{"id":412,"date":"2009-06-27T12:00:33","date_gmt":"2009-06-27T15:00:33","guid":{"rendered":"http:\/\/pensamentoextemporaneo.wordpress.com\/?p=412"},"modified":"2009-06-27T12:00:33","modified_gmt":"2009-06-27T15:00:33","slug":"racionalidade-comunicativa-na-filosofia-de-jurgen-habermas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/?p=412","title":{"rendered":"Racionalidade comunicativa na filosofia de J\u00fcrgen Habermas"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align:justify;\"><strong>Alex Martins de Freitas<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">J\u00fcrgen Habermas* \u00e9 visto como herdeiro do pensamento cr\u00edtico da Escola de Frankfurt. \u00c9 um dos pensadores contempor\u00e2neos que, diante da cl\u00e1ssica concep\u00e7\u00e3o de raz\u00e3o que moldou o pensamento Ocidental e da problem\u00e1tica instaurada pela filosofia moderna, aponta uma nova proposta para o filosofar.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Para ele, a compreens\u00e3o de Filosofia n\u00e3o pode se basear \u00fanica e exclusivamente numa concep\u00e7\u00e3o de raz\u00e3o que considera como conhecimento somente aquele provindo da rela\u00e7\u00e3o sujeito-objeto ou de uma raz\u00e3o fechada em si mesma. Pelo contr\u00e1rio, o saber filos\u00f3fico deve ampliar seu conceito de racionalidade e considerar, sobretudo, a rela\u00e7\u00e3o entre sujeitos como forma primordial de conhecimento: \u201c[&#8230;] o paradigma do conhecimento de objetos tem de ser substitu\u00eddo pelo paradigma da compreens\u00e3o m\u00fatua entre sujeitos capazes de falar e agir\u2019\u2019 (HABERMAS, <em>O discurso filos\u00f3fico da modernidade<\/em>, p.276).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Desta feita, a reflex\u00e3o filos\u00f3fica, de acordo com Habermas, n\u00e3o pode rejeitar as diferentes manifesta\u00e7\u00f5es da raz\u00e3o, fazendo com que uma forma de pensar a racionalidade se sobreponha \u00e0s outras. Este fil\u00f3sofo rompe assim com o conceito de uma filosofia entendida como um saber superior e universal, que deva reger a cultura (COUTO, <em>\u00c9tica do discurso segundo J\u00fcrgen Habermas<\/em>, p.285). Sua proposta \u00e9 de uma Filosofia discursiva, que tenha a veracidade do seu conhecimento pautada na comunicabilidade dos sujeitos tendo a linguagem como mediadora. Para tal proposta, Habermas apresenta uma nova atitude frente \u00e0 racionalidade.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">A proposta de um novo modo de pensar a racionalidade surge frente ao paradigma da modernidade, aquele de uma raz\u00e3o subjetivista, centrada \u00fanica e exclusivamente no sujeito. Esta concep\u00e7\u00e3o de racionalidade d\u00e1 ao sujeito da raz\u00e3o um poder identificador, que subjuga tudo em volta de si. A raz\u00e3o moderna est\u00e1 empenhada na auto-afirma\u00e7\u00e3o e na auto-forma\u00e7\u00e3o subjetiva. N\u00e3o h\u00e1 abertura para a comunica\u00e7\u00e3o com outros sujeitos e com o pr\u00f3prio mundo da vida. O que reina na modernidade \u00e9 o purismo da raz\u00e3o. Para Habermas, tal modelo de raz\u00e3o tender\u00e1 a uma auto-destru\u00ed\u00e7\u00e3o, pois \u00e9 contr\u00e1ria \u00e0 pr\u00f3pria origem da raz\u00e3o:<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;padding-left:90px;\"><em>S\u00f3 a raz\u00e3o reduzida \u00e0 capacidade subjetiva de entendimento e de actividade teleol\u00f3gica corresponde \u00e0 imagem de uma raz\u00e3o exclusiva que, quanto mais aspira triunfalmente \u00e0s alturas se desenraiza at\u00e9 finalmente cair, v\u00edtima da for\u00e7a da sua oculta origem heterog\u00eanea.<\/em> (HABERMAS, <em>O discurso filos\u00f3fico da modernidade<\/em>, p.284)<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Nesse sentido, o fil\u00f3sofo alem\u00e3o quer, em sua filosofia, desconstruir o paradigma de uma subjetividade auto-reflexiva e propor em seu lugar uma raz\u00e3o comunicativa, uma racionalidade que esteja aberta \u00e0s rela\u00e7\u00f5es intersubjetivas, visando o consenso entre os sujeitos a partir do mundo da vida. No entanto, Habermas afirma que um paradigma s\u00f3 perde a sua for\u00e7a quando negado por outro paradigma de forma definida. Assim se expressa:<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;padding-left:90px;\"><em>O trabalho de desconstru\u00e7\u00e3o, por mais entusiasta que seja, s\u00f3 pode ter consequ\u00eancias defin\u00edveis quando o paradigma da consci\u00eancia de si, da auto-referencia de um sujeito que conhece e age isoladamente \u00e9 substitu\u00eddo por outro, pelo paradigma da intercompreens\u00e3o, isto \u00e9, da rela\u00e7\u00e3o intersubjetiva dos indiv\u00edduos, que socializados atrav\u00e9s da comunica\u00e7\u00e3o, se reconhecem mutuamente.<\/em> (<em>ib<\/em>., p.288)<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Sendo assim, Habermas apresenta o paradigma da racionalidade comunicativa. Em sua perspectiva te\u00f3rica, n\u00e3o h\u00e1 espa\u00e7o aqui para um purismo da raz\u00e3o, em que esta se auto-legitima no processo do conhecimento.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">N\u00e3o se trata de um conhecimento fechado no sujeito, mas de um saber que \u00e9 comunicacional. Ele se d\u00e1 dentro de uma comunidade de sujeitos que se interagem\u00a0 no mundo da vida, buscando um reconhecimento intersubjetivo de exig\u00eancias de validade. O consenso estabelecido aqui favorece a forma\u00e7\u00e3o de uma rede de intera\u00e7\u00f5es sociais que elaboram poss\u00edveis solu\u00e7\u00f5es para diversas quest\u00f5es pertinentes no mundo da vida.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Na obra <em>Verdade e Justifica\u00e7\u00e3o<\/em>, Habermas diz o seguinte:<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;padding-left:90px;\"><em>Essa racionalidade comunicativa exprime-se na for\u00e7a unificadora da fala orientada ao entendimento m\u00fatuo, discurso que assegura aos falantes envolvidos um mundo da vida intersubjetivamente partilhado e, ao mesmo tempo, o horizonte no interior do qual todos podem se referir a um \u00fanico e mesmo mundo objetivo. <\/em>(HABERMAS, <em>Verdade e Justifica\u00e7\u00e3o<\/em>, p.107)<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">\u00c9 importante dizer ainda que, sendo a linguagem algo espec\u00edfico do homem, se fazendo presente em toda comunica\u00e7\u00e3o humana, \u00e9 ela que possibilita o entendimento m\u00fatuo e a validade do discurso. A linguagem mediatiza toda rela\u00e7\u00e3o significativa entre os sujeitos e o mundo da vida. Neste campo tem-se a teoria dos atos de fala.<strong> <\/strong>\u00c9 atrav\u00e9s da an\u00e1lise desta que se buscar\u00e1 o sentido e a validade da comunica\u00e7\u00e3o estabelecida entre uma comunidade de sujeitos.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Em rela\u00e7\u00e3o aos atos de fala, \u00e9 necess\u00e1rio destacar que eles possuem uma estrutura fundamental no processo comunicativo:<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;padding-left:90px;\"><em>Os atos elementares de fala apresentam uma estrutura na qual se combinam tr\u00eas elementos: a componente proposicional para a representa\u00e7\u00e3o (ou men\u00e7\u00e3o) de estados de coisas, a componente elocut\u00f3ria para a admiss\u00e3o de rela\u00e7\u00f5es interpessoais e, finalmente, as componentes ling\u00fc\u00edsticas que experimentam a inten\u00e7\u00e3o de quem fala.<\/em> (HABERMAS, <em>O discurso filos\u00f3fico da modernidade<\/em>, p.289)<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Com o ato de fala, o falante busca se entender a respeito de algo com um ouvinte. A meta do falante \u00e9 que o destinat\u00e1rio aceite como v\u00e1lido o que foi dito. Por\u00e9m, o que torna aceit\u00e1vel a express\u00e3o de um ato de fala s\u00e3o as raz\u00f5es que o falante, no contexto dado, poderia apresentar para a validade do dito (HABERMAS, <em>Verdade e Justifica\u00e7\u00e3o<\/em>, p.109). Nesse sentido, a racionalidade comunicativa deve levar em considera\u00e7\u00e3o as condi\u00e7\u00f5es que tornam v\u00e1lido um ato de fala, a pretens\u00e3o de validade levantada pelo falante e a garantia de seu cumprimento.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">A partir do que foi apresentado do conceito de racionalidade de Habermas, pode-se pensar em poss\u00edveis aplica\u00e7\u00f5es desta na sociedade atual. Sua teoria da racionalidade comunicativa tem profundas implica\u00e7\u00f5es no campo do agir \u00e9tico, pois \u201c[&#8230;] a raz\u00e3o comunicacional, apesar de seu car\u00e1ter puramente processual, aliviado de todas as hipotecas religiosas ou metaf\u00edsicas, est\u00e1 diretamente implicada no processo de vida social [&#8230;]\u201d (<em>ib<\/em>., p.292).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">A racionalidade comunicativa proporciona ao homem uma oportunidade de repensar sua a\u00e7\u00e3o na sociedade mundial. O projeto de emancipa\u00e7\u00e3o humana via raz\u00e3o instrumental implicou numa manipula\u00e7\u00e3o dos recursos naturais e numa reifica\u00e7\u00e3o do pr\u00f3prio ser humano. S\u00e9rias foram as consequ\u00eancias disso para a contemporaneidade, como por exemplo, a quest\u00e3o do aquecimento global e da clonagem humana.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Os problemas levantados pelo paradigma da modernidade devem ser discutidos a partir de uma \u00e9tica de co-responsabilidade, uma vez que tais problemas n\u00e3o s\u00e3o frutos de um grupo particular, mas de uma mentalidade global, ou seja, de uma cultura da raz\u00e3o instrumental que impregnou o homem ocidental.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">No entanto, para que haja uma \u00e9tica de responsabilidade mundial n\u00e3o se pode ter como fundamento uma concep\u00e7\u00e3o de raz\u00e3o que reduza o pr\u00f3prio homem a um objeto manipul\u00e1vel, pelo contr\u00e1rio, ela deve, acima de tudo, ressaltar a irredutibilidade do ser humano. Deve levar em considera\u00e7\u00e3o sua dimens\u00e3o relacional, e portanto, sua necessidade de estar em rela\u00e7\u00e3o com outros seres e de se comunicar.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Tendo em vista essas considera\u00e7\u00f5es, v\u00ea-se que Habermas oferece uma grande contribui\u00e7\u00e3o para a sociedade contempor\u00e2nea, apresentando uma racionalidade que possibilita a elabora\u00e7\u00e3o de uma \u00e9tica fundamentada numa raz\u00e3o aberta ao di\u00e1logo, que se comunica de forma performativa e consensual. Na pr\u00e1xis comunicativa, n\u00e3o \u00e9 o sujeito isolado que lan\u00e7ar\u00e1 luzes aos problemas atuais, mas, um <em>n\u00f3s<\/em> n\u00e3o-excludente<em> <\/em>(comunidade de sujeitos) que elaborar\u00e1 poss\u00edveis respostas \u00e0s quest\u00f5es pertinentes no mundo atual.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\"><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">COUTO, Adilson Luiz Umbelino. <em>\u00c9tica do discurso segundo J\u00fcrgen Habermas<\/em>. Mariana: Instituto de Filosofia S\u00e3o Jos\u00e9, 2002. (Trabalho de conclus\u00e3o de curso de Filosofia).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">HABERMAS, J\u00fcrgen. <em>O discurso filos\u00f3fico da modernidade.<\/em> Trad. Ana Maria Bernardo et al. Lisboa: Dom Quixote, 1990.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">HABERMAS, J\u00fcrgen. <em>Verdade e Justifica\u00e7\u00e3o<\/em>: ensaios filos\u00f3ficos. Trad. Milton Camargo Mota. S\u00e3o Paulo: Loyola, 2004.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">__________________________________<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">[*]Jurgen Habermas nasceu em 18 de Junho de 1929, em Dusseldorf. Estudou Filosofia, Hist\u00f3ria, Psicologia, Economia e Literatura alem\u00e3 nas universidades de Gottingen, Zurique e Bonn. Doutorou-se nesta \u00faltima cidade, em 1954, com uma tese sobre \u201cO Absoluto na Hist\u00f3ria \u2013 um Estudo sobre a Filosofia das Idades do Mundo, de Schelling\u201d. Em 1961, conquistou a livre-doc\u00eancia pela Universidade de Marburgo, com uma tese sobre \u201cMudan\u00e7as estruturais do espa\u00e7o p\u00fablico\u201d. Entre 1961 e 1964 foi professor de Sociologia e Filosofia da Universidade de Frankfurt. Em 1971 exerceu as fun\u00e7\u00f5es de Professor Visitante da Universidade de Princeton.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Alex Martins de Freitas &nbsp; J\u00fcrgen Habermas* \u00e9 visto como herdeiro do pensamento cr\u00edtico da Escola de Frankfurt. \u00c9 um dos pensadores contempor\u00e2neos que, diante da cl\u00e1ssica concep\u00e7\u00e3o de raz\u00e3o que moldou o pensamento Ocidental e da problem\u00e1tica instaurada pela filosofia moderna, aponta uma nova proposta para o filosofar. 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