{"id":2818,"date":"2021-04-17T14:53:42","date_gmt":"2021-04-17T17:53:42","guid":{"rendered":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/?p=2818"},"modified":"2021-04-17T14:58:52","modified_gmt":"2021-04-17T17:58:52","slug":"a-contribuicao-do-metodo-cartesiano-para-a-filosofia-moderna","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/?p=2818","title":{"rendered":"A CONTRIBUI\u00c7\u00c3O DO M\u00c9TODO CARTESIANO  PARA A FILOSOFIA MODERNA"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-text-align-right\">Bruno Diego Garcia<a href=\"#_ftn1\"><sup>[1]<\/sup><\/a><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Resumo: <\/strong>Descartes \u00e9 um nome de grande relev\u00e2ncia para a filosofia moderna, principalmente pela preocupa\u00e7\u00e3o com a edifica\u00e7\u00e3o de um m\u00e9todo cient\u00edfico capaz de oferecer clareza e distin\u00e7\u00e3o para os processos de conhecimento. Seu m\u00e9todo postula fundamentos para a raz\u00e3o humana que permitem desenvolver uma filosofia capaz de atingir um conhecimento de mundo mais eficiente. O presente artigo visa apresentar os significados e a contribui\u00e7\u00e3o do m\u00e9todo cartesiano para a fundamenta\u00e7\u00e3o de um conhecimento seguro, mediante o uso da raz\u00e3o. Para atingir tal escopo, propomos investigar como o m\u00e9todo cartesiano foi desenvolvido, analisando o valor da d\u00favida, a significativa import\u00e2ncia que ganhou no pensamento filos\u00f3fico da modernidade e suas principais consequ\u00eancias.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Palavras-chave: <\/strong>Descartes, D\u00favida, M\u00e9todo Cartesiano, Filosofia Moderna.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><strong>Introdu\u00e7\u00e3o<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p>A filosofia, enquanto ci\u00eancia que estabelece amizade entre o homem e o saber, sempre colocou em relevo a preocupa\u00e7\u00e3o com as possibilidades do conhecimento humano como um marco fundante e estruturante. Podemos identificar que, desde os primeiros pensadores gregos, os dilemas do conhecimento foram sendo colocados em quest\u00e3o. Igualmente, a modernidade n\u00e3o se isenta desta preocupa\u00e7\u00e3o, mas, pelo contr\u00e1rio, \u00e9 considerada um per\u00edodo profundamente marcado pela valoriza\u00e7\u00e3o da raz\u00e3o humana. N\u00e3o foram poucos aqueles que se dedicaram a estabelecer par\u00e2metros que assegurassem os processos cognitivos, estabelecendo, inclusive, uma nova compreens\u00e3o de mundo na qual o sujeito, por sua racionalidade, torna-se capaz de ordenar o mundo e manipul\u00e1-lo para seu pr\u00f3prio benef\u00edcio.<\/p>\n\n\n\n<p>Neste sentido, a obra de Ren\u00e9 Descartes (1596-1650) \u00e9 uma passagem obrigat\u00f3ria para que possamos entender como se d\u00e1 esta nova vis\u00e3o de mundo e as profundas transforma\u00e7\u00f5es oriundas dos avan\u00e7os da ci\u00eancia a partir da modernidade. Faz-se necess\u00e1rio destacar que essas transforma\u00e7\u00f5es t\u00eam seus fundamentos lan\u00e7ados j\u00e1 na revolu\u00e7\u00e3o copernicana<a href=\"#_ftn2\"><sup>[2]<\/sup><\/a> que, ao propor uma nova organiza\u00e7\u00e3o dos corpos celestes, proporcionou um processo gradual de mudan\u00e7as que desembocar\u00e1 numa pr\u00e1tica cient\u00edfica regulada por m\u00e9todos e instrumentos cada vez mais exatos e precisos.&nbsp; \u201cO resultado do processo cultural chamado revolu\u00e7\u00e3o cient\u00edfica \u00e9 uma nova imagem do mundo, que entre outras coisas levanta quest\u00f5es religiosas e antropol\u00f3gicas importantes; \u00e9 ao mesmo tempo a proposta de uma nova imagem de ci\u00eancia: aut\u00f4noma, p\u00fablica, control\u00e1vel e progressiva\u201d (REALE, 2017, p.147).<\/p>\n\n\n\n<p>No entanto, mudan\u00e7as t\u00e3o significativas n\u00e3o se solidificam de uma hora para outra, pelo contr\u00e1rio, elas exigem tempo e amadurecimento. \u00c9 bastante claro que a revolu\u00e7\u00e3o iniciada por Cop\u00e9rnico, aos poucos, foi tornando-se capaz de converter a j\u00e1 consolidada vis\u00e3o metaf\u00edsica de mundo<a href=\"#_ftn3\" data-type=\"internal\" data-id=\"#_ftn3\"><sup>[3]<\/sup><\/a>, gerando uma afirma\u00e7\u00e3o da autoridade da ci\u00eancia em detrimento da autoridade eclesial, vigorante at\u00e9 ant\u00e3o. O progressivo interesse na raz\u00e3o \u00e9 uma consequ\u00eancia direta desta revolu\u00e7\u00e3o que engloba o saber filos\u00f3fico independentemente da teologia, hiper estimada na idade m\u00e9dia. O que comp\u00f4s um cen\u00e1rio em que se evidenciam as possibilidades do conhecimento humano, a forma como se pode alcan\u00e7ar tais conhecimentos e tamb\u00e9m o que se deve fazer para que este n\u00e3o seja v\u00e3o, impreciso ou incerto. Em meio a este contexto de intenso movimento intelectual de afirma\u00e7\u00e3o de um novo modo de pensar encontra-se a filosofia cartesiana.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><strong>A trajet\u00f3ria de Ren\u00e9 Descartes<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p>De fam\u00edlia nobre, o franc\u00eas Ren\u00e9 Descartes contou com uma s\u00f3lida forma\u00e7\u00e3o n\u00e3o s\u00f3 por ter sido educado na La Fl\u00e8che, uma das principais escolas da sua \u00e9poca, mas, principalmente, por seu gosto e empenho intelectual. Apesar de profundamente dedicado \u00e0 matem\u00e1tica, \u00e0s leituras de grandes fil\u00f3sofos e \u00e0 teologia, Descartes n\u00e3o se contentou com o que lhe foi apresentado pela <em>ratio studiorum<\/em><a href=\"#_ftn4\"><sup><sup>[4]<\/sup><\/sup><\/a>, pois, ele identificara haver uma disson\u00e2ncia entre o que lhe era ensinado e a efervesc\u00eancia cient\u00edfico-filos\u00f3fica de seu contexto. Disson\u00e2ncia esta que lhe gerou uma grande confus\u00e3o, ao ponto de faz\u00ea-lo cair em uma profunda crise. Em sua obra <em>Discurso do M\u00e9todo<\/em>, publicada originalmente em 1637, ele relata algumas das incertezas que o invadiram nesse per\u00edodo. Diz ele: \u201cEncontrei-me t\u00e3o perdido entre tantas d\u00favidas e erros que me parecia que, ao procurar me instruir, n\u00e3o alcan\u00e7ara outro proveito que o de ter descoberto cada vez mais a minha ignor\u00e2ncia\u201d (DESCARTES, 1996, p.8).<\/p>\n\n\n\n<p>As inquieta\u00e7\u00f5es de Descartes partem da dificuldade de se encontrar seguran\u00e7a nos moldes de fazer ci\u00eancia, tanto no \u00e2mbito das exatas, como em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 especula\u00e7\u00e3o filos\u00f3fica e tamb\u00e9m no que se refere \u00e0s demais ci\u00eancias. Para ele, toda dedica\u00e7\u00e3o empregada nos estudos n\u00e3o havia sido suficiente para encontrar uma base sob a qual pudesse edificar, como que em pilares concretos, o conhecimento. Mas, o fato de sentir-se perdido, envolto na pr\u00f3pria ignor\u00e2ncia, n\u00e3o foi uma barreira intranspon\u00edvel. Sua crise tornou-se uma ponte pela qual p\u00f4de alcan\u00e7ar novas perspectivas e estabelecer novos horizontes para nortear sua empreitada filos\u00f3fico-cient\u00edfica.<\/p>\n\n\n\n<p>Descartes compreendia que era preciso estabelecer par\u00e2metros que servissem de garantia para os esfor\u00e7os acad\u00eamicos e tal par\u00e2metro n\u00e3o poderia ter outra fonte, sen\u00e3o a pr\u00f3pria raz\u00e3o:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>E assim pensei que as ci\u00eancias dos livros, pelo menos aquelas cujas raz\u00f5es s\u00e3o apenas prov\u00e1veis, e que n\u00e3o t\u00eam nenhuma demonstra\u00e7\u00e3o, sendo compostas e aumentadas pouco a pouco pelas opini\u00f5es de muitas pessoas diferentes, n\u00e3o se aproximam tanto da verdade quanto os simples racioc\u00ednios que um homem de bom senso pode fazer naturalmente sobre as coisas que se lhe apresentam. [&#8230;] \u00e9 quase imposs\u00edvel que nossos ju\u00edzos sejam t\u00e3o puros e t\u00e3o s\u00f3lidos como teriam sido se tiv\u00e9ssemos tido inteiro uso de nossa raz\u00e3o desde a hora de nosso nascimento, e se tiv\u00e9ssemos sido conduzidos sempre por ela (DESCARTES. 1996, p. 17).<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>N\u00e3o podemos deixar de ressaltar a importante contribui\u00e7\u00e3o de algumas viagens que o franc\u00eas realizou pela Europa para fortalecer sua cren\u00e7a na racionalidade. Exemplo desta peregrina\u00e7\u00e3o pelo velho continente tamb\u00e9m pode ser encontrado no <em>Discurso do M\u00e9todo<\/em>, no qual o autor descreve sua passagem pela Alemanha: \u201cFicava o dia inteiro sozinho fechado num quarto aquecido, onde tinha bastante tempo dispon\u00edvel para entreter-me com meus pensamentos\u201d (DESCARTES, 1996, p.15). Tamb\u00e9m de grande import\u00e2ncia foi sua estadia na Holanda<a href=\"#_ftn5\"><sup>[5]<\/sup><\/a>, local em que se estabeleceu por alguns anos e produziu algumas de suas obras, como, por exemplo, <em>Os Princ\u00edpios de Filosofia<\/em> e <em>As Paix\u00f5es da Alma<\/em>, \u00faltima escrita em Amsterd\u00e3.<\/p>\n\n\n\n<p>De fato, o percurso trilhado por Ren\u00e9 Descartes \u00e9 marcado pelo desencantamento, pois, aqueles conhecimentos que lhe eram apresentados como bastante s\u00f3lidos foram, aos poucos, se revelando carentes e deficit\u00e1rios. Seu per\u00edodo de crise evidenciou a necessidade de se construir uma filosofia que justificasse a confian\u00e7a na raz\u00e3o. Ele entendia que a busca pela verdade se imp\u00f5e como um dever inerente \u00e0 pr\u00f3pria realidade do homem, o qual possui por natureza uma intelig\u00eancia ansiosa pelo que \u00e9 verdadeiro, justo e bom. Seguindo essa intui\u00e7\u00e3o, Descartes admite que os erros s\u00e3o frutos de mal uso da faculdade intelectiva presente em n\u00f3s, sendo estes um sinal de ignor\u00e2ncia, como explica Miguel Spinelli (2013, p.261): \u201cNada, portanto, h\u00e1 em n\u00f3s que nos fa\u00e7a errar ou que nos induza naturalmente ao erro. Erramos na tentativa de acetar, e isto denuncia que os erros n\u00e3o s\u00e3o rigorosamente erros, mas ignor\u00e2ncia\u201d. Assim, se o homem procura naturalmente o conhecimento do que \u00e9 verdadeiro, e se o erro \u00e9 o resultado do mal uso da raz\u00e3o, \u00e9 fundamental assumir uma postura cautelosa em rela\u00e7\u00e3o aos conte\u00fados que nos s\u00e3o dados antes de, precipitadamente, assumi-los como verdadeiros ou neg\u00e1-los.<\/p>\n\n\n\n<p>Tamb\u00e9m merece relevo o fato de que Descartes n\u00e3o fazia separa\u00e7\u00e3o entre filosofia e ci\u00eancia, entendendo que os meios a serem utilizados para uma ou outra deviam ser precisos. Isso nos permite afirmar que seu desejo n\u00e3o era p\u00f4r em xeque este ou aquele saber, mas, delimitar quais os meios que proporcionam fundamentos s\u00f3lidos para n\u00e3o incorrer em equ\u00edvocos. Era preciso clarificar como se atinge, com distin\u00e7\u00e3o precisa e sem dogmatismos ing\u00eanuos, os conhecimentos das realidades, sejam elas quais forem. Mais do que isso, era preciso duvidar para ir \u00e0s ra\u00edzes do saber. A d\u00favida permitiria dar \u00e0 sua pr\u00e1tica filos\u00f3fica a preserva\u00e7\u00e3o do princ\u00edpio de universalidade em busca da verdade e do conhecimento aut\u00eantico, estabelecendo por meio dela \u201co verdadeiro m\u00e9todo para chegar ao conhecimento de todas as coisas de que o esp\u00edrito seria capaz\u201d (DESCARTES, 1996, p.21).<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><strong>D\u00favida: da crise \u00e0 utiliza\u00e7\u00e3o metodol\u00f3gica<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p>A d\u00favida apresentar-se-\u00e1 a Descartes como uma porta de sa\u00edda para o \u00eaxodo desta crise quanto \u00e0 car\u00eancia de m\u00e9todos. Para ele, duvidar era o primeiro e derradeiro passo em dire\u00e7\u00e3o a um saber puro e l\u00edmpido, pois, a d\u00favida n\u00e3o \u00e9, de modo algum, negativa ou negacionista. O apontamento cartesiano para a d\u00favida n\u00e3o se dirige \u00e0 d\u00favida c\u00e9tica, mas sim ao uso da d\u00favida de forma volunt\u00e1ria, met\u00f3dica, l\u00f3gica e hiperb\u00f3lica. Ele cultiva a d\u00favida de modo que, fazendo uso dela, se pode refutar o ceticismo sem que seja necess\u00e1rio atac\u00e1-lo. \u201cEle se empenha, isto sim, em edificar o saber, n\u00e3o em neg\u00e1-lo; afinal, como ele admite, conhecer \u00e9 perfei\u00e7\u00e3o maior que duvidar\u201d. (SPINELLI, 2013, p.265)<\/p>\n\n\n\n<p>Assim, a fun\u00e7\u00e3o da d\u00favida \u00e9, sobretudo, positiva e racional, de modo que colocar em quest\u00e3o at\u00e9 mesmo os conhecimentos que podem ser considerados, em primeiro momento, como b\u00e1sicos e \u00f3bvios \u00e9 o \u00fanico meio de comprovar se de fato o s\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>Adianto as raz\u00f5es pelas quais podemos duvidar geralmente de todas as coisas, e particularmente das coisas materiais, pelo menos enquanto n\u00e3o tivermos outros fundamentos nas ci\u00eancias al\u00e9m dos que tivemos at\u00e9 o presente. Ora, se bem que a utilidade de uma d\u00favida t\u00e3o geral n\u00e3o se revele desde o in\u00edcio, ela \u00e9, todavia, nisso muito grande, porque nos liberta de toda sorte de preju\u00edzos e nos prepara um caminho muito f\u00e1cil para acostumar nosso esp\u00edrito a desligar-se dos sentidos (DESCARTES, 1979, p. 79).<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Como se v\u00ea, a forma como Descartes emprega a d\u00favida n\u00e3o \u00e9 uma mera nega\u00e7\u00e3o c\u00e9tica da possibilidade de conhecimento, mas, ao inv\u00e9s, \u00e9 uma passagem obrigat\u00f3ria que conduz \u00e0 verdade. Ou seja, a utiliza\u00e7\u00e3o met\u00f3dica da d\u00favida \u00e9 uma passagem, que mesmo sendo obrigat\u00f3ria, \u00e9 apenas provis\u00f3ria. Trata-se de olhar a d\u00favida como um fruto da decis\u00e3o de colocar em quest\u00e3o o conhecimento. Nada possui uma certeza inquestion\u00e1vel, pois, todas as coisas as quais nos s\u00e3o apresentadas e podemos ter algum conhecimento s\u00e3o sempre pass\u00edveis de d\u00favida que, por sua vez, deve ser generalizada e levada ao seu extremo.<\/p>\n\n\n\n<p>Para justificar que a d\u00favida \u00e9 fundamentalmente necess\u00e1ria para um processo de conhecimento seguro, Descartes apresenta, na obra <em>Medita\u00e7\u00f5es, <\/em>quatro argumentos que ilustram as etapas da d\u00favida, a saber: o argumento do erro dos sentidos, do sonho, do Deus enganador e do g\u00eanio maligno. Inicialmente, ele indica que se os sentidos, por vezes, trazerem alguns conhecimentos destorcidos ou enganosos, o que \u00e9 um empecilho para fornecer ao homem relatos ver\u00eddicos e precisos, sobre o mundo. Essa ideia pode ser levada para a compreens\u00e3o do segundo argumento, uma vez que, se o conhecimento alcan\u00e7ado pelos sentidos n\u00e3o pode ser caracterizado com precis\u00e3o, tamb\u00e9m n\u00e3o se pode diferenciar o estado de vig\u00edlia e o de sono, tornando-se imposs\u00edvel qualquer saber claro sobre o mundo.<\/p>\n\n\n\n<p>J\u00e1 o terceiro argumento amplia a d\u00favida ao valor objetivo da verdade das ci\u00eancias. Ele apresenta a d\u00favida sob o prisma metaf\u00edsico, propondo a pergunta se o Deus criador \u00e9 tamb\u00e9m o postulador das cren\u00e7as sobre o mundo, o que deixaria o conhecimento a merc\u00ea de engano. Por fim, semelhante a este, o \u00faltimo argumento desloca a d\u00favida metaf\u00edsica para o \u00e2mbito psicol\u00f3gico, levando a quest\u00e3o para a interioridade do homem, perguntando-se: Ser\u00e1 que n\u00e3o existe em n\u00f3s um g\u00eanio maligno que constantemente nos est\u00e1 a enganar?<\/p>\n\n\n\n<p>Assim, ao estabelecer a d\u00favida metodol\u00f3gica como ponto de partida para a produ\u00e7\u00e3o intelectual, a proposta cartesiana comprova que as inquieta\u00e7\u00f5es s\u00e3o um terreno fecundo para o florescer da raz\u00e3o. Este terreno, no entanto, deve ser enriquecido com a evid\u00eancia, a an\u00e1lise, a ordena\u00e7\u00e3o e a enumera\u00e7\u00e3o, como apontam as regras de seu m\u00e9todo, que mesmo sendo simples e f\u00e1ceis podem produzir dif\u00edceis demonstra\u00e7\u00f5es. Portanto, a d\u00favida conclama a import\u00e2ncia da an\u00e1lise como premissa essencial para o conhecimento, como se v\u00ea no m\u00e9todo proposto por Descartes.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><strong>As caracter\u00edsticas e contribui\u00e7\u00f5es do m\u00e9todo cartesiano<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p>Pretendendo uma forma de imunidade contra os dogmatismos, as regras que encontramos em seu m\u00e9todo postulam fundamentos para a raz\u00e3o humana que permitem desenvolver uma filosofia fazendo uso da d\u00favida como motor para erguer um sistema especulativo e qualitativo capaz de conhecer o mundo de forma mais eficiente. Descartes quer oferecer regras assertivas, de modo que, ao segui-las com precis\u00e3o, tornar-se-ia quase imposs\u00edvel tomar como verdadeiro algo que seja falso. As quatro regras do m\u00e9todo cartesiano (DESCARTES, 1996, p.23) comprovam que n\u00e3o h\u00e1 nada de t\u00e3o distante que n\u00e3o se possa alcan\u00e7ar, como tamb\u00e9m n\u00e3o h\u00e1 algo t\u00e3o oculto que se n\u00e3o possa descobrir. O professor Fl\u00e1vio Williges oferecer uma chave de leitura para bem compreendermos como o m\u00e9todo cartesiano torna-se eficaz para fundar as possibilidades do conhecimento:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>O m\u00e9todo de an\u00e1lise \u201cprepara\u201d a descoberta das verdades atrav\u00e9s de mecanismos como a exposi\u00e7\u00e3o gradual, a introdu\u00e7\u00e3o de informa\u00e7\u00f5es que permitir\u00e3o realizar infer\u00eancias que conduzir\u00e3o ao descobrimento de novas verdades e a recursividade ou retomada dos resultados obtidos antes de ingressar em cada novo est\u00e1gio do percurso investigativo (WILLIGES, 2007, p.107).<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Compreende-se ent\u00e3o que, como primeiro passo para se atingir a seguran\u00e7a gnosiol\u00f3gica, deve-se assumir a d\u00favida em rela\u00e7\u00e3o a quaisquer certezas, pois, como aponta a primeira regra do m\u00e9todo, n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel que nenhuma coisa seja aceita como verdadeira sem que se possa reconhec\u00ea-la como tal. Essa premissa assegura o rigor na pesquisa, evitando precipita\u00e7\u00f5es de ju\u00edzos, al\u00e9m de proporcionar que as formas de conhecimento sejam colocadas \u00e0 prova. \u201cMais que uma regra este \u00e9 o princ\u00edpio fundamental, justamente porque tudo deve convergir para a clareza e a distin\u00e7\u00e3o, na qual justamente se soluciona a evid\u00eancia\u201d (REALE, 2017, p.285).<\/p>\n\n\n\n<p>Nesse sentido, o segundo passo \u00e9 dispor as dificuldades em inst\u00e2ncias menores, para que, divididas, elas possam ser examinadas em cada um de seus pontos de incerteza e, assim, mais facilmente serem colocadas \u00e0s claras para que sejam solucionados os poss\u00edveis pontos de tens\u00e3o. Este \u00e9 o princ\u00edpio pelo qual se colocam em voga todas as nuances e facetas poss\u00edveis do objeto de an\u00e1lise, ao desarticular sua complexidade em part\u00edculas mais simples. Por esta regras as generaliza\u00e7\u00f5es s\u00e3o exterminadas, uma vez que as partes simples se tornam t\u00e3o claras e evidentes que n\u00e3o podem ser outra coisa sen\u00e3o o que s\u00e3o em detrimento de quaisquer pretens\u00f5es presun\u00e7osas.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Na sequ\u00eancia, a terceira regra do m\u00e9todo convida-nos a ordenar os pensamentos de forma escalonada, segundo a ordem de dificuldade. Partindo das quest\u00f5es mais rasas e f\u00e1ceis \u00e9 poss\u00edvel, progressivamente, atingir as mais complexas e exigentes. Por isso da an\u00e1lise se segue \u00e0 s\u00edntese pela qual se vai recompondo a complexidade, criando uma cadeia l\u00f3gica de racioc\u00ednios sobre o objeto de estudo, j\u00e1 desmistificado. Por fim, Descartes aponta para a necessidade de se fazer enumera\u00e7\u00f5es e revis\u00f5es completas e abrangentes. \u201cEnumera\u00e7\u00e3o, portanto, e revis\u00e3o: a primeira controla a completude da an\u00e1lise; a segunda, a retid\u00e3o da s\u00edntese\u201d (REALE, 2017, p. 287). Este quarto princ\u00edpio d\u00e1 seguran\u00e7a \u00e0 pesquisa, pois, confirma que todos os pontos desejados foram comtemplados e evita, ao m\u00e1ximo, deixar algo sem a devida considera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>As regras que o m\u00e9todo nos apresenta, embora perfeitamente aplic\u00e1veis para o saber geom\u00e9trico, podem ser generalizadas, servindo como base para qualquer conhecimento. Nestes quatro passos Descartes procura estabelecer como \u00e9 poss\u00edvel atingir um conhecimento independentemente de condi\u00e7\u00f5es materiais e psicol\u00f3gicas, as quais poderiam exercer influ\u00eancia negativa no pensamento, como se comprovou nos argumentos das quarto etapas da d\u00favida. Seu m\u00e9todo fortalece o encontro com a verdade partindo da evid\u00eancia e n\u00e3o da decorr\u00eancia de condi\u00e7\u00f5es subjetivas. Para Descartes a subjetividade, enquanto contributo ao conhecimento, \u00e9 vista como lugar e fundamento do conhecimento e n\u00e3o sob o prisma hist\u00f3rico psicol\u00f3gico.<\/p>\n\n\n\n<p>Tal rigor expresso no m\u00e9todo cartesiano, mais que confirmar as preocupa\u00e7\u00f5es do pensador franc\u00eas, s\u00e3o a express\u00e3o de seu comprometimento com a pr\u00e1tica cient\u00edfica e, sobretudo, sua grande confian\u00e7a na raz\u00e3o, como ele mesmo afirmou: \u201cMas o que mais me contentava nesse m\u00e9todo era que por meio dele tinha a certeza de usar em tudo minha raz\u00e3o, se n\u00e3o perfeitamente, pelo menos da melhor forma em meu poder\u201d (DESCARTES. 1996, p. 26). O seu empenho metodol\u00f3gico revelou-se de forma t\u00e3o consolidada e firme que uma investiga\u00e7\u00e3o filos\u00f3fico-cient\u00edfica conduzida por ele dificilmente poderia ser abalada por cr\u00edticas e hip\u00f3teses que n\u00e3o al\u00e7am m\u00e3o de fundamentos semelhantes.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o podemos deixar de mencionar que o m\u00e9todo cartesiano traz, como consequ\u00eancia direta da eleva\u00e7\u00e3o da d\u00favida ao seu m\u00e1ximo, a afirma\u00e7\u00e3o do <em>cogito<\/em>. Quando levada ao extremo, a d\u00favida, parte essencial do m\u00e9todo Descartes, aponta para si mesma como uma certeza indubit\u00e1vel, isto \u00e9, comprova que se podemos duvidar de tudo n\u00e3o podemos duvidar que duvidamos. O encadeamento l\u00f3gico, nestes termos expresso, permite afirmar que se duvido, penso; o que leva ao entendimento do pensamento como evidencia do existir, pois, quem duvida, pensa e s\u00f3 quem pensa pode ter certeza de sua exist\u00eancia. Deste modo, se duvido penso e se penso existo: <em>cogito, ergo sum<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p>Para al\u00e9m de uma caracter\u00edstica resultante do m\u00e9todo, o <em>cogito<\/em> cartesiano apresentar-se-\u00e1 como \u00fanica certeza da qual n\u00e3o podem repousar quaisquer tipos de questionamentos, ao ponto de afirmar-se como centro orbital da compreens\u00e3o cartesiana do ser humano.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>Por que o cogito vem a ser uma retomada extrema do <em>conhece-te a ti mesmo<\/em>, e com um prop\u00f3sito bem definido: recuperar o indiv\u00edduo humano da tutela do divino, desconcentr\u00e1-lo das expectativas da transcend\u00eancia em favor do presente e de si mesmo, e do gerenciamento de sua liberdade e de seu destino (SPINELLI, 2013, p.276).<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>\u00c9 a partir desta certeza que Descartes consolida sua afirma\u00e7\u00e3o da raz\u00e3o humana, pois, o homem enquanto <em>res cogitans<\/em> \u00e9 pensamento e tem consci\u00eancia de si pela subjetividade de seu esp\u00edrito; mas tamb\u00e9m \u00e9 exterioridade no mundo, <em>res extensa<\/em>, atrav\u00e9s de seu corpo que, em rela\u00e7\u00e3o ao esp\u00edrito, funciona mecanicamente<a href=\"#_ftn6\"><sup>[6]<\/sup><\/a>. O que nos permite afirmar que o homem, segundo a concep\u00e7\u00e3o cartesiana, \u00e9 essencialmente pensamento, ainda que sejam consideradas duas realidades componentes de seu ser. Afirma-se, assim, a sua preocupa\u00e7\u00e3o com a valoriza\u00e7\u00e3o da raz\u00e3o, j\u00e1 que o homem, irrenunciavelmente, \u00e9 uma realidade pensante, uma consci\u00eancia racional, pois, a raz\u00e3o possibilita o dom\u00ednio da natureza e a atividade cognitiva, como atividade propriamente humana. \u201cCompreendem-se muito melhor as raz\u00f5es que provam que a nossa raz\u00e3o \u00e9 de uma natureza inteiramente independente do corpo\u201d (DESCARTES, 1996, p.66).<\/p>\n\n\n\n<p>Assim, o <em>cogito<\/em> d\u00e1 a Descartes a possibilidade de fundamentar o puro pensamento, partindo-se da pureza da raz\u00e3o para atingir, consequentemente, uma fundamenta\u00e7\u00e3o do conhecimento humano. Tamb\u00e9m a no\u00e7\u00e3o de sujeito surge do cogito, pois, o pensamento revela o homem e \u00e9 o tra\u00e7o fundamental da sua exist\u00eancia, no qual se amparam todas as aquisi\u00e7\u00f5es intelectivas. Ou seja, para Descartes, o homem \u00e9, sobretudo, um ser pensante, evidenciando-se sua racionalidade em detrimento da dimens\u00e3o corporal. O que nos permite caracterizar essa afirma\u00e7\u00e3o cartesiana presente na principal linha de pensamento fundante da Modernidade: a autonomia do pensamento a pureza da raz\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><strong>Considera\u00e7\u00f5es finais<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p>O itiner\u00e1rio cartesiano \u00e9 inspirador n\u00e3o s\u00f3 por sua dedica\u00e7\u00e3o e seu empenho em estabelecer um m\u00e9todo forte o suficiente para assegurar os processos do conhecimento. Seu compromisso de universalidade, expresso na simplicidade das regras propostas, ultrapassa os limiares da filosofia e atingem com maestria outras \u00e1reas do saber. Nesse sentido, podemos perceber que o fil\u00f3sofo franc\u00eas deixou um legado n\u00e3o s\u00f3 para a modernidade como para toda a ci\u00eancia e para a afirma\u00e7\u00e3o da exist\u00eancia partindo do ato de duvidar que, de modo algum, \u00e9 uma barreira para o conhecimento.<\/p>\n\n\n\n<p>A d\u00favida conduziu Descartes \u00e0 compreens\u00e3o do pensamento como ind\u00edcio preciso da exist\u00eancia. Por sua obra \u00e9 poss\u00edvel inferir que a raz\u00e3o empregada na reflex\u00e3o \u00e9 o caminho pr\u00f3prio para se chegar ao conhecimento, sem a necessidade de amparar-se em muletas dogm\u00e1ticas. \u00c9 not\u00f3rio perceber ainda que suas preocupa\u00e7\u00f5es o levaram \u00e0 d\u00favida e, partindo da d\u00favida, permitiram que ele estabelecesse um m\u00e9todo capaz de assegurar o rigor metodol\u00f3gico e a confian\u00e7a na racionalidade de suas pesquisas. Sua produ\u00e7\u00e3o d\u00e1 bastante \u00eanfase ao homem como aquele que pode, de maneira amadurecida e livre de quaisquer tutelas dogm\u00e1ticas, cultivar sua raz\u00e3o para al\u00e9m de convic\u00e7\u00f5es fracas que s\u00e3o mancas e requerem sempre apoios externos.<\/p>\n\n\n\n<p>O movimento proposto por Descartes \u00e9 um movimento de afirma\u00e7\u00e3o do ser racional do homem que, em pot\u00eancia, supera as precariedades vigentes at\u00e9 ent\u00e3o e trazem em relevo a utiliza\u00e7\u00e3o da d\u00favida como ponto de apoio em vez de simples nega\u00e7\u00e3o ou cr\u00edtica. Portanto, podemos intuir, em tom de conclus\u00e3o, que a preocupa\u00e7\u00e3o cartesiana com o conhecimento acabou por tornar-se o seu principal contributo \u00e0 filosofia moderna e \u00e0s formas de fazer ci\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p>DESCARTES, Ren\u00e9. <em>Discurso do m\u00e9todo.<\/em> Tradu\u00e7\u00e3o Maria Ermantina Galv\u00e3o. S\u00e3o Paulo: Martins Fontes, 1996.<\/p>\n\n\n\n<p>______. Medita\u00e7\u00f5es. In<em>. Os pensadores:<\/em> <em>DESCARTES<\/em>. Tradu\u00e7\u00e3o J. Guinsburg e Bento Prado J\u00fanior. 2.ed. S\u00e3o Paulo: Abril Cultural, 1979.<\/p>\n\n\n\n<p>MARCONDES, Danilo. <em>Inicia\u00e7\u00e3o \u00e0 Hist\u00f3ria da filosofia: <\/em>dos pr\u00e9-socr\u00e1ticos a Wittgenstein. 7. ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2002.<\/p>\n\n\n\n<p>REALE, Giovanni: ANTISERI, Dario. <em>Filosofia:<\/em> Idade Moderna, v. 2. Tradu\u00e7\u00e3o Jos\u00e9 Bortolini. S\u00e3o Paulo: Paulus, 2017.<\/p>\n\n\n\n<p>SPINELLI, Miguel. <em>Bacon, Galileu e Descartes<\/em>: o renascimento da filosofia grega. S\u00e3o Paulo: Edi\u00e7\u00f5es Loyola, 2013.<\/p>\n\n\n\n<p>WILLIGES, Fl\u00e1vio. A Fun\u00e7\u00e3o das D\u00favidas C\u00e9ticas nas Medita\u00e7\u00f5es de Descartes. <em>Doispontos, <\/em>Curitiba; S\u00e3o Carlos: v. 4, n. 2, p. 103-118, out. 2007.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator\"\/>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref1\">[1]<\/a> Bacharelando em Filosofia pela FDLM.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref2\"><sup>[2]<\/sup><\/a> A teoria copernicana n\u00e3o \u00e9 revolucion\u00e1ria apenas por colocar o sol no centro do universo, quebrando os paradigmas geoc\u00eantricos, mas, sua revolu\u00e7\u00e3o consiste, principalmente, em oferecer os germes para a progressiva e radical mudan\u00e7a na forma de se fazer uma ci\u00eancia aut\u00f4noma, comprometida exclusivamente com o saber. &nbsp;(REALE, 2017, p.174-177).<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref3\">[3]<\/a> Esta nova vis\u00e3o da ci\u00eancia busca torn\u00e1-la cada vez mais aut\u00f4noma de quaisquer tutelas: \u201cA Ci\u00eancia Ativa moderna rompe com a separa\u00e7\u00e3o antiga entre a ci\u00eancia (<em>episteme<\/em>), o saber te\u00f3rico, e a t\u00e9cnica (<em>t\u00e9chne<\/em>), o saber aplicado, integrado a ci\u00eancia e a t\u00e9cnica e fazendo com que problemas pr\u00e1ticos no campo da t\u00e9cnica levem a desenvolvimentos cient\u00edficos, bem como com que hip\u00f3teses te\u00f3ricas sejam testadas na pr\u00e1tica, a partir de sua aplica\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica\u201d (MARCONDES, 2002, p. 151).<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref4\"><sup>[4]<\/sup><\/a> A <em>ratio studiorum<\/em> do tempo de Descartes compreendia um programa de ensino no qual tr\u00eas anos eram dedicados aos estudos de matem\u00e1tica e \u00e0 teologia, al\u00e9m de seis anos de estudos human\u00edsticos, que se englobavam obras e correntes dos principais pensadores da filosofia (REALE, 2017, p. 279).<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref5\"><sup>[5]<\/sup><\/a> \u00c9 na Holanda que Descartes se apaixona por Hel\u00e8ne Jans e tem sua filha Francine, que morreu muito cedo, aos cinco anos de idade. Parda que marcou profundamente a vida e o pensamento de Descartes, como, por exemplo, as reflex\u00f5es sobre a fragilidade da natureza humana (REALE, 2017, p. 279).<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref6\"><sup>[6]<\/sup><\/a> Descartes tem uma vis\u00e3o mecanicista do corpo, admitindo haver na dimens\u00e3o som\u00e1tica um automatismo funcional, ou seja, o corpo tem seu funcionamento estabelecido por ele pr\u00f3prio, \u00e0 sua maneira. Assim, \u00f3rg\u00e3os e fun\u00e7\u00f5es vitais s\u00e3o explic\u00e1veis sob par\u00e2metros mec\u00e2nico-matem\u00e1ticos, pois, s\u00e3o entendidos apenas como componentes meramente integrantes de uma m\u00e1quina que tem valor minimizado em rela\u00e7\u00e3o ao pensamento. \u201cCompreendem-se muito melhor as raz\u00f5es que provam que a nossa raz\u00e3o \u00e9 de uma natureza inteiramente independente do corpo e que, por conseguinte, n\u00e3o est\u00e1 sujeita a morrer com ele\u201d (DESCARTES, 1996, p.66).<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Bruno Diego Garcia[1] Resumo: Descartes \u00e9 um nome de grande relev\u00e2ncia para a filosofia moderna, principalmente pela preocupa\u00e7\u00e3o com a edifica\u00e7\u00e3o de um m\u00e9todo cient\u00edfico capaz de oferecer clareza e distin\u00e7\u00e3o para os processos de conhecimento. 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