{"id":350,"date":"2009-05-27T16:17:11","date_gmt":"2009-05-27T19:17:11","guid":{"rendered":"http:\/\/pensamentoextemporaneo.wordpress.com\/?p=350"},"modified":"2009-05-27T16:17:11","modified_gmt":"2009-05-27T19:17:11","slug":"a-significacao-a-partir-da-diferanca-em-derrida","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/?p=350","title":{"rendered":"A significa\u00e7\u00e3o a partir da diferan\u00e7a em Derrida"},"content":{"rendered":"<p><!--CTYPE html PUBLIC \"-\/\/W3C\/\/DTD HTML 4.01 Transitional\/\/E--><\/p>\n<p><strong>Reginaldo Coelho da Costa<\/strong><\/p>\n<p>Ainda que diferan\u00e7a [<em>diff\u00e9rance<\/em>*] n\u00e3o seja nem uma palavra nem um conceito, tentemos uma an\u00e1lise sem\u00e2ntica aproximativa que nos conduzir\u00e1 ao acesso daquilo que est\u00e1 em jogo.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Segundo Derrida,<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align:justify;\">sabe-se que o verbo <em>diferir<\/em> tem dois sentidos que parecem bem distintos: no latim (<em>differre<\/em>) e no grego (<em>diapherein<\/em>). A distribui\u00e7\u00e3o do sentido do\u00a0 <em>diapherein <\/em>grego\u00a0 n\u00e3o comporta um dos dois motivos do <em>differre <\/em>latino. Diferir nesse sentido, \u00e9 temporizar \u00e9 recorrer, consciente ou inconscientemente, \u00e0 media\u00e7\u00e3o temporal e temporalizada de um desvio que suspende\u00a0 a consuma\u00e7\u00e3o e a satisfa\u00e7\u00e3o do desejo ou da vontade, realizando-o de fato de um modo que lhe anula ou modera o efeito. O outro sentido de diferir \u00e9 o mais facilmente identific\u00e1vel: n\u00e3o ser id\u00eantico, ser outro, discern\u00edvel. (DERRIDA, <em>Margens da\u00a0 filosofia<\/em>, p.39)<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align:justify;\">A compreens\u00e3o do mundo torna-se poss\u00edvel a partir de uma rede de um feixe de elementos, de ideias que est\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o para tornar poss\u00edvel a significa\u00e7\u00e3o do mundo. O conceito tem em si, para que seja poss\u00edvel sua pr\u00f3pria constru\u00e7\u00e3o, pouco de si mesmo e muito das outras coisas.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">O conceito de significado est\u00e1 por direito, inscrito numa cadeia ou num sistema no interior do qual remete para o outro, para os outros conceitos, pelo jogo sistem\u00e1tico das diferen\u00e7as. A diferen\u00e7a n\u00e3o \u00e9 o conceito, mas a possibilidade de conceitualiza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">A diferan\u00e7a em um duplo movimento a se diferir ou diferenciar, se explica, como por exemplo, a palavra infinito que pode ser definida por aquilo que \u00e9: o ilimitado, o absoluto, o imensur\u00e1vel. O fato \u00e9 que o sentido da palavra \u00e9 sempre diferido, ou seja, necessitamos de v\u00e1rias outras palavras para definir uma palavra.\u00a0 A palavra pode ser definida por aquilo que n\u00e3o \u00e9, ou seja, por suas diferen\u00e7as: finito, limitado, absoluto.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Diferan\u00e7a admite um antes e um depois, isto \u00e9, uma diferen\u00e7a constituinte, mas adia indefinidamente o momento em que essa separa\u00e7\u00e3o ocorre. N\u00e3o importa o qu\u00e3o longe formos para tr\u00e1s na busca da significa\u00e7\u00e3o; jamais chegaremos \u00e0 diferen\u00e7a origin\u00e1ria que poderia agir como base para a cadeia de significa\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Pode-se designar por diferan\u00e7a o movimento pelo qual a l\u00edngua, qualquer c\u00f3digo, qualquer esquemas de reenvios em geral se constitui historicamente como tecido de diferen\u00e7as. O movimento da diferen\u00e7a simultaneamente se estabelece numa \u00fanica e mesma possibilidade, a temporaliza\u00e7\u00e3o, a rela\u00e7\u00e3o com o outro e a linguagem, n\u00e3o pode,enquanto condi\u00e7\u00e3o de todo sistema ling\u00fc\u00edstico, fazer parte do pr\u00f3prio sistema ling\u00fc\u00edstico, ser situada como um objeto no seu campo.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Pode-se dizer que cada conceito e signo que usamos, n\u00e3o possuem significados por si s\u00f3, mas somente atrav\u00e9s de um sistema de rela\u00e7\u00f5es de diferen\u00e7as, que d\u00e3o alguma signific\u00e2ncia aos termos. Desta forma, cada elemento textual, cada signo ling\u00fc\u00edstico, n\u00e3o \u00e9 interpretado por si mesmo, mas atrav\u00e9s de toda cadeia de significantes e signos que comp\u00f5em um sistema de linguagem. Ent\u00e3o dessa forma, um texto n\u00e3o possui uma interpreta\u00e7\u00e3o totalmente correta, mas permite\u00a0 uma livre interpreta\u00e7\u00e3o do mesmo, pelo que Derrida prop\u00f5e a desconstru\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Segundo Derrida, todo texto escrito n\u00e3o possui uma interpreta\u00e7\u00e3o definitiva, pr\u00f3pria ou correta. Tamb\u00e9m n\u00f3s como leitor jamais alcan\u00e7amos a inten\u00e7\u00e3o de um autor atrav\u00e9s de seu texto. Para Derrida a raz\u00e3o para isso, \u00e9 que o texto seria naturalmente um sistema de signos que n\u00e3o se sustentam em nenhum significado definitivo.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Para Derrida desconstru\u00e7\u00e3o n\u00e3o significa destrui\u00e7\u00e3o da escrita, mas sim para descobrir partes do texto que est\u00e3o dissimuladas, ou seja, a constru\u00e7\u00e3o de nossa pr\u00f3pria interpreta\u00e7\u00e3o caracteriza o que seria a desconstru\u00e7\u00e3o.<strong> <\/strong><\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align:justify;\">A diferan\u00e7a \u00e9 o que faz com que o movimento da significa\u00e7\u00e3o n\u00e3o seja poss\u00edvel a n\u00e3o ser que cada elemento dito \u201cpresente\u201d, que aparece sobre a cena da presen\u00e7a, se relacione com outra coisa que n\u00e3o ele mesmo, guardando em si a marca do elemento passado e deixando-se j\u00e1 moldar pela marca da sua rela\u00e7\u00e3o com o elemento futuro, relacionando-se o rastro menos com aquilo a que se chama presente do que aquilo a que se chama passado, e constituindo aquilo a que chamamos presente por interm\u00e9dio dessa rela\u00e7\u00e3o mesma com o que n\u00e3o \u00e9 ele pr\u00f3prio. (DERRIDA, <em>Margens da\u00a0 filosofia<\/em>, p.45)<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align:justify;\">A diferan\u00e7a ser\u00e1 n\u00e3o apenas o jogo das diferen\u00e7as na l\u00edngua, mas tamb\u00e9m a rela\u00e7\u00e3o da fala com a l\u00edngua, o desvio pelo o qual devo igualmente passar para falar, a causa silenciosa que devo pagar.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Sem d\u00favida, o sujeito s\u00f3 se torna falante entrando em com\u00e9rcio com o sistema das diferen\u00e7as ling\u00fc\u00edsticas; ou ainda, o sujeito apenas se torna significante (em geral, pela fala ou por outros signos) inscrevendo-se no sistema das diferen\u00e7as. O sujeito falante ou significante sem d\u00favida, n\u00e3o seria presente a si, enquanto falante ou significante, sem o jogo da diferan\u00e7a ling\u00fc\u00edstica. Mas n\u00e3o se pode conceber uma presen\u00e7a e uma presen\u00e7a a si do sujeito antes da sua fala ou do seu signo, uma presen\u00e7a a si do sujeito numa consci\u00eancia silenciosa e intuitiva.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Concluindo-se, pode-se dizer que o signo s\u00f3 significa na medida em que se op\u00f5e a outro signo. Por isso se pode dizer que \u00e9 essa condi\u00e7\u00e3o da linguagem que constantemente diferencia e adia os seus componentes que concede signific\u00e2ncia ao signo. N\u00e3o h\u00e1 qualquer possibilidade de determina\u00e7\u00e3o do sentido de um texto, porque todo o texto est\u00e1 sujeito ao jogo da diferan\u00e7a<em>.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Assim o que se percebe com Derrida \u00e9 que a palavra contem a possibilidade de se ter um sentido que n\u00e3o \u00e9 apreendido pela linguagem. H\u00e1 uma estrutura metaf\u00edsica por tr\u00e1s de toda realidade. Com isso a vis\u00e3o de sentido n\u00e3o pode ser apreendida numa totalidade de ser. As coisas, segundo Derrida, s\u00e3o enquanto diferenciam e n\u00e3o enquanto s\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">\n<p style=\"text-align:justify;\"><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">DERRIDA, Jacques. <em>A escritura e a diferen\u00e7a.<\/em> Trad. Maria Beatriz Nizza da Silva. S\u00e3o Paulo: Perspectiva 1975.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">_____. <em>Margens da filosofia<\/em>. Trad. Joaquim Torres Costa e Antonio Magalh\u00e3es. Campins: Papirus, 1972.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">\n<p style=\"text-align:justify;\">_____________________________________<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">[*] <em>diff\u00e9rance<\/em>: termo cunhado por Derrida a partir da palavra francesa <em>diff\u00e9rence<\/em> (diferen\u00e7a), mantendo a semelhan\u00e7a f\u00f4nica apesar da diferen\u00e7a gr\u00e1fica; d<em>iff\u00e9rance<\/em> \u00e9 traduzida aqui por <em>diferan\u00e7a<\/em>, seguindo a forma proposta pelo tradutor de <em>Margens da Filosofia<\/em>; outras tradu\u00e7\u00f5es j\u00e1 propostas foram <em>difer\u00eancia<\/em> e <em>diferensa<\/em>. [N.Ed.]<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Reginaldo Coelho da Costa Ainda que diferan\u00e7a [diff\u00e9rance*] n\u00e3o seja nem uma palavra nem um conceito, tentemos uma an\u00e1lise sem\u00e2ntica aproximativa que nos conduzir\u00e1 ao acesso daquilo que est\u00e1 em jogo. Segundo Derrida, sabe-se que o verbo diferir tem dois sentidos que parecem bem distintos: no latim (differre) e no grego (diapherein). 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