{"id":2947,"date":"2025-10-24T19:14:17","date_gmt":"2025-10-24T22:14:17","guid":{"rendered":"http:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/?p=2947"},"modified":"2025-10-24T19:14:17","modified_gmt":"2025-10-24T22:14:17","slug":"as-influencias-da-revolucao-francesa-na-concepcao-antropologica-contemporanea","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/?p=2947","title":{"rendered":"As influ\u00eancias da Revolu\u00e7\u00e3o Francesa na concep\u00e7\u00e3o antropol\u00f3gica contempor\u00e2nea"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-text-align-right\"><em>Jo\u00e3o Pedro Ferreira Rodrigues<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Resumo: <\/strong>O que \u00e9 o ser humano? Pergunta essencial nos estudos antropol\u00f3gicos, a resposta a essa quest\u00e3o perpassa diferentes ci\u00eancias, como a psicologia, a sociologia e a hist\u00f3ria. O presente artigo pretende compreender como a revolu\u00e7\u00e3o francesa, acontecida no final do s\u00e9culo XVIII, no ano de 1789, foi um evento cujos resultados influenciaram em uma nova maneira de compreens\u00e3o do ser humano e da realidade, culminando em posicionamentos renovados perante as rela\u00e7\u00f5es humanas e materiais. Suas influ\u00eancias s\u00e3o percept\u00edveis na pol\u00edtica, na economia, nas leis e nas rela\u00e7\u00f5es interpessoais e intergrupais. Atrav\u00e9s do presente artigo prop\u00f5e-se uma compreens\u00e3o de ser humano que englobe os processos hist\u00f3ricos e suas rela\u00e7\u00f5es com a materialidade e as for\u00e7as sociais, compreendendo o evento da revolu\u00e7\u00e3o francesa como disruptivo e dial\u00f3gico com novos pressupostos. &nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Palavras-chave: <\/strong>Antropologia, revolu\u00e7\u00e3o francesa, iluminismo, direitos humanos, p\u00f3s-modernidade.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>1. Introdu\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A revolu\u00e7\u00e3o francesa foi um evento detentor de grande import\u00e2ncia hist\u00f3rica, sociol\u00f3gica e antropol\u00f3gica, tendo deixado uma pluralidade de legados que a torna um objeto de discuss\u00e3o privilegiado. Situada no s\u00e9culo XVIII, o levante franc\u00eas foi permeado pelo esp\u00edrito iluminista com suas m\u00e1ximas libert\u00e1rias, o que n\u00e3o significa dizer que a Fran\u00e7a foi a \u00fanica na\u00e7\u00e3o a ver em seu seio uma revolu\u00e7\u00e3o, pois a Inglaterra ainda na segunda metade do XVII veria a revolu\u00e7\u00e3o gloriosa e o fim do absolutismo.<\/p>\n\n\n\n<p>Chamado antigo regime, a Fran\u00e7a pr\u00e9 1789 era governada por um regime absolutista no qual o rei era tido como o centro da soberania divina, em uma realidade feudal e marcada pela pobreza da grande maioria de sua popula\u00e7\u00e3o. Como a governabilidade dependia das benesses concedidas aos estratos mais privilegiados, a desigualdade social era uma grande realidade daquele contexto. Pressionado pela situa\u00e7\u00e3o calamitosa, o rei Lu\u00eds XVI se articula visando resolver a situa\u00e7\u00e3o, mas a insatisfa\u00e7\u00e3o popular promove um grande levante, instituindo uma assembleia nacional. Na ocasi\u00e3o, foi redigida a Declara\u00e7\u00e3o dos Direitos do Homem e do Cidad\u00e3o, versando sobre tem\u00e1ticas como direitos, liberdade e igualdade.<\/p>\n\n\n\n<p>Lu\u00eds XVI, concorde, por\u00e9m insatisfeito, procura reaver seu poder atrav\u00e9s de clandestinas trocas de mensagens com conservadores, mas \u00e9 descoberto em uma fuga mal sucedida, e o processo revolucion\u00e1rio al\u00e7a um novo patamar. A rep\u00fablica \u00e9 proclamada, e com ela novos ideais surgem, em um processo de ruptura que culminou com a morte da fam\u00edlia real na guilhotina. Compreender como a revolu\u00e7\u00e3o francesa e seu processo de ruptura influenciou a cosmovis\u00e3o antropol\u00f3gica ocidental, principalmente na pol\u00edtica e na \u00e9tica, \u00e9 uma tarefa essencial para os que almejam uma maior compreens\u00e3o dos processos hist\u00f3ricos e de como eles influenciam a posteridade.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>2. Antecedentes<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A valoriza\u00e7\u00e3o da raz\u00e3o enquanto motor de produ\u00e7\u00e3o de conhecimento e busca da verdade foi resgatada no racionalismo, cujo expoente foi Ren\u00e9 Descartes (1596-1650). Gomes (1995, p. 80) afirma que at\u00e9 o s\u00e9culo XVI a maioria dos acontecimentos se moveram nos estudos e na busca do sentido advindo das marcas que Deus imprimira no mundo criado. Tal imbrica\u00e7\u00e3o homem-Deus n\u00e3o exclui o fato de que havia antes dessa \u00e9poca alguns vest\u00edgios de atitudes experimentais, por\u00e9m, \u201cs\u00f3 no s\u00e9culo XVII surgem estas novas criaturas que o pr\u00f3prio homem forja a partir do momento em que prescinde das inten\u00e7\u00f5es divinas: a Ci\u00eancia e a Raz\u00e3o\u201d (Gomes, 1995, p. 80). Prescindir de Deus n\u00e3o significa uma nega\u00e7\u00e3o de sua exist\u00eancia, mas um per\u00edodo onde outras explica\u00e7\u00f5es tiveram a oportunidade de emergir. Neste per\u00edodo a matem\u00e1tica e a geometria ganham destaque, com o surgimento de importantes tratados at\u00e9 ent\u00e3o impens\u00e1veis, como o <em>De revolutionibus orbium coelestium<a href=\"#_ftn1\" id=\"_ftnref1\"><strong>[1]<\/strong><\/a>, <\/em>de Nicolau Cop\u00e9rnico (1473 \u2013 1543), e os <em>Di\u00e1logos sobre os dois principais sistemas do mundo<a href=\"#_ftn2\" id=\"_ftnref2\"><strong>[2]<\/strong><\/a><\/em>, de Galileu Galilei (1564 \u2013 1642).<\/p>\n\n\n\n<p>A proposta de uma teoria que desloca a Terra do centro do universo desloca igualmente a concep\u00e7\u00e3o medieval de que o homem \u00e9 privilegiado por ter sido colocado por Deus em um lugar \u00fanico e exclusivo. Nesse momento, entender como o mundo funciona \u00e9 se dedicar ao estudo das \u00f3rbitas e dos corpos celestes, compreendendo a geometria e os c\u00e1lculos.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p>Desta forma, se o engenheiro \u00e9 um s\u00e1bio, \u2018conhecer e fabricar\u2019 torna-se uma quest\u00e3o sobre a investiga\u00e7\u00e3o de como o Mundo funciona, o que equivale a procura de como o Mundo foi concebido pela divindade, pois Deus, embora eclipsado epistemologicamente, \u00e9 ainda uma entidade presente atrav\u00e9s da f\u00e9. Ocorre, pois, um triplo acontecimento: o eclipse de Deus, o aparecimento do Homem como criatura condenada a fundar seu pr\u00f3prio conhecimento, e um mundo que se torna um problema, pois a afinidade intr\u00ednseca entre ele e o Homem, que era dada por Deus, est\u00e1 perdida (Gomes, 1995<em>, <\/em>p. 81).<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p>A concep\u00e7\u00e3o racionalista da realidade foi fundamental, por ser propulsora e fundante das bases do pensamento moderno, ou seja, constitutiva do <em>status quo <\/em>do homem contempor\u00e2neo. Anteriormente, na chamada idade m\u00e9dia<a href=\"#_ftn3\" id=\"_ftnref3\">[3]<\/a>, construiu-se uma sociedade na qual a Igreja Cat\u00f3lica possu\u00eda a hegemonia de poder e influ\u00eancia sobre o mundo conhecido, sendo o papa o representante de Cristo e o m\u00e1ximo governante, rei dos reis. Ap\u00f3s a queda do imp\u00e9rio romano do ocidente, invadido por povos b\u00e1rbaros, a sociedade medieval gradualmente se ruralizou, constituindo os feudos. A din\u00e2mica dos feudos compreendia uma sociedade agr\u00e1ria e estamental, com baixa e restrita ascens\u00e3o social. \u201cTodas as rela\u00e7\u00f5es, nessa \u00e9poca, se estabelecem sobre a estrutura familiar: tanto as de senhor-vassalo como as de mestre-aprendiz\u201d (Pernoud, 1981, p. 14). Nessa \u00e9poca, todas as obras culturais, inclusive as que foram herdadas e preservadas dos povos gregos e romanos, estavam guardadas nos mosteiros. Pode-se dizer, portanto, que a igreja possu\u00eda tamb\u00e9m a hegemonia sobre a cultura, visto que a produ\u00e7\u00e3o da antiguidade cl\u00e1ssica estava sob os cuidados dos monges. Tal realidade ser\u00e1 transformada com o advento do renascimento, preconizando o retorno a muitos ideais helen\u00edsticos.<\/p>\n\n\n\n<p>Com o aumento da popula\u00e7\u00e3o e a diminui\u00e7\u00e3o das guerras b\u00e1rbaras, a sociedade medieval entra gradativamente em crise; com o aumento da produ\u00e7\u00e3o agr\u00edcola, a movimenta\u00e7\u00e3o mais intensa dos pequenos centros urbanos, a difus\u00e3o dos estudos e das universidades e a expans\u00e3o do com\u00e9rcio, a estrutura da idade m\u00e9dia come\u00e7a a colapsar.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p>A partir da altura em que cessam as invas\u00f5es, a vida transborda os limites do dom\u00ednio senhorial. O solar come\u00e7a a n\u00e3o se bastar mais a si pr\u00f3prio; toma-se o caminho da cidade, o tr\u00e1fego organiza-se, e em breve, escalando as muralhas, surgem os sub\u00farbios. \u00c9 ent\u00e3o, a partir do s\u00e9culo XI, o per\u00edodo de grande actividade urbana. Dois factores da vida econ\u00f3mica, at\u00e9 ent\u00e3o um pouco secund\u00e1rios, v\u00e3o adquirir um a import\u00e2ncia de primeiro plano: o of\u00edcio e o com\u00e9rcio. Com eles crescer\u00e1 uma classe cuja influ\u00eancia ser\u00e1 capital para os destinos de Fran\u00e7a \u2014 ainda que o seu acesso ao poder efectivo n\u00e3o date sen\u00e3o da Revolu\u00e7\u00e3o Francesa, da qual ser\u00e1 \u00fanica a tirar benef\u00edcios reais: a burguesia (Pernoud, 1981, p. 47).<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p>Essa retomada breve de alguns pontos e de algumas caracter\u00edsticas principais do per\u00edodo feudal, ajuda a compreender como a Fran\u00e7a do antigo regime e j\u00e1 no s\u00e9culo XVIII se organizava. De acordo com Carvalho (2022, p. 48): \u201cn\u00e3o havia um sistema de leis ou impostos \u00fanico para o territ\u00f3rio [&#8230;] o reino tinha cerca de 800 sistemas distintos de medidas\u201d. Essa grande heterogeneidade do espa\u00e7o franc\u00eas prejudicava o rei no que concerne \u00e0 governabilidade, pois o impedia de visualizar o territ\u00f3rio como \u00fanico, j\u00e1 que cada parte dele possu\u00eda suas pr\u00f3prias peculiaridades.<\/p>\n\n\n\n<p>A grande desigualdade social, que prejudicava os mais pobres e os impossibilitava na ascens\u00e3o social, tamb\u00e9m era uma realidade comum na \u00e9poca. Atribui-se a um bispo do s\u00e9culo XI a famosa frase: \u201cuns nascem para guerrear, outros para rezar e outros para trabalhar\u201d<a href=\"#_ftn4\" id=\"_ftnref4\">[4]<\/a>. Naquele contexto das \u00faltimas d\u00e9cadas do s\u00e9culo XVIII, invernos rigorosos, fome e pobreza eram duras realidades da maioria da popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p>Na \u00e9poca que culminou com a reuni\u00e3o dos Estados Gerais, o povo era v\u00edtima de uma terr\u00edvel crise: tinha fome, v\u00edtima de m\u00e1s colheitas pelo terr\u00edvel inverno de 1788-1790. O n\u00famero de indigentes era enorme, a popula\u00e7\u00e3o de Paris sofria pela carestia dos altos pre\u00e7os e baixos sal\u00e1rios; o pre\u00e7o do p\u00e3o, alimento b\u00e1sico da popula\u00e7\u00e3o correspondia quase a um dia de trabalho. Desesperados, com fome, o povo passou a organizar motins (Schmidt, 2012, p. 14).<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p>Enquanto isso, a monarquia endividada por guerras e privil\u00e9gios foi muito lenta na tomada de atitude, e incapaz de resolver o problema latente. Carvalho (2022, p. 53) exp\u00f5e que \u201cem 1788 as despesas da monarquia eram de 629 milh\u00f5es, enquanto as receitas n\u00e3o passavam dos 503 milh\u00f5es\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>3. Iluminismo e revolu\u00e7\u00e3o francesa: emers\u00e3o de novos pressupostos<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Para aumentar a tens\u00e3o, fil\u00f3sofos iluministas propagavam seus ideais de valoriza\u00e7\u00e3o da raz\u00e3o desde o fim do s\u00e9culo XVII, propondo o progresso e opondo a raz\u00e3o \u00e0 f\u00e9. \u201cO Iluminismo, de modo sucinto, pode ser visto como um esfor\u00e7o consciente de valora\u00e7\u00e3o da raz\u00e3o, objetivando, na pr\u00e1tica, a cren\u00e7a no progresso e a liberdade de pensar\u201d (Zeni, 2010, p. 5). &nbsp;Nesse per\u00edodo, muitos monarcas foram aconselhados por fil\u00f3sofos ilustrados, em um movimento conhecido como despotismo esclarecido; tal movimento foi respons\u00e1vel por algumas mudan\u00e7as no absolutismo, de ordem econ\u00f4mica e cultural, principalmente. De acordo com Silva (2007 p. 12 e 13), os principais d\u00e9spotas esclarecidos foram Catarina II (1762 \u2013 1796), \u201cA grande\u201d, da R\u00fassia; Jos\u00e9 II (1741 \u2013 1790) da \u00c1ustria, Frederico II (1712 \u2013 1786), da Pr\u00fassia; Carlos III (1716 \u2013 1788) da Espanha e Marqu\u00eas de Pombal (1750 \u2013 1777), primeiro-ministro portugu\u00eas no reinado de D. Jos\u00e9 I.<\/p>\n\n\n\n<p>Os ideais iluministas iam contra o poder absoluto dos monarcas, pois no absolutismo o rei era o deposit\u00e1rio absoluto da soberania dada por Deus, estava acima da lei e controlava tudo conforme sua vontade (em teoria). Existe uma frase atribu\u00edda ao rei Lu\u00eds XIV na qual ele diz: \u201co estado sou eu\u201d. Na contram\u00e3o, o pensamento iluminista era favor\u00e1vel a uma limita\u00e7\u00e3o desse poder, que era muito concentrado na figura do monarca e dos \u00e0 sua volta, aumentando a desigualdade social.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p>Inspirada nos ideais iluministas, a Revolu\u00e7\u00e3o Francesa significou o fim do absolutismo real, justificado pelo direito divino, dando lugar aos governos constitucionais, o rompimento da sociedade de ordens e a extin\u00e7\u00e3o dos privil\u00e9gios feudais. A Revolu\u00e7\u00e3o estabeleceu a separa\u00e7\u00e3o entre Igreja e Estado. Institui-se, nesta \u00e9poca, a igualdade civil, criando o conceito de cidadania. A divis\u00e3o dos poderes, de Montesquieu, serviu de modelo para outras na\u00e7\u00f5es, inclusive o Brasil. A Revolu\u00e7\u00e3o significou o triunfo da burguesia, que nas d\u00e9cadas posteriores dominaria a estrutura pol\u00edtica e social dos pa\u00edses ocidentais (Schmidt, 2012, p. 7).<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p>O pensamento inspirado pelo iluminismo e pela revolu\u00e7\u00e3o francesa foi importante para a reda\u00e7\u00e3o da declara\u00e7\u00e3o dos direitos do homem e do cidad\u00e3o, um dos primeiros documentos redigidos a falar de direitos inerentes a todo homem. Escrita em 1789, no contexto dos trabalhos da Assembleia Nacional, Vasconcelos (2024, p. 16) afirma que a discuss\u00e3o da Declara\u00e7\u00e3o teve in\u00edcio a partir de um compromisso redigido por um subcomit\u00ea de 40 membros na assembleia.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p>Composto por dezessete artigos, a Declara\u00e7\u00e3o dos Direitos do Homem e do Cidad\u00e3o, apesar de n\u00e3o ter sido a primeira, pois anos antes existiu a Declara\u00e7\u00e3o da Virg\u00ednia, sendo somente estabelecida pela Declara\u00e7\u00e3o de Independ\u00eancia dos Estados Unidos, em 1776, foi a fonte principal de inspira\u00e7\u00e3o para que os povos lutassem por seus direitos. Era considerada a excel\u00eancia das declara\u00e7\u00f5es (Caldeira, 2009, p. 8).<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p>Vasconcelos (2024, p. 18) tamb\u00e9m afirma que para os revolucion\u00e1rios franceses as causas dos infort\u00fanios p\u00fablicos e da corrup\u00e7\u00e3o governamental estavam diretamente ligadas ao desprezo pelos direitos dos homens. \u201cMais do que uma contesta\u00e7\u00e3o da administra\u00e7\u00e3o da coisa p\u00fablica, da soberania ou do poder mon\u00e1rquico, o que se deseja \u00e9 a considera\u00e7\u00e3o dos direitos dos homens nos atos p\u00fablicos e na conduta dos governantes\u201d. A declara\u00e7\u00e3o faz refer\u00eancia aos direitos individuais e trata da liberdade; garante a liberdade de express\u00e3o, liberdade de opini\u00e3o, de imprensa e liberdade religiosa. Sabe-se que imediatamente ap\u00f3s a declara\u00e7\u00e3o, na pr\u00e1tica os acontecimentos tomaram rumos diferentes na Fran\u00e7a, mas as ideias escritas embasaram a reda\u00e7\u00e3o de muitas constitui\u00e7\u00f5es e documentos importantes para muitas na\u00e7\u00f5es posteriormente, contribuindo na concep\u00e7\u00e3o de ser humano atual. Os direitos e garantias individuais, cl\u00e1usula p\u00e9trea da constitui\u00e7\u00e3o federal de 1988, possuem muitas m\u00e1ximas parecidas com as m\u00e1ximas da declara\u00e7\u00e3o dos direitos do homem e do cidad\u00e3o<a href=\"#_ftn5\" id=\"_ftnref5\">[5]<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p>A no\u00e7\u00e3o de dignidade da pessoa humana, e de que todo poder emana do povo, que o exerce por meio de representantes ou diretamente, presente na constitui\u00e7\u00e3o federal, s\u00e3o reflexos dos pensamentos da \u00e9poca. Tamb\u00e9m o ideal de uma sociedade justa e igualit\u00e1ria, que deve promover o bem de todos, sem preconceitos e respeitando os direitos humanos, s\u00e3o importantes reflex\u00f5es do per\u00edodo que foram herdadas pela posteridade. \u201cQuando, em 1948, a Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas adotou a sua declara\u00e7\u00e3o Universal dos Direitos Humanos, 14 dos seus 30 artigos fizeram refer\u00eancia direta \u00e0 Declara\u00e7\u00e3o dos Direitos do Homem e do Cidad\u00e3o de 1789\u201d (Carvalho, 2022, p. 21).<\/p>\n\n\n\n<p>Esta \u00e9 uma importante influ\u00eancia do per\u00edodo para a atualidade, a no\u00e7\u00e3o de direitos humanos. Todos s\u00e3o iguais perante a lei. No contexto pol\u00edtico atual viu-se um acirramento de \u00e2nimos e muitos cidad\u00e3os levantando bandeiras totalit\u00e1rias, a favor de ditaduras, fechamento do Supremo Tribunal Federal e do Congresso Nacional, homenageando torturadores e apoiando a tortura como instrumento de coer\u00e7\u00e3o social e de manuten\u00e7\u00e3o da ordem. Tais opini\u00f5es refletem a pouca reflex\u00e3o de muitos brasileiros sobre a import\u00e2ncia dos direitos humanos, e a falta de apropria\u00e7\u00e3o de muitos conceitos b\u00e1sicos da modernidade pol\u00edtica e mesmo da \u00e9tica. Se no Brasil existe corrup\u00e7\u00e3o e falta de respeito \u00e0 rep\u00fablica, a reforma a ela deve ser feita dentro da constitui\u00e7\u00e3o e respeitando os princ\u00edpios nela dispostos, e n\u00e3o prescindindo da mesma. Os ideais concebidos naquele contexto, portanto, ainda precisam ser assimilados por muitos setores sociais.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao se tratar dos tr\u00eas poderes da rep\u00fablica, a revolu\u00e7\u00e3o francesa possui uma contribui\u00e7\u00e3o significativa para sua implanta\u00e7\u00e3o<a href=\"#_ftn6\" id=\"_ftnref6\">[6]<\/a>. De acordo com Vasconcelos (2024, p. 30), embora os deputados n\u00e3o estivessem prontos para repudiar explicitamente a soberania do rei, omitir qualquer men\u00e7\u00e3o a ele na Declara\u00e7\u00e3o evidenciaria um rep\u00fadio \u00e0 sua autoridade. Assim, estabelece-se um governo sob novos fundamentos.<\/p>\n\n\n\n<p>Pelicioli (2006, p. 21 \u2013 29) afirma que a separa\u00e7\u00e3o dos poderes j\u00e1 fora proposta por Arist\u00f3teles em sua obra \u201cA Pol\u00edtica\u201d em poder deliberativo, poder magistrado e o poder de jurisdi\u00e7\u00e3o. John Locke (1632 \u2013 1704) os separava em poder legislativo, poder executivo e poder federativo, e Montesquieu (1689 \u2013 1755) em poder legislativo, poder executivo e poder judici\u00e1rio. A divis\u00e3o dos poderes evita que um s\u00f3 indiv\u00edduo tenha todo o poder deliberativo e decisivo, diminuindo a chance de decis\u00f5es injustas, que n\u00e3o contemplem uma parcela consider\u00e1vel da popula\u00e7\u00e3o. Na atualidade, essa discuss\u00e3o precisa vir \u00e0 tona de uma forma equilibrada e madura, pois o estado brasileiro se encontra corro\u00eddo por corrup\u00e7\u00f5es sist\u00eamicas, incha\u00e7o administrativo e relativa morosidade. A proposta tripartite dos poderes concebida por v\u00e1rios fil\u00f3sofos e pol\u00edticos deve ajudar na discuss\u00e3o pol\u00edtica e administrativa atual; tal discuss\u00e3o deve contemplar quest\u00f5es \u00e9ticas, econ\u00f4micas e sociais, visando uma reforma que contribua para o progresso da na\u00e7\u00e3o e a paz e prosperidade da popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Outra quest\u00e3o que vale a pena destacar \u00e9 a liga\u00e7\u00e3o entre a revolu\u00e7\u00e3o francesa e o liberalismo econ\u00f4mico. A economia do regime absolutista era marcada pelo mercantilismo, que consistia no ac\u00famulo de riquezas por parte do estado, e de um grande controle exercido pelo mesmo na economia. A ideia do liberalismo era erigir um estado que se contrapusesse ao estado advindo do <em>ancien r\u00e9gime <\/em>(Silva, 2011, p. 122). Os pensadores iluministas advogavam a exist\u00eancia do livre com\u00e9rcio e da livre iniciativa, que geraria maior progresso econ\u00f4mico e maior liberdade de crescimento individual. Essas ideias receberam o nome de liberalismo econ\u00f4mico.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p>O Estado liberal-burgu\u00eas nasce da desagrega\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, econ\u00f4mica e s\u00f3cio-cultural do ancien r\u00e9gime \u2013 que tem seu in\u00edcio com a Magna Carta de Jo\u00e3o Sem Terra em 1215 e que desemboca na Revolu\u00e7\u00e3o Gloriosa na Inglaterra, Revolu\u00e7\u00e3o Americana em 1776 e Revolu\u00e7\u00e3o Francesa em 1789 \u2013, e encontra sua justificativa racional no livre acordo estabelecido por indiv\u00edduos igualmente livres, que convencionam constituir um estado pol\u00edtico e civil fundado nos direitos naturais. Nesse sentido, a doutrina dos direitos naturais, o contratualismo e a doutrina liberal est\u00e3o umbilicalmente ligados uns aos outros, pois o pressuposto de uma e de outra doutrina, bem como do pr\u00f3prio contratualismo \u00e9 a concep\u00e7\u00e3o atomista da sociedade, segundo a qual a sociedade \u00e9 o resultado consensual de indiv\u00edduos singulares (Silva, 2011, p. 124).<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p>O liberalismo vigorou na economia mundial consideravelmente at\u00e9 o in\u00edcio do s\u00e9culo XX, quando a revolu\u00e7\u00e3o bolchevique, teorizada principalmente por Marx e Engels, introduziu o modelo socialista na antiga R\u00fassia czarista. Da revolu\u00e7\u00e3o socialista \u00e0 atualidade, mormente vem \u00e0 tona discuss\u00f5es acaloradas sobre a melhor forma de governo de uma sociedade, com um grupo defendendo a chamada esquerda, outro grupo defendendo a chamada direita, outro grupo mais ao centro, um grupo de isentos e outros ainda desinteressados no assunto.<\/p>\n\n\n\n<p>Desconsiderando a pobreza te\u00f3rica e argumentativa da maioria dos debatedores, que n\u00e3o se preocupam em ir a fundo nas propostas liberais ou socialistas, mas apenas reproduzem desenfreadamente <em>fake news<\/em> ou frases prontas, engessando e empobrecendo conceitos altamente complexos, \u00e9 importante lembrar que a briga entre direita e esquerda (n\u00e3o como se v\u00ea hoje), nasceu na revolu\u00e7\u00e3o francesa. Portanto pode-se concluir que o pensamento iluminista e o levante popular revolucion\u00e1rio franc\u00eas propuseram as bases para o capitalismo hoje existente (Schmidt, 2012, p. 3).<\/p>\n\n\n\n<p>O modelo econ\u00f4mico atual influencia em v\u00e1rios espectros na vida dos seres humanos e na compreens\u00e3o que nutrem de si, muitas vezes de forma negativa. Sobrecargas de trabalho, transtornos psicol\u00f3gicos, perda de sentido de vida e vulnerabilidade social s\u00e3o algumas consequ\u00eancias de uma contemporaneidade preocupada excessivamente com a dimens\u00e3o do ter. \u201cEm si mesmo, <em>o tempo presente carece de sentido e de valor<\/em>. \u00c9, por isso, falho, deficiente e incompleto. O sentido do presente est\u00e1 adiante; o que est\u00e1 \u00e0 m\u00e3o ganha sentido e \u00e9 avaliado pelo <em>noch-nicht-geworden<a href=\"#_ftn7\" id=\"_ftnref7\"><strong>[7]<\/strong><\/a>, <\/em>pelo que ainda n\u00e3o existe\u201d (Bauman, 2001, p. 196, grifo nosso). A assustadora realidade de um modelo econ\u00f4mico no qual coexistem bilion\u00e1rios e fam\u00e9licos deveria suscitar uma reflex\u00e3o s\u00e9ria e engajada por parte de todos os setores sociais.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma quest\u00e3o importante suscitada na revolu\u00e7\u00e3o francesa \u00e9 a participa\u00e7\u00e3o feminina no processo revolucion\u00e1rio. Vivendo em uma sociedade patriarcal e machista, as mulheres ainda hoje precisam constantemente reafirmar sua posi\u00e7\u00e3o de liberdade, e a necessidade de serem valorizadas e respeitadas. Schmidt (2012, p. 8) argumenta que no s\u00e9culo XVIII as mulheres francesas ocupavam espa\u00e7os e pap\u00e9is que correspondiam aos interesses de grupos definidos [masculinos]. Elas deveriam ocupar-se do espa\u00e7o privado, ou seja, do cuidado da casa, do marido e dos filhos. Mesmo entre pensadores iluministas que defendiam as liberdades individuais, as mulheres eram consideradas inferiores e submissas<a href=\"#_ftn8\" id=\"_ftnref8\">[8]<\/a>. \u201cA mulher, nesse contexto, estava relegada a permanecer fora do espa\u00e7o de vida p\u00fablica \u2013 exclusividade do homem \u2013 porque ele estava destinado a conduzir a sociedade\u201d (Schmidt, 2012, p. 9).&nbsp; Sem direito ao voto, sem poder trabalhar e ter seu sustento e sendo muitas vezes violentadas, as mulheres n\u00e3o possu\u00edam grandes possibilidades de sa\u00edrem dessa situa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Embora a revolu\u00e7\u00e3o francesa n\u00e3o tenha mudado muita coisa a curto prazo nos direitos referentes \u00e0s mulheres, o esp\u00edrito de mudan\u00e7a e questionamento do <em>status quo<\/em> provocou um despertar das mesmas<a href=\"#_ftn9\" id=\"_ftnref9\">[9]<\/a>, no que concerne a se sentirem participantes ativas da sociedade, e, por conseguinte poderem legitimamente reivindicar melhores condi\u00e7\u00f5es para si e suas semelhantes.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p>Mesmo exclu\u00eddas de representa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica desde o in\u00edcio dos trabalhos da Assembleia, as mulheres se faziam presentes. Constantemente acompanhando os trabalhos, elas enchiam as galerias onde manifestavam-se aplaudindo, gritando, pressionando os deputados, ou mesmo vaiando quando n\u00e3o concordavam. Na Assembleia, al\u00e9m de fiscalizarem os trabalhos dos deputados, elas eram portavozes dos acontecimentos, tendo a miss\u00e3o de informar a popula\u00e7\u00e3o das decis\u00f5es pol\u00edticas, at\u00e9 1793, quando foram impedidas de se fazerem presentes pelos membros da Conven\u00e7\u00e3o. (Schmidt, 2012, p. 13)<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p>Atualmente movimentos feministas procuram reafirmar o lugar da mulher na sociedade e buscam uma renovada compreens\u00e3o de si, reivindicando sal\u00e1rios iguais, quebra de padr\u00f5es preestabelecidos, respeito e paridade nas leis. \u00c9 preciso cautela para discutir o assunto, pois reivindicar direitos n\u00e3o significa que nenhuma classe social, grupo ou g\u00eanero \u00e9 melhor que os demais, mas na complementaridade devem coexistir mutuamente.<\/p>\n\n\n\n<p>A liberdade religiosa foi outro tema que surgiu no \u00e2mbito revolucion\u00e1rio<a href=\"#_ftn10\" id=\"_ftnref10\">[10]<\/a>, e que hoje \u00e9 uma garantia constitucional. No antigo regime a Fran\u00e7a era oficialmente cat\u00f3lica, mas, \u201cem 1789, estima-se que havia na Fran\u00e7a cerca de 200 mil luteranos, 400 mil calvinistas e 40 mil judeus\u201d (Carvalho, 2022, p.51). No per\u00edodo medieval, conflitos e guerras por quest\u00f5es religiosas eram muito comuns. Ainda hoje o oriente m\u00e9dio \u00e9 constantemente assolado por conflitos, cuja origem est\u00e1 em quest\u00f5es religiosas e pol\u00edticas. Em lugares onde n\u00e3o existe a garantia de liberdade religiosa, o indiv\u00edduo \u00e9 tolhido em sua subjetividade, sendo coagido a pertencer a um grupo que n\u00e3o lhe representa, ou a viver sua escolha de forma escondida.<\/p>\n\n\n\n<p>No antigo regime, ser um bispo, arcebispo e cardeal era uma dignidade eclesi\u00e1stica, mas tamb\u00e9m um poder pol\u00edtico importante. Tais cargos eram ocupados por nobres, e possu\u00edam soldos bastantes generosos. Em contrapartida, os padres das par\u00f3quias eram mais simples e pobres.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p>Em 1789, o clero contava com cerca de 406 mil membros. Quase todos os bispos, cardeais e arcebispos eram nobres de nascimento. Enquanto isso, os vig\u00e1rios e curas, isto \u00e9, os padres das par\u00f3quias, provinham de estratos menos prestigiosos e eram figuras-chave no cotidiano da popula\u00e7\u00e3o. Eram os curas, por exemplo, que mantinham os registros de estado civil. Assim, enquanto a popula\u00e7\u00e3o nutria simpatia pelos padres e pelas freiras que atuavam nos hospitais, havia um desgosto popular cada vez mais forte com rela\u00e7\u00e3o ao alto clero (Carvalho, 2022, p.51).<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p>Como an\u00e1lise pertinente, pode-se suscitar a problem\u00e1tica de muitos cl\u00e9rigos e pastores da atualidade, que se afastaram das palavras de Jesus Cristo e de sua miss\u00e3o de pastorear o rebanho a eles confiado, sendo mais pol\u00edticos e ambiciosos de cargos e d\u00edzimos do que verdadeiramente pastores. A forma como o homem religioso se compreende hoje est\u00e1 influenciada pela modernidade l\u00edquida<a href=\"#_ftn11\" id=\"_ftnref11\">[11]<\/a>, onde as rela\u00e7\u00f5es tendem \u00e0 superficialidade, muito condicionadas principalmente pelas redes sociais e pela sede de poder. O Papa Francisco se pronunciou constantemente contra o clericalismo no \u00e2mbito eclesial.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p>O arrivista \u00e9, em \u00faltima an\u00e1lise, um traidor, n\u00e3o \u00e9 um servidor. Ele busca o que lhe interessa e n\u00e3o faz nada pelos outros. [&#8230;] o perigo de buscar o pr\u00f3prio prazer e a pr\u00f3pria tranquilidade, \u00e9 o perigo de arrivismo, e infelizmente na vida h\u00e1 muitos carreiristas. (Francisco, 2022).<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p>As palavras do Papa s\u00e3o um alerta aos crist\u00e3os no combate ao carreirismo religioso. Quem se prop\u00f5e a ser um crente \u00e9tico e \u00edntegro deve estar imbu\u00eddo de esp\u00edrito de servi\u00e7o, humildade e desprendimento, buscando seguir o exemplo Cristol\u00f3gico. Caso contr\u00e1rio, um ser humano ego\u00edsta e manipulador gera tristeza, divis\u00f5es e contendas constantes.<\/p>\n\n\n\n<p>Nesse contexto, as religi\u00f5es neopentecostais tem crescido de forma gradual e constante no Brasil,<a href=\"#_ftn12\" id=\"_ftnref12\">[12]<\/a> influenciando a forma como os seres humanos se compreendem enquanto indiv\u00edduos e seres relacionais. De acordo com Paravidini e Gon\u00e7alves (2009), o hiperindividualismo consagrado pela p\u00f3s-modernidade propiciou um terreno f\u00e9rtil para a difus\u00e3o de muitas ideias pilares das atuais igrejas neopentecostais, como a teologia da prosperidade e a teologia do dom\u00ednio. A cosmovis\u00e3o desses grupos atua na inten\u00e7\u00e3o de sufocar a liberdade do indiv\u00edduo desamparado, ensinando que todas as intemp\u00e9ries adv\u00eam do diabo, e em contrapartida o crente deve se assujeitar e ser dominado para obter a felicidade, prescindindo inclusive de seus bens materiais. Destaca-se, portanto, no que se refere a esse tema, uma vis\u00e3o antropol\u00f3gica equivocada que \u00e9 inculcada na vida dos adeptos \u00e0 tais igrejas, impossibilitando que os mesmos se responsabilizem por suas pr\u00f3prias escolhas ao serem submetidos a uma l\u00f3gica contratualista e infantilizadora com seu Deus.<\/p>\n\n\n\n<p>Os ideais de igualdade, liberdade e fraternidade, muito difundidos no per\u00edodo revolucion\u00e1rio, foram utilizados em diferentes contextos pol\u00edticos e sociais posteriores, possuindo import\u00e2ncia inclusive nas discuss\u00f5es contempor\u00e2neas.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p>A tr\u00edade &#8220;liberdade, igualdade, fraternidade&#8221; tornou-se popular com a Revolu\u00e7\u00e3o Francesa; Robespierre prop\u00f4s em 1790 que ela fosse escrita nos uniformes da Guarda Nacional e em todas as bandeiras. Em 1848 esse lema foi definido na constitui\u00e7\u00e3o francesa como constituindo um princ\u00edpio da rep\u00fablica, e aparece nas constitui\u00e7\u00f5es de 1946 e 1958. Ela teve v\u00e1rias varia\u00e7\u00f5es, como &#8220;uni\u00e3o, for\u00e7a, virtude&#8221;, usada em lojas ma\u00e7\u00f4nicas, ou &#8220;liberdade, seguran\u00e7a, propriedade&#8221;, &#8220;liberdade, unidade, igualdade&#8221; etc. Durante a ocupa\u00e7\u00e3o nazista foi substitu\u00edda por &#8220;trabalho, fam\u00edlia, p\u00e1tria&#8221;. Mas foi a sua forma conhecida hoje que se tornou um lema da Fran\u00e7a, adotado inclusive em outros pa\u00edses, como na constitui\u00e7\u00e3o hindu de 1950. O primeiro artigo da Declara\u00e7\u00e3o Universal dos Direitos Humanos cont\u00e9m essa tr\u00edade: &#8220;Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e em direitos. Dotados de raz\u00e3o e de consci\u00eancia, devem agir uns para com os outros em esp\u00edrito de fraternidade. (Setzer, 2013).<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p>\u00c9 pertinente recordar que, em detrimento de ideais t\u00e3o nobres e inclusivos, a revolu\u00e7\u00e3o francesa em seu per\u00edodo comumente chamado terror foi respons\u00e1vel por 17 mil condena\u00e7\u00f5es formais \u00e0 morte. Somando estas \u00e0s outras vidas perdidas nas pris\u00f5es, conflitos e guerras nas quais a Fran\u00e7a se envolveu desde 1742 at\u00e9 a queda de Napole\u00e3o, estima-se milh\u00f5es de \u00f3bitos (Carvalho, 2022, p. 20). Nesse per\u00edodo, a luta pol\u00edtica foi marcada pela aniquila\u00e7\u00e3o daquela ideia que era contrastante, que n\u00e3o coadunava com a maioria, e n\u00e3o pelo di\u00e1logo, como no ideal da <em>res publica<\/em>. Na concep\u00e7\u00e3o atual do ser humano, \u00e9 necess\u00e1rio conhecer a hist\u00f3ria deste per\u00edodo, bem como suas consequ\u00eancias, para que as diversas arbitrariedades que est\u00e3o constantemente amea\u00e7ando a sociedade n\u00e3o sejam postas em pr\u00e1tica, e a paz seja um anseio comum.<\/p>\n\n\n\n<p>Os ideais iluministas da revolu\u00e7\u00e3o francesa chegaram at\u00e9 o Brasil ainda no s\u00e9culo XVIII, e foram pano de fundo, est\u00edmulo e parte do conte\u00fado intelectual de acontecimentos como a inconfid\u00eancia mineira (1789) e a conjura\u00e7\u00e3o baiana (1798). Schmidt (2012, p. 7), afirma que a Revolu\u00e7\u00e3o Francesa, com seus ideais de Liberdade, Igualdade e Fraternidade, inspirou movimentos revolucion\u00e1rios na Europa e na Am\u00e9rica.<\/p>\n\n\n\n<p>A escravid\u00e3o foi outra realidade que a revolu\u00e7\u00e3o francesa extinguiu em 1794. Essa realidade era uma marca registrada do antigo regime. De acordo com Carvalho (2022, p. 22), a escravid\u00e3o somava algo em torno de 700 mil pessoas no imp\u00e9rio. Anos depois, Napole\u00e3o Bonaparte iria restaurar a escravid\u00e3o nas col\u00f4nias, resultando na independ\u00eancia do Haiti.<\/p>\n\n\n\n<p>O Brasil, no entanto, seria o \u00faltimo pa\u00eds da Am\u00e9rica Latina a abolir a escravid\u00e3o, em 1888. As consequ\u00eancias da escravid\u00e3o s\u00e3o sentidas ainda hoje por todos os brasileiros. No contexto da aboli\u00e7\u00e3o, n\u00e3o foram pensadas pol\u00edticas p\u00fablicas de gera\u00e7\u00e3o de emprego, inser\u00e7\u00e3o social, moradia e terras para os neolibertos. Resultado disso foi a migra\u00e7\u00e3o em massa dessas popula\u00e7\u00f5es \u00e0s periferias das cidades, formando as favelas, onde se instalaram sem as m\u00ednimas condi\u00e7\u00f5es e dignidade. \u201cO novo regime, apesar das promessas, n\u00e3o viera para democratizar a sociedade ou possibilitar uma maior mobilidade social. Por suas caracter\u00edsticas acentuadamente olig\u00e1rquicas, a Rep\u00fablica brasileira chegara para manter intocada uma estrutura elitista e excludente\u201d (Maringoni, 2011). Atualmente a maioria da popula\u00e7\u00e3o pobre, carcer\u00e1ria e que sofre as mais diversas viol\u00eancias no Brasil s\u00e3o negras<a href=\"#_ftn13\" id=\"_ftnref13\">[13]<\/a>; realidade que exp\u00f5e reflexos de um hist\u00f3rico de direitos cerceados, fruto de concep\u00e7\u00f5es equivocadas.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>4. Conclus\u00e3o<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Tais quest\u00f5es que foram expostas s\u00e3o v\u00e1lidas para uma compreens\u00e3o antropol\u00f3gica do ser humano que considere a dial\u00e9tica hist\u00f3rica. A compreens\u00e3o antropol\u00f3gica contempor\u00e2nea do ser humano tem suas ra\u00edzes em processos hist\u00f3ricos espec\u00edficos, e suas reverbera\u00e7\u00f5es atingem de forma direta a humanidade, a cultura e as formas de governo. H\u00e1 uma sabedoria popular que ensina: \u201cum povo que n\u00e3o conhece sua hist\u00f3ria est\u00e1 fadado a repeti-la\u201d, por isso, \u00e9 importante conhecer os processos hist\u00f3ricos e a dial\u00e9tica das rela\u00e7\u00f5es, que por sua vez auxiliam no conhecimento do homem enquanto ser. Quanto maior for o conhecimento e a apropria\u00e7\u00e3o dos processos hist\u00f3ricos e sociol\u00f3gicos, maiores meios antropol\u00f3gicos de abertura e integra\u00e7\u00e3o uma sociedade possuir\u00e1, contribuindo no desenvolvimento dos povos e na promo\u00e7\u00e3o da paz.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>BAUMAN, Zygmunt. <strong>Modernidade L\u00edquida. <\/strong>Tradu\u00e7\u00e3o: Pl\u00ednio Dentzien. Rio de Janeiro: Zahar, 2001.<\/p>\n\n\n\n<p>BRASIL. <strong>Constitui\u00e7\u00e3o da Rep\u00fablica Federativa do Brasil de 1988<\/strong>. Bras\u00edlia: Presid\u00eancia da Rep\u00fablica. Dispon\u00edvel em: https:\/\/www.planalto.gov.br\/ccivil_03\/constituicao\/constituicao.htm. Acesso em: 04 jun. 2025.<\/p>\n\n\n\n<p>CALDEIRA, Giovana Crepaldi. Revolu\u00e7\u00e3o Francesa e a Declara\u00e7\u00e3o dos Direitos do Homem e do Cidad\u00e3o. <strong>ETIC \u2013 Encontro de Inicia\u00e7\u00e3o Cient\u00edfica<\/strong>. Centro Universit\u00e1rio Ant\u00f4nio Eufr\u00e1sio de Toledo \u2013 Presidente Prudente, v. 5, n\u00b0 5, 2009. Dispon\u00edvel em: http:\/\/intertemas.toledoprudente.edu.br\/index.php\/ETIC\/article\/view\/2019. Acesso em: 04 jun. 2025.<\/p>\n\n\n\n<p>CARVALHO, Daniel Gomes. <strong>Revolu\u00e7\u00e3o Francesa<\/strong>. S\u00e3o Paulo: Editora Contexto, 2022.<\/p>\n\n\n\n<p>DECLARA\u00c7\u00c3O DOS DIREITOS DO HOMEM E DO CIDAD\u00c3O. UFSM. 2018. Dispon\u00edvel em: https:\/\/www.ufsm.br\/app\/uploads\/sites\/414\/2018\/10\/1789.pdf. Acesso em: 04 jun. 2025.<\/p>\n\n\n\n<p>DUBY, Georges. <strong>As tr\u00eas ordens ou o imagin\u00e1rio do feudalismo<\/strong>. 2. ed. Tradu\u00e7\u00e3o: Maria Helena Costa Dias. Lisboa: Editorial Estampa. 1994.<\/p>\n\n\n\n<p>G1. Brasil tem menor parcela de cat\u00f3licos da hist\u00f3ria; evang\u00e9licos batem recorde<strong>. <\/strong>S\u00e3o Paulo. 06 jun. 2025. Dispon\u00edvel em: https:\/\/g1.globo.com\/economia\/censo\/noticia\/2025\/06\/06\/censo-2022-catolicos-evangelicos.ghtml. Acesso em: 09 jun. 2025.<\/p>\n\n\n\n<p>GOMES, Roberto. As ci\u00eancias humanas e o racionalismo cient\u00edfico. <strong>Veritas<\/strong>, Porto Alegre, v. 40, n\u00b0 157, p. 79-86, mar\u00e7o 1995. Dispon\u00edvel em: https:\/\/revistaseletronicas.pucrs.br\/veritas\/article\/view\/35940\/18879. Acesso em: 04 jun. 2025.<\/p>\n\n\n\n<p>MARIGONI. Gilberto.<strong> O destino dos negros ap\u00f3s a aboli\u00e7\u00e3o<\/strong>. Editora 70. Ano: 2011. S\u00e3o Paulo. Dispon\u00edvel em: http:\/\/www.ipea.gov.br\/desafios\/index.php?option=com_content&amp;id=2673%3Acatid%3D28&amp; Itemid=23. Acesso em: 04 jun. 2025.<\/p>\n\n\n\n<p>MINOIS, Georges. <strong>Hist\u00f3ria da idade m\u00e9dia<\/strong>: mil anos de esplendores e mis\u00e9rias. Tradu\u00e7\u00e3o: Thomas Kawauche. S\u00e3o Paulo: Editora Unesp Digital. 2023. <em>E-book.<\/em> Dispon\u00edvel em: https:\/\/books.google.com.br\/books?hl=pt-BR&amp;lr=&amp;id=x70bEQAAQBAJ&amp;oi=fnd&amp;pg=PT5&amp;dq=cellarius+idade+m%C3%A9dia&amp;ots=cII5UL11Ja&amp;sig=bK-3wGa7kdYi-xtVoV3r6aJUqYk&amp;redir_esc=y#v=onepage&amp;q=cellarius%20idade%20m%C3%A9dia&amp;f=false. Acesso em: 24 out. 2025.<\/p>\n\n\n\n<p>MORI, Let\u00edcia. 96% homens, 48% pardos, 30% sem julgamento: o perfil dos presos no Brasil.BBC News. S\u00e3o Paulo, 17 out. 2024. Dispon\u00edvel em: https:\/\/www.bbc.com\/portuguese\/articles\/c0k4nmd3e2xo. Acesso em: 09 jun. 2025.<\/p>\n\n\n\n<p>PARAVIDINI, Jo\u00e3o Luiz Leit\u00e3o; GON\u00c7ALVES, M\u00e1rcio Ant\u00f4nio. Neopentecostalismo, desamparo e condi\u00e7\u00e3o masoquista. <strong>Revista Mal Estar e Subjetividade<\/strong>. Fortaleza, v. 9, n\u00b0 4, dez. 2009. Dispon\u00edvel em: https:\/\/pepsic.bvsalud.org\/scielo.php?script=sci_arttext&amp;pid=S1518-61482009000400006. Acesso em: 09 jun. 2025.<\/p>\n\n\n\n<p>PELICIOLI, \u00c2ngela Cristina. A atualidade da reflex\u00e3o sobre a separa\u00e7\u00e3o dos poderes. <strong>Revista de Informa\u00e7\u00e3o Legislativa. <\/strong>Bras\u00edlia, v. 43, n\u00b0 169, jan\/mar 2006. Dispon\u00edvel em:&nbsp; https:\/\/www12.senado.leg.br\/ril\/edicoes\/43\/169\/ril_v43_n169_p21.pdf. Acesso em: 04 jun. 2025.<\/p>\n\n\n\n<p>PERNOUD, R\u00e9gine. <strong>Luz Sobre a Idade M\u00e9dia<\/strong>. Tradu\u00e7\u00e3o: Ant\u00f3nio Manuel de Almeida Gon\u00e7alves. Portugal: Publica\u00e7\u00f5es Europa-Am\u00e9rica, 1997.<\/p>\n\n\n\n<p>SCHMIDT, Joessane de Freitas. As Mulheres na Revolu\u00e7\u00e3o Francesa. <strong>Revista Thema<\/strong>. Instituto Federal Sul-rio-grandense, v. 9, n\u00b0 2, p. 1-19, fev. 2012. Dispon\u00edvel em: https:\/\/doaj.org\/article\/4275614c97cb4eefa50b0dc119677c76. Acesso em: 04 jun. 2025.<\/p>\n\n\n\n<p>SETZER, Valdemar W. <strong>Liberdade, igualdade, fraternidade: passado, presente, futuro<\/strong>. Ime, 2014. Dispon\u00edvel em: www.ime.usp.br\/~vwsetzer. Acesso em: 04 jun. 2025.<\/p>\n\n\n\n<p>SILVA, Jo\u00e3o Bosco da. <strong>O iluminismo \u2013 a filosofia das luzes<\/strong>. Universidade Estadual de Feira de Santana, Bahia, 2007. Dispon\u00edvel em: https:\/\/beneweb.com.br\/resources\/O%20Iluminismo%20-%20A%20Filosofia%20das%20Luzes.pdf. Acesso em: 04 jun. 2025.<\/p>\n\n\n\n<p>SILVA, Marcelo Lira. Os fundamentos do Liberalismo Cl\u00e1ssico. A rela\u00e7\u00e3o entre estado, direito e democracia. <strong>AURORA<\/strong>. S\u00e3o Paulo, v. 5, n\u00b0 1. p. 121 \u2013 147, dez. 2011. Dispon\u00edvel em: https:\/\/revistas.marilia.unesp.br\/index.php\/aurora\/article\/view\/1710. Acesso em: 04 jun. 2025.<\/p>\n\n\n\n<p>VASCONCELOS, Jo\u00e3o Vitor. <strong>Os ideais de liberdade, igualdade e fraternidade nos discursos parlamentares da declara\u00e7\u00e3o dos direitos do homem e do cidad\u00e3o (1789)<\/strong>. Orientador: Daniel Wanderson Ferreira. 2024. Monografia do departamento ICHS, Licenciatura em Hist\u00f3ria \u2013 Universidade Federal de Ouro Preto, Mariana, 2024. Dispon\u00edvel em: https:\/\/monografias.ufop.br\/bitstream\/35400000\/6443\/1\/MONOGRAFIA_IdeaisLiberdadeIgualdade.pdf. Acesso em: 04 jun. 2025.<\/p>\n\n\n\n<p>VATICAN NEWS. O Papa: sacerdotes arrivistas s\u00e3o rid\u00edculos, um padre deve estar perto do povo. Vatican News, 2022. Dispon\u00edvel em: www.vaticannews.va. Acesso em: 04 jun. 2025.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref1\" id=\"_ftn1\">[1]<\/a> Sobre as revolu\u00e7\u00f5es dos corpos celestes, escrito em 1543.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref2\" id=\"_ftn2\">[2]<\/a> Escrito em 1632.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref3\" id=\"_ftn3\">[3]<\/a> Vale destacar, contudo, que a periodiza\u00e7\u00e3o \u00e9 um movimento artificial e provis\u00f3rio, e que o termo \u201cidade m\u00e9dia\u201d reflete a vis\u00e3o do per\u00edodo de algumas pessoas que viveram em um tempo imediatamente posterior a ele, e que buscavam sua supera\u00e7\u00e3o. \u201c\u00c9 somente em 1676 que um autor audacioso, Christoph Cellarius (Keller), arrisca-se a reconstituir a hist\u00f3ria, em latim, do que ele chama a \u2018\u00e9poca m\u00e9dia\u2019 (<em>medium aevum<\/em>). De todo modo, por\u00e9m, seja qual for a opini\u00e3o a respeito de seu conte\u00fado, os intelectuais s\u00e3o un\u00e2nimes, e isso desde o s\u00e9culo XVI (ou mesmo desde o s\u00e9culo XIV, com Petrarca), em reconhecer que os dez s\u00e9culos que os separam do Imp\u00e9rio Romano constituem um conjunto espec\u00edfico\u201d (Minois, 2023).<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref4\" id=\"_ftn4\">[4]<\/a> Essa famosa frase foi proposta pelo bispo Adalber\u00e3o de Laon, que justifica o tema da sociedade tripartite, em seu \u201cpoema ao Rei Roberto\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;\u201cDuas frases pois: \u2018Aqui em baixo uns rezam, outros combatem e outros ainda trabalham&#8230;\u201d; \u201co g\u00e9nero humano estava, desde a sua origem, dividido em tr\u00eas: as gentes de ora\u00e7\u00e3o, os cultivadores e as gentes da guerra\u2019. Tr\u00eas tipos de ac\u00e7\u00e3o: orare, pugnare, agricolare-laborari\u201d (Duby, 1994, p. 25).<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref5\" id=\"_ftn5\">[5]<\/a> Artigo 1\u00ba- Os homens nascem e s\u00e3o livres e iguais em direitos. As distin\u00e7\u00f5es sociais s\u00f3 podem fundar-se na utilidade comum (Declara\u00e7\u00e3o dos Direitos do Homem e do Cidad\u00e3o de 1789); Art. 5\u00ba- Todos s\u00e3o iguais perante a lei, sem distin\u00e7\u00e3o de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no Pa\u00eds a inviolabilidade do direito \u00e0 vida, \u00e0 liberdade, \u00e0 igualdade, \u00e0 seguran\u00e7a e \u00e0 propriedade, nos termos seguintes [&#8230;] (Constitui\u00e7\u00e3o da Rep\u00fablica Federativa do Brasil de 1988)<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref6\" id=\"_ftn6\">[6]<\/a> Artigo 16\u00ba- Qualquer sociedade em que n\u00e3o esteja assegurada a garantia dos direitos, nem estabelecida a separa\u00e7\u00e3o dos poderes n\u00e3o tem Constitui\u00e7\u00e3o. (Declara\u00e7\u00e3o dos Direitos do Homem e do Cidad\u00e3o de 1789).<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref7\" id=\"_ftn7\">[7]<\/a> Ainda n\u00e3o se tornou.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref8\" id=\"_ftn8\">[8]<\/a> H\u00e1 exce\u00e7\u00f5es, como no caso do Marqu\u00eas de Condorcet (1743 \u2013 1794), grande defensor dos direitos femininos naquele per\u00edodo.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref9\" id=\"_ftn9\">[9]<\/a> Destacam-se os nomes de Olympe de Gouges (1748 \u2013 1793) e Marie-Anne Charlotte (1768 \u2013 1793), por exemplo.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref10\" id=\"_ftn10\">[10]<\/a> Artigo 10\u00ba- Ningu\u00e9m pode ser inquietado pelas suas opini\u00f5es, incluindo opini\u00f5es religiosas, contando que a manifesta\u00e7\u00e3o delas n\u00e3o perturbe a ordem p\u00fablica estabelecida pela Lei. (Declara\u00e7\u00e3o dos Direitos do Homem e do Cidad\u00e3o de 1789).<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref11\" id=\"_ftn11\">[11]<\/a> Para aprofundar o tema, conferir o livro: <strong>Modernidade L\u00edquida<\/strong>, de Zygmunt Bauman.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref12\" id=\"_ftn12\">[12]<\/a> De acordo com informa\u00e7\u00f5es do meio de comunica\u00e7\u00e3o G1 relativas ao censo religioso de 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estat\u00edsticas (IBGE): \u201cBrasil tem menor parcela de cat\u00f3licos da hist\u00f3ria; evang\u00e9licos batem recorde.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref13\" id=\"_ftn13\">[13]<\/a> De acordo com informa\u00e7\u00f5es do meio de comunica\u00e7\u00e3o BBC News: \u201cSomados, pretos e pardos respondem por 63% das pessoas encarceradas, enquanto comp\u00f5em 55,5% da popula\u00e7\u00e3o.\u201d<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Jo\u00e3o Pedro Ferreira Rodrigues Resumo: O que \u00e9 o ser humano? 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