{"id":2953,"date":"2025-12-01T10:36:31","date_gmt":"2025-12-01T13:36:31","guid":{"rendered":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/?p=2953"},"modified":"2025-12-09T17:10:43","modified_gmt":"2025-12-09T20:10:43","slug":"a-nocao-de-bem-em-platao-epicuro-e-jonh-istuart-mill-diferencias-e-simiralidades-na-etica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/?p=2953","title":{"rendered":"A NO\u00c7\u00c3O DE BEM EM PLAT\u00c3O, EPICURO E JONH STUART MILL: DIFEREN\u00c7AS E SIMIRALIDADES NA \u00c9TICA"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-text-align-right\">Raimundo Julio da Silva Neto<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Resumo: <\/strong>O presente artigo examina comparativamente as concep\u00e7\u00f5es de bem em Plat\u00e3o, Epicuro e John Stuart Mill, mostrando como esse conceito se transforma ao longo da hist\u00f3ria da filosofia. Em Plat\u00e3o, o bem \u00e9 apresentado como princ\u00edpio supremo, fundamento do ser e da verdade, cuja contempla\u00e7\u00e3o orienta a vida moral e o governo da cidade. Em Epicuro, o bem deixa de ser transcendental e passa a ser definido empiricamente como prazer, entendido sobretudo como aus\u00eancia de dor e serenidade da alma, constituindo uma \u00e9tica prudencial e voltada \u00e0 autossufici\u00eancia. Em Mill, o prazer reaparece sob o princ\u00edpio da utilidade, segundo o qual a\u00e7\u00f5es corretas s\u00e3o as que promovem a maior felicidade poss\u00edvel para o maior n\u00famero de pessoas; o hedonismo ganha, assim, dimens\u00e3o social e universaliz\u00e1vel. Portanto, cada uma dessas concep\u00e7\u00f5es, embora partam de pressupostos distintos, convergem na busca de um crit\u00e9rio para orientar a vida humana, evidenciando continuidades e rupturas na elabora\u00e7\u00e3o filos\u00f3fica da no\u00e7\u00e3o de bem.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Palavras-chave: <\/strong>Plat\u00e3o; Epicuro; John Stuart Mill; Bem; Felicidade; Hedonismo; Utilitarismo; Filosofia Antiga; Filosofia Moderna.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>1. INTRODU\u00c7\u00c3O<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p>A busca humana por uma vida melhor, isto \u00e9, menos marcada pelo sofrimento e mais orientada por algum princ\u00edpio que d\u00ea forma e sentido \u00e0 exist\u00eancia, acompanha a hist\u00f3ria do pensamento filos\u00f3fico. Ao longo dos s\u00e9culos, diversos fil\u00f3sofos procuraram identificar qual seria esse princ\u00edpio fundamental que orienta as a\u00e7\u00f5es humanas: sua natureza, seu alcance, suas condi\u00e7\u00f5es de realiza\u00e7\u00e3o e seus limites.<\/p>\n\n\n\n<p>Entre esses pensadores, Plat\u00e3o, Epicuro e John Stuart Mill oferecem tr\u00eas concep\u00e7\u00f5es paradigm\u00e1ticas do conceito de <em>bem<\/em>. Para Plat\u00e3o, o bem \u00e9 o princ\u00edpio supremo que ilumina o real e fundamenta tanto a vida moral quanto a vida pol\u00edtica. Para Epicuro, o bem encontra-se na experi\u00eancia concreta do prazer entendido como aus\u00eancia de dor. J\u00e1 para Stuart Mill, o princ\u00edpio que orienta a a\u00e7\u00e3o correta \u00e9 o da utilidade, isto \u00e9, a promo\u00e7\u00e3o da maior felicidade poss\u00edvel para o maior n\u00famero de pessoas.<\/p>\n\n\n\n<p>O presente artigo busca examinar comparativamente essas tr\u00eas concep\u00e7\u00f5es, evidenciando como a no\u00e7\u00e3o de <em>bem<\/em> desloca-se, ao longo da tradi\u00e7\u00e3o, de um fundamento metaf\u00edsico (Plat\u00e3o) para um crit\u00e9rio emp\u00edrico da vida pr\u00e1tica (Epicuro) e, por fim, para um princ\u00edpio moral universaliz\u00e1vel e socialmente orientado (Mill).<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>2. O BEM COMO PRINC\u00cdPIO SUPREMO EM PLAT\u00c3O<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p>Na Rep\u00fablica, Plat\u00e3o apresenta o <em>bem<\/em> como o mais alto dos objetos de conhecimento e como o princ\u00edpio que torna intelig\u00edveis todas as coisas. Contudo, conhecer o bem n\u00e3o \u00e9 tarefa acess\u00edvel a todos, pois trata-se de uma realidade que ultrapassa o dom\u00ednio discursivo e exige forma\u00e7\u00e3o intelectual rigorosa, disciplina \u00e9tica e ascend\u00eancia dial\u00e9tica. Plat\u00e3o (<em>Rep.<\/em> VI 505b) afirma que \u201cpara a maioria, \u00e9 o prazer que se identifica com o bem, ao passo que para os mais requintados \u00e9 o saber\u201d. Seu coment\u00e1rio n\u00e3o \u00e9 apenas descritivo: ele critica ambas as posi\u00e7\u00f5es porque confundem o bem com algo que n\u00e3o \u00e9 suficientemente universal para ocup\u00e1-lo.<\/p>\n\n\n\n<p>A cr\u00edtica plat\u00f4nica, por isso, opera em dois n\u00edveis. Em primeiro lugar, identificar o bem com o prazer levaria a admitir a exist\u00eancia de \u201cprazeres maus\u201d, o que seria contradit\u00f3rio com a pr\u00f3pria ideia de bem. Em segundo, identificar o bem com o saber implica supor que existe um \u201csaber do bem\u201d, mas sem indicar seu conte\u00fado ou sua causa. Em ambos os casos, o bem permanece inadequadamente compreendido.<\/p>\n\n\n\n<p>Para explicitar positivamente sua concep\u00e7\u00e3o, Plat\u00e3o recorre \u00e0 c\u00e9lebre analogia do Sol. Assim como o sol possibilita a vis\u00e3o no mundo sens\u00edvel, o bem \u00e9 aquilo que, no mundo intelig\u00edvel, torna poss\u00edvel o conhecimento e confere verdade aos objetos intelig\u00edveis: \u201c[&#8230;] o bem \u00e9, no mundo intelig\u00edvel, em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 intelig\u00eancia e ao intelig\u00edvel, o mesmo que o sol no mundo vis\u00edvel em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 vista e ao vis\u00edvel\u201d (<em>Rep.<\/em> VI 508c).<\/p>\n\n\n\n<p>Dessa imagem decorre uma tese central: o bem est\u00e1 acima da pr\u00f3pria ess\u00eancia. Ele \u00e9 causa n\u00e3o apenas do ser das coisas intelig\u00edveis, mas tamb\u00e9m da possibilidade de conhec\u00ea-las. A ascens\u00e3o ao bem, descrita por Plat\u00e3o nos livros VI e VII, possui, portanto, car\u00e1ter epistemol\u00f3gico, \u00e9tico e pol\u00edtico. Nesse sentido, Melo (2018, p. 114) observa que essa trajet\u00f3ria possui dois movimentos estruturais: \u201c[&#8230;] um que conduz ao processo da a \u2018ascens\u00e3o\u2019 do sens\u00edvel para o intelig\u00edvel, e outro, de \u2018descida\u2019, de retorno \u00e0 caverna\u201d. Segue o autor sobre estes movimentos \u201cEstes movimentos sugerem que se leve em considera\u00e7\u00e3o uma epistemologia que conduz o fil\u00f3sofo na sua tarefa \u00e9tico-pol\u00edtica.\u201d (Melo, 2018, p.114). O conhecimento do bem, por isso, \u00e9 condi\u00e7\u00e3o para o correto governo da cidade. Ap\u00f3s longa forma\u00e7\u00e3o (matem\u00e1tica, dial\u00e9tica e pol\u00edtica) os fil\u00f3sofos, ao atingirem cerca de cinquenta anos, devem:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p>[&#8230;] inclinar a luz radiosa da alma para a contempla\u00e7\u00e3o do Ser que d\u00e1 luz a todas as coisas. Depois de terem visto o bem em s\u00ed, us\u00e1-lo-\u00e3o como paradigma, para ordenar a cidade, os particulares e a si mesmos, cada um por sua vez, para o resto da vida, mas consagrando a maior parte dela \u00e0 filosofia; por\u00e9m, quando chegar a vez deles, aguentar\u00e3o os embates da pol\u00edtica, e assumir\u00e3o cada um deles a chefia do governo, por amor \u00e0 cidade, fazendo assim, n\u00e3o porque \u00e9 bonito, mas porque \u00e9 necess\u00e1rio (<em>Rep.<\/em> VII 540a-b).<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p>Seguindo essa observa\u00e7\u00e3o a respeito das pessoas mais velhas, que poderiam ter sua alma inclinada para o ser que da luz a todas as coisas, Giovanni Reale (1997, p. 245) acentua:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p>Recordemos que Plat\u00e3o concebia essa via como <em>extraordinariamente longa:<\/em> ela devia passar pelas ci\u00eancias matem\u00e1ticas, at\u00e9 alcan\u00e7ar a dial\u00e9tica, para poder subir ao conhecimento do Bem, que se realizava aos trinta e cinco anos, mais outros quinze nos quais se devia levar a termo a contempla\u00e7\u00e3o e a pr\u00e1tica do Bem.<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p>O bem, assim, compreendido como princ\u00edpio supremo e como causa do ser e do conhecimento, n\u00e3o \u00e9 apenas fundamento metaf\u00edsico: ele ilumina a a\u00e7\u00e3o \u00e9tica e sustenta a arquitetura pol\u00edtica da cidade justa. O governante ideal \u00e9 aquele que, amando o ser em sua totalidade, orienta sua vida e suas decis\u00f5es a partir da forma do bem.<\/p>\n\n\n\n<p>Em suma, com Plat\u00e3o, o bem aparece como medida objetiva e racional da vida boa. Posteriormente, a filosofia helen\u00edstica reconfigura esse quadro. \u00c9 nesse contexto que Epicurodesloca o eixo da reflex\u00e3o: em vez de uma fundamenta\u00e7\u00e3o metaf\u00edsica do bem, ele parte da experi\u00eancia concreta do prazer e da dor, introduzindo crit\u00e9rios emp\u00edricos para a vida feliz. Assim, passamos do paradigma racionalista cl\u00e1ssico para uma \u00e9tica hedonista, embora moderada e rigorosa.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><strong>2.2. O BEM COMO PRAZER EM EPICURO<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p>Ao contr\u00e1rio da concep\u00e7\u00e3o metaf\u00edsica plat\u00f4nica, Epicuro redefine o bem em termos estritamente emp\u00edricos e concretos. Para ele, o prazer \u201c[&#8230;] \u00e9 princ\u00edpio e fim da vida feliz\u201d (Epicuro, 1985, p. 56). Essa afirma\u00e7\u00e3o, frequentemente mal-interpretada, n\u00e3o conduz a uma defesa do hedonismo desenfreado, pois Epicuro distingue claramente os prazeres corporais intensos e passageiros daqueles que constituem efetivamente o bem: os prazeres est\u00e1veis da aus\u00eancia de sofrimento f\u00edsico (<em>aponia<\/em>) e de perturba\u00e7\u00e3o da alma (<em>ataraxia<\/em>). Ele afirma: \u201c[&#8230;] n\u00e3o nos referimos aos prazeres dos intemperantes [&#8230;], mas ao prazer de nos acharmos livres de sofrimentos do corpo e de perturba\u00e7\u00f5es da alma\u201d (Epicuro, 1985, p. 57).<\/p>\n\n\n\n<p>O prazer \u00e9, portanto, crit\u00e9rio e medida das escolhas humanas, mas um crit\u00e9rio racional. Assim, o fil\u00f3sofo afirma que n\u00e3o se deve buscar qualquer prazer indiscriminadamente, nem evitar toda dor, pois algumas dores conduzem a prazeres maiores e duradouros. Por isso, o fil\u00f3sofo insiste na necessidade de que:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p>[&#8230;] cada um dos prazeres possui por natureza um bem pr\u00f3prio, mas n\u00e3o deve escolher-se cada um deles; do mesmo modo, cada dor \u00e9 um mal, mas nem sempre se deve evit\u00e1-las. Conv\u00e9m, ent\u00e3o, valorizar todas as coisas de acordo com a medida e o crit\u00e9rio dos benef\u00edcios e dos preju\u00edzos, pois que, segundo as ocasi\u00f5es, o bem nos produz o mal e, em troca, o mal, o bem (Epicuro, 1985, p. 57).<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p>Trata-se, desse modo, de uma \u00e9tica prudencial, orientada pela autossufici\u00eancia, pela serenidade e pelo equil\u00edbrio dos desejos. A justi\u00e7a, nessa perspectiva, n\u00e3o \u00e9 uma ideia metaf\u00edsica, mas um pacto social: \u201cn\u00e3o tem exist\u00eancia por si pr\u00f3pria, mas encontra-se nas rela\u00e7\u00f5es rec\u00edprocas [&#8230;] em que exista um pacto de n\u00e3o produzir nem sofrer dano\u201d (Epicuro, 1985, p. 60). As leis s\u00e3o justas enquanto \u00fateis \u00e0 conviv\u00eancia. Quando deixam de ser \u00fateis, deixam tamb\u00e9m de ser justas. Dessa concep\u00e7\u00e3o decorre que \u201cO justo \u00e9 sumamente sereno, o injusto cheio da maior perturba\u00e7\u00e3o\u201d (Epicuro, 1985, p. 61). A injusti\u00e7a, nesse sentido, rompe a paz da alma.<\/p>\n\n\n\n<p>Assim, o bem para Epicuro n\u00e3o \u00e9 uma realidade transcendente, mas uma pr\u00e1tica de vida orientada pela busca da tranquilidade. A harmonia entre prazer e dor, entre bem e mal, possibilita ao indiv\u00edduo uma vida feliz, mesmo diante das conting\u00eancias inevit\u00e1veis da exist\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p>A formula\u00e7\u00e3o epicurista do prazer como medida da a\u00e7\u00e3o reaparece na modernidade, mas em um contexto social, pol\u00edtico e moral profundamente distinto. John Stuart Mill, retomando e reelaborando o hedonismo, introduz a no\u00e7\u00e3o de qualidade dos prazeres e a subordina a uma perspectiva utilitarista, na qual o bem deixa de ser apenas individual e assume um car\u00e1ter coletivo.<br>Desse modo, a passagem de Epicuro para Mill marca a transforma\u00e7\u00e3o do hedonismo em utilitarismo liberal, que se torna um dos eixos centrais da filosofia moral do s\u00e9culo XIX.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><strong>2.3. A UTILIDADE COMO CRIT\u00c9RIO DO BEM EM JOHN STUART MILL<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p>John Stuart Mill retoma a no\u00e7\u00e3o de prazer como elemento central da vida \u00e9tica, mas a insere em um horizonte moral mais amplo: o princ\u00edpio da utilidade. Segundo esse princ\u00edpio, \u201c[&#8230;] as a\u00e7\u00f5es s\u00e3o corretas na medida em que tendem a promover a felicidade e erradas conforme tendam a produzir o contr\u00e1rio da felicidade\u201d (Mill, 2000, p. 187). Dessa forma, Mill d\u00e1 ao prazer, entendido como felicidade e aus\u00eancia de dor, uma fun\u00e7\u00e3o normativa universaliz\u00e1vel. Assim como Epicuro, Mill destaca que o utilitarismo n\u00e3o reduz a vida moral aos prazeres sens\u00edveis. Ele afirma que: \u201c[&#8230;] n\u00e3o se conhece nenhuma teoria epicurista da vida que n\u00e3o atribua aos prazeres intelectuais, aos prazeres da sensibilidade, da imagina\u00e7\u00e3o e dos sentimentos morais um valor mais elevado como prazeres do que os alcan\u00e7ados pela mera sensa\u00e7\u00e3o\u201d (Mill, 2000, p. 188). O utilitarismo, portanto, n\u00e3o \u00e9 uma doutrina da sensualidade, como acusavam seus cr\u00edticos, mas uma teoria \u00e9tica que valoriza n\u00edveis superiores de satisfa\u00e7\u00e3o humana.<\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m disso, Mill introduz um elemento decisivo que o distingue de Epicuro: o car\u00e1ter altru\u00edsta e social da moralidade utilitarista. O valor moral de uma a\u00e7\u00e3o n\u00e3o se mede pela felicidade do agente individual, mas pela soma total de felicidade produzida para todos os envolvidos. Por isso, \u201c[&#8230;] a moralidade utilitarista reconhece nos seres humanos o poder de sacrificar seus maiores bens pessoais pelo bem de outros\u201d (Mill, 2000, p. 202). A ren\u00fancia pessoal, desde que voltada ao benef\u00edcio coletivo, integra positivamente o agir moral.<\/p>\n\n\n\n<p>Mill tamb\u00e9m responde \u00e0 cr\u00edtica de que o utilitarismo seria incompat\u00edvel com a religi\u00e3o, afirmando que, se Deus deseja a felicidade de suas criaturas, ent\u00e3o o utilitarismo \u00e9 a doutrina moral mais coerente com essa vontade divina. Assim, ele enfatiza:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p>Se fosse necess\u00e1rio responder algo a essa que n\u00e3o passa de uma afirma\u00e7\u00e3o gratuita, poder\u00edamos dizer que a quest\u00e3o depende da id\u00e9ia que formamos sobre o car\u00e1ter moral da divindade. A ser verdadeira a cren\u00e7a que Deus deseja, acima de tudo, a felicidade de suas criaturas, e de que esse era seu prop\u00f3sito ao cri\u00e1-las, o utilitarismo n\u00e3o somente n\u00e3o \u00e9 uma doutrina sem Deus, mas \u00e9 uma doutrina mais profundamente religiosa do que todas as outras. (Mill, 2000, 208-209).<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p>Portanto, a utilidade n\u00e3o \u00e9 mero prazer, mas o prazer enquanto crit\u00e9rio objetivo da a\u00e7\u00e3o justa e promotora do bem-estar comum. Assim, a no\u00e7\u00e3o de <em>bem<\/em> em Mill adquire amplitude \u00e9tica e pol\u00edtica: trata-se do princ\u00edpio que regula as a\u00e7\u00f5es pela capacidade de gerar a maior felicidade poss\u00edvel para o maior n\u00famero de indiv\u00edduos.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>3. CONCLUS\u00c3O<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p>A compara\u00e7\u00e3o entre Plat\u00e3o, Epicuro e John Stuart Mill mostrou que, embora suas filosofias partam de pressupostos distintos e operem em contextos hist\u00f3ricos e metodol\u00f3gicos muito diferentes, \u00e9 poss\u00edvel relacion\u00e1-las a partir de um eixo comum: a pergunta pelo bem como crit\u00e9rio orientador da vida humana. Cada autor responde a essa pergunta de acordo com seu pr\u00f3prio horizonte te\u00f3rico, mas todos convergem na tentativa de estabelecer par\u00e2metros que permitam compreender o que significa viver bem e agir corretamente.<\/p>\n\n\n\n<p>Em Plat\u00e3o, o bem constitui o fundamento supremo da realidade intelig\u00edvel. Ele \u00e9 causa do ser, da verdade e da possibilidade de conhecimento, e, por isso, assume papel normativo decisivo tanto na vida \u00e9tica quanto na organiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica da cidade justa. Sua concep\u00e7\u00e3o \u00e9 metaf\u00edsica, universal e objetiva.<\/p>\n\n\n\n<p>Epicuro, por sua vez, desloca o problema para o terreno da experi\u00eancia concreta. O bem n\u00e3o \u00e9 um princ\u00edpio transcendental, mas a viv\u00eancia equilibrada do prazer, entendida como aus\u00eancia de dor e serenidade da alma. Nesse sentido, sua \u00e9tica valoriza a medida, a prud\u00eancia e a autossufici\u00eancia, oferecendo uma resposta pr\u00e1tica para a vida feliz numa perspectiva individual, ainda que socialmente regulada pelo pacto da justi\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p>Mill retoma a centralidade do prazer, mas a reconstr\u00f3i em chave moderna: o crit\u00e9rio do bem n\u00e3o \u00e9 apenas aquilo que proporciona felicidade ao indiv\u00edduo, mas aquilo que maximiza a felicidade coletiva. Assim, o utilitarismo amplia e universaliza a no\u00e7\u00e3o epicurista de prazer, incluindo dimens\u00f5es qualitativas e sociais. A a\u00e7\u00e3o moral correta passa a ser aquela que promove o maior bem poss\u00edvel para o maior n\u00famero de pessoas.<\/p>\n\n\n\n<p>Relacionar esses tr\u00eas autores tornou-se poss\u00edvel porque, apesar de suas diferen\u00e7as, todos oferecem respostas normativas \u00e0 mesma quest\u00e3o fundamental (o que \u00e9 o bem?) e partem da premissa comum de que a vida humana requer orienta\u00e7\u00e3o, crit\u00e9rio e medida. As diferen\u00e7as, por\u00e9m, s\u00e3o t\u00e3o instrutivas quanto as converg\u00eancias: Plat\u00e3o busca um princ\u00edpio absoluto e metaf\u00edsico; Epicuro, uma pr\u00e1tica sensata da exist\u00eancia concreta; Mill, um princ\u00edpio moral universal aplic\u00e1vel \u00e0 conviv\u00eancia coletiva.<\/p>\n\n\n\n<p>Assim, ao percorrer essas tr\u00eas perspectivas, observa-se n\u00e3o apenas a perman\u00eancia do problema do bem, mas tamb\u00e9m sua transforma\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica: de um fundamento ontol\u00f3gico para uma experi\u00eancia individual e, finalmente, para um crit\u00e9rio moral de alcance social. Essa trajet\u00f3ria evidencia que a reflex\u00e3o sobre o bem permanece central para compreender a a\u00e7\u00e3o humana, suas motiva\u00e7\u00f5es e os modos como indiv\u00edduos e sociedades procuram orientar a pr\u00f3pria vida em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 felicidade e \u00e0 justi\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>REFER\u00caNCIAS<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>EPICURO. <strong>Antologia de textos.<\/strong> In: Epicuro, Lucr\u00e9cio, C\u00edcero, S\u00eaneca, Marco Aur\u00e9lio. Os Pensadores. Tradu\u00e7\u00e3o Agostinho da Silva. 3. ed. S\u00e3o Paulo: Abril Cultural, 1985.<\/p>\n\n\n\n<p>MELO, Edvaldo Antonio de. <strong>Por uma sensibilidade al\u00e9m da ess\u00eancia:<\/strong> L\u00e9vinas interpela<\/p>\n\n\n\n<p>Plat\u00e3o. Roma: Pontificia Universit\u00e0 Gregoriana, 2018.<\/p>\n\n\n\n<p>MILL, Jonh Stuart. <strong>A liberdade<\/strong>:Utilitarismo. Tradu\u00e7\u00e3o Eunice Ostrensky. 1. ed. S\u00e3o Paulo: Martins Fontes, 2000.<\/p>\n\n\n\n<p>PLAT\u00c3O. <strong>A<\/strong> <strong>Rep\u00fablica<\/strong>. Tradu\u00e7\u00e3o Maria Helena Da Rocha Pereira. 7. ed. Lisboa: Funda\u00e7\u00e3o Calouste Gulbenkian, 1993.<\/p>\n\n\n\n<p>REALE, Giovanni. <strong>Para uma nova interpreta\u00e7\u00e3o de Plat\u00e3o<\/strong>. Tradu\u00e7\u00e3o de Marcelo Perine. 14. ed. S\u00e3o Paulo: Edi\u00e7\u00f5es Loyola, 1997.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Raimundo Julio da Silva Neto Resumo: O presente artigo examina comparativamente as concep\u00e7\u00f5es de bem em Plat\u00e3o, Epicuro e John Stuart Mill, mostrando como esse conceito se transforma ao longo da hist\u00f3ria da filosofia. 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