{"id":2862,"date":"2021-09-24T09:12:26","date_gmt":"2021-09-24T12:12:26","guid":{"rendered":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/?p=2862"},"modified":"2021-09-24T09:12:26","modified_gmt":"2021-09-24T12:12:26","slug":"acoes-voluntarias-e-involuntarias-no-livro-iii-da-etica-a-nicomaco-de-aristoteles","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/?p=2862","title":{"rendered":"A\u00c7\u00d5ES VOLUNT\u00c1RIAS E INVOLUNT\u00c1RIAS NO LIVRO III DA \u00c9TICA A NIC\u00d4MACO DE ARIST\u00d3TELES"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-text-align-right\">*Matheus Gomes Ferreira<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Resumo:<\/strong> Em sua obra <em>\u00c9tica a Nic\u00f4maco<\/em>, especificamente no livro III, Arist\u00f3teles dedicou-se a apresentar os elementos que comp\u00f5em uma teoria da a\u00e7\u00e3o. Tal teoria encontra-se sistematizada no quadro da responsabilidade moral e requer a investiga\u00e7\u00e3o do racioc\u00ednio pr\u00e1tico implicado nas a\u00e7\u00f5es humanas, o qual \u00e9 efetivado, a partir, da escolha deliberada, onde a a\u00e7\u00e3o \u00e9 sempre aberta aos contr\u00e1rios sendo, portanto, indeterminada, e ser\u00e1 volunt\u00e1ria se o princ\u00edpio motor estiver no agente. Por\u00e9m, veremos que nem toda a\u00e7\u00e3o volunt\u00e1ria \u00e9, necess\u00e1riamente, deliberada, como nos casos em que um agente realiza alguma a\u00e7\u00e3o movido pela paix\u00e3o; por\u00e9m, toda escolha deliberada \u00e9 volunt\u00e1ria. Esta pesquisa busca entender onde reside o princ\u00edpio \u00e9tico da a\u00e7\u00e3o, e a rela\u00e7\u00e3o que h\u00e1 entre a teoria da a\u00e7\u00e3o e a da virtude, em tentativa de compreender os elementos que influenciam nossa tomada de decis\u00e3o. <strong><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Palavras-chave:<\/strong> Arist\u00f3teles. \u00c9tica. A\u00e7\u00f5es. Volunt\u00e1rio. Involunt\u00e1rio.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><strong>Introdu\u00e7\u00e3o<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p>Neste artigo, nos propomos a abordar a reflex\u00e3o de Arist\u00f3teles (384-322 a. C.) sobre os atos volunt\u00e1rios e involunt\u00e1rios, elucidando sua import\u00e2ncia para o agir adequadamente \u00e9tico. O objetivo deste trabalho consiste em pesquisar o ato volunt\u00e1rio na \u00e9tica aristot\u00e9lica e sua import\u00e2ncia para uma teoria da a\u00e7\u00e3o, levando em conta o processo de delibra\u00e7\u00e3o e escolha sob o pano de fundo da responsabilidade moral. A pesquisa tem como fonte principal a obra <em>\u00c9tica a Nic\u00f4maco<\/em> (EN), adotada como refer\u00eancia na an\u00e1lise das condi\u00e7\u00f5es do ato volunt\u00e1rio e outros conceitos que permeiam o estudo da moral.<\/p>\n\n\n\n<p>A import\u00e2ncia desta pesquisa est\u00e1 em investigar a relev\u00e2ncia daquilo que Arist\u00f3teles oferece em sua obra; a saber, uma investiga\u00e7\u00e3o profundamente rica de questionamentos sobre a pol\u00edtica, a moral e a \u00e9tica, desenvolvidos de forma metodologicamente organizada, o que possibilita-nos inserir esse arcabou\u00e7o conceitual na discuss\u00e3o \u00e9tica da contemporaneidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Arist\u00f3teles, em sua obra, estuda as a\u00e7\u00f5es humanas motivadas pelo desejo, as quais podem ser volunt\u00e1rias, involunt\u00e1rias ou ainda mistas. Arist\u00f3teles dedica a discuss\u00e3o sobre a classifica\u00e7\u00e3o de a\u00e7\u00f5es aos estudiosos da virtude e aos legisladores, aos quais, diz que a distin\u00e7\u00e3o dos conceitos \u00e9 necess\u00e1ria, visto que tal habilidade ajudar\u00e1 a interpretar a\u00e7\u00f5es, determinar car\u00e1ter e atribuir honras e puni\u00e7\u00f5es de forma mais apropriada (EN, III, 1, 1109b 30-35). &nbsp;&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>As a\u00e7\u00f5es involunt\u00e1rias acontecem quando o agente ignora (por ignor\u00e2ncia)&nbsp;as consequ\u00eancias do ato praticado, ou, quando o mesmo \u00e9 for\u00e7ado a agir contra sua vontade. Segundo Arist\u00f3teles para que uma a\u00e7\u00e3o seja volunt\u00e1ria \u00e9 imprescind\u00edvel que o princ\u00edpio da a\u00e7\u00e3o esteja no agente e que ele conhe\u00e7a as consequ\u00eancias da a\u00e7\u00e3o praticada.<\/p>\n\n\n\n<p>Deste modo, a escolha est\u00e1 vinculada \u00e0 bondade ou \u00e0 maldade; ou seja, o desejo pode ser bom ou ruim, a racionaliza\u00e7\u00e3o do desejo consiste em direcion\u00e1-lo, o que envolve deliberar e refletir. Aqui, podemos fazer uma alus\u00e3o ao imperativo categ\u00f3rico de Kant, age unicamente de acordo com a m\u00e1xima que fa\u00e7a com que possas querer, ao mesmo tempo, que ela se torne uma m\u00e1xima universal (KANT, 1980, p. 124-125). No ato de delibera\u00e7\u00e3o efetiva \u00e0 a\u00e7\u00e3o, n\u00e3o examinamos, apenas, a prud\u00eancia dessa a\u00e7\u00e3o, a fim de saber se ela \u00e9 um meio apropriado para a obten\u00e7\u00e3o de um fim desejado (a <em>\u03b5\u03c5\u03b4\u03b1\u03b9\u03bc\u03bf\u03bd\u03af\u03b1<\/em>) ou n\u00e3o, devemos, por\u00e9m, determinar se ela \u00e9 intrinsecamente justa ou moralmente correta<a href=\"#_ftn1\">[1]<\/a>. Para tanto, nos submetemos \u00e0 m\u00e1xima da a\u00e7\u00e3o, onde a delibera\u00e7\u00e3o seria o meio para atingir coisas poss\u00edveis<a href=\"#_ftn2\">[2]<\/a>, dessa forma, a virtude evidencia-se atrav\u00e9s dos meios: o homem virtuoso, deseja, delibera, e escolhe voluntariamente as coisas boas, meios justos; enquanto o homem vicioso usar\u00e1 de qualquer meio para chegar ao seu objetivo.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>As virtudes s\u00e3o meios, disposi\u00e7\u00f5es de car\u00e1ter e tendem para a pr\u00e1tica dos atos virtuosos volunt\u00e1rios de acordo com uma regra justa. Segundo Arist\u00f3teles:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>Com efeito, o indiv\u00edduo bom \u00e9 capaz de julgar corretamente cada classe de coisas, e a verdade se revela a ele em cada uma. Coisas peculiares s\u00e3o nobres e apraz\u00edveis correspondentemente a cada disposi\u00e7\u00e3o de car\u00e1ter e, talvez, o que distingue fundamentalmente o indiv\u00edduo bom \u00e9 o fato de ele contemplar a verdade na disposi\u00e7\u00e3o, como se ele pr\u00f3prio fosse a regra e a medida. (EN, III, 4, 1113a 29-35).<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><strong>1. A virtude como princ\u00edpio da \u00e9tica<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p>Antes, por\u00e9m, de adentrarmos pr\u00f3priamente no assunto do nosso artigo, \u00e9 m\u00edster discorrer um pouco sobre a virtude<a href=\"#_ftn3\">[3]<\/a>, para a qual tendem as a\u00e7\u00f5es \u00e9ticas. Para Arist\u00f3teles, a virtude se subdivide em moral e intelectual. Apesar de serem distintas, est\u00e3o interligadas e s\u00e3o desenvolvidas ao longo da vida. A virtude do pensamento, ou virtude intelectual, se desenvolve atrav\u00e9s do aprendizado sendo, portanto, indispens\u00e1vel a experi\u00eancia e o tempo, pois pressup\u00f5e amadurecimento ao longo do curso da vida. J\u00e1 a virtude do car\u00e1ter, ou virtude moral, \u00e9 a que resulta do h\u00e1bito e est\u00e1 profundamente ligada aos costumes.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>Sendo a virtude de dois tipos, nomeadamente, intelectual e moral, deve-se a produ\u00e7\u00e3o e amplia\u00e7\u00e3o da primeira sobretudo \u00e0 instru\u00e7\u00e3o, exigindo isso consequentemente experi\u00eancia e tempo. A virtude moral ou \u00e9tica \u00e9 produto do h\u00e1bito, sendo seu nome derivado, com ligeira varia\u00e7\u00e3o dessa palavra. (EN, II, 1, 1103a 14-18).<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>A virtude moral, segundo Arist\u00f3teles, n\u00e3o \u00e9 inata. O ser humano nasce apenas com a potencialidade de desenvolver-se moralmente. A qualidade das a\u00e7\u00f5es praticadas por cada um, em conjunto com outros requisitos, vai terminar por dar a dire\u00e7\u00e3o do desenvolvimento humano, que pode estar a caminho de desenvolver a virtude perfeita no indiv\u00edduo ou n\u00e3o. Esta qualidade moral dos atos, quando repetida em uma determinada dire\u00e7\u00e3o, tender\u00e1 em resultar em um car\u00e1ter espec\u00edfico, como analisa Hobuss: \u201cArist\u00f3teles afirma com clareza que a pr\u00e1tica reiterada de a\u00e7\u00f5es virtuosas leva \u00e0 constitui\u00e7\u00e3o de uma determinada disposi\u00e7\u00e3o de car\u00e1ter, ou seja, o h\u00e1bito acaba por constituir o virtuoso\u201d (HOBUSS, 2011, p. 69).<\/p>\n\n\n\n<p>As virtudes de car\u00e1ter s\u00e3o formadas principalmente pelo h\u00e1bito. Entender como as a\u00e7\u00f5es se constituem no caminho da virtude \u00e9 um ponto muito importante, pois, \u201c[&#8230;] \u00e9 a realiza\u00e7\u00e3o de atos justos que nos torna justos, a de atos moderados que nos torna moderados [&#8230;]\u201d (EN, II, 1, 1103b 1). A forma\u00e7\u00e3o do h\u00e1bito tem um papel fundamental em toda a \u00e9tica aristot\u00e9lica e a educa\u00e7\u00e3o dos desejos, se faz necess\u00e1ria ao desenvolvimento de um car\u00e1ter virtuoso, ser\u00e1 imprescind\u00edvel na busca da virtude perfeita a forma\u00e7\u00e3o do h\u00e1bito, a qual est\u00e1 ligada ao cotidiano da vida humana. Assim, percebe-se que as a\u00e7\u00f5es apresentam, em Arist\u00f3teles, um papel primordial no entendimento e na pr\u00e1tica da virtude perfeita.<\/p>\n\n\n\n<p>O ser humano nasce com determinadas capacidades ligadas, talvez, \u00e0 sua ess\u00eancia de ser um animal racional capaz de se desenvolver e dependente da vida inserida em uma sociedade. Do uso adequado ou inadequado deste conjunto de capacidades, inclina\u00e7\u00f5es e potencialidades, este ser humano vai se formando no decurso de sua vida atrav\u00e9s da educa\u00e7\u00e3o e do conv\u00edvio com os mais variados exemplos e influ\u00eancias externas. \u00c9 fruto desta din\u00e2mica a forma\u00e7\u00e3o do car\u00e1ter, que encontra ainda, outros componentes de relevante import\u00e2ncia para a sua boa forma\u00e7\u00e3o, conforme a tese da virtude perfeita de Arist\u00f3teles.<\/p>\n\n\n\n<p>Diariamente o ser humano se depara com situa\u00e7\u00f5es de toda sorte e complexidade, as quais exigem a\u00e7\u00f5es de acordo com a natureza das mesmas. A an\u00e1lise de Zingano segue nesta ordem:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>N\u00e3o podendo dispor de uma bula pr\u00e9via de procedimentos morais, o agente precisa refinar a sua sensibilidade moral para poder, em cada situa\u00e7\u00e3o em que se encontra, perceber qual \u00e9 a resposta moral adequada para ela. O agente aparece aqui como mais relevante do que a regra moral para que possamos saber o que devemos fazer (ZINGANO, 2013, p. 31).<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><strong>2. A escolha deliberada<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p>E \u00e9 exatamente nesta busca de qual medida tomar, de qual caminho escolher, de como colocar em pr\u00e1tica a a\u00e7\u00e3o de maneira fiel e em acordo com a sua decis\u00e3o, que se concretiza um processo de delibera\u00e7\u00e3o para a escolha da a\u00e7\u00e3o. Tal processo apresenta-se em sua execu\u00e7\u00e3o, o julgamento e a decis\u00e3o: a escolha deliberada<a href=\"#_ftn4\">[4]<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p>Na escolha deliberada o agente exerce o pleno poder da decis\u00e3o<a href=\"#_ftn5\">[5]<\/a> e intensifica o processo de aprendizado e evolu\u00e7\u00e3o do seu car\u00e1ter. Ao ser coerente e ao manter intactos os seus princ\u00edpios internos, sem se importar com as dificuldades ou infort\u00fanios que as suas decis\u00f5es possam trazer, o agente ir\u00e1 visar o processo de execu\u00e7\u00e3o, em que o bem de acordo com a virtude seja o objetivo final, por ele mesmo e n\u00e3o por qualquer outro motivo ou desejo. Na pr\u00e1tica constante, consistente e volunt\u00e1ria do processo da escolha deliberada, em perspectiva e de acordo com a corre\u00e7\u00e3o moral, vai se formando o h\u00e1bito para o agente, abrindo assim o caminho para a virtude moral completa e perfeita da teoria aristot\u00e9lica.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><strong>3. A\u00e7\u00f5es Volunt\u00e1rias e Involunt\u00e1rias<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p>Segundo Arist\u00f3teles, a virtude se relaciona com as paix\u00f5es e as a\u00e7\u00f5es<a href=\"#_ftn6\">[6]<\/a>. Para as paix\u00f5es e a\u00e7\u00f5es volunt\u00e1rias dispensamos louvor e censura, e para as involunt\u00e1rias o perd\u00e3o; da\u00ed a necessidade de estudar a natureza da virtude e distinguir o ato volunt\u00e1rio do involunt\u00e1rio.<\/p>\n\n\n\n<p>Temos, portanto, a seguinte defini\u00e7\u00e3o do que seja uma a\u00e7\u00e3o volunt\u00e1ria e uma a\u00e7\u00e3o involunt\u00e1ria: a a\u00e7\u00e3o volunt\u00e1ria \u00e9 aquela onde detemos a capacidade de escolher entre o fazer e o n\u00e3o fazer, em que o princ\u00edpio que move a a\u00e7\u00e3o encontra-se dentro de n\u00f3s e temos conhecimento das circunst\u00e2ncias particulares do ato:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>&nbsp;[&#8230;] Todavia, assemelham-se mais \u00e0s volunt\u00e1rias, pois no efetivo momento em que s\u00e3o realizadas, s\u00e3o eleitas; e a finalidade de uma a\u00e7\u00e3o subordina-se \u00e0 ocasi\u00e3o [&#8230;] A a\u00e7\u00e3o nessa situa\u00e7\u00e3o \u00e9 volunt\u00e1ria. Com efeito, o princ\u00edpio de movimento das partes \u201cdo corpo\u201d que atuam como instrumentos da a\u00e7\u00e3o reside no agente, e quando o princ\u00edpio da a\u00e7\u00e3o encontra-se em si mesmo, sua realiza\u00e7\u00e3o ou omiss\u00e3o est\u00e1 sob o controle do agente (EN, III, 1, 1110a 12-18).<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>J\u00e1 a a\u00e7\u00e3o involunt\u00e1ria \u00e9 aquela que tem o princ\u00edpio motor fora de quem age, isto \u00e9, for\u00e7osamente:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>Afirma-se geralmente que as \u201cpaix\u00f5es e a\u00e7\u00f5es\u201d s\u00e3o involunt\u00e1rias se ocorrem sob compuls\u00e3o ou causadas pela ignor\u00e2ncia, e que s\u00e3o compuls\u00f3rias quando seu princ\u00edpio \u00e9 externo, sendo de tal natureza que o agente ou paciente nada contribui para ele \u2013 por exemplo, quando se \u00e9 levado a algum lugar pela for\u00e7a do vento ou por pessoas que nos t\u00eam sob seu poder (EN, III, 1, 1110a 1-4).<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Arist\u00f3teles tamb\u00e9m distingue \u201c<em>involunt\u00e1rio<\/em>\u201d de \u201c<em>n\u00e3o-volunt\u00e1rio\u201d<\/em>, em que o primeiro diz respeito ao que produz dor e arrependimento e o segundo o que se faz por ignor\u00e2ncia:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>Todo ato executado por ignor\u00e2ncia \u00e9 em todos os casos <em>n\u00e3o-volunt\u00e1rio<\/em>, sendo <em>involunt\u00e1rio<\/em> somente o ato que causa afli\u00e7\u00e3o e arrependimento a quem praticou. De fato, de algu\u00e9m que agiu por ignor\u00e2ncia e n\u00e3o sente qualquer arrependimento por sua a\u00e7\u00e3o n\u00e3o se pode dizer que agiu voluntariamente considerando-se que n\u00e3o estava ciente de sua a\u00e7\u00e3o e, no entanto, tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 o caso de dizer que tenha agido involunt\u00e1riamente, considerando-se que n\u00e3o sofre pelo que fez.&nbsp; (EN, III, 1, 1110b 19-24).<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Embora tenha presente essa distin\u00e7\u00e3o, o fil\u00f3sofo tamb\u00e9m faz refer\u00eancia aos casos em que se pode discutir se os atos foram volunt\u00e1rios ou involunt\u00e1rios, como quando praticamos algo para evitar um mal maior ou com algum nobre prop\u00f3sito. Arist\u00f3teles exemplifica esse caso por meio do exemplo das cargas de um navio lan\u00e7ados ao mar durante uma tempestade: se para proteger a tripula\u00e7\u00e3o do navio de afundarem \u00e9 preciso abandonar as cargas valiosas ao mar, qualquer homem sensato ter\u00e1 tal atitude (EN, III, 1, 1110a 8-10).<\/p>\n\n\n\n<p>A essas atitudes, Arist\u00f3teles denomina<em> mistas<\/em>. E deste modo, ele conclui que esses atos tendem mais para o volunt\u00e1rio pela raz\u00e3o de serem escolhidos no momento em que se fazem e pelo fato de ser a finalidade de uma a\u00e7\u00e3o relativa \u00e0s circunst\u00e2ncias (EN, III, 1, 1110a 11-12); ou seja, existe uma delibera\u00e7\u00e3o\/reflex\u00e3o por detr\u00e1s da a\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><strong>Conclus\u00e3o<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p>Na obra de Arist\u00f3teles, o que diz respeito \u00e0s virtudes e aos v\u00edcios \u00e9 um dos pontos cruciais de sua \u00e9tica, uma vez que para o estagirita todos os homens tendem por natureza \u00e0 realiza\u00e7\u00e3o de um fim e este fim \u00e9 (a <em>\u03b5\u03c5\u03b4\u03b1\u03b9\u03bc\u03bf\u03bd\u03af\u03b1<\/em>) que se obt\u00e9m por meio da viv\u00eancia da virtude, seja individualmente, seja no meio social, assumindo a sua forma natural por excel\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao realizar este estudo, consideramos que a distin\u00e7\u00e3o entre o que \u00e9 volunt\u00e1rio e o que \u00e9 involunt\u00e1rio nas a\u00e7\u00f5es humanas \u00e9 a primeira tarefa, e necess\u00e1ria para que, assim como Arist\u00f3teles, possamos inferir sobre a responsabilidade das a\u00e7\u00f5es dos indiv\u00edduos e, portanto, da culpabilidade pelo mal moral que cada ser humano pratica, uma vez que est\u00e1 nele um princ\u00edpio motor volunt\u00e1rio que o impele a agir de tal modo; a delibera\u00e7\u00e3o<a href=\"#_ftn7\">[7]<\/a>. Ao longo da hist\u00f3ria diversos fil\u00f3sofos retornam de um modo ou de outro na \u00e9tica aristot\u00e9lica, tanto para assumi-la, como para critic\u00e1-la em algum ponto espec\u00edfico.<\/p>\n\n\n\n<p>No livro III, ao qual me dediquei a expor apenas uma parte, cont\u00e9m elementos que dar\u00e3o suporte para os demais livros de sua obra. A virtude e o v\u00edcio em Arist\u00f3teles s\u00e3o dois conceitos primordiais e indispens\u00e1veis para a compreens\u00e3o de toda a sua doutrina \u00e9tica. Os atos involunt\u00e1rio, volunt\u00e1rio e misto s\u00e3o o terreno para a verifica\u00e7\u00e3o da virtude e do v\u00edcio, por meio do estudo da teoria da a\u00e7\u00e3o, observando o aspecto do conhecimento ou n\u00e3o das circunst\u00e2ncias particulares nas quais a a\u00e7\u00e3o ocorre, valorizando a figura do agente, evidenciando se este \u00e9 ou n\u00e3o princ\u00edpio da a\u00e7\u00e3o, o que sup\u00f5e um detalhamento do car\u00e1ter involunt\u00e1rio e volunt\u00e1rio da a\u00e7\u00e3o. Um foco especial \u00e9 dirigido ao ato volunt\u00e1rio, que far\u00e1 parte insepar\u00e1vel do processo de tomada de decis\u00e3o por delibera\u00e7\u00e3o buscando entender a liga\u00e7\u00e3o do processo de escolha deliberada com a virtude perfeita, identificando a delibera\u00e7\u00e3o e a escolha como o lugar mais pr\u00f3prio da responsabilidade moral.<\/p>\n\n\n\n<p>Embora outros autores talvez tenham raz\u00e3o em admitir alguns pontos obscuros da teoria \u00e9tica de Arist\u00f3teles, n\u00e3o podemos negar o fato de que ela ainda \u00e9 muito atual, e que tem servido de base e fundamento para muitas teorias morais e \u00e9ticas ao longo da Hist\u00f3ria da Filosofia, haja vista quantos autores em todos os tempos t\u00eam se dedicado ao estudo e pesquisa deste grande nome da Antiguidade.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p>ARIST\u00d3TELES, <em>\u00c9tica a Nic\u00f4maco<\/em>. trad. Edson Bini, 4. ed. S\u00e3o Paulo: Edipro, 2014.<\/p>\n\n\n\n<p>HOBUSS, J. (Org.). <em>\u00c9tica das virtudes<\/em>. Florian\u00f3polis: Editora da UFSC, 2011, p. 69-84.<\/p>\n\n\n\n<p>KANT, Immanuel. <em>Fundamenta\u00e7\u00e3o da metaf\u00edsica dos costumes<\/em>. S\u00e3o Paulo: Abril Cultural, 1980.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;MOLON, Marcel Andr\u00e9. <em>Delibera\u00e7\u00e3o, escolha, a\u00e7\u00e3o e responsabilidade moral em Arist\u00f3tele.<\/em> Disserta\u00e7\u00e3o (Mestrado) &#8211; Universidade de Caxias do Sul 2015. Dispon\u00edvel em:&lt;<a href=\"https:\/\/repositorio.ucs.br\/xmlui\/bitstream\/handle\/11338\/1187\/dissertacaomarcelandrademolon.pdf?sequence=1&amp;isallowed=y\">https:\/\/repositorio.ucs.br\/xmlui\/bitstream\/handle\/11338\/1187\/dissertacaomarcelandrademolon.pdf?sequence=1&amp;isallowed=y<\/a>&gt;. Acesso em 5 de abril de 2021.<\/p>\n\n\n\n<p>NORMANDO, Afonso Gabriel Gadelha. Liberdade e a\u00e7\u00f5es volunt\u00e1rias em Arist\u00f3teles. <em>Revista Aproxima\u00e7\u00e3o<\/em>. Volume 10 &#8211; Edi\u00e7\u00e3o 2018.2 &#8211; p. 21-36, Maio 2019. dispon\u00edvel em: &lt;<a href=\"https:\/\/aproximacaoifcs.wordpress.com\/\">https:\/\/aproximacaoifcs.wordpress.com\/<\/a>&gt;. Acesso em 5 de abril de 2021.<\/p>\n\n\n\n<p>OLIVEIRA, Cl\u00e1udia Maria Rocha de; MELO, Edvaldo Antonio de.&nbsp;<em>Realiza\u00e7\u00e3o e Raz\u00e3o Pr\u00e1tica.<\/em>&nbsp;In: OLIVEIRA, Cl\u00e1udia Maria Rocha de; ROCHA, Marcelo Ant\u00f4nio de (Org.).&nbsp;<em>O que torna uma vida realizada<\/em>: Homenagem aos 100 anos de Henrique Cl\u00e1udio de Lima Vaz.1ed. Porto Alegre: Editora Fi, 2020, p. 100-122.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>PADOVANI, Umberto; CASTAGNOLA, Lu\u00eds. Orgs. <em>Hist\u00f3ria da Filosofia<\/em>. 13. ed. S\u00e3o Paulo: Melhoramentos, 1981.<\/p>\n\n\n\n<p>VAZ, Henrique C. de Lima. <em>Escritos de Filosofia II: \u00e9tica e cultura<\/em>. S\u00e3o Paulo: Loyola, 1988.<\/p>\n\n\n\n<p>WOLF, Ursula. <em>A \u00e9tica a nic\u00f4maco de Arist\u00f3teles<\/em>. trad. Enio Paulo Giachini. S\u00e3o Paulo: Loyola, 2010.<\/p>\n\n\n\n<p>ZINGANO, M. <em>Arist\u00f3teles: tratado da virtude moral<\/em>; Ethica Nicomachea I 13 \u2013 III 8. S\u00e3o Paulo: Odysseus, 2008.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator\"\/>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref1\">[1]<\/a> Kant mostra-nos, que nossos atos devem sempre estar calcados no dever e n\u00e3o no simples interesse. Para ele, o dever \u00e9 o princ\u00edpio supremo da moralidade. Arist\u00f3teles, do mesmo modo, ao apresentar os diferentes modos de a\u00e7\u00e3o em sua obra <em>\u00c9tica a Nic\u00f4maco<\/em>, demonstra grande preocupa\u00e7\u00e3o para com \u201co pano de fundo da a\u00e7\u00e3o\u201d, o que motiva o ser humano a agir, para assim tirar suas conclus\u00f5es acerca da \u00e9tica.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref2\">[2]<\/a> De fato, o homem delibera sobre os meios para atingir tais fins que s\u00e3o j\u00e1 postos. Os fins n\u00e3o s\u00e3o escolhidos, mas os meios que, por sua vez, s\u00e3o contingentes (OLIVEIRA, 2020, p. 108).<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref3\">[3]<\/a> A virtude, para Arist\u00f3teles, se subdivide em moral e intelectual. Tal divis\u00e3o \u00e9 anunciada na EN na transi\u00e7\u00e3o do Livro I ao Livro II, mais especificamente em I 13. Ja \u00e0s virtudes morais, como coragem, temperan\u00e7a, generosidade, magnific\u00eancia e magnanimidade, Arist\u00f3teles dedica os Livros II, III, IV, V; \u00e0s intelectuais, como prud\u00eancia, sabedoria filos\u00f3fica, intelig\u00eancia, ci\u00eancia e arte, o Livro VI.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref4\">[4]<\/a> Ao explicitar a estrutura subjetiva do agir \u00e9tico, Lima Vaz entende que o \u201csilogismo pr\u00e1tico\u201d \u2013 conforme interpreta Arist\u00f3teles \u2013 diz respeito \u00e0s \u201ca\u00e7\u00f5es a serem realizadas\u201d, exprimem a l\u00f3gica imanente da raz\u00e3o pr\u00e1tica, a saber, da estrutura formal do agir intencionado para o fim que \u00e9 o Bem. Tal estrutura vem articulada de modo circular entre intelig\u00eancia e vontade, no ato humano da delibera\u00e7\u00e3o: \u201ca intelig\u00eancia julga a retid\u00e3o da vontade e a vontade impera o assentimento da intelig\u00eancia\u201d.&nbsp; Para Arist\u00f3teles, em linhas gerais, tr\u00eas coisas determinam o agir e a verdade: a \u201cpercep\u00e7\u00e3o sensorial\u201d (<em>aisthesis<\/em>), o \u201cintelecto\u201d (<em>nous<\/em>) e o \u201cdesejo\u201d (<em>orexis<\/em>). (OLIVERA; MELO, 2020, p. 106).<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref5\">[5]<\/a> Segundo Wolf (2010, p. 77), Arist\u00f3teles representa o estabelecer-se de uma a\u00e7\u00e3o, na qual uma pessoa reage a uma afec\u00e7\u00e3o ou na qual se manifesta uma <em>hexis<\/em> \u00e9tica, de tal modo que a aspira\u00e7\u00e3o afetiva aciona uma delibera\u00e7\u00e3o que leva a uma <em>proairesis<\/em> (decis\u00e3o\/escolha) sobre a a\u00e7\u00e3o correta a ser feita.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref6\">[6]<\/a> A partir do conceito de virtude, nos dedicamos ao estudo da teoria da a\u00e7\u00e3o, enfatizando o aspecto do conhecimento ou n\u00e3o das circunst\u00e2ncias particulares nas quais a a\u00e7\u00e3o ocorre, elucidando o aspecto do agente ser ou n\u00e3o o princ\u00edpio da a\u00e7\u00e3o, o que sup\u00f5e um detalhamento do car\u00e1ter involunt\u00e1rio e volunt\u00e1rio da a\u00e7\u00e3o. Ao ato volunt\u00e1rio, \u00e9 dado um grande enfoque, pois \u00e9 justamente ele que far\u00e1 parte do processo de tomada de decis\u00e3o por delibera\u00e7\u00e3o; e por meio do qual poderemos julgar se a\u00e7\u00e3o \u00e9 \u00e9tica\/virtuosa, ou n\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref7\">[7]<\/a> A escolha deliberada \u00e9 condi\u00e7\u00e3o indispens\u00e1vel para a responsabilidade moral. Assim, se h\u00e1 escolha deliberada, ent\u00e3o h\u00e1 responsabilidade moral. Podemos perceber que em Arist\u00f3teles a responsabilidade parece ser maior nos casos onde h\u00e1 delibera\u00e7\u00e3o, at\u00e9 mesmo, do que naqueles em que h\u00e1 apenas voluntariedade na a\u00e7\u00e3o.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>*Matheus Gomes Ferreira Resumo: Em sua obra \u00c9tica a Nic\u00f4maco, especificamente no livro III, Arist\u00f3teles dedicou-se a apresentar os elementos que comp\u00f5em uma teoria da a\u00e7\u00e3o. Tal teoria encontra-se sistematizada no quadro da responsabilidade moral e requer a investiga\u00e7\u00e3o do racioc\u00ednio pr\u00e1tico implicado nas a\u00e7\u00f5es humanas, o qual \u00e9 efetivado, a partir, da escolha deliberada, &hellip; <\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_mi_skip_tracking":false,"footnotes":""},"categories":[4,561,1],"tags":[202,306,563,562],"class_list":{"0":"entry","1":"post","2":"publish","3":"author-admin","4":"post-2862","6":"format-standard","7":"category-aristoteles","8":"category-matheus-gomes-ferreira","9":"category-uncategorized","10":"post_tag-etica","11":"post_tag-filosofia","12":"post_tag-involuntario","13":"post_tag-voluntario"},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2862","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=2862"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2862\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2866,"href":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2862\/revisions\/2866"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=2862"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=2862"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=2862"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}