un tiempo finito tocar cosas que sean infinitas por su cantidad, pero se las puede tocar si son infinitas por su divisi\u00f3n, porque en este sentido el tiempo mismo es infinito. As\u00ed, el tiempo en el que es recorrida una magnitud no es finito sino infinito, y las infinitas cosas no son tocadas en un tiempo finito sino en infinitos intervalos de tiempo.<\/em><\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/wp-admin\/post-new.php#_ftnref13\" name=\"_ftn13\">[12]<\/a> <em>Y puesto que todo cambio es desde algo hac\u00eda algo \u2013 como lo muestra la palabra metabole, que indica algo \u00abdespu\u00e9s de\u00bb (met\u00e1) otro algo, esto es, algo anterior y algo posterior -, lo que cambia tiene que cambiar en alguna de estas cuatro maneras: o de un sujeto a un sujeto, o de un sujeto a un no-sujeto, o de un no-sujeto a un sujeto, o de un no-sujeto a un no-sujeto \u2013 y entiendo por \u00absujeto\u00bb lo que es significado por un t\u00e9rmino afirmativo. Se sigue entonces de lo dicho que tiene que haber tres clases de cambios: 1) de un sujeto a un sujeto, 2) de un sujeto a un no-sujeto, y 3) de un no-sujeto a un sujeto, ya que no hay 5 cambio de un no-sujeto a un no-sujeto, pues entre \u00e9stos no hay oposici\u00f3n de contrariedad ni de contradictoriedad.<\/em><\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/wp-admin\/post-new.php#_ftnref14\" name=\"_ftn14\">[13]<\/a> <em>[El movimiento es, pues,] la actualidad de lo potencial, cuando al estar actualiz\u00e1ndose opera197 no en cuanto\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 a lo que es en s\u00ed mismo, sino en tanto que es movible.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Carlos Geovane Nunes Magri * Resumo: O presente artigo visa a justifica\u00e7\u00e3o do movimento segundo a filosofia de Arist\u00f3teles, e assim responder a seguinte pergunta: o movimento realmente existe? Os fil\u00f3sofos eleatas estabeleceram n\u00e3o existir movimento, pois a exist\u00eancia deste exigiria a coexist\u00eancia de um \u201cn\u00e3o ser\u201d. Arist\u00f3teles, na \u201cF\u00edsica\u201d e na \u201cMetaf\u00edsica\u201d, analisa alguns &hellip; <\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_mi_skip_tracking":false,"footnotes":""},"categories":[4,547],"tags":[],"class_list":{"0":"entry","1":"post","2":"publish","3":"author-admin","4":"post-2730","6":"format-standard","7":"category-aristoteles","8":"category-carlos-geovane-nunes-magri"},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2730","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=2730"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2730\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2731,"href":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2730\/revisions\/2731"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=2730"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=2730"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=2730"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}