{"id":2760,"date":"2019-05-14T16:03:42","date_gmt":"2019-05-14T19:03:42","guid":{"rendered":"http:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/?p=2760"},"modified":"2019-05-14T16:05:44","modified_gmt":"2019-05-14T19:05:44","slug":"a-categoria-de-espirito-e-as-relacoes-humanas-na-antropologia-vazeana","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/?p=2760","title":{"rendered":"A CATEGORIA DE ESP\u00cdRITO E AS RELA\u00c7\u00d5ES HUMANAS NA ANTROPOLOGIA VAZEANA"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\">Ant\u00f4nio Marcos Maciel Ferreira<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[*]<\/a><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>Resumo: <\/strong>A categoria do esp\u00edrito \u00e9 o que confere ao ser humano a capacidade de agir racionalmente e livremente. Usando o m\u00e9todo vazeano de compreens\u00e3o das estruturas fundamentais do ser humano, apresentaremos a compreens\u00e3o de esp\u00edrito em Lima Vaz. Esta categoria \u00e9 de suma import\u00e2ncia uma vez que ela permite que o homem transcenda os limites de espa\u00e7o e tempo e se abra para a rela\u00e7\u00e3o com a transcend\u00eancia; no decorrer da hist\u00f3ria da filosofia, o tema do esp\u00edrito ora passou por um momento em que queria ser extinguido, ora tamb\u00e9m foi compreendido de diversas formas. A categoria do esp\u00edrito \u00e9 o que faz com que o homem seja o que ele \u00e9, essa categoria \u00e9 pr\u00f3pria do ser humano. Pelo esp\u00edrito \u00e9 conferida ao ser humano a capacidade de relacionar com o mundo\/objeto, com o Outro e com a transcend\u00eancia. Se se tira essa categoria do ser humano, ele vira um animal qualquer, sem raz\u00e3o. Para a confec\u00e7\u00e3o deste trabalho tomaremos o seguinte m\u00e9todo: a)- Considera\u00e7\u00f5es gerais sobre o esp\u00edrito; b)- A explica\u00e7\u00e3o do esp\u00edrito segundo o m\u00e9todo vazeano; c)-O homem e suas rela\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p><strong>Palavras \u2013 chave: <\/strong>Antropologia. Lima Vaz. Categorias estruturais. Esp\u00edrito. Rela\u00e7\u00f5es humanas.<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><!--more--><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><strong>INTRODU\u00c7\u00c3O <\/strong><\/p>\n<p>Na antropologia sistem\u00e1tica de Lima Vaz encontramos tr\u00eas categorias\/estruturais que s\u00e3o fundamentais para o ser humano, a saber: a categoria do corpo pr\u00f3prio, do psiquismo e do esp\u00edrito. Neste disserto, abordar-se-\u00e1 apenas a categoria do esp\u00edrito, como veremos mais adiante; mas, ao abordarmos a categoria do esp\u00edrito, as demais categorias estruturais tamb\u00e9m ser\u00e3o trabalhadas, isso porque \u00e9 a categoria do esp\u00edrito que confere <em>unidade <\/em>a todas as demais categorias. Quando fala que o ser humano \u00e9 um ser espiritual, o corpo e o psiquismo j\u00e1 est\u00e3o suprassumidos nessa afirma\u00e7\u00e3o. Para apresentar cada uma dessas estruturas fundamentais, Lima Vaz apresenta-nos um m\u00e9todo que envolve tr\u00eas n\u00edveis de conhecimento que, segundo ele, a Antropologia deve levar em considera\u00e7\u00e3o no processo de conhecimento do homem. S\u00e3o estes os tr\u00eas n\u00edveis: a) &#8211; a pr\u00e9-compreens\u00e3o; b) \u2013 a compreens\u00e3o explicativa; c) \u2013 a compreens\u00e3o filos\u00f3fica.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>No estudo sobre o homem, a <em>pr\u00e9-compreens\u00e3o<\/em> \u00e9 entendida como o contexto cultural no qual predomina alguma imagem do homem, se manifesta nas representa\u00e7\u00f5es, nos s\u00edmbolos e nas cren\u00e7as, conforme nos diz Lima Vaz. Na <em>compreens\u00e3o explicativa <\/em>encontramos o m\u00e9todo pr\u00f3prio de cada ci\u00eancia e seu modo de compreender o homem; e, por fim, temos o <em>plano da compreens\u00e3o filos\u00f3fica <\/em>em que o homem, segundo encontramos, \u00e9 tematizado, o homem torna-se capaz de dar raz\u00e3o ao seu pr\u00f3prio ser e formular a pergunta: o que \u00e9 o homem? Para iniciarmos os nossos estudos, \u00e9 de suma import\u00e2ncia compreendermos esse m\u00e9todo utilizado pelo Pe. Lima Vaz, pois \u00e9 atrav\u00e9s desse m\u00e9todo que ele nos apresentar\u00e1 no percurso da hist\u00f3ria da filosofia a pr\u00e9-compreens\u00e3o, a compreens\u00e3o explicativa e filos\u00f3fica das categorias estruturais do corpo pr\u00f3prio, do psiquismo e do esp\u00edrito.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Segundo Lima Vaz, a categoria do esp\u00edrito, tema central da nossa pesquisa, \u00e9 o \u00e1pice da unidade do ser humano, pois, permite que ele seja um ser aberto para a rela\u00e7\u00e3o com a transcend\u00eancia e com o outro. Na hist\u00f3ria da filosofia muitos tentaram negar essa categoria fundamental do ser humano; esse <em>negar <\/em>\u00e9 entendido por estudiosos como uma esp\u00e9cie de apelo para que n\u00e3o ouse tocar no solo proibido da transcend\u00eancia e do pr\u00f3prio esp\u00edrito. Mas, sem a categoria do esp\u00edrito, nos diz o nosso fil\u00f3sofo em seu livro <em>Antropologia Filos\u00f3fica I, <\/em>o discurso sobre o homem se torna partido e incluso. A partir de agora, veremos a concep\u00e7\u00e3o de esp\u00edrito no m\u00e9todo vazeano, os diferentes modos como o esp\u00edrito foi compreendido na hist\u00f3rica da filosofia e, tamb\u00e9m, a vis\u00e3o cient\u00edfica e filos\u00f3fica desta categoria estrutural fundamental do ser humano.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<ol>\n<li><strong> CONSIDERA\u00c7\u00d5ES GERAIS SOBRE O ESP\u00cdRITO <\/strong><\/li>\n<\/ol>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A categoria do esp\u00edrito \u00e9 definida em Lima Vaz como a capacidade racional que o ser humano tem de agir livremente; \u00e9 uma categoria que, de certo modo, se apresenta como a que mais identifica o ser humano como ser humano. \u201cCom a categoria do esp\u00edrito ou com o n\u00edvel estrutural aqui designado com <em>no\u00e9tico-<\/em>pneum\u00e1tico, atingimos o \u00e1pice da unidade do ser humano\u201d (LIMA VAZ, 1991, p. 201). Com a categoria estrutural do esp\u00edrito, o homem se torna capaz de transcender o espa\u00e7o e tempo, com o esp\u00edrito o homem \u00e9 livre para voltar ao tempo, para ir ao futuro; diante disso, duas caracter\u00edsticas s\u00e3o importantes: a racionalidade e a liberdade. A liberdade que tratamos aqui e que \u00e9 apontada por Lima Vaz, n\u00e3o se trata da liberdade no sentido de <em>ir e vir, <\/em>e sim no sentido de o esp\u00edrito pensar livremente.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Segundo os estudiosos, o termo \u201cesp\u00edrito\u201d \u00e9 herdado da teologia, aplicado ao homem por analogia. No homem, a no\u00e7\u00e3o de esp\u00edrito \u00e9 coextensiva e muito parecida com a no\u00e7\u00e3o do ser; quando falamos de esp\u00edrito estamos falando do ser que tamb\u00e9m \u00e9 bondade, verdade e unidade; de certo modo, essas caracter\u00edsticas da bondade, verdade e unidade s\u00e3o os transcendentais do ser tratados por S\u00e3o Tom\u00e1s de Aquino. O que me faz ser humano, conforme dissemos, \u00e9 a categoria do esp\u00edrito. Lima Vaz nos mostra em suas obras que encontramos um di\u00e1logo muito fecundo entre antropologia e metaf\u00edsica, na procura da raz\u00e3o de ser mais profunda do ser humano, chega-se \u00e0 conclus\u00e3o de que o ser mais profundo do humano \u00e9 o esp\u00edrito. O esp\u00edrito, conforme nos diz o Pe. Lima Vaz, imprime no ser humano as marcas do infinito e lhe d\u00e1 a possibilidade de supera\u00e7\u00e3o das limita\u00e7\u00f5es f\u00edsicas do espa\u00e7o e do tempo. Em suma, a categoria do esp\u00edrito confere ao homem a capacidade de relacionar-se com as coisas, at\u00e9 mesmo com aquilo que foge do \u00e2mbito do espa\u00e7o e do tempo f\u00edsico.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Com a categoria do esp\u00edrito ou com o n\u00edvel estrutural aqui designado como <em>no\u00e9tico-pneum\u00e1tico, <\/em>atingimos o \u00e1pice da unidade do ser humano. \u00c9 nesse n\u00edvel que o ser do homem abre-se necessariamente para a transcend\u00eancia: trata-se de uma abertura propriamente transcendental, seja no sentido cl\u00e1ssico, seja no sentido kantiano-moderno, que faz do homem nesse cimo de ser que \u00e9 tamb\u00e9m, para usar outra met\u00e1fora, o \u00e2mago mais profundo se sua unidade, um ser estruturalmente aberto para o outro. (LIMA VAZ. 1991. p. 201)<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>No decorrer da hist\u00f3ria, o esp\u00edrito foi compreendido de v\u00e1rias formas. Na obra <em>Antropologia Filos\u00f3fica I <\/em>o autor apresenta, pelo menos, quatro compreens\u00f5es pelas quais o esp\u00edrito foi apresentado, a saber: o esp\u00edrito compreendido com <em>pneuma, nous, logos e synesis<\/em>. \u201cO esp\u00edrito compreendido como <em>pneuma<\/em> \u00e9 o esp\u00edrito compreendido como princ\u00edpio de vida; o esp\u00edrito como <em>nous<\/em> envolve a forma mais elevada de conhecimento, de contempla\u00e7\u00e3o\/theoria. O esp\u00edrito como <em>nous <\/em>\u00e9 a capacidade do ser humano de contemplar e guardar as coisas. O esp\u00edrito como <em>Logos <\/em>envolve a capacidade organizativa, a capacidade de ordenar as coisas no meu intelecto; neste sentido do esp\u00edrito como <em>logos <\/em>tamb\u00e9m colocamos a quest\u00e3o da palavra, a palavra tem para n\u00f3s um significado muito especial uma vez que ela expressa aquilo que est\u00e1 dentro de n\u00f3s, em nosso interior. A \u00faltima forma de compreens\u00e3o do esp\u00edrito, \u00e9 o esp\u00edrito como <em>synesis, <\/em>que \u00e9 a capacidade de o ser humano reconhecer-se a si mesmo\u201d (Cf. LIMA VAZ, 1991, p.2013)<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A categoria do corpo pr\u00f3prio me situa no espa\u00e7o e no tempo, mas pelo esp\u00edrito eu consigo transcender o espa\u00e7o e o tempo e ter contato com a transcend\u00eancia. Pela racionalidade o ser humano \u00e9 um ser que se abre \u00e0 verdade, seja ela das coisas ou de si mesmo, mas a aliena\u00e7\u00e3o prende o ser humano e o faz com que n\u00e3o busque mais a verdade. Pela liberdade, o homem busca o bem, e o primeiro bem que buscamos \u00e9 o bem para n\u00f3s mesmos, visto que ningu\u00e9m busca o mal para si mesmo; neste sentido, aquele que busca o mal para si mesmo \u00e9 um problema enfrentado de auto rejei\u00e7\u00e3o, s\u00f3 o ser humano tem esp\u00edrito, portanto, s\u00f3\u00a0 o ser humano possui atos espirituais.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Com efeito, em sua estrutura espiritual ou no\u00e9tico-pneum\u00e1tica, o homem se abre, enquanto intelig\u00eancia (nous), \u00e0 amplitude transcendental da verdade, e, enquanto liberdade (pneuma), \u00e0 amplitude transcendental do bem: como esp\u00edrito ele \u00e9, pois, o lugar do acolhimento e da manifesta\u00e7\u00e3o do Ser e do consentimento ao Ser: <em>capax entis. <\/em>(LIMA VAZ. 1991. p. 202)<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Quando Lima Vaz afirma que o homem \u00e9 um ser espiritual, quer dizer que ele \u00e9 corpo, psiquismo, raz\u00e3o e liberdade; quando fala que o homem \u00e9 um ser espiritual, todas as outras categorias s\u00e3o important\u00edssimas, pois, uma categoria suprassume a outra elevando-a. Neste sentido, levando em considera\u00e7\u00e3o a categoria de corpo pr\u00f3prio, dizemos que o corpo n\u00e3o \u00e9 entendido apenas em sua vis\u00e3o f\u00edsico-biol\u00f3gica, mas \u00e9 tamb\u00e9m uma totalidade intencional, conforme nos diz Lima Vaz, em que o homem se torna capaz de dar ao seu corpo uma intencionalidade que transcende o n\u00edvel f\u00edsico-biol\u00f3gico.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>No que diz respeito ao psiquismo, podemos dizer que a passagem do estar-no-mundo para o ser-no-mundo, ou da presen\u00e7a natural para a presen\u00e7a intencional, d\u00e1-se, segundo Lima Vaz, no sentido de uma interioriza\u00e7\u00e3o do mundo ou da constitui\u00e7\u00e3o de um mundo interior. Vemos que o problema do psiquismo, esse intermedi\u00e1rio entre o corpo e o esp\u00edrito, \u00e9 um problema que percorre toda a hist\u00f3ria da filosofia. O psiquismo, conforme encontramos em Lima Vaz, \u00e9 o primeiro est\u00e1gio de interioriza\u00e7\u00e3o do mundo, \u00e9 pelo psiquismo que o homem consegue interiorizar as realidades provenientes do mundo externo. Em suma, o psiquismo assume o corpo dando a ele um sentido mais elevado.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Em Lima Vaz. a categoria estrutural do esp\u00edrito tamb\u00e9m pode ser chamada de no\u00e9tico-pneum\u00e1tica; o no\u00e9tico se encontra na dimens\u00e3o do pensamento, da intelig\u00eancia e da raz\u00e3o, enquanto que, na dimens\u00e3o pneum\u00e1tica, encontramos o esp\u00edrito propriamente dito, a ideia de sopro e de liberdade. O ser humano \u00e9 formado pelas categorias de corpo pr\u00f3prio, psiquismo e esp\u00edrito, mas \u00e9 o esp\u00edrito que confere unidade a todas essas categorias; quando se fala que o ser humano \u00e9 um ser espiritual, de certo modo dizemos que o corpo e o psiquismo j\u00e1 est\u00e3o suprassumidos, e \u00e9 justamente por esse motivo que n\u00e3o podemos falar do esp\u00edrito sem abordar as outras categorias do corpo pr\u00f3prio e do psiquismo. Cada uma das categorias estruturais, nos diz Lima Vaz, abre espa\u00e7o para alguma rela\u00e7\u00e3o, o esp\u00edrito se abre \u00e0 rela\u00e7\u00e3o com transcend\u00eancia, o psiquismo com as pessoas e o corpo pr\u00f3prio com as coisas. Em cada uma dessas rela\u00e7\u00f5es percebe-se a primazia de uma categoria estrutural do ser humano, a saber: na rela\u00e7\u00e3o de objetividade a primazia \u00e9 do corpo, na de intersubjetividade a primazia \u00e9 do psiquismo, e na rela\u00e7\u00e3o de transcend\u00eancia a primazia \u00e9 do esp\u00edrito; mas sobre essas rela\u00e7\u00f5es n\u00e3o trataremos agora, e sim posteriormente.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Segundo Lima Vaz, em cada uma dessas esferas h\u00e1 a primazia de uma das estruturas que integram a totalidade do ser-homem: na rela\u00e7\u00e3o de objetividade, a primazia \u00e9 dada ao corpo pr\u00f3prio, enquanto condi\u00e7\u00e3o primeira de possibilidade da presen\u00e7a humana \u00e0 realidade na forma de abertura ao mundo; na rela\u00e7\u00e3o de intersubjetividade, a primazia \u00e9 dada ao psiquismo, uma vez que este \u00e9 a condi\u00e7\u00e3o primeira de possibilidade da presen\u00e7a humana \u00e0 realidade, na forma de abertura ao outro (ou \u00e0 Hist\u00f3ria); e na rela\u00e7\u00e3o de transcend\u00eancia, a primazia \u00e9 dada ao esp\u00edrito. (POZZO, 2014, p 60-61)<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<ol start=\"2\">\n<li><strong> A EXPLICA\u00c7\u00c3O DO ESP\u00cdRITO SEGUNDO O M\u00c9TODO VAZEANO <\/strong><\/li>\n<\/ol>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Na <em>pr\u00e9-compreens\u00e3o<\/em> da categoria do esp\u00edrito encontramos as v\u00e1rias manifesta\u00e7\u00f5es do esp\u00edrito na cultura e na hist\u00f3ria, e isso se percebe atrav\u00e9s do modo como o homem age na sua hist\u00f3ria e na sua cultura. A hist\u00f3ria que n\u00f3s constru\u00edmos \u00e9 sempre hist\u00f3ria espiritual, conforme nos diz Lima Vaz. A hist\u00f3ria \u00e9 segundo o esp\u00edrito, o mundo \u00e9 compreendido e significado pelo homem. Lima Vaz d\u00e1 uma grande \u00eanfase na quest\u00e3o da linguagem para dizer que a linguagem e os s\u00edmbolos s\u00e3o caracter\u00edsticas marcantes do ser humano como animal simb\u00f3lico.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A presen\u00e7a espiritual como presen\u00e7a <em>reflexiva <\/em>confere \u00e0 linguagem sua forma especificamente humana de manifesta\u00e7\u00e3o. No n\u00edvel do esp\u00edrito, o <em>ser-no-mundo <\/em>do homem \u00e9 um ser de <em>linguagem<\/em>, entendendo-se aqui linguagem num sentido amplo como sistema de signos e significa\u00e7\u00f5es. Portanto, o mundo no qual o homem existe pelo esp\u00edrito \u00e9 o mundo da linguagem ou das formas simb\u00f3licas: nele se desdobram as tr\u00eas dimens\u00f5es do nosso ser-no-mundo: o Eu, a Sociedade e a Natureza\u201d (LIMA VAZ, 1991, p. 207).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Na <em>compreens\u00e3o explicativa <\/em>na qual abordamos o esp\u00edrito sob o vi\u00e9s cient\u00edfico, podemos dizer que o mesmo n\u00e3o pode ser objeto da ci\u00eancia. Estudiosos disseram que \u00e9 poss\u00edvel ser objeto da ci\u00eancia certas <em>classes de opera\u00e7\u00f5es do esp\u00edrito<\/em> como a ci\u00eancia da linguagem, os atos livres, a psicologia da vontade, o processo de conhecimento, a l\u00f3gica, etc. Em suma, na <em>compreens\u00e3o explicativa <\/em>da categoria estrutural do esp\u00edrito afirmamos que n\u00e3o h\u00e1 ci\u00eancia do esp\u00edrito, mas ci\u00eancia das manifesta\u00e7\u00f5es do esp\u00edrito.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Para Lima Vaz, na compreens\u00e3o explicativa n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel encontrar procedimentos metodol\u00f3gicos cient\u00edficos que possam \u201cconceituar\u201d de forma operativa, atrav\u00e9s de leis e teorias, uma compreens\u00e3o do esp\u00edrito. O que se mostra vi\u00e1vel fazer \u00e9 estudar a linguagem, diante dos mais variados ramos das ci\u00eancias da linguagem; assim \u00e9 poss\u00edvel, por exemplo, estudar o ato livre por meio da psicologia da vontade, as opera\u00e7\u00f5es cognitivas por interm\u00e9dio das novas ci\u00eancias da cogni\u00e7\u00e3o e das neuroci\u00eancias. (POZZO, 2014, p. 41) <strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Na compreens\u00e3o filos\u00f3fica encontramos dois modos de compreender o esp\u00edrito; primeiramente podemos compreend\u00ea-lo de uma forma transcendental, depois de forma categorial, pois, em mim o esp\u00edrito se torna uma categoria. Na modernidade, por\u00e9m, o esp\u00edrito se torna condi\u00e7\u00e3o de possibilidade do agir humano. \u201cDescobrir a dimens\u00e3o espiritual do homem \u00e9 descobrir as reais condi\u00e7\u00f5es de possibilidade do seu agir como humano\u201d. Atos humanos s\u00e3o atos nos quais concorrem nele a dimens\u00e3o do esp\u00edrito.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Na antiguidade, Lima Vaz acentua que a raz\u00e3o era compreendida de uma forma mais demonstrativa, ou seja, o interesse da raz\u00e3o \u00e9 o contemplativo, contemplar o bem e buscar o fundamento da realidade. No medievo, por\u00e9m, a raz\u00e3o est\u00e1 a servi\u00e7o da f\u00e9 e deve ser iluminada, segundo v\u00e1rios autores, pela gra\u00e7a divina; a raz\u00e3o que n\u00e3o se deixa iluminar pela gra\u00e7a divina n\u00e3o \u00e9 uma raz\u00e3o reta e que se curva diante do sagrado. Na modernidade, encontramos a autonomia e a instrumentaliza\u00e7\u00e3o da raz\u00e3o pela ci\u00eancia e pela t\u00e9cnica; o conhecimento moderno n\u00e3o \u00e9 conhecimento da raz\u00e3o grega, mas do saber fazer. A raz\u00e3o contempor\u00e2nea, segundo Lima Vaz, \u00e9 a raz\u00e3o do di\u00e1logo; a raz\u00e3o do di\u00e1logo permitiu ao homem ir al\u00e9m da vis\u00e3o cient\u00edfica, agora tamb\u00e9m o homem se tornou capaz de refletir sobre determinados objetos, indo, neste sentido, al\u00e9m da vis\u00e3o cient\u00edfica.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u201cVemos que a raz\u00e3o moderna carrega uma intens\u00e3o espiritual que se fecha no imp\u00e9rio de si mesmo. Nesse autocentramento, o esp\u00edrito imanente rompe com a transcend\u00eancia e torna-se incapaz de perceber a efetiva\u00e7\u00e3o do ser, a ponto de ser esquecido. O aumento acentuado do individualismo conduz a uma esp\u00e9cie de absolutiza\u00e7\u00e3o da racionalidade instrumental em suas a\u00e7\u00f5es e um autocentramento que o faz indiferente \u00e0s quest\u00f5es do ser e do outro\u201d (POZZO, 2014, p. 92). <em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Ainda da compreens\u00e3o filos\u00f3fica, mas agora na <em>apor\u00e9tica cr\u00edtica<\/em>, encontramos o momento eid\u00e9tico da Categoria do Esp\u00edrito na Antropologia de Lima Vaz; no momento eid\u00e9tico encontramos que a ess\u00eancia do homem \u00e9 <em>ser aberto, <\/em>ser aberto no sentido de se relacionar com as coisas, com o outro e com a transcend\u00eancia, o ser humano \u00e9 um ser de rela\u00e7\u00f5es. Compreendemos que a ess\u00eancia \u00e9 aquilo que faz com que a coisa seja o que \u00e9 e n\u00e3o outra, e que no caso do homem a sua ess\u00eancia \u00e9 <em>estar aberto<\/em>; o homem possui uma ess\u00eancia que n\u00e3o o limita, mas que o abre para a intera\u00e7\u00e3o com o absoluto, com o infinito. Em suma, o eidos da Categoria do Esp\u00edrito \u00e9 a abertura estrutural; no momento eid\u00e9tico o aspecto da abertura do homem, algo pr\u00f3prio da sua ess\u00eancia, \u00e9 um tema de suma import\u00e2ncia.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Por fim, entramos no momento t\u00e9tico, \u00faltimo momento que Lima Vaz utiliza na an\u00e1lise das categorias. Neste momento encontra-se a quest\u00e3o do <em>quiasmo do esp\u00edrito <\/em>que \u00e9, segundo Lima Vaz, o entrela\u00e7amento da raz\u00e3o e da liberdade na vida do esp\u00edrito. A raz\u00e3o acolhe o ser e a liberdade aceita o ser. Enquanto mais o ser humano fazer o bem, mais livre ele ser\u00e1, pois, o bem \u00e9 a verdade da liberdade e a verdade \u00e9 o bem da intelig\u00eancia. Quanto mais o ser humano se aproximar da verdade, mais automaticamente ele vai procurar fazer o bem; o homem que busca o quiasmo do esp\u00edrito procura a felicidade n\u00e3o nos prazeres deste mundo, mas apenas em Deus que \u00e9 o fundamento absoluto dos sentidos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A experi\u00eancia de Deus \u00e9, para o ser humano, uma experi\u00eancia de liberdade, quando o homem absolutiza o prazer, o dinheiro e o poder, ele se torna um objeto qualquer fadado a responder aos seus pr\u00f3prios comandos. Neste sentido citamos a enc\u00edclica papal <em>Splendor Veritatis <\/em>do Papa S\u00e3o Jo\u00e3o Paulo II, na qual encontramos que n\u00e3o h\u00e1 verdade que n\u00e3o conduz ao bem, e n\u00e3o h\u00e1 bem que esteja desvinculado da verdade. A Igreja defende a ideia de que h\u00e1 a vincula\u00e7\u00e3o entre liberdade e bem, raz\u00e3o e verdade. O Papa nos mostra como a verdade est\u00e1 em \u00edntima uni\u00e3o com a liberdade, mas a verdade da liberdade deve estar em busca do Bem, pois, sendo o contr\u00e1rio, torna-se uma liberdade falsa.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u201cA raz\u00e3o e a experi\u00eancia atestam n\u00e3o s\u00f3 a debilidade da liberdade humana, mas tamb\u00e9m o seu drama. O homem descobre que a sua liberdade est\u00e1 misteriosamente inclinada a trair esta abertura para o Verdadeiro e para o Bem, e que, com bastante frequ\u00eancia, de fato, ele prefere escolher bens finitos, limitados e ef\u00eameros. Mais ainda, por detr\u00e1s dos erros e das op\u00e7\u00f5es negativas, o homem detecta a origem de uma revolta radical, que o leva a rejeitar a Verdade e o Bem para arvorar-se em princ\u00edpio absoluto de si pr\u00f3prio: \u2018Sereis como Deus\u2019 (Gn3,5). Portanto, a liberdade necessita de ser libertada. Cristo \u00e9 o seu libertador: Ele \u2018nos libertou, para que permane\u00e7amos livres\u2019 (Gl5,1)\u201d (VERITATIS SPLENDOR, 86).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Finalizando estas nossas considera\u00e7\u00f5es acerca do esp\u00edrito, conclu\u00edmos dizendo que a estrutura no\u00e9tico-pneum\u00e1tica \u00e9 o homem presente a si mesmo, ao mundo e ao outro. A partir de Descartes, a dimens\u00e3o transcendental do homem foi diminu\u00edda. Deus \u00e9 usado apenas para justificar alguns sistemas filos\u00f3ficos, como Descartes que afirma a exist\u00eancia de Deus para fundamentar o c\u00f3gito. Tamb\u00e9m encontramos a afirma\u00e7\u00e3o de que nos primeiros p\u00f3s-hegelianos, os que mais negam a dimens\u00e3o espiritual do ser humano, destaca-se Marx; este diz que o que movimenta o mundo \u00e9 a mat\u00e9ria e as rela\u00e7\u00f5es, nega a dimens\u00e3o espiritual do ser humano. Juntamente com Marx se encontra Freud que considera a ideia de que a transcend\u00eancia \u00e9 uma proje\u00e7\u00e3o, ou seja, projetamos no ser espiritual aquilo que est\u00e1 dentro de n\u00f3s. Em suma, percebemos nos pensadores modernos a fragilidade dos discursos sobre o esp\u00edrito, mas conforme nos diz o Pe. Lima Vaz, todo discurso sobre o homem que n\u00e3o fala do esp\u00edrito se torna um discurso fragilizado.<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<ol start=\"2\">\n<li><strong> O HOMEM E SUAS RELA\u00c7\u00d5ES <\/strong><\/li>\n<\/ol>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>\u201cNo seu \u00e2mago mais profundo, o homem \u00e9 estruturalmente aberto para o outro\u201d. Vimos nas considera\u00e7\u00f5es a respeito da categoria do esp\u00edrito que o homem n\u00e3o \u00e9 fechado em si mesmo, aquilo que identifica o ser humano (liberdade e racionalidade) ao inv\u00e9s de fech\u00e1-lo em si mesmo, o abre. \u201cO homem \u00e9, pois, ser-em-rela\u00e7\u00e3o segundo a totalidade estrutural que o constitui como corpo psiquismo e esp\u00edrito\u201d (LIMA VAZ, 1991, p. 14). Se o ser humano n\u00e3o fosse um ser aberto, poder\u00edamos desconsiderar a dimens\u00e3o relacional do homem; se o ser humano \u00e9 um ser aberto, ele \u00e9 aberto \u00e0s rela\u00e7\u00f5es. Temos tr\u00eas tipos de rala\u00e7\u00e3o, a saber: a rela\u00e7\u00e3o de objetividade, que compreende a rela\u00e7\u00e3o do homem com as coisas\/mundo; a rela\u00e7\u00e3o de intersubjetividade, que envolve a rela\u00e7\u00e3o entre as pessoas; e, por fim, temos a rela\u00e7\u00e3o de transcend\u00eancia que \u00e9 compreendida como a nossa rela\u00e7\u00e3o com o infinito e o absoluto.<\/p>\n<p>\u201cAqui, ao iniciarmos o estudo das categorias de rela\u00e7\u00e3o, aparece toda a sua import\u00e2ncia, pois \u00e9 em virtude dela que podemos falar de uma abertura intencional do homem, na sua unidade estrutural de corpo-alma-esp\u00edrito, \u00e0 realidade na qual est\u00e1 situado. Abertura que se desdobra em n\u00edveis relacionais distintos, segundo a forma pr\u00f3pria da realidade com a qual o sujeito se relaciona, mas que \u00e9 determinada fundamentalmente pela presen\u00e7a espiritual, regida pela dial\u00e9tica do <em>em-si <\/em>e do <em>para-n\u00f3s <\/em>descrita a prop\u00f3sito da pr\u00e9-compreens\u00e3o do esp\u00edrito\u201d (LIMA VAZ, 1991, p.13)<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O ser humano est\u00e1 situado no tempo e no espa\u00e7o; se est\u00e1 situado, significa que est\u00e1 num mundo relacional. O ser humano possui uma finitude constitutiva, quest\u00e3o essa que interfere no modo de como se relaciona. Todo sujeito humano n\u00e3o \u00e9 sujeito puro, a intui\u00e7\u00e3o de si mesmo s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel atrav\u00e9s do contato com outras realidades; n\u00e3o temos intui\u00e7\u00e3o imediata, tudo \u00e9 um processo de constru\u00e7\u00e3o no qual vamos intuindo a n\u00f3s mesmos a partir do momento em que vamos tendo contato com as coisas. Em suma, o fato de o homem n\u00e3o possuir uma intui\u00e7\u00e3o pura aponta para a capacidade de o mesmo se relacionar com o mundo. As rela\u00e7\u00f5es nascem da estrutura humana; a estrutura do corpo pr\u00f3prio possibilita uma rela\u00e7\u00e3o maior com o mundo da objetividade, enquanto que na rela\u00e7\u00e3o de intersubjetividade o que interfere \u00e9 o psiquismo, pois, o psiquismo \u00e9 o modo de introjetar o mundo que vem de fora e que interfere no modo como nos relacionamos com as pessoas.<\/p>\n<p>\u201cPodemos afirmar que a unidade estrutural do homem, ao mesmo tempo que assegura sua identidade ontol\u00f3gica e lhe d\u00e1 forma da <em>ipseidade <\/em>(reflex\u00e3o), define-o como ser-em-situa\u00e7\u00e3o ou como ser-de-presen\u00e7a a uma realidade com a qual se encontra dialeticamente relacionado \u2013 dial\u00e9tica que \u00e9, fundamentalmente, uma dial\u00e9tica do <em>interior-exterior\u201d <\/em>(LIMA VAZ, 1991, p.12).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Dentre o conjunto de rela\u00e7\u00f5es, destacamos primeiramente a rela\u00e7\u00e3o de objetividade. Esta categoria \u00e9 a rela\u00e7\u00e3o do homem com a realidade que lhe \u00e9 exterior. Em sua obra <em>Antropologia Filos\u00f3fica II, <\/em>Lima Vaz apresenta-nos seis sentidos que definem bem essa rela\u00e7\u00e3o de objetividade, s\u00e3o eles: o sentido l\u00f3gico, o sentido gnosiol\u00f3gico, o sentido epistemol\u00f3gico o sentido dial\u00e9tico, o sentido moral e, por fim, o sentido antropol\u00f3gico. O mundo com o qual o homem se relaciona de forma n\u00e3o rec\u00edproca \u00e9 entendido como um horizonte onde se desenrolam as experi\u00eancias humanas; n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel, nesse sentido, pensar o homem fora do horizonte do mundo, pois, ele \u00e9 pano de fundo de toda a exist\u00eancia humana. De uma forma geral, entendemos que \u00e9 no tempo e no espa\u00e7o que se desenrolam o agir humano.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Outra rela\u00e7\u00e3o que encontramos na antropologia vazeana \u00e9 a rela\u00e7\u00e3o de intersubjetividade. A rela\u00e7\u00e3o de intersubjetividade \u00e9 a rela\u00e7\u00e3o entre sujeitos; trata-se, neste caso, de uma rela\u00e7\u00e3o rec\u00edproca e intencional, pois, sempre quando nos aproximamos de algu\u00e9m, aproximamos com uma inten\u00e7\u00e3o; diante disso afirmamos que na rela\u00e7\u00e3o entre as diversas realidades n\u00e3o existe uma rela\u00e7\u00e3o pura, sempre nos aproximamos diante das pessoas ou das coisas marcados por uma intencionalidade do sujeito que se relaciona. Na rela\u00e7\u00e3o de intersubjetividade encontramos as rela\u00e7\u00f5es entre o EU \u2013 TU e o EU \u2013 N\u00d5S. Nos v\u00e1rios per\u00edodos da hist\u00f3ria, o tema do outro foi abordado; no per\u00edodo antigo o outro \u00e9 contado como um ser da p\u00f3lis, \u00e9 um grupo enquanto participa da comunidade humana; no per\u00edodo medieval o <em>outro<\/em> \u00e9 o pr\u00f3ximo a quem devemos amar, doar, respeitar, ter responsabilidade. Aqui envolve todas as ideias religiosas para pensar o problema do <em>outro; <\/em>no per\u00edodo moderno vemos o desaparecimento do outro e o surgimento do <em>Eu, <\/em>ou seja, o <em>outro <\/em>foi ocultado; no per\u00edodo contempor\u00e2neo o outro \u00e9 aquele que de algum modo participa da hist\u00f3ria. Na contemporaneidade o <em>outro <\/em>passa a ser objeto central da reflex\u00e3o filos\u00f3fica, conforme nos diz v\u00e1rios estudiosos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Por fim, apresentamos a \u00faltima rela\u00e7\u00e3o tratada por Lima Vaz que \u00e9 a de transcend\u00eancia; por causa da sua dimens\u00e3o espiritual, todo homem se torna capaz de se relacionar com o transcendente. O contato com a transcend\u00eancia, conforme nos apresenta Lima Vaz, \u00e9 um contato que se d\u00e1, primeiramente, pela raz\u00e3o, e o outro modo \u00e9 a manifesta\u00e7\u00e3o da pr\u00f3pria transcend\u00eancia, ou seja, a transcend\u00eancia se d\u00e1, se oferece e se revela. Vimos que, a rela\u00e7\u00e3o do homem com as coisas (rela\u00e7\u00e3o de objetividade) \u00e9 uma rela\u00e7\u00e3o de exterioridade, a rela\u00e7\u00e3o com o ser humano \u00e9 de interioridade, ele est\u00e1 fora de mim, mas ao mesmo tempo est\u00e1 dentro de mim.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O transcendente \u00e9 exterior ao sujeito porque ele \u00e9 transcendente, a dimens\u00e3o de transcend\u00eancia est\u00e1 salvaguardada essa rela\u00e7\u00e3o de exterioridade. Por outro lado, o transcendente tamb\u00e9m est\u00e1 dentro do sujeito, pois ele tem capacidade de acolher a transcend\u00eancia, capacidade esta que \u00e9 concedida pelo esp\u00edrito que o permite acolher o absoluto, o infinito. Em suma, a transcend\u00eancia \u00e9, ao mesmo tempo, interior e exterior ao ser humano; a rela\u00e7\u00e3o de transcend\u00eancia \u00e9 exterior porque o sujeito \u00e9 finito, e \u00e9 interior porque o ser humano possui a categoria do esp\u00edrito que permite essa rela\u00e7\u00e3o com o transcendente.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>CONCLUS\u00c3O<\/strong><\/p>\n<p>Com este artigo, objetivamos compreender de uma forma mais aprofundada as quest\u00f5es referentes \u00e0 concep\u00e7\u00e3o de esp\u00edrito e as rela\u00e7\u00f5es humanas tratadas pelo fil\u00f3sofo brasileiro, o Pe. Henrique Cl\u00e1udio de Lima Vaz. Como vimos, o esp\u00edrito \u00e9 espec\u00edfico do ser humano. Com esta categoria, o homem torna-se capaz de ir al\u00e9m do espa\u00e7o e do tempo e estabelecer rela\u00e7\u00f5es com o infinito e com o absoluto. Neste percurso de compreens\u00e3o do esp\u00edrito abordamos, sinteticamente, as considera\u00e7\u00f5es feitas a respeito das categorias do corpo pr\u00f3prio e do psiquismo, pois, \u00e9 imposs\u00edvel falar da categoria do esp\u00edrito sem abordar as demais categorias, \u00e9 o esp\u00edrito quem d\u00e1 unidade a todas elas e \u00e9 o \u00e1pice da estrutura humana.<\/p>\n<p>Pelo fato de o ser humano possuir em sua ess\u00eancia a abertura para o outro, tamb\u00e9m abordamos a quest\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es humanas aqui denominadas de objetividade, intersubjetividade e transcend\u00eancia. A ess\u00eancia \u00e9 aquilo que faz com que o homem seja aquilo que ele \u00e9 e n\u00e3o outra coisa, e a ess\u00eancia do homem \u00e9 a abertura para as rela\u00e7\u00f5es com o mundo, com o outro e com a transcend\u00eancia. Atrav\u00e9s do estudo da categoria espiritual tivemos a oportunidade de compreender melhor aquilo que \u00e9 o homem; e, de fato, conforme nos diz Lima Vaz, n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel ocultar a categoria do esp\u00edrito, esse aspecto que faz o homem ir al\u00e9m dos seus limites e contemplar a transcend\u00eancias. Todo o discurso acerca do homem que deixa de lado a sua dimens\u00e3o espiritual, torna-se um discurso incompleto e fragilizado.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>REFER\u00caNCIAS BIBLIOGR\u00c1FICAS. <\/strong><\/p>\n<p>LIMA VAZ, Henrique Cl\u00e1udio de. <em>Antropologia Filos\u00f3fica I<\/em>. 5. ed. S\u00e3o Paulo: Edi\u00e7\u00f5es Loyola, 1991.<\/p>\n<p>______. <em>Antropologia Filos\u00f3fica II. <\/em>S\u00e3o Paulo: Edi\u00e7\u00f5es Loyola, 1992.<\/p>\n<p>JO\u00c3O PAULO II. <em>Carta enc\u00edclica Veritatis splendor. <\/em>2. ed. S\u00e3o Paulo: Paulinas, 1993.<\/p>\n<p>POZZO, Edson Luiz Dal. <em>A dimens\u00e3o do esp\u00edrito e a rela\u00e7\u00e3o com a transcend\u00eancia em Lima Vaz \u2013 uma resposta ao niilismo contempor\u00e2neo. <\/em>2014. 117f. Disserta\u00e7\u00e3o (Mestrado em Filosofia) \u2013 Pontif\u00edcia Universidade Cat\u00f3lica do Rio Grande do Sul (PUC \u2013 RS), Porto Alegre, 2014. Dispon\u00edvel em: <a href=\"http:\/\/tede2.pucrs.br\/tede2\/bitstream\/tede\/2938\/1\/457928.pdf\">http:\/\/tede2.pucrs.br\/tede2\/bitstream\/tede\/2938\/1\/457928.pdf<\/a><\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[*]<\/a> Graduando em Filosofia na Faculdade Dom Luciano Mendes (FDLM)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ant\u00f4nio Marcos Maciel Ferreira[*] \u00a0 Resumo: A categoria do esp\u00edrito \u00e9 o que confere ao ser humano a capacidade de agir racionalmente e livremente. 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