{"id":2825,"date":"2021-04-17T15:34:04","date_gmt":"2021-04-17T18:34:04","guid":{"rendered":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/?p=2825"},"modified":"2021-04-17T15:39:51","modified_gmt":"2021-04-17T18:39:51","slug":"abaporu-a-arte-canibal-brasileira-na-dialetica-do-pensar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/?p=2825","title":{"rendered":"ABAPORU: A ARTE CANIBAL BRASILEIRA NA DIAL\u00c9TICA DO PENSAR"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-text-align-right\">Carlos Henrique e Karine de Souza<a href=\"#_ftn1\"><sup>[1]<\/sup><\/a><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Resumo: <\/strong>Este artigo tem por objetivo apresentar uma an\u00e1lise da obra Abaporu, de Tarsila do Amaral, compreendendo-a dentro do movimento do qual pertence, que \u00e9 o Modernismo. Por isso traz uma descri\u00e7\u00e3o da trajet\u00f3ria hist\u00f3rica da autora durante sua passagem pela Europa, ambiente em que teve o primeiro contato com a arte moderna. Conta tamb\u00e9m com uma breve abordagem da hist\u00f3ria do movimento no Brasil, enfatizando a contribui\u00e7\u00e3o da artista para o mesmo. \u00c9 dado, aqui neste artigo, uma aten\u00e7\u00e3o especial \u00e0 obra, Abaporu, na apresenta\u00e7\u00e3o de suas caracter\u00edsticas est\u00e9ticas, situando sua originalidade e import\u00e2ncia para a Arte Moderna Brasileira.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Palavras-Chave: <\/strong>Modernismo, Tarsila, Abaporu, Est\u00e9tica.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">1 <strong>Introdu\u00e7\u00e3o<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p>Tarsila do Amaral, come\u00e7a seus estudos art\u00edsticos em S\u00e3o Paulo, no entanto, vai para Paris e ingressa na academia Julian. Ao retornar a S\u00e3o Paulo em 1922, aproxima-se dos modernistas da \u00e9poca, a saber: Oswaldo de Andrade, Anita Malfatti e Menotti Del Pichia. Regressando ao Brasil, come\u00e7a suas viagens pelas cidades hist\u00f3ricas mineiras, embora sua primeira exposi\u00e7\u00e3o fosse em Paris. Em 1929, Tarsila exp\u00f5e sua arte no Rio de janeiro e S\u00e3o Paulo, e a partir desta exposi\u00e7\u00e3o come\u00e7a sua notoriedade ao p\u00fablico brasileiro. E uma de suas obras respons\u00e1veis por lhe proporcionar grande reconhecimento \u00e9 sem d\u00favidas o Abaporu.<\/p>\n\n\n\n<p>Ela \u00e9 uma arte um tanto quanto enigm\u00e1tica, e que toca aquele que a v\u00ea, por suas cores e desproporcionalidade. Esse trabalho, de Tarsila do Amaral, \u00e9 considerado uma das obras mais importantes do Modernismo brasileiro, tornando-se \u00edcone do mesmo. A pintura, parafraseando o fil\u00f3sofo Paul Ricoeur, d\u00e1 o que pensar. A come\u00e7ar pelo nome tupi-guarani <em>Abaporu<\/em> cujo significado \u00e9 &#8220;homem que come gente&#8221;, e que deu origem ao movimento antropof\u00e1gico de Oswald de Andrade, marido de Tarsila.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>E aquela coisa, com um enorme p\u00e9, cheio de dedos e unhas, apoiado na terra, rosado como um beb\u00ea, tendo ao lado um cacto verde-bandeira com tr\u00eas bra\u00e7os esticados para o c\u00e9u, a segurar o sol em forma de flor, numa t\u00edpica paisagem nordestina, acabou por se tornar um s\u00edmbolo. Passou a representar a arte brasileira, que devorando as influ\u00eancias estrangeiras em nosso meio art\u00edstico tupiniquim, cospe uma outra arte, vomita uma arte terceira. Um Manifesto que s\u00f3 poderia ser antrop\u00f3fago (HOFMANN, 2010, p. 54).<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Apropriando de tend\u00eancias europeias, com assimila\u00e7\u00e3o do que vem de fora, e com jun\u00e7\u00e3o dos recursos culturais-nacionais e naturais de nosso pa\u00eds, a autora pinta algo originalmente brasileiro. Tudo isso traduz numa dial\u00e9tica, resultando em algo inovador, e com muita liberdade na cria\u00e7\u00e3o art\u00edstica, que era defendida no movimento do qual pertence. O monstro devorador na verdade pensaria em n\u00e3o ser &#8220;um devorador de homens, s\u00f3 de ideias. E, semente e fruto ao mesmo tempo, o pensador-monstro percebeu que era muito maior que aquele limite retangular da janela pela qual via o mundo do lado de c\u00e1&#8221; (HOFMANN, 2010, p. 60).<\/p>\n\n\n\n<p>Como modo de organiza\u00e7\u00e3o deste trabalho, no primeiro momento ser\u00e1 feito uma descri\u00e7\u00e3o breve da obra, apresentando seus elementos f\u00edsicos, a trajet\u00f3ria da autora, e o movimento no qual est\u00e1 inserida. Em um segundo momento, mais detalhadamente, ser\u00e1 abordado a an\u00e1lise da pintura, trazendo uma leitura est\u00e9tica de suas principais caracter\u00edsticas.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">2 <strong>Abaporu e a trajet\u00f3ria da artista Tarsila do Amaral<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p>A pintura \u201cAbaporu\u201d \u00e9 representada por uma figura solit\u00e1ria, sentada numa plan\u00edcie verde, com p\u00e9 enorme, o bra\u00e7o esquerdo dobrado num joelho, a m\u00e3o sustentando o peso da min\u00fascula cabe\u00e7a, a boca e os olhos quase sumindo, a m\u00e3o direita ca\u00edda ao lado do grande p\u00e9. Ao fundo, o c\u00e9u azul, o sol e cactos esverdeados. Pintada de \u00f3leo sobre tela, tendo oitenta e&nbsp;cinco cent\u00edmetros de altura por setenta&nbsp;e tr\u00eas cent\u00edmetros de largura.<\/p>\n\n\n\n<p>A autora desta obra, Tarsila do Amaral, foi nascida e criada em uma fazenda de caf\u00e9 em S\u00e3o Paulo, sua fam\u00edlia era pertencente \u00e0 elite cafeeira. Em sua adolesc\u00eancia estudou em Barcelona, em um col\u00e9gio interno. E ao amadurecer, depois de se tornar mais velha, come\u00e7ou a ter aulas de desenho. Tudo isto contribuiu na sua decis\u00e3o de ir para Europa aprender mais, aprofundar seus conhecimentos, adquirir experi\u00eancia e desenvolver sua arte. Em 1920 vai para Paris, e tem contato, conhece, a arte moderna.<\/p>\n\n\n\n<p>Neste pa\u00eds se encanta pelo modo de como a arte estava por toda a parte. A Europa nesse momento estava sendo palco das vanguardas art\u00edsticas que com intensidade envolviam as produ\u00e7\u00f5es. Tarsila, no princ\u00edpio, estranhou as novas tend\u00eancias apresentadas por estes movimentos. Logo se rendeu, e encantou com a novidade. Teve como professor L\u00e9ger, que estava trabalhando com a arte moderna em Paris. Aprendeu com o pintor muitas coisas, e assim como ele &#8220;guardou o segredo de construir trens e estradas de ferro, ainda que coloridos e infantis, longe dos tons met\u00e1licos das pesadas locomotivas de seu mestre&#8221; (HOFMANN, 2010, p. 24). Ao retornar para o Brasil acontecia a Semana de arte moderna, conhecida como a semana de 22.<\/p>\n\n\n\n<p>Volta a Paris em 1923, per\u00edodo em que considera o mais importante de sua vida art\u00edstica. Com a ajuda de grandes mestres, a artista pinta quadros paisag\u00edsticos com animais e figuras geom\u00e9tricas. &#8220;Tarsila pinta, mas parece desenhar os contornos de suas imagens, geom\u00e9tricas, pesadas e compactas, com rasgos de pensamento matem\u00e1tico, quase como um engenheiro que constr\u00f3i uma casa. Construir, com linhas retas, curvas, sempre tra\u00e7adas com cuidado e precis\u00e3o&#8221; (HOFMANN, 2010, p. 23).<\/p>\n\n\n\n<p>A autora por um longo per\u00edodo, retornava para o Brasil, mas logo voltava para Paris. Tamb\u00e9m em 1923 resolve organizar uma exposi\u00e7\u00e3o no Brasil, na fase em se reconhecia como cubista, &#8220;S\u00e9rgio Milliet seria tamb\u00e9m retratado pela pintora [&#8230;] Era um retrato muito azul, recortado como uma obra cubista, tracejado, dividido, essencialmente racional. O Retrato Azul &#8216;caracteriza o momento de transi\u00e7\u00e3o entre o impressionismo que ela abandonara&#8221; (HOFMANN, 2010, p. 27). Abandonou-o para assumir o cubismo, que segundo ele, &#8220;teria uma import\u00e2ncia decisiva em sua obra&#8221; (HOFMANN, 2010, p. 27).<\/p>\n\n\n\n<p>Em 1926 teve sua primeira exposi\u00e7\u00e3o individual em Paris, ambiente em que aprendeu tanto e foi um divisor de \u00e1guas em sua carreira. Tudo isso possibilitou a cria\u00e7\u00e3o de suas principais obras. Trazia para o Brasil essa bagagem, novas tend\u00eancias, novas formas de criar, tudo que viu e aprendeu. Mas mesmo em ch\u00e3o europeu j\u00e1 sentia que precisava de retornar \u00e0s suas origens. Pintar sua inf\u00e2ncia, seus sonhos, o que existia em sua terra natal merecia ser valorizado, os recursos, a cultura, os tra\u00e7os regionais, etc.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>Sim, certamente Tarsila aprendeu tudo sobre ordem e equil\u00edbrio, divis\u00e3o do espa\u00e7o e racionalidade, entretanto, n\u00e3o desejava passar para suas telas algo que n\u00e3o estava dentro dela, precisava tamb\u00e9m do sonho, das cores caipiras, da aventura de enxergar o mundo com olhos de crian\u00e7a. Precisava criar monstros tamb\u00e9m, e monstros n\u00e3o se originam na ordem, mas a pintora tinha percep\u00e7\u00e3o para encontrar o seu equil\u00edbrio dentro de toda esta ordena\u00e7\u00e3o (HOFMANN, 2010, p. 24).<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>E o Abaporu, pintura c\u00e9lebre criada em 1928, bebe dessa fonte, dessas tend\u00eancias modernas da Europa incorporadas por Tarsila. Mas ao contr\u00e1rio da autora, que outrora ficava no vai-e-vem, este, ap\u00f3s causar grandes conversas, reboli\u00e7os, vai embora e n\u00e3o volta.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>Sua m\u00e3e fez uma exposi\u00e7\u00e3o em Paris, na Galerie Percier, e ele estava l\u00e1, chamado de &#8216;Nu&#8217;, mas era mesmo um manso antrop\u00f3fago. Tal m\u00e3e, tal filho. Fez fama e, assim como a m\u00e3e, acabou saindo do Brasil muitos anos depois de todos aqueles movimentos ruidosos, mas, ao contr\u00e1rio dela, n\u00e3o voltou, indo morar em outras paragens&#8221; (HOFMANN, 2010, p. 60).<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\">2.1 <strong>Modernismo no Brasil e a contribui\u00e7\u00e3o de Tarsila<\/strong><\/h4>\n\n\n\n<p>O modernismo no Brasil foi um movimento de grande import\u00e2ncia art\u00edstica, liter\u00e1rio e cultural. Outrossim, tal movimento tinha por objetivo romper com todo o tradicionalismo de como fazer arte que vigorava na \u00e9poca. Este movimento foi de grande valia para independ\u00eancia e valoriza\u00e7\u00e3o da cultura brasileira, que at\u00e9 ent\u00e3o estava europeizada, sem uma identidade.<\/p>\n\n\n\n<p>O mundo precisava de inova\u00e7\u00f5es, novos conceitos que reconfigurassem teorias vigentes, era preciso, pois, inovar, modernizar, modificar. Em 1922, no Brasil, na Semana de arte moderna, esta que foi uma manifesta\u00e7\u00e3o art\u00edstico-cultural, artistas das elites paulista e carioca, re\u00fanem-se com um prop\u00f3sito: ignorar os antigos ideais e renovar todas as formas de pensamento. Al\u00e9m disso, os artistas envolvidos na Semana, propunham uma nova vis\u00e3o de arte, a partir de uma est\u00e9tica inovadora inspirada nas vanguardas europeias.<\/p>\n\n\n\n<p>A primeira fase do modernismo \u00e9 a de ruptura com aquele modelo de arte advindo da Europa. Neste momento, o humor, uso coloquial, vanguardas, tudo \u00e9 v\u00e1lido para criar uma literatura art\u00edstica em sintonia com os novos tempos. Em seguida, veio a segunda fase que foi a de consolida\u00e7\u00e3o da arte, aqui, o regionalismo e o nacionalismo prevalecia; logo ap\u00f3s veio a terceira fase, a da oposi\u00e7\u00e3o dos artistas ao pr\u00f3prio movimento, n\u00e3o seguiam mais a regra ditadas pelo movimento, acredita-se que esta fase acontece p\u00f3s-modernismo.<\/p>\n\n\n\n<p>Era preciso mostrar ao povo o poder da recria\u00e7\u00e3o e dar lugar a um novo estilo, valorizando os elementos nacionais.&nbsp; Ademais, grandes artistas como Manuel Bandeira, Oswaldo de Andrade, Anita Malfatti, Tarsila do Amaral, entre outros, participavam ativamente do movimento. Com toda essa \u00e2nsia pela inova\u00e7\u00e3o, surge a partir da\u00ed o modernismo brasileiro. Contudo, a nova arte n\u00e3o foi bem aceita pela elite paulistana, influenciada pela est\u00e9tica europeia conservadora. Todavia, apesar das cr\u00edticas, o modernismo brasileiro, teve o seu reconhecimento ao longo do tempo.<\/p>\n\n\n\n<p>Primeiramente, para que a arte fosse realmente brasileira, os artistas optaram na simplifica\u00e7\u00e3o do discurso, apropriando, dessa forma, do linguajar popular. Al\u00e9m disso, houve a valoriza\u00e7\u00e3o art\u00edstica nacional, com uma explora\u00e7\u00e3o de elementos cotidianos. No seguinte trecho, nota-se essa preocupa\u00e7\u00e3o pela busca de identidade:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>A arte t\u00e3o elaborada quanto radical do Modernismo deveria superar o elitismo e atingir a todos, pois somente assim cumpriria seu papel, considerado revolucion\u00e1rio por vezes. O movimento n\u00e3o buscava s\u00f3 atualizar a situa\u00e7\u00e3o est\u00e9tica brasileira, ao se apropriar das conquistas formais das vanguardas europeias, mas ainda \u2013 como aquelas vanguardas, ali\u00e1s \u2013 operar transforma\u00e7\u00f5es culturais que tornassem a vida mais po\u00e9tica (VISO,2012, p.110).<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Os modernistas brasileiros, no contato com as vanguardas europeias, continuaram pesquisando a arte de maneira muito \u00edntima e ininterrupta. Haja vista, muitas viagens foram empreendidas no territ\u00f3rio brasileiro, a fim de despertar para aquilo que era tipicamente do Brasil. Nestas viagens estavam os grandes expoentes, a saber, Tarsila do Amaral e Oswaldo de Andrade, nota-se no seguinte trecho a preocupa\u00e7\u00e3o pela informa\u00e7\u00e3o:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>Quem n\u00e3o ia at\u00e9 l\u00e1, como M\u00e1rio de Andrade, estudava as revistas e os materiais que chegassem divulgando o que se passava fora. Isso, contudo, apenas demonstra que os nossos modernistas eram informados, antenados, mas n\u00e3o que eram plagiadores. \u00c9 f\u00e1cil apontar as matrizes de vanguarda acolhidas pelos modernistas brasileiros. Eles mesmos fizeram esse trabalho em diversos momentos. Menos f\u00e1cil \u00e9 explicar como tais matrizes foram transformadas na pr\u00e1tica das obras produzidas por esses artistas. Diga-se, s\u00f3 de passagem, que foi a esse desafio que correspondeu a no\u00e7\u00e3o de antropofagia. Em suma, o Modernismo foi de vanguarda, mas n\u00e3o c\u00f3pia das vanguardas (VISO,2012, p.111).<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>N\u00e3o obstante de n\u00e3o ter participado da Semana de Arte Moderna, Tarsila torna-se um s\u00edmbolo do modernismo brasileiro. O fato de n\u00e3o ter participado da Semana de 1922 n\u00e3o tira o seu lugar de grande expoente do movimento brasileiro. Com suas pinturas de muitas paisagens, Tarsila, retira a m\u00e1quina como um grande \u00edcone da sociedade industrial e moderna, com muita precis\u00e3o nos contornos, cores e molduras, produz verdadeiramente o movimento \u00e0 tela. A essa primeira fase chamada pau-brasil, caracterizada pelas paisagens, segue-se um curto per\u00edodo antropof\u00e1gico, que tem como marco inicial a estupenda obra: Abaporu, esta que \u00e9 uma grande contribui\u00e7\u00e3o da artista para o movimento.<\/p>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\">2.2 <strong>Aprecia\u00e7\u00e3o est\u00e9tica da obra Abaporu<\/strong><\/h4>\n\n\n\n<p>Por que a obra Abaporu provoca em n\u00f3s sentimento de beleza? Apreciamo-la por que \u00e9 realmente bela ou fomos convencidos pelo consenso? Para o fil\u00f3sofo Immanuel Kant, por exemplo, n\u00e3o seria poss\u00edvel discutir mediante argumentos l\u00f3gicos o sentimento do belo, por este n\u00e3o possuir uma base conceitual. Todavia, esse sentimento est\u00e9tico poderia ser compartilhado entre pessoas que possu\u00edssem a mesma certeza acerca da beleza, retirando assim o car\u00e1ter totalmente subjetivo de um ju\u00edzo est\u00e9tico. Neste sentido, Theodor Adorno nos diz:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>De certo modo, o belo surgiu do feio mais do que ao contr\u00e1rio. Mas, se o seu conceito fosse posto no \u00edndex, como muitas correntes psicol\u00f3gicas procedem com a alma e numerosos soci\u00f3logos com a sociedade, a est\u00e9tica tinha de se resignar. A defini\u00e7\u00e3o da est\u00e9tica como teoria do belo \u00e9 pouco frutuosa porque o car\u00e1ter formal do conceito de beleza deriva do conte\u00fado global do est\u00e9tico. Se a est\u00e9tica n\u00e3o fosse sen\u00e3o um cat\u00e1logo sistem\u00e1tico de tudo o que \u00e9 chamado belo, n\u00e3o existiria nenhuma ideia da vida no pr\u00f3prio conceito do belo (ADORNO,1970, p. 65).<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>\u00c9 not\u00f3rio que a arte Abaporu, assim como qualquer outra obra, \u00e9 constitu\u00edda de formas, linha, ponto, cor, textura, fundo e figura. No entanto, a linha n\u00e3o aparece como um contorno na obra em quest\u00e3o, ela se apresenta de forma suave com um jogo de luz e sombra, que delimita a figura humana em deforma\u00e7\u00e3o, esta que toma todo o espa\u00e7o da paisagem. O cacto ao lado direito e atr\u00e1s da figura o sol isolado integra a obra. Em s\u00edntese no que tange \u00e0 compreens\u00e3o do que venha ser arte, Theodor Adorno diz:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>A obra de arte \u00e9 processo essencialmente na rela\u00e7\u00e3o do todo \u00e0s partes. N\u00e3o podendo reduzir-se nem a um nem a outro momento, esta rela\u00e7\u00e3o \u00e9, por seu turno, um devir. O que de qualquer modo se pode chamar a totalidade na obra de arte n\u00e3o \u00e9 a estrutura englobante de todas as suas partes. Tamb\u00e9m na sua objetiva\u00e7\u00e3o persiste, antes de mais, algo que se constr\u00f3i em virtude das tend\u00eancias que nela atuam (ADORNO, 1970, p. 202).<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Os objetos naturais t\u00eam vida, as obras de arte tamb\u00e9m s\u00e3o vivas. De uma forma de vida diferente destes, a arte comunica sua vida de forma particular. O Abaporu<strong> <\/strong>&#8220;grande e tranquilo, pensativo, quase a dormir sob o sol estrelado no c\u00e9u, \u00e9 mais do que uma simples imagem sobre um pano esticado. O manso selvagem \u00e9. \u00c9 um feixe de ideias amarrado, \u00e9 um sonho retratado&#8221; [&#8230;] (HOFMANN, 2010, p. 60). Ademais, conceituar a arte, de forma bem simples fazendo analogia, \u00e9 andar numa corda muito inst\u00e1vel e procurar pontos de equil\u00edbrio de momentos e por vezes fr\u00e1geis, dentro de um equil\u00edbrio para si e para o outro. &#8220;A arte op\u00f5e-se tanto ao conceito como \u00e0 domina\u00e7\u00e3o, mas, para tal oposi\u00e7\u00e3o, precisa, como a filosofia, dos conceitos&#8221; (ADORNO, 1970, p. 115).<\/p>\n\n\n\n<p>A arte moderna para Adorno n\u00e3o \u00e9 diferente, caracterizada por ele &#8220;como abstrata, pois aponta para aquilo que ainda n\u00e3o existe, que n\u00e3o pode ser conceitualizado, que escapa a todas as tentativas de instrumentaliza\u00e7\u00e3o&#8221;(DANNER, 2008, p. 2). Instrumentaliza\u00e7\u00e3o suscet\u00edvel \u00e0 sociabilidade capitalista, e difundida nas esferas das rela\u00e7\u00f5es sociais. Ent\u00e3o:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>O resto de abstra\u00e7\u00e3o no conceito do moderno \u00e9 o tributo que lhe paga. Se, no seio do capitalismo monopolista, se continua a saborear o valor de troca, e j\u00e1 n\u00e3o o valor de uso [10], ent\u00e3o a abstra\u00e7\u00e3o torna-se para a obra de arte moderna a indetermina\u00e7\u00e3o irritante daquilo e para aquilo que ela deve ser, a cifra do que \u00e9. Tal abstra\u00e7\u00e3o nada tem em comum com o car\u00e1ter formal das antigas normas est\u00e9ticas, por exemplo, com as normas kantiana (ADORNO, 1970, p. 34).<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Outrossim, toda obra de arte \u00e9 reflexo do seu tempo. A obra Abaporu, por exemplo, que est\u00e1 dentro do modernismo brasileiro, insere-se no contexto de industrializa\u00e7\u00e3o. Per\u00edodo de novas ideias, novas formas de viver, e isso causa um certo impacto na obra. Mas, deve-se levar em conta que ela n\u00e3o fica presa a essa realidade, pois &#8220;A arte moderna n\u00e3o aceita qualquer tentativa de inser\u00e7\u00e3o a par\u00e2metros socialmente determinados e aceit\u00e1veis&#8221; (DANNER, 2008, p. 7). Pelo contr\u00e1rio &#8220;Flutua sem peso sobre um manto verde, pois \u00e9 apenas um pesadelo. Pintado, seus contornos parecem delimitar seu espa\u00e7o, aquele em que pode existir somente como um ser da imagina\u00e7\u00e3o, tornado real por uma pintora modernista&#8221;<strong> <\/strong>(HOFMANN, 2010, p. 63).<\/p>\n\n\n\n<p>Neste cen\u00e1rio, em que nasce o modernismo, Tarsila do Amaral percebe que a desigualdade entre as classes sociais estava cada vez mais desproporcional. A partir disso traz para suas obras a figura do oper\u00e1rio, entre outros elementos que fundem \u00e0s suas representa\u00e7\u00f5es art\u00edsticas. &#8220;\u00c9 por isso que Adorno define-a como uma &#8216;ant\u00edtese social da sociedade&#8217;, pois despreza normas e preceitos de estrutura\u00e7\u00e3o preconcebidos, rejeitando modelos \u00e9ticos, pol\u00edticos e religiosos que possam determinar previamente a sua forma&#8221; (DANNER, 2008, p. 7).<\/p>\n\n\n\n<p>Das cores usadas, na pintura em quest\u00e3o, percebemos tons muito reais, decerto que o cacto \u00e9 verde, o c\u00e9u \u00e9 azul e o sol entre tons laranja e amarelo. Estas cores se unem ao tom de bege que foi utilizado para representar a cor da pele humana. A figura \u00e9 real\u00e7ada n\u00e3o somente pela cor, mas pelo tamanho do p\u00e9 em sua forma exagerada, que nos faz perceber uma outra dimens\u00e3o da realidade art\u00edstica do homem brasileiro: o sofrimento. Lemos este sofrimento no trabalhador ao ficar exposto v\u00e1rias horas por dia ao sol, e isso acontece at\u00e9 nos dias atuais, quando o trabalhador \u00e9 deformado por trabalhar no campo, em servi\u00e7os bra\u00e7ais.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>Adorno afirma que a arte moderna, diferentemente do falso prazer (satisfa\u00e7\u00e3o) que \u00e9 fornecido pela ind\u00fastria cultural, expressa o sofrimento humano em seu cotidiano. No mundo da ind\u00fastria cultural, os seres humanos s\u00e3o obrigados a reprimir uma parte de sua vida (desejos, ambi\u00e7\u00f5es, sonhos, ideais, etc.) para ingressarem nessa \u201cnova\u201d realidade. \u00c9 por isso que a arte moderna \u00e9 o ve\u00edculo privilegiado de express\u00e3o do sofrimento que cada ser humano experimenta em sua vida cotidiana. Isso justifica o fato de a arte moderna estabelecer uma \u00edntima rela\u00e7\u00e3o com aqueles materiais n\u00e3o t\u00e3o agrad\u00e1veis, belos, harmoniosos, etc., materiais estes que, de certa forma, chocam nossa sensibilidade, assumindo o car\u00e1ter de uma pura irracionalidade (DANNER, 2008, p. 8).<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m disso, a obra n\u00e3o apresenta muitas texturas, talvez seja pela intensidade das cores que Tarsila resolveu representar. H\u00e1 a presen\u00e7a de suma import\u00e2ncia da luz e sombra que d\u00e1 \u00e0 obra a sensa\u00e7\u00e3o de volume e peso. As cores verdes e azuis trazem uma harmonia \u00e0 obra, um equil\u00edbrio est\u00e9tico. O cacto que \u00e9 pr\u00f3prio da realidade nordestina traduz o trabalho do homem do campo, marcado por uma faina di\u00e1ria dif\u00edcil, ressaltando a seca, mis\u00e9ria, desnutri\u00e7\u00e3o e ao mesmo tempo fazendo alus\u00e3o hist\u00f3rica \u00e0s paisagens brasileiras t\u00e3o ex\u00f3ticas e que s\u00e3o muito cobi\u00e7adas pelos europeus.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 evidente que o conceito de arte moderna expresso na obra Abaporu rompe com os princ\u00edpios cl\u00e1ssicos das obras europeias que vigorava desde ent\u00e3o. Tarsila utiliza da ousadia para representar numa tela uma figura com toda brasilidade poss\u00edvel e ao mesmo tempo t\u00e3o enigm\u00e1tica. De fato, &#8220;A arte moderna tem como caracter\u00edstica principal mostrar-se incompreens\u00edvel, enigm\u00e1tica. Segundo Adorno, &#8216;a arte s\u00f3 \u00e9 interpret\u00e1vel pela lei do seu movimento&#8217;, n\u00e3o por invariantes&#8221; (DANNER, 2008, p. 9).<\/p>\n\n\n\n<p>Esta ousadia \u00e9 percebida atrav\u00e9s do uso das cores quentes, expressivas, formas exageradas numa figura com perna e p\u00e9 enormes e uma cabe\u00e7a t\u00e3o pequena. Esta imagem &#8220;poderia sugerir um sem n\u00famero de associa\u00e7\u00f5es, assim era o presente. Saci, monstro, figura m\u00edtica, em pose melanc\u00f3lica, mas que em nada poderia sequer lembrar uma gravura de Albrecht D\u00fcrer.&#8221; (HOFMANN, 2010, p. 53). No entanto, essas caracter\u00edsticas apresentadas n\u00e3o significam a falta de compet\u00eancia da artista, mas sim uma tend\u00eancia em querer romper com os princ\u00edpios estabelecidos, trazendo para a arte brasileira seu jeito pr\u00f3prio de ser.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>De acordo com Adorno, as obras de arte, na \u00e2nsia de exigir sua autonomia, criticam essa rela\u00e7\u00e3o das coisas na realidade capitalista. O que est\u00e1 em jogo aqui \u00e9, segundo ele, o fato de que o significado da arte pode ser constru\u00eddo a partir dela mesma, da rela\u00e7\u00e3o que se estabelece na singularidade da experi\u00eancia de sua contempla\u00e7\u00e3o (DANNER, 2008, p. 8).<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>\u00c9 importante salientarmos que a figura ali representada causa certo inc\u00f4modo, no entanto, este padr\u00e3o est\u00e9tico \u00e9 pr\u00f3prio do modernismo. &#8220;A harmonia que, enquanto resultado, nega a tens\u00e3o que a garante, transforma-se assim em elemento perturbador, falsidade e, se se quiser, disson\u00e2ncia. O aspecto harmonioso do feio erige-se, na arte moderna, em protesto. Da\u00ed brota algo de qualitativamente novo&#8221; (ADORNO, 1970, p. 60).<\/p>\n\n\n\n<p>Tal despropor\u00e7\u00e3o, agonia, afli\u00e7\u00e3o, inquietude dentre v\u00e1rios sentimentos que a obra pode nos suscitar, retrata aquilo que o movimento antropof\u00e1gico queria provocar, retratado por meio de um \u201cmonstro que come gente\u201d. &#8220;Mas era um pesadelo: uma figura imensa, que a tudo em volta diminu\u00eda, diante daquele monstro rosa-carne, de uma perna s\u00f3. Pacato espectador do tempo, iluminado por um sol amarelo em forma de flor&#8221; (HOFMANN, 2010, p. 53).<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>Em outras palavras, o novo, na arte, aponta para aquilo que ainda n\u00e3o sofreu influ\u00eancia da cultura de massas capitalista. \u00c9 por isso que Adorno caracteriza a arte moderna como abstrata, pois ela direciona para aquilo que n\u00e3o existe, que ainda n\u00e3o foi visto, que n\u00e3o pode ser dito, que n\u00e3o pode ser modificado pela ideologia dominante (DANNER, 2008, p. 9.<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>As m\u00e3os e p\u00e9s exagerados, que comp\u00f5em a desproporcionalidade citada acima, podem tamb\u00e9m ser justificados na compreens\u00e3o de que o trabalho bra\u00e7al, naquela \u00e9poca, era mais valorizado. E a cabe\u00e7a pequena, por sua vez, poderia ser um retrato da falta de valoriza\u00e7\u00e3o da intelectualidade e cria\u00e7\u00f5es brasileiras. Sendo tamb\u00e9m os estudos art\u00edsticos, liter\u00e1rios, etc., mais acess\u00edveis somente \u00e0s elites, ficava para o resto da popula\u00e7\u00e3o uma tecnifica\u00e7\u00e3o de sua forma\u00e7\u00e3o (prepara\u00e7\u00e3o para o trabalho manual).<strong><\/strong><\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>\u00c9 moderna a arte que, segundo o seu modo de experi\u00eancia e enquanto express\u00e3o da crise da experi\u00eancia, absorve o que a industrializa\u00e7\u00e3o produziu sob as rela\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o dominantes. Isto implica um c\u00e2non negativo, proibi\u00e7\u00e3o do que tal arte moderna nega na experi\u00eancia e na t\u00e9cnica; e semelhante nega\u00e7\u00e3o determinada \u00e9 j\u00e1 quase, por seu turno, o c\u00e2non do que \u00e9 necess\u00e1rio fazer. Que uma tal arte moderna seja mais do que um vago \u00abesp\u00edrito do tempo\u00bb ou um versado up-to-date deve-se ao desencadeamento das for\u00e7as produtivas. Ela \u00e9 t\u00e3o determinada socialmente pelo conflito com as rela\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o como intra-esteticamente enquanto exclus\u00e3o de elementos gastos e de procedimentos t\u00e9cnicos ultrapassados (ADORNO, 1970, p. 47).<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Por isso &#8220;para Adorno, a arte \u00e9, essencialmente, essa express\u00e3o cr\u00edtica e libertadora dos seres humanos frente \u00e0 racionalidade instrumental da vida econ\u00f4mica, pol\u00edtica e cient\u00edfica.&#8221; (DANNER, 2008, p. 9). Mas, sua fun\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 determinada por este seu aspecto, esse n\u00e3o \u00e9 o objetivo da arte. Sua natureza tamb\u00e9m despreza v\u00e1rios tipos de predicados que poderiam a ela serem referidos, pois foge \u00e0 tentativa de instrumentaliza\u00e7\u00e3o. Tal como &#8220;Ao contr\u00e1rio da ind\u00fastria cultural, a arte n\u00e3o tem uma fun\u00e7\u00e3o de divertimento; a seriedade do prazer art\u00edstico faz com que ela seja diferente do que se experimenta nos meios de comunica\u00e7\u00e3o de massa&#8221; (DANNER, 2008, p. 7).<\/p>\n\n\n\n<p>Com o Abaporu n\u00e3o \u00e9 diferente, apesar de toda sua import\u00e2ncia social, cultural, pol\u00edtica, \u00e9 desinteressado diante destes efeitos. Por detr\u00e1s dos enigmas, &#8220;Cor de gente, pose humanizada, quase homem em seu absoluto cansa\u00e7o diante de seu mundo, e total descaso perante todo o movimento que foi feito em torno de si mesmo, [&#8230;] alheio a tudo, o Abaporu se aquece sob um pequeno sol tropical&#8221; (HOFMANN, 2010, p. 63).<strong><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Os produtos da ind\u00fastria cultural exercem um grande distanciamento entre o criador e seu produto, como nos apresenta Adorno, e tamb\u00e9m do produto em rela\u00e7\u00e3o ao p\u00fablico. Isso \u00e9 pr\u00f3prio do sistema econ\u00f4mico vigente, visto que visa uma cultura massificada, padroniza\u00e7\u00e3o das sensa\u00e7\u00f5es, julgamentos pr\u00e9-estabelecidos sobre determinada arte. O Abaporu n\u00e3o \u00e9 constru\u00eddo e encarado desta forma, pois \u00e9 parte da arte moderna. H\u00e1 uma rela\u00e7\u00e3o muito pr\u00f3xima entre a autora e a obra em si. Seus elementos est\u00e9ticos permitem uma certa experi\u00eancia singular, \u00fanica, do contemplador com o contemplado. &#8220;Para Adorno, o que caracteriza a obra de arte em sua singularidade \u00e9 a concretude da rela\u00e7\u00e3o entre o sujeito e o objeto, pois, segundo ele, a obra de arte parece acabar com o processo de afastamento, de separa\u00e7\u00e3o entre o sujeito e o objeto, que \u00e9 pr\u00f3prio do capitalismo&#8221; (DANNER, 2008, p. 9).<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">3 <strong>Considera\u00e7\u00f5es finais<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p>Portanto, \u00e9 not\u00f3rio que toda essa ousadia ao retratar tantos elementos numa obra, \u00e9 pr\u00f3prio de uma tend\u00eancia de \u00e2nsia por uma verdadeira identidade. Ou ainda uma verdadeira vanguarda, rompendo com tudo que estava estabelecido na sociedade est\u00e9tica europeia, jamais ser\u00e1 esquecida. Indubitavelmente, o modernismo deixou um grande legado no que tange a import\u00e2ncia e representatividade da cultura Brasileira.<\/p>\n\n\n\n<p>Ainda que o respectivo movimento estivesse influenciado pelas tend\u00eancias das vanguardas europeias, tinha-se total consci\u00eancia de sua filia\u00e7\u00e3o, e estava longe de ser uma esp\u00e9cie de imita\u00e7\u00e3o. Deve-se destacar a originalidade e destreza com que os artistas produziram os seus trabalhos. Tarsila, sem sombra de d\u00favidas, incorporou a esse movimento um grande enriquecimento com suas obras, diga-se \u00e0 parte, o Abaporu. O enigm\u00e1tico e dial\u00e9tico monstro que come gente, s\u00edmbolo deste per\u00edodo. Deste modo n\u00e3o \u00e9 v\u00e3 a grande resson\u00e2ncia e repercuss\u00e3o que gerou na sociedade, n\u00e3o obstante descrev\u00ea-lo e ainda faltar muito o que dizer sobre ele.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Refer\u00eancias:<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>ADORNO, Theodor W.<em> Teoria Est\u00e9tica<\/em>. Ed. 70, Lisboa, 2000.<\/p>\n\n\n\n<p>CEREJEIRA, Thiago. <em>Abaporu de Tarsila do Amaral<\/em>. Dispon\u00edvel em:&lt;http:\/\/artedescrita.blogspot.com\/2012\/08\/abaporu-de-tarsila-do-amaral.html?m=1>. Acesso em: 07. Abr. 2020<\/p>\n\n\n\n<p>DANNER, Fernando. A Dimens\u00e3o Est\u00e9tica em Theodor W. Adorno<em>.Thaumazein,<\/em> Santa Maria, n. 3, v. 2. 2008. Dispon\u00edvel em: &lt;https:\/\/periodicos.ufn.edu.br>. Acesso em 12 jun. 2020.<\/p>\n\n\n\n<p>DUARTE, Pedro. A Vanguarda modernista brasileira. <em>Viso<\/em>, Rio de janeiro, n.11. p 110-118, jan.\/-jun. 2012. Dispon\u00edvel em: &lt;http:\/\/www.revistaviso.com.br\/ a vanguarda modernista brasileira.pdf &gt;. Acesso em 2 jun.2020.<\/p>\n\n\n\n<p>GENIAL, cultura. <em>Abaporu<\/em>. Dispon\u00edvel em: &lt;https:\/\/www.culturagenial.com\/abaporu\/&gt;. Acesso em: 07. Abr. 2020<\/p>\n\n\n\n<p>HOFMANN, Maria Helena Cavalcanti. <em>A Linha que Contorna a Cr\u00f4nica: a Obra de Tarsila do Amaral.<\/em> Disserta\u00e7\u00e3o (Mestrado em Hist\u00f3ria e Cr\u00edtica da Arte) \u2013 Instituto de Artes, Universidade do Estado do Rio de Janeiro: Rio de Janeiro, 2010.<\/p>\n\n\n\n<p>MARTINS, Simone R.; IMBROISI, Margaret H. <em>Abaporu.<\/em> Dispon\u00edvel em:&lt; https:\/\/www.historiadasartes.com\/sala-dos-professores\/abaporu-de-tarsila-do-amaral\/&gt;. Acesso em: 07. Abr. 2020<strong><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Anexo:<\/strong><\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter size-large\"><a href=\"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/image.png\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"467\" height=\"548\" src=\"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/image.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-2826\" srcset=\"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/image.png 467w, https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/image-256x300.png 256w\" sizes=\"auto, (max-width: 467px) 100vw, 467px\" \/><\/a><figcaption>VEIGA, Edison. <em>Abaporu: a hist\u00f3ria do quadro mais valioso da arte brasileira<\/em>.BBC News Brasil, abril.2019. Dispon\u00edvel em: &lt;http:\/\/ www.bbc.com\/ Abaporu: a hist\u00f3ria do quadro mais valioso da arte brasileira&gt;. Acesso em 15 jun.2020<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator\"\/>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref1\">[1<\/a>] Graduandos em Filosofia na Faculdade Dom Luciano Mendes<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Carlos Henrique e Karine de Souza[1] Resumo: Este artigo tem por objetivo apresentar uma an\u00e1lise da obra Abaporu, de Tarsila do Amaral, compreendendo-a dentro do movimento do qual pertence, que \u00e9 o Modernismo. Por isso traz uma descri\u00e7\u00e3o da trajet\u00f3ria hist\u00f3rica da autora durante sua passagem pela Europa, ambiente em que teve o primeiro contato &hellip; <\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_mi_skip_tracking":false,"footnotes":""},"categories":[3,559,560],"tags":[286],"class_list":{"0":"entry","1":"post","2":"publish","3":"author-admin","4":"post-2825","6":"format-standard","7":"category-adorno","8":"category-carlos-henrique-de-mattos-chaves","9":"category-karine-de-souza-gomes","10":"post_tag-estetica"},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2825","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=2825"}],"version-history":[{"count":6,"href":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2825\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2832,"href":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2825\/revisions\/2832"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=2825"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=2825"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=2825"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}