{"id":304,"date":"2009-05-21T22:21:30","date_gmt":"2009-05-22T01:21:30","guid":{"rendered":"http:\/\/pensamentoextemporaneo.wordpress.com\/?p=304"},"modified":"2009-05-21T22:21:30","modified_gmt":"2009-05-22T01:21:30","slug":"o-principio-de-responsabilidade-na-relacao-face-a-face-em-levinas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/?p=304","title":{"rendered":"O princ\u00edpio de responsabilidade na rela\u00e7\u00e3o face-a-face em Levinas"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align:justify;\"><strong>Jorge Luiz Barbosa<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">A civiliza\u00e7\u00e3o ocidental teve uma tend\u00eancia muito freq\u00fcente de reduzir tudo o que era estranho, enigm\u00e1tico, obscuro \u00e0s condi\u00e7\u00f5es de inteligibilidade do intelecto. Nesse sentido, tudo ser\u00e1 submetido \u00e0 pretensa investiga\u00e7\u00e3o do intelecto humano. Qualquer evento imprevis\u00edvel do futuro ou outra coisa que n\u00e3o pode ser ordenada e compreendida ou manipulada pela raz\u00e3o ser\u00e1 exclu\u00eddo. O homem do Ocidente deseja captar, ent\u00e3o, tudo atrav\u00e9s de uma mente racionalista, tudo deve ser conhecido, compreendido ou sintetizado. A raz\u00e3o busca tornar todas as coisas presentes no mundo, intelig\u00edveis e conhecidas totalmente. Nada pode estar fora desse \u00e2mbito racional que age de maneia dominante sobre todos os aspectos existenciais e deseja trazer para a inteligibilidade \u201cDeus, o agente individual, o passado hist\u00f3rico, o futuro progressivo, as culturas n\u00e3o-ocidentais e qualquer tradi\u00e7\u00e3o cultural que seja mitol\u00f3gica ou \u2018supersticiosa\u2019 por natureza\u201d [1].<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Percebe-se, nessa \u00e2nsia da raz\u00e3o em querer racionalizar todas as facetas existenciais, que o indiv\u00edduo \u00e9 reduzido a uma multid\u00e3o sem faces e despido de sua pr\u00f3pria liberdade de ser. O perfeccionismo extremo do ocidente racional quer ter o maior grau de perfei\u00e7\u00e3o que acesse \u00e0 realidade existencial. Nesse sentido, o seu interesse primordial foi a totaliza\u00e7\u00e3o, ou seja, reduzir tudo \u00e0 uniformidade, que concederia um poder maior \u00e0 racionaliza\u00e7\u00e3o [2]. Essa totaliza\u00e7\u00e3o plena do indiv\u00edduo implica que qualquer aspecto do eu possa ser reduzido e compreendido pelos valores da redu\u00e7\u00e3o feita pela opera\u00e7\u00e3o racional. Dessa forma, a vida do ser humano n\u00e3o ser\u00e1 mais marcada pelo mist\u00e9rio interior, pois tudo estar\u00e1 dominado pelo crivo da raz\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Levinas mostra que a condi\u00e7\u00e3o humana n\u00e3o \u00e9 simplesmente moldada pela racionalidade, mas \u00e9 dependente de muitos elementos estranhos que essa raz\u00e3o busca clarear e compreender. H\u00e1 no homem a \u201cordem do outro\u201d, que s\u00e3o as partes principais da exist\u00eancia humana que permanecem \u00e0s escuras e de forma enigm\u00e1tica. Nesse sentido, o eu e o mundo do Outro n\u00e3o podem ser reduzidos aos crit\u00e9rios colocados pela raz\u00e3o. O Outro se apresenta como aquele que se recusa a ser conte\u00fado, que n\u00e3o pode ser englobado pelos sentidos existenciais. Para L\u00e9vinas, ent\u00e3o, o \u201coutro\u201d sempre inunda o espa\u00e7o do \u201cmesmo\u201d e rompe os per\u00edmetros do que \u00e9 conhecido. Como esse outro n\u00e3o se insere na esfera de uma totaliza\u00e7\u00e3o ou do mesmo, ele ganha o estatuto de infinito. A sua presen\u00e7a extravasa qualquer compreens\u00e3o da raz\u00e3o. A ideia do infinito vai al\u00e9m dos poderes que a raz\u00e3o almeja ter. Da revela\u00e7\u00e3o do rosto, surge a ideia do infinito, que n\u00e3o se inscreve na totaliza\u00e7\u00e3o que o \u201cmesmo\u201d pretende.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">A express\u00e3o do rosto de permanecer como um Outro se recusa \u00e0 posse, aos poderes de domina\u00e7\u00e3o racional. O Outro coloca o eu sob o aspecto da responsabilidade, justamente porque os seres humanos expressam sua singularidade na rela\u00e7\u00e3o social de \u201cmaneira misteriosa\u201d. Isso nos deixa claro que h\u00e1 algo na intera\u00e7\u00e3o dos homens que nos instiga, mas que permanece irredut\u00edvel e inexplic\u00e1vel. Assim, a responsabilidade do eu ser\u00e1 uma responsabilidade pelo rosto do Outro. Isso imp\u00f5e no eu a sua condi\u00e7\u00e3o de liberdade. A responsabilidade o tornar\u00e1 livre. Essa responsabilidade com o outro \u00e9 fundamental, pois nascemos num mundo relacional que n\u00e3o podemos ignorar ou fugir. O face-a-face com o outro vai exigir de n\u00f3s a responsabilidade. Dessa forma, descobre-se a experi\u00eancia da liberdade no processo de relacionar-se com o outro. O eu vai se colocar sempre com um novo e necess\u00e1rio compromisso para o bem-estar dos demais.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">O rosto do Outro sempre vai exigir que reconhe\u00e7amos as nossas responsabilidades. Diante disso, na sua exist\u00eancia, o homem n\u00e3o poder\u00e1 recusar a sua responsabilidade, pois estar\u00e1 ligado ou perseguido constantemente pela presen\u00e7a do outro. A mera presen\u00e7a do Outro faz com que assumamos esse nosso compromisso. Por isso, o Outro que se apresenta promove a liberdade do eu. Assim, a pluralidade do mesmo e do outro ser\u00e1 mantida. N\u00e3o haver\u00e1 a totaliza\u00e7\u00e3o dos aspectos do homem que a raz\u00e3o ocidental pretendia.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Levinas quer nos mostrar com o princ\u00edpio de responsabilidade que a outra pessoa \u00e9 um outro mundo que brilha atrav\u00e9s do seu rosto, e que n\u00e3o pode ser redut\u00edvel \u00e0s ideias que a raz\u00e3o deseja. O Outro se manifesta para o relacionamento de forma misteriosa, exigindo atrav\u00e9s do infinito presente no seu rosto a responsabilidade do eu.\u00a0Por isso, o eu estar\u00e1 sempre sendo perseguido pelas exig\u00eancias que a face do outro coloca.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">O infinito diante do eu condiciona a sua pr\u00f3pria vida \u00e0 pr\u00e1tica da n\u00e3o-viol\u00eancia Quando o eu se deixa conduzir por aquilo que a raz\u00e3o ocidental orienta, corre-se o risco de cometer a viol\u00eancia e contra o rosto do outro e tamb\u00e9m contra si, pois deixa de lado o face-a-face. A experi\u00eancia que se faz de reduzir tudo a uma totalidade compreens\u00edvel faz com que a alteridade do indiv\u00edduo desapare\u00e7a.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">O que houve com o projeto da racionalidade foi o esquecimento ou ter ignorado que os seres humanos s\u00e3o diferentes de qualquer coisa, at\u00e9 mesmo da compreens\u00e3o que temos de n\u00f3s mesmos. Nesse sentido, o homem age como se n\u00e3o estivesse envolto na realidade, mas como se tivesse poder para totaliz\u00e1-la e abarc\u00e1-la com a raz\u00e3o. V\u00ea-se que a filosofia despojou o eu de sua peculiaridade individual e colocou em seu lugar o poder de agir como se n\u00e3o fiz\u00e9ssemos parte do universo [3].<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">\u00c9 necess\u00e1rio que se tenha uma ruptura com a pretens\u00e3o de totalizar o rosto do Outro, pois dessa forma estar\u00e1 presente a abertura para a subjetividade de cada indiv\u00edduo. Sabendo que a subjetividade vai al\u00e9m do que se apresenta nos tra\u00e7os f\u00edsicos do rosto, o homem tem a possibilidade de acolher o infinito. Diante da express\u00e3o do infinito, instala-se a necess\u00e1ria responsabilidade para com o Outro. Mediante o mist\u00e9rio do rosto, a humanidade vai se relacionar-se com mais responsabilidade para n\u00e3o violentar a subjetividade da pr\u00f3pria de cada pessoa. Isso impedir\u00e1 a configura\u00e7\u00e3o da totaliza\u00e7\u00e3o diante do face-a-face.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Diante disso, percebe-se que L\u00e9vinas quer afastar do seio humano o \u201cdesejo de poder\u201d sobre as outras pessoas para compreend\u00ea-las totalmente atrav\u00e9s dos aspectos f\u00edsicos. A rela\u00e7\u00e3o social deve ser marcada pela responsabilidade que permite ao Outro se expressar em sua mais profunda subjetividade. Isso faz com que todos n\u00f3s experimentemos a ideia do infinito presente no rosto do outro e, assim, respeitemos a sua alteridade. Dessa forma, elimina-se o projeto da raz\u00e3o ocidental de querer abarcar todas as coisas e totaliz\u00e1-las, ferindo o infinito no rosto e reduzindo-o a uma simples coisa. Esse respeito constante pelo outro conduziria a humanidade a uma fraternidade [4] entre os indiv\u00edduos mediante a nudez infinita do rosto de cada ser humano.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\"><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">HUTCHENS, Benjamin C.. <em>Compreender Levinas<\/em>. Trad. Vera L\u00facia M. Joscelyne. Petr\u00f3polis: Vozes, 2004.<br \/>\nLEVINAS, Emmanuel. <em>Totalidade e infinito<\/em>. Trad. J. P. Ribeiro. Lisboa: Edi\u00e7\u00f5es 70, 1988.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">_____________________<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">[1] HUTCHENS.<em> Compreender Levinas<\/em>, p. 29.<br \/>\n[2] Cf. HUTCHENS.<em> Compreender Levinas<\/em>, p. 31.<br \/>\n[3] Cf. HUTCHENS.<em> Compreender Levinas<\/em>, p. 61.<br \/>\n[4] Cf. L\u00c9VINAS. <em>Totalidade e infinito<\/em>, p. 192.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Jorge Luiz Barbosa &nbsp; A civiliza\u00e7\u00e3o ocidental teve uma tend\u00eancia muito freq\u00fcente de reduzir tudo o que era estranho, enigm\u00e1tico, obscuro \u00e0s condi\u00e7\u00f5es de inteligibilidade do intelecto. Nesse sentido, tudo ser\u00e1 submetido \u00e0 pretensa investiga\u00e7\u00e3o do intelecto humano. 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