{"id":436,"date":"2009-07-04T10:00:26","date_gmt":"2009-07-04T13:00:26","guid":{"rendered":"http:\/\/pensamentoextemporaneo.wordpress.com\/2009\/07\/25\/a-busca-da-verdade-em-malebranche\/"},"modified":"2009-07-04T10:00:26","modified_gmt":"2009-07-04T13:00:26","slug":"a-busca-da-verdade-em-malebranche","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/?p=436","title":{"rendered":"A busca da verdade em Malebranche"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align:justify;\"><strong>Rodrigo Marcos Ferreira<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Nicolas Malebranche (1638-1715), inspirado por convic\u00e7\u00f5es religiosas e pelo platonismo agostiniano, buscou fundamentar e harmonizar as doutrinas de Descartes, constituindo um sistema filos\u00f3fico racionalista de fei\u00e7\u00e3o m\u00edstica.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Malebranche critica os fil\u00f3sofos que estudam as rela\u00e7\u00f5es da alma com o corpo sem considerar sua uni\u00e3o com Deus. Segundo ele, o enfraquecimento das rela\u00e7\u00f5es da alma com o Divino foi consequ\u00eancia do pecado original, que fortaleceu a rela\u00e7\u00e3o alma-corpo, afirmando que o erro \u00e9 a causa da mis\u00e9ria dos homens.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Assim, afirma ser necess\u00e1rio denunciar os erros e suas causas atrav\u00e9s de uma an\u00e1lise das percep\u00e7\u00f5es da alma, que se realizariam por tr\u00eas modos distintos, a saber: os sentidos, a imagina\u00e7\u00e3o e o entendimento.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Malebranche examina e propaga o exame dos erros devidos a cada uma dessas formas de percep\u00e7\u00f5es. Portanto, mediante esse crit\u00e9rio de exame seria poss\u00edvel encontrar meios para a descoberta da verdade. No caso dos movimentos que se efetuam entre o corpo e a alma, al\u00e9m dos movimentos internos da alma, teriam em Deus sua causa eficiente.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Essas rela\u00e7\u00f5es, sendo estabelecidas pela raz\u00e3o divina mediante uma ordem eterna e invari\u00e1vel, poderiam ser compreendidas pelo entendimento da mesma forma como se compreendem as leis da ci\u00eancia. Os seres particulares n\u00e3o seriam propriamente causas eficientes de nada que ocorre, mas apenas <em>ocasi\u00f5es<\/em> para o exerc\u00edcio da causa \u00fanica, Deus, pois causar \u00e9 criar, e s\u00f3 Deus pode criar.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Na obra <em>A busca da verdade<\/em> (Livro III), Malebranche considera que somente o pensamento \u00e9 essencial ao esp\u00edrito. O homem n\u00e3o pode conhecer todas as modifica\u00e7\u00f5es (sensa\u00e7\u00f5es) de que a alma \u00e9 capaz. Os sentidos e as imagina\u00e7\u00f5es s\u00e3o fontes fecundas e inesgot\u00e1veis de extravios e ilus\u00f5es, mas quanto ao esp\u00edrito agindo com suas pr\u00f3prias determina\u00e7\u00f5es, n\u00e3o est\u00e1 sujeito ao erro. Percebe-se ent\u00e3o que este esp\u00edrito \u201cpensante\u201d pode ser considerado como racional.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">O que os sentidos e a imagina\u00e7\u00e3o trazem como erros v\u00eam da natureza constitu\u00edda do corpo. J\u00e1 os erros do entendimento puro somente podem ser descobertos em considera\u00e7\u00e3o \u00e0 natureza do pr\u00f3prio esp\u00edrito e as id\u00e9ias no processo de conhecimento dos objetos.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Dando resposta ao que pode ser o conhecimento e alcance da verdade, Malebranche inspira-se em Santo Agostinho: \u201ca alma, que est\u00e1 separada em todas as outras coisas, tem uni\u00e3o direta e imediata com Deus e, portanto, conhece todas as coisas atrav\u00e9s da vis\u00e3o em Deus\u201d (REALE; ANTISERI, <em>Hist\u00f3ria da <\/em>Filosofia, p.394).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">O homem s\u00f3 conhece as id\u00e9ias porque s\u00e3o vis\u00edveis \u00e0 sua mente, ao passo que os objetos que essas id\u00e9ias representam permanecem invis\u00edveis ao esp\u00edrito. Tudo o que o homem v\u00ea \u00e9 s\u00f3 id\u00e9ia. Segundo Malebranche, em sentido preciso, id\u00e9ia \u00e9 um objeto imediato da percep\u00e7\u00e3o; assim, a id\u00e9ia n\u00e3o est\u00e1 na alma, mas bem pr\u00f3xima dela. As id\u00e9ias particulares participam da id\u00e9ia de infinito, mas isso n\u00e3o significa que o homem conhece a ess\u00eancia do infinito.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">A experi\u00eancia do que se passa em nossa mente \u00e9 extremamente limitada em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 sua infinita capacidade de modifica\u00e7\u00f5es. Seguidor de Descartes, Malebranche reafirma: \u201cn\u00e3o se tem id\u00e9ia clara e distinta da alma\u201d. Ela tem o poder de perceber nas coisas duas esp\u00e9cies: algo nela pr\u00f3pria e algo fora dela. As que est\u00e3o contidas na alma s\u00e3o: os pr\u00f3prios pensamentos, todas as diferentes modifica\u00e7\u00f5es, imagina\u00e7\u00f5es, suas puras intelec\u00e7\u00f5es e suas inclina\u00e7\u00f5es naturais.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Em rela\u00e7\u00e3o a Deus, o homem busca conhecer as verdades eternas e extens\u00e3o intelig\u00edvel. Da alma n\u00e3o se tem conhecimento de sua id\u00e9ia em Deus, mas somente de um sentimento interior. E pontua Malebranche: \u201cse pensamos Deus, ent\u00e3o ele deve existir\u201d. Deus est\u00e1 muito intimamente ligado \u00e0s almas dos homens por sua presen\u00e7a, Ele \u00e9 o lugar dos esp\u00edritos, assim como os espa\u00e7os s\u00e3o os lugares dos corpos.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Deus jamais faz por vias muito dif\u00edceis o que pode ser feito por vias simples e f\u00e1ceis, pois n\u00e3o faz nada inutilmente e sem raz\u00e3o. O que d\u00e1 \u00eanfase \u00e0 sua sabedoria e capacidade n\u00e3o \u00e9 fazer pequenas coisas por grandes meios, isso seria contra a raz\u00e3o. Mas, \u00e9 fazer grandes coisas por meios muito simples. Sendo assim, somente com a extens\u00e3o Ele produz tudo o que vemos. No entendimento malebranchiano, Deus v\u00ea, portanto, dentro de si mesmo todos os seres. Ele conhece perfeitamente e v\u00ea em si mesmo n\u00e3o somente a ess\u00eancia das coisas, mas tamb\u00e9m a exist\u00eancia delas.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Assim, o fil\u00f3sofo em destaque constr\u00f3i um sistema acentuadamente teoc\u00eantrico, sustentado por fortes motiva\u00e7\u00f5es de car\u00e1ter metaf\u00edsico e religioso.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">A Filosofia de Malebranche motiva seus leitores a perceber, sentir, analisar algo de nosso alcance, usar a raz\u00e3o. Perceber pelas sensa\u00e7\u00f5es e de maneira poss\u00edvel tudo o que nos rodeia. Deixar que o pensamento racional guie nossos desejos e esp\u00edrito. O homem s\u00e1bio e bom fil\u00f3sofo \u00e9 aquele que reconhece que \u00e9 finito, tem consci\u00eancia de que nem tudo pode conhecer, mas que tem capacidade de buscar o caminho seguro, controlado, guiado e necessitado de uma for\u00e7a que o transcende: Deus.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\"><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">REALE, G.; ANTISERI, D. <em>Hist\u00f3ria da Filosofia<\/em>, vol. II.<em> <\/em>S\u00e3o Paulo: Paulus, 2003.<br \/>\nMALEBRANCHE, Nicolas. <em>A busca da verdade. <\/em>Trad. Pl\u00ednio J. Smith. S\u00e3o Paulo: Discurso Editorial, 2004.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Rodrigo Marcos Ferreira &nbsp; Nicolas Malebranche (1638-1715), inspirado por convic\u00e7\u00f5es religiosas e pelo platonismo agostiniano, buscou fundamentar e harmonizar as doutrinas de Descartes, constituindo um sistema filos\u00f3fico racionalista de fei\u00e7\u00e3o m\u00edstica. Malebranche critica os fil\u00f3sofos que estudam as rela\u00e7\u00f5es da alma com o corpo sem considerar sua uni\u00e3o com Deus. 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