{"id":2733,"date":"2018-10-30T08:05:48","date_gmt":"2018-10-30T11:05:48","guid":{"rendered":"http:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/?p=2733"},"modified":"2018-10-30T08:05:48","modified_gmt":"2018-10-30T11:05:48","slug":"profetismo-nas-tradicoes-grega-e-judaica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/?p=2733","title":{"rendered":"PROFETISMO NAS TRADI\u00c7\u00d5ES GREGA E JUDAICA"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\">Carlos Geovane Nunes Magri <a href=\"http:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/wp-admin\/post-new.php#_ftn1\" name=\"_ftnref1\"><sup>*<\/sup><\/a><\/p>\n<p><strong>Resumo:<\/strong> O conceito de profecia \u00e9 bastante caro tanto \u00e0 tradi\u00e7\u00e3o grega quanto \u00e0 tradi\u00e7\u00e3o judaica. O presente artigo visa analisar a profecia na tradi\u00e7\u00e3o judaica segundo a concep\u00e7\u00e3o de Maim\u00f4nides \u2013\u00a0 fil\u00f3sofo judeu que melhor analisou tal quest\u00e3o, desenvolvendo-a dentro de sua obra de maior import\u00e2ncia: o \u201cGuia dos Perplexos\u201d \u2013 fundamentando-se diretamente em tal autor, apenas realizando algumas alus\u00f5es \u00e0 obra de Jos\u00e9 Luis Sicre, doutor em Sagrada Escritura e exegeta do Antigo Testamento, e assim perceber se h\u00e1 alguma rela\u00e7\u00e3o entre a concep\u00e7\u00e3o desta tradi\u00e7\u00e3o e da tradi\u00e7\u00e3o hel\u00eanica; isto, sobre tr\u00eas pontos bem direcionados: a figura do profeta; a profecia em si; e o car\u00e1ter do destino assumido nas duas. A estrutura deste artigo se dar\u00e1 em: a. Uma an\u00e1lise da profecia e do profeta na Cultura Grega; b. Uma an\u00e1lise da profecia e da figura do profeta na Cultura Judaica segundo a filosofia de Mois\u00e9s Maim\u00f4nides; c. Uma compara\u00e7\u00e3o entre a profecia nas culturas grega e judaica.<\/p>\n<p><strong>Palavras chaves:<\/strong> Profetismo. Profecia. Profeta. Cultura Grega. Tradi\u00e7\u00e3o Judaica.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>INTRODU\u00c7\u00c3O<\/strong><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>A influ\u00eancia exercida pela cultura grega dentro do pensamento ocidental \u00e9 ineg\u00e1vel: o modo de se pensar e raciocinar, bem como alguns conceitos definidos da tradi\u00e7\u00e3o grega permaneceram vivos at\u00e9 os dias atuais. Por\u00e9m, outra tradi\u00e7\u00e3o que tamb\u00e9m exerce grande influ\u00eancia na cultura ocidental \u2013 especialmente no Cristianismo, que por sua vez influenciou diretamente a constitui\u00e7\u00e3o da racionalidade ocidental \u2013 e que muitas vezes n\u00e3o \u00e9 assim identificada, deixando de ser at\u00e9 mesmo analisada, \u00e9 a judaica. Com seu modo de pensar e compreender a realidade \u00e0 luz das Sagradas Escrituras, tal tradi\u00e7\u00e3o criou conceitos e formula\u00e7\u00f5es tamb\u00e9m presentes at\u00e9 hoje.<\/p>\n<p>Um destes conceitos que abas as tradi\u00e7\u00f5es trabalharam e que est\u00e1 como que cristalizado na mentalidade contempor\u00e2nea \u00e9 o de profecia. Muito se diz a respeito da quest\u00e3o da profecia \u2013 seja compreendendo o profeta como um adivinho que prev\u00ea o futuro, seja compreendendo-o em sua literalidade, como aquele que fala em nome de outrem \u2013 por isso, o presente artigo objetiva precisar em que sentido e extens\u00e3o o conceito de profecia \u00e9 utilizado dentro das duas tradi\u00e7\u00f5es, e perceber se h\u00e1 um distanciamento ou uma aproxima\u00e7\u00e3o entre estes dois conceitos.<\/p>\n<p>Para que tal objetivo seja alcan\u00e7ado, ser\u00e3o analisados tr\u00eas pontos que se constituem como fundantes de uma profecia em si: a figura do profeta; a profecia, propriamente dita, enquanto palavra revelada; e a quest\u00e3o do destino enquanto que cumprimento inalter\u00e1vel ou n\u00e3o da profecia. Cada um destes pontos ser\u00e1 analisado separadamente dentro de cada tradi\u00e7\u00e3o, usando-se por embasamento, no caso da tradi\u00e7\u00e3o grega, entre outros, textos de autores j\u00e1 consagrados no estudo de tal cultura \u2013 como Detienne e Vernant \u2013 e textos de autores tr\u00e1gicos cl\u00e1ssicos, como S\u00f3focles; e no caso da tradi\u00e7\u00e3o judaica, exclusivamente a figura \u00edcone de Mois\u00e9s Maim\u00f4nides, fazendo-se uso, por\u00e9m, para um maior embasamento te\u00f3rico, da B\u00edblia e de obras do exegeta b\u00edblico Jos\u00e9 Luis Sicre.<\/p>\n<p>Por fim, ap\u00f3s a an\u00e1lise individual dos conceitos, realizar-se-\u00e1 uma compara\u00e7\u00e3o entre a concep\u00e7\u00e3o de profecia na cultura judaica e na cultura grega a partir dos pontos analisados separadamente, notando-se as diferen\u00e7as ou as aproxima\u00e7\u00f5es entre as duas vis\u00f5es de profecia. Faz-se necess\u00e1rio ressaltar que ambas as tradi\u00e7\u00f5es est\u00e3o inseridas em per\u00edodos hist\u00f3ricos distintos e em diferentes realidades socioculturais, assim, o objetivo \u00fanico deste artigo \u00e9 realizar esta breve compara\u00e7\u00e3o entre um espec\u00edfico conceito: a profecia; n\u00e3o buscando outros objetivos, como a implica\u00e7\u00e3o do conceito de profecia dentro de cada cultura.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>1 PROFECIA NA TRADI\u00c7\u00c3O GREGA<\/strong><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Na cultura grega, a palavra oral possu\u00eda um enorme destaque dentro da sociedade. Como mantenedora da ordem, a palavra dita exercia, de fato, um poder de soberania sobre os ouvintes \u2013 a palavra possu\u00eda um teor de verdade: as rela\u00e7\u00f5es sociais, o funcionamento da polis, tudo era regido pela palavra.<\/p>\n<p>O que implica o sistema da <em>polis<\/em> \u00e9 primeiramente uma extraordin\u00e1ria preemin\u00eancia da palavra sobre todos os outros instrumentos do poder. Torna-se o instrumento pol\u00edtico por excel\u00eancia, a chave de toda a autoridade no Estado, o meio de comando e de dom\u00ednios sobre outrem. Esse poder da palavra \u2013 de que os gregos far\u00e3o uma divindade: <em>Peith\u00f3<\/em>, a for\u00e7a da persuas\u00e3o \u2013 lembra a efic\u00e1cia das palavras e das f\u00f3rmulas em certos rituais religiosos, ou o valor atribu\u00eddo aos \u201cditos\u201d do rei quando pronuncia soberanamente a <em>themis<\/em>. (VERNANT, 2002, p. 54).<\/p>\n<p>Com isso, percebe-se a import\u00e2ncia da palavra e sua predomin\u00e2ncia no sistema da <em>polis<\/em> grega. Todavia, n\u00e3o era qualquer palavra dita que possu\u00eda tal grau de import\u00e2ncia, muito menos o exerc\u00edcio da palavra era concedido a todos. A palavra, com seu car\u00e1ter transcendental, para exercer o seu poder, era revelada a algumas poucas figuras dentro da cultura grega: os mestres desta palavra; ent\u00e3o, os mestres da verdade assim chamados por Marcel Detienne. S\u00e3o eles: o poeta, o adivinho e o rei. Dente estas tr\u00eas figuras assim denominadas no per\u00edodo hel\u00eanico, uma das mais emblem\u00e1ticas e instigantes certamente \u00e9 a do adivinho.<\/p>\n<p>Como dito, devido ao seu car\u00e1ter transcendental, a palavra com for\u00e7a de ordenamento provinha dos deuses. Para que atingisse \u00e0s pessoas, era necess\u00e1ria uma figura para que, inspirada, acolhesse essa palavra e a transmitisse: o adivinho (compreendido como aquele que fala em nome de algu\u00e9m, ent\u00e3o denominado profeta). Da\u00ed ent\u00e3o a import\u00e2ncia da profecia na tradi\u00e7\u00e3o grega: repassar aos homens, a vontade dos deuses e os des\u00edgnios para a vida.<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>1.1 O profeta grego<\/strong><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>O primeiro passo a ser dado \u00e9 compreender como se concebe na cultura grega a figura do profeta. Como um dos mestres da verdade, sabe-se que dentro do ambiente social, o adivinho era um \u00edcone que gozava de respeito e aten\u00e7\u00e3o. Seu car\u00e1ter emblem\u00e1tico e misterioso certamente ressalta aos olhares; e com raz\u00e3o: \u201co <em>mantis<\/em>, apanhado nas suas mais altas figuras, tais como Cassandra ou Tir\u00e9sias, \u00e9 muito mais um m\u00e1gico ou um mal\u00e9fico: \u00e9 um Vidente, um aut\u00eantico inspirado\u201d (ZARADER, 1990, p.71).<\/p>\n<p>Assim, compreende-se o primeiro ponto do profeta grego: n\u00e3o \u00e9 simplesmente um anunciador de algo. A aten\u00e7\u00e3o \u00e9 colocada sobre a vis\u00e3o, sobre a inspira\u00e7\u00e3o. A palavra dos deuses \u00e9 importante, mas o que mais atrai a aten\u00e7\u00e3o para o profeta grego \u00e9 a sua real inspira\u00e7\u00e3o: \u00e9 o fato de ser um inspirado que o torna algo al\u00e9m dos demais. Essa inspira\u00e7\u00e3o do profeta grego \u00e9 como que estar colado \u00e0 esfera do sagrado. Ele (o profeta), inspirado pelo deus, recebe a mensagem e \u00e9 respons\u00e1vel de transmiti-la aos homens.<\/p>\n<p>Esses personagens s\u00e3o mediadores entre a esfera do sagrado &#8211; deuses e her\u00f3is que habitam o tempo forte das origens &#8211; e a esfera profana, humana, da coletividade. Os homens recebem esses relatos e re-efetuam a ordena\u00e7\u00e3o do k\u00f3smos e de suas vidas, assim como aprendem o que fazer e como fazer as coisas na vida social. (MARQUES, 1994, p.3).<\/p>\n<p>\u00c9 por esta inspira\u00e7\u00e3o que o profeta recebe tanto cr\u00e9dito. Aqui, faz-se importante ressaltar que o destaque n\u00e3o est\u00e1 na palavra a ser transmitida em si, mas sim na vis\u00e3o e na inspira\u00e7\u00e3o: assim, diretamente na figura do profeta. O profeta \u00e9 um inspirado, mas \u00e9 algu\u00e9m valoroso, algu\u00e9m louv\u00e1vel, destac\u00e1vel. Seja qualquer um o modo de seu contato para com os deuses (sonho, revela\u00e7\u00e3o, vis\u00e3o), o profeta grego sempre ser\u00e1 inspirado: a sua palavra ser\u00e1 a da predica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Quando pronuncia seus or\u00e1culos no santu\u00e1rio de Delfos, Apolo n\u00e3o fala tanto por si mesmo quanto em nome do seu pai, a quem permanece associado e como que submetido em sua fun\u00e7\u00e3o oracular. Apolo \u00e9 profeta, mas profeta de Zeus; faz apenas dar uma voz \u00e0 vontade do olimpiano, aos seus decretos, a fim de que, no umbigo do mundo, a palavra do Rei e do Pai ressoe aos ouvidos de quem a souber escutar. (VERNANT, 2006, p. 36).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Apolo \u00e9 um claro exemplo disto. Mesmo sendo um deus da cultura grega, ele n\u00e3o fala por si apenas, fala inspirado pelo grande deus Zeus. O profeta grego \u00e9 quem realmente \u00e9, primeiro por receber a inspira\u00e7\u00e3o dos deuses. Expressivamente, o profeta grego \u00e9 aquela pessoa inspirada que est\u00e1 em contato com o mundo dos deuses e dos esp\u00edritos e que, como s\u00e1bio, se dirige para sua comunidade como fonte de sabedoria pr\u00e1tica e espiritual (CORNFORD<a href=\"http:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/wp-admin\/post-new.php#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[1]<\/a> apud MARQUES, 1994, p. 3).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>1.2 A profecia<\/strong><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Compreendida a figura do profeta grego, agora deve-se atentar para a pr\u00f3pria profecia em si. Compreender o teor que esta assume dentro da cultura grega, evidentemente, \u00e9 mister para se compreender o profetismo grego.<\/p>\n<p>Para se compreender o teor de verdade que a profecia assume dentro da cultura grega, basta um trecho da trag\u00e9dia \u201cAnt\u00edgona\u201d de S\u00f3focles (2005, p. 61-62), no qual aparece a figura \u00edmpar de Tir\u00e9sias, um dos maiores \u00edcones do profetismo grego. Em um di\u00e1logo entre o adivinho Tir\u00e9sias e o rei Creonte, \u00e9 poss\u00edvel perceber o pensamento incrustado na mentalidade grega acerca da efic\u00e1cia e da validade das palavras proferidas por um profeta:<\/p>\n<p>Creonte &#8211; Que novas me trazes, velho Tir\u00e9sias?<\/p>\n<p>Tir\u00e9sias &#8211; Vou anunci\u00e1-las&#8230; N\u00e3o deixes de crer em meus or\u00e1culos.<\/p>\n<p>Creonte &#8211; At\u00e9 agora tenho observado teus conselhos.<\/p>\n<p>Tir\u00e9sias &#8211; Gra\u00e7as a isso, conseguiste encaminhar esta cidade por uma rota segura.<\/p>\n<p>Creonte &#8211; E posso assegurar-te que deles muito me tenho valido.<\/p>\n<p>Como atesta o rei Creonte, para os gregos, a palavra de um profeta era completamente cr\u00edvel, digna de aten\u00e7\u00e3o. Assim tanto era que, para tomarem importantes decis\u00f5es, os gregos antes consultavam or\u00e1culos. Um ponto marcante do profetismo grego \u00e9 a efic\u00e1cia da palavra do profeta. \u00c9 devido a ela (palavra do profeta) que a cidade prossegue num bom caminho; \u00e9 gra\u00e7as a observ\u00e2ncia dos or\u00e1culos do profeta pelo rei que o caminho a ser seguido \u00e9 seguro e beato.<\/p>\n<p>Corifeu &#8211; O anci\u00e3o l\u00e1 se foi, \u00f3 pr\u00edncipe, depois de te haver predito coisas tremendas! Ora, desde que existem na minha cabe\u00e7a estes cabelos, que de negros se tornaram alvos, n\u00e3o sei de aviso por ele feito, que n\u00e3o haja sido em absoluto verdadeiro. (S\u00d3FOCLES, 2005, p. 67).<\/p>\n<p>Tal fala de Corifeu, ap\u00f3s a sa\u00edda do adivinho, atesta o grau de verdade que ela assume. \u00c9 afirmado que tudo o que o profeta diz, de fato, foi verdadeiro; ou seja, em verdade aconteceu.<\/p>\n<p>Esta \u00e9 uma verdade revelada para o povo, que acredita e que deve acreditar, j\u00e1 que creem ser a palavra do profeta de cunho divino. Contudo, al\u00e9m de anunciar a verdade, a profecia grega possui uma outra caracter\u00edstica intr\u00ednseca em seu cerne: a ambiguidade de sua val\u00eancia. O que os or\u00e1culos dizem \u00e9 verdade, todavia n\u00e3o manifestado do modo mais claro poss\u00edvel. O profeta grego, para os homens, \u00e9 sempre verdadeiro em suas profecias, todavia, deve-se lembrar que ele depende da vontade dos deuses para anunciar algo:<\/p>\n<p>Os deuses conhecem a \u201cVerdade\u201d, mas sabem tamb\u00e9m enganar pelas apar\u00eancias e pelas palavras. Suas apar\u00eancias s\u00e3o armadilhas para os homens, suas palavras s\u00e3o sempre enigm\u00e1ticas, pois escondem tanto quanto revelam: o or\u00e1culo \u201cmostra-se atrav\u00e9s de um v\u00e9u, assim como uma jovem desposada\u201d. A ambiguidade do mundo divino corresponde \u00e0 dualidade do humano. Existem homens [&#8230;] que sabem entender o sentido oculto das palavras, e depois est\u00e3o todos os outros que se deixaram levar pelo disfarce, que caem na armadilha do enigma. (DETIENNE, 1988, p. 42).<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 question\u00e1vel o grau de verdade da palavra do profeta, todavia, o modo com o qual este enuncia suas palavras pode ser enigm\u00e1tico e at\u00e9 mesmo enganador. Disto, \u00e9 poss\u00edvel depreender que possuir a verdade \u00e9 tamb\u00e9m ser capaz de enganar: o que faz do profeta grego um mestre da verdade, tamb\u00e9m o faz um mestre do engano (DETIENNE, 1988, p. 43). A falta clareza \u00e9 uma das maiores marcas da profecia grega: palavras enigm\u00e1ticas, vagas, confusas e at\u00e9 aparentemente contradit\u00f3rias inundam o cen\u00e1rio dos or\u00e1culos da cultura grega, levando, muitas vezes, mesmo se acreditando serem as palavras do profeta verdadeiras, a questionamentos como: \u201cverdade at\u00e9 que ponto?\u201d<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>1.3 A quest\u00e3o do destino<\/strong><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Por fim, outro ponto a se analisar dentro da tradi\u00e7\u00e3o grega no que se refere a profetismo reside na quest\u00e3o do destino: sua imutabilidade e sua infalibilidade.<\/p>\n<p>A palavra do adivinho e das pot\u00eancias oraculares, tanto quanto o verbo po\u00e9tico, delimita um plano de realidade: quando Apolo profetiza, ele \u201crealiza\u201d. [&#8230;] A palavra oracular n\u00e3o \u00e9 o reflexo de um acontecimento pr\u00e9-formado, \u00e9 um dos elementos de sua realiza\u00e7\u00e3o. (DETIENNE, 1988, p. 35).<\/p>\n<p>Ap\u00f3s se ter notado a efic\u00e1cia enquanto verdade da palavra do profeta, analisa-se agora sua efic\u00e1cia enquanto realiza\u00e7\u00e3o plena do destino previsto. Com isto, nota-se que a profecia grega acontece, de fato. Ela realiza, ela acontece queira o alvo de sua previs\u00e3o ou n\u00e3o. E um dos melhores exemplos para lidar com a quest\u00e3o do destino na cultura grega certamente est\u00e1 figura singular de \u00c9dipo, que, para fugir de seu destino, cumpre-o plenamente.<\/p>\n<p>No decorrer da a\u00e7\u00e3o de \u00c9dipo, o or\u00e1culo fala tr\u00eas vezes: primeiro para Laio, depois para seu filho e finalmente para Creonte, que \u00e9 incumbido por \u00c9dipo de consult\u00e1-lo. Por tr\u00eas vezes o or\u00e1culo faz do saber divino um saber humano, e com isso dirige por tr\u00eas vezes a a\u00e7\u00e3o dos homens, fazendo com que <em>eles pr\u00f3prios levem a cabo o que lhes fora imposto<\/em>. (SZONDI, 2004, p. 89-90, grifo nosso).<\/p>\n<p>Como outrora afirmado, a trag\u00e9dia representa um pensamento j\u00e1 intr\u00ednseco \u00e0 mentalidade grega da \u00e9poca. O destino revelado pelos or\u00e1culos n\u00e3o vem a ser uma op\u00e7\u00e3o; ele ocorrer\u00e1, seja agrad\u00e1vel a aquele que o escuta ou n\u00e3o. No caso de \u00c9dipo, por exemplo, o destino ocorreria a Laio e a \u00c9dipo; o or\u00e1culo, quer fale ou n\u00e3o, n\u00e3o ir\u00e1 influenciar em nada sobre os acontecimentos. O que o profeta diz, neste caso, n\u00e3o \u00e9 para prevenir ou advertir.<\/p>\n<p>Assim, nos tr\u00eas destinos que comp\u00f5em ao mesmo tempo um s\u00f3 destino, os or\u00e1culos marcam uma grada\u00e7\u00e3o tr\u00e1gica, em que os elementos antag\u00f4nicos ficam cada vez mais ligados, a duplicidade sendo reduzida \u00e0 unidade de modo cada vez mais inexor\u00e1vel: Laio foge de seu assassino pelo caminho que o leva ao encontro dele \u2013 o jovem \u00c9dipo tenta escapar do ato mortal anunciado e comete esse ato em sua fuga \u2013 o rei \u00c9dipo busca os assassinos de Laio, temendo que eles se tornem seus assassinos, e encontra a si mesmo. (SZONDI, 2004, p. 94).<\/p>\n<p>Fugir de seu destino, na trag\u00e9dia grega e, assim, na cultura grega, \u00e9 lev\u00e1-lo a sua plena realiza\u00e7\u00e3o, ao seu cumprimento: n\u00e3o h\u00e1 como escapar, como evitar, apenas esperar e aceitar.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>2 PROFECIA NA TRADI\u00c7\u00c3O JUDAICA<\/strong><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Dentro da tradi\u00e7\u00e3o judaica, \u00e9 imposs\u00edvel falar de profecia de modo desvinculado das Sagradas Escrituras e das personagens b\u00edblicas. Neste contexto b\u00edblico, a verdade a ser revelada \u00e9 a Palavra de Deus, revelada ao seu povo por meio de um profeta. A verdade revelada \u2013 os ensinamentos de Deus \u2013 est\u00e1 contida nos cinco primeiros livros da B\u00edblia (G\u00eanesis, \u00caxodo, Lev\u00edtico, Deuteron\u00f4mio e N\u00fameros), conhecida pelos judeus por Tor\u00e1. Al\u00e9m de revelar a verdade ao povo, como foi o caso de Mois\u00e9s, muitos profetas b\u00edblicos t\u00eam por miss\u00e3o reconduzir o povo de Deus ao pleno cumprimento de sua lei, contida na Tor\u00e1.<\/p>\n<p>A profecia, assim, constitui-se como uma das quest\u00f5es mais importantes da cultura judaica, pois \u00e9 o meio pelo qual Deus se comunica com a humanidade e transmite suas vontades, ensinamentos e suas leis a serem cumpridas. A Palavra de Deus foi recebida, transmitida e est\u00e1 acess\u00edvel a todos, poss\u00edvel de ser assimilada por aqueles que desejarem e passada para as gera\u00e7\u00f5es posteriores \u2013 tudo gra\u00e7as aos profetas.<\/p>\n<p>Mois\u00e9s Maim\u00f4nides deu grande aten\u00e7\u00e3o a quest\u00e3o da profecia em sua filosofia, a ponto de dedicar oito cap\u00edtulos de sua obra de maior destaque para tratar essa quest\u00e3o. Esta obra, a qual servir\u00e1 de base para a reflex\u00e3o seguinte, \u00e9 o \u201cGuia dos Perplexos\u201d, uma obra que incide tanto sobre a filosofia quanto sobre a teologia, n\u00e3o sendo uma obra puramente filos\u00f3fica.<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>2.1 O profeta judeu<\/strong><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Na perspectiva da profecia judaica, o primeiro passo a ser dado est\u00e1 em compreender a figura do profeta dentro desta tradi\u00e7\u00e3o. Numa concep\u00e7\u00e3o popular, o profeta \u00e9 aquele que tem por fun\u00e7\u00e3o prever o futuro, que <em>pr\u00e9-diz<\/em>, simplesmente um adivinho; uma posi\u00e7\u00e3o, certamente, em disson\u00e2ncia com a maioria dos te\u00f3logos judeus, incluindo Maim\u00f4nides. (HADDAD, 2003, p. 83).<\/p>\n<p>Para a tradi\u00e7\u00e3o judaica, o profeta n\u00e3o \u00e9 qualquer um. Em sua sublime concep\u00e7\u00e3o, Maim\u00f4nides (2003, p. 195-196, grifo nosso) apresenta as tr\u00eas poss\u00edveis opini\u00f5es acerca da figura do profeta:<\/p>\n<p><strong>Primeira Opini\u00e3o:<\/strong> \u00c9 pertinente \u00e0quelas pessoas pag\u00e3s que admitem a Profecia, o que coincide com a de certos setores dentro do povo de nossa religi\u00e3o. Deus (Exaltado Seja!), dizem, elege a quem lhe agrada entre os homens, faz dele Profeta e lhe confere uma miss\u00e3o. N\u00e3o h\u00e1 diferen\u00e7a, segundo eles, se este \u00e9 s\u00e1bio ou ignorante, velho ou jovem. Todavia, \u00e9 condi\u00e7\u00e3o que seja homem de bem e de bons costumes, pois ningu\u00e9m at\u00e9 agora afirmou, que Deus tenha outorgado o dom prof\u00e9tico a um homem perverso, a menos que, antes, o tenha transformado em um homem bom.<\/p>\n<p><strong>Segunda Opini\u00e3o:<\/strong> E a dos fil\u00f3sofos. A Profecia implica certa perfei\u00e7\u00e3o na natureza da pessoa, mas nenhum homem pode alcan\u00e7\u00e1-la sen\u00e3o por meio do estudo, transformando em ato o que est\u00e1 em pot\u00eancia, salvo apare\u00e7a um obst\u00e1culo proveniente do temperamento ou de alguma causa exterior \u2014 como ocorre em toda perfei\u00e7\u00e3o poss\u00edvel em determinada esp\u00e9cie, mas n\u00e3o de maneira uniforme para todos os indiv\u00edduos desta esp\u00e9cie, at\u00e9 sua conclus\u00e3o e \u00faltimo grau.<\/p>\n<p><strong>Terceira Opini\u00e3o:<\/strong> Pertence \u00e0 Nossa Lei e \u00e9 fundamento de nossa religi\u00e3o. \u00c9 id\u00eantica \u00e0 opini\u00e3o filos\u00f3fica, exceto em um ponto: n\u00f3s acreditamos que o indiv\u00edduo, ainda que seja apto e tenha se preparado para a Profecia, pode, todavia, n\u00e3o chegar a ser Profeta, pois isso depende da Vontade Divina.<\/p>\n<p>Estas tr\u00eas opini\u00f5es se fazem importantes, pois \u00e9 a partir delas que \u00e9 poss\u00edvel se conceber a real imagem do profeta da tradi\u00e7\u00e3o judaica. A primeira opini\u00e3o apresentada representa uma vis\u00e3o popular: o profeta pode ser qualquer pessoa, independente de quaisquer caracter\u00edsticas suas \u2013 sejam elas f\u00edsicas, morais ou intelectuais. O \u00fanico crit\u00e9rio para que exista um profeta \u00e9 ele ser chamado por Deus; al\u00e9m disso, o profeta n\u00e3o necessita de mais nada para ser tal.<\/p>\n<p>A segunda opini\u00e3o apresentada refere-se a opini\u00e3o dos fil\u00f3sofos \u00e1rabes seguidores do pensamento aristot\u00e9lico. Nesta perspectiva, a profecia, para ocorrer, exige muito estudo, visto que anteriormente foram cumpridas as qualifica\u00e7\u00f5es f\u00edsicas, morais e intelectuais. \u00c9 permitido depreender, a partir desta segunda opini\u00e3o, uma independ\u00eancia do profeta em rela\u00e7\u00e3o a gra\u00e7a divina: n\u00e3o \u00e9 mais uma quest\u00e3o de escolha, como na primeira opini\u00e3o, mas sim \u00e9 o esfor\u00e7o do pr\u00f3prio homem que o conduz ao alcance da revela\u00e7\u00e3o divina. \u00c9 como que se conceber um Deus est\u00e1tico, que espera que algum homem (certamente, o homem virtuoso) venha at\u00e9 Ele para buscar uma revela\u00e7\u00e3o prof\u00e9tica para transmiti-la aos demais: Deus n\u00e3o escolhe, n\u00e3o depende da vontade d\u2019Ele.<\/p>\n<p>A terceira opini\u00e3o refere-se diretamente a opini\u00e3o da tradi\u00e7\u00e3o judaica e \u00e9 seu fundamento. Nela, o profeta \u00e9 como que a conjun\u00e7\u00e3o parcial entre as duas opini\u00f5es anteriores: al\u00e9m de retid\u00e3o moral, perfei\u00e7\u00e3o f\u00edsica, boas condi\u00e7\u00f5es intelectuais; ou seja, al\u00e9m do homem virtuoso, \u00e9 necess\u00e1ria a vontade de Deus para que a profecia seja revelada a algu\u00e9m.<\/p>\n<p>Deus faz Profeta a quem e quando quer, contanto que seja um homem decididamente \u00edntegro e s\u00e1bio. Aos ignorantes, parece uma coisa t\u00e3o imposs\u00edvel que Deus constitua algum deles profeta quanto seria para um asno ou para uma r\u00e3. Este \u00e9 o nosso princ\u00edpio: o treinamento e o aperfei\u00e7oamento s\u00e3o indispens\u00e1veis, e somente a\u00ed se fundamenta a possibilidade, desde que venha unida \u00e0 Vontade Divina.\u00a0 (MAIM\u00d4NIDES, 2003, p. 197).<\/p>\n<p>Nesta concep\u00e7\u00e3o judaica de profecia, o profeta \u00e9 aquele que atinge um certo conhecimento de Deus atrav\u00e9s de suas virtudes, mais ou menos aprofundado segundo sua posi\u00e7\u00e3o na hierarquia dos profetas (HADDAD, 2003, p. 83). Al\u00e9m disso, com a conjun\u00e7\u00e3o das duas outras opini\u00f5es \u2013 em especial, a segunda que se embasa na teoria aristot\u00e9lica \u2013 \u00e9 poss\u00edvel tamb\u00e9m se conceber a profecia como sendo algo pertencente a todos os indiv\u00edduos, ao menos em pot\u00eancia \u2013 uma qualidade do homem.<\/p>\n<p>O profeta, aqui, n\u00e3o \u00e9 simplesmente um homem virtuoso que atinge sozinho a profecia divina, tampouco \u00e9 simplesmente um inspirado; ele \u00e9 o mediador de algo que n\u00e3o lhe pertence: a Palavra de Deus. N\u00e3o \u00e9 simplesmente por um exerc\u00edcio pr\u00f3prio que se alcan\u00e7a a profecia, mas acrescido a isto est\u00e1 tamb\u00e9m a vontade de Deus. O texto de Sicre (1995, p. 198) auxilia nesta reflex\u00e3o, ao definir o profeta n\u00e3o como algu\u00e9m que faz a profecia <em>de per si<\/em>, mas a faz por obra divina:<\/p>\n<p>Quando fala ou escreve, o profeta n\u00e3o recorre a arquivos e documentos, como os historiadores; tampouco se baseia na experi\u00eancia humana geral, como os s\u00e1bios de Israel. Seu \u00fanico ponto de apoio, sua for\u00e7a e sua fraqueza, \u00e9 a palavra que o Senhor lhe comunica pessoalmente, quando quer, sem que ele se possa negar a proclam\u00e1-la. Palavra que \u00e0s vezes se assemelha ao rugido de um le\u00e3o (Am 1, 2), e em outras ocasi\u00f5es \u00e9 \u201cgozo e alegria \u00edntima\u201d (Jr 15, 16). Palavra com frequ\u00eancia imprevista e imediata, mas que em momentos decisivos chega muito tarde (Jr 42, 1-7). Palavra dura e exigente em muitos casos, que se converte em \u201cfogo ardente e devorador, encerrado nos ossos\u201d (Jr 20, 9), que \u00e9 preciso suportar e proclamar. Palavra de que muitos gostariam de fugir, como Jonas, mas que termina impondo-se e triunfando.<\/p>\n<p>A partir disto, nota-se: a centralidade \u00e9 a Palavra de Deus, n\u00e3o a figura do profeta, pelo modo como ele recebe a vis\u00e3o ou a inspira\u00e7\u00e3o. O profeta \u00e9 o mediador, n\u00e3o \u00e9 primeiramente aquele que recebe a inspira\u00e7\u00e3o divina ou o esp\u00edrito de Deus \u2013 \u00e9 aquele que empresta sua boca para, de fato, \u201cfalar em nome de\u201d, aquele que formula uma palavra da qual n\u00e3o \u00e9 o gerador. (ZARADER, 1990, p. 71). O profeta judeu \u00e9 aquele que acolhe a revela\u00e7\u00e3o de Deus e manifesta a verdade \u2013 o intermedi\u00e1rio: recebe algo que exige uma transmiss\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>2.2 A profecia<\/strong><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Compreendida a figura do profeta, cabe agora analisar a quest\u00e3o da profecia em si. Primeiro, por\u00e9m, se faz necess\u00e1rio compreender de que modo a profecia chega at\u00e9 o profeta. Quando, na tradi\u00e7\u00e3o b\u00edblica, se diz respeito a algu\u00e9m que se comunicou com Deus ou com um anjo, tal comunica\u00e7\u00e3o se deu por meio de um sonho ou de uma vis\u00e3o prof\u00e9tica. A profecia na tradi\u00e7\u00e3o judaica est\u00e1 intimamente ligada ao sonho ou a vis\u00e3o. Sonho \u00e9 compreendido em seu sentido ordin\u00e1rio, dispensando-se explica\u00e7\u00f5es; quanto a vis\u00e3o, esta \u00e9 compreendida por um estado de agita\u00e7\u00e3o e terror que se apodera do profeta, no qual \u201cos sentidos se paralisam e a emana\u00e7\u00e3o se derrama sobre a faculdade racional, e dela para a imaginativa, de tal maneira que esta se aperfei\u00e7oa e entra em atividade\u201d (MAIM\u00d4NIDES, 2003, p. 231). \u00c0 luz das Sagradas Escrituras, Mois\u00e9s Maim\u00f4nides desenvolve 4 modos de se receber a vis\u00e3o prof\u00e9tica:<\/p>\n<p><strong>Primeiro Modo:<\/strong> Quando o Profeta afirma taxativamente que a palavra veio de um anjo em Sonho ou em Vis\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Segundo Modo:<\/strong> Quando o Profeta narra as palavras do anjo, sem esclarecer se foi um Sonho ou Vis\u00e3o, pois ele confia no que j\u00e1 \u00e9 conhecido \u2014 s\u00f3 h\u00e1 Profecia por uma destas duas maneiras: \u201cEm Vis\u00e3o Eu me revelarei a ele, e por Sonho Lhe falarei.\u201d (N\u00fameros 12:6).<\/p>\n<p><strong>Terceiro Modo:<\/strong> Sem se referir de modo algum a um anjo, o Profeta atribui a palavra a Deus (Exaltado Seja!) que teria se dirigido a ele em Pessoa, mas menciona que esta palavra veio a ele em Vis\u00e3o ou Sonho.<\/p>\n<p><strong>Quarto Modo:<\/strong> Quando o Profeta assegura simplesmente que Deus lhe falou ou lhe ordenou: Fa\u00e7a isto ou Diga isto, sem esclarecer se foi por media\u00e7\u00e3o de um anjo ou de um sonho, fiando-se no conhecido e estabelecido: que nenhuma Profecia nem Revela\u00e7\u00e3o ocorre sen\u00e3o em Sonho ou Vis\u00e3o e por interm\u00e9dio de um anjo. (MAIM\u00d4NIDES, 2003, p. 232, grifo nosso).<\/p>\n<p>A respeito disto, tudo \u00e9 profecia, e quem a transmite, profetas. Mesmo que dentro do contexto b\u00edblico, em muitos casos, n\u00e3o se especifique se foi sonho ou vis\u00e3o, se foi transmitida por anjo ou n\u00e3o; todas s\u00e3o profecias, pois se tem a certeza de que a mensagem foi transmitida por Deus atrav\u00e9s de um anjo, com exce\u00e7\u00e3o de Mois\u00e9s: \u201cqualquer Profeta, exceto <em>Mosh\u00e9 Rab\u00eanu<\/em> [Mois\u00e9s], chegava-lhe a Profecia pelas m\u00e3os de um anjo. Saibam!\u201d (MAIM\u00d4NIDES, 2003, p. 204).<\/p>\n<p>Dito isto, agora passa-se para a pr\u00f3pria profecia em si. Dentro da cultura judaica, o que era dito pelos profetas tinha um teor de verdade absoluto, j\u00e1 que era a palavra do pr\u00f3prio Deus. Era a lei transmitida para conduzir e orientar a vida do povo de Deus nesta terra. Profecia, dentro da cultura judaica, \u00e9 sin\u00f4nimo de verdade e de lei, mesmo que pare\u00e7a estranho se afirmar algo com tamanha garantia:<\/p>\n<p>A seguran\u00e7a com que o profeta afirma \u201cpalavra de Deus\u201d, \u201cor\u00e1culo do Senhor\u201d, incomoda o homem contempor\u00e2neo. Infere-se uma comunica\u00e7\u00e3o direta, quase f\u00edsica, entre o profeta e o Senhor. Mas, se evitarmos o literalismo, suas f\u00f3rmulas expressam uma verdade profunda e bastante compreens\u00edvel. [&#8230;] O homem moderno poder\u00e1 duvidar desta certeza do profeta. Dir\u00e1 que tudo prov\u00e9m de seus desejos ou fantasias. O profeta, por\u00e9m, sabe que n\u00e3o \u00e9 assim, e age de acordo com sua convic\u00e7\u00e3o. (SICRE, 1994, p. 198).<\/p>\n<p>A partir disto, compreende-se o porqu\u00ea de a palavra do profeta \u2013 mesmo que para muitos seja considerada a verdade, lei e a palavra de Deus \u2013 pode, em muitos casos ser tamb\u00e9m rejeitada. N\u00e3o se deve crer, de modo idealizado, que, s\u00f3 por ser dita palavra de Deus, a profecia ser\u00e1 escutada por todos com admir\u00e1vel respeito.<\/p>\n<p>A maioria das vezes, acontecer\u00e1 ao profeta o que Deus diz a Ezequiel: \u201cAcodem a ti em bando e o meu povo senta-se diante de ti; ouvem as tuas palavras, mas n\u00e3o as praticam (&#8230;). Tu \u00e9s para eles como uma can\u00e7\u00e3o suave, bem cantada ao som de instrumentos de corda. Ouvem as tuas palavras, mas n\u00e3o as praticam\u201d (Ez 33, 30-33). Este desprezo para com a palavra de Deus \u00e9 uma das caracter\u00edsticas mais enfatizadas pela tradi\u00e7\u00e3o b\u00edblica em Israel, o povo que n\u00e3o quer escutar a palavra do Senhor, seu Deus. (SICRE, 1996, p. 104).<\/p>\n<p>Todavia, apesar de poder ser desprezada, deve-se lembrar que a palavra do profeta, dentro desta tradi\u00e7\u00e3o, prov\u00e9m de Deus, e \u00e9 por isso que n\u00e3o deve ser rejeitada. O pr\u00f3prio Deus comunicou que assim seria. Segundo Maim\u00f4nides, o pr\u00f3prio Deus assim deseja:<\/p>\n<p>Deus (Exaltado Seja!) preveniu ao povo de Israel que haveria, entre eles, um Profeta, a quem um anjo se manifestaria e lhe falaria, comunicando-lhe ordens e interdi\u00e7\u00f5es. Assim, Deus nos pro\u00edbe de desobedecer a este anjo, cuja palavra nos transmitir\u00e1 o Profeta, como se afirma em Deuteron\u00f4mio 18:15: \u201cA ele ouvir\u00e1s\u201d; e tamb\u00e9m: \u201cA quem n\u00e3o escutar as palavras que ele dir\u00e1 em Meu Nome (&#8230;)\u201d. (MAIM\u00d4NIDES, 2003, p. 203).<\/p>\n<p>Assim, compreende-se que, como palavra de Deus, a profecia na tradi\u00e7\u00e3o judaica \u00e9 sempre a correta, \u00e9 verdade sempre \u2013 mesmo que assuma diferentes car\u00e1teres, como a verdade aparecendo em vis\u00f5es tanto de condena\u00e7\u00e3o quanto de salva\u00e7\u00e3o; mesmo que n\u00e3o seja seguida, que seja desprezada por muitos.<\/p>\n<p>E para que seja considerada como esta verdade de Deus, para que a lei transmitida seja seguida, a palavra deve ser compreendida pelos ouvintes. N\u00e3o podem ser proferidos discursos complexos ou densos, vagos ou carregados de ambiguidades; o discurso do profeta deve ser claro e direto: deve transmitir a mensagem de Deus com a finalidade de ser cumprida. Para que a lei seja cumprida e para que o povo retorne \u00e0 esta lei, o profeta deve falar de acordo com seu contexto, dentro da realidade local de um modo com que o que for dito seja compreendido.<\/p>\n<p>A palavra do profeta b\u00edblico, em diversos casos, pode parecer obscura, dif\u00edcil e at\u00e9 indecifr\u00e1vel, todavia, deve-se levar em conta a dist\u00e2ncia temporal que separa tal palavra da contemporaneidade. Como dito, o profeta deve transmitir a palavra de modo claro, de acordo com a realidade; sendo assim, no contexto em que tal palavra foi proferida, eram outros os pressupostos hist\u00f3ricos, econ\u00f4micos, pol\u00edticos e culturais que s\u00e3o, em parte, desconhecidos para o hoje, enquanto que, para os contempor\u00e2neos do profeta, n\u00e3o haviam d\u00favidas quanto ao que era dito \u2013 n\u00e3o havia uma possibilidade de revis\u00e3o: a palavra de Deus era irrevog\u00e1vel, agradasse ou n\u00e3o (SICRE, 1996, p. 105).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>2.3 A quest\u00e3o do destino<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O pr\u00f3prio Maim\u00f4nides n\u00e3o fez uma refer\u00eancia direta a tal tema em sua obra. Todavia, analisando-se minuciosamente tal autor, compreendendo sua influ\u00eancia e centralidade na palavra b\u00edblica e analisando-se as figuras b\u00edblicas prof\u00e9ticas usadas por ele em sua obra, \u00e9 poss\u00edvel dar um passo al\u00e9m no profetismo judeu, e analisar tamb\u00e9m a quest\u00e3o do destino, compreendendo o modo com o qual tal conceito se relaciona com a profecia judaica e sua influ\u00eancia na vida desta cultura.<\/p>\n<p>No que diz respeito a situa\u00e7\u00e3o do destino no profetismo da tradi\u00e7\u00e3o judaica, um primeiro passo a ser dado \u00e9 analisar a vis\u00e3o prof\u00e9tica de um ponto de vista temporal. Sicre (1996, p. 97), em sua obra afirma:<\/p>\n<p>A vis\u00e3o pode referir-se ao <em>futuro imediato<\/em>, como a de Eliseu, quando diz que Deus lhe fez ver Hazael como rei da S\u00edria e Benadad assassinado por este (2Rs 8, 10.13), e Jr 38, 21-23, onde o profeta contempla o que acontecer\u00e1 em caso de o rei desobedecer. Tamb\u00e9m pode referir-se a <em>futuro mais ou menos pr\u00f3ximo <\/em>(restaura\u00e7\u00e3o de Jerusal\u00e9m, etc.), ou a um <em>futuro remoto<\/em>, \u201caos \u00faltimos tempos\u201d (a espl\u00eandida vis\u00e3o da paz internacional em Is 2, 1-4).<\/p>\n<p>Com isso, percebe-se que nem todas as profecias na cultura judaica se restringem a um mesmo espa\u00e7o temporal: h\u00e1 diferen\u00e7as quanto ao tempo a que as profecias se referem. Em alguns casos, a palavra do profeta pode aludir a um futuro; todavia, esta n\u00e3o \u00e9 sua tarefa essencial \u2013 o profeta b\u00edblico decifra o invis\u00edvel do vis\u00edvel (ZARADER, 1990, p. 71). N\u00e3o s\u00f3 prev\u00ea um futuro, mas tamb\u00e9m analisa a realidade e interpreta-a corretamente aos olhos de Deus: o profeta da tradi\u00e7\u00e3o judaica \u00e9 um hermeneuta (ZARADER, 1990, p. 71).<\/p>\n<p>Compreendido isto, no que se refere \u00e0 previs\u00e3o do futuro a profecia da tradi\u00e7\u00e3o b\u00edblica vem como um alerta \u2013 pode ou n\u00e3o ocorrer. A palavra do profeta serve para orientar o povo e reconduzi-lo \u00e0 lei; em muitos casos, \u00e9 uma palavra de convers\u00e3o que implica uma mudan\u00e7a de atitude, gerando consequ\u00eancias no destino. Nota-se aqui, um destino n\u00e3o inalter\u00e1vel, mas suscet\u00edvel a mudan\u00e7as. A profecia, na tradi\u00e7\u00e3o judaica, serve em muitos casos de um alerta para uma <em>poss\u00edvel situa\u00e7\u00e3o<\/em>. O caso de Ezequiel, por exemplo, representa o poder de mudan\u00e7a do destino que a palavra do profeta pode causar:<\/p>\n<p>Filho do homem, eu te constitu\u00ed atalaia para a casa de Israel. Quando ouvires uma palavra da minha boca, adverti-los-\u00e1s de minha parte. Se digo ao \u00edmpio: \u201cTu morrer\u00e1s\u201d e tu n\u00e3o o advertires, se n\u00e3o lhe falares a fim de desvi\u00e1-lo do seu caminho mau, para que viva, ele morrer\u00e1, mas o seu sangue, requer\u00ea-lo-ei da tua m\u00e3o. Por outro lado, se tu advertires o \u00edmpio, mas ele n\u00e3o se arrepender do seu caminho mau, morrer\u00e1 na sua iniquidade, mas tu ter\u00e1s salvo a tua vida. (Ez 3, 17 \u2013 20).<\/p>\n<p>Deus dirige a palavra ao profeta a fim de que este possa advertir o povo sobre algo que est\u00e1 para acontecer. Assim, com a palavra transmitida, o futuro previsto ao povo pode ser alterado \u2013 no caso citado acima, o futuro do \u00edmpio pode ser alterado se este se ater a palavra do profeta; se for afastado, pelas palavras do profeta, do caminho mau. A profecia, neste caso, n\u00e3o vem para revelar um destino inalter\u00e1vel, goste a pessoa ou n\u00e3o; ao contr\u00e1rio, ela vem para que a figura central a quem ela se refere tome consci\u00eancia de que, se for de seu desejo (da pessoa a quem se refere a profecia), o destino previsto pode ser alterado. Como visto anteriormente, o fato da palavra do profeta poder ser rejeitada atesta claramente este ponto.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>3 UMA COMPARA\u00c7\u00c3O ENTRE A PROFECIA NAS CULTURAS GREGA E JUDAICA<\/strong><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Sabe-se que, como distintas, as culturas grega e judaica possuem contextos hist\u00f3ricos, geogr\u00e1ficos e sociopol\u00edticos completamente diferentes. O intuito de se realizar esta breve compara\u00e7\u00e3o \u00e9 notar quais pontos se distinguem ou se aproximam em tais culturas num assunto muito caro \u00e0s duas tradi\u00e7\u00f5es: a profecia. Como visto, a figura do profeta e a pr\u00f3pria profecia em si adquirem enorme import\u00e2ncia dentro destas tradi\u00e7\u00f5es como figuras reguladoras da ordem social e dos costumes e atitudes do povo. Al\u00e9m disso, tal compara\u00e7\u00e3o se faz interessante, pois, embora diferentes, as duas tradi\u00e7\u00f5es exerceram e exercem at\u00e9 hoje grande influ\u00eancia no modo de pensar ocidental. Ap\u00f3s se realizar uma breve an\u00e1lise de como as duas culturas concebem a figura do profeta, a profecia e o destino, resta agora analisar se estes pontos se distanciam ou se aproximam em ambas tradi\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Na tradi\u00e7\u00e3o hel\u00eanica, a figura do profeta assume uma import\u00e2ncia enorme na esfera social, isto porque todo o enfoque e aten\u00e7\u00e3o s\u00e3o postos em sua vis\u00e3o e em sua inspira\u00e7\u00e3o. O profeta grego \u00e9 um verdadeiro vidente, como que um m\u00e1gico: sua figura \u00e9 de tal modo destac\u00e1vel, que \u00e9 reconhecido como um dos mestres da verdade na vida social. Toda a centralidade da figura do profeta est\u00e1 em ser este, um verdadeiro inspirado.<\/p>\n<p>Em contrapartida, no profetismo judeu, toda a aten\u00e7\u00e3o, todo o enfoque n\u00e3o \u00e9 colocado na vis\u00e3o do profeta, tampouco em sua inspira\u00e7\u00e3o, mas sim \u00e9 na Palavra de Deus \u2013<\/p>\n<p>mais precisamente ainda, na fun\u00e7\u00e3o mediadora da palavra. [&#8230;]. Isso quer dizer, que aquilo que define a sua ess\u00eancia espec\u00edfica, \u00e9 a ordem da linguagem, e que dentro desta ordem, tem fun\u00e7\u00e3o de intermedi\u00e1rio: receptor de uma palavra que exige a transmiss\u00e3o. Enquanto o profeta grego \u00e9 antes um inspirado, e s\u00f3 \u00e9 acessoriamente mediador de uma palavra, o seu int\u00e9rprete (<em>proph\u00e8t\u00e8s<\/em>). (ZARADER, 1990, p. 71).<\/p>\n<p>No que diz respeito a profecia realizada, a principal distin\u00e7\u00e3o entre ambas as tradi\u00e7\u00f5es reside no quesito \u201cclareza\u201d da palavra revelada. Na tradi\u00e7\u00e3o grega, a palavra revelada pelo profeta \u00e9 verdade, tanto quanto na tradi\u00e7\u00e3o judaica, todavia, o modo com o qual essa palavra \u00e9 transmitida \u00e0s pessoas n\u00e3o se d\u00e1 do modo mais simples poss\u00edvel. A palavra do profeta grego \u00e9 amb\u00edgua, obscura, enigm\u00e1tica e, de in\u00edcio, at\u00e9 mesmo contradit\u00f3ria. O que torna o profeta um mestre da verdade na Gr\u00e9cia antiga \u2013 a palavra do deus que ele acolhe e deve transmitir \u2013 \u00e9 o mesmo que o torna um mestre do engano, ocasionando muitas vezes confus\u00f5es e equ\u00edvocos com sua palavra.<\/p>\n<p>Por sua vez, na tradi\u00e7\u00e3o semita, a palavra revelada, como palavra de Deus, \u00e9 e deve obrigatoriamente ser clara, pois o povo deve compreender a mensagem transmitida pelo profeta a fim de cumprir a lei de Deus. Se a palavra vem com for\u00e7a de lei e \u00e9 a verdade manifestada de Deus, n\u00e3o pode ser transmitida de modo complexo ou vago: deve ser clara e direta, tendo o profeta, at\u00e9 mesmo de adapt\u00e1-la ao contexto no qual est\u00e1 inserido.<\/p>\n<p>[Este ponto da clareza] diferencia radicalmente o profetismo b\u00edblico do profetismo grego. O or\u00e1culo de Delfos tinha uma vantagem enorme. Falava de modo t\u00e3o amb\u00edguo e obscuro, que cada um podia interpretar o que queria. Se fosse claro, e n\u00e3o agradasse, havia a possibilidade de pedir um novo or\u00e1culo, mais ben\u00e9volo e otimista. Nada disso tem cabimento no caso da palavra de Deus aos profetas. [&#8230;]. Para os contempor\u00e2neos do profeta, n\u00e3o havia d\u00favida quanto ao que ele dizia. (SICRE, 1996, p. 105).<\/p>\n<p>Ainda sobre a palavra revelada, outro aspecto interessante de se analisar \u00e9 que, dentro da perspectiva judaica de profecia, a palavra revelada por Deus pode ser desprezada. N\u00e3o se deve crer inocentemente que aqueles que ouvem as palavras dos profetas as cumprem plenamente: eles possuem a liberdade de optar por aquilo que devem ou n\u00e3o fazer. Este \u00e9 um detalhe que abre caminho para o \u00faltimo aspecto a se analisar entre as duas culturas: a quest\u00e3o do destino.<\/p>\n<p>Dentro da mentalidade grega, o destino revelado pelos or\u00e1culos n\u00e3o \u00e9 uma op\u00e7\u00e3o: ele ocorrer\u00e1, quer agrade ou n\u00e3o a quem ouvi-lo. N\u00e3o h\u00e1, nesta perspectiva grega, uma interfer\u00eancia da figura do profeta na vida das pessoas: se o profeta falar, nada poder\u00e1 fazer aquele a quem diz respeito a profecia sobre o futuro, pois o que foi dito ocorrer\u00e1. Por isso, falar ou n\u00e3o o profeta nada mudar\u00e1 no destino das pessoas. Enquanto que, dentro da perspectiva judaica, aquilo que o profeta fala tem poder de transforma\u00e7\u00e3o: a profecia n\u00e3o vem como algo inalter\u00e1vel, mas sim como um alerta, com o intuito de que quem acolh\u00ea-la possa buscar uma mudan\u00e7a e assim alterar seu destino previsto.<\/p>\n<p>Enquanto o profeta b\u00edblico prev\u00ea o futuro, este s\u00f3 \u00e9 pre-visto para ser pre-venido. Inspiro-me aqui da oposi\u00e7\u00e3o Cassandra-Isa\u00edas tal como \u00e9 desenvolvida por A. Nether. Cassandra, quer fale ou n\u00e3o, n\u00e3o ir\u00e1 influir sobre os acontecimentos, ao passo que haver\u00e1 ou n\u00e3o acontecimentos se Isa\u00edas falar ou se calar. [&#8230;]. Assim, o profeta b\u00edblico faz mais do que pertencer \u00e0 hist\u00f3ria: \u00e9 o seu fundador. \u00c9 com ele que se inicia a hist\u00f3rias que toma sentido, \u00e9 ele quem anuncia a esperan\u00e7a messi\u00e2nica. (ZARADER, 1990, p. 71-72).<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>CONCLUS\u00c3O<\/strong><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>O conceito de profecia presente nas duas culturas j\u00e1 de in\u00edcio revela que o profeta n\u00e3o \u00e9 aquele que simplesmente diz o futuro, que prediz algo; mas sim algu\u00e9m diferente dos demais, algu\u00e9m que, por alguma virtude \u2013 quer f\u00edsica, intelectual ou moral \u2013 se destaca dos demais e \u00e9 escolhido para este m\u00fanus. Dentro das duas tradi\u00e7\u00f5es, o profeta \u00e9 algu\u00e9m s\u00e1bio, emissor de or\u00e1culos e que ensina a viver. Tal fato \u00e9 importante, pois para abas as tradi\u00e7\u00f5es a profecia possui uma enorme import\u00e2ncia: \u00e9 o modo com o qual a divindade se manifesta.<\/p>\n<p>Nas duas culturas aqui abordadas, a figura do profeta, como transmissor de uma palavra que n\u00e3o \u00e9 sua, que recebe de algum modo, seja por vis\u00f5es ou sonhos, \u00e9 um inspirado. Todavia, dentro da tradi\u00e7\u00e3o grega este \u00e9 o ponto que mais chama a aten\u00e7\u00e3o: todo o enfoque \u00e9 colocado no profeta em si, no modo como recebeu sua vis\u00e3o ou sua inspira\u00e7\u00e3o. Algo que n\u00e3o se percebe na tradi\u00e7\u00e3o judaica, j\u00e1 que o enfoque \u00e9 colocado na palavra revelada em si: o profeta \u00e9 apenas um instrumento, um mediador \u2013 o sujeito de maior destaque \u00e9 a palavra de Deus a se manifestar.<\/p>\n<p>No que se refere a profecia enquanto palavra revelada, esta possui como diferen\u00e7a central entre as duas tradi\u00e7\u00f5es a quest\u00e3o da clareza. A profecia grega \u00e9 obscura, confusa e amb\u00edgua, enquanto que a profecia da tradi\u00e7\u00e3o judaica \u00e9 clara e objetiva, j\u00e1 que deve ser cumprida como for\u00e7a de lei. Al\u00e9m disso, a palavra revelada na tradi\u00e7\u00e3o judaica pode ser rejeitada; h\u00e1 uma escolha do sujeito a quem ela se refere, o que conduz ao \u00faltimo ponto, a diferen\u00e7a da quest\u00e3o do destino. Enquanto que na tradi\u00e7\u00e3o grega o destino \u00e9 inalter\u00e1vel e ocorrer\u00e1 de qualquer modo, quer seja profetizado ou n\u00e3o, na tradi\u00e7\u00e3o judaica o destino pode ser mudado, pois a profecia vem como um alerta.<\/p>\n<p>Diante disso, nota-se que ambas as tradi\u00e7\u00f5es, apesar de lidarem de modo semelhante com um mesmo tema \u2013 o conceito geral da profecia enquanto palavra divina revelada que ensina a viver \u2013 abordam seus aspectos intr\u00ednsecos de modo diferente. A profecia na tradi\u00e7\u00e3o judaica vem como uma forma de legisla\u00e7\u00e3o que pode ou n\u00e3o ocorrer, ao passo que na tradi\u00e7\u00e3o grega \u00e9 uma revela\u00e7\u00e3o de um fato futuro que certamente ocorrer\u00e1. Assim sendo, percebe-se que a profecia, em ambas as tradi\u00e7\u00f5es \u2013 apesar de suas diferen\u00e7as \u2013 \u00e9 um sustent\u00e1culo para o ordenamento social e uni\u00e3o de culturas. A profecia \u00e9 fruto do homem que se eleva a uma contempla\u00e7\u00e3o divina e tenta, de certa maneira, levar aquilo por ele contemplado a todos os outros.<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>REFER\u00caNCIAS <\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>B\u00cdBLIA. Portugu\u00eas. B\u00edblia de Jerusal\u00e9m. S\u00e3o Paulo: Paulus, 2010.<\/p>\n<p>DETIENNE, Marcel. <em>Os mestres da verdade na Gr\u00e9cia arcaica<\/em>. Tradu\u00e7\u00e3o de Andr\u00e9a Daher. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1988.<\/p>\n<p>HADDAD, G\u00e9rard. <em>Maim\u00f4nides.<\/em> Tradu\u00e7\u00e3o Guilherme Jo\u00e3o de Freitas Teixeira. S\u00e3o Paulo: Esta\u00e7\u00e3o Liberdade, 2003.<\/p>\n<p>MAIM\u00d4NIDES, Mois\u00e9s. <em>O guia dos perplexos<\/em>: Parte 2. Tradu\u00e7\u00e3o de Uri Lam. S\u00e3o Paulo: Landy, 2003.<\/p>\n<p>MARQUES, Marcelo P. Mito e Filosofia<em>. <\/em>In: ANDRADE, M\u00f4nica (Org.) <em>Mito<\/em>. Belo Horizonte: N\u00facleo de Filosofia Sonia Viegas, 1994.<\/p>\n<p>SICRE, Jos\u00e9 Luis. <em>Profetismo em Israel. <\/em>O profeta. Os profetas. A mensagem. Tradu\u00e7\u00e3o Jo\u00e3o Lu\u00eds Bara\u00fana. Petr\u00f3polis: Vozes, 1996.<\/p>\n<p>______. <em>Introdu\u00e7\u00e3o ao Antigo Testamento. <\/em>Tradu\u00e7\u00e3o de Wagner de Oliveira Brand\u00e3o. Petr\u00f3polis: Vozes, 1995.<\/p>\n<p>S\u00d3FOCLES. <em>Ant\u00edgona<\/em>. Tradu\u00e7\u00e3o. J. B. de Mello e Souza. [S.l.: s.n.], 2005. Dispon\u00edvel em: &lt;http:\/\/www.ebooksbrasil.org\/adobeebook\/antigone.pdf&gt;. Acesso em 15 nov. 2016.<\/p>\n<p>SZONDI, Peter. <em>Ensaio sobre o tr\u00e1gico<\/em>. Tradu\u00e7\u00e3o de Pedro S\u00fcssekind. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2004.<\/p>\n<p>VERNANT, Jean-Pierre. <em>As origens do pensamento grego<\/em>. Tradu\u00e7\u00e3o de \u00cdsis Borges B. da Fonseca. 12. ed. Rio de Janeiro: Difel, 2002.<\/p>\n<p>______. <em>Mito e religi\u00e3o na Gr\u00e9cia antiga. <\/em>Tradu\u00e7\u00e3o Joana Ang\u00e9lica D&#8217; \u00c1vila Melo. &#8211; S\u00e3o Paulo: WMF Martins Fontes, 2006.<\/p>\n<p>ZARADER, Marl\u00e8ne. <em>A d\u00edvida impensada: <\/em>Heidegger e a Heran\u00e7a Hebraica. Tradu\u00e7\u00e3o S\u00edlvia Meneses. Lisboa: Instituto Piaget, 1990.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/wp-admin\/post-new.php#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">*<\/a> Graduando em Filosofia na FAM<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/wp-admin\/post-new.php#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[1]<\/a> Principium Sapientiae &#8211; As Origens do Pensamento Filos\u00f3fico Grego. Trad. M. M. R. Santos. Lisboa: Funda\u00e7\u00e3o Calouste Gulbenkian, 1981.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Carlos Geovane Nunes Magri * Resumo: O conceito de profecia \u00e9 bastante caro tanto \u00e0 tradi\u00e7\u00e3o grega quanto \u00e0 tradi\u00e7\u00e3o judaica. O presente artigo visa analisar a profecia na tradi\u00e7\u00e3o judaica segundo a concep\u00e7\u00e3o de Maim\u00f4nides \u2013\u00a0 fil\u00f3sofo judeu que melhor analisou tal quest\u00e3o, desenvolvendo-a dentro de sua obra de maior import\u00e2ncia: o \u201cGuia dos &hellip; <\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_mi_skip_tracking":false,"footnotes":""},"categories":[547],"tags":[],"class_list":{"0":"entry","1":"post","2":"publish","3":"author-admin","4":"post-2733","6":"format-standard","7":"category-carlos-geovane-nunes-magri"},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2733","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=2733"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2733\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2734,"href":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2733\/revisions\/2734"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=2733"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=2733"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=2733"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}