{"id":466,"date":"2009-08-01T12:00:17","date_gmt":"2009-08-01T15:00:17","guid":{"rendered":"http:\/\/pensamentoextemporaneo.wordpress.com\/?p=466"},"modified":"2009-08-01T12:00:17","modified_gmt":"2009-08-01T15:00:17","slug":"uma-conversa-com-foucault","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/?p=466","title":{"rendered":"Uma conversa com Foucault"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align:justify;\"><strong>Walter Vieira Junior<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">No dia 25 de junho de 1984, morria, aos 57 anos, o professor franc\u00eas Michel Foucault. Com essa frase iniciamos esta conversa, mas antes permitam-nos apresentar Foucault. Nasceu em Poitiers no dia 15 de outubro de 1926 e veio a falecer em Lyon. Foi fil\u00f3sofo, professor da c\u00e1tedra de Hist\u00f3ria dos Sistemas de Pensamento no Coll\u00e8ge de France de 1970 a 1984. Personalidade forte, por\u00e9m sem perder sua articularidade, foi e \u00e9 sinal de reflex\u00e3o. Dizia-se n\u00e3o ser estruturalista como nos apresenta Giovanni Reale. Suas id\u00e9ias not\u00e1veis envolvem o biopoder e a sociedade disciplinar, sendo seu pensamento influenciado por Nietzsche, Heidegger, Althusser e Canguilhem.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Tenhamos em nossas mentes a imagem de uma atitude concreta desse pensador, ele primeiramente quis ser o que foi. Sem m\u00e1scara ele foi voz e sil\u00eancio, paradoxo e simplicidade, uma mistura certa de explos\u00e3o e mansid\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Dessa forma, falar de Foucault \u00e9 expressar atrav\u00e9s de um breve artigo alguns de seus verbetes reflexivos, suas aspira\u00e7\u00f5es e fazer lembran\u00e7a de algu\u00e9m que se vez voz no meio do barulho evolutivo da humanidade.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Foucault, o fil\u00f3sofo da loucura, tema esse apresentado na maioria de suas obras, deixa claro que tal loucura n\u00e3o \u00e9 uma loucura desvairada, perturbadora no sentido alienante, de um hosp\u00edcio, mas sim uma loucura que gera exclus\u00e3o, separa\u00e7\u00e3o, medo do enfrentamento. Uma loucura baseada na apodera\u00e7\u00e3o desenfreada do pr\u00f3prio poder ser. No limiar de uma nova consci\u00eancia, vemos que seu pensamento surge no contexto de uma revolu\u00e7\u00e3o cultural e que se atribuiu valores que at\u00e9 ent\u00e3o n\u00e3o se eram considerados atributos.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Mas o que diria Foucault se apresent\u00e1ssemos a ele a influ\u00eancia globalizante de uma economia que onde passa deixa um rastro de pobreza e exclus\u00e3o, que faz a divis\u00e3o social ser t\u00e3o gritante ao ponto de uma classe \u201cX\u201d (entenda-se aqui pa\u00eds) se achar o meio termo de qualquer quest\u00e3o que at\u00e9 o tribunal de Aia tem que apoiar? Mas certo responderia que o discurso usado n\u00e3o \u00e9 o mesmo que se pensa em fazer, ou seja, falamos o que \u00e9 de nosso agrado e que se necess\u00e1rio, para manter tal discurso, fazemos regras pr\u00f3prias para que ningu\u00e9m roube o que \u00e9 nosso.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Discursamos sobre o que sabemos. Infelizmente, n\u00e3o sabemos muito, por isso somos vagos, limitados e na maioria das vezes somos apenas meros repetidores dos anseios e desejos de uma maioria calada. Na sua aula inaugural em 1970 no Coll\u00e9ge de France, Foucault diz:<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;padding-left:90px;\"><em>Em uma sociedade como a nossa, conhecemos, \u00e9 certo, procedimentos de exclus\u00e3o. O mais evidente, o mais familiar tamb\u00e9m, \u00e9 a interdi\u00e7\u00e3o. Sabe-se bem que n\u00e3o se tem o direito de dizer tudo, que n\u00e3o se pode falar de tudo em qualquer circunst\u00e2ncia, que qualquer um, enfim, n\u00e3o pode falar de qualquer coisa.<\/em> (<em>A ordem do Discurso<\/em>, p.9)<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">O que realmente impressiona nas coloca\u00e7\u00f5es de Foucault \u00e9 a sua maneira clara e direta de chegar a certas posi\u00e7\u00f5es, ele ainda falaria de duas regi\u00f5es a saber: a sexualidade e a pol\u00edtica, duas regi\u00f5es que ele vai relatar em suas obras, duas a\u00e7\u00f5es concretas e constantes e que naquele momento se via borbulhar como num caldeir\u00e3o fervendo. Ambas vivem dentro do discurso que por sua vez ser\u00e1 o gerador do poder.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">O discurso agora n\u00e3o era o fim de um di\u00e1logo, mas sim um meio de chegar ao poder. \u201cO discurso n\u00e3o \u00e9 simplesmente aquilo que traduz as lutas ou os sistemas de domina\u00e7\u00e3o, mas aquilo por que, pelo que se luta, o poder do qual n\u00f3s queremos apoderar\u201d (<em>ibidem<\/em>, p.10). Depois desse pensamento, surge uma interroga\u00e7\u00e3o. Como o discurso \u00e9 visto no campo relacional, j\u00e1 que \u00e9 o ato de se comunicar que nos permite a sociabiliza\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">N\u00e3o h\u00e1 outra sa\u00edda para as crises mundiais se o discurso n\u00e3o for menos ditatorial, e mais participativo. Por\u00e9m, n\u00e3o h\u00e1 como isso acontecer se o sujeito n\u00e3o se tornar o seu pr\u00f3prio objeto, ou seja, o sujeito ser objeto de si mesmo. Tal estudo Foucault empreendeu como forma de fundamentar aquilo que ele vai afirmar como sendo o jogo da verdade.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Na a\u00e7\u00e3o concreta do hoje que se descortina num emaranhado obscuro dos buracos negros do ser, Foucault foi sem d\u00favida um lan\u00e7ar-se no mais audaz da rela\u00e7\u00e3o do eu com o em si, essa particularidade cercada de uma forte busca pela rela\u00e7\u00e3o (como acima apresentado) do poder que faz querer apoderar-se de algo que se imagina verdade.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;padding-left:90px;\"><em>A id\u00e9ia de exclus\u00e3o social implica a id\u00e9ia de reclus\u00e3o. Estes termos se encontram e se movem sob o toque invis\u00edvel do Poder, cujo fetiche e encanto estavam em saber se esconder e transmutar as exist\u00eancias, quando se manifestava na pr\u00e1tica totalit\u00e1ria do espa\u00e7o pol\u00edtico.<\/em> (PEREIRA, <em>A anal\u00edtica do poder em Michel Foucault<\/em>, p.25)<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Ora, isso nos remete a uma outra quest\u00e3o, a do \u201cverdadeiro no discurso\u201d, ou seja, a id\u00e9ia que muitos t\u00eam de rotular uma coisa como verdadeira e que somente sendo participante dessa regulamenta\u00e7\u00e3o imposta por alguns, que por sua vez se intitulam sabedores, e que para n\u00f3s n\u00e3o passam de conceituadores que ditam formula\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">O fato \u00e9 que como nos apresenta Foucault em <em>A ordem do discurso<\/em> (p.35), s\u00f3 nos encontraremos no \u201cverdadeiro\u201d se obedecermos \u201c\u00e0s regras de uma \u201cpol\u00edcia\u201d discursiva\u201d. Ele vai dizer que muitos s\u00f3 entram no \u201cverdadeiro\u201d depois que o \u201cverdadeiro\u201d (aqui entenda os que fazem o verdadeiro ser \u201cverdadeiro\u201d e n\u00e3o o conceito de verdade) tiverem uma mudan\u00e7a nas suas escalas ou uma transforma\u00e7\u00e3o de suas mentalidades, para que assim se possa aceitar algo como \u201cverdadeiro\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">O fato marcante desse aspecto \u00e9 que muitos iriam chamar de \u201cjogos de verdade\u201d, isto \u00e9, n\u00e3o uma descoberta dos v\u00e1rios objetos que se dizem verdadeiros, mas sim as regras segundo as quais o que \u00e9 verdadeiro realmente o \u00e9. Podemos compreender tamb\u00e9m como o fato de um sujeito poder dizer acerca de certas coisas que o prendem ao verdadeiro e ao falso.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">O pensamento n\u00e3o corresponde a uma aquisi\u00e7\u00e3o de verdades genu\u00ednas, mas sim um confronto de realidades que se misturam ao longo historiogr\u00e1fico relacional da humanidade. E que de certo ponto constituem a mola propulsora do lan\u00e7ar-se humano na descobertas de novos paradigmas.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">A verdade como tamb\u00e9m a falsidade s\u00e3o p\u00f3los do que compreendemos ser a rela\u00e7\u00e3o chave no que Foucault denomina arqueologia do saber.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Um outro aspecto na rela\u00e7\u00e3o: discurso-poder-sociedade se d\u00e1 na educa\u00e7\u00e3o. A quem interessa a forma\u00e7\u00e3o de um povo? O governo (elite) que manipula ou o povo simples? \u201ctodo sistema de educa\u00e7\u00e3o \u00e9 uma maneira pol\u00edtica de manter ou de modificar apropria\u00e7\u00e3o dos discursos, com os saberes e os poderes que eles trazem consigo\u201d (<em>ibidem<\/em>, p.44).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">H\u00e1 um discurso ideol\u00f3gico que diz: \u201cmanda quem pode, obedece quem tem ju\u00edzo\u201d. Logicamente, sabemos da limita\u00e7\u00e3o de nossas institui\u00e7\u00f5es como suas car\u00eancias, e suas fraquezas, mas como diria Foucault:<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;padding-left:90px;\"><em>o que \u00e9 afinal um sistema de ensino sen\u00e3o uma ritualiza\u00e7\u00e3o da palavra; sen\u00e3o uma qualifica\u00e7\u00e3o e uma fixa\u00e7\u00e3o dos pap\u00e9is para os sujeitos que falam; sen\u00e3o a constitui\u00e7\u00e3o de um grupo doutrin\u00e1rio ao menos difuso; sen\u00e3o uma distribui\u00e7\u00e3o e uma apropria\u00e7\u00e3o do discurso com seus poderes e seus saberes?<\/em> (ibidem, p.44)<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Para Foucault, o pensamento ocidental acabou deixando o discurso ocupar o menor lugar poss\u00edvel entre os pensamentos e a palavra, fazendo com que o discurso se torne apenas um aporte entre pensar e falar.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Dentro desse aspecto educacional, Foucault, em outra obra chamada <em>Em defesa da sociedade<\/em> (p.14), apresenta inicialmente sua \u201carma\u201d contra \u201cos efeitos do poder pr\u00f3prios de um discurso considerado cient\u00edfico\u201d, ou seja,<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;padding-left:90px;\"><em>trata-se da insurrei\u00e7\u00e3o dos saberes. N\u00e3o tanto contra os conte\u00fados, os m\u00e9todos ou os conceitos de uma ci\u00eancia, mas de uma insurrei\u00e7\u00e3o sobretudo e acima de tudo contra os efeitos centralizadores de poder que s\u00e3o vinculados \u00e0 institui\u00e7\u00e3o e ao funcionamento de m discurso cient\u00edfico organizado no interior de uma sociedade como a nossa.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Essa arma chamada genealogia \u00e9 em suma considerada um dos pilares do pensamento deixado por Foucault, juntamente com a quest\u00e3o da arqueologia do saber.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Mais ainda Foucault apresenta na obra <em>A ordem do Discurso<\/em> uma compara\u00e7\u00e3o quase sutil da terminologia do <em>logos<\/em>, dividindo-a em: logofilia e logofobia. Essas duas correntes que emanam do logos representam que o hodierno mundo do discurso ainda se v\u00ea apresentado nessa dualidade. Enquanto uns se aproximam do discurso como amigo que deseja criar uma intimidade, \u201cvenera\u00e7\u00e3o do discurso\u201d, o outro discurso repele o sujeito devido ao seu austero terreno seco e inativo.\u00a0 O que Foucault apresenta como:<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;padding-left:90px;\"><em>uma esp\u00e9cie de temor surdo desses acontecimentos, dessa massa de coisas ditas, do surgi de todos esses enunciados, de tudo o que possa haver a\u00ed de violento, de descont\u00ednuo, de combativo, de desordem, tamb\u00e9m, e de perigoso, desse grande zumbido incessante e desordenado do discurso<\/em>. (<em>A ordem do discurso<\/em>, p.50)<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">O que faz com que Foucault opte por tr\u00eas decis\u00f5es \u00e0s quais o pensamento resista um pouco, e que corresponderia aos tr\u00eas grupos de fun\u00e7\u00f5es. A de questionar nossa vontade de verdade; restituir ao discurso seu car\u00e1ter de acontecimento; suspender, enfim, a soberania do significante.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Tais decis\u00f5es seriam o plano de fundo das pesquisas que Foucault teria como motiva\u00e7\u00e3o para os anos seguintes na frente da C\u00e1tedra de professor de Hist\u00f3ria dos Sistemas de Pensamento no Coll\u00e8ge de France.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Se ele conseguiu ou n\u00e3o perpetuar tais decis\u00f5es n\u00e3o ser\u00e1 aqui a nossa preocupa\u00e7\u00e3o, poder\u00e1 nos servir de futuras motiva\u00e7\u00f5es, para outros artigos. Mas algo de certo fica em nossas mentes, como uma indaga\u00e7\u00e3o reflexiva e infelizmente silenciada pela morte. O que Foucault poderia oferecer a n\u00f3s, atrav\u00e9s de suas reflex\u00f5es, sobre a multiplicidade dos aspectos relacionais existentes da velocidade informacional dos notici\u00e1rios aos sites multirrelacionais que servem de exemplo de globaliza\u00e7\u00e3o, por\u00e9m acaba criando uma certa fobia ao contato direto do toque?<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">N\u00e3o h\u00e1 como concluir o que o sil\u00eancio silenciou se n\u00e3o silenciar. Uma voz que poderia fazer muito barulho foi calada, por\u00e9m ressoa como um velho eco nas mentes e nos que procuram atrav\u00e9s da arqueologia do saber e da genealogia do poder, descobrir o que a hist\u00f3ria ainda n\u00e3o revelou.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\"><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">FOUCAULT, Michel. A Ordem do Discurso. Trad. Laura F. de Almeida Sampaio. Loyola. S\u00e3o Paulo, 1996.<br \/>\n_____. <em>Microf\u00edsica do Poder<\/em>. Org. e trad. Roberto Machado. Rio de Janeiro: Graal, 1979.<br \/>\n_____. <em>Em defesa da Sociedade<\/em>. S\u00e3o Paulo: Martins Fontes, 1999.<br \/>\nPEREIRA, Ant\u00f4nio. <em>A anal\u00edtica do poder em Michel de Foucault<\/em>: Arqueologia da loucura, da reclus\u00e3o e do saber m\u00e9dico na Idade Cl\u00e1ssica. Belo Horizonte: Aut\u00eantica, 2003.<br \/>\nREALE, Giovanni; ANTISERI, Dario. <em>Hist\u00f3ria da Filosofia<\/em>: v.7, De Freud \u00e0 atualidade. 2\u00aaed. S\u00e3o Paulo: Paulus, 2008.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Walter Vieira Junior &nbsp; No dia 25 de junho de 1984, morria, aos 57 anos, o professor franc\u00eas Michel Foucault. Com essa frase iniciamos esta conversa, mas antes permitam-nos apresentar Foucault. Nasceu em Poitiers no dia 15 de outubro de 1926 e veio a falecer em Lyon. 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