{"id":2878,"date":"2022-12-08T16:43:14","date_gmt":"2022-12-08T19:43:14","guid":{"rendered":"http:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/?p=2878"},"modified":"2022-12-08T16:50:26","modified_gmt":"2022-12-08T19:50:26","slug":"a-religiao-crista-como-instrumento-para-a-relacao-do-homem-com-deus-em-blaise-pascal","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/?p=2878","title":{"rendered":"A RELIGI\u00c3O CRIST\u00c3 COMO INSTRUMENTO PARA A RELA\u00c7\u00c3O DO HOMEM COM DEUS EM BLAISE PASCAL"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-text-align-right\">Bruno C\u00e9sar de Matos<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Resumo: <\/strong>O prop\u00f3sito central dessa pesquisa consiste em desenvolver a partir do aspecto apolog\u00e9tico de Pascal, o valor da religi\u00e3o crist\u00e3 e como ela ajuda o ser humano no processo de rela\u00e7\u00e3o com Deus. A Pessoa divina e o homem s\u00e3o apresentados distantes um do outro, por isso, como solu\u00e7\u00e3o dessa despropor\u00e7\u00e3o entre infinito e finito, Pascal apresenta a pessoa de Jesus Cristo, pois, Ele n\u00e3o deixa o ser humano estar apegado \u00e0 sua mis\u00e9ria e nem \u00e0 sua grandeza, aspectos constitutivos do homem. Assim, o homem n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o miser\u00e1vel porque \u00e9 amado por Deus em Jesus Cristo, mas tamb\u00e9m, n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o grandioso porque a perfei\u00e7\u00e3o est\u00e1 em Jesus. Al\u00e9m disso, toda a felicidade consiste em estar unido a Ele.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Palavras chave: <\/strong>Homem. Deus. Jesus Cristo. Religi\u00e3o crist\u00e3.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">Introdu\u00e7\u00e3o<\/h3>\n\n\n\n<p>Blaise Pascal nasceu em 19 de junho de 1623, em Clermont-Ferrand, na Fran\u00e7a. O jovem franc\u00eas era filho de Etienne Pascal e Antoniette Bejon. Sendo professor de matem\u00e1tica, o pai de Pascal n\u00e3o deixou que o filho tivesse tanto contato com a respectiva ci\u00eancia e com seus livros, para que a crian\u00e7a aproveitasse sua inf\u00e2ncia. Por\u00e9m, mesmo sem a instru\u00e7\u00e3o de algum professor ou familiar, Pascal come\u00e7ou a desenvolver seus estudos. Algumas figuras geom\u00e9tricas desenhadas por seu pai no ch\u00e3o com carv\u00e3o o surpreenderam. Assim, alguns anos depois, encantado pela profiss\u00e3o do pai, Pascal come\u00e7ou seus estudoss de geometria usando os livros dos \u201c<em>Elementos de Euclides\u201d<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p>Aos 16 anos de idade, Pascal escreveu um tratado que n\u00e3o quis publicar, intitulado de <em>\u201cTratado Sobre as C\u00f4nicas\u201d.<\/em> Tr\u00eas anos mais tarde, o jovem estudioso inventou a m\u00e1quina aritm\u00e9tica e essa inven\u00e7\u00e3o foi considera uma revolu\u00e7\u00e3o no mundo cientifico. Al\u00e9m disso, realizou a experi\u00eancia do v\u00e1cuo, referente \u00e0 press\u00e3o atmosf\u00e9rica. Contudo, depois de v\u00e1rias outras descobertas no mundo cientifico, \u201ccome\u00e7ou, por volta dos trinta anos de idade, a se aplicar a coisas mais s\u00e9rias e mais elevadas, e a dedicar-se unicamente, tanto quanto a sa\u00fade lhe permitia, ao estudo das Escrituras, dos Padres da Igreja e da moral crist\u00e3\u201d (PASCAL, 2005, p. 26).<\/p>\n\n\n\n<p>Em pouco tempo, Pascal escreveu uma obra m\u00edstica e dois trabalhos de cunho apolog\u00e9tico, denominado \u201c<em>Col\u00f3quios com o Senhor Saci sobre Epicteto e Montaigne\u201d<\/em> e as \u201c<em>Prov\u00edncias\u201d<\/em>. Todavia, a motiva\u00e7\u00e3o dessa mudan\u00e7a de estudos e descobertas, foi a partir da influ\u00eancia do jansenismo, uma cren\u00e7a religiosa que se originou na Fran\u00e7a e recebeu o nome de seu fundador, Jansenius, bispo da Igreja Cat\u00f3lica e fiel leitor de Santo Agostinho. Pascal e toda a sua fam\u00edlia realizou a leitura das obras de Saint-Cyran, abade da abadia de Port-Royal. Essa abadia, localiza-se nas proximidades de Versailles, mosteiro que a irm\u00e3 de Pascal, Jacqueline Arnauld, ingressou.<\/p>\n\n\n\n<p>A partir de toda a influencia do jansenismo, Epicteto e Montaigne, Pascal foi elaborando sua concep\u00e7\u00e3o antropol\u00f3gica. Assim, atrav\u00e9s dos fragmentos presentes na obra \u201c<em>Pensamentos\u201d<\/em>, Pascal analisa o ser humano a partir de um g\u00eanero apolog\u00e9tico, fazendo desdobramentos sobre o drama existencial humano e sobre os reflexos mais profundos no modo do ser humano pensar e agir. O g\u00eanero apolog\u00e9tico d\u00e1-se pelo fato de Pascal acolher a doutrina da religi\u00e3o crist\u00e3. Nessa perspectiva, \u201cno horizonte da Apologia est\u00e1, pois, o conhecimento de Deus e do homem\u201d (PASCAL, 2005, p. 8).<\/p>\n\n\n\n<p>Para Pascal, o homem \u00e9 um ser paradoxal, isto \u00e9, grande e miser\u00e1vel ao mesmo tempo. Todavia, a antropologia pascaliana n\u00e3o \u00e9 o foco desse artigo, mas conhecer esta defini\u00e7\u00e3o ajuda na compreens\u00e3o do tema proposto. Ademias, o artigo visa apresentar o modo como Pascal reconhece a religi\u00e3o crist\u00e3 como verdadeira, enfatizando que \u00e9 por ela que o homem recebe a fundamenta\u00e7\u00e3o e meios oportunos que apontam para o Absoluto. Al\u00e9m disso, a partir de sua Apologia crist\u00e3, salientar como a felicidade e a pr\u00f3pria condi\u00e7\u00e3o do homem s\u00e3o definidas a partir da rela\u00e7\u00e3o com Deus.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">A import\u00e2ncia da religi\u00e3o crist\u00e3 no pensamento pascaliano<\/h3>\n\n\n\n<p>Na obra Pensamentos, Pascal emonstra o valor da religi\u00e3o e enfatiza tamb\u00e9m que o homem encontra em Deus, por meio do cristianismo, o verdadeiro caminho para a felicidade e um equil\u00edbrio de sua condi\u00e7\u00e3o. Assim, \u201csomente a religi\u00e3o crist\u00e3 uniria os opostos e daria ao homem sua real condi\u00e7\u00e3o: grandeza e mis\u00e9ria\u201d (LUCIANO, 2015, p. 58). Para Pascal (2005, Laf. 149, p. 93),<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>As grandezas e as mis\u00e9rias do homem s\u00e3o t\u00e3o vis\u00edveis que \u00e9 absolutamente necess\u00e1rio que a verdadeira religi\u00e3o nos ensine tanto que existe algum grande princ\u00edpio de grandeza no homem como tamb\u00e9m que h\u00e1 nele um grande princ\u00edpio de mis\u00e9ria. \u00c9 tamb\u00e9m necess\u00e1rio que ela nos explique a raz\u00e3o dessas espantosas contrariedades. \u00c9 necess\u00e1rio que, para tornar o homem feliz, ela lhe mostre que h\u00e1 um Deus, a quem somos obrigados a amar, que a nossa verdadeira felicidade est\u00e1 em estar nele, e o nosso \u00fanico mal consiste em estar separado dele, que ela reconhe\u00e7a que somos cheios de trevas que nos impedem de conhec\u00ea-lo e de am\u00e1-lo, e que assim, obrigando-nos os nossos deveres a amar a Deus e disso nos desviando as nossas concupisc\u00eancias, estamos cheios de injusti\u00e7as. \u00c9 necess\u00e1rio que ela nos d\u00ea as raz\u00f5es dessas oposi\u00e7\u00f5es que temos em rela\u00e7\u00e3o a Deus e nosso pr\u00f3prio bem. \u00c9 necess\u00e1rio que nos ensinem os rem\u00e9dios para nossas impot\u00eancias e os meios de obter esses rem\u00e9dios. Examinem-se a esse respeito todas as religi\u00f5es do mundo e veja se existe alguma outra, fora a crist\u00e3, que a isso satisfa\u00e7a.<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Nesse sentido, Pascal aponta a religi\u00e3o crist\u00e3 como a principal via do homem para entender sua realidade. Ou seja, ela oferece ao sujeito um caminho para suprir suas necessidades, suas d\u00favidas, seus questionamentos. Assim, pela religi\u00e3o crist\u00e3 \u201co homem h\u00e1 de regular toda a sua conduta para a busca do Deus que responder\u00e1 \u00e0s suas perguntas e satisfar\u00e1 completamente sua \u00e2nsia de felicidade\u201d (FERREIRA, 2012, p. 56-57). Al\u00e9m disso, Pascal diferencia a religi\u00e3o crist\u00e3 das demais, caracterizando-a como a \u00fanica verdadeira. Desse modo, ressalta Pascal (2005, Laf. 214, p. 117):<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>A verdadeira religi\u00e3o deve ter como marca obrigar a amar o seu Deus. Isso \u00e9 muito justo e no entanto nenhuma o ordenou, a nossa o fez. Deve ainda ter conhecido a concupisc\u00eancia e a impot\u00eancia, a nossa o fez. Deve ter trazido rem\u00e9dios para isso, um deles \u00e9 a ora\u00e7\u00e3o. Nenhuma religi\u00e3o pediu a Deus para am\u00e1-lo e segui-lo.<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Nessa perspectiva, no pensamento pascaliano a religi\u00e3o crist\u00e3 \u00e9 a ideal para o homem. Por conseguinte, das caracter\u00edsticas que Pascal sublinha acerca dessa religi\u00e3o, a do conhecimento da grandeza e mis\u00e9ria do homem \u00e9 a mais importante. Logo, o caminho para mostrar que a religi\u00e3o \u00e9 verdadeira d\u00e1-se pelo conhecimento da natureza humana. Essa ideia \u00e9 expressa por Pascal (2005, Laf. 215, p. 118), quando ele diz que \u201cpara fazer com que a religi\u00e3o seja verdadeira, que ela tenha conhecido a nossa natureza. Ela deve ter conhecido a grandeza e a pequenez, e a raz\u00e3o de uma de outra. Quem a conheceu sen\u00e3o a religi\u00e3o crist\u00e3?\u201d. Contudo, grandeza e mis\u00e9ria s\u00e3o \u201cos dois princ\u00edpios inerentes \u00e0 condi\u00e7\u00e3o humana\u201d (ROCHA, 2019, p. 247).<\/p>\n\n\n\n<p>A partir dessa compreens\u00e3o o autor reitera que \u201ca verdadeira religi\u00e3o ensina os nossos deveres, as nossas impot\u00eancias, orgulho e concupisc\u00eancia, e os rem\u00e9dios, humildade e&nbsp; mortifica\u00e7\u00e3o\u201d (PASCAL, 2005, Laf. 216, p. 118). Desse modo, o homem precisa conhec\u00ea-la e ter cuidado para n\u00e3o ignor\u00e1-la. Segundo Pascal (2005, Laf. 449, p. 197), existem aqueles que n\u00e3o conhecem a&nbsp; religi\u00e3o de maneira adequada e correm o risco de blasfemar contra ela. Assim, todos os homens que julgam a religi\u00e3o crist\u00e3 por essa falta de conhecimento da mesma:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>Imaginam que ela consiste simplesmente na adora\u00e7\u00e3o de um Deus considerado como grande, poderoso e eterno; o que \u00e9 propriamente o de\u00edsmo, quase t\u00e3o afastado da realidade crist\u00e3 quanto o ate\u00edsmo, que \u00e9 exatamente o contr\u00e1rio. E da\u00ed concluem que essa religi\u00e3o n\u00e3o \u00e9 verdadeira, porque n\u00e3o v\u00eaem que todas as coisas concorrem para o estabelecimento deste ponto, que Deus n\u00e3o se manifesta aos homens com toda evid\u00eancia com que poderia faz\u00ea-lo. (PASCAL, 2005, Laf. 449, p. 198)<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Pascal questiona, nesse fragmento, o julgamento que muitos fazem da religi\u00e3o crist\u00e3 sem conhec\u00ea-la de fato, sem entender o que ela ensina. A religi\u00e3o crist\u00e3, para Pascal (2005, Laf. 449, p. 198), \u201cconsiste propriamente&nbsp; no mist\u00e9rio do Redentor, que unindo nele as duas naturezas, humana e divina, retirou os homens da corrup\u00e7\u00e3o do pecado para concili\u00e1-los com Deus em sua pessoa divina\u201d. \u00c9 atrav\u00e9s desta religi\u00e3o que o homem alcan\u00e7a de Deus a salva\u00e7\u00e3o. Em resumo, ela \u00e9 um instrumento para que o homem conhe\u00e7a Deus e sua condi\u00e7\u00e3o. Por conseguinte, al\u00e9m dos ensinamentos j\u00e1 citados acima, realizados pela religi\u00e3o crist\u00e3, afirma Pascal (2005, Laf. 449, p. 198):<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>Ela ensina, pois, conjuntamente aos homens estas duas verdades: tanto que h\u00e1 um Deus de que os homens s\u00e3o capazes, quanto que h\u00e1 uma corrup\u00e7\u00e3o na natureza que os torna indignos dele. Importa igualmente aos homens conhecer um e outro desses pontos; e \u00e9 igualmente perigoso para o homem conhecer a Deus sem conhecer a pr\u00f3pria mis\u00e9ria, e conhecer a pr\u00f3pria mis\u00e9ria sem conhecer o Redentor que pode cur\u00e1-lo dela. Um s\u00f3 desses conhecimentos faz, ou a soberba dos fil\u00f3sofos, que conheceram a Deus e n\u00e3o a sua mis\u00e9ria, ou o desespero dos ateus, que conhecem a sua mis\u00e9ria sem o redentor. E assim como faz parte da necessidade do homem conhecer esses dois pontos, faz igualmente parte da miseric\u00f3rdia de Deus ter-nos feito conhec\u00ea-los. A religi\u00e3o crist\u00e3 o fez, \u00e9 nisso que ela consiste.<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Nessa perspectiva, essas duas verdades levantadas por Pascal mostram o quanto a religi\u00e3o crist\u00e3 ajuda o ser humano a enxergar a pr\u00f3pria verdade de si mesmo e de Deus. Em suma, o cristianismo no pensamento pascaliano cont\u00e9m dois sentidos, a saber, \u201cele n\u00e3o somente resolve o problema do car\u00e1ter humano, mas tamb\u00e9m oferece uma solu\u00e7\u00e3o para sua infelicidade\u201d (ROGERS, 2001, p. 20).<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">A presen\u00e7a ou aus\u00eancia de Jesus Cristo na vida do homem<\/h3>\n\n\n\n<p>O homem miser\u00e1vel \u00e9 caracterizado, conforme Pascal, pela err\u00e2ncia desorientada sem Deus at\u00e9 ser reorientado pelo socorro gratuito divino. Ou seja, o sujeito est\u00e1 caracterizado pela mis\u00e9ria sem Deus, grande e feliz pela presen\u00e7a da pessoa divina. \u00c9 isso que afirma Pascal (2005, Laf. 431, p. 193), ao dizer que \u201ctudo que nos importa conhecer \u00e9 que somos miser\u00e1veis, corruptos, separados de Deus, mas resgatados por Jesus Cristo\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>No pensamento pascaliano, Jesus Cristo \u00e9 a figura que melhor representa a santidade, a humildade, a aus\u00eancia de pecado. \u00c9 pelo cristianismo que o homem percebe que a vida, os ensinamentos e as obras de Cristo foram sinais da sua santidade. Uma santidade que apaga os pecados do homem com a entrega da pr\u00f3pria vida na cruz. Segundo Pascal (2005, Laf. 449, p. 199), Cristo \u201c\u00e9 o objeto de tudo e o centro para qual tudo se tende. Quem O conhece, conhece a raz\u00e3o de todas as coisas\u201d. E tamb\u00e9m, para Pascal (2005, p. 17), \u201cfora de Jesus Cristo n\u00e3o sabemos o que \u00e9 nem nossa vida, nem nossa morte, nem Deus, nem n\u00f3s mesmos\u201d. Por certo, o conhecimento de Deus se d\u00e1 pelo conhecimento de Cristo, como apresenta Pascal (2005, Laf. 189, p. 104) no fragmento intitulado de <em>Deus por Jesus Cristo<\/em>:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>N\u00e3o conhecemos a Deus sen\u00e3o por Jesus Cristo. Sem esse mediador \u00e9 retirar qualquer comunica\u00e7\u00e3o com Deus. Por Jesus Cristo n\u00f3s conhecemos a Deus. Todos aqueles que pretenderam conhecer a Deus e prov\u00e1-lo sem Jesus Cristo n\u00e3o tinham mais que provas impotentes. Mas para provar Jesus Cristo temos as profecias que s\u00e3o provas s\u00f3lidas e provadas como verdadeiras pelo acontecimento, marcam a certeza dessas verdades e portanto a prova da divindade de Jesus Cristo. Nele e por ele conhecemos pois a Deus. Fora da\u00ed e sem as Escrituras, sem o pecado original, sem o mediador necess\u00e1rio, prometido e vindo, n\u00e3o se pode absolutamente provar Deus nem ensinar boa doutrina ou boa moral.<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Nessa perspectiva do conhecimento da pessoa divina, \u00e9 preciso destacar que \u201ca media\u00e7\u00e3o de Cristo n\u00e3o p\u00f5e fim a uma insufici\u00eancia inerente \u00e0 condi\u00e7\u00e3o humana, mas reestrutura a a\u00e7\u00e3o humana para o seu verdadeiro fim existencial e essencial [&#8230;]\u201d (LUCIANO, 2015, p. 113). Portanto, Pascal trata sobre um equil\u00edbrio da condi\u00e7\u00e3o humana a partir de Jesus Cristo na vida do homem, pois, \u00e9 na rela\u00e7\u00e3o com o Divino, atrav\u00e9s dos meios que o cristianismo oferece de ensinamentos, que o homem torna-se bom, feliz e realizado.<\/p>\n\n\n\n<p>A rela\u00e7\u00e3o com Deus \u00e9 de suma import\u00e2ncia no pensamento pascaliano para que o homem n\u00e3o fique mergulhado ou condenado no <em>divetissement<\/em>, ou seja, que o homem continue com sua estrutura humana desequilibrada pela fuga de si mesmo. Pois, para Pascal (2005, Laf. 427, p. 185), sem Deus \u201cn\u00e3o \u00e9 preciso ter a alma muito elevada para compreender que n\u00e3o h\u00e1 aqui satisfa\u00e7\u00e3o verdadeira e s\u00f3lida [&#8230;]\u201d. Al\u00e9m disso, fazendo refer\u00eancia \u00e0s Escrituras, afirma Pascal (2005, Laf. 75 p. 64):<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>O Eclesiastes mostra que o homem sem Deus fica na ignor\u00e2ncia de tudo e numa infelicidade inevit\u00e1vel, pois \u00e9 ser infeliz querer e n\u00e3o poder. Ora, ele quer ser feliz e estar seguro de alguma verdade. E, no entanto, n\u00e3o pode nem saber, nem desejar saber. Nem mesmo pode duvidar.<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Nesse sentido, a aus\u00eancia da presen\u00e7a de Deus mant\u00e9m o homem em seu estado de disfarce diante de sua condi\u00e7\u00e3o miser\u00e1vel. Al\u00e9m disso, \u201co homem sem Deus \u00e9 insuport\u00e1vel para si mesmo\u201d (MARTINS, 2017, p. 277). Segundo Rocha (2019, p. 432), nessa \u201caus\u00eancia de uma rela\u00e7\u00e3o com Deus, voltamo-nos para os prazeres no intuito de esquecer nosso miser\u00e1vel estado, mas isso tem de fato apenas um efeito mais destrutivo, porque nos afasta ainda mais do Criador\u201d. Por isso, \u00e9 preciso que o homem reconhe\u00e7a suas fragilidades e assuma a prefer\u00eancia por Deus, pois, \u00e9 a gra\u00e7a divina que restaurar\u00e1 o indiv\u00edduo. Segundo Luciano (2015, p. 22), \u201ca gra\u00e7a n\u00e3o se justap\u00f5e \u00e0 natureza, mas a remodela para o seu fim essencial. A gra\u00e7a \u00e9 reordena\u00e7\u00e3o interior do homem desorientado pela mis\u00e9ria de sua atual condi\u00e7\u00e3o\u201d. Desse modo, h\u00e1 no ser humano uma natureza contradit\u00f3ria que \u00e9 imposs\u00edvel ser exclu\u00edda pela gra\u00e7a. Como ressalta Bischoff (2001, p. 144-145):<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>a natureza \u00e9 uma imagem da gra\u00e7a. Se nada muda na natureza, tudo \u00e9, no entanto, renovado pelo sentido da gra\u00e7a; como pela transforma\u00e7\u00e3o operada pelo sol: a paisagem n\u00e3o mudou e ainda assim n\u00e3o \u00e9 a mesma. Assim, est\u00e1 o cora\u00e7\u00e3o \u2018cheio de imund\u00edcie\u2019 em rela\u00e7\u00e3o ao cora\u00e7\u00e3o fonte de luz. [&#8230;] \u00c9 necess\u00e1rio entender: o cora\u00e7\u00e3o que sente Deus pela f\u00e9 n\u00e3o \u00e9 o cora\u00e7\u00e3o do homem p\u00f3s-queda amante da concupisc\u00eancia. Somente pode sentir Deus o cora\u00e7\u00e3o iluminado pela f\u00e9 que \u00e9 gra\u00e7a e dom de Deus. \u00c9, portanto, a gra\u00e7a que segundo Pascal pode transformar o cora\u00e7\u00e3o cheio de imund\u00edcie do homem sem Deus amante da concupisc\u00eancia em cora\u00e7\u00e3o de luz amante da caridade; assim \u00e9 a gra\u00e7a que d\u00e1 ao homem um \u2018cora\u00e7\u00e3o novo\u2019.<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Assim, pela iniciativa divina, o homem recebe a gra\u00e7a sem m\u00e9rito algum de sua parte, ou seja, ela n\u00e3o \u00e9 dada por merecimento humano, mas como dom gratuito de Deus que quer encontrar o ser humano. A uni\u00e3o do ser humano com Deus, para Pascal (2005, p. 95), \u201c\u00e9 por gra\u00e7a, n\u00e3o por natureza\u201d. E \u201cessa uni\u00e3o de Deus ao homem na figura de Cristo constitui o n\u00facleo da teoria da gra\u00e7a\u201d (NASCIMENTO, 2006, p. 84). \u00c9 por meio dela \u201cque o homem poder\u00e1 considerar a si mesmo, perceber seu vazio infinito que separa Deus da criatura e, por meio do Mediador, restabelecer a ordem primordial\u201d (MARTINS, 2017, p. 277).<\/p>\n\n\n\n<p>A ordem primordial \u00e9 o estado de viv\u00eancia do homem semelhante ao seu Criador. Portanto, o que foi perdido ou desconfigurado na condi\u00e7\u00e3o humana devido ao pecado \u00e9 restaurado pela presen\u00e7a de Jesus. Em s\u00edntese, \u201cCristo encarna a mis\u00e9ria, mas sem o pecado. Ele padece a mis\u00e9ria de toda a humanidade, fazendo-se mis\u00e9ria pela criatura\u201d (MARTINS, 2017, p. 293).<\/p>\n\n\n\n<p>A obra da reden\u00e7\u00e3o no pensamento pascaliano concentra-se nesse aspecto: pela gra\u00e7a de Deus, Cristo sacrificou a pr\u00f3pria vida para que por meio dele o homem obtivesse a salva\u00e7\u00e3o. \u00c9 por esta raz\u00e3o, que segundo Pascal (2005, Laf. 416, p. 178), \u201csem Jesus Cristo, o homem tem de ficar no v\u00edcio e na mis\u00e9ria. Com Jesus Cristo, o homem fica isento de v\u00edcio e de mis\u00e9ria. Nele est\u00e1 toda a nossa virtude e toda a nossa felicidade. Fora dele s\u00f3 h\u00e1 v\u00edcio, mis\u00e9ria, erro, trevas, morte, desespero\u201d. Na vis\u00e3o de Martins (2017, p. 283), \u201cas palavras de Pascal s\u00e3o enf\u00e1ticas: Deus n\u00e3o considera o homem sem Jesus Cristo, mas os homens fazem o que n\u00e3o deveriam, isto \u00e9, olham a si mesmos e aos outros sem o Cristo, rompendo a media\u00e7\u00e3o\u201d. Por certo, o rompimento dessa media\u00e7\u00e3o deixar\u00e1 o homem distante da felicidade que tanto aspira e deseja.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">Conclus\u00e3o<\/h3>\n\n\n\n<p>Em suma, no pensamento pascaliano, a religi\u00e3o d\u00e1 ao homem fundamenta\u00e7\u00e3o e meios oportunos que apontam Jesus, o mediador entre Deus e o homem. A religi\u00e3o crist\u00e3 desempenha um papel importantissimo no que tange a compreens\u00e3o do homem e de Deus que est\u00e1 al\u00e9m das outras religi\u00f5es. Al\u00e9m disso, ela d\u00e1 ao homem uma raz\u00e3o para as espantosas contradi\u00e7\u00f5es de sua condi\u00e7\u00e3o. Nela est\u00e1 toda a sabedoria de Deus, por isso, o homem precisa aproximar, conhecer e seguir os ensinamentos que ela transmite. Desse modo, a f\u00e9 em Jesus Cristo \u00e9 o caminho que Pascal oferece para preencher o vazio existencial do ser humano, pois em Cristo est\u00e1 toda a felicidade e fora dele o homem permanece sujeito a todas as infelicidades. Logo, para Pascal, a felicidade est\u00e1 somente na rela\u00e7\u00e3o com a pessoa divina. O homem pascaliano alcan\u00e7a a felicidade t\u00e3o aspirada e desejada por ele, quando d\u00e1 abertura ao Criador, pois, s\u00f3 Deus \u00e9 plenamente feliz.<\/p>\n\n\n\n<p>Com esse artigo, buscamos mostrar que no pensamento pascaliano \u00e9 Deus que se adianta por meio do cristianismo e vai ao encontro do homem. Ademais, esse encontro para Pascal n\u00e3o ocorre pela via da demonstra\u00e7\u00e3o mas, pela revela\u00e7\u00e3o. &nbsp;Logo, Pascal apresenta a religi\u00e3o crist\u00e3 que tem o papel de religar o homem desequilibrado em sua condi\u00e7\u00e3o a algo mais profundo. Essa profundidade est\u00e1 na pessoa de Jesus Cristo que concentra em si mesmo a natureza humana e divina, ou seja, em Jesus o homem enxerga sua dignidade, seu valor, suas&nbsp; potencialidades e suas mis\u00e9rias.<\/p>\n\n\n\n<p>Jesus Cristo, segundo Pascal, n\u00e3o deixa o homem ficar orgulhoso por reconhecer apenas sua dignidade, sua grandeza. Mas tamb\u00e9m, n\u00e3o deixa o homem mergulhado no desespero de suas mis\u00e9rias. A pessoa de Cristo \u00e9 equilibrio na vida do homem.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">Refer\u00eancias<\/h3>\n\n\n\n<p>FERREIRA, Rildo da Luz. <em>Caminhos para Deus: A raz\u00e3o e o cora\u00e7\u00e3o segundo Blaise Pascal<\/em>. Disserta\u00e7\u00e3o de Mestrado em Ci\u00eancias da Religi\u00e3o pela PUC-SP, 2012. Dispon\u00edvel em: https:\/\/tede2.pucsp.br\/bitstream\/handle\/1860\/1\/Rildo%20da%20Luz%20Ferreira.pdf. Acesso em: 06 de julho de 2022.<\/p>\n\n\n\n<p>LUCIANO, Diego Ramirez. <em>A mis\u00e9ria como condi\u00e7\u00e3o humana anterior ao socorro da gra\u00e7a divina em Santo Agostinho e Blaise Pascal<\/em>. Disserta\u00e7\u00e3o de Mestrado apresentada ao Departamento de Filosofia da Escola de Filosofia, Letras e Ci\u00eancias Humanas da Universidade Federal de S\u00e3o Paulo, Guarulhos, 2015. Dispon\u00edvel em: https:\/\/repositorio.unifesp.br\/handle\/11600\/49069?locale-attribute=pt_BR. Acesso: 20 de setembro de 2022.<\/p>\n\n\n\n<p>MARTINS, Andrei Venturini. <em>Do reino nefasto do amor-pr\u00f3prio: a origem do mal em Blaise Pascal.<\/em> S\u00e3o Paulo: Filocalia, 2017.<\/p>\n\n\n\n<p>NASCIMENTO, Ju\u00e7ara dos Santos. <em>Paradoxos do homem: um estudo sobre a condi\u00e7\u00e3o humana em Pascal<\/em>. Disserta\u00e7\u00e3o de Mestrado em Filosofia pela UFSC. S\u00e3o Carlos, 2006. Dispon\u00edvel em: https:\/\/repositorio.ufscar.br\/bitstream\/handle\/ufscar\/4892\/DissJSN.pdf?sequence=1&amp;isAllowed=y. Acesso em: 07 de julho de 2022.<\/p>\n\n\n\n<p>PASCAL, B. <em>Pensamentos<\/em>. Trad. Mario Laranjeira. S\u00e3o Paulo: Martins Fontes, 2005. (Edi\u00e7\u00e3o do Kindle)<\/p>\n\n\n\n<p>ROCHA, Arlindo Nascimento. <em>Paradoxos da condi\u00e7\u00e3o humana<\/em>. Maring\u00e1-PR: Viseu, 2019. (Edi\u00e7\u00e3o do Kindle).<\/p>\n\n\n\n<p>ROGERS, Bem. <em>Pascal: elogio do ef\u00eamero.<\/em> Tradu\u00e7\u00e3o de Luiz Felipe Pond\u00e9. S\u00e3o Paulo: Editora UNESP, 2001. &nbsp;(Cole\u00e7\u00e3o grandes pensadores).<\/p>\n\n\n\n<p>ROHDEN, Humberto. <em>Pascal: o homem que apelou da raz\u00e3o para o cora\u00e7\u00e3o e de Roma para Deus<\/em>. 3\u00b0 ed. S\u00e3o Paulo: Alvorada Editora e Livraria Ltda., 1981.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Bruno C\u00e9sar de Matos Resumo: O prop\u00f3sito central dessa pesquisa consiste em desenvolver a partir do aspecto apolog\u00e9tico de Pascal, o valor da religi\u00e3o crist\u00e3 e como ela ajuda o ser humano no processo de rela\u00e7\u00e3o com Deus. 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