{"id":2911,"date":"2025-06-26T10:04:31","date_gmt":"2025-06-26T13:04:31","guid":{"rendered":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/?p=2911"},"modified":"2025-06-26T10:21:03","modified_gmt":"2025-06-26T13:21:03","slug":"sobre-a-memoria-no-livro-x-das-confissoes-de-santo-agostinho","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/?p=2911","title":{"rendered":"SOBRE A MEM\u00d3RIA NO LIVRO X DAS CONFISS\u00d5ES DE SANTO AGOSTINHO"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-text-align-right\">Filipe Henriques Gon\u00e7alves<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Resumo: <\/strong>O presente artigo busca dissertar sobre a mem\u00f3ria a partir da vis\u00e3o de Santo Agostinho, tema apresentado no Livro X das Confiss\u00f5es, apresentando os conte\u00fados da mem\u00f3ria, como chegam at\u00e9 ela, como s\u00e3o recordados depois de armazenados, fazendo isso, percebemos a rela\u00e7\u00e3o com o conhecer e aprender um conte\u00fado. Al\u00e9m disso, investiga sobre o elemento \u201cesquecimento\u201d procurando explicar, com o pensador, o que ele seria e como est\u00e1 na mem\u00f3ria. Ademais, pretende mostrar a rela\u00e7\u00e3o de Deus com a mem\u00f3ria. Assim, discorremos sobre a mem\u00f3ria e seu conte\u00fado, depois entendemos o processo de recordar e do esquecimento e, por fim, apresentamos a quest\u00e3o de Deus na mem\u00f3ria do homem.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Palavras-chave: <\/strong>Agostinho; Mem\u00f3ria; Recorda\u00e7\u00e3o; Esquecimento; Deus<\/p>\n\n\n\n<p><strong>INTRODU\u00c7\u00c3O<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Santo Agostinho (354 \u2013 430) foi um fil\u00f3sofo e te\u00f3logo importante para a tradi\u00e7\u00e3o ocidental tanto religiosa, quanto n\u00e3o religiosa. O presente trabalho pretende discorrer sobre o tema da mem\u00f3ria, que \u00e9 tratado principalmente no livro X das Confiss\u00f5es \u2013 uma das principais obras do autor. Para tanto, este artigo trabalhar\u00e1 o que \u00e9 a mem\u00f3ria, entendendo o que ela \u00e9 e o que est\u00e1 presente nela, depois o processo da recorda\u00e7\u00e3o e o esquecimento e, por fim, trabalharemos Deus na mem\u00f3ria do homem.<\/p>\n\n\n\n<p>Antes de entrarmos propriamente no texto \u00e9 importante ressaltar o porqu\u00ea Agostinho faz essa investiga\u00e7\u00e3o. Um primeiro ponto \u00e9 que ele, nos livros anteriores dessa obra (Livros I \u2013 IX), discorreu sobre sua vida, ent\u00e3o o objeto \u00e9 o passado vivido por ele, que estava presente em sua mem\u00f3ria, ent\u00e3o nada mais justo do que falar sobre ela. Contudo, este n\u00e3o \u00e9 o \u00fanico motivo aparente. Confiss\u00f5es trata principalmente da vida de um homem em busca de \u201cum bem cuja posse satisfaz todo desejo e, por conseq\u00fc\u00eancia, confere a paz\u201d (Gilson, 2010, p.17). Trata de um homem que \u00e9 inquietado pelo \u201cseu destino; para ele, esta \u00e9 toda a quest\u00e3o: procurar se conhecer para saber o que \u00e9 preciso fazer a fim de ser melhor e, se poss\u00edvel, a fim de bem ser\u201d (Gilson, 2010, p.17). Ent\u00e3o, por procurar essa beatitude, ele procura, como todo homem, a felicidade e, como Gilson (2010, p.19) afirma sobre o pensamento de Agostinho, \u201caquele que tem Deus \u00e9, portanto, o \u00fanico que teria a felicidade e tamb\u00e9m, por conseguinte, o desejo de Deus \u00e9 a \u00fanica via que conduz \u00e0 beatitude\u201d. Ent\u00e3o, a obra \u00e9 tamb\u00e9m uma busca de Deus, j\u00e1 que Ele \u00e9 entendido como esse \u201cbem cuja posse satisfaz todo desejo\u201d, e este \u00e9 o principal objetivo ao discorrer sobre a mem\u00f3ria: encontrar a Deus.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 importante entender isso, pois \u00e9 o caminho ret\u00f3rico, argumentativo e did\u00e1tico escolhido pelo autor para discorrer sobre esse tema. Assim apresentado, podemos entrar propriamente na discuss\u00e3o sobre a mem\u00f3ria.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O QUE \u00c9 A MEM\u00d3RIA<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Santo Agostinho, ao iniciar a discuss\u00e3o sobre a mem\u00f3ria propriamente dita, afirma que ela n\u00e3o \u00e9 material. Podemos perceber isso com alguns fragmentos de seu texto. Primeiramente ele afirma, ao procurar o caminho que chegar\u00e1 a Deus:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p>Pela pr\u00f3pria alma, subirei at\u00e9 ele, ultrapassarei a for\u00e7a que me prende ao corpo e vivifica meu organismo. Mas n\u00e3o \u00e9 por meio desta for\u00e7a que chegarei ao meu Deus. Se assim fosse, tamb\u00e9m o alcan\u00e7ariam \u2018o cavalo e a mula que n\u00e3o t\u00eam intelig\u00eancia\u2019 e cujos corpos vivem gra\u00e7as \u00e0quela mesma for\u00e7a. Mas existe outra for\u00e7a, que n\u00e3o s\u00f3 vivifica, mas tamb\u00e9m sensibiliza o corpo que o Senhor me deu [&#8230;]. Ultrapassarei ainda outra for\u00e7a que igualmente o cavalo e a mula possuem, porque tamb\u00e9m possuem a sensibilidade corporal (<em>Conf<\/em>. X, 7, 11, p. 277).<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p>Nesse trecho, o autor afirma ultrapassar for\u00e7as. Podemos entender, disso, a passagem entre as fun\u00e7\u00f5es da alma, que Arist\u00f3teles explica como a fun\u00e7\u00e3o nutritiva, sensitiva e intelectiva. Assim ultrapassa a categoria da nutri\u00e7\u00e3o e da sensibilidade na alma humana, chegando ao n\u00edvel da intelec\u00e7\u00e3o, da racionalidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Fica claro, portanto, que a mem\u00f3ria n\u00e3o est\u00e1 no n\u00edvel dos sentidos, embora seja eles importantes para a rela\u00e7\u00e3o com o mundo e aquisi\u00e7\u00e3o de imagens para a mem\u00f3ria, como veremos a frente. Mais adiante na obra, quando se tratando de um dos conte\u00fados da mem\u00f3ria, Agostinho afirma que as no\u00e7\u00f5es \u201cEncontram-se como que escondidas em lugar muito rec\u00f4ndito, que n\u00e3o \u00e9 lugar\u201d (<em>Conf<\/em>. X, 9, 16, p. 281), mostrando mais uma vez que, por mais que a linguagem insista em trat\u00e1-la como algo sens\u00edvel, f\u00edsico e material, ela n\u00e3o o \u00e9. A mem\u00f3ria ent\u00e3o seria uma categoria do homem interior, isto \u00e9, da alma, no que \u00e9 superior na alma humana: a sua capacidade de ser racional.<\/p>\n\n\n\n<p>Sendo a mem\u00f3ria, faculdade da alma, \u00e9 nela que \u201c\u00e9 tamb\u00e9m depositada toda a atividade de nossa mente, que aumenta, diminui ou transforma, de modos diversos, o que os sentidos atingiram, e tamb\u00e9m tudo o que foi guardado e ainda n\u00e3o foi absorvido e sepultado no esquecimento\u201d (<em>Conf<\/em>. X, 8, 12, p. 278). Sendo assim, o que de fato \u00e9 o conte\u00fado em que a mem\u00f3ria \u201caumenta, diminui ou transforma\u201d?<\/p>\n\n\n\n<p>Santo Agostinho vai categorizar o conte\u00fado da mem\u00f3ria em dois grupos principais: as imagens e as no\u00e7\u00f5es, sendo estas que n\u00e3o passam propriamente pelos sentidos e as outras que necessariamente chegam \u00e0 mem\u00f3ria pelos sentidos. Nesse sentido, \u201ca mem\u00f3ria pode ser dividida em sens\u00edvel [&#8230;], e em intelectual [&#8230;] A primeira \u00e9 passiva, recebimento de imagens, e a segunda \u00e9 ativa; \u00e9 nela que o sujeito pode exercer atividade cognitiva, que tem como alicerce Deus\u201d (Scherer, 2006, p. 39)<\/p>\n\n\n\n<p>Quanto \u00e0s imagens, podemos afirmar que a mem\u00f3ria as armazena de forma ordenada pela maneira que foram introduzidas a\u00ed: as cores pela vis\u00e3o, os sons pela audi\u00e7\u00e3o e por a\u00ed vai (<em>Conf<\/em>. X. 8, 13, p.278-279). Contudo \u00e9 importante entender que \u201cN\u00e3o s\u00e3o os pr\u00f3prios objetos que entram [na mem\u00f3ria], mas as suas imagens pelos sentidos\u201d (<em>Conf<\/em>. X. 8, 13, p. 279). Ent\u00e3o, tudo o que os sentidos \u201ctocam\u201d, cada um com sua forma pr\u00f3pria, \u00e9 armazenado na mem\u00f3ria a espera para retornarem \u00e0 mente no momento prop\u00edcio.<\/p>\n\n\n\n<p>Agostinho percebe que nem tudo que est\u00e1 em sua mem\u00f3ria \u00e9 algo proveniente dos sentidos, mas tem algumas coisas que ali est\u00e3o que s\u00e3o diferentes das imagens adquiridas pelos sentidos. Estas ganham o nome de no\u00e7\u00f5es. Por no\u00e7\u00f5es podemos entender como as ci\u00eancias liberais, \u201cas no\u00e7\u00f5es de literatura, de dial\u00e9tica, as diferentes esp\u00e9cies de problemas existentes, todos os conhecimentos que tenho a respeito\u201d (<em>Conf<\/em>. X, 9, 16, p. 281), enfim, podemos entender como os conceitos abstratos. O doutor da gra\u00e7a afirma que as no\u00e7\u00f5es \u201cn\u00e3o s\u00e3o apenas as imagens, s\u00e3o as pr\u00f3prias realidades que carrego\u201d (<em>Conf<\/em>. X, 9, 16, p. 281). Mas, com o autor, podemos, uma vez entendido que esses conceitos est\u00e3o de alguma forma dentro de n\u00f3s, perguntar-nos como entraram em nossa mem\u00f3ria (<em>Conf<\/em>. X, 10, 17, p. 281).<\/p>\n\n\n\n<p>Para responder a essa indaga\u00e7\u00e3o, o autor recorre a um exemplo de ouvir tr\u00eas palavras que tem significados abstratos (a exist\u00eancias, a natureza e os atributos) e diz reconhecer as imagens das palavras em si, por\u00e9m, ele diz: \u201cDepositei na mem\u00f3ria n\u00e3o suas imagens, mas as pr\u00f3prias subst\u00e2ncias\u201d (<em>Conf<\/em>. X, 10, 17, p. 282). Ele percebe ent\u00e3o, que, mesmo escutando os sinais que lhe foram pronunciados, os seus significados, as coisas em si, est\u00e3o em sua mem\u00f3ria e n\u00e3o somente suas imagens, nem somente seus sinais, mas o que significam. Contudo, Agostinho quer entender como essas estavam l\u00e1, como foram apreendidas. Sobre isso ele discorre:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p>E ent\u00e3o, de onde e por onde entraram na minha mem\u00f3ria? Ignoro-o, porque, quando as aprendi, n\u00e3o foi por testemunho de outros, mas reconhecias existentes em mim, admitindo-as como verdadeiras, e entreguei-as ao meu esp\u00edrito, como quem as deposita, para depois retir\u00e1-las quando quisesse. Estavam a\u00ed, portanto, mesmo antes de as aprender, mas n\u00e3o estavam na minha mem\u00f3ria. Onde estavam ent\u00e3o? Foi assim que as reconheci? Ao ouvir falar delas, eu disse: \u201c\u00c9 isso mesmo, \u00e9 verdade\u201d! N\u00e3o estariam j\u00e1 na mem\u00f3ria, mas t\u00e3o escondidas e retiradas, como que nos mais profundos recessos, de tal modo que eu n\u00e3o poderia talvez pensar nelas, se algu\u00e9m n\u00e3o me advertisse para arranc\u00e1-las? (<em>Conf<\/em>. X, 10, 17, p. 282)<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p>E acrescenta:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p>Descobrimos assim que aprender as coisas \u2013 cujas imagens n\u00e3o atingimos pelos sentidos, mas que contemplamos interiormente sem imagens, tais como s\u00e3o em si mesmas \u2013 significa duas coisas: colher pelo pensamento o que a mem\u00f3ria j\u00e1 continha esparsa e desordenadamente, e obrig\u00e1-lo pela reflex\u00e3o a estar como que \u00e0 m\u00e3o, em vez de se ocultar na desordem e no abandono, de modo a se apresentar sem dificuldade \u00e0 nossa reflex\u00e3o. (<em>Conf<\/em>. X, 11, 18, p.282-283))<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p>Assim parece que n\u00e3o h\u00e1 um aprendizado, mas apenas uma recorda\u00e7\u00e3o de algo que j\u00e1 se sabia. Essa ideia aparece de forma muito forte em Plat\u00e3o. Este dizia que o ato de aprender \u00e9 a reminisc\u00eancia, o recordar uma realidade que a alma j\u00e1 viveu, ou melhor, j\u00e1 experimentou, trazendo a pr\u00e9-exist\u00eancia da alma em rela\u00e7\u00e3o ao corpo. Contudo, Agostinho n\u00e3o aceita toda essa formula\u00e7\u00e3o como verdadeira. Nesse sentido, Gilson (2010, p.155-156) afirma que:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p>Na verdade, Plat\u00e3o tem raz\u00e3o em dizer que a alma encontra a verdade em si mesma; conclui mal, a partir disso, que ela se lembra da verdade como nos lembramos de um conhecimento passado. \u00c9 verdadeiro que a verdade sempre est\u00e1 ao nosso alcance, gra\u00e7as ao Mestre interior que a ensina para n\u00f3s, basta somente prestamos aten\u00e7\u00e3o ao que ele nos ensina. Se Santo Agostinho faz tamb\u00e9m uso das palavras \u201clembran\u00e7a\u201d e \u201creminisc\u00eancia\u201d para explicar seu pensamento, conv\u00e9m entend\u00ea-las num sentido bem diferente daquele de Plat\u00e3o: a mem\u00f3ria plat\u00f4nica do passado tem aqui o lugar da mem\u00f3ria agostiniana do presente, cujo papel n\u00e3o deixar\u00e1 de sempre ser mais afirmado.<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p>A partir disso, podemos entender que as no\u00e7\u00f5es \u2013 as coisas que est\u00e3o na mem\u00f3ria por si e que n\u00e3o vieram pelos sentidos \u2013 ali est\u00e3o como que escondidas em um \u201ccanto\u201d da mem\u00f3ria e foram ensinadas por esse Mestre interior, que \u00e9 Deus (Gilson, 2010, p. 159).<\/p>\n\n\n\n<p>Ainda sobre as no\u00e7\u00f5es, \u00e9 importante dizer que, por ser as coisas em si, elas n\u00e3o pertencem a uma l\u00edngua ou outra (Santos, 2002, p. 372). Sim, os sinais pelos quais significam essas coisas pertencem a uma l\u00edngua, por\u00e9m, a coisa que ele significa estando j\u00e1 na mem\u00f3ria, a coisa pode ser significada em diversas l\u00ednguas, que n\u00e3o ir\u00e1 atrapalhar na compreens\u00e3o da coisa. Obviamente que \u00e9 necess\u00e1rio entender o que o sinal significa para lembrar-se da coisa.<\/p>\n\n\n\n<p>Outra coisa que est\u00e1 na mem\u00f3ria s\u00e3o os sentimentos. Estes est\u00e3o ali \u201cn\u00e3o do modo como o esp\u00edrito sente no momento em que os experimenta, mas de maneira diferente, de acordo com o poder da pr\u00f3pria mem\u00f3ria\u201d (<em>Conf<\/em>. X. 14, 21, p.285). Isso quer dizer que lembrar-se de uma alegria \u00e9 poss\u00edvel mesmo estando com o esp\u00edrito triste e vice-versa. Para deixar mais claro, Agostinho explica comparando os sentimentos com os alimentos. Assim, um alimento quando passa pela boca, esta sente seu gosto, se \u00e9 salgado, doce, azedo e por a\u00ed vai. Contudo, quando esse vai para o est\u00f4mago, n\u00e3o \u00e9 sentido seu gosto. Ent\u00e3o \u201co fato \u00e9 que a mem\u00f3ria \u00e9, por assim dizer, o est\u00f4mago da alma. [&#8230;] Quando tais emo\u00e7\u00f5es s\u00e3o confiadas \u00e0 mem\u00f3ria, podem ser a\u00ed despertadas como num est\u00f4mago, mas perdem o sabor\u201d (<em>Conf<\/em>. X, 14, 21, p. 285).<\/p>\n\n\n\n<p>Mesmo sendo assim, Agostinho esclarece:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p>No entanto, n\u00e3o poder\u00edamos falar se n\u00e3o encontr\u00e1ssemos na mem\u00f3ria, n\u00e3o somente os sons das palavras segundo as imagens impressas nos sentidos, mas as pr\u00f3prias no\u00e7\u00f5es das coisas que n\u00e3o entraram em n\u00f3s atrav\u00e9s de algum acesso do corpo. Essas no\u00e7\u00f5es foram confiadas \u00e0 mem\u00f3ria pelo esp\u00edrito, depois de este hav\u00ea-las experimentado e sentido, ou foram retidas pela mem\u00f3ria sem que ningu\u00e9m as tivesse confiado a ela. (<em>Conf<\/em>. X, 14, 22, p. 286)<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p>Ent\u00e3o, os sentimentos est\u00e3o na mem\u00f3ria n\u00e3o como imagens, mas como as pr\u00f3prias no\u00e7\u00f5es deles, mesmo n\u00e3o trazendo necessariamente emo\u00e7\u00f5es ao lembrar-nos de algum deles. Agora, depois de entendido o que est\u00e1 presente na mem\u00f3ria e o como chegaram l\u00e1, torna-se necess\u00e1rio, entender a recorda\u00e7\u00e3o e o esquecimento.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>RECORDA\u00c7\u00c3O E ESQUECIMENTO<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Agostinho ao falar da mem\u00f3ria n\u00e3o tinha como n\u00e3o citar em algum momento sobre o lembrar de algo e de esquecer de algo, o que j\u00e1 tangenciamos tamb\u00e9m durante a explica\u00e7\u00e3o do t\u00edtulo anterior. Contudo, no come\u00e7o do discurso sobre a mem\u00f3ria no livro X, ele, de forma liter\u00e1ria, exemplifica como acontece o ato de recorda\u00e7\u00e3o de algo.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p>Quando a\u00ed me encontro [na mem\u00f3ria], posso convocar as imagens que quero. Algumas se apresentam imediatamente; outras fazem-se esperar por mais tempo e parecem ser arrancadas de reposit\u00f3rios mais rec\u00f4nditos. Irrompem as outras em turbilh\u00f5es no lugar daquela que procuro, pondo-se em evid\u00eancia, como que a dizerem: \u201cN\u00e3o somos n\u00f3s talvez o que procuras\u201d? Afasto-as da mem\u00f3ria com a m\u00e3o do meu esp\u00edrito; emerge ent\u00e3o aquela que eu queria, surgindo das sombras. Outras sobrev\u00eam d\u00f3ceis em grupos ordenados, \u00e0 medida que as conclamo, uma ap\u00f3s a outra, as primeiras cedendo lugar \u00e0s seguintes, e desaparecendo para reaparecer quando quero (<em>Conf<\/em>. X, 8, 12, p. 278).<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p>Ent\u00e3o, podemos perceber exatamente uma narra\u00e7\u00e3o de como \u00e9 o processo para recordar de alguma coisa que est\u00e1 em nossa mem\u00f3ria. Ademais, \u00e9 interessante que ele, no final desse fragmento diz sobre grupos ordenados, o que nos remete que, assim como vimos anteriormente, cada lembran\u00e7a \u00e9 distinta na mem\u00f3ria pela maneira que foi introduzida, cada uma \u00e9 ordenada com as outras de mesmo g\u00eanero, se s\u00e3o externas ou internas, ou seja, imagens ou no\u00e7\u00f5es, se s\u00e3o as primeiras, se chegaram pelos ouvidos ou pela vis\u00e3o e por a\u00ed vai (<em>Conf<\/em>. X, 8, 13, p. 278-279). \u201cA mem\u00f3ria armazena tudo isso nos seus amplos recessos e em seus esconderijos secretos e inacess\u00edveis, para ser reencontrado e chamado no momento oportuno\u201d (<em>Conf<\/em>. X, 8, 13, p. 279). E ele acrescenta insistindo nessa ideia:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p>Encontram-se a\u00ed [na mem\u00f3ria], \u00e0 minha disposi\u00e7\u00e3o, c\u00e9u, terra e mar, com aquilo tudo que neles colher com os sentidos, excetuando-se apenas o que esqueci. \u00c9 a\u00ed que me encontro a mim mesmo, e recordo as a\u00e7\u00f5es que realizei, quando, onde e sob que sentimentos as pratiquei. A\u00ed est\u00e3o tamb\u00e9m todos os conhecimentos que recordo, seja por experi\u00eancia pr\u00f3pria ou pelo testemunho alheio (<em>Conf<\/em>. X, 8, 15, p. 279)<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p>Entretanto, diante de tudo isso, surge uma d\u00favida no autor: Recordamos atrav\u00e9s da imagem (<em>Conf<\/em>. X, 15, 23, p. 286)? Ent\u00e3o, ele percebe que recorda as coisas como elas est\u00e3o na mem\u00f3ria, se est\u00e3o armazenadas por formas de imagens, ent\u00e3o recorda por meio de imagens, n\u00e3o imagens de imagens. \u201cEvoco a imagem do sol, e ela se apresenta \u00e0 minha mem\u00f3ria\u201d (<em>Conf<\/em>. X, 15, 23, p. 287). Se est\u00e3o armazenadas como as pr\u00f3prias coisas, ent\u00e3o se recordar\u00e1 como as pr\u00f3prias coisas. \u201cDigo os n\u00fameros com os quais fazemos os c\u00e1lculos, e \u00e0 minha mem\u00f3ria n\u00e3o se apresentam as imagens, mas os pr\u00f3prios n\u00fameros\u201d (<em>Conf<\/em>. X, 15, 23, p. 287).<\/p>\n\n\n\n<p>Contudo, a mem\u00f3ria n\u00e3o s\u00f3 armazena e recorda coisas, mas tem o poder de fazer liga\u00e7\u00f5es entre elas. Sobre isso, Agostinho comenta:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p>Dessa riqueza de ideias me vem a possibilidade de confrontar muitas outras realidades, quer experimentadas pessoalmente, quer aceitas pelo testemunho dos outros; posso lig\u00e1-las aos acontecimentos do passado, deles inferindo a\u00e7\u00f5es, fatos e esperan\u00e7as para o futuro, e, sempre pensando em todas como estando presentes, \u201cfarei isto ou aquilo\u201d, digo de mim para mim no imenso interior de minha alma repleto de tantas imagens (<em>Conf<\/em>. X, 8, 14, p. 280).<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p>Neste fragmento da obra temos essa no\u00e7\u00e3o de que \u201ca mem\u00f3ria possui uma fun\u00e7\u00e3o n\u00e3o somente retrospectiva, mas tamb\u00e9m <em>prospectiva<\/em>\u201d (Santos, 2002, p. 368), uma vez que pode n\u00e3o somente lembrar-se do passado e perceber o presente, mas tamb\u00e9m imaginar o futuro, claro, a partir do que se lembra do passado e se percebe do presente. Isto \u00e9 poss\u00edvel pelo poder de confronto das realidades na mem\u00f3ria, como citado por Agostinho. Este coligir, no sentido de unir lembran\u00e7as, sejam elas imagens ou no\u00e7\u00f5es, mas principalmente estas, e concluir algo disso, est\u00e1 intimamente ligado com o termo cogitar, usado pelo autor. H\u00e1 a necessidade de entender o que ele quer dizer com o cogitar para entender esse confronto bem como a express\u00e3o usada anteriormente: arrancar as lembran\u00e7as de reposit\u00f3rios mais rec\u00f4nditos.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando Agostinho explica sobre as no\u00e7\u00f5es trabalha a palavra cogitar no momento em que explica como s\u00e3o apreendidas tais no\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p>Descobrimos assim que aprender as coisas \u2013 cujas imagens n\u00e3o atingimos pelos sentidos, mas que contemplamos interiormente sem imagens, tais como s\u00e3o em si mesmas \u2013 significa duas coisas: colher pelo pensamento o que a mem\u00f3ria j\u00e1 continha esparsa e desordenadamente, e obrig\u00e1-lo pela reflex\u00e3o a estar como que \u00e0 m\u00e3o, em vez de se ocultar na desordem e no abandono, de modo a se apresentar sem dificuldade \u00e0 nossa reflex\u00e3o [&#8230;]. Dessa opera\u00e7\u00e3o deriva o verbo <em>cogitar<\/em>, estando <em>cogo<\/em> para <em>cogito<\/em>, como <em>ago<\/em> est\u00e1 para <em>agito<\/em>, <em>facio<\/em> para <em>factito<\/em>. No entanto, a palavra <em>cogito<\/em> tornou-se exclusiva do esp\u00edrito, de modo que agora <em>cogitar<\/em> significa a a\u00e7\u00e3o de colher, mas somente no esp\u00edrito, e n\u00e3o alhures (<em>Conf<\/em>. X, 11, 18, p. 282-283).<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p>Existe, ent\u00e3o, uma rela\u00e7\u00e3o entre o cogitar e o aprender. Sobre isso, Gilson (2010, p. 156) explica que:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p>A <em>cogitatio<\/em> agostiniana \u00e9 t\u00e3o-somente o movimento pelo qual nossa alma colige, re\u00fane e recolhe, para poder fixar seu olhar sobre eles, todos os conhecimentos latentes que ela possui sem ainda t\u00ea-los discernido. Para ele, portanto, pensar, aprender e se lembrar \u00e9, verdadeiramente, o mesmo.<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p>Depois de analisar esses fragmentos podemos perceber que cogitar \u00e9 exatamente o ato de pensar profunda e insistentemente sobre algo, reunindo as imagens e no\u00e7\u00f5es e fazendo liga\u00e7\u00f5es, coligindo, de tal forma que a mem\u00f3ria fique mais firme, clara e n\u00e3o caia no esquecimento. Sendo assim, acontece o aprendizado ao fazer liga\u00e7\u00f5es diferentes e ao perceber combina\u00e7\u00f5es novas a partir daquilo que j\u00e1 se conhece surgindo novas no\u00e7\u00f5es, bem como lembrar de liga\u00e7\u00f5es j\u00e1 feitas. Vale lembrar que as coisas na mem\u00f3ria tamb\u00e9m podem ser \u201cressignificadas quando o esp\u00edrito as reivindica\u201d (Moraes, 2011, p.55). Se bem que, no fim, lembrar e aprender \u00e9 tomado como coisas semelhantes, pois as no\u00e7\u00f5es j\u00e1 est\u00e3o na alma, no fundo da mem\u00f3ria, esperando serem colhidas por essa for\u00e7a do pensamento para ent\u00e3o serem puxadas \u00e0 superf\u00edcie da mem\u00f3ria.<\/p>\n\n\n\n<p>Muitas liga\u00e7\u00f5es entre as no\u00e7\u00f5es lembradas s\u00e3o poss\u00edveis e levam a desvelar uma outra no\u00e7\u00e3o. Sendo assim, Santo Agostinho afirma:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p>Conservo tudo isso [no\u00e7\u00f5es] na mem\u00f3ria, como tamb\u00e9m o modo pelo qual aprendi. Retenho igualmente na mem\u00f3ria muitos argumentos err\u00f4neos contra essas verdades. S\u00e3o falsos, mas n\u00e3o \u00e9 falso o fato de lembrar-me. Lembro-me tamb\u00e9m de ter sabido, nessas discuss\u00f5es, discernir entre verdades e falsidades que se opunham a elas (<em>Conf<\/em>. X, 13, 20, p\u00e1g. 284).<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p>Ent\u00e3o a mem\u00f3ria ret\u00e9m a maneira que se aprendeu, ou seja, as liga\u00e7\u00f5es que foram feitas e o caminho percorrido, at\u00e9 mesmo os erros desses caminhos, pois eles tamb\u00e9m s\u00e3o importantes para a compreens\u00e3o do aprendizado. Al\u00e9m disso, ajuda a deixar dispon\u00edvel na mem\u00f3ria e tal aprendizado n\u00e3o cair no esquecimento.<\/p>\n\n\n\n<p>Entendemos o que \u00e9 a mem\u00f3ria, seus conte\u00fados e como acontece o processo de lembrar-se de algo, mas \u201ca mem\u00f3ria n\u00e3o est\u00e1 imune totalmente da temporalidade, ou melhor, do efeito trazido pelo tempo: o esquecimento\u201d (Scherer, 2006, p.40). Santo Agostinho tenta entender o que seria o esquecimento e procura investig\u00e1-lo. Ele tenta fazer o seguinte caminho:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p>Quando me lembro da mem\u00f3ria, \u00e9 a pr\u00f3pria mem\u00f3ria que se apresenta a mim. Quando, pelo contr\u00e1rio, me lembro do esquecimento, tanto a mem\u00f3ria como o esquecimento me v\u00eam \u00e0 minha presen\u00e7a. A primeira \u00e9 o meio pelo qual recordo; a segunda \u00e9 o objeto que recordo. Mas o que \u00e9 o esquecimento sen\u00e3o a priva\u00e7\u00e3o da mem\u00f3ria? E como pode estar presente, para que eu o recorde, se quando est\u00e1 presente n\u00e3o posso recordar? O que recordamos est\u00e1 guardado na mem\u00f3ria, e se n\u00e3o nos lembr\u00e1ssemos do esquecimento, n\u00e3o poder\u00edamos nem mesmo reconhecer o que significa esta palavra ao ser pronunciada, e isto quer dizer que a mem\u00f3ria ret\u00e9m o esquecimento. Assim, a presen\u00e7a do esquecimento faz com que n\u00e3o o esque\u00e7amos, mas, quando est\u00e1 presente, nos esquecemos (<em>Conf<\/em>. X, 18, 24, p. 288).<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p>Talvez seja uma imagem do esquecimento que ele se lembre ao lembra-se disso, mas ainda sobre isso o autor acrescenta:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p>Quando todos esses objetos [os objetos como lugares, pessoas] me eram presentes, a mem\u00f3ria captou-lhes as imagens, a fim de que mais tarde as contemplasse e repassasse no esp\u00edrito, quando ausentes. Portanto, se \u00e9 pela imagem e n\u00e3o por si esmo que o esquecimento se grava na mem\u00f3ria, \u00e9 preciso que o esquecimento esteja presente, para que a mem\u00f3ria lhe capte a imagem. Todavia, estando o esquecimento presente, como pode gravar a pr\u00f3pria imagem na mem\u00f3ria, se com sua presen\u00e7a, apaga tudo o que l\u00e1 encontra impresso? Contudo, seja como for, apesar de ser inexplic\u00e1vel, e incompreens\u00edvel, estou certo de que me lembro do esquecimento, isto \u00e9, daquilo que destr\u00f3i em n\u00f3s todas as lembran\u00e7as (<em>Conf<\/em>. X, 18, 25, p. 289).<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p>Diante da complexidade do esquecimento, Agostinho reconhece a limita\u00e7\u00e3o de n\u00e3o conseguir explicar esse ponto paradoxal da rela\u00e7\u00e3o entre a mem\u00f3ria e o esquecimento. Entretanto, n\u00e3o deixa de discorrer mais um pouco sobre ele. Para isso, o autor coloca um exemplo: a mulher que procurava uma dracma, presente no Evangelho segundo Lucas (Cf. Lc 15, 8). Ele argumenta que \u201cn\u00e3o a [a dracma] teria encontrado se dela n\u00e3o se lembrasse. Tendo-a depois achado, como saberia se era aquela, se dela n\u00e3o se recordasse\u201d (<em>Conf<\/em>. X, 18, 27, p. 290)?<\/p>\n\n\n\n<p>A partir desse exemplo, \u00e9 claro a rela\u00e7\u00e3o entre o encontrar objetos perdidos e a mem\u00f3ria. Esta \u00e9 necess\u00e1ria para o reconhecimento da coisa quando \u00e9 encontrada, pois, mesmo quando este objeto se perde da vista, sua imagem \u00e9 retida na mem\u00f3ria e ent\u00e3o, quando o objeto reaparece \u00e0 vista, \u00e9 reconhecido (<em>Conf<\/em>. X, 18, 27, p. 291). Se j\u00e1 foi totalmente esquecido e \u00e9 encontrado, ent\u00e3o n\u00e3o \u00e9 reconhecido. A mem\u00f3ria \u00e9 tamb\u00e9m necess\u00e1ria para motiva\u00e7\u00e3o da busca, pois se algo est\u00e1 perdido e n\u00e3o h\u00e1 lembran\u00e7a desse algo, n\u00e3o h\u00e1 a esperan\u00e7a de se encontrar, pois o objeto j\u00e1 foi inteiramente esquecido.<\/p>\n\n\n\n<p>Como \u00e9 evidente, isso acontece quando o objeto est\u00e1 perdido no mundo exterior ao homem e sua imagem retida na mem\u00f3ria e quando o objeto est\u00e1 perdido na pr\u00f3pria mem\u00f3ria, ou seja, foi esquecido. A quest\u00e3o \u00e9 que quando um objeto \u00e9 procurado, ele n\u00e3o saiu por completo da mem\u00f3ria da pessoa que o busca. A partir dessa parte lembrada \u00e9 que se procura o restante do objeto (<em>Conf<\/em>. X, 19, 28, p. 291), se assim n\u00e3o fosse n\u00e3o haveria a procura, j\u00e1 que n\u00e3o saberia da necessidade de procurar algo, uma vez que n\u00e3o se sabe que se perdeu algo. Mas mesmo se fosse poss\u00edvel saber da necessidade dessa procura, n\u00e3o seria poss\u00edvel procurar algo perdido, j\u00e1 que n\u00e3o saberia o que procurar e qualquer coisa que fosse sugerido pela mem\u00f3ria poderia ser tomado como o que estava sendo procurado, mesmo n\u00e3o sendo de fato o que era procurado.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>DEUS NA MEM\u00d3RIA DO HOMEM<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Tendo discorrido sobre tudo isso entramos na discuss\u00e3o de onde est\u00e1 Deus na mem\u00f3ria. Para tal Agostinho diz primeiro da felicidade. A felicidade \u00e9 um desejo que todos os homens possuem (<em>Conf<\/em>. X, 23, 33, p. 295-296). E de acordo com Agostinho (<em>Conf<\/em>. X, 23, 33, p. 296), \u201ca felicidade [&#8230;] \u00e9 a alegria oriunda da verdade\u201d. Ent\u00e3o todos amam tamb\u00e9m a verdade, e buscam no fundo de seu ser. A verdade, para o autor, \u00e9 o pr\u00f3prio Deus. Nesse sentido ele afirma: \u201cOnde encontrei a verdade, a\u00ed encontrei o meu Deus, que \u00e9 a pr\u00f3pria verdade, da qual nunca mais me esqueci, desde o dia em a conheci\u201d (<em>Conf<\/em>. X, 24, 35, p. 297). E claro, a felicidade tamb\u00e9m \u00e9 associada a Deus, como ele mesmo vai dizer: \u201cEnt\u00e3o, quem tem Deus [&#8230;] \u00e9 feliz\u201d (<em>DBV<\/em>. 2, 11).<\/p>\n\n\n\n<p>Assim sendo, se Deus n\u00e3o foi esquecido desde o dia do conhecimento. Por\u00e9m, para se conhecer \u00e9 preciso encontrar e, ent\u00e3o, o autor se pergunta aonde poderia ter encontrado a Deus (<em>Conf<\/em>. X, 26, 37, p. 298). Ent\u00e3o, em seguida afirma, em um di\u00e1logo com Deus: \u201cTu, a verdade, reinas em toda parte sobre todos aqueles que te consultam, e respondes ao mesmo tempo a todas as consultas diversas que te s\u00e3o apresentadas\u201d (<em>Conf<\/em>. X, 26, 37, p. 299). Nesse sentido, parece que Deus se revela e se deixa encontrar nas verdades, por ser a pr\u00f3pria verdade. Est\u00e1 na mem\u00f3ria (<em>Conf<\/em>. X, 24, 35, p. 297), pois se a\u00ed n\u00e3o estivesse, n\u00e3o ele n\u00e3o poderia falar de Deus, j\u00e1 que s\u00f3 se fala do que se lembra (<em>Conf<\/em>. X, 8, 14, p. 280). Contudo, ainda procura:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p>Onde habitas, Senhor, na minha mem\u00f3ria? [&#8230;] Deste-me a honra de habitar em minha mem\u00f3ria, mas em que parte? \u00c9 o que estou procurando. Ao recordar-me de ti, ultrapassei as regi\u00f5es da mem\u00f3ria que tamb\u00e9m os animais possuem, porque a\u00ed [&#8230;] eu n\u00e3o te encontrava. Passei \u00e0s regi\u00f5es onde depositei os sentimentos do esp\u00edrito, e nem mesmo a\u00ed te encontrei. Entrei na sede da alma \u2013 pois o esp\u00edrito tamb\u00e9m se recorda de si mesmo \u2013 e nem a\u00ed estavas. Como n\u00e3o \u00e9s imagem corp\u00f3rea, e tampouco sentimento de um ser vivente [&#8230;], assim tamb\u00e9m tu, n\u00e3o podes ser o pr\u00f3prio esp\u00edrito, porque \u00e9s Senhor e Deus do esp\u00edrito [&#8230;]. Mas por que procurar em que parte habitas, como se na mem\u00f3ria houvesse v\u00e1rios compartimentos? \u00c9 certo que nela habitas, pois recordo-me de ti desde o dia em que te conheci. E \u00e9 a\u00ed que te encontro quando me lembro de ti (<em>Conf<\/em>. X, 25, 36, p. 298).<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p>Ent\u00e3o est\u00e1 na mem\u00f3ria, sendo assim o autor possui, de alguma forma, a Deus ao lembrar-se dele, assim como todo homem possui a felicidade de alguma forma ao desej\u00e1-la e procur\u00e1-la, alguns possuindo-a de forma que s\u00e3o felizes na realidade e outros por esperan\u00e7a, que como vimos, se se tem a esperan\u00e7a de algo, se quer encontrar algo, \u00e9 porque j\u00e1 se lembra disso em certo ponto, assim, j\u00e1 possui aquilo em certo n\u00edvel (<em>Conf<\/em>. X, 20, 29, p. 293). Explicando como Deus se revela de acordo com Agostinho, Gilson (2010, p. 31-32) afirma:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p>O Deus agostiniano aparece com sua caracter\u00edstica distinta de Deus que se faz suficientemente conhecido para que o universo n\u00e3o possa ignor\u00e1-lo, mas que s\u00f3 se deixa conhecer tanto quanto for necess\u00e1rio para que o homem deseje possu\u00ed-lo mais e se empenhe em procur\u00e1-lo<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p>Sendo assim, Deus se revela \u00e0 mem\u00f3ria a partir das verdades que ela contempla de forma que sempre O busca, pois sempre procura a felicidade e a verdade, mas n\u00e3o chega a um conhecimento que abarque a Deus totalmente, pois assim, n\u00e3o mais procuraria.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>CONCLUS\u00c3O<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Neste trabalho buscamos compreender o tema da mem\u00f3ria tratado por Santo Agostinho no Livro X das Confiss\u00f5es. Para tal, come\u00e7amos tratando do que \u00e9 a mem\u00f3ria. Primeiramente, ela n\u00e3o \u00e9 um \u00f3rg\u00e3o f\u00edsico, mas uma faculdade da alma, n\u00e3o um lugar, propriamente dito. Entendemos que a mem\u00f3ria \u00e9 constitu\u00edda de imagens armazenadas que vieram por meio dos sentidos. Nesse caso, n\u00e3o s\u00e3o as pr\u00f3prias coisas que est\u00e3o presentes na mem\u00f3ria, mas suas imagens. Contudo, h\u00e1 coisas presentes na mem\u00f3ria que n\u00e3o vieram pelos sentidos, a essas Agostinho chama de no\u00e7\u00f5es, s\u00e3o conhecimentos intelectivos, no sentido que se constituem de conceitos abstratos como n\u00fameros, no\u00e7\u00f5es de ret\u00f3rica e literatura por exemplo. Estas n\u00e3o s\u00e3o imagens, mas as pr\u00f3prias coisas. As no\u00e7\u00f5es j\u00e1 est\u00e3o na mem\u00f3ria, como que escondidas. Foram ali colocadas pelo Mestre Interior. H\u00e1 na mem\u00f3ria uma outra categoria de coisas: os sentimentos. Discorrendo sobre os sentimentos entendemos que a mem\u00f3ria \u00e9 comparada ao est\u00f4mago, que n\u00e3o gera sabor, ent\u00e3o uma pessoa pode lembrar-se do sentimento sem de fato estar sentindo aquilo que significa.<\/p>\n\n\n\n<p>Depois, entendemos do que significa recordar e esquecer. A recorda\u00e7\u00e3o \u00e9, para Santo Agostinho, sin\u00f4nimo de aprender e pensar. Deparamo-nos com o verbo cogitar e percebemos que significa pensar profundamente, fazer liga\u00e7\u00f5es, coligir, refletir intensamente. Fazer as liga\u00e7\u00f5es entre as no\u00e7\u00f5es permite ao homem fazer uma prospec\u00e7\u00e3o, ou seja, olhar para o futuro, fazer planos a partir daquilo que se sabe, do que se viu no passado. Tamb\u00e9m permite aprender, fazer novas liga\u00e7\u00f5es entre no\u00e7\u00f5es e imagens j\u00e1 existentes at\u00e9 perceber a presen\u00e7a de outro conhecimento. Uma vez que as no\u00e7\u00f5es j\u00e1 est\u00e3o na mem\u00f3ria, aprender significa trazer um conhecimento que est\u00e1 como que escondido no fundo da mem\u00f3ria e \u00e9 descoberto.<\/p>\n\n\n\n<p>O esquecimento \u00e9, de certa forma, uma inc\u00f3gnita pra o autor, j\u00e1 que, como vimos, ele est\u00e1 presente na mem\u00f3ria para podermos falar dele e saber o que significa, mas se est\u00e1 presente ele apaga o que se apresenta a mem\u00f3ria. Entretanto, ajuda Agostinho a perceber como se d\u00e1 a busca de algo: se um objeto \u00e9 buscado, \u00e9 procurado, \u00e9 porque ainda n\u00e3o foi totalmente esquecido da mem\u00f3ria, mas somente em partes, possibilitando que se tenha a motiva\u00e7\u00e3o para busc\u00e1-lo. Ao mesmo tempo que o objeto at\u00e9 ent\u00e3o perdido, esquecido, tem de estar na mem\u00f3ria, mesmo que no fundo dela, para que seja reconhecido quando encontrado.<\/p>\n\n\n\n<p>Isso possibilitou-nos a falar sobre Deus na mem\u00f3ria do homem. Como citado anteriormente, o motivo de Agostinho falar sobre a mem\u00f3ria \u00e9 buscar a Deus. Ent\u00e3o ele percebe que n\u00e3o possui a Deus totalmente, pois O busca, mas possui at\u00e9 certo ponto, pois isso permite falar dele e n\u00e3o esquec\u00ea-Lo. Deus \u00e9 associado \u00e0 felicidade, o que todos os homens buscam, e a verdade, que \u00e9 o que os homens amam e que Deus se revela. Deus est\u00e1 na mem\u00f3ria, mesmo que n\u00e3o se saiba onde nela, o que n\u00e3o faz tanto sentido, pois ela n\u00e3o tem compartimentos f\u00edsicos. Deus se deixa encontrar no interior do homem e ent\u00e3o que Agostinho encontra a Deus.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>REFER\u00caNCIAS<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>AGOSTINHO, Santo. <strong>Confiss\u00f5es<\/strong>. Tradu\u00e7\u00e3o Maria Luiza Jardim Amarante. 2. ed. S\u00e3o Paulo: Paulus, 1997 (Cole\u00e7\u00e3o Patr\u00edstica, v. 10) [<em>Conf<\/em>.]<\/p>\n\n\n\n<p>AGOSTINHO, Santo. <strong>Sobre a vida feliz<\/strong>. Tradu\u00e7\u00e3o: Enio Paulo Giachini. 1. ed. Petr\u00f3polis: Vozes, 2014 (Vozes de Bolso) [<em>DBV<\/em>]<\/p>\n\n\n\n<p>GILSON, \u00c9tienne. <strong>Introdu\u00e7\u00e3o ao estudo de Santo Agostinho<\/strong>. Tradu\u00e7\u00e3o: Cristiane Negreiros Abbud Ayoub. 2. ed. S\u00e3o Paulo: Discurso Editorial; Paulus, 2010<\/p>\n\n\n\n<p>MORAES, Suelma de Souza. <strong>A Aporia da Mem\u00f3ria do Esquecimento no Livro X das Confiss\u00f5es de Santo Agostinho<\/strong>. Orientador: Dr. Moacyr Novaes Filho. 2012. Disserta\u00e7\u00e3o (Mestrado em Filosofia) \u2013 Faculdade de Filosofia, Letras e Ci\u00eancias Humanas da Universidade de S\u00e3o Paulo, S\u00e3o Paulo, 2012. Dispon\u00edvel em: https:\/\/repositorio.usp.br\/item\/002441970. Acesso em: 12 maio 2025.<\/p>\n\n\n\n<p>SANTOS, Bento Silva. A Metaf\u00edsica da Mem\u00f3ria no Livro X as Confiss\u00f5es de Agostinho. <strong>Veritas<\/strong>. Porto Alegre, v. 47, n. 3, p. 365-375, set. 2002. Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/revistaseletronicas.pucrs.br\/veritas\/article\/view\/34883\">https:\/\/revistaseletronicas.pucrs.br\/veritas\/article\/view\/34883<\/a>. Acesso em: 07 maio. 2025<\/p>\n\n\n\n<p>SCHERER, F\u00e1bio Cesar. Mem\u00f3ria e interioridade nas Confiss\u00f5es. <strong>Controv\u00e9rsia<\/strong>. S\u00e3o Leopoldo, v. 2, n. 2, p. 34-42, jan \u2013 jun. 2006. Dispon\u00edvel em: http:\/\/www.controversia.unisinos.br\/_include\/imprimir_artigo.inc.php?e=3&amp;a=52. Acesso em: 07 maio. 2025<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Filipe Henriques Gon\u00e7alves Resumo: O presente artigo busca dissertar sobre a mem\u00f3ria a partir da vis\u00e3o de Santo Agostinho, tema apresentado no Livro X das Confiss\u00f5es, apresentando os conte\u00fados da mem\u00f3ria, como chegam at\u00e9 ela, como s\u00e3o recordados depois de armazenados, fazendo isso, percebemos a rela\u00e7\u00e3o com o conhecer e aprender um conte\u00fado. 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