{"id":2915,"date":"2025-06-26T10:33:55","date_gmt":"2025-06-26T13:33:55","guid":{"rendered":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/?p=2915"},"modified":"2025-06-26T10:38:50","modified_gmt":"2025-06-26T13:38:50","slug":"a-ultima-ceia-e-a-estetica-do-renascimento-entre-arte-e-filosofia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/?p=2915","title":{"rendered":"A \u00daLTIMA CEIA E A EST\u00c9TICA DO RENASCIMENTO: ENTRE ARTE E FILOSOFIA"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-text-align-right\"><em>Por Andr\u00e9 Rodrigues Marques, Brenno Maciel de Paiva Rosa, Gerlison Ferreira Fernandes e V\u00edtor Alves Rodrigues e Silva<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Resumo: <\/strong>O presente artigo visa analisar esteticamente a obra <em>A \u00daltima Ceia<\/em> de Leonardo da Vinci, segundo os par\u00e2metros conceituais da filosofia de Georg Wilhelm Friedrich Hegel. Em primeiro lugar, \u00e9 realizada a descri\u00e7\u00e3o e contextualiza\u00e7\u00e3o da pessoa de Leonardo da Vinci, assim como da sua obra <em>A \u00daltima Ceia<\/em>. Em seguida, \u00e9 exposta uma an\u00e1lise do contexto social vivido por da Vinci, a saber: o Renascimento, e as implica\u00e7\u00f5es desse movimento na arte. No segundo momento, apresentar-se-\u00e3o os paramentos conceituais da est\u00e9tica hegeliana, principalmente a sua concep\u00e7\u00e3o sobre a superioridade do Belo art\u00edstico ao Belo natural e as manifesta\u00e7\u00f5es do Belo art\u00edstico ao longo do tempo. Por fim, em terceiro lugar, a an\u00e1lise est\u00e9tica de <em>A \u00daltima Ceia<\/em> \u00e9 realizada de acordo com o seu contexto e as contribui\u00e7\u00f5es da filosofia hegeliana, sobretudo no que se refere \u00e0s emo\u00e7\u00f5es representadas e \u00e0 rela\u00e7\u00e3o entre luz e sombra.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Palavras-chave: <\/strong>Leonardo da Vinci, <em>A \u00daltima Ceia<\/em>, Renascimento, est\u00e9tica de Hegel, manifesta\u00e7\u00e3o do Esp\u00edrito.<strong><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A hist\u00f3ria da arte \u00e9 marcada por in\u00fameras correntes, dentre as quais se encontra o Renascimento, ocorrido entre os s\u00e9culos XIV e XVI, principalmente na It\u00e1lia. Nesse per\u00edodo, surgiu um dos maiores artistas e intelectuais de todos os tempos, Leonardo da Vinci (1452-1519), pintor de variadas obras, como <em>A \u00daltima Ceia<\/em>, pintada de1494 a 1498. Essa pintura tornou-se n\u00e3o apenas bastante famosa e popular, como tamb\u00e9m um marco na arte renascentista. Al\u00e9m disso, ap\u00f3s as transforma\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas e sociais desse per\u00edodo e da modernidade, desenvolveu-se, de modo aut\u00f4nomo, o pensamento filos\u00f3fico na \u00e1rea da est\u00e9tica. Nesse sentido, o fil\u00f3sofo alem\u00e3o Georg W. F. Hegel (1770-1831) deu \u00e0 filosofia important\u00edssimas contribui\u00e7\u00f5es no pensamento est\u00e9tico. Assim, diante da relev\u00e2ncia da referida obra de da Vinci e da est\u00e9tica hegeliana, n\u00e3o somente \u00e9 poss\u00edvel, como tamb\u00e9m necess\u00e1rio, compreender melhor hist\u00f3rica e esteticamente <em>A \u00daltima Ceia<\/em>, a partir dos pressupostos da filosofia da arte de Hegel.<\/p>\n\n\n\n<p>Como referido anteriormente, a escolha da referida pintura se d\u00e1 pela sua relev\u00e2ncia no \u00e2mbito art\u00edstico da Renascen\u00e7a e, igualmente, da religi\u00e3o crist\u00e3, bem como pela import\u00e2ncia fundamental de seu autor, o pol\u00edmata Leonardo da Vinci, para a hist\u00f3ria da arte. O per\u00edodo do Renascimento \u00e9 reconhecido pelo humanismo e pelas profundas transforma\u00e7\u00f5es sociais e culturais dele decorrentes, bem como pela produ\u00e7\u00e3o art\u00edstica muito rica e variada. <em>A \u00daltima Ceia <\/em>\u00e9 um exemplo dessas caracter\u00edsticas presentes em tal per\u00edodo, por exemplo, pelo uso inovador de perspectiva de luz e composi\u00e7\u00e3o e por uma nova forma de narrar visualmente um epis\u00f3dio religioso, de forma a ultrapassar a simples representa\u00e7\u00e3o b\u00edblica ao representar as emo\u00e7\u00f5es dos ap\u00f3stolos ao descobrirem a trai\u00e7\u00e3o que Jesus sofreria. Por conseguinte, a an\u00e1lise est\u00e9tica de tal obra contribui para um rico aprendizado sobre a arte, filosofia e hist\u00f3ria.<\/p>\n\n\n\n<p>Dessa maneira, este artigo visa, em primeiro lugar, propor uma an\u00e1lise filos\u00f3fica e est\u00e9tica da obra <em>A \u00daltima Ceia<\/em>, de Leonardo da Vinci, a partir de sua contextualiza\u00e7\u00e3o no per\u00edodo do Renascimento e da est\u00e9tica hegeliana. Em segundo lugar, objetiva-se aprofundar a an\u00e1lise da obra estudada em si, dos aspectos gerais da arte renascentista e dos principais conceitos acerca da arte trazidos por Hegel, de modo a investigar as caracter\u00edsticas representadas na obra por da Vinci segundo esses conceitos. Em s\u00edntese, o presente estudo visa n\u00e3o apenas reafirmar a relev\u00e2ncia de <em>A \u00daltima Ceia<\/em> no c\u00e2none art\u00edstico, mas tamb\u00e9m demonstrar a fertilidade da est\u00e9tica hegeliana como ferramenta hermen\u00eautica para desvelar as profundas interconex\u00f5es entre a obra de arte, o esp\u00edrito humano e o processo hist\u00f3rico.<\/p>\n\n\n\n<p>Metodologicamente, o estudo utiliza obras de comentadores espec\u00edficos para a hist\u00f3ria da arte, como Jacob Burckhardt, Ernst Gombrich e Adonias Filho, assim como os <em>Cursos de Est\u00e9tica <\/em>de Hegel, e os coment\u00e1rios filos\u00f3ficos <em>O que \u00e9 est\u00e9tica?<\/em>, de Marc Jimenez, e de artigo publicado em revista especializada. A partir da contextualiza\u00e7\u00e3o biogr\u00e1fica e conceitual do Renascimento e da descri\u00e7\u00e3o minuciosa da obra, o texto seguir\u00e1 com a explica\u00e7\u00e3o detalhada da filosofia est\u00e9tica hegeliana e com a rela\u00e7\u00e3o entre esse pensamento e as caracter\u00edsticas da obra analisada, de forma a destacar, de modo particular, a express\u00e3o das emo\u00e7\u00f5es dos personagens como representa\u00e7\u00e3o da subjetividade espiritual e a intrincada rela\u00e7\u00e3o entre luz e sombra na composi\u00e7\u00e3o, evidenciando o papel de espiritualiza\u00e7\u00e3o da arte, conforme os preceitos do pensamento hegeliano.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Descri\u00e7\u00e3o e contextualiza\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica e art\u00edstica da obra<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Leonardo da Vinci nasceu no ano de 1452 (Gombrich, 2011, p. 291), em Anchiano, um vilarejo da regi\u00e3o da Toscana, pr\u00f3ximo \u00e0 cidade de Floren\u00e7a, na rep\u00fablica hom\u00f4nima. Era filho ileg\u00edtimo de Ser Piero, um not\u00e1rio florentino de 25 anos, e de Caterina di Meo Lippi, uma camponesa de apenas 15 anos. Logo ap\u00f3s seu nascimento, o pai assumiu sua cust\u00f3dia e o criou na casa da fam\u00edlia em Vinci. Da Vinci teve acesso a textos acad\u00eamicos e cresceu em meio a uma rica tradi\u00e7\u00e3o art\u00edstica, que influenciaria diretamente sua forma\u00e7\u00e3o intelectual.<\/p>\n\n\n\n<p>Aos 15 anos, foi admitido como aprendiz no ateli\u00ea do mestre Andrea del Verrocchio, em Floren\u00e7a, um dos centros culturais mais vibrantes da It\u00e1lia renascentista. Desde cedo, demonstrou um talento extraordin\u00e1rio, de forma a se destacar em diversas obras, e permaneceu no ateli\u00ea at\u00e9 1477, consolidando-se como artista completo. Tamb\u00e9m foi pol\u00edmata: ao longo da carreira, da Vinci se destacou tamb\u00e9m como inventor, engenheiro, arquiteto, anatomista, m\u00fasico e pensador. Entre suas obras mais c\u00e9lebres est\u00e3o <em>Mona Lisa <\/em>e<em> A \u00daltima Ceia <\/em>(estudada neste trabalho), que revelam seu dom\u00ednio t\u00e9cnico e profundidade emocional. Faleceu aos 67 anos, em 2 de maio de 1519, na cidade de Cloux, na Fran\u00e7a, e deixou um legado imortal como s\u00edmbolo do esp\u00edrito renascentista e da uni\u00e3o entre arte e ci\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p><em>A \u00daltima Ceia<\/em> foi encomendada pelo duque de Mil\u00e3o, Francesco Sforza, por volta de 1497, com o intuito de decorar uma parede no refeit\u00f3rio do Convento de Santa Maria delle Grazie, na mesma cidade. O projeto foi atribu\u00eddo a Leonardo da Vinci, que iniciou os esbo\u00e7os e supervisionou pessoalmente a execu\u00e7\u00e3o da pintura. A obra foi realizada com a t\u00e9cnica de t\u00eampera e \u00f3leo sobre um preparo em gesso, uma escolha inovadora para a \u00e9poca, j\u00e1 que o afresco era a t\u00e9cnica predominante no contexto vigente.<\/p>\n\n\n\n<p>Com dimens\u00f5es imponentes \u2013 8,8 metros de largura por 4,6 metros de altura \u2013 a obra reflete a genialidade t\u00e9cnica e emocional do artista, que buscou retratar os ap\u00f3stolos de maneira original, de modo a enfatizar as rea\u00e7\u00f5es emocionais intensas de cada um ao ouvir o an\u00fancio da trai\u00e7\u00e3o de Judas. O gesto de horror, c\u00f3lera e desespero \u00e9 capturado com profundidade e exatid\u00e3o, enquanto a transi\u00e7\u00e3o de sentimentos dos disc\u00edpulos \u00e9 retratada de forma sutil, desde o espanto at\u00e9 a repulsa de Judas. O ap\u00f3stolo Jo\u00e3o \u00e9 retratado com uma express\u00e3o de serenidade, refletindo sua condi\u00e7\u00e3o de \u201cdisc\u00edpulo amado\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>A pintura tamb\u00e9m revela a interpreta\u00e7\u00e3o do artista da Sagrada Escritura, com a figura de Cristo como irradiadora de uma luminosidade que simboliza sua divindade e a transcend\u00eancia do momento da \u00faltima Ceia. Ao fundo, janelas simuladas permitem que a luz do c\u00e9u oriental penetre na cena, detalhe criador de um v\u00ednculo simb\u00f3lico com a Jerusal\u00e9m espiritual representada pelas montanhas que se erguem sob seus p\u00e9s.<\/p>\n\n\n\n<p>Nesse sentido, ap\u00f3s a descri\u00e7\u00e3o da obra e para sua melhor compreens\u00e3o, \u00e9 preciso tamb\u00e9m discorrer acerca do contexto em que ela se insere, sobretudo sob o recorte art\u00edstico: o Renascimento. Nesse per\u00edodo, principalmente na It\u00e1lia, segundo a obra <em>A Cultura do Renascimento na It\u00e1lia<\/em>, de Burckhardt (1991), o movimento cultural foi um fen\u00f4meno amplo \u2013 pol\u00edtico, social, intelectual e tamb\u00e9m art\u00edstico \u2013 marcado por mudan\u00e7as significativas, como a descoberta da subjetividade. Al\u00e9m disso, sob o humanismo, o homem passou a ser o centro de todas as a\u00e7\u00f5es p\u00fablicas e privadas, e o resgate dos modelos greco-latinos reformulou tanto a vida civil quanto a produ\u00e7\u00e3o de arte. Outra grande mudan\u00e7a foi a laiciza\u00e7\u00e3o dessa produ\u00e7\u00e3o: al\u00e9m das encomendas eclesi\u00e1sticas, as cidades-Estado passaram a contratar artistas para obras c\u00edvicas, como afrescos em salas de conselho ou est\u00e1tuas em pra\u00e7as, de forma a fortalecer o conceito de <em>artista-cidad\u00e3o<\/em>, cuja reputa\u00e7\u00e3o dependia menos da Igreja e mais do reconhecimento p\u00fablico em variados ambientes urbanos.<\/p>\n\n\n\n<p>A revolu\u00e7\u00e3o renascentista, no campo das artes, valorizou n\u00e3o apenas a habilidade t\u00e9cnica, mas a criatividade e originalidade do artista, elevando-o a um modelo de homem universal capaz de dominar artes, letras, ci\u00eancias e at\u00e9 esportes em busca da perfei\u00e7\u00e3o individual. A partir do <em>Quattrocento<\/em> (final do s\u00e9culo XV), a investiga\u00e7\u00e3o cient\u00edfica \u2013 especialmente o estudo da anatomia \u2013 guiou os pintores a representar o real com precis\u00e3o, equil\u00edbrio, propor\u00e7\u00e3o e harmonia cl\u00e1ssicas em lugar dos contornos r\u00edgidos medievais. Ademais, o uso de novas t\u00e9cnicas, como o <em>sfumato<\/em> e o <em>chiaroscuro<\/em>, conferiu profundidade e naturalidade in\u00e9ditas \u00e0s formas pela mescla de luz e sombra.<\/p>\n\n\n\n<p>No Alto Renascimento (<em>Cinquecento<\/em>), mestres como Leonardo da Vinci, Rafael e Michelangelo concretizaram mais ainda as mudan\u00e7as acima descritas, ao plasmarem ideais de individualidade e erudi\u00e7\u00e3o em obras de equil\u00edbrio cl\u00e1ssico e monumentais, motivados pelos ideais do classicismo e do humanismo. Esse per\u00edodo n\u00e3o foi apenas uma conquista est\u00e9tica, mas uma verdadeira revolu\u00e7\u00e3o antropol\u00f3gica, que elevou o artista a sujeito aut\u00f4nomo \u2013 cujas cria\u00e7\u00f5es refletiam ao mesmo tempo o legado da antiguidade e as demandas pol\u00edticas e sociais de uma It\u00e1lia emergente como na\u00e7\u00e3o de criadores e pensadores.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa passagem do artes\u00e3o an\u00f4nimo das guildas medievais para artista aut\u00f4nomo, dotado de personalidade e prest\u00edgio social, rompeu com o anonimato t\u00e9cnico e fez que os artistas assumissem um papel de \u201cindiv\u00edduo espiritual\u201d (Burckhardt, 1991, p. 81). Esse fen\u00f4meno, segundo as aspira\u00e7\u00f5es do humanismo florentino \u2013 que mescla rever\u00eancia aos cl\u00e1ssicos, criatividade e ambi\u00e7\u00e3o pessoal \u2013 reposicionou o artista como protagonista de seu tempo e inaugurou a no\u00e7\u00e3o moderna de g\u00eanio. Assim, nascia o <em>uomo singolare<\/em>: n\u00e3o mais o artes\u00e3o an\u00f4nimo, mas esse g\u00eanio criador, original e solit\u00e1rio, cujo nome se eterniza junto \u00e0s suas cria\u00e7\u00f5es. Da Vinci demonstrou esse ideal ao combinar rigor emp\u00edrico e inventividade: realizava disseca\u00e7\u00f5es, estudava o voo das aves e as leis da \u00f3tica para conferir \u00e0s suas telas realismo e poeticidade. Inventou o <em>sfumato<\/em> \u2013 contornos esmaecidos em sombras suaves \u2013 para livrar as figuras de rigidez, fazendo-as \u201crespirar\u201d na pintura.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>A est\u00e9tica hegeliana<\/strong><strong><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Diante do exposto acerca da arte renascentista e, mais precisamente, da obra <em>A \u00daltima Ceia<\/em>, de Leonardo da Vinci, \u00e9 preciso \u2013 a fim de realizar uma an\u00e1lise est\u00e9tica dessa obra \u2013 adotar um par\u00e2metro te\u00f3rico-filos\u00f3fico. Nesse sentido, escolhemos a teoria est\u00e9tica segundo o pensamento adotado pelo fil\u00f3sofo alem\u00e3o G. W. F. Hegel (1770 \u2013 1831). Portanto, ser\u00e3o abordados, a seguir, os principais pressupostos do pensamento hegeliano acerca do belo e da arte.<\/p>\n\n\n\n<p>Antes de tudo, vale lembrar que as abordagens est\u00e9ticas variam bastante de acordo com a refer\u00eancia adotada. Alguns fil\u00f3sofos dignificam o aspecto sens\u00edvel, como Hume, enquanto outros exaltam a beleza natural, como Kant, e outros ainda enfatizam mais o belo art\u00edstico, como Hegel, par\u00e2metro te\u00f3rico desta an\u00e1lise.<\/p>\n\n\n\n<p>Embora Hegel tivesse reservas em utilizar a palavra \u201cest\u00e9tica\u201d \u2013 ele o faz \u201c[&#8230;] por n\u00e3o ter outra melhor e porque o termo j\u00e1 entrou em uso. A express\u00e3o \u2018filosofia da arte\u2019, em sua opini\u00e3o, \u00e9 de fato mais adequada\u201d (Jimenez, 1999, p. 167). Com efeito, ele prop\u00f4s realmente um estudo filos\u00f3fico sobre a arte, de modo a contemplar sua evolu\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica, de acordo com o seu sistema de pensamento. Diante disso, urge tratar propriamente de sua compreens\u00e3o est\u00e9tico-filos\u00f3fica, intrinsecamente ligada ao todo de sua filosofia.<\/p>\n\n\n\n<p>Hegel possui grande considera\u00e7\u00e3o pelo belo na arte. No entanto, seu ponto de partida n\u00e3o \u00e9 a obra de arte em si, mas a ideia de \u201cBelo\u201d. Dessa maneira, ele pr\u00f3prio afirma que \u201cAceitamos pois, no seu pleno significado, as palavras de Plat\u00e3o: \u2018Deve considerar-se, n\u00e3o os objectos particulares qualificados de belos, mas o Belo\u2019\u201d (Hegel, 1993, p. 7). Esse \u00e9 um pressuposto fundamental para o fil\u00f3sofo, pois \u00e9 esse princ\u00edpio ou ideal de \u201cBelo\u201d que guiar\u00e1 sua an\u00e1lise da \u201c[&#8230;] variedade, a multiplicidade, as diferen\u00e7as, as m\u00faltiplas e diversas formas e figuras da arte que, ent\u00e3o, se v\u00eam a apresentar como produ\u00e7\u00f5es necess\u00e1rias\u201d (Hegel, 1993, p. 8).<\/p>\n\n\n\n<p>Dessa maneira, \u00e9 necess\u00e1rio discorrer, segundo o sistema filos\u00f3fico hegeliano, a respeito da superioridade do belo art\u00edstico sobre o belo natural. Para Hegel, o Esp\u00edrito \u00e9 superior qualitativamente \u00e0 natureza, e tudo aquilo que \u00e9 influenciado ou marcado pelo elemento espiritual ser\u00e1, por conseguinte, superior \u00e0quilo que \u00e9 somente natural. \u00c9 nessa linha de pensamento que reside a import\u00e2ncia da \u201cfilosofia da arte\u201d para Hegel. O fil\u00f3sofo alem\u00e3o diz:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p>Segundo a opini\u00e3o corrente, a beleza criada pela arte seria muito inferior \u00e0 da natureza e o maior m\u00e9rito da arte residiria em aproximar as suas cria\u00e7\u00f5es do belo natural. Se, na verdade, assim acontecesse, ficaria exclu\u00edda da est\u00e9tica, compreendida como a ci\u00eancia unicamente do belo art\u00edstico, uma grande parte do dom\u00ednio da arte. Mas contra essa maneira de ver, julgamos n\u00f3s poder afirmar que o belo art\u00edstico \u00e9 superior ao belo natural por ser um produto do esp\u00edrito que, superior \u00e0 natureza, comunica esta superioridade aos seus produtos e, por conseguinte, \u00e0 arte; por isso \u00e9 o belo art\u00edstico superior ao belo natural. Tudo quanto prov\u00e9m do esp\u00edrito \u00e9 superior ao que existe na natureza (Hegel, 1993, p. 2).<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p>Essa compreens\u00e3o tem igualmente, entre seus efeitos, um ponto de vista acerca do objetivo final da arte, que n\u00e3o seria uma simples imita\u00e7\u00e3o da natureza, como Arist\u00f3teles afirmara anteriormente, mas sim o deleite da alma e do esp\u00edrito humano, uma livre express\u00e3o do belo e da vida do esp\u00edrito. Ou ainda, conforme as palavras de Jimenez (1999, p. 168), pode-se concluir que \u201cUma das conseq\u00fc\u00eancias desta superioridade incontest\u00e1vel do esp\u00edrito \u00e9 que a arte n\u00e3o poderia ter como finalidade a imita\u00e7\u00e3o da natureza. [&#8230;] Ora, a finalidade da arte n\u00e3o \u00e9 a de satisfazer a recorda\u00e7\u00e3o, mas a de satisfazer a alma, o esp\u00edrito\u201d. Hegel mesmo argumenta que<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p>Em suma, \u00e9 miss\u00e3o da arte apreender a exist\u00eancia e apresent\u00e1-la como ver\u00eddica nas suas manifesta\u00e7\u00f5es fenomenais, quer dizer, no acordo dela com um conte\u00fado coerente consigo mesmo e possuidor de um valor pr\u00f3prio. A verdade da arte, n\u00e3o \u00e9, pois, a da exactid\u00e3o pura e simples a que se reduz a chamada imita\u00e7\u00e3o da natureza (Hegel, 1993, p. 94).<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p>Nesse sentido, \u00e9 importante ressaltar que<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p>[&#8230;] existe em Hegel esta inquebrant\u00e1vel certeza \u2013 ou esta \u201ccren\u00e7a\u201d &#8211; de que o esp\u00edrito humano \u00e9 ele mesmo uma parcela de um esp\u00edrito que o ultrapassa: um Esp\u00edrito absoluto rege o conjunto do pensamento e da atividade humanas e se desdobra ao longo da hist\u00f3ria (Jimenez, 1999, p. 169).<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p>Assim como a religi\u00e3o e a filosofia, a arte, conforme Hegel, \u00e9 uma forma de exprimir as maneiras pelas quais o Esp\u00edrito supera as contradi\u00e7\u00f5es da hist\u00f3ria. Tal supera\u00e7\u00e3o se realiza de maneira concreta na evolu\u00e7\u00e3o da hist\u00f3ria, em muito gra\u00e7as \u00e0 manifesta\u00e7\u00e3o do belo nas obras de arte. Dessa forma, \u201cEm Hegel, o belo \u00e9 a pr\u00f3pria realidade concreta, apreendida em seu desdobramento hist\u00f3rico. Quando esta realidade toma a forma sens\u00edvel do belo art\u00edstico, ela determina o Ideal do belo art\u00edstico\u201d (Jimenez, 1999, p. 171). Essa manifesta\u00e7\u00e3o do Esp\u00edrito por meio da arte se realiza precisamente atrav\u00e9s das obras art\u00edsticas, reunidas por ele em tr\u00eas grandes formas particulares ao longo da hist\u00f3ria: a arte simb\u00f3lica, a arte cl\u00e1ssica e a arte rom\u00e2ntica.<\/p>\n\n\n\n<p>A arte simb\u00f3lica, notadamente arte oriental, \u00e9 um est\u00e1gio prim\u00e1rio, em que h\u00e1 desarmonia entre mat\u00e9ria e esp\u00edrito:&nbsp; espiritualmente pobre, mas abundante de mat\u00e9ria, realizada num acabamento mais r\u00fastico e com a presen\u00e7a de formas monstruosas e antropomorfizadas. Por sua vez, a arte cl\u00e1ssica, produzida na antiguidade greco-romana, apresenta uma t\u00e9cnica mais apurada e uma espiritualidade mais profunda e refinada, expressa pela representa\u00e7\u00e3o mais sofisticada do humano derivada da evolu\u00e7\u00e3o do pensamento racional e abstrato. Dona de maior equil\u00edbrio entre mat\u00e9ria e esp\u00edrito, ter\u00e1 v\u00e1rios de seus elementos retomados no per\u00edodo da Renascen\u00e7a, como anteriormente exposto, inclusive na pintura de da Vinci. Por fim, a arte rom\u00e2ntica \u201c[&#8230;] \u00e9 uma arte de interioridade absoluta e da subjetividade consciente de sua autonomia e de sua liberdade\u201d (Jimenez, 1999, p. 174). Compreendida sobretudo na arte crist\u00e3, essa forma de arte apresenta o transbordamento da dimens\u00e3o espiritual e dos valores religiosos, com a perda do equil\u00edbrio da arte cl\u00e1ssica e com a ultrapassagem das formas sens\u00edveis. Em rela\u00e7\u00e3o a isso, Hegel (1993, p. 173) afirma que<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p>Quando [&#8230;] a ideia do belo se concebe a si mesma como sendo o esp\u00edrito <em>absoluto <\/em>e, por conseguinte, livre em si e para si, j\u00e1 ela n\u00e3o tem a possibilidade de se realizar plenamente por meios exteriores, pois s\u00f3 como <em>esp\u00edrito <\/em>existe. Assim destr\u00f3i ela a fus\u00e3o entre o fundo interno e a manifesta\u00e7\u00e3o exterior, que havia sido realizada pela arte cl\u00e1ssica, e regressa a si mesma. E assim surge a arte rom\u00e2ntica: como, em virtude da sua livre espiritualidade, o seu conte\u00fado exige mais do que lhe poderia dar a representa\u00e7\u00e3o exterior e corp\u00f3rea, a arte rom\u00e2ntica mostra-se completamente indiferente \u00e0 forma.<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p>H\u00e1 uma tens\u00e3o de crescimento hist\u00f3rico constante da manifesta\u00e7\u00e3o do Esp\u00edrito, cada vez mais racionalizado. A arte, que \u00e9 manifesta\u00e7\u00e3o sens\u00edvel da Ideia do belo art\u00edstico, n\u00e3o consegue mais cumprir sua finalidade, fato que constitui o conceito de \u201cfim da arte\u201d. O modo de fazer arte at\u00e9 ent\u00e3o, para Hegel, acabou, de forma que a arte seguir\u00e1 novos termos para tal. Ela cede seu espa\u00e7o de manifesta\u00e7\u00e3o do Esp\u00edrito para maneiras mais elevadas, como a pr\u00f3pria filosofia.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p>Hegel lembra que a arte serve para exprimir o absoluto. Mas o conhecimento que nos d\u00e1 \u00e9, de longe, inferior ao da religi\u00e3o e da filosofia. Quando atinge seu grau supremo de espiritualiza\u00e7\u00e3o e de subjetiviza\u00e7\u00e3o &#8211; na arte rom\u00e2ntica sobretudo &#8211; ela desaparece enquanto arte, criadora de obras, para ceder o lugar \u00e0 filosofia (Jimenez, 1999, p. 181).<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p>Por fim, o fil\u00f3sofo alem\u00e3o considera cinco formas individuais de arte: arquitetura (mais relacionada \u00e0 arte simb\u00f3lica), escultura (\u00e0 arte cl\u00e1ssica) e as tr\u00eas ligadas, em sua plena exist\u00eancia art\u00edstica, \u00e0 arte rom\u00e2ntica: pintura, m\u00fasica e poesia. Com base no foco deste trabalho, Hegel (1993, p. 349), prop\u00f5e que a pintura \u201c[&#8230;] faz da figura exterior a express\u00e3o total do interior que, no seio do mundo circundante, representa o absoluto n\u00e3o somente reclu\u00eddo em si mesmo, mas tamb\u00e9m na sua subjectividade espiritual [&#8230;]\u201d. Ainda sobre essa manifesta\u00e7\u00e3o do esp\u00edrito interior, o fil\u00f3sofo (1993, p. 445) afirma que \u201c\u00c9 com efeito na pintura que pela primeira vez se afirma o princ\u00edpio da subjectividade ao mesmo tempo finita e infinita, o princ\u00edpio da nossa pr\u00f3pria vida, e contemplamos nas obras dela tudo o que vive, actua e se agita dentro de n\u00f3s\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Portanto, o pensamento est\u00e9tico hegeliano \u2013 expresso acima e constitu\u00eddo conforme o seu sistema filos\u00f3fico \u2013 apresenta bases suficientes para analisar o belo art\u00edstico presente nas obras de arte. Dessa forma, seguir-se-\u00e1 este texto com a an\u00e1lise do quadro <em>A \u00daltima Ceia<\/em>, de Leonardo da Vinci, a partir dos pressupostos expostos anteriormente.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>An\u00e1lise est\u00e9tica<\/strong><strong><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Ao serem consideradas a riqueza hist\u00f3rica e art\u00edstica da obra estudada e a vastid\u00e3o da teoria est\u00e9tica hegeliana utilizada para a sua an\u00e1lise, destacam-se dois pontos principais para o seu estudo est\u00e9tico, entre os muitos poss\u00edveis de serem tratados. Em primeiro lugar, ser\u00e3o abordadas a emotividade dos personagens da pintura em quest\u00e3o como express\u00e3o da subjetividade espiritual, conforme Hegel. E, em segundo lugar, ser\u00e1 retratado o aspecto f\u00edsico dessa obra na rela\u00e7\u00e3o estabelecida entre luz e sombra, com \u00eanfase no papel de espiritualiza\u00e7\u00e3o que ela fornece \u00e0 arte, de acordo com o fil\u00f3sofo alem\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>A princ\u00edpio, sobressai a expressividade das emo\u00e7\u00f5es. Na obra <em>A \u00daltima Ceia<\/em>, \u00e9 not\u00e1vel a concep\u00e7\u00e3o de que a pintura \u00e9 uma forma mais excelente \u2013 comparada \u00e0 arquitetura e \u00e0 escultura \u2013 em que se manifesta, com intensidade not\u00f3ria, a subjetividade do esp\u00edrito por meio das express\u00f5es dos personagens representados. Cada disc\u00edpulo expressa, por meio de gestos, da inclina\u00e7\u00e3o do corpo, do movimento das m\u00e3os e da posi\u00e7\u00e3o do olhar, a grandeza da institui\u00e7\u00e3o da Eucaristia e tamb\u00e9m a inquieta\u00e7\u00e3o diante do an\u00fancio da trai\u00e7\u00e3o, uma tens\u00e3o entre a cena hist\u00f3rica e corporal finita e o drama espiritual e interior infinito. A paz e a serenidade de Jesus Cristo, em oposi\u00e7\u00e3o ao tumulto das emo\u00e7\u00f5es dos ap\u00f3stolos, se encarnam no que Hegel reconhece como a verdadeira pot\u00eancia da pintura em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 express\u00e3o da alma, que muitas vezes n\u00e3o \u00e9 demonstrada na escultura: \u201c[&#8230;] O substancial da pintura n\u00e3o \u00e9 representado, como o da escultura, por um indiv\u00edduo condensado na sua imobilidade, mas encontra-se por assim dizer espargido sobre a comunidade inteira que ele penetra e anima\u201d (Hegel, 1993, p. 446). Na obra de da Vinci, nota-se esse espargimento do esp\u00edrito, dado na totalidade do grupo. Jesus aparece ao centro, com calma e com o equil\u00edbrio da forma triangular que o envolve, e os disc\u00edpulos, por sua vez, est\u00e3o dispostos em tr\u00eas grupos, de modo a manifestar o impacto da declara\u00e7\u00e3o do mestre com express\u00f5es e gestos \u00fanicos. N\u00e3o h\u00e1 rigidez, mas uma tens\u00e3o viva, um movimento interior traduzido em forma pict\u00f3rica. A cena retratada na obra demonstra uma unidade org\u00e2nica que transcende, de forma espiritualizada, a reuni\u00e3o de figuras humanas e o divino, e \u00e9 essa capacidade da pintura que Hegel destaca:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p>[&#8230;] a pintura torna-se capaz de exprimir a vida e o movimento, que a escultura, em raz\u00e3o, tanto do seu conte\u00fado como do seu modo de representa\u00e7\u00e3o, era obrigada a negligenciar, e encontra \u00e0 sua disposi\u00e7\u00e3o numerosos temas e uma grande variedade de modos de representa\u00e7\u00e3o que faltaram \u00e0 escultura (Hegel, 1993, p. 446).<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p>A preciosidade e riqueza do movimento, assim como a diversidade interior nos rostos e gestos de da Vinci, confirmam essa observa\u00e7\u00e3o. A pintura, segundo Hegel, possui o dom de fundir o exterior, que \u00e9 a apar\u00eancia, com a vida subjetiva. Em <em>A \u00daltima Ceia<\/em>, o plano pict\u00f3rico, ao mesmo tempo que \u00e9 espa\u00e7o f\u00edsico, \u00e9 tamb\u00e9m atmosfera ps\u00edquica. A janela ao fundo se revela como s\u00edmbolo da transcend\u00eancia, e a mesa que une e separa as figuras b\u00edblicas criam a ambi\u00eancia que \u00e9 o reflexo do drama \u00edntimo em curso.<\/p>\n\n\n\n<p>Ademais, Hegel, diz que: \u201c[&#8230;] a superioridade do talento afirma-se, n\u00e3o da pintura da beleza sens\u00edvel, da forma, mas na express\u00e3o da vida profunda, espiritual, e \u00e9 isso que faz a perfei\u00e7\u00e3o do quadro, que o torna uma obra-prima\u201d (Hegel, 1993, p. 447). Tal \u201cvida profunda\u201d \u00e9 percept\u00edvel no contraste retratado entre Judas, recolhido, sombrio, com o rosto semioculto, e os demais disc\u00edpulos que expressam incredulidade, surpresa, dor e busca de mais explica\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>A obra n\u00e3o apenas narra uma cena b\u00edblica, mas a transforma em s\u00edmbolo da condi\u00e7\u00e3o humana. Nela est\u00e3o presentes a trai\u00e7\u00e3o, a amizade, o medo, a f\u00e9, a d\u00favida, o que, para Hegel, constitui a verdade da pintura como arte do esp\u00edrito. O ambiente arquitet\u00f4nico na pintura, as paredes, assim como a luz que entra ao fundo, as linhas de fuga que convergem ao centro, est\u00e3o em plena ordena\u00e7\u00e3o para refor\u00e7ar a centralidade que \u00e9 Cristo e tamb\u00e9m de todo o enredo que ocorreu nesse significativo dia. A harmoniosa a\u00e7\u00e3o entre o espa\u00e7o e o esp\u00edrito \u00e9 t\u00e3o perfeita que a cena transcende o tempo e permanece nos dias atuais como poder da arte pict\u00f3rica. Conforme observa Hegel (1993, p. 447) sobre a capacidade da pintura, ela<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p>[&#8230;] situa as suas figuras numa natureza exterior ou numa ambi\u00eancia arquitect\u00f3nica inventadas por ela pr\u00f3pria, e sabe animar e vivificar este exterior a ponto de o tornar um reflexo da subjectividade e de criar um acordo e uma harmonia entre si e o espirito das figuras que nele evoluem.<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p>Sua subjetividade aqui se faz forma, que se faz a express\u00e3o viva do esp\u00edrito humano, bem como de seu car\u00e1ter e individualidade. De fato, Hegel mesmo comenta sobre <em>A \u00daltima Ceia<\/em> e a representa\u00e7\u00e3o de seus personagens, de modo a enfatizar que tais caracter\u00edsticas<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p>N\u00e3o s\u00e3o ideais divinos ou deuses ideais, mas ideais humanos no mais alto grau de individualiza\u00e7\u00e3o, n\u00e3o s\u00e3o s\u00f3 homens tal como deveriam ser, mas ideais humanos tal como existem na realidade, homens aos quais n\u00e3o faltam nem a particularidade do car\u00e1cter nem a participa\u00e7\u00e3o desta particularidade no universal, que ocupa e penetra os indiv\u00edduos. S\u00e3o figuras deste g\u00e9nero as que criaram Miguel \u00c2ngelo, Rafael e <em>Leonardo da Vinci, este na sua c\u00e9lebre ceia<\/em>, figuras donde emanam uma dignidade, uma grandeza e uma nobreza que n\u00e3o encontramos com frequ\u00eancia nas dos outros pintores (Hegel, 1993, p. 480, grifo nosso).<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p>Ademais, outro ponto a se destacar na pintura de da Vinci que pode ser analisado segundo o pensamento est\u00e9tico hegeliano \u00e9 a rela\u00e7\u00e3o entre luz, sombra e obra. Diante disso, faz-se necess\u00e1rio abordar como o fil\u00f3sofo pensa esteticamente essa quest\u00e3o. Hegel (1993, p. 451) afirma que \u201cOra, o elemento f\u00edsico essencial, utilizado pela pintura, n\u00e3o \u00e9 sen\u00e3o a <em>luz<\/em>, esse factor de visibilidade dos objectos em geral\u201d. Acerca desse elemento t\u00e3o importante na pintura, ele continua:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p>A luz \u00e9 o contr\u00e1rio da mat\u00e9ria grave, ainda em busca da sua unidade. Seja o que for que se possa dizer acerca da luz, o certo \u00e9 que ela \u00e9 de uma leveza absoluta, sem peso nem resist\u00eancia, absolutamente id\u00eantica e relativa a si mesma, enfim representa a primeira idealidade, a primeira auto-afirma\u00e7\u00e3o da natureza. Na luz, a natureza torna-se pela primeira vez subjectiva; \u00e9 doravante o f\u00edsico geral que, sem estar ainda particularizado nem encerrado num isolamento punctiforme, n\u00e3o rejeitou menos a objectividade e a exterioridade da mat\u00e9ria rude e se mostrou capaz de se abstrair da totalidade espacial e sens\u00edvel desta. \u00c9 gra\u00e7as a esta qualidade <em>idealizante<\/em> que a luz se torna o princ\u00edpio f\u00edsico da pintura (Hegel, p. 451).<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p>Nesse vi\u00e9s, \u00e9 poss\u00edvel afirmar que<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p>Hegel deixa clara a id\u00e9ia de que a luz respons\u00e1vel pelo fen\u00f4meno da pintura n\u00e3o \u00e9 de fato a mesma luz que se pode considerar natural, aquela, por exemplo, que incide sobre uma folha de \u00e1rvore deixando-se refletir o verde que comumente vemos. A luz que gera a pintura \u00e9 muito mais uma luz espiritual, pois ela \u00e9 capaz n\u00e3o apenas de refletir as cores e as formas dos objetos, mas de criar objetos em uma superf\u00edcie onde antes nada mais existia al\u00e9m da mera superf\u00edcie (Gon\u00e7alves, 2008, p. 46).<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p>Hegel p\u00f5e a pintura como uma forma de arte mais elevada do que a arquitetura e a escultura, pois nela o esp\u00edrito se encontra mais desenvolvido em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 mat\u00e9ria simplesmente (destaca-se a observa\u00e7\u00e3o hegeliana da subjetiviza\u00e7\u00e3o da natureza presente na pintura, gra\u00e7as \u00e0 luz). Por mais que Hegel se refira \u00e0 pintura na sua plenitude dentro das formas de arte rom\u00e2nticas e que a obra de da Vinci, segundo o contexto renascentista em que se encontra, retome importantes aspectos da arte cl\u00e1ssica, \u00e9 poss\u00edvel notar que a luz exerce nela papel important\u00edssimo, tanto na constru\u00e7\u00e3o do seu enredo (altamente espiritual<a href=\"#_ftn1\" id=\"_ftnref1\">[1]<\/a> no conte\u00fado e na apresenta\u00e7\u00e3o) quanto na disposi\u00e7\u00e3o das formas e personagens representadas.<\/p>\n\n\n\n<p>Esse papel exercido pela luz, contudo, s\u00f3 \u00e9 entendido plenamente quando posto em rela\u00e7\u00e3o com a no\u00e7\u00e3o de sombra, definida como aquilo que n\u00e3o \u00e9 iluminado. Hegel explica igualmente como o aspecto da sombra contribui para a maior espiritualidade das pinturas, como \u00e9 o caso tamb\u00e9m de <em>A \u00daltima Ceia<\/em>. Tal fato se d\u00e1 sobretudo pela superioridade do esp\u00edrito sobre a natureza que \u00e9 comunicada pelo efeito de luz e sombra nessa forma de arte:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p>Na pintura, pelo contr\u00e1rio, o claro e o escuro, com todas as suas grada\u00e7\u00f5es e os seus mais delicados matizes, fazem parte dos materiais de que o artista se serve e produzem a apar\u00eancia <em>artificial<\/em> daquilo que a escultura e a arquitectura apresentam como <em>real<\/em>. A luz e as sombras, a manifesta\u00e7\u00e3o dos objectos pela sua forma de ilumina\u00e7\u00e3o, s\u00e3o provocadas pela arte, e n\u00e3o pela luz natural, que torna somente vis\u00edveis o claro e o escuro, assim como a ilumina\u00e7\u00e3o, a obra realizada pela pintura. E \u00e9 a\u00ed que reside a raz\u00e3o positiva, pela qual a pintura n\u00e3o tem necessidade das tr\u00eas dimens\u00f5es (Hegel, p. 452).<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p>Tais efeitos se d\u00e3o, conforme caracter\u00edstica muito presente na arte renascentista mencionada anteriormente, pelas t\u00e9cnicas do <em>sfumato <\/em>e do <em>chiaroscuro<\/em> empregadas pelo artista, que ressaltam a luz na sua rela\u00e7\u00e3o com a sombra e confere alto grau de espiritualidade \u2013 nos termos hegelianos \u2013 \u00e0 pintura em quest\u00e3o. Al\u00e9m disso, o referido m\u00e9todo art\u00edstico empregado pelo pintor permite, igualmente, a aus\u00eancia da terceira dimens\u00e3o (ao contr\u00e1rio da arquitetura e da escultura) como elemento de maior espiritualidade e menor materialidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Dessa forma, Hegel ressalta a for\u00e7a da espiritualidade na pintura, sobretudo em compara\u00e7\u00e3o com a arquitetura e a escultura. Muitos elementos encontrados em <em>A \u00daltima Ceia<\/em> \u2013 como a express\u00e3o sentimental dos personagens e a presen\u00e7a e o jogo de luz e sombra \u2013 parecem refor\u00e7ar esse forte aspecto espiritual na arte t\u00e3o trabalhado pelo pensador. Pode-se dizer, com base no pr\u00f3prio Hegel e nos t\u00f3picos abordados anteriormente, que a pinturaestudada possui fortes elementos da arte rom\u00e2ntica, sobretudo esse alto grau de espiritualidade, sem, no entanto, abdicar de importantes elementos materiais, os quais \u2013 conforme a arte do per\u00edodo da Renascen\u00e7a \u2013, retomam diversas caracter\u00edsticas da arte cl\u00e1ssica. Portanto, <em>A \u00daltima Ceia <\/em>se configura n\u00e3o somente como uma das maiores obras de da Vinci e do Renascimento, mas tamb\u00e9m revela uma grande riqueza est\u00e9tica e espiritual nos termos hegelianos.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Conclus\u00e3o<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>No presente artigo, a partir do estudo hist\u00f3rico-art\u00edstico sobre a obra <em>A \u00daltima Ceia<\/em>, de Leonardo da Vinci, e dos conceitos te\u00f3ricos de Hegel, ficou evidente que essa pintura, de uma forma geral, n\u00e3o foi apenas um dos marcos est\u00e9ticos do Alto Renascimento, mas, para al\u00e9m disso, consagrou-se principalmente como um testemunho concreto acerca das profundas transforma\u00e7\u00f5es antropol\u00f3gicas e sociais do per\u00edodo de sua produ\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Em primeira an\u00e1lise, sob a condu\u00e7\u00e3o dos estudos de Burckhardt e Gombrich sobre a hist\u00f3ria da arte e da cultura, ficou claro que o Renascimento italiano gerou uma revolu\u00e7\u00e3o maneira como o sujeito era visto: o artista, antes confinado ao papel de artes\u00e3o an\u00f4nimo, emergiu como indiv\u00edduo aut\u00f4nomo, dono de seus saberes e livre para expressar sua criatividade. Essa emancipa\u00e7\u00e3o intelectual conferiu ao criador renascentista uma posi\u00e7\u00e3o in\u00e9dita na sociedade \u2013 ele passou a produzir n\u00e3o s\u00f3 imagens, mas influenciar a pr\u00f3pria maneira de ver o mundo com t\u00e9cnicas realistas.<\/p>\n\n\n\n<p>Em seguida, p\u00f4de-se ver como <em>A \u00daltima Ceia<\/em>, sob os diversos conceitos est\u00e9ticos hegelianos, afirma a superioridade da pintura como uma forma de arte capaz de expressar mais plenamente o Esp\u00edrito. O espargimento da interioridade humana entre os ap\u00f3stolos, a sutileza psicol\u00f3gica de cada personagem, a express\u00e3o em cada rosto e a tens\u00e3o dram\u00e1tica do an\u00fancio da trai\u00e7\u00e3o re\u00fanem o fato hist\u00f3rico e o encontro \u00edntimo em uma \u00fanica cena. Aqui, a pintura revela-se como meio privilegiado de fus\u00e3o entre a\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica e express\u00e3o subjetiva.<\/p>\n\n\n\n<p>Por fim, a an\u00e1lise do <em>sfumato <\/em>e do <em>chiaroscuro<\/em> \u2013 fundamentada na concep\u00e7\u00e3o hegeliana da luz \u2013 mostrou como da Vinci ultrapassa a mera representa\u00e7\u00e3o: ao manipular luz e sombra na pintura, ele criou um espa\u00e7o pict\u00f3rico espiritualizado, dotado de leveza e densidade simb\u00f3lica. Esse dom\u00ednio t\u00e9cnico refor\u00e7a o papel da arte como ve\u00edculo de sentidos interiores, capaz de comunicar o invis\u00edvel por meio do vis\u00edvel, o abstrato por meio do intelig\u00edvel. Tudo isso se configura como uma fort\u00edssima manifesta\u00e7\u00e3o da subjetividade e do Esp\u00edrito, pela sua supera\u00e7\u00e3o da natureza realizada por ele por meio do elemento artificial da luz.<\/p>\n\n\n\n<p>Dessa forma, <em>A \u00daltima Ceia<\/em> se apresenta simultaneamente como obra-s\u00edntese dos ideais humanistas \u2013 valoriza\u00e7\u00e3o do indiv\u00edduo e da experi\u00eancia sens\u00edvel \u2013 e como um dos marcos inaugurais da moderna subjetividade art\u00edstica, gerando uma nova rela\u00e7\u00e3o entre criador, obra e visualizador. Ao testemunhar esse di\u00e1logo entre Renascimento e Hegel, conclui-se que a pintura de da Vinci n\u00e3o \u00e9 apenas uma express\u00e3o religiosa ou um apogeu t\u00e9cnico, mas um elo vital entre as concep\u00e7\u00f5es renascentistas sobre a subjetividade do artista e a manifesta\u00e7\u00e3o espiritual do belo, posteriormente concebida por Hegel. Assim, encerra-se este estudo ressaltando o car\u00e1ter de <em>A \u00daltima Ceia<\/em>: mais do que um painel ou do que uma pintura, \u00e9 a manifesta\u00e7\u00e3o do esp\u00edrito hist\u00f3rico e da liberdade criativa, uni\u00e3o de elementos cl\u00e1ssicos e rom\u00e2nticos que continuam a inspirar a reflex\u00e3o est\u00e9tica e filos\u00f3fica at\u00e9 os dias atuais.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>ADONIAS FILHO. <strong>Os grandes personagens e a hist\u00f3ria Leonardo da Vinci<\/strong>. S\u00e3o Paulo: Tecnoprint S.A, [19&#8211;?].<\/p>\n\n\n\n<p>BURCKHARDT, Jacob. <strong>A Cultura do Renascimento na It\u00e1lia<\/strong>. Tradu\u00e7\u00e3o: Vera L\u00facia de Oliveira Sarmento e Fernando de Azevedo Corr\u00eaa. Bras\u00edlia: Editora Universidade de Bras\u00edlia, 1991.<\/p>\n\n\n\n<p>GOMBRICH, Ernst Hans. <strong>A Hist\u00f3ria da Arte<\/strong>. Tradu\u00e7\u00e3o: \u00c1lvaro Ribeiro. Rio de Janeiro, LTC, 2011.<\/p>\n\n\n\n<p>GON\u00c7ALVES, M\u00e1rcia Cristina Ferreira. Hegel leitor de Goethe: Entre a f\u00edsica da luz e o colorido da arte. <strong>Revista Eletr\u00f4nica Estudos Hegelianos<\/strong>, [<em>S. l.<\/em>], v. 5, n. 8, p. 37-56, jun.\/2008. Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/www.ojs.hegelbrasil.org\/index.php\/reh\/article\/view\/132\/11\">https:\/\/www.ojs.hegelbrasil.org\/index.php\/reh\/article\/view\/132\/11<\/a>. Acesso em: 28 mai. 2025.<\/p>\n\n\n\n<p>HEGEL, G. W. Friedrich. <strong>Est\u00e9tica<\/strong>. Tradu\u00e7\u00e3o: \u00c1lvaro Ribeiro, Orlando Vitorino. Lisboa: Guimar\u00e3es Editores, 1993. (Colec\u00e7\u00e3o Filosofia &amp; Ensaios).<\/p>\n\n\n\n<p>JIMENEZ, Marc. <strong>O que \u00e9 est\u00e9tica?<\/strong>. Tradu\u00e7\u00e3o: Fulvia M. L. Moretto. S\u00e3o Leopoldo: Unisinos, 1999.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref1\" id=\"_ftn1\">[1]<\/a> A refer\u00eancia ao \u201cespiritual\u201d, aqui, concerne tanto \u00e0 religiosidade retratada quanto ao pr\u00f3prio conceito hegeliano, tendo em vista que, na vis\u00e3o do fil\u00f3sofo, a religi\u00e3o tamb\u00e9m \u00e9 uma forma de express\u00e3o do absoluto. Al\u00e9m disso, a pr\u00f3pria apresenta\u00e7\u00e3o do conte\u00fado da obra, como destacado neste trabalho, revela importantes tra\u00e7os de espiritualidade.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Andr\u00e9 Rodrigues Marques, Brenno Maciel de Paiva Rosa, Gerlison Ferreira Fernandes e V\u00edtor Alves Rodrigues e Silva Resumo: O presente artigo visa analisar esteticamente a obra A \u00daltima Ceia de Leonardo da Vinci, segundo os par\u00e2metros conceituais da filosofia de Georg Wilhelm Friedrich Hegel. Em primeiro lugar, \u00e9 realizada a descri\u00e7\u00e3o e contextualiza\u00e7\u00e3o da &hellip; <\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_mi_skip_tracking":false,"footnotes":""},"categories":[578,574,580,579,575],"tags":[194,286,306,572,573],"class_list":{"0":"entry","1":"post","2":"publish","3":"author-admin","4":"post-2915","6":"format-standard","7":"category-andre-rodrigues-marques","8":"category-brenno-maciel-de-paiva-rosa","9":"category-georg-wilhelm-friedrich-hegel","10":"category-gerlison-ferreira-fernandes","11":"category-vitor-alves-rodrigues-e-silva","12":"post_tag-arte","13":"post_tag-estetica","14":"post_tag-filosofia","15":"post_tag-hegel","16":"post_tag-leonardo-da-vinci"},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2915","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=2915"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2915\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2916,"href":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2915\/revisions\/2916"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=2915"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=2915"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=2915"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}