{"id":312,"date":"2009-05-21T22:22:54","date_gmt":"2009-05-22T01:22:54","guid":{"rendered":"http:\/\/pensamentoextemporaneo.wordpress.com\/?p=312"},"modified":"2009-05-21T22:22:54","modified_gmt":"2009-05-22T01:22:54","slug":"o-rosto-revela-um-significado-etico-levinas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/?p=312","title":{"rendered":"O rosto revela um significado \u00e9tico: Levinas"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align:justify;\"><strong>Wilhiam Luiz de Lima<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Emmanuel Levinas nasceu em 1906, na Rep\u00fablica Litu\u00e2nia, de fam\u00edlia judaica. Mudou-se jovem para Estrasburgo, onde estudou filosofia e teve contato com importantes personalidades filos\u00f3ficas. Seu itiner\u00e1rio acad\u00eamico passou por contato com estudos de Husserl e Heidegger. Sua filosofia \u00e9 fruto de tens\u00e3o de vida, sofrimento pessoal e de um povo diante da viol\u00eancia ao diferente. Ele tem pensamento prof\u00e9tico, n\u00e3o no sentido religioso, mas denuncia algo negativo e anuncia algo novo ou uma sa\u00edda. Sua obra valoriza o outro e assim estreia sentidos social e humano para sobreviver e conviver em novos tempos.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">N\u00e3o se pode compreender o rosto, ele engloba Outrem, ou seja, n\u00e3o pode ser objetivado, mas transcende toda significa\u00e7\u00e3o que se queira atribuir-lhe. O eu n\u00e3o nega o Outrem, o rosto. O Outrem \u00e9 transcendente, estranho, seu rosto rompe com o mundo comum que se inscreve em sua natureza e se desenvolve em nossa exist\u00eancia. O Outrem \u00e9 percebido pela diferen\u00e7a absoluta, instaurada pela linguagem. O rosto \u00e9 mais que a exposi\u00e7\u00e3o de algo humano que escapa, ele se revela constantemente<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">A linguagem \u00e9 a rela\u00e7\u00e3o (e possibilita-a) entre separados; ela \u00e9 o \u201cpr\u00f3prio poder de quebrar a continuidade do ser\u201d (LEVINAS, <em>Totalidade e Infinito<\/em>, p.174). A palavra, dirigida a Outrem, tem-no n\u00e3o como tema e sim significa\u00e7\u00e3o, falar com o outro \u00e9 falar a ele.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Na rela\u00e7\u00e3o, o outro \u00e9 absoluto, ele nunca \u00e9 reduzido, por isso ele se torna \u2018infinito\u2019, cuja ideia mant\u00e9m sua exterioridade. Desse infinito \u00e9 que deriva a exterioridade, que \u00e9 a ruptura e o limite da totaliza\u00e7\u00e3o; a alteridade, a rela\u00e7\u00e3o com o outro, com o todo outro; e o rosto, propriamente, como revela\u00e7\u00e3o do estranho e abertura \u00e9tica por excel\u00eancia (PELIZZOLI, <em>Notas para compreender Levinas<\/em>).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">A rela\u00e7\u00e3o \u00e9tica que est\u00e1 na base do discurso n\u00e3o como desejo ou imperativo da consci\u00eancia, mas cuja emana\u00e7\u00e3o parte do Eu. Ela questiona o eu cuja impregna\u00e7\u00e3o parte do outro. A rela\u00e7\u00e3o \u00e9tica n\u00e3o \u00e9 do sujeito (de mim), nem fruto do consentimento. O outro se evidencia e, por isso, est\u00e1 no mundo, cabendo-lhe o respeito \u00e9tico, que n\u00e3o lhe \u00e9 devido por simples vaidade pessoal. A rela\u00e7\u00e3o e o respeito \u00e9tico, se assim se pode dizer, brotam da pura rela\u00e7\u00e3o com o outro, que se volta ao eu possibilitando a conviv\u00eancia.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">O outro, que \u00e9 evidenciado \u2013 e tematizado por Levinas \u2013 pelo rosto n\u00e3o pode ser dominado ou oprimido; ele resiste \u00e0 apropria\u00e7\u00e3o e desafia a opress\u00e3o, o desejo de domin\u00e1-lo e a delimit\u00e1-lo. O rosto convida \u00e0 rela\u00e7\u00e3o com ele, mais que por frui\u00e7\u00e3o e conhecimento, ou seja, eticamente.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">O \u201cn\u00e3o matar\u00e1s\u201d est\u00e1 inscrito no rosto do outro, sendo-lhe express\u00e3o original, como interdito \u2013 sobretudo ao assassinato. Essa express\u00e3o brilha no rosto do outro, em seus olhos, em sua abertura transcendental.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">N\u00e3o existe o direito, por parte de ningu\u00e9m, de findar a vida do outro por apropria\u00e7\u00e3o. N\u00e3o se tem o direito de tirar a vida do outro, negando-o. E a nega\u00e7\u00e3o do outro, segundo Levinas, somente pode ser total, ou seja, o assassinato. O assassino deseja negar o outro totalmente. \u201cMatar n\u00e3o \u00e9 dominar mas aniquilar, renunciar em absoluto \u00e0 compreens\u00e3o.\u201d (LEVINAS, <em>Totalidade e Infinito<\/em>, p.177) O matar,ent\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 apenas isolar o outro, negar-lhe\u00a0 autonomia, mas de forma radical, tirar-lhe a vida.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">O rosto exprime-se no sens\u00edvel, e rasga-o, para usar uma express\u00e3o levinasiana. Sua alteridade \u00e9 o que se nega ao mat\u00e1-lo, foge-se dessa alteridade, da\u00ed dar a ela um fim completo e fatal. O outro ultrapassa os poderes e n\u00e3o se op\u00f5e a um poss\u00edvel assassinato, ou fim, apenas por si s\u00f3 imp\u00f5e resist\u00eancia. Por isso \u201cOutrem \u00e9 o \u00fanico ser que eu posso querer matar\u201d (<em>ib<\/em>., p.177). \u201cOutrem, que pode soberanamente dizer-me n\u00e3o, oferece-se \u00e0 ponta da espada ou \u00e0 bala do rev\u00f3lver e toda firmeza inabal\u00e1vel do seu &lt;para-si&gt; com o n\u00e3o intransigente que op\u00f5e, apaga-se pelo facto de a espada ou a bala terem tocado nos ventr\u00edculos ou nas aur\u00edculas do seu cora\u00e7\u00e3o\u201d (<em>ib<\/em>., p.177).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">\u201cH\u00e1 uma rela\u00e7\u00e3o, n\u00e3o com uma resist\u00eancia muito grande, mas com alguma coisa de absolutamente <em>Outro<\/em>: a resist\u00eancia do que n\u00e3o tem resist\u00eancia \u2013 a resist\u00eancia \u00e9tica\u201d (<em>ib.<\/em>, p.178). A manifesta\u00e7\u00e3o, epifania do rosto, \u00e9 \u00e9tica. O simples fato de o Outro existir, e por isso vir ao eu, \u00e9 \u00e9tica. \u201cO infinito apresenta-se como rosto na resist\u00eancia \u00e9tica que paraliza os meus poderes e se levanta dura e absoluto do fundo dos olhos, sem defesa na sua nudez e na sua mis\u00e9ria\u201d (<em>ib<\/em>, p.177). A resist\u00eancia \u00e9tica \u00e9 existente, mas o outro a faz n\u00e3o por vontade consciente pr\u00f3pria e desejada, mas como que por direito intr\u00ednseco e natural, ao qual o eu se resigna e deve aceitar. Para Levinas, a \u00e9tica n\u00e3o \u00e9 ser bom ou moralista. Trata-se, por\u00e9m, de uma estrutura que mant\u00e9m a vida em cuja raiz se depende do outro e da alteridade<strong> <\/strong>revelada sempre pelo rosto (PELIZZOLI).<strong> <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">A \u00e9tica de Levinas se revela com grande pertin\u00eancia. Sobretudo quando a viol\u00eancia, o aborto, o assassinato insistem em se tornarem banais. O outro, sobretudo o mais inocente, se desvela diante do eu com todos os seus direitos, e deve ser respeitado e considerado. O outro exige por si postura \u00e9tica. A alteridade \u00e9tica proposta por Levinas, sobretudo em tempos de cr\u00edtica \u00e0 t\u00e9cnica e \u00e0 reifica\u00e7\u00e3o do homem, desperta para a valoriza\u00e7\u00e3o do outro, como reconhecimento, respeito e igualdade. E o outro est\u00e1 sempre evidente.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\"><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">COSTA, M\u00e1rcio Luis. <em>Levinas: <\/em>uma introdu\u00e7\u00e3o. Trad. J. Thomaz Filho. Petr\u00f3polis: Vozes, 2000.<br \/>\nLEVINAS, Emmanuel. <em>Toltalidade e infinito. <\/em>Trad. Jos\u00e9 Pinto Ribeiro. Lisboa: Edi\u00e7\u00f5es 70, 1988.<br \/>\nPELIZZOLI, Marcelo. Notas para compreender Levinas. In: SOUZA, Ricardo Timm de, et al. <em>Alteridade e \u00e9tica<\/em>: obra comemorativa dos 100 anos de nascimento de Emmanuel Levinas. Porto Alegre: Edipucrs, 2008, p. 273-291.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Wilhiam Luiz de Lima &nbsp; Emmanuel Levinas nasceu em 1906, na Rep\u00fablica Litu\u00e2nia, de fam\u00edlia judaica. Mudou-se jovem para Estrasburgo, onde estudou filosofia e teve contato com importantes personalidades filos\u00f3ficas. Seu itiner\u00e1rio acad\u00eamico passou por contato com estudos de Husserl e Heidegger. 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