{"id":402,"date":"2009-06-20T11:00:41","date_gmt":"2009-06-20T14:00:41","guid":{"rendered":"http:\/\/pensamentoextemporaneo.wordpress.com\/?p=402"},"modified":"2009-06-20T11:00:41","modified_gmt":"2009-06-20T14:00:41","slug":"a-linguagem-em-rousseau-sua-origem-e-sua-finalidade-como-expressao-da-liberdade-humana","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/?p=402","title":{"rendered":"A linguagem em Rousseau: sua origem e sua finalidade como express\u00e3o da liberdade humana"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align:justify;\"><strong>Bruno Viana Campos<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">A capacidade racional do homem \u00e9 o principal elemento que o diferencia dos demais animais. A linguagem, que \u00e9 uma das dimens\u00f5es da racionalidade, desenvolveu-se e se aprimorou ao longo do processo evolutivo humano. Por isso, in\u00fameros estudos foram feitos sobre ela, tendo como enforque sua origem, seu desenvolvimento e sua rela\u00e7\u00e3o com a sociedade. Alguns autores se destacaram nessas reflex\u00f5es, como, por exemplo, o fil\u00f3sofo Jean-Jacques Rousseau (1712-1778) em seu livro <em>Ensaio sobre a origem das l\u00ednguas<\/em> (1759).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Rousseau relata, na referida obra, que \u00e9 a linguagem que diferencia os homens dos animais [1]. Ela, al\u00e9m de ser express\u00e3o do pensamento humano, pode dividir-se basicamente em duas formas: atrav\u00e9s dos gestos (artes pict\u00f3ricas, s\u00edmbolos, gesticula\u00e7\u00f5es etc.) ou da articula\u00e7\u00e3o de diferentes sons (a voz). Ambos \u2013 os gestos e os sons \u2013 podem ser detectados tamb\u00e9m nos animais, mas estes seguem uma determina\u00e7\u00e3o natural, pois a linguagem dentro de uma esp\u00e9cie, aparentemente, n\u00e3o muda.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Os homens, por outro lado, desenvolveram o que Rousseau chama de linguagem de conven\u00e7\u00e3o [2] (gestos e palavras), que, embora sirva muitas vezes de empecilho para a sua comunica\u00e7\u00e3o, possibilita que haja progresso na l\u00edngua, j\u00e1 que a mesma n\u00e3o est\u00e1 delimitada pela predetermina\u00e7\u00e3o natural, mas \u00e9 desenvolvida e aprimorada ao longo dos tempos. Por conseguinte, Rousseau passou a especular sobre o motivo pelo qual o homem desenvolveu a sua linguagem de conven\u00e7\u00e3o, j\u00e1 que ela \u00e9 unicamente dele.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Com efeito, tanto os animais quanto os homens possuem praticamente as mesmas necessidades f\u00edsicas. Por isso, estas n\u00e3o poderiam ser a causa determinante da linguagem de conven\u00e7\u00e3o. Rousseau, contudo, apresenta uma faculdade que \u00e9, de certa forma, pr\u00f3pria do homem: os sentimentos [3]. Estes possibilitaram o desenvolvimento daquela linguagem, pois as primeiras l\u00ednguas certamente tinham o intuito de falarem de sentimentos, como os usados no ato de expulsar um intruso, de repelir uma injusta acusa\u00e7\u00e3o, ou seja, de expressar os anseios de qualquer conv\u00edvio social. As necessidades f\u00edsicas repeliam os homens (fome, frio, sede, etc.), mas os sentimentos os reuniam, pois era necess\u00e1rio um conv\u00edvio social para superar as dificuldades da natureza [4].<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Al\u00e9m disso, Rousseau observava uma diferen\u00e7a entre as l\u00ednguas do hemisf\u00e9rio norte e as do sul: estas eram pronunciadas por homens que n\u00e3o enfrentavam comumente as dificuldades da natureza e, por causa disso, elas teriam uma sonoridade macia, melodiosa, calma e amig\u00e1vel; j\u00e1 os homens que habitavam o hemisf\u00e9rio norte, enfrentavam pesadas intemp\u00e9ries naturais (frio, gelo, rigorosos invernos) e, por isso, tinham uma linguagem mais \u00e1spera e maior necessidade de conv\u00edvio social. Consequentemente, as l\u00ednguas do norte tenderiam a se desenvolverem mais eficazmente para serem mais exatas e atenderem as exig\u00eancias da comunica\u00e7\u00e3o que aumentavam de acordo com a expans\u00e3o do conv\u00edvio social [5].<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Do mesmo modo, Rousseau acreditava que, no princ\u00edpio da humanidade, foi necess\u00e1rio que o homem reconhecesse o seu semelhante para ter sentimentos de empatia e criar v\u00ednculos afetivos que fossem al\u00e9m dos familiares [6]. Por isso, quando os homens tiveram consci\u00eancia dos seus semelhantes, puderam raciocinar sobre o conv\u00edvio social (o outro com os mesmos sentimentos que eu) e se associarem para superarem as adversidades da natureza [7]. Foi desse modo, enfim, que a l\u00edngua falada se desenvolveu at\u00e9 ser inventada a l\u00edngua escrita, criada para facilitar a comunica\u00e7\u00e3o, tornando-a mais objetiva e clara (aperfei\u00e7oamento da gram\u00e1tica e da l\u00f3gica, pois se fala de sentimentos, mas se escrevem id\u00e9ias). Observa-se ainda que tanto a escrita quanto a fala est\u00e3o em constante mudan\u00e7a, j\u00e1 que ambas t\u00eam o escopo de atender \u00e0 comunica\u00e7\u00e3o, que \u00e9 din\u00e2mica [8].<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Tendo em vista toda a trajet\u00f3ria feita pela linguagem, Rousseau conclui que o progresso dessa se deu sobretudo de acordo com as necessidades ligadas aos sentimentos do homem [9], al\u00e9m da mesma nascer com a liberdade dos homens em se expressarem, visto que os mesmos eram livres para se comunicarem. N\u00e3o obstante, Rousseau, no \u00faltimo cap\u00edtulo da referida obra, decidiu analisar qual a rela\u00e7\u00e3o entre a linguagem, sociedade e governo.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">De fato, segundo Rousseau, num estado tir\u00e2nico, n\u00e3o h\u00e1 espa\u00e7o para a liberdade. A linguagem que se originou na forma de um instrumento para a livre comunica\u00e7\u00e3o, foi substitu\u00edda pela for\u00e7a repressiva e pela corrup\u00e7\u00e3o. O homem se tornou alienado e sua l\u00edngua passa a ser apenas \u201csussurro dos sof\u00e1s\u201d [10] e estranha para si e para os seus pr\u00f3prios concidad\u00e3os.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Nos estados desp\u00f3ticos, a \u00fanica linguagem que prevalece \u00e9 a repressiva e alienante, uma vez que o discurso que pode ser dito \u00e9 o serm\u00e3o, ou melhor, os discursos autorit\u00e1rios. Desse modo, um orador pode proclamar a sua fala durante horas, mas a maioria das pessoas ali presentes n\u00e3o sabe a respeito do que foi dito, pois as suas palavras eram vazias de conte\u00fado, n\u00e3o expressavam o verdadeiro sentimento que havia no povo reprimido: a \u00e2nsia por liberdade. Por isso, quando as l\u00ednguas s\u00e3o ditas de forma livre, multid\u00f5es ouvem atentamente os oradores. Por\u00e9m, em um contexto de repress\u00e3o, as palavras dos d\u00e9spotas se tornam infrut\u00edferas e inaud\u00edveis pelo povo [11].<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Portanto, Rousseau encontra uma rela\u00e7\u00e3o entre costumes e atitudes de um povo com a sua respectiva l\u00edngua, rela\u00e7\u00e3o essa que se origina na condi\u00e7\u00e3o livre do homem. A linguagem expressa, enfim, a liberdade: se o homem for reprimido de forma autorit\u00e1ria, a sua linguagem ser\u00e1 vazia, mon\u00f3tona, pr\u00f3pria de algu\u00e9m que tem medo de exprimir a sua opini\u00e3o; por outro lado, se o homem tiver condi\u00e7\u00f5es de se expressar sem receios, ele certamente ter\u00e1 uma linguagem aberta e eloq\u00fcente, pr\u00f3pria do ser humano livre e respons\u00e1vel pelo seu pensar e seu agir [12].<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\"><strong>Refer\u00eancias <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">REALE, Giovanni; ANTISERI, Dario. <em>Hist\u00f3ria da Filosofia<\/em>: vol. II, de Spinoza a Kant. S\u00e3o Paulo: Paulus, 2005.<br \/>\nROUSSEAU, Jean-Jacques. <em>Ensaio sobre o entendimento das l\u00ednguas<\/em>. 2.ed. S\u00e3o Paulo: Abril Cultural, 1978. (Os Pensadores).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">_______________________<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">1 Cf. ROUSSEAU, 1978, p. 159.<br \/>\n2 Cf. ROUSSEAU, 1978, p. 163.<br \/>\n3 Cf. ROUSSEAU, 1978, p. 163.<br \/>\n4 Cf. ROUSSEAU, 1978, p. 180.<br \/>\n5 Cf. ROUSSEAU, 1978, p. 184-185.<br \/>\n6 No in\u00edcio da humanidade, a organiza\u00e7\u00e3o social se limitava ao c\u00edrculo familiar. N\u00e3o havia a id\u00e9ia de na\u00e7\u00e3o ou tribo formada por diferentes fam\u00edlias.Cf. ROUSSEAU,1978, p. 183.<br \/>\n7 Cf. ROUSSEAU, 1978, p. 181.<br \/>\n8 Houve uma passagem do homem ca\u00e7ador para pastor e deste para agricultor (deixou de ser n\u00f4made). Ao mesmo tempo, o homem desenvolveu sua capacidade de comunica\u00e7\u00e3o, passando de uma linguagem simplesmente sonora para uma mais complexa, perpassando pela cria\u00e7\u00e3o de uma linguagem escrita e l\u00f3gica. Da rela\u00e7\u00e3o entre diferentes povos, as l\u00ednguas primitivas se fundiram com o objetivo de se aprimorarem e se tornarem mais claras e abrangentes dentro de um c\u00edrculo social. Cf. ROUSSEAU, 1978, p. 170-171.<br \/>\n9 Cf. ROUSSEAU, 1978, p. 198.<br \/>\n10 Cf. ROUSSEAU, 1978, p. 199.<br \/>\n11 Cf. ROUSSEAU, 1978, p. 199.<br \/>\n12 Tal reflex\u00e3o de Rousseau deixa transparecer os ideais de liberdade \u2013 sobretudo social \u2013 que se difundiam largamente na \u00e9poca da Ilustra\u00e7\u00e3o e posteriormente.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Bruno Viana Campos &nbsp; A capacidade racional do homem \u00e9 o principal elemento que o diferencia dos demais animais. A linguagem, que \u00e9 uma das dimens\u00f5es da racionalidade, desenvolveu-se e se aprimorou ao longo do processo evolutivo humano. 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