{"id":2809,"date":"2020-09-17T21:18:17","date_gmt":"2020-09-18T00:18:17","guid":{"rendered":"http:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/?p=2809"},"modified":"2020-09-17T21:24:01","modified_gmt":"2020-09-18T00:24:01","slug":"a-superacao-nietzschiana-da-proposta-etica-kantiana-aproximacoes-e-lacunas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/?p=2809","title":{"rendered":"A SUPERA\u00c7\u00c3O NIETZSCHIANA DA PROPOSTA \u00c9TICA KANTIANA: APROXIMA\u00c7\u00d5ES E LACUNAS"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-text-align-right\"><em>Mois\u00e9s Galinari T\u00f4rres<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right\"><em>Pedro Henrique S. Martins<\/em><\/p>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\"><strong>Introdu\u00e7\u00e3o<\/strong><\/h4>\n\n\n\n<p>Dentre as pertinentes reflex\u00f5es ao longo da hist\u00f3ria da filosofia, uma delas, sem d\u00favidas, trata-se da reflex\u00e3o \u00e9tica, isto \u00e9, no modo como o homem se comporta dentro de uma determinada sociedade. Tais discuss\u00f5es perpassam todas as civiliza\u00e7\u00f5es, e ao longo de toda a cronologia hist\u00f3rica, sofreram altera\u00e7\u00f5es e foram pensadas a partir de discuss\u00f5es filos\u00f3ficas em diversos contextos. Muitos s\u00e3o os nomes que colaboraram para as discuss\u00f5es \u00e9ticas, e n\u00e3o poder\u00edamos deixar de citar as contribui\u00e7\u00f5es socr\u00e1ticas, aristot\u00e9licas, plat\u00f4nicas, bem como as reflex\u00f5es da Patr\u00edstica e da Escol\u00e1stica, e \u00e9 claro, todo o universo moderno e contempor\u00e2neo \u2013 em suas diversas facetas com as divergentes e ricas reflex\u00f5es. Contudo, neste trabalho, faremos um corte cronol\u00f3gico nas reflex\u00f5es de Immanuel Kant, sobretudo no que diz respeito \u00e0 \u00e9tica do dever e nas reflex\u00f5es niilistas de Nietzsche, de estrita import\u00e2ncia para assimilarmos sua cr\u00edtica \u00e0 metaf\u00edsica tradicional e aos sistemas \u00e9ticos heter\u00f4nomos, bem como sua cr\u00edtica \u00e0 \u00e9tica do dever proposta por Kant. Al\u00e9m do mais, n\u00e3o \u00e9 de nosso interesse e nem est\u00e1 ao nosso alcance, apresentar todo o universo \u00e9tico de Kant e Nietzsche, uma vez que reconhecemos a limita\u00e7\u00e3o desta pesquisa frente ao complexo arcabou\u00e7o filos\u00f3fico do pensamento destes dois importantes pilares da reflex\u00e3o moderna e contempor\u00e2nea dos \u00faltimos s\u00e9culos.<\/p>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\"><strong>O <em>aufkl\u00e4rung<\/em> kantiano e a valoriza\u00e7\u00e3o da raz\u00e3o<\/strong><\/h4>\n\n\n\n<p>Ao fazermos alus\u00e3o a Immanuel Kant, \u00e9 imposs\u00edvel fazermos refer\u00eancia \u00e0s suas reflex\u00f5es desconsiderando o contexto em que se insere, e do mesmo modo, sem levar em considera\u00e7\u00e3o todo o movimento hist\u00f3rico das reflex\u00f5es filos\u00f3ficas. De antem\u00e3o, \u00e9 v\u00e1lido salientar que Kant se insere dentro do movimento iluminista, e que, a sua resposta \u00e0 pergunta: <em>O que \u00e9 o Esclarecimento?,<\/em> torna-se uma importante refer\u00eancia para adentrarmos na Era das Luzes, e do mesmo modo, entendermos brevemente a perspectiva kantiana de valoriza\u00e7\u00e3o do uso da raz\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Em 1783 o famoso jornal de Berlin <em>Berlinische Monastschrift<\/em>, apresentou a pergunta \u201c<em>Was ist Aufkl\u00e4rung?\u201d \u2013 <\/em>\u201cO que a Ilustra\u00e7\u00e3o?\u201d, e dentre os v\u00e1rios coment\u00e1rios em resposta \u00e0 quest\u00e3o, floresceu no germe da filosofia prussiana a resposta de Immanuel Kant. A resposta kantiana lan\u00e7a luzes \u00e0 necessidade do homem moderno de buscar o esclarecimento, fruto de seu pr\u00f3prio mandamento: <em>Sapere Aude<\/em>, isto \u00e9, ouse saber! Nesse sentido, a exorta\u00e7\u00e3o que Kant faz aos homens de seu contexto, remete \u00e0 necessidade de uma emancipa\u00e7\u00e3o do homem na perspectiva de fazer uso do pr\u00f3prio entendimento, como pode-se observar nas linhas introdut\u00f3rias de sua resposta, discriminadas no fragmento abaixo:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>Esclarecimento [Aufkl\u00e4rung] \u00e9 a sa\u00edda do homem de sua menoridade, da qual ele pr\u00f3prio \u00e9 culpado. A menoridade \u00e9 a incapacidade de fazer uso do seu entendimento sem a dire\u00e7\u00e3o de outro indiv\u00edduo. O homem \u00e9 o pr\u00f3prio culpado dessa menoridade se a causa dela n\u00e3o se encontra na falta de entendimento, mas na falta de decis\u00e3o e coragem de servir-se de si mesmo sem a dire\u00e7\u00e3o de outrem. <em>Sapere aude<\/em>! Tem coragem de fazer o uso de teu pr\u00f3prio entendimento, tal \u00e9 o lema esclarecimento [Aufkl\u00e4rung] (KANT, 1985, p. 100).<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Como se observa no fragmento acima, Immanuel Kant apresenta algumas importantes novidades neste movimento emancipat\u00f3rio que ele compreende como sa\u00edda do homem da menoridade para a maioridade. A primeira considera\u00e7\u00e3o, \u00e9 esclarecer que o homem \u201cmaior\u201d \u00e9 o homem que faz pleno uso do seu entendimento, sendo desse modo o homem esclarecido. Par\u00e1grafos depois, ainda em sua resposta \u00e0 pergunta o que \u00e9 o esclarecimento, Kant considera que apesar de nem todos os homens serem esclarecidos, esse tempo trata-se, contudo, da \u00e9poca oportuna para a emancipa\u00e7\u00e3o, isto \u00e9, para a passagem da menoridade \u00e0 maioridade. A segunda considera\u00e7\u00e3o \u00e9 observarmos que a \u201cculpa\u201d do homem de sua menoridade \u00e9 exclusivamente sua, e aqui, Kant rompe com essa responsabilidade dos tutores, apresentando o \u201chomem menor\u201d como culpado devido sua falta de coragem e covardia, e movidos por uma pregui\u00e7a, sendo \u201ccausas que explicam por que \u00e9 t\u00e3o f\u00e1cil que os outros se constituem tutores deles\u201d (KANT, 1980, p. 100).<\/p>\n\n\n\n<p>Agora, poder\u00edamos nos perguntar: Qual a import\u00e2ncia da <em>Aufkl\u00e4rung<\/em> para a assimila\u00e7\u00e3o da \u00c9tica do Dever kantiana? Para respondermos essa pergunta, tomaremos a considera\u00e7\u00e3o de que a pr\u00f3pria proposta \u00e9tica de Immanuel Kant possui a pretens\u00e3o de romper com uma cosmovis\u00e3o \u00e9tica heter\u00f4noma, isto \u00e9, uma doutrina \u00e9tica em que os h\u00e1bitos, costumes e leis sejam impostos aos homens externamente, como fora observado em tempos antigos. Por consequ\u00eancia disso, chegamos \u00e0 reflex\u00e3o de que n\u00e3o somente no \u00e2mbito do entendimento, mas tamb\u00e9m no \u00e2mbito pr\u00e1tico, o fil\u00f3sofo de K\u00f6nigsberg assimila a emancipa\u00e7\u00e3o do homem tamb\u00e9m em seu agir pr\u00e1tico, pois entendemos aqui toda a emancipa\u00e7\u00e3o do homem, ou seja, do sujeito moderno.<\/p>\n\n\n\n<p>Toda essa reflex\u00e3o acerca do homem, o uso do seu entendimento e a sua condu\u00e7\u00e3o pr\u00e1tica da vida, s\u00e3o asseguradas dentro de um universo de reflex\u00f5es modernas. Para a hist\u00f3ria da filosofia sabemos da importante contribui\u00e7\u00e3o de Descartes ao fundar o <em>c\u00f3gito<\/em>, inaugurando de certa forma as reflex\u00f5es acerca do sujeito moderno. Para chegar ao subjetivismo, Descartes apresenta um caminho permeado pela d\u00favida met\u00f3dica a fim de buscar um conhecimento seguro acerca dos conhecimentos adquiridos, e diante de si, se encontra com a \u00fanica certeza de que se o homem pensa, logo existe. Obviamente, embora n\u00e3o adentremos nesse movimento proposto por Ren\u00e9 Descartes, aqui assimilamos a <em>res cogitans<\/em> como a natureza pensante do homem, e \u201cestamos diante da humaniza\u00e7\u00e3o radical do conhecimento, reconduzido \u00e0 sua fonte primog\u00eanita\u201d (REALE; ANTISERI, 2004, p. 294).&nbsp; Tal universo inaugurado por Descartes ser\u00e1 posteriormente assimilado por Kant e, obviamente, reformulado em suas reflex\u00f5es acerca do que \u00e9 o homem e como o homem pode conhecer, respondendo perguntas fundamentais na antropologia moderna. Em vista das exposi\u00e7\u00f5es anteriores, embora compreendamos Kant dentro de um universo de valoriza\u00e7\u00e3o da raz\u00e3o, aqui pensando de modo particular no Iluminismo Alem\u00e3o, sabemos que Kant n\u00e3o assume uma posi\u00e7\u00e3o racionalista dogm\u00e1tica, uma vez em que o mesmo \u201cleva a raz\u00e3o ao tribunal\u201d. Contrapondo toda a perspectiva que abordava o entendimento humano como capaz de conhecer toda a realidade, as reflex\u00f5es criticistas de Kant \u2013 que fugiam de todo o empirismo e racionalismo dogm\u00e1ticos &#8211; propunham um limite quanto ao alcance da pr\u00f3pria raz\u00e3o, al\u00e9m de fortalecer o sujeito moderno como o construtor da realidade, com a faculdade transcendental de organizar o mundo.<\/p>\n\n\n\n<p>Para clarificar a exposi\u00e7\u00e3o anterior, embora n\u00e3o seja o objetivo dessa discuss\u00e3o, apresentarei ainda que brevemente o criticismo, no qual Immanuel Kant, como comenta Pascal (1980, p. 32) tenta discernir \u00e0quilo que a raz\u00e3o consegue ou n\u00e3o fazer. Em suas abordagens acerca da possibilidade do conhecimento, encontramos a considera\u00e7\u00e3o de que o conhecimento \u00e9 adquirido por meio da experi\u00eancia e da raz\u00e3o, uma tentativa de conciliar as duas perspectivas, a empirista e a racionalista, e por isso classificando-o como criticista, que por sua vez, \u201cexamina todas as afirma\u00e7\u00f5es da raz\u00e3o humana e n\u00e3o aceita nada despreocupadamente\u201d (HESSEN, 1987, p. 54). Outrossim, podemos concluir, que o uso do entendimento para o \u201chomem maior\u201d n\u00e3o se trata de um entendimento fundamentalista dogm\u00e1tico, caindo nos erros da posi\u00e7\u00e3o empirista ou racionalista, mas um uso cr\u00edtico da pr\u00f3pria raz\u00e3o no \u00e2mbito do conhecimento, e como j\u00e1 afirmamos, tamb\u00e9m em sua perspectiva pr\u00e1tica.<\/p>\n\n\n\n<h5 class=\"wp-block-heading\"><strong>A passagem da heteronomia para a autonomia como determina\u00e7\u00e3o da raz\u00e3o<\/strong><\/h5>\n\n\n\n<p>Uma vez que consideramos a <em>Aufkl\u00e4rung<\/em> e a emancipa\u00e7\u00e3o do homem dentro do universo da modernidade filos\u00f3fica a partir de Immanuel Kant, \u00e9 v\u00e1lido continuarmos as discuss\u00f5es, agora, adentrando em sua perspectiva \u00e9tica. Para tal an\u00e1lise, faremos o uso da obra <em>Fundamenta\u00e7\u00e3o da Metaf\u00edsica dos Costumes<a href=\"#_ftn1\"><strong>[1]<\/strong><\/a><\/em>, delimitando algumas importantes considera\u00e7\u00f5es expostas pelo \u201cfil\u00f3sofo do dever\u201d em sua obra. Para in\u00edcio de conversa, ainda no universo de emancipa\u00e7\u00e3o proposto na reflex\u00e3o sobre a <em>Aufkl\u00e4rung<\/em>, faz-se necess\u00e1rio observar que o \u201chomem servil\u201d, isto \u00e9, o homem que vive na comodidade em \u201cser menor\u201d, se deixa prender \u00e0 pregui\u00e7a e covardia o que favorece para que tutores \u201ccontrolem\u201d seu entendimento e suas a\u00e7\u00f5es. Essa servid\u00e3o \u00e9 exemplificada claramente em exemplos cotidianos, desde a orienta\u00e7\u00e3o espiritual com o sacerdote \u00e0 submiss\u00e3o das restri\u00e7\u00f5es alimentares estabelecidas pelo m\u00e9dico.<\/p>\n\n\n\n<p>Em sua obra FMC, Immanuel Kant apresenta que o ju\u00edzo para considerarmos uma a\u00e7\u00e3o como justa, isto \u00e9, como moralmente aceita ou n\u00e3o, deve ser o fundamento da boa vontade. J\u00e1 na <em>Primeira Se\u00e7\u00e3o<\/em> de seus escritos l\u00ea-se que \u201cnada \u00e9 poss\u00edvel pensar que possa ser considerado como bom sem limita\u00e7\u00e3o a n\u00e3o ser uma s\u00f3 coisa: a boa vontade\u201d (FMC, 1980, p. 109). E a boa vontade, para Kant n\u00e3o pode ser julgada sob seus efeitos, mas simplesmente por aquilo que ela \u00e9, ou seja, pela boa vontade ser \u201cboa em si mesma\u201d. De antem\u00e3o, podemos ratificar que a moralidade kantiana deseja romper com toda a fundamenta\u00e7\u00e3o moral que se fundamenta nas empirias, e aqui, h\u00e1 a tentativa kantiana de examinar as motiva\u00e7\u00f5es internas do homem, e \u00e9 por esse motivo que o fil\u00f3sofo apresenta suas reflex\u00f5es pela <em>\u00e9tica do dever<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas, na constru\u00e7\u00e3o de nosso racioc\u00ednio poder\u00edamos nos interpelar: por que Kant associa sua reflex\u00e3o \u00e9tica ao <em>dever<\/em>? &nbsp;Primeiro, \u00e9 oportuno recordarmos que o homem \u00e9 integrante da natureza, isto \u00e9, do mundo sens\u00edvel \u2013 e por pertencer \u00e0 natureza sofre interfer\u00eancia da realidade que o circunda. Entretanto, diferentemente dos animais, o homem \u00e9 dotado de racionalidade, que o faz integrante de um mundo racional, intelig\u00edvel, o que o permite formular leis para a sua auto legisla\u00e7\u00e3o, fazendo que com o homem n\u00e3o seja determinado pela realidade emp\u00edrica, sens\u00edvel. E, nesse ponto, encontramos o cerne da reflex\u00e3o \u00e9tica de Kant, uma vez que as cren\u00e7as morais \u201cn\u00e3o devem se fundamentar no costume ou nas prefer\u00eancias subjetivas, nem mesmo nas ideias teleol\u00f3gicas, mas na racionalidade pr\u00e1tica, tendo em vista que se trata de um crit\u00e9rio intersubjetivo e impessoal, aplic\u00e1vel a qualquer agente\u201d (CHAGAS, 2019, p. 126-127).<\/p>\n\n\n\n<p>A motiva\u00e7\u00e3o moral para a filosofia kantiana toma grande parte de sua aten\u00e7\u00e3o para as discuss\u00f5es acerca da moralidade, \u00e9 o que pode ser observado nos exemplos introdut\u00f3rios da FMC na distin\u00e7\u00e3o de uma a\u00e7\u00e3o contr\u00e1ria ao dever, uma a\u00e7\u00e3o conforme ao dever e uma a\u00e7\u00e3o por dever. Em tais discuss\u00f5es, encontra-se em jogo a motiva\u00e7\u00e3o interior do homem em realizar a a\u00e7\u00e3o sem a interfer\u00eancia de inclina\u00e7\u00f5es internas que podem associar a boa vontade \u00e0 algum efeito imediato ou futuro, pois como foi salientado anteriormente, a boa vontade deve ser pura em si mesma. Dessa forma, como constata Chagas (2019, p. 129) para o fil\u00f3sofo prussiano, o reconhecimento da lei moral, ou seja, a consci\u00eancia do que deve ser feito n\u00e3o \u00e9 satisfat\u00f3rio para uma raz\u00e3o pura pr\u00e1tica, e \u00e9 a\u00ed que encontramos o respeito \u00e0 lei moral, colaborando para que haja uma conson\u00e2ncia entre a vontade e a lei moral, uma vez que somente \u201cum ser racional tem a capacidade de agir segundo a representa\u00e7\u00e3o das leis, isto \u00e9, segundo princ\u00edpios, ou: s\u00f3 ele tem uma vontade\u201d (FMC, 1980, p. 123).<\/p>\n\n\n\n<p>Na tentativa de apresentar uma moral <em>a priori<\/em> marcada pela universalidade, isto \u00e9, sem a particularidade das inclina\u00e7\u00f5es naturais e concomitantemente da empiria, o fil\u00f3sofo de K\u00f6nigsberg exp\u00f5e uma m\u00e1xima referente ao imperativo categ\u00f3rico, como menciona: \u201cage apenas segundo uma m\u00e1xima tal que possas ao mesmo tempo querer que ela se torne uma lei universal\u201d (FMC, 1980, p. 129). Diante de tal mandamento, universal a todos os homens dotados de racionalidade, e n\u00e3o somente aos homens mas tamb\u00e9m para todos os seres racionais, Immanuel Kant acredita que o imperativo categ\u00f3rico pressup\u00f5e aos homens uma imparcialidade comportamental, pois \u201cn\u00e3o nos \u00e9 permitido abrir exce\u00e7\u00f5es para n\u00f3s mesmos ou fazer o que racionalmente n\u00e3o permitir\u00edamos aos outros\u201d (GUYER, 2009, p. 390).<\/p>\n\n\n\n<p>Ap\u00f3s apresentarmos tais abordagens, conclui-se que nas discuss\u00f5es acerca de uma fundamenta\u00e7\u00e3o para os costumes, inclusive, como \u00e9 de interesse na FMC, Kant apresenta ao mundo moderno uma \u201clei moral\u201d que ao mesmo tempo obriga a a\u00e7\u00e3o humana, quero dizer, acaba por corresponder como dispositivo que regula o comportamento humano, fruto da pr\u00f3pria raz\u00e3o do sujeito emancipado. E aqui, podemos assimilar toda a compreens\u00e3o introdut\u00f3ria acerca do esclarecimento em sua implica\u00e7\u00e3o n\u00e3o somente \u00e0 ordem do conhecimento, mas tamb\u00e9m ao aspecto da raz\u00e3o pr\u00e1tica humana. &nbsp;Assim, os homens n\u00e3o compreendem tal lei moral como heter\u00f4noma a si mesmos, pois \u00e9 interna ao pr\u00f3prio sujeito, sendo um produto dos pr\u00f3prios homens. Tal autonomia dos homens frente aos princ\u00edpios morais recorda-nos uma maioridade do homem frente \u00e0 sua pr\u00f3pria legisla\u00e7\u00e3o moral, rompendo com toda uma perspectiva ordenada heter\u00f4noma da moralidade, ou ainda de uma moralidade que torna o homem \u201cservo\u201d, incapaz de pensar e agir por si mesmo na vida pr\u00e1tica.<\/p>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\"><strong>O pensamento \u00e9tico de Nietzsche<\/strong><\/h4>\n\n\n\n<p>Friedrich Wilheim Nietzsche, critico que era usa seu \u201cmartelo\u201d e prop\u00f5e um repensar diametralmente singular, especialmente no que tange \u00e0 moral. Sua percep\u00e7\u00e3o do mundo, da vida e da filosofia ocidental p\u00f5e em quest\u00e3o o caminhar est\u00e1vel da raz\u00e3o soberana \u00e0 vontade de vida expressa na criatividade livre na sociedade. Ora, a raz\u00e3o, com sua determina\u00e7\u00e3o e extrema ordem, resultaram numa esp\u00e9cie de castra\u00e7\u00e3o que resulta na contradit\u00f3ria busca pelo nada. Ao nos lan\u00e7armos para um horizonte transcendente de vida superior da que temos presente, se nos embriagamos da ilus\u00e3o de uma verdade absoluta e de uma liberdade que n\u00e3o aceita o fato da vida agora, nos implicou em fazer uma moral bin\u00e1ria que transita entre bem e mal, certo e errado com suas duras puni\u00e7\u00f5es se encerram no conflito do homem consigo mesmo a realidade por ele produzida. Se levantam diversas interroga\u00e7\u00f5es diante da fal\u00eancia de sentido a que nos submeteram a soberania exclusiva da raz\u00e3o transcendental e impediram que o homem se torne o que de fato \u00e9.<\/p>\n\n\n\n<p>O fil\u00f3sofo alem\u00e3o prop\u00f5e uma reflex\u00e3o axiol\u00f3gica ainda n\u00e3o vista que estabelece do vazio \u00e9tico em que se encontrava a Europa de sua \u00e9poca e que se projetara no futuro. Arruinadas os fundamentos da moral sobre bases plat\u00f4nico-socr\u00e1tica assumida pelo cristianismo, &nbsp;da liberdade, da metaf\u00edsica e transcendental em que se apoiou a verdade, sobra ao homem o questionar-se a tarefa de refazer-se a partir de novos valores e sair da crise \u00e9tica que desnudou a humanidade. Aqui se cr\u00edtica ao dever-ser e ao imperativo atinge, frontalmente, a moral pensada por Kant, ou seja, liberdade, autonomia e dever foram levadas \u00e0 condena\u00e7\u00e3o por Nietzsche porque se estabeleceram em ilus\u00f5es. Danilo Bilate<a href=\"#_ftn2\">[2]<\/a> comentando a obra de Osvaldo Giacoia J\u00fanior, um dos maiores estudiosos de Nietzsche no Brasil, define o pensamento \u00e9tico nietzscheano como uma \u201cestil\u00edstica da exist\u00eancia\u201d. E prossegue: \u201c\u00c9 preciso libertar-se das amarras da ignor\u00e2ncia e da opress\u00e3o, assumindo a responsabilidade por si, com extrema valoriza\u00e7\u00e3o da capacidade de autodetermina\u00e7\u00e3o\u201d (GIACOIA, 2013, p. 1). Para compreend\u00ea-la e coloc\u00e1-la em um poss\u00edvel di\u00e1logo (seja para refutar, seja para a distinguir do que prop\u00f4s Kant) consideremos os conceitos expressos na genealogia da moral, na transvalora\u00e7\u00e3o dos valores e no eterno retorno do mesmo.<\/p>\n\n\n\n<h5 class=\"wp-block-heading\"><strong>A genealogia da moral<\/strong><\/h5>\n\n\n\n<p>A partir dos estudos dos princ\u00edpios que firmam a moral quais sejam expressas na religi\u00e3o, na moral, na filosofia, na ci\u00eancia e na arte.&nbsp; Como dito anteriormente, a soberania exclusiva da raz\u00e3o deve abrir espa\u00e7o para os instintos que resultam numa coragem sobre a vida e dos quais se distinguem os senhores e os escravos em rela\u00e7\u00e3o conflitiva e das quais nascem duas morais rivais. Acontece que de uma terceira casta, a dos sacerdotes, nasce a mobiliza\u00e7\u00e3o dos escravos contra os guerreiros, a classe dominante. Essa moral escrava inicia-se com o povo judeu e \u00e9 assumida pelo cristianismo.<\/p>\n\n\n\n<p>S\u00e3o tr\u00eas os pilares da moral em sua genealogia donde surgem bom e mau, culpa e m\u00e1 consci\u00eancia e o ascetismo:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>A psicologia do cristianismo; o nascimento do cristianismo do esp\u00edrito do ressentimento e n\u00e3o, como se cr\u00ea, do \u201cesp\u00edrito\u201d [&#8230;] uma rebeli\u00e3o contra o dom\u00ednio dos valores \u201caristocr\u00e1ticos\u201d. [&#8230;] a psicologia da \u201cconsci\u00eancia moral\u201d, a qual n\u00e3o \u00e9, como se cr\u00ea, \u201ca voz de deus no homem, ela \u00e9 o instinto de crueldade que se descarrega sobre si quando n\u00e3o pode descarregar-se para fora. [&#8230;] o poder monstruoso do ideal asc\u00e9tico, do ideal sacerdotal que, apesar de ser um ideal nocivo por excel\u00eancia, uma vontade de aniquilar-se, um ideal de decad\u00eancia, [&#8230;] n\u00e3o \u00e9 movido por deus, mas porque ele \u00e9 o \u00fanico ideal at\u00e9 o presente, uma vez que n\u00e3o teve nenhum concorrente. \u201cPois o homem ainda prefere querer o nada, a n\u00e3o querer\u201d (NIETZSCHE, Apud LEFRANC, 2005, p. 146-147).<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Enquanto Kant parte da dial\u00e9tica da cren\u00e7a na alma, na liberdade e em Deus, Nietzsche parte do ate\u00edsmo, da necessidade, do imoralismo. Sua cr\u00edtica sobre o valor dos valores exige uma retomada \u00e0 origem e na hist\u00f3ria da vontade de poder. Com isso, afirma que&nbsp; o homem \u00e9 um ser instintivo e que os instintos nada mais s\u00e3o que os aspectos psicofisiol\u00f3gicos da vida que quer existir e que reprimi-la \u00e9 um processo destrutivo contra a liberdade que n\u00e3o \u00e9 poder fazer escolhas , mas uma escolha por viver a vida com toda a sua tragicidade e o seu devir.<\/p>\n\n\n\n<h5 class=\"wp-block-heading\"><strong>O eterno retorno do mesmo e transvalora\u00e7\u00e3o dos valores<\/strong><\/h5>\n\n\n\n<p>Dadas as ra\u00edzes do vazio existencial, da contamina\u00e7\u00e3o pela ideia de transcendente e, em consequ\u00eancia, do vazio \u00e9tico, Nietzsche traz \u00e0 iman\u00eancia que sempre se recria num movimento eterno. Quer dizer que depois da morte de Deus, para rem\u00e9dio do mal estar niilista tornando a vida n\u00e3o mais sob aspecto atemporal metaf\u00edsica, mas movimentando-se como iman\u00eancia pura com suas implica\u00e7\u00f5es \u00e9ticas. Em <em>A Gaia Ci\u00eancia<\/em> diz Nietzsche:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>E se um dia ou uma noite um dem\u00f4nio se esgueirasse em tua mais solit\u00e1ria solid\u00e3o e te dissesse: &#8220;Esta vida, assim como tu vives agora e como a viveste, ter\u00e1s de viv\u00ea-la ainda uma vez e ainda in\u00fameras vezes: e n\u00e3o haver\u00e1 nela nada de novo, cada dor e cada prazer e cada pensamento e suspiro e tudo o que h\u00e1 de indivisivelmente pequeno e de grande em tua vida h\u00e1 de te retornar, e tudo na mesma ordem e sequ\u00eancia &#8211; e do mesmo modo esta aranha e este luar entre as \u00e1rvores, e do mesmo modo este instante e eu pr\u00f3prio. A eterna ampulheta da exist\u00eancia ser\u00e1 sempre virada outra vez, e tu com ela, poeirinha da poeira!&#8221;. N\u00e3o te lan\u00e7arias ao ch\u00e3o e rangerias os dentes e amaldi\u00e7oarias o dem\u00f4nio que te falasses assim? Ou viveste alguma vez um instante descomunal, em que lhe responderias: &#8220;Tu \u00e9s um deus e nunca ouvi nada mais divino!&#8221; Se esse pensamento adquirisse poder sobre ti, assim como tu \u00e9s, ele te transformaria e talvez te triturasse: a pergunta diante de tudo e de cada coisa: &#8220;Quero isto ainda uma vez e in\u00fameras vezes?&#8221; pesaria como o mais pesado dos pesos sobre o teu agir! Ou, ent\u00e3o, como terias de ficar de bem contigo e mesmo com a vida, para n\u00e3o desejar nada mais do que essa \u00faltima, eterna confirma\u00e7\u00e3o e chancela? (\u00a7341, p.201-202).<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Amar a vida (<em>amor fati<\/em>) e amar a si mesmo est\u00e3o no cerne da \u00e9tica nietzscheana, que deve pautar os atos do ser humano para a necessidade de deixar-se guiar no princ\u00edpio da exist\u00eancia no momento presente usufruindo dos instintos \u2013 que s\u00e3o verdadeiros \u2013 e da exist\u00eancia com todas as suas imprevisibilidades como um abra\u00e7ar o destino que se desdobra ciclicamente sobre si mesmo. Para tal, se faz obrigat\u00f3rio transvalorar os valores vigentes de ent\u00e3o. E onde reside a autonomia do indiv\u00edduo.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o h\u00e1 um outro sentido na vida, ela em si mesma j\u00e1 \u00e9 o seu sentido. Portanto, n\u00e3o h\u00e1 que se lutar por afirmar-se guerreando contra si mesmo a partir dos ju\u00edzos do bom e mau, ou seja, a partir de preconceitos morais. &nbsp;A autonomia da pessoa se debru\u00e7a no compreender que as contingencias da exist\u00eancia devem ser aceitas pelas puls\u00f5es que sempre nos lan\u00e7am para a vida e que ao abra\u00e7\u00e1-la propositalmente se torna o que de fato se \u00e9.<\/p>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\"><strong>A autonomia: aproxima\u00e7\u00f5es e distanciamentos das perspectivas de Kant e Nietzsche\u00a0<\/strong><\/h4>\n\n\n\n<p>Manter uma compreens\u00e3o \u00e9tica e seus projetos sobre m\u00e1ximas pretendentes \u00e0 validade universal \u00e9 quest\u00e3o em que o pensamento de Nietzsche se relaciona. A \u00e9tica nietzscheana se estabelece sobre um agir a partir da pr\u00f3pria exist\u00eancia e fidelidade a si mesmo contrariamente ao que prop\u00f5e Kant. Osvaldo Giacoia Jr., mestre e doutor em filosofia pela PUC-SP, um dos maiores estudiosos de Nietzsche como dito anteriormente, a partir dos modelos \u00e9ticos e suas bases, Kant em sua \u00e9tica do dever definido por seu imperativo categ\u00f3rico universal e Nietzsche, em sua \u00e9tica da vida, da exist\u00eancia, mas sem imperativo categ\u00f3rico e lei da raz\u00e3o determinando valorativamente a pr\u00e1xis, empreende a tarefa de relacion\u00e1-los ao que afirma sobre a autonomia nas duas linhas filos\u00f3ficas:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>De forma muito esquem\u00e1tica, pode-se afirmar que para Kant liberdade e autonomia da vontade s\u00e3o termos sin\u00f4nimos; autonomia da vontade, por sua vez, identifica-se com autolegisla\u00e7\u00e3o da raz\u00e3o, em sua fun\u00e7\u00e3o de determinar, por meio de valores e normas, a pr\u00e1xis humana nas sociedades e na hist\u00f3ria. Para Nietzsche, autonomia \u00e9 um conceito que deve ser entendido em perspectiva hist\u00f3rica e geneal\u00f3gica: como um vir a ser da capacidade (ou poder) humano de autodetermina\u00e7\u00e3o, como uma forma\u00e7\u00e3o tardia da consci\u00eancia moral, fruto de um desenvolvimento que parte da pr\u00e9-hist\u00f3ria do homin\u00eddeo pulsional at\u00e9 alcan\u00e7ar, com no dom\u00ednio \u00e9tico do animal pol\u00edtico, a pot\u00eancia de responsabilizar-se por si e pelo futuro (GIOACOIA JR., 2013, p.1).<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>O esclarecimento e a cr\u00edtica s\u00e3o elementos fundantes de ambos os pensadores. Estas atitudes, que em linhas gerais, se aproximam profundamente incidem sobre um processo emancipat\u00f3rio do indiv\u00edduo especialmente no que se refere \u00e0 metaf\u00edsica. Isto quer dizer, conforme Giacoia apesar do distanciar das propostas \u00e9ticas, uma exist\u00eancia pautada pelo princ\u00edpio da liberdade e fidelidade a si e da vontade que se expressa numa a\u00e7\u00e3o incondicionada.<\/p>\n\n\n\n<p>Entretanto, Nietzsche paradoxalmente se utiliza do sistema cr\u00edtico de Kant quando, no campo epistemol\u00f3gico, rejeita o conhecimento imparcial e objetivo da realidade que apreenda as suas estruturas ontol\u00f3gicas partindo das formas a priori da sensibilidade e do entendimento resultantes da cr\u00edtica da raz\u00e3o pura. Se a linguagem e a pr\u00f3pria consci\u00eancia nascem da necessidade de preserva\u00e7\u00e3o e s\u00e3o mesmo elementos de utilidade inicialmente citando Nietzsche em <em>A Ci\u00eancia Gaia<\/em> (2006, \u00a7354, p 221). O seu desenvolvimento \u00e9 dado nas impress\u00f5es intuitivas obtidas das experiencias dos sentidos, corporal e fisiol\u00f3gicas.<\/p>\n\n\n\n<p>Os homens criam met\u00e1foras para falar sobre o mundo e sobre si mesmos e que n\u00e3o correspondem de fato \u00e0s coisas j\u00e1 s\u00e3o perspectivas convencionadas sobre as coisas. O ser humano no processo cognoscitivo faz interpreta\u00e7\u00e3o e o faz por causa da for\u00e7a imaginativa da pr\u00f3pria exist\u00eancia e da vida. Isto \u00e9, a no\u00e7\u00e3o de objetividade assume o significado e deslocamento de perspectivas. Nietzsche em <em>Sobre verdade e mentira no sentido extramoral <\/em>sobre este aspecto, diz:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>As verdades s\u00e3o ilus\u00f5es cuja origem est\u00e1 esquecida, met\u00e1foras que foram usadas e que perderam a sua for\u00e7a sens\u00edvel, moedas nas quais se apagou a impress\u00e3o e que desde agora n\u00e3o s\u00e3o mais consideradas como moedas de valor, mas como metal (NIETZSCHE, Apud, SANTOS, 2010, p.2).<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>J\u00e1 no campo moral, segundo a perspectiva nietzscheana, esta n\u00e3o possui fundamentos absolutos. Em qualquer proposta moral sob uma pretens\u00e3o de validade absoluta e incondicional, h\u00e1 sempre uma parcialidade, uma perspectiva que suprime as condi\u00e7\u00f5es reais de exist\u00eancia como um devir e legitima uma forma de exclus\u00e3o ajuizada pelos preconceitos de bom e mau. Verdadeiro ou falso n\u00e3o est\u00e3o no fundamento do pensamento, s\u00e3o o decl\u00ednio de forma\u00e7\u00f5es de dom\u00ednio e que configuram os indiv\u00edduos e as sociedades. Ent\u00e3o, prossegue Giacoia:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>A autonomia para Nietzsche, \u00e9 um conceito que deve ser entendido em perspectiva hist\u00f3rica e geneal\u00f3gica: como um vir a ser da capacidade (ou poder) humano de autodetermina\u00e7\u00e3o, como uma forma\u00e7\u00e3o tardia da consci\u00eancia moral, fruto de um desenvolvimento que parte da pr\u00e9-hist\u00f3ria do homin\u00eddeo pulsional at\u00e9 alcan\u00e7ar, com o dom\u00ednio \u00e9tico do animal pol\u00edtico, a pot\u00eancia de responsabilizar-se por si e pelo futuro (2013, p.2).<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Se por um lado esse aspecto das duas linhas de pensamento se op\u00f5e. De outro, Giacoia revela cogitar certa \u201cequival\u00eancia\u201d entre sujeito kantiano e o nietzschiano:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>Est\u00e1 sempre em situa\u00e7\u00e3o; isso significa que desde sempre se encontra imerso no interior de condicionamentos de diferentes ordens, mas age sob a perspectiva de um como se: como se fosse efetivamente livre, sob a perspectiva do imperativo categ\u00f3rico; como se o instante presente retornasse eternamente, ou seja sub <em>specie aeternitatis<\/em>, para Nietzsche ( 2013, p.2).<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Finalmente, o pensamento kantiano se estabelece sobre uma moral \u201cem si\u201d, uma moral geral que se enra\u00edza na raz\u00e3o comum aos seres e que, por isso, s\u00e3o capazes de uma moral universal e cujos \u201cvalores supremos exprimem a ess\u00eancia e a validade de toda moral racional\u201d. Entretanto, essa afirma\u00e7\u00e3o n\u00e3o se sustenta na medida que a moralidade \u00e9 \u201cmoralidade de sua pr\u00f3pria cultura e hist\u00f3ria de forma\u00e7\u00e3o. Fundamentar a moral implica, portanto, em transformar uma moral em absoluta, em detrimento de muitas outras morais, historicamente existentes ou poss\u00edveis\u201d (GIACOIA.2013, p. 3), nisto se expressa a for\u00e7a da cr\u00edtica de Nietzsche.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Refer\u00eancias:<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>BILATE, D., Nietzsche<em>x Kant <\/em>de Oswaldo Giacoia Jr. In: <em>Revista Tr\u00e1gica: estudos sobre Nietzsche <\/em>\u2013 2\u00ba semestre de 2012 \u2013 Vol. 5 \u2013 n\u00ba 2. pp. 111-113.UFRJ. Dispon\u00edvel em:&lt;<a href=\"https:\/\/revistas.ufrj.br\/index.php\/tragica\/article\/view\/26910\/14694\">https:\/\/revistas.ufrj.br\/index.php\/tragica\/article\/view\/26910\/14694<\/a>&gt; Consulta em: 12\/06\/2020.<\/p>\n\n\n\n<p>CHAGAS, Fl\u00e1via Carvalho. <em>Normatividade moral?<\/em> Studia Kantiana, Pelotas, v.11, n.15, p. 121-134, dez. 2013. Dispon\u00edvel em: &lt;http:\/\/www.sociedadekant.org\/studiakantiana\/index.php\/sk\/article\/view\/151\/146&gt;. Acesso em: 26 de nov. 2019.<\/p>\n\n\n\n<p>GIACOIA JR., O. Kant e Nietzsche e a autodetermina\u00e7\u00e3o como fundamento da autonomia. In: <em>REVISTA IHU ON-LINE<\/em>, edi\u00e7\u00e3o 417, 06\/05\/2013. Dispon\u00edvel em: &lt; <a href=\"http:\/\/www.ihuonline.unisinos.br\/artigo\/4944-oswaldo-giacoia-4\">http:\/\/www.ihuonline.unisinos.br\/artigo\/4944-oswaldo-giacoia-4<\/a>&gt;. Acesso em: 13\/06\/2020.<\/p>\n\n\n\n<p>GUYER, Paul (Org.). <em>Kant.<\/em> Aparecida, SP: Ideias &amp; Letras, 2009.<\/p>\n\n\n\n<p>HESSEN, Johannes. <em>Teoria do conhecimento<\/em>. 8. ed. Lisboa: Arm\u00e9nio Amado, 1987.<\/p>\n\n\n\n<p>KANT, Immanuel. <em>Fundamenta\u00e7\u00e3o da Metaf\u00edsica dos Costumes<\/em>. In: _______________. <em>Textos selecionados<\/em>. Tradu\u00e7\u00e3o Paulo Quintela<em>.<\/em> S\u00e3o Paulo, SP: Abril Cultural, 1980, p. 101-162.<\/p>\n\n\n\n<p>KANT, Immanuel. <em>Resposta \u00e0 pergunta: Que \u00e9 o \u201cEsclarecimento\u201d?<\/em> In: _______________. Textos seletos. Tradu\u00e7\u00e3o de Raimundo Vier e Floriano de Souza Fernandes. 2. ed. Petr\u00f3polis, RJ: Vozes, 1985, p. 100-116.<\/p>\n\n\n\n<p>LEFARNC, J. <em>Compreender Nietzsche<\/em>. Tradu\u00e7\u00e3o: L\u00facia M. E. Orth. Petr\u00f3polis: Vozes, 2005.<\/p>\n\n\n\n<p>NIETZSCHE, F. <em>A Gaia Ci\u00eancia, <\/em>Tradu\u00e7\u00e3o: Ant\u00f4nio Carlos Braga. S\u00e3o Paulo: Escala, 2006.<\/p>\n\n\n\n<p>PASCAL, Georges. <em>O pensamento de Kant<\/em>. 3. ed. Petr\u00f3polis, RJ: Vozes, 1990.<\/p>\n\n\n\n<p>REALE, Giovanni; ANTISERI, D\u00e1rio. <em>Hist\u00f3ria da Filosofia: do humanismo a Descartes<\/em>, v. 3. Tradu\u00e7\u00e3o Ivo Storniolo. S\u00e3o Paulo: Paulus, 2004.<\/p>\n\n\n\n<p>SALGADO, Joaquim Carlos. <em>A ideia de justi\u00e7a em Kant: fundamento na liberdade e igualdade<\/em>. Belo Horizonte, Editora UFMG, 1995.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator\"\/>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref1\">[1]<\/a> <em>Fundamenta\u00e7\u00e3o da Metaf\u00edsica dos<\/em> Costumes, obra publicada por Immanuel Kant em 1785 e que ser\u00e1 referida no texto com a sigla FMC.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref2\">[2]<\/a> Doutor em Filosofia pela UFRJ e pela Universit\u00e9 de Paris I. Rio de Janeiro, RJ, Brasil. Contato:danilobilate@yahoo.com.br<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Mois\u00e9s Galinari T\u00f4rres Pedro Henrique S. Martins Introdu\u00e7\u00e3o Dentre as pertinentes reflex\u00f5es ao longo da hist\u00f3ria da filosofia, uma delas, sem d\u00favidas, trata-se da reflex\u00e3o \u00e9tica, isto \u00e9, no modo como o homem se comporta dentro de uma determinada sociedade. 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