{"id":2756,"date":"2019-05-14T11:46:28","date_gmt":"2019-05-14T14:46:28","guid":{"rendered":"http:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/?p=2756"},"modified":"2019-05-14T11:46:28","modified_gmt":"2019-05-14T14:46:28","slug":"a-concepcao-de-homem-em-blaise-pascal","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/?p=2756","title":{"rendered":"A CONCEP\u00c7\u00c3O DE HOMEM EM BLAISE PASCAL"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">Ant\u00f4nio Marcos Maciel Ferreira*<\/p>\n<p><strong>Resumo: <\/strong>Este artigo busca apresentar a concep\u00e7\u00e3o de Homem na perspectiva de Blaise Pascal; este pensador apresenta uma vis\u00e3o tr\u00e1gica do homem, caracteriza-o como um cani\u00e7o pensante, um cani\u00e7o mais fr\u00e1gil de todos, por\u00e9m, diferenciado pela sua capacidade de pensar. A raz\u00e3o \u00e9 um ponto muito importante na antropologia pascalina; diante disso, pode-se entender o homem como um paradoxo, ou seja, ao mesmo tempo que o homem \u00e9 grandeza ele \u00e9 mis\u00e9ria. Diante do Universo o homem \u00e9 um nada, mas diante do nada o homem \u00e9 tudo, \u00e9 tudo porque ele tem a capacidade de reconhecer-se existente, reconhecimento este que uma \u00e1rvore, por exemplo, n\u00e3o possui. A mis\u00e9ria do homem consiste em amar a si pr\u00f3prio, n\u00e3o querer ver a sua condi\u00e7\u00e3o fr\u00e1gil, por isso surge mais um aspecto que \u00e9 o do divertimento; para fugir da realidade, o homem cria uma s\u00e9rie de artif\u00edcios para escapar de si mesmo e n\u00e3o se reconhecer miser\u00e1vel. Para bem articularmos este artigo, vamos dividi-lo em duas partes: 1)- O Paradoxo humano: o homem como ser grande e miser\u00e1vel; 2)- O divertimento como fuga da realidade.<\/p>\n<p><strong>Palavras-chave: <\/strong>Grandeza. Mis\u00e9ria. Divertimento. Antropologia. Pascal.<\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p><strong>INTRODU\u00c7\u00c3O<\/strong><\/p>\n<p>O pensamento de Blaise Pascal, conforme afirma Lima Vaz, \u00e9 uma das obras mais genialmente representativas da transforma\u00e7\u00e3o da ideia do homem ocidental no limiar da idade moderna; coloca o homem diante da natureza e o define como grandeza e mis\u00e9ria, ao mesmo tempo. Nisto consiste a dualidade ontol\u00f3gica ou paradoxo humano estabelecido por ele. A grandeza do homem consiste, sobretudo, em sua capacidade racional, o homem reconhecer-se existente, e \u00e9 esse \u201creconhecer\u201d que faz o homem ser diferente de todas as outras criaturas que existem no Universo.<\/p>\n<p>A mis\u00e9ria do homem, por\u00e9m, \u00e9 o amor que ele manifesta por si pr\u00f3prio e o \u00f3dio que tem pela sua realidade existencial e ontol\u00f3gica. O homem, grande pela racionalidade que possui, e miser\u00e1vel pelo seu amor pr\u00f3prio, busca artif\u00edcios para ludibriar a si mesmo. Por n\u00e3o querer ver a realidade, o homem inventa uma s\u00e9rie de divertimentos para amenizar a ferida provocada pela sua fr\u00e1gil condi\u00e7\u00e3o; o divertimento, na perspectiva pascalina, \u00e9 a fuga de si mesmo, \u00e9 como o rei que coloca o bobo da corte para fazer palha\u00e7adas com o intuito de esquecer-se de si mesmo, porque se ele parasse para pensar a sua vida ele veria o qu\u00e3o miser\u00e1vel \u00e9, talvez at\u00e9 mesmo mais miser\u00e1vel que os seus pr\u00f3prios s\u00faditos.<\/p>\n<p><strong>1-O PARADOXO HUMANO: O HOMEM COMO SER GRANDE E MISER\u00c1VEL <\/strong><\/p>\n<ul>\n<li><em>A grandeza do homem <\/em><\/li>\n<\/ul>\n<p>Neste primeiro t\u00f3pico do nosso trabalho, vamos come\u00e7ar a expor alguns pontos da Antropologia de Pascal, mas cabe ressaltarmos que o mesmo, primeiramente, se dedicava aos estudos matem\u00e1ticos, tinha uma capacidade de racioc\u00ednio invej\u00e1vel, escreveu o <em>Tratado das Cr\u00f4nicas <\/em>quando tinha apenas 16 anos de idade, e posteriormente inventou a m\u00e1quina aritm\u00e9tica, mas n\u00e3o \u00e9 nosso objetivo apresentar aqui uma biografia do fil\u00f3sofo em quest\u00e3o. Queremos, neste primeiro momento, mostrar que Pascal passa a pensar a condi\u00e7\u00e3o do homem ap\u00f3s a sua convers\u00e3o<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[1]<\/a>. Ele se situa no contexto da idade cartesiana e in\u00edcio da idade moderna, vem ap\u00f3s Ren\u00e9 Descartes e afirma que o homem \u00e9 mis\u00e9ria e grandeza ao mesmo tempo.<\/p>\n<p>Neste primeiro ponto da nossa an\u00e1lise a respeito da concep\u00e7\u00e3o pascalina de homem, colocamos a quest\u00e3o da dualidade ontol\u00f3gica ou o paradoxo humano, como apresentado por alguns estudiosos. Blaise Pascal considera o homem como grandeza e mis\u00e9ria ao mesmo tempo; a grandeza do homem, reside, sobretudo, em sua raz\u00e3o, na sua capacidade de conhecer as coisas, o Universo, tudo aquilo que o envolve, o conhecimento de si pr\u00f3prio, caracter\u00edstica esta que faz, de fato, o homem ser homem, ser grande em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s outras coisas que existem no Universo.<\/p>\n<p>O homem \u00e9 colocado diante do Universo e a partir dessa coloca\u00e7\u00e3o afirma-se que ele \u00e9 um nada diante do tudo e tudo diante do nada. Essa posi\u00e7\u00e3o na qual o homem \u00e9 colocado \u00e9 caracterizado por Pascal como dois abismos, a saber: o nada e o infinito. Tamb\u00e9m encontramos a afirma\u00e7\u00e3o de que o homem \u00e9 um cani\u00e7o pensante, ou seja, um bamb\u00fa, o mais fr\u00e1gil de todos, mas o fator que o diferencia \u00e9 a sua capacidade racional, a sua capacidade de pensar. \u00c9 interessante notarmos que nesta caracter\u00edstica do homem como cani\u00e7o pensante, ele revela os dois aspectos do homem, revela a sua grandeza e a sua mis\u00e9ria.<\/p>\n<p>Afinal que \u00e9 o homem dentro da natureza? Nada em rela\u00e7\u00e3o ao infinito; tudo em rela\u00e7\u00e3o ao nada; um ponto intermedi\u00e1rio entre tudo e nada. Infinitamente incapaz de compreender os extremos, tanto o fim das coisas quanto seu princ\u00edpio permanecem ocultos num segredo impenetr\u00e1vel, e \u00e9-lhe igualmente imposs\u00edvel ver o nada de onde saiu e o infinito que o envolve (Frag. 72)<\/p>\n<p>Giovanni Reale coloca em sua obra que, tanto Blaise Pascal quanto Montaigne, consideram que o homem \u00e9 algo que a filosofia deve ocupar-se a refletir, ele ainda coloca que no estudo do homem, a primeira coisa que fica evidente \u00e9 que o mesmo \u00e9 um ser de raz\u00e3o, \u00e9 um ser pensante, como refletimos at\u00e9 agora. Quando colocamos a quest\u00e3o da mis\u00e9ria do homem, n\u00e3o queremos refletir apenas na perspectiva da sua corrupta condi\u00e7\u00e3o, como veremos mais adiante, mas tamb\u00e9m no ponto de vista f\u00edsico.<\/p>\n<p>Pascal v\u00ea o homem como um cani\u00e7o pensante, um cani\u00e7o mais fr\u00e1gil de todos. Ele afirma que o homem \u00e9 t\u00e3o fr\u00e1gil que basta um vapor para destru\u00ed-lo, basta uma gota d\u00b4\u00e1gua para mat\u00e1-lo. Esse aspecto revela tamb\u00e9m a fr\u00e1gil condi\u00e7\u00e3o f\u00edsica do ser humano; por\u00e9m, ainda que fosse destru\u00eddo, ele n\u00e3o perderia a sua grandeza por ser um ser racional, um ser que se reconhece existente. Mesmo sendo um animal, o mais fr\u00e1gil da natureza, o homem n\u00e3o perde a sua caracter\u00edstica de ser o maior na ordem das outras criaturas.<\/p>\n<p>O homem n\u00e3o passa de um cani\u00e7o, o mais fraco da natureza, mas \u00e9 um cani\u00e7o pensante. N\u00e3o \u00e9 preciso que o universo inteiro se arme para esmaga-lo: um vapor, uma gota de \u00e1gua basta para mata-lo. Mas, mesmo que o Universo o esmagasse, o homem seria ainda mais nobre do que quem o mata, porque sabe que morre e a vantagem que o Universo tem sobre ele; o Universo desconhece tudo isso. Toda a nossa dignidade consiste, pois, no pensamento. Da\u00ed que \u00e9 preciso nos elevarmos, e n\u00e3o do espa\u00e7o e da dura\u00e7\u00e3o, que n\u00e3o podemos preencher. Trabalhemos, pois, para bem pensar; eis o princ\u00edpio da moral. N\u00e3o \u00e9 no espa\u00e7o que devo buscar minha dignidade, mas na ordena\u00e7\u00e3o de meu pensamento. N\u00e3o terei mais, possuindo terras; pelo espa\u00e7o, o Universo me abarca e traga como um ponto; pelo pensamento, eu o abarco. (Frag.70)<\/p>\n<p><em>1.2 \u2013 A mis\u00e9ria do homem <\/em><\/p>\n<p>At\u00e9 agora vimos que toda a grandeza e dignidade do homem, segundo Blaise Pascal, reside na sua capacidade de pensar, de raciocinar. Agora queremos apresentar alguns aspectos que levam Pascal afirmar que o homem \u00e9, tamb\u00e9m, mis\u00e9ria. A partir desse ponto em que trataremos a quest\u00e3o da mis\u00e9ria do homem, surgir\u00e1 outro aspecto de suma import\u00e2ncia para Pascal que \u00e9 a quest\u00e3o do divertimento, como veremos adiante.<\/p>\n<p>No fragmento 100 da obra <em>Pensamentos, <\/em>a mis\u00e9ria humana \u00e9 caracterizada como amor pr\u00f3prio, amor a si mesmo; \u201cA natureza do amor-pr\u00f3prio e desse <em>eu <\/em>humano \u00e9 n\u00e3o amar sen\u00e3o a si e n\u00e3o considerar sen\u00e3o a si; quer ser grande e acha-se pequeno, quer ser feliz e acha-se miser\u00e1vel, quer ser perfeito e acha-se cheio de imperfei\u00e7\u00f5es, quer ser objeto do amor e da estima dos homens, e v\u00ea que seus defeitos s\u00f3 merecem deles avers\u00e3o e desprezo\u201d (Frag. 100). Pascal considera que o homem \u00e9 ser grande quando, pela raz\u00e3o que possui, reconhece-se miser\u00e1vel, mas h\u00e1 aqueles que, mergulhados no amor pr\u00f3prio, preferem n\u00e3o ver as suas mazelas. O amor pr\u00f3prio impede o homem de reconhecer as suas mis\u00e9rias<\/p>\n<p>O homem, portanto, \u00e9 uma criatura constitutivamente miser\u00e1vel. Ele \u2018n\u00e3o sabe em que lugar se colocar\u2019. Ele se desviou visivelmente, pois, caiu de seu verdadeiro lugar sem poder afora reencontr\u00e1-lo. Procura-o por toda parte, com inquietude e sem sucesso, entre trevas impenetr\u00e1veis. (REALE, 1997, p.180)<\/p>\n<p>Diante desse aspecto Blaise Pascal nos d\u00e1 um precioso exemplo sobre o Sacramento da Reconcilia\u00e7\u00e3o; o Sacramento da Reconcilia\u00e7\u00e3o \u00e9 um modo que temos de reconhecer as nossas falhas, de olhar para dentro de n\u00f3s mesmos e ver o qu\u00e3o miser\u00e1vel somos. Ningu\u00e9m \u00e9 obrigado a tal, e nele existe a possibilidade de expor as nossas mazelas sem que ningu\u00e9m mais saiba. Tudo aquilo que expomos dentro de um confession\u00e1rio se torna um segredo inviol\u00e1vel. Para Pascal, n\u00e3o se pode pensar em algo mais caritativo e suave do que o Sacramento da Reconcilia\u00e7\u00e3o. Por\u00e9m, por causa do amor pr\u00f3prio, muitos n\u00e3o o aceitam porque \u00e9 uma forma de ver as suas mazelas. Prefere-se viver na ilus\u00e3o do que reconhecer as faltas. Para Pascal, a pior coisa que existe no homem \u00e9 a aliena\u00e7\u00e3o, \u00e9 n\u00e3o querer reconhecer que \u00e9 miser\u00e1vel. \u00c9 por isso que o sacramento da reconcilia\u00e7\u00e3o provoca horror, porque \u00e9 atrav\u00e9s deste sacramento que vemos que a nossa condi\u00e7\u00e3o \u00e9 a pior que existe.<\/p>\n<ol start=\"2\">\n<li><strong>O DIVERTIMENTO COMO FUGA DA REALIDADE <\/strong><\/li>\n<\/ol>\n<p>Para n\u00e3o encarar as mis\u00e9rias, o homem cria divertimentos; \u201ca divers\u00e3o di-verte, ou seja, desvia do reto caminho<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\">[2]<\/a>\u201d. Os divertimentos, na perspectiva pascalina, \u00e9 a fuga de si mesmo. O rei coloca o bobo da corte para fazer palha\u00e7adas o tempo todo para esquecer-se dele mesmo, porque se parasse para pensar a sua pr\u00f3pria vida ele veria o qu\u00e3o miser\u00e1vel \u00e9, talvez mais miser\u00e1vel que os s\u00faditos que varrem o ch\u00e3o de seu pal\u00e1cio: \u201co rei est\u00e1 rodeado de pessoas que s\u00f3 pensam em divertir o rei, e em impedi-lo de pensar em si mesmo. Porque se pensa em si mesmo \u00e9 infeliz, por mais rei que seja\u201d. (MAURIAC, 1972, p. 70)<\/p>\n<p>O divertimento, neste sentido, \u00e9 considerado como algo bastante negativo, porque \u00e9 uma forma do homem fugir da sua condi\u00e7\u00e3o. \u00c9 bom destacarmos que n\u00e3o \u00e9 todo divertimento que \u00e9 fuga de si mesmo, mas para Pascal o divertimento toma esse vi\u00e9s negativo justamente quando o mesmo \u00e9 um artif\u00edcio usado para fugir da sua pr\u00f3pria condi\u00e7\u00e3o miser\u00e1vel.<\/p>\n<p>O divertimento, o <em>divertissement, <\/em>\u00e9 fuga diante da vis\u00e3o l\u00facida e consciente da mis\u00e9ria humana, \u00e9 aturdimento que nos faz divagar e chegar inadvertidamente \u00e0 morte. O divertimento \u00e9 fuga de n\u00f3s mesmos, de nossa mis\u00e9ria, mas \u00e9 ele pr\u00f3prio a maior de nossas mis\u00e9rias, porque nos pro\u00edbe pensar a n\u00f3s mesmos; \u201csem ele, desembocar\u00edamos na n\u00e1usea, e esta nos impeliria a procurar um meio mais seguro para dela sair; ao contr\u00e1rio, o divertimento nos faz chegar \u00e0 morte se que disso nos apercebamos. (REALE, 1997, p. 181)<\/p>\n<p>Blaise Pascal, no fragmento 139 de sua obra <em>Pensamentos, <\/em>faz uma reflex\u00e3o bastante relevante, nos mostra que n\u00e3o \u00e9 o ter que faz o homem ser feliz; tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 o poder e a gl\u00f3ria que garantem a estabilidade para a vida do homem:<\/p>\n<p>O homem que tem suficiente bens para viver, se soubesse ficar em casa com prazer, n\u00e3o sairia dela para ir ao mar ou ao cerco de uma pra\u00e7a. N\u00e3o se pagaria t\u00e3o caro por um posto no ex\u00e9rcito se n\u00e3o se achasse insuport\u00e1vel n\u00e3o sair da cidade; e s\u00f3 se procuram as conversas e os passatempos dos jogos porque n\u00e3o se sabe ficar em casa com prazer. (Frag. 139)<\/p>\n<p>Pascal nos mostra que o homem tem v\u00e1rios bens, mas ele concentra a sua felicidade \u201cem n\u00e3o ficar quieto\u201d, ele n\u00e3o acha prazer naquilo que possui, sendo necess\u00e1rio buscar sempre mais. \u00a0Em suma, \u00e9 nisto que consiste o divertimento: em fugir de si mesmo, em lutar incessantemente para enganar-se a si mesmo e fazer de conta que est\u00e1 tudo bem. O homem corre de si mesmo, mas no final das contas v\u00ea que a sua corrida foi v\u00e3; \u201cas mis\u00e9rias da vida humana criaram tudo isso: como eles viram isso, escolheram o divertimento\u201d. (Pensamentos \u2013 frag. 166)<\/p>\n<p><strong>CONCLUS\u00c3O<\/strong><\/p>\n<p>Com este trabalho objetivamos apresentar alguns pontos fundamentais da antropologia pascalina. Bem sabemos que a sua antropologia n\u00e3o se resume apenas na quest\u00e3o da dualidade ontol\u00f3gica do homem e na quest\u00e3o do divertimento, mas h\u00e1 outros aspectos, como por exemplo, o esp\u00edrito de finura e o de geometria, mas estes n\u00e3o foram objetos de pesquisa em nosso estudo.<\/p>\n<p>A quest\u00e3o da grandeza e da mis\u00e9ria do homem \u00e9 uma reflex\u00e3o de suma import\u00e2ncia no pensamento pascalino, como vimos durante a nossa pesquisa; o homem \u00e9 ser grande e pequeno ao mesmo tempo, \u00e9 grande por causa da capacidade de raz\u00e3o que possui, caracter\u00edstica esta que o faz ser diferente de todos os demais seres que existem no universo. O homem existe e tem plena consci\u00eancia disso. A mis\u00e9ria do homem consiste em seu amor pr\u00f3prio, nunca quer encarar a sua mis\u00e9ria, a sua pequenez. Diante desse fato, surge a quest\u00e3o do divertimento que \u00e9 um artif\u00edcio para fugir de si mesmo, para n\u00e3o reconhecer-se miser\u00e1vel.<\/p>\n<p>Colocamos, tamb\u00e9m, a quest\u00e3o do sil\u00eancio, t\u00e3o dif\u00edcil para o homem moderno. Vivemos na era do barulho, muitas pessoas n\u00e3o sabem mais o que \u00e9 sil\u00eancio. A pr\u00e1tica do sil\u00eancio parece ser algo doloroso, at\u00e9 mesmo quando v\u00e3o \u00e0 Igreja \u00e9 dif\u00edcil fazer um momento de sil\u00eancio. Neste sentido, pedimos licen\u00e7a para citar aqui as palavras do Cardeal Robert Sarah<a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\">[3]<\/a> numa entrevista a um jornal franc\u00eas chamado \u201cLa Nef\u201d, ele nos diz que \u00e9 preciso reconhecer o valor do sil\u00eancio, sobretudo nas celebra\u00e7\u00f5es lit\u00fargicas, o sil\u00eancio nos conduz a Deus; e ainda continua dizendo que \u201cDeus \u00e9 sil\u00eancio e o dem\u00f4nio \u00e9 barulho. O barulho se tornou como uma droga da qual os nossos contempor\u00e2neos s\u00e3o dependentes. Com sua festiva apar\u00eancia, o barulho \u00e9 um redemoinho que impede cada pessoa de encarar a si mesma e enfrentar o vazio interior\u201d.<\/p>\n<p>A antropologia pascalina \u00e9 algo para ser levado para a nossa vida. Devemos reconhecer sempre que, pela nossa raz\u00e3o, somos a criatura mais importante do universo; por outro lado, tamb\u00e9m somos a criatura mais miser\u00e1vel por causa das nossas corruptelas, nossas falhas, pelo orgulho, pelo desejo de gl\u00f3ria e poder, etc. O homem \u00e9 grande quando, tamb\u00e9m, reconhece a sua pequenez e n\u00e3o busca artif\u00edcios para fugir de si mesmo, \u201cconhe\u00e7amos, pois, nossas for\u00e7as; somos algo e n\u00e3o tudo\u201d. (Frag. 72)<\/p>\n<p><strong>Refer\u00eancias Bibliogr\u00e1ficas <\/strong><\/p>\n<p>PASCAL, Blaise. <em>Pensamentos. <\/em>2. ed. Tradu\u00e7\u00e3o S\u00e9rgio Melliet. S\u00e3o Paulo: Abril Cultural, 1979. (Cole\u00e7\u00e3o \u201cOs Pensadores\u201d)<\/p>\n<p>______ <em>A arte de persuadir \u2013 precedida de A arte da Confer\u00eancia de Montaigne. <\/em>Pref\u00e1cio e notas Marc Fumaroli; tradu\u00e7\u00e3o Rosemary Costhek Ab\u00edlio, M\u00e1rio Laranjeira. S\u00e3o Paulo: Martins Fontes, 2004<\/p>\n<p>MAURIAC, Fran\u00e7ois. <em>O pensamento vivo de Pascal. <\/em>Tradu\u00e7\u00e3o S\u00e9rgio Milliet. S\u00e3o Paulo: Livraria Martins, 1972<\/p>\n<p>LIMA VAZ, Henrique Cl\u00e1udio de. <em>Antropologia Filos\u00f3fica I. <\/em>5. ed. S\u00e3o Paulo: Edi\u00e7\u00f5es Loyola, 1991.<\/p>\n<p>REALE, Giovanni. <em>Hist\u00f3ria da Filosofia \u2013 de Spinoza a Kant. Vol. IV. <\/em>Tradu\u00e7\u00e3o Ivo Storniolo. S\u00e3o Paulo: Paulus, 2005.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[1]<\/a>A convers\u00e3o de Blaise Pascal pode ser definida em dois momentos como estabelecido por diversos estudiosos; o primeiro momento de sua convers\u00e3o foi quando ele teve o seu primeiro contato com as obras do abade Saint Cyran e o segundo momento foi quando uma forte cefaleia o atingiu, neste contexto o seu pai j\u00e1 havia falecido e a sua irm\u00e3 ingressara no Port-Royal para seguir a vida religiosa; foi neste momento que ele deixou toda atividade mundana ap\u00f3s sentir uma aprofunda ilumina\u00e7\u00e3o religiosa que o levou, tamb\u00e9m, a escrever o \u201cfamoso memorial\u201d, conforme nos diz v\u00e1rios estudiosos.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[2]<\/a> REALE, 1997, p. 181<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\">[3]<\/a> Cardeal da Igreja Cat\u00f3lica e Prefeito da Congrega\u00e7\u00e3o para o Culto Divino e disciplina dos Sacramentos no Vaticano.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Ant\u00f4nio Marcos Maciel Ferreira* Resumo: Este artigo busca apresentar a concep\u00e7\u00e3o de Homem na perspectiva de Blaise Pascal; este pensador apresenta uma vis\u00e3o tr\u00e1gica do homem, caracteriza-o como um cani\u00e7o pensante, um cani\u00e7o mais fr\u00e1gil de todos, por\u00e9m, diferenciado pela sua capacidade de pensar. 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