{"id":472,"date":"2009-08-08T12:00:10","date_gmt":"2009-08-08T15:00:10","guid":{"rendered":"http:\/\/pensamentoextemporaneo.wordpress.com\/?p=472"},"modified":"2009-08-08T12:00:10","modified_gmt":"2009-08-08T15:00:10","slug":"a-concepcao-de-grandeza-e-miseria-humana-em-pascal","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/?p=472","title":{"rendered":"A concep\u00e7\u00e3o de grandeza e mis\u00e9ria humana em Pascal"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align:justify;\"><strong>Gilmar Lopes da Silva<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Blaise Pascal (1623-1662) exp\u00f5e, em sua obra <em>Pensamentos<\/em>, o paradigma da experi\u00eancia do homem moderno. O homem tem diante de si a ordem eterna da natureza, pela qual contempla os dois abismos do infinitamente grande e do infinitamente pequeno: da grandeza do universo \u00e0 mis\u00e9ria humana. Dentro da vis\u00e3o pascaliana, a condi\u00e7\u00e3o humana est\u00e1 marcada por uma mis\u00e9ria ontol\u00f3gica. \u201cNo fundo, o que \u00e9 o homem na natureza? \u00c9 nada em rela\u00e7\u00e3o ao infinito, \u00e9 tudo em rela\u00e7\u00e3o ao nada, algo de intermedi\u00e1rio entre o nada e o tudo\u201d (REALE, p.180). Para Blaise Pascal, essa \u00e9 a nossa verdadeira condi\u00e7\u00e3o, que nos torna incapazes de saber com certeza e ignorar o absoluto.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">A condi\u00e7\u00e3o do homem \u00e9 de um ser inst\u00e1vel e incerto, \u201cn\u00e3o \u00e9 anjo nem fera\u201d (<em>ibidem<\/em>). Ao mesmo tempo, equilibra essa condi\u00e7\u00e3o ao dizer que suas mis\u00e9rias provam sua grandeza: \u201cs\u00e3o mis\u00e9rias de um grande senhor, mis\u00e9rias de um rei destronado\u201d (<em>ib.<\/em>). Uma \u00e1rvore n\u00e3o sabe que \u00e9 miser\u00e1vel, mas o homem sim sabe que \u00e9 miser\u00e1vel. O homem \u00e9 feito para pensar, nisso reside toda sua dignidade e sua fun\u00e7\u00e3o. Para Pascal, o homem \u00e9 o objeto sobre o qual a filosofia deve refletir, e essa reflex\u00e3o leva \u00e0 considera\u00e7\u00e3o do engrandecimento pelo pensamento. A grandeza do homem se reflete em seu pr\u00f3prio pensar na finitude e em reconhecer sua condi\u00e7\u00e3o de mis\u00e9ria. A grandeza e a mis\u00e9ria do homem est\u00e3o solidamente interligadas. O homem n\u00e3o deve se julgar um animal, mas tamb\u00e9m n\u00e3o deve presumir que \u00e9 um anjo. Pois, \u201cse ele vangloria, eu o rebaixo; se ele se rebaixa, eu o glorifico; eu o contradigo, at\u00e9 que compreenda que \u00e9 um monstro incompreens\u00edvel\u201d (<em>ib<\/em>.).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">No entanto, nem sempre o homem quer assumir sua condi\u00e7\u00e3o de miser\u00e1vel. Isso faz com que busque o divertimento, tentando fugir de si mesmo e de pensar na sua finitude. O fato de que o homem \u00e9 criatura constitutivamente miser\u00e1vel, o faz desviar visivelmente, pois caiu de seu verdadeiro lugar sem poder agora reencontr\u00e1-lo. \u201cAs mis\u00e9rias da vida humana est\u00e3o na base de tudo isso; t\u00e3o logo os homens se aperceberam disso, optaram pela divers\u00e3o; eles, n\u00e3o conseguindo vencer a morte, a mis\u00e9ria e a ignor\u00e2ncia, decidiram n\u00e3o pensar nelas para se tornarem felizes\u201d (<em>ib<\/em>.). O divertimento \u00e9 a fuga diante da l\u00facida e consciente mis\u00e9ria humana. \u00c9 a perturba\u00e7\u00e3o. \u201cA \u00fanica coisa que nos consola de nossas mis\u00e9rias \u00e9 a divers\u00e3o. Essa \u00e9 a maior de nossas mis\u00e9rias. E ela que nos impede de pensar em n\u00f3s e nos leva \u00e0 perdi\u00e7\u00e3o. Mas sem ela ficar\u00edamos tediosos nos impeliria a procurar um meio mais s\u00f3lido para sair disso. A divers\u00e3o nos distrai, fazendo-nos chegar \u00e0 morte\u201d (<em>ib<\/em>., p.181). Ela \u00e9 fuga de n\u00f3s mesmos. Fuga de nossas mis\u00e9rias. A recrea\u00e7\u00e3o \u00e9 a maior de nossas mis\u00e9rias, a qual nos impede de olharmos para dentro de n\u00f3s mesmos e de tomarmos consci\u00eancia do nosso estado de perturba\u00e7\u00e3o ou perdi\u00e7\u00e3o. Isso faz com que nos fugimos de n\u00f3s mesmos e deixamos nos distrair sem uma base s\u00f3lida pra pr\u00f3pria vida. Tornando-se assim uma alternativa n\u00e3o digna do homem.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">A vaidade est\u00e1 arraigada no seu cora\u00e7\u00e3o, pois ele est\u00e1 sempre em busca de gl\u00f3rias e elogios. Esse \u00e9 o realismo tr\u00e1gico de Pascal. A vaidade est\u00e1 no cora\u00e7\u00e3o do homem: um soldado, um servente, um cozinheiro ou um varredor se vangloriam e anseiam por admiradores; os pr\u00f3prios fil\u00f3sofos tamb\u00e9m o querem; e aqueles que escrevem contra a gl\u00f3ria querem ter gl\u00f3ria de ter escrito bem; e aqueles que os l\u00eaem querem ter gl\u00f3ria de t\u00ea-las lidos. N\u00e3o s\u00f3 a vaidade, mas tamb\u00e9m o orgulho. \u201cEm meios as nossas mis\u00e9rias, erros etc., o orgulho toma conta de n\u00f3s naturalmente\u201d (<em>ib<\/em>.). Quando o homem se lan\u00e7a na confus\u00e3o e se deixa perturbar, ele estar\u00e1 renunciando precisamente \u00e1 sua dignidade, al\u00e9m de renunciar \u00e0quelas verdades as quais o pensamento pode levar.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Esse \u00e9 o realismo tr\u00e1gico de Pascal. O homem de fato \u00e9 um cani\u00e7o pensante para Pascal; ele compara o homem a uma cana, a mais fraca da natureza, s\u00f3 que ela \u00e9 uma cana que pensa e reflete. N\u00e3o \u00e9 necess\u00e1rio usar de grandiosas coisas para atingi-lo, apenas uma gota d\u2019\u00e1gua \u00e9 o suficiente para mat\u00e1-lo. Mesmo assim ainda ele \u00e9 nobre, porque ele sabe que morre e que existem outras coisas no universo superior a ele. O homem \u00e9 um ser inst\u00e1vel n\u00e3o totalmente bom, mas tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 totalmente mal. Podemos perceber que o homem \u00e9 como o rei que, sem trono, deixa de ser rei. Diante disso, Pascal construir\u00e1 sua apologia ao cristianismo.\u00a0O homem \u00e9 plasmado de grandeza e mis\u00e9ria e, sozinho, com suas pr\u00f3prias for\u00e7as, s\u00f3 consegue compreender que \u00e9 um monstro enigm\u00e1tico; sozinho, n\u00e3o conseguir\u00e1 criar valores validos nem encontrar um sentido est\u00e1vel e verdadeiro da exist\u00eancia. O homem n\u00e3o se realiza plenamente devido ao pecado original ou sua deca\u00edda, portanto Cristo \u00e9 a chave para compreender e redimir o ser humano.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">A grandeza e a mis\u00e9ria humana apresentadas por Pascal nos levam a suscitar indaga\u00e7\u00f5es: de que forma percebemos hoje essa \u201cmis\u00e9ria\u201d e essa \u201cgrandeza\u201d em n\u00f3s? A humanidade diante de tantos sofrimentos e corrup\u00e7\u00f5es, nascidos dela mesma, j\u00e1 est\u00e1 num est\u00e1gio de insensibilidade ao outro e frente \u00e0quilo que cada vez mais a oprime. O homem, hoje, mais do que nunca, busca o divertimento. N\u00e3o somente como fuga, mas como um prazer, meio pelo qual procura n\u00e3o assumir sua condi\u00e7\u00e3o de ser finito. Todo homem est\u00e1 \u00e0 procura da felicidade, por\u00e9m essa vem sendo buscada de maneira ego\u00edsta e envaidecida. Contudo, na via pascaliana, a grandeza deve cada vez mais associar-se \u00e0 mis\u00e9ria humana pela reflex\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\"><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">PASCAL, Blaise. <em>Pensamentos<\/em>. S\u00e3o Paulo: Abril Cultural, 1973. (Os Pensadores)<br \/>\nREALE, Giovanni; ANTISERI, Dario. <em>Hist\u00f3ria da Filosofia:<\/em> vol.5, De Spinoza a Kant. Trad. Ivo Storniolo. S\u00e3o Paulo: Paulus, 2005.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Gilmar Lopes da Silva &nbsp; Blaise Pascal (1623-1662) exp\u00f5e, em sua obra Pensamentos, o paradigma da experi\u00eancia do homem moderno. O homem tem diante de si a ordem eterna da natureza, pela qual contempla os dois abismos do infinitamente grande e do infinitamente pequeno: da grandeza do universo \u00e0 mis\u00e9ria humana. 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