{"id":2941,"date":"2025-09-26T17:22:45","date_gmt":"2025-09-26T20:22:45","guid":{"rendered":"http:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/?p=2941"},"modified":"2025-09-26T17:22:45","modified_gmt":"2025-09-26T20:22:45","slug":"a-busca-pelo-sentido-da-vida-uma-reflexao-antropologica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/?p=2941","title":{"rendered":"A BUSCA PELO SENTIDO DA VIDA: UMA REFLEX\u00c3O ANTROPOL\u00d3GICA"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-text-align-right\">Caio  C\u00e9sar Gomes  Amora<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Resumo:<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Este artigo prop\u00f5e uma reflex\u00e3o antropol\u00f3gica sobre o sofrimento e o sentido da vida, a partir das contribui\u00e7\u00f5es de Viktor Frankl, Hans Jonas e Dom Edmar Jos\u00e9 da Silva. Com base na logoterapia, Frankl defende que o ser humano \u00e9 movido por uma vontade de sentido, capaz de ressignificar a dor por meio da realiza\u00e7\u00e3o de obras, viv\u00eancia de valores e enfrentamento digno do sofrimento. Sua abordagem amplia a compreens\u00e3o da experi\u00eancia humana ao integrar dimens\u00f5es simb\u00f3licas, culturais e espirituais. Hans Jonas, por sua vez, questiona a imagem tradicional de Deus ap\u00f3s o Holocausto, propondo um Deus autolimitado, que sofre com o mundo e confia ao ser humano a responsabilidade \u00e9tica frente ao mal. A reflex\u00e3o \u00e9 aprofundada por Dom Edmar, que oferece uma perspectiva filos\u00f3fico-crist\u00e3 ao afirmar que o sentido da vida s\u00f3 pode ser sustentado por uma realidade permanente, como Deus, contrapondo-se ao niilismo e defendendo a esperan\u00e7a como for\u00e7a vital. O artigo integra essas vis\u00f5es para pensar a dignidade humana como resist\u00eancia ao absurdo, fundada na liberdade, na responsabilidade e na abertura ao transcendente.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Palavras-chave:<\/strong> Sentido, Sofrimento, Esperan\u00e7a, Frankl, Antropologia.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>INTRODU\u00c7\u00c3O<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A quest\u00e3o do sentido da vida constitui uma das tem\u00e1ticas centrais da experi\u00eancia humana, presente em diversas tradi\u00e7\u00f5es filos\u00f3ficas, religiosas e antropol\u00f3gicas. Em contextos contempor\u00e2neos, marcados por crises de valores, fragmenta\u00e7\u00e3o de v\u00ednculos e crescente indiferen\u00e7a diante do sofrimento, essa busca revela-se cada vez mais urgente. A sociedade atual manifesta sintomas de esvaziamento existencial, refletidos em altos \u00edndices de ang\u00fastia, depress\u00e3o e perda de refer\u00eancias simb\u00f3licas. Nesse cen\u00e1rio, o sofrimento, muitas vezes visto como algo a ser evitado ou suprimido, pode ser reinterpretado como uma via leg\u00edtima e profunda para a constru\u00e7\u00e3o de sentido. O presente artigo prop\u00f5e uma reflex\u00e3o antropol\u00f3gica sobre a rela\u00e7\u00e3o entre sofrimento e sentido da vida, a partir do pensamento de Viktor Frankl, Hans Jonas e Dom Edmar Jos\u00e9 da Silva. A obra de Viktor Frankl, desenvolvida a partir de sua experi\u00eancia nos campos de concentra\u00e7\u00e3o, apresenta a logoterapia como uma abordagem que compreende o ser humano como movido por uma vontade de sentido. Mesmo em situa\u00e7\u00f5es extremas, \u00e9 poss\u00edvel encontrar um prop\u00f3sito capaz de ressignificar a dor, sendo apontados tr\u00eas caminhos fundamentais: a realiza\u00e7\u00e3o de uma obra, a viv\u00eancia de valores e a atitude digna diante do sofrimento inevit\u00e1vel.<\/p>\n\n\n\n<p>Na sequ\u00eancia, s\u00e3o exploradas as contribui\u00e7\u00f5es de Hans Jonas, cuja reflex\u00e3o teol\u00f3gica prop\u00f5e uma nova imagem de Deus a partir da cat\u00e1strofe de Auschwitz. Jonas rompe com a concep\u00e7\u00e3o tradicional de um Deus onipotente e justo, sugerindo uma divindade autolimitada, que sofre com a cria\u00e7\u00e3o e que confere ao ser humano uma liberdade radical. Essa liberdade implica uma responsabilidade \u00e9tica diante do mal e convida \u00e0 revis\u00e3o das imagens divinas e da autocompreens\u00e3o humana.<\/p>\n\n\n\n<p>Assim, o artigo busca articular essas perspectivas com o pensamento de Dom Edmar Jos\u00e9 da Silva, que analisa o sentido da exist\u00eancia a partir de uma abordagem filos\u00f3fico-crist\u00e3. Em sua reflex\u00e3o, apenas uma realidade permanente e transcendente, como Deus, pode sustentar de forma plena o sentido da vida. O autor prop\u00f5e a esperan\u00e7a como resposta concreta ao sofrimento e como express\u00e3o da dignidade humana, mesmo em meio ao absurdo.<\/p>\n\n\n\n<p>A partir da interlocu\u00e7\u00e3o entre esses tr\u00eas autores, o artigo busca demonstrar como o sofrimento, quando assumido com liberdade e responsabilidade, pode tornar-se um espa\u00e7o significativo de reconstru\u00e7\u00e3o existencial. A an\u00e1lise visa contribuir para a compreens\u00e3o do sofrimento como dimens\u00e3o essencial da condi\u00e7\u00e3o humana e para o resgate da possibilidade de sentido em uma realidade muitas vezes marcada pelo vazio e pela desesperan\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>DESENVOLVIMENTO<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Viktor Frankl e a busca de sentido no sofrimento<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A exist\u00eancia humana carrega em si a necessidade de encontrar um significado, sobretudo diante da dor. Viktor Frankl, psiquiatra austr\u00edaco e sobrevivente dos campos de concentra\u00e7\u00e3o nazistas, desenvolveu uma reflex\u00e3o existencial que parte da experi\u00eancia do sofrimento como via de revela\u00e7\u00e3o do sentido da vida. Em sua obra <em>Em busca de sentido \u2013 um psic\u00f3logo no campo de concentra\u00e7\u00e3o<\/em>, publicada originalmente em 1946, Frankl retoma a ideia nietzschiana que afirma: \u201cquem tem por que viver aguenta quase todo como\u201d (1991, p. 75), indicando que o sofrimento deixa de ser sofrimento no momento em que encontra um sentido. Para ele, o essencial n\u00e3o \u00e9 a aus\u00eancia da dor, mas a atitude assumida diante dela. O ser humano \u00e9 capaz de suportar as circunst\u00e2ncias mais adversas quando descobre um prop\u00f3sito pelo qual viver. Nesse contexto, afirma: \u201cN\u00e3o devemos esquecer nunca que tamb\u00e9m podemos encontrar sentido na vida quando nos confrontamos com uma situa\u00e7\u00e3o sem esperan\u00e7a, quando enfrentamos uma fatalidade que n\u00e3o pode ser mudada\u201d (Frankl, 1991, p. 101). Assim, a dor humana, por mais absurda que pare\u00e7a, pode tornar-se um espa\u00e7o fecundo de reconstru\u00e7\u00e3o existencial e afirma\u00e7\u00e3o do sentido da vida.<\/p>\n\n\n\n<p>Dando continuidade a essa perspectiva, a logoterapia, abordagem desenvolvida pelo psic\u00f3logo, entende que a vontade de sentido constitui a principal for\u00e7a motivadora do ser humano. Essa concep\u00e7\u00e3o rompe com os paradigmas da psican\u00e1lise freudiana, centrada na busca do prazer, e da psicologia de Adler, voltada \u00e0 vontade de poder. Frankl prop\u00f5e que o homem n\u00e3o \u00e9 apenas movido por impulsos ou instintos de domina\u00e7\u00e3o, mas pela necessidade de encontrar um prop\u00f3sito que transcenda o sofrimento e organize a pr\u00f3pria exist\u00eancia. Ele afirma: \u201cA logoterapia, ou, como tem sido chamada por alguns autores, a \u2018Terceira Escola Vienense de Psicoterapia\u2019, concentra-se no sentido da exist\u00eancia humana, bem como na busca da pessoa por este sentido\u201d (Frankl, 1991, p. 92).<\/p>\n\n\n\n<p>A esse respeito, a experi\u00eancia nos campos de concentra\u00e7\u00e3o revelou a Frankl que muitos prisioneiros sucumbiam n\u00e3o tanto pela dor f\u00edsica, mas pela aus\u00eancia de um \u201cporqu\u00ea\u201d. A resist\u00eancia ao sofrimento, portanto, depende da postura interior do indiv\u00edduo diante da adversidade. Frankl observa: \u201cQuando j\u00e1 n\u00e3o somos capazes de mudar uma situa\u00e7\u00e3o [\u2026] somos desafiados a mudar a n\u00f3s pr\u00f3prios\u201d (1991, p. 101). Dessa forma, a logoterapia prop\u00f5e uma reorienta\u00e7\u00e3o do olhar humano para o futuro, rompendo com o autocentrismo neur\u00f3tico e permitindo que o sujeito reencontre um sentido que o sustente mesmo nas situa\u00e7\u00f5es mais extremas.<\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m disso, a logoterapia encontra seu alicerce na no\u00e7\u00e3o de responsabilidade existencial. Para Frankl, a vida exige uma postura ativa diante da liberdade, compreendida sempre em rela\u00e7\u00e3o com a responsabilidade. Nesse horizonte, ele formula o que chama de imperativo categ\u00f3rico da logoterapia: \u201cViva como se j\u00e1 estivesse vivendo pela segunda vez, e como se na primeira vez voc\u00ea tivesse agido t\u00e3o errado como est\u00e1 prestes a agir agora\u201d (Frankl, 1991, p. 99). Esse exerc\u00edcio imaginativo confronta o indiv\u00edduo com a finitude da vida e com o car\u00e1ter irrevog\u00e1vel de suas a\u00e7\u00f5es, estimulando-o a refletir sobre o que faz de sua vida e de si mesmo. A proposta terap\u00eautica, portanto, visa expandir o campo de vis\u00e3o do sujeito, para que ele se torne consciente do espectro de sentido em potencial que o cerca. O papel do logoterapeuta, conforme Frankl descreve, \u00e9 similar ao de um oculista, n\u00e3o de um pintor. Enquanto o pintor transmite uma imagem de mundo como ele o v\u00ea, o oculista ajuda o paciente a enxergar o mundo como ele \u00e9, permitindo-lhe descobrir o sentido que se apresenta fora de si, e n\u00e3o apenas em sua interioridade (Frankl, 1991, p. 99).<\/p>\n\n\n\n<p>Nesse sentido, a autotranscend\u00eancia aparece como uma caracter\u00edstica essencial da exist\u00eancia humana. Frankl observa que o ser humano sempre aponta para algo ou algu\u00e9m al\u00e9m de si mesmo, seja uma causa a servir ou uma pessoa a amar. Ele afirma que \u201cquanto mais a pessoa esquecer de si mesma \u2013 dedicando-se a servir uma causa ou a amar outra pessoa \u2013 mais humana ser\u00e1 e mais se realizar\u00e1\u201d (Frankl, 1991, p. 100). A auto-realiza\u00e7\u00e3o, nesse contexto, n\u00e3o pode ser buscada diretamente, pois ela surge como consequ\u00eancia da dedica\u00e7\u00e3o a algo que transcende o pr\u00f3prio ego. Assim, o autor prop\u00f5e que a vida adquire sentido por meio de tr\u00eas caminhos: a realiza\u00e7\u00e3o de uma obra ou a\u00e7\u00e3o, a viv\u00eancia de valores e experi\u00eancias significativas, e a atitude frente ao sofrimento inevit\u00e1vel (Frankl, 1991, p. 100).<\/p>\n\n\n\n<p>Entre esses caminhos, destaca-se o papel do amor como uma via singular de descoberta do sentido da vida. Frankl afirma que \u201camor \u00e9 a \u00fanica maneira de captar outro ser humano no \u00edntimo da sua personalidade\u201d (1991, p. 100). O amor permite enxergar as potencialidades do outro, aquilo que ainda n\u00e3o foi realizado, mas que pode vir a ser. Essa rela\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 meramente instintiva, mas profundamente existencial. Atrav\u00e9s do amor, a pessoa \u00e9 capaz de despertar no outro as possibilidades mais aut\u00eanticas de sua realiza\u00e7\u00e3o, e isso transforma o v\u00ednculo amoroso em uma experi\u00eancia de profundo compromisso com o sentido.<\/p>\n\n\n\n<p>Por fim, o terceiro caminho, talvez o mais desafiador, \u00e9 o do sofrimento, conforme j\u00e1 destacado anteriormente. Frankl relata que mesmo nas situa\u00e7\u00f5es mais adversas e sem esperan\u00e7a, \u00e9 poss\u00edvel encontrar sentido. Ele narra o caso de um m\u00e9dico idoso que, ap\u00f3s perder a esposa, mergulhou em profunda depress\u00e3o. Frankl, em vez de consolar diretamente, prop\u00f4s uma mudan\u00e7a de perspectiva: \u201cVeja bem, doutor, ela foi poupada deste sofrimento e foi o senhor que a poupou dele; mas agora o senhor precisa pagar por isso, sobrevivendo a ela e chorando a sua morte\u201d (Frankl, 1991, p. 101). A dor do luto, embora irrepar\u00e1vel, p\u00f4de ser ressignificada a partir do reconhecimento do sacrif\u00edcio contido na experi\u00eancia da perda. Frankl enfatiza, portanto, que o \u201csofrimento de certo modo deixa de ser sofrimento no instante em que encontra um sentido, como o sentido de um sacrif\u00edcio\u201d (1991, p. 101).<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 importante destacar, no entanto, que o sofrimento n\u00e3o \u00e9 uma condi\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria para a descoberta do sentido. Ele s\u00f3 deve ser enfrentado se for inevit\u00e1vel. Quando poss\u00edvel, deve ser superado ou eliminado. O hero\u00edsmo n\u00e3o est\u00e1 em sofrer por si mesmo, mas em encontrar, mesmo na dor, uma raz\u00e3o para continuar. Como Frankl afirma, a principal preocupa\u00e7\u00e3o da exist\u00eancia humana \u201cn\u00e3o consiste em obter prazer ou evitar a dor, mas antes em ver um sentido em sua vida\u201d (1991, p. 101).<\/p>\n\n\n\n<p>Diante das variadas respostas humanas ao sofrimento, a logoterapia se destaca por propor t\u00e9cnicas singulares, como a \u201cinten\u00e7\u00e3o paradoxal\u201d, que desafia as abordagens convencionais, como prop\u00f5e ao relatar o seguinte caso:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p>Um jovem m\u00e9dico me consultou por causa do seu medo de transpirar. Sempre que ele esperava uma emiss\u00e3o de suor, esta ansiedade antecipat\u00f3ria j\u00e1 era suficiente para precipitar a transpira\u00e7\u00e3o excessiva. Com a finalidade de romper este c\u00edrculo vicioso, aconselhei o paciente a que, quando voltasse essa transpira\u00e7\u00e3o, deliberadamente mostrasse \u00e0s pessoas o quanto ele conseguia suar. Uma semana depois ele voltou, relatando que sempre que encontrava algu\u00e9m que nele provocava ansiedade antecipat\u00f3ria, dizia para si mesmo: \u201cAntes eu s\u00f3 conseguia suar meio litro, mas agora eu vou despejar pelo menos cinco litros!\u201d O resultado foi que, depois de sofrer desta fobia durante quatro anos, com uma \u00fanica sess\u00e3o ele foi capaz de se libertar da mesma permanentemente, em quest\u00e3o de uma semana. (Frankl, 1991, p. 108)<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p>Esse relato revela mais do que a efic\u00e1cia cl\u00ednica da logoterapia. Ele evidencia como determinadas t\u00e9cnicas podem provocar uma ressignifica\u00e7\u00e3o profunda das experi\u00eancias corporais e emocionais, redirecionando a narrativa que o sujeito constr\u00f3i sobre si. A escolha de encenar conscientemente o exagero do sintoma desloca o medo de lugar e redefine o poder que o corpo exercia sobre a vida social do indiv\u00edduo. No ponto de vista antropol\u00f3gico, trata-se de um mecanismo que reconfigura a subjetividade por meio de uma invers\u00e3o simb\u00f3lica, sugerindo que a cura n\u00e3o ocorre pela nega\u00e7\u00e3o do sintoma, mas pela sua reintegra\u00e7\u00e3o em uma nova forma de significa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa abertura \u00e0 significa\u00e7\u00e3o, mesmo em meio ao sofrimento, remete a uma reflex\u00e3o mais ampla sobre a responsabilidade do ser humano diante de sua pr\u00f3pria exist\u00eancia, especialmente quando confrontado com os limites da racionalidade ou da cura. O sofrimento, neste caso, n\u00e3o se reduz a um evento fisiol\u00f3gico ou ps\u00edquico isolado, mas ganha contornos culturais e simb\u00f3licos, sendo atravessado por narrativas, cren\u00e7as, mem\u00f3rias e expectativas sociais. A forma como o indiv\u00edduo lida com a dor, portanto, est\u00e1 vinculada \u00e0 cultura em que est\u00e1 inserido e \u00e0 maneira como essa cultura concebe o sentido da vida e da finitude, at\u00e9 mesmo no campo da espiritualidade.<\/p>\n\n\n\n<p>A reflex\u00e3o do autor sobre o sofrimento e o sentido, ancorada na liberdade respons\u00e1vel e na autotranscend\u00eancia, abre espa\u00e7o para considera\u00e7\u00f5es mais amplas sobre o papel da cultura e da espiritualidade na elabora\u00e7\u00e3o do sentido da exist\u00eancia. Ao deslocar a cura do campo puramente cl\u00ednico para uma dimens\u00e3o \u00e9tico-existencial, Frankl aproxima-se de pensadores que tamb\u00e9m compreenderam a dor humana \u00e0 luz de uma responsabilidade diante da vida e do outro. \u00c9 nesse horizonte que se insere o pensamento de Hans Jonas, cuja medita\u00e7\u00e3o sobre Deus ap\u00f3s Auschwitz e sobre a \u00e9tica da responsabilidade diante do sofrimento humano oferece uma contribui\u00e7\u00e3o complementar e provocativa \u00e0 busca de sentido em contextos adversos.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Hans Jonas e o conceito de Deus diante do mal<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Como visto anteriormente, o sofrimento humano \u00e9 uma das experi\u00eancias mais profundas e universais da exist\u00eancia, capaz de evidenciar as cren\u00e7as fundamentais sobre o divino. Quando confrontada com a dor extrema, especialmente em eventos de grande brutalidade como o Holocausto, a ideia de um Deus todo-poderoso, bom e justo torna-se objeto de intensa d\u00favida e reflex\u00e3o. Sob a perspectiva antropol\u00f3gica, a figura de Deus n\u00e3o \u00e9 uma entidade abstrata e distante, mas uma constru\u00e7\u00e3o que emerge das viv\u00eancias humanas, dos conflitos, das trag\u00e9dias e das buscas por sentido diante do sofrimento. Assim, o sofrimento n\u00e3o apenas desafia o conceito tradicional de Deus, mas tamb\u00e9m revela a din\u00e2mica entre a experi\u00eancia humana e as formas de compreender o transcendente.<\/p>\n\n\n\n<p>Nesse contexto, o pensamento de Hans Jonas oferece uma importante contribui\u00e7\u00e3o ao reconsiderar o conceito de Deus ap\u00f3s Auschwitz. Sua proposta de um Deus autolimitado, que sofre junto com a cria\u00e7\u00e3o, desloca o foco do divino do poder absoluto para a responsabilidade compartilhada entre Deus e a humanidade. Isso exp\u00f5e a tens\u00e3o entre liberdade humana e o mal moral, e refor\u00e7a a necessidade \u00e9tica de que o ser humano assuma um papel ativo na preven\u00e7\u00e3o e no combate ao mal.<\/p>\n\n\n\n<p>A experi\u00eancia do sofrimento, conforme destacado por Viktor Frankl, revela o ser humano em sua condi\u00e7\u00e3o mais vulner\u00e1vel, expondo os limites da raz\u00e3o diante da dor e da finitude. No entanto, enquanto Frankl buscava um sentido existencial mesmo nos campos de concentra\u00e7\u00e3o, a abordagem de Hans Jonas dirige-se \u00e0 teologia: o sofrimento extremo n\u00e3o apenas desafia a exist\u00eancia individual, mas atinge em cheio as estruturas conceituais constru\u00eddas em torno da ideia de Deus. Auschwitz, como s\u00edmbolo do mal radical, imp\u00f5e uma ruptura. A tradi\u00e7\u00e3o religiosa, marcada por atributos como onipot\u00eancia, bondade e justi\u00e7a divina, torna-se insustent\u00e1vel diante da magnitude do horror. A quest\u00e3o que se imp\u00f5e n\u00e3o \u00e9 apenas \u201cpor que o sofrimento?\u201d, mas \u201cque Deus \u00e9 esse que permite Auschwitz?\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Hans Jonas inicia sua reflex\u00e3o reconhecendo o car\u00e1ter especulativo de sua proposta: \u201co que tenho a oferecer neste discurso \u00e9 um fragmento de teologia francamente especulativa\u201d (Jonas, 2016, p. 17). Sua abordagem, entretanto, ultrapassa os limites da teologia sistem\u00e1tica, assumindo contornos antropol\u00f3gicos ao interrogar o modo como os seres humanos constroem e sustentam representa\u00e7\u00f5es do divino diante da experi\u00eancia do sofrimento extremo. A figura b\u00edblica de J\u00f3 \u00e9 evocada como contraponto: um homem que, mesmo diante de perdas e afli\u00e7\u00f5es, mantinha a confian\u00e7a em um Deus justo e soberano. No entanto, diante do Holocausto, essa imagem se rompe. O que se revela \u00e9 o colapso das categorias tradicionais que sustentavam a f\u00e9 em um Deus onipotente, fiel e bom. A pergunta que emerge n\u00e3o \u00e9 apenas teol\u00f3gica, mas antropol\u00f3gica: como um povo que historicamente se constituiu por meio de sua rela\u00e7\u00e3o com o divino pode continuar a compreender-se ap\u00f3s tamanha cat\u00e1strofe?<\/p>\n\n\n\n<p>Nesse contexto, Hans Jonas observa que as estruturas simb\u00f3licas e religiosas, que anteriormente ofereciam sentido \u00e0 exist\u00eancia, revelaram-se insuficientes diante do exterm\u00ednio sistem\u00e1tico de milh\u00f5es de pessoas, inclusive crian\u00e7as e beb\u00eas. De fato, o horror de Auschwitz desestabilizou os referenciais morais, teol\u00f3gicos e antropol\u00f3gicos tradicionais, o que exigiu a constru\u00e7\u00e3o de um novo horizonte de compreens\u00e3o. Al\u00e9m disso, a radicalidade do mal ocorrido naquele cen\u00e1rio rompeu com qualquer possibilidade de significa\u00e7\u00e3o nos moldes conhecidos da f\u00e9. Como expressa o autor em um dos trechos mais impactantes de sua reflex\u00e3o:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p>Nada disso serve mais para lidar com o evento para o qual Auschwitz tornou-se o s\u00edmbolo. Nem fidelidade ou infidelidade, cren\u00e7a ou descren\u00e7a, nem culpa ou puni\u00e7\u00e3o, nem julgamento, testemunho e esperan\u00e7a messi\u00e2nica, n\u00e3o, nem mesmo a for\u00e7a ou fraqueza, hero\u00edsmo ou covardia, provoca\u00e7\u00e3o ou submiss\u00e3o tiveram ali um lugar. De tudo isso, Auschwitz, que tamb\u00e9m devorou as crian\u00e7as e beb\u00eas, nada sabia; por nada disso (com exce\u00e7\u00f5es), o trabalho, como o de m\u00e1quinas de uma f\u00e1brica, teve lugar. (Jonas, 2016, p. 20)<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p>E, ainda afirma:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p>N\u00e3o pelo amor de sua f\u00e9, as v\u00edtimas morreram (como morreram, afinal, as \u201cTestemunhas de Jeov\u00e1\u201d), nem por causa de sua f\u00e9 ou por qualquer autodeclarado desvio de seu ser como pessoas foram elas assassinadas. A desumaniza\u00e7\u00e3o pela absoluta degrada\u00e7\u00e3o e priva\u00e7\u00e3o precedeu suas mortes, nenhum vislumbre de humanidade foi deixado \u00e0queles destinados \u00e0 solu\u00e7\u00e3o final, dificilmente um tra\u00e7o de dignidade foi encontrado nos espectros esquel\u00e9ticos sobreviventes dos campos libertados. (Jonas, 2016, p. 20)<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p>A trag\u00e9dia provocada pelo nazismo ultrapassa n\u00e3o apenas os limites da linguagem, mas tamb\u00e9m os contornos da tradi\u00e7\u00e3o religiosa. A morte em Auschwitz, nesse sentido, n\u00e3o foi consequ\u00eancia de escolhas morais nem castigo espiritual. Jonas insiste que as v\u00edtimas n\u00e3o morreram \u201cpelo amor de sua f\u00e9 [&#8230;] nem por causa de sua f\u00e9 ou por qualquer autodeclarado desvio de seu ser como pessoas foram elas assassinadas\u201d (2016, p. 20). Al\u00e9m disso, antes mesmo da morte f\u00edsica, houve um processo sistem\u00e1tico e cruel de desumaniza\u00e7\u00e3o: \u201ca desumaniza\u00e7\u00e3o pela absoluta degrada\u00e7\u00e3o e priva\u00e7\u00e3o precedeu suas mortes, nenhum vislumbre de humanidade foi deixado \u00e0queles destinados \u00e0 solu\u00e7\u00e3o final\u201d (Jonas, 2016, p. 20). Ap\u00f3s esse processo, dificilmente um tra\u00e7o de dignidade podia ser reconhecido nos corpos consumidos pelo sofrimento que sobreviveram nos campos libertados. Diante disso, tais afirma\u00e7\u00f5es demonstram a urg\u00eancia de repensar o humano n\u00e3o apenas como ente racional ou moral, mas tamb\u00e9m como um ser vulner\u00e1vel, exposto ao absurdo e ao abandono.<\/p>\n\n\n\n<p>Com a marca da ruptura hist\u00f3rica provocada pelo Holocausto, esse acontecimento imp\u00f5e uma revis\u00e3o profunda da concep\u00e7\u00e3o tradicional de Deus, ao mesmo tempo em que exige um novo olhar sobre a autocompreens\u00e3o humana. Nesse sentido, a proposta teol\u00f3gica de Hans Jonas n\u00e3o se limita ao debate doutrin\u00e1rio, mas alcan\u00e7a uma dimens\u00e3o antropol\u00f3gica fundamental: o sofrimento humano, ao n\u00e3o ser impedido por uma inst\u00e2ncia transcendente, passa a convocar a responsabilidade \u00e9tica do pr\u00f3prio ser humano. Desse modo, Deus, nessa leitura, n\u00e3o \u00e9 mais concebido como onipotente segundo os moldes cl\u00e1ssicos, mas como um Deus que se autolimita no ato criador e que, por consequ\u00eancia, sofre junto ao mundo. Como afirma o autor: \u201cA rela\u00e7\u00e3o de Deus para com o mundo, a partir do momento da cria\u00e7\u00e3o e, certamente, a partir da cria\u00e7\u00e3o do homem nele, envolve sofrimento da parte de Deus\u201d (Jonas, 2016, p. 25).<\/p>\n\n\n\n<p>A liberdade humana, fruto dessa autolimita\u00e7\u00e3o divina, \u00e9 compreendida como uma abertura existencial tanto para o bem quanto para o mal. Nesse sentido, a aus\u00eancia de interven\u00e7\u00e3o em Auschwitz n\u00e3o pode ser interpretada como indiferen\u00e7a, mas sim como o pre\u00e7o da liberdade radical conferida ao ser humano. Por isso, diante do mal, n\u00e3o \u00e9 mais poss\u00edvel aguardar uma salva\u00e7\u00e3o externa; ao contr\u00e1rio, cabe ao ser humano preservar a dignidade da vida, reconhecer a vulnerabilidade do outro e assumir, de forma respons\u00e1vel, o cuidado pela exist\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p>Assim, o problema de Deus diante do sofrimento humano torna-se tamb\u00e9m o problema do humano diante de sua liberdade. Liberdade esta que, longe de ser uma garantia de salva\u00e7\u00e3o, revela-se como responsabilidade intransfer\u00edvel diante do mal. O sil\u00eancio de Deus diante da barb\u00e1rie ecoa como um chamado \u00e9tico, uma interpela\u00e7\u00e3o ao agir humano. Se Auschwitz marca o colapso das certezas teol\u00f3gicas tradicionais, tamb\u00e9m inaugura a necessidade de um novo paradigma antropol\u00f3gico: um que reconhe\u00e7a a fragilidade da condi\u00e7\u00e3o humana, mas que n\u00e3o abra m\u00e3o da responsabilidade de responder ao sofrimento com dignidade e solidariedade.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O sentido da vida atrav\u00e9s da esperan\u00e7a<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Caminhando para o fim deste artigo, \u00e9 pertinente retomar as reflex\u00f5es desenvolvidas at\u00e9 aqui. A an\u00e1lise do pensamento de Viktor Frankl, sobrevivente de campos de concentra\u00e7\u00e3o, evidenciou a necessidade de reencontrar um sentido para viver, mesmo nas situa\u00e7\u00f5es de sofrimento. Na obra <em>Em busca de sentido<\/em>, o autor parte de sua pr\u00f3pria experi\u00eancia de sofrimento extremo para afirmar que a vida possui um valor intr\u00ednseco que transcende a dor. Frankl observa que o ser humano \u00e9 capaz de resistir quando encontra um \u201cpara qu\u00ea\u201d que justifique sua exist\u00eancia. Sua proposta da Logoterapia fundamenta-se na premissa de que a busca de sentido \u00e9 a motiva\u00e7\u00e3o prim\u00e1ria da vida humana. Assim, ainda que submetido a uma realidade absurda e cruel, o ser humano conserva uma liberdade interior que lhe permite escolher a atitude com que enfrentar\u00e1 essa realidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Nesse contexto, a reflex\u00e3o proposta por Hans Jonas permite compreender com maior profundidade a gravidade da crise \u00e9tica e teol\u00f3gica provocada pelo Holocausto. Seu pensamento, profundamente marcado pela experi\u00eancia de Auschwitz, prop\u00f5e, portanto, uma reformula\u00e7\u00e3o radical da ideia de Deus, recusando a onipot\u00eancia como atributo central da divindade. Diante disso, Deus seria limitado, pois o sofrimento extremo de inocentes durante o exterm\u00ednio nazista inviabiliza qualquer defesa plaus\u00edvel da ideia de um Deus todo-poderoso e sumamente bom. Assim, Jonas prop\u00f5e uma imagem de Deus que se esvazia de poder em nome do amor e da liberdade concedida ao ser humano, o que, por sua vez, implica uma responsabilidade ainda maior pelo cuidado com a vida e com o mundo. Com efeito, essa responsabiliza\u00e7\u00e3o inaugura uma nova \u00e9tica para o tempo p\u00f3s-Auschwitz, centrada na urg\u00eancia de preservar a dignidade da exist\u00eancia humana frente aos horrores do passado e \u00e0s amea\u00e7as do presente.<\/p>\n\n\n\n<p>De modo complementar, a converg\u00eancia entre Viktor Frankl e Hans Jonas se d\u00e1 no reconhecimento da vulnerabilidade humana e na afirma\u00e7\u00e3o de que, mesmo no mais profundo sofrimento, a vida pode e deve reencontrar seu sentido, seja pela via da responsabilidade \u00e9tica, seja pelo compromisso com um significado maior. Essa s\u00edntese, portanto, evidencia a densidade antropol\u00f3gica das reflex\u00f5es aqui propostas, nas quais o ser humano \u00e9 compreendido como algu\u00e9m que, mesmo privado de garantias absolutas, permanece capaz de ressignificar a pr\u00f3pria exist\u00eancia por meio da liberdade, da \u00e9tica e da esperan\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 justamente nesse horizonte que a contribui\u00e7\u00e3o de Dom Edmar Jos\u00e9 da Silva, que por muitos anos se dedicou ao ensino da disciplina de Antropologia Filos\u00f3fica com not\u00e1vel maestria e dom\u00ednio, se revela particularmente significativa, especialmente em sua obra recentemente publicada <em>Provoca\u00e7\u00f5es existenciais: a vida tem sentido?<\/em>. Seu pensamento, nesse sentido, colabora diretamente para a concatena\u00e7\u00e3o das ideias refletidas neste artigo, aprofundando o debate sobre o sentido da vida \u00e0 luz da condi\u00e7\u00e3o humana marcada pela dor, pela finitude e pela abertura ao transcendente.<\/p>\n\n\n\n<p>Em fronteira com a Filosofia da Religi\u00e3o, Dom Edmar desenvolve uma reflex\u00e3o sobre o sentido da vida que dialoga com a ang\u00fastia existencial da contemporaneidade e com as respostas que a f\u00e9 crist\u00e3 oferece. Para ele, \u201cfaz muita diferen\u00e7a ter ou n\u00e3o ter um sentido na vida\u201d (Silva, 2025, p. 20), pois quem o encontra \u201cpossui motiva\u00e7\u00e3o e esperan\u00e7a para viver, porque tem algo que o move para a frente, gerando entusiasmo e alegria\u201d (Silva, 2025, p. 20).<\/p>\n\n\n\n<p>Segundo o autor, o termo \u201csentido\u201d remete \u00e0 ideia de finalidade, valor ou dire\u00e7\u00e3o. Questionar se a vida tem sentido \u00e9 perguntar se ela possui \u201cum norte, um rumo, uma dire\u00e7\u00e3o precisa\u201d (Silva, 2025, p. 20). Sua cr\u00edtica ao niilismo \u00e9 firme: este seria \u201co mergulho no nada da exist\u00eancia humana\u201d (Silva, 2025, p. 23), posi\u00e7\u00e3o da qual discorda veementemente. Em resposta, prop\u00f5e um \u201cprinc\u00edpio existencial b\u00e1sico\u201d, segundo o qual \u201co sentido da vida vai perdurar na propor\u00e7\u00e3o em que durar o objeto ou a realidade na qual depositamos esse sentido\u201d (Silva, 2025, p. 23). A partir dessa chave de leitura, evidencia-se que nem os bens materiais, nem os prazeres, tampouco as rela\u00e7\u00f5es humanas podem sustentar plenamente o sentido da exist\u00eancia, por serem realidades inst\u00e1veis e finitas.<\/p>\n\n\n\n<p>Para Dom Edmar, somente uma realidade que n\u00e3o passa pode fundamentar de forma duradoura o sentido da vida. Essa realidade, para os que professam a f\u00e9 crist\u00e3, \u00e9 Deus: \u201csomente ele n\u00e3o passa, somente ele permanece; ele \u00e9 a \u00fanica realidade est\u00e1vel no meio das instabilidades deste mundo contingente e ef\u00eamero\u201d (Silva, 2025, p. 26). Ainda que sua argumenta\u00e7\u00e3o parta de uma perspectiva confessional, ela permanece aberta ao di\u00e1logo com todos os que buscam um fundamento s\u00f3lido para a exist\u00eancia. Como desafia: \u201cos que n\u00e3o acreditam em Deus s\u00e3o desafiados a me mostrar outra realidade que contemple o princ\u00edpio que norteou esta reflex\u00e3o\u201d (Silva, 2025, p. 26). Caso contr\u00e1rio, estar\u00e3o sempre expostos ao risco de perder o sentido da vida quando as realidades provis\u00f3rias em que o depositaram se dissiparem.<\/p>\n\n\n\n<p>Apesar das rupturas, perdas e sofrimentos que marcam a trajet\u00f3ria humana, permanece, como afirma Dom Edmar, a possibilidade de recome\u00e7o. \u201cAinda bem que o ser humano \u00e9 capaz de refazer o sentido da vida em qualquer etapa da sua exist\u00eancia\u201d (2025, p. 26). Tal afirma\u00e7\u00e3o ressoa profundamente tanto em Frankl quanto em Jonas. Todos os tr\u00eas autores, cada qual a seu modo, partem da constata\u00e7\u00e3o do sofrimento e da aus\u00eancia de garantias absolutas para afirmar a liberdade humana de reconstruir o sentido. A esperan\u00e7a, portanto, n\u00e3o est\u00e1 na fuga da dor, mas na coragem de enfrent\u00e1-la com responsabilidade, transcend\u00eancia e f\u00e9.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa coragem, por\u00e9m, n\u00e3o pode se confundir com del\u00edrio de auto-sufici\u00eancia. Em sua obra, Dom Edmar adverte contra o \u201cdel\u00edrio da onipot\u00eancia\u201d que marcou a modernidade, ao endeusar a raz\u00e3o e desprezar as dimens\u00f5es metaf\u00edsicas e espirituais da exist\u00eancia. A raz\u00e3o, embora nobre, n\u00e3o \u00e9 ilimitada e tampouco responde pela totalidade da vida humana.<\/p>\n\n\n\n<p>Como recorda Blaise Pascal, citado por Dom Edmar: \u201co ser humano n\u00e3o passa de um cani\u00e7o, o mais fraco da natureza, mas um cani\u00e7o pensante\u201d (2025, p. 51). A grandeza humana reside, portanto, n\u00e3o em seu poder, mas na consci\u00eancia da pr\u00f3pria vulnerabilidade e na capacidade de, mesmo em meio \u00e0 fragilidade, construir sentido, criar la\u00e7os, produzir cultura e abrir-se ao mist\u00e9rio. Reconhecer-se como cani\u00e7o pensante \u00e9, em \u00faltima inst\u00e2ncia, recuperar uma imagem mais l\u00facida e equilibrada de si mesmo, capaz de acolher os limites sem negar o valor da raz\u00e3o, e de cultivar a esperan\u00e7a sem ilus\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>CONCLUS\u00c3O<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A partir das reflex\u00f5es apresentadas, evidencia-se que a busca pelo sentido da vida constitui uma necessidade intr\u00ednseca \u00e0 condi\u00e7\u00e3o humana. Viktor Frankl, por meio da logoterapia, revela que mesmo em contextos de sofrimento extremo, o ser humano \u00e9 capaz de encontrar prop\u00f3sito e significado, o que reafirma a dimens\u00e3o profunda da exist\u00eancia que transcende o mero instinto de sobreviv\u00eancia. Essa busca n\u00e3o se restringe a motiva\u00e7\u00f5es superficiais, mas envolve um compromisso \u00e9tico e uma liberdade interior que orientam a forma como o indiv\u00edduo enfrenta as adversidades.<\/p>\n\n\n\n<p>A an\u00e1lise da teologia p\u00f3s-Auschwitz desenvolvida por Hans Jonas amplia a compreens\u00e3o desse fen\u00f4meno ao destacar a ruptura provocada pelo sofrimento humano diante do mal radical. A proposta de um Deus autolimitado, que sofre com a cria\u00e7\u00e3o e concede liberdade absoluta ao ser humano, desloca o foco para a responsabilidade \u00e9tica diante da vida e da dor. Essa perspectiva coloca em evid\u00eancia que o sentido da exist\u00eancia n\u00e3o \u00e9 dado de forma autom\u00e1tica ou garantida, mas deve ser continuamente constru\u00eddo em um horizonte de liberdade e responsabilidade, especialmente diante das crises que desafiam as cren\u00e7as tradicionais.<\/p>\n\n\n\n<p>Por fim, diante dessa explana\u00e7\u00e3o acerca do sentido, vale ressaltar uma afirma\u00e7\u00e3o motivadora de Dom Edmar, digna de acolhimento e viv\u00eancia: \u201cA esperan\u00e7a nunca acaba, e sempre \u00e9 poss\u00edvel refazer-nos com os destro\u00e7os que restaram das nossas pr\u00f3prias cinzas\u201d (2025, p. 29). Complementando essa perspectiva, uma cita\u00e7\u00e3o do poema <em>Recome\u00e7ar<\/em>, de autoria an\u00f4nima, frequentemente associado a Carlos Drummond de Andrade, oferece uma contribui\u00e7\u00e3o valiosa a ser interiorizada nos por\u00f5es existenciais da vida humana: \u201cN\u00e3o importa onde voc\u00ea parou, em que momento da vida voc\u00ea cansou. O que importa \u00e9 que sempre \u00e9 poss\u00edvel recome\u00e7ar. Recome\u00e7ar \u00e9 dar uma nova chance a si mesmo. \u00c9 renovar as esperan\u00e7as na vida e, o mais importante, acreditar em voc\u00ea de novo\u201d. Logo, pode-se concluir que, em meio \u00e0s ru\u00ednas e recome\u00e7os da exist\u00eancia, \u00e9 na tens\u00e3o entre limite e sentido que a humanidade encontra sua mais profunda dignidade, seja nos campos de concentra\u00e7\u00e3o, em casa, no trabalho, na sociedade em geral, ou no seu interior ps\u00edquico.<strong><br><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>REFER\u00caNCIAS BIBLIOGR\u00c1FICAS<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>FRANKL, Viktor E.. <strong>Em busca de Sentido:<\/strong> um psic\u00f3logo no campo de concentra\u00e7\u00e3o. 2. Ed. S\u00e3o Leopoldo: Vozes, 1991.<\/p>\n\n\n\n<p>JONAS, Hans. <strong>O conceito de Deus ap\u00f3s Auschwitz:<\/strong> uma voz judia. S\u00e3o Paulo: Paulus, 2016.<\/p>\n\n\n\n<p>SILVA, Edmar Jos\u00e9 da. <strong>Provoca\u00e7\u00f5es existenciais:<\/strong> sobre sentido, sofrimento e f\u00e9. Belo Horizonte: Paulinas, 2025.<\/p>\n\n\n\n<p>RECOME\u00c7AR. [S. l.: s. n.], [s. d.]. Poema atribu\u00eddo a Carlos Drummond de Andrade. Dispon\u00edvel em: https:\/\/progestaoead.files.wordpress.com\/2010\/03\/recomecar.pdf. Acesso em: 23 set. 2025.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Caio C\u00e9sar Gomes Amora Resumo: Este artigo prop\u00f5e uma reflex\u00e3o antropol\u00f3gica sobre o sofrimento e o sentido da vida, a partir das contribui\u00e7\u00f5es de Viktor Frankl, Hans Jonas e Dom Edmar Jos\u00e9 da Silva. 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