{"id":489,"date":"2009-08-15T12:00:49","date_gmt":"2009-08-15T15:00:49","guid":{"rendered":"http:\/\/pensamentoextemporaneo.wordpress.com\/?p=489"},"modified":"2009-08-15T12:00:49","modified_gmt":"2009-08-15T15:00:49","slug":"os-modos-de-ser-do-dasein-a-partir-da-analitica-existencial-heideggeriana","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/?p=489","title":{"rendered":"Os modos de ser do \u201cDasein\u201d a partir da anal\u00edtica existencial heideggeriana"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align:justify;\"><strong>Luciano da Silva Roberto <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Ao estudar a filosofia de Martin Heidegger (1889-1976), a partir de sua obra <em>Ser e Tempo<\/em>, percebe-se que seu pensamento se situa no centro das preocupa\u00e7\u00f5es filos\u00f3ficas da atualidade. Ele prop\u00f5e a supera\u00e7\u00e3o da tradi\u00e7\u00e3o filos\u00f3fica do Ocidente atrav\u00e9s da retomada da pergunta pelo sentido do ser, a qual \u00e9 a mais fundamental de todas as perguntas. Para tanto, Heidegger afirma que o \u00fanico ente diverso dentre os outros existentes, o Dasein (ser-a\u00ed), seria o \u00fanico capaz de compreender o ente diverso dele. Assim, com este trabalho pretende-se fazer uma an\u00e1lise dos modos de ser do Dasein.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Heidegger utiliza o m\u00e9todo fenomenol\u00f3gico para a compreens\u00e3o do ser, sendo que, em primeiro momento, tal m\u00e9todo recorre ao Dasein. O seu objeto de analise existencial \u00e9 o Dasein. A sua preocupa\u00e7\u00e3o central \u00e9 pensar o ser. O fundamental, para ele, \u00e9 compreender o sentido do ser entrevendo as condi\u00e7\u00f5es de possibilidade de todos os entes e sobretudo do Dasein. O \u201cobjeto\u201d utilizado por Heidegger em suas pesquisas visa mostrar, de modo mais radical, o quanto esse ente precisa, al\u00e9m da compreens\u00e3o do ser, obter uma no\u00e7\u00e3o original de seu ser.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Diante disso, surge a pergunta: quem \u00e9 o Dasein? Ele \u00e9 o ser-a\u00ed, o eis-a\u00ed-ser. O termo \u201cDasein\u201d serviu para designar a manifesta\u00e7\u00e3o do ser enquanto ente. O Dasein se compreende a si mesmo enquanto ser que existe. Segundo Heidegger, a subst\u00e2ncia do Dasein \u00e9 a exist\u00eancia e n\u00e3o o esp\u00edrito enquanto s\u00edntese de corpo e alma. O Dasein n\u00e3o pode ser caracterizado fora da exist\u00eancia. Ele \u00e9 seu compreender-se e seu projetar-se. O Dasein enquanto subst\u00e2ncia, ou seja, na sua existencialidade ou substancialidade \u00e9 um ainda-n\u00e3o, que se lan\u00e7ando na exist\u00eancia reside na n\u00e3o totalidade, no vazio, no nada. A exist\u00eancia \u00e9 a sua ess\u00eancia.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">O Dasein \u00e9 um \u201cpoder-ser\u201d sempre, a exist\u00eancia do Dasein nunca \u00e9 algo j\u00e1 feito. O Dasein permanece sempre em constru\u00e7\u00e3o, pois \u00e9 projeto para o seu futuro. Ele \u00e9 um ser que busca planejar, pois sabe que n\u00e3o est\u00e1 pronto. Est\u00e1 sempre inacabado e diante de in\u00fameras possibilidades. O verdadeiro ser consiste em objetivar aquilo que ainda n\u00e3o \u00e9. O Dasein, como ente, \u00e9 um ainda-n\u00e3o, que deve ser assumido por ele, que lan\u00e7ado na exist\u00eancia reside na n\u00e3o-totalidade.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">O Dasein fornece o horizonte de compreens\u00e3o do sentido ser a partir da temporalidade. A partir da temporalidade podemos falar das estruturas fundamentais do ser do Dasein. O Dasein tem o car\u00e1ter estrutural de ser-no-mundo, ser-com-os-outros e ser-para-a-morte.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">O Dasein \u00e9 <strong>ser-no-mundo<\/strong> e o ser dos entes \u00e9 compreendido dentro do mundo. O ser-no-mundo \u00e9 uma forma privilegiada do Dasein, pois a partir deste modo \u00e9 poss\u00edvel determinar seu ser, n\u00e3o de maneira total. Ser-no-mundo \u00e9 revelar-se, \u00e9 manifesta\u00e7\u00e3o como fen\u00f4meno do Dasein.\u00a0 O ser do ente que o Dasein \u00e9, s\u00f3 se manifesta por si mesmo dentro do mundo. N\u00e3o h\u00e1 uma compreens\u00e3o de ser-no-mundo como se a exist\u00eancia do Dasein estivesse de um lado e o mundo doutro lado. Mundo \u00e9 lugar onde os entes se d\u00e3o, da mesma forma o ser nos entes, a natureza, as coisas dotadas de valor. O mundo \u00e9 o contexto em que de fato um Dasein vive como Dasein. Lan\u00e7ado-no-mundo, se entrega \u00e0s ocupa\u00e7\u00f5es, como modo de ser-no-mundo.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">O Dasein \u00e9 <strong>ser-junto-a<\/strong>, junto aos entes. Heidegger chama os entes que s\u00e3o usados e protegidos de instrumentos, pois os instrumentos s\u00e3o produzidos de mat\u00e9ria, que n\u00e3o carecem de produ\u00e7\u00e3o, pois a pr\u00f3pria natureza se encarrega de faz\u00ea-las, por algu\u00e9m, para algu\u00e9m (HEIDEGGER, <em>Ser e Tempo<\/em>, p.109). Dasein \u00e9 \u00e9 produ\u00e7\u00e3o, \u00e9 cria\u00e7\u00e3o e transforma\u00e7\u00e3o do mundo. O Dasein est\u00e1 no mundo e totalmente envolvido por ele. Sem o mundo n\u00e3o se pode pens\u00e1-lo.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">O Dasein partilha com os outros o espa\u00e7o que lhe circunda. Em sua ocupa\u00e7\u00e3o ele se encontra a si mesmo e aos outros. Sem o outro de nada adianta existir. Ser lan\u00e7ado no mundo possibilita ao Dasein mergulhar na aventura da partilha deste mundo com os outros. O Dasein \u00e9 com os outros. O Dasein como <strong>ser-com-os-outros<\/strong>: estando lan\u00e7ado-no-mundo, o Dasein mant\u00e9m uma intera\u00e7\u00e3o consigo mesmo, com os demais entes (todas as coisas) e com o mundo.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;padding-left:90px;\"><em>O Dasein partilha com os outros o espa\u00e7o que circunda. Em sua ocupa\u00e7\u00e3o ele se encontra a si mesmo e aos outros. De fato, nesta possibilidade de ser-com-os-outros, \u201co estar-s\u00f3 do Dasein \u00e9 ser-com no mundo (&#8230;). O pr\u00f3prio Dasein s\u00f3 \u00e9 na medida em que possui a estrutura\u00a0 essencial de ser-com, enquanto co-Dasein que vem ao encontro dos outros.<\/em> (<em>Ser e Tempo<\/em>, p.171)<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;padding-left:90px;\"><em>Os outros n\u00e3o significam todo o resto dos demais al\u00e9m de mim, do qual o eu se isolaria. Os outros, ao contr\u00e1rio, s\u00e3o aqueles dos quais, na maior parte das vezes, ningu\u00e9m se diferencia propriamente entre os quais tamb\u00e9m se est\u00e1.<\/em> (<em>Ser e Tempo<\/em>, p.169)<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">O outro sempre \u00e9 percebido, pois estando no mundo produz algo, ele o realiza para algu\u00e9m, e quando utiliza um objeto, utiliza porque algu\u00e9m o produziu. Os objetos no mundo sempre nos remetem a outros. O Dasein vive neste mundo, mas n\u00e3o vive s\u00f3, est\u00e1 sempre se relacionando com o outro<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">O Dasein est\u00e1 neste mundo, convive com os outros, se relaciona com os outros Dasein, mas tamb\u00e9m caminha para a morte. Ele n\u00e3o \u00e9 um ser pronto (total), acabado, definido. Dasein \u00e9 um <strong>ser-para-a-morte<\/strong>:<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;padding-left:90px;\"><em>Antes de anular o problema de totalidade do Dasein, deve-se buscar as respostas reclamadas a essas quest\u00f5es. A quest\u00e3o sobre a totalidade do Dasein que, do ponto de vista existenci\u00e1rio, emerge com a quest\u00e3o da possibilidade dele poder-ser-todo e, do ponto de vista existencial, como a quest\u00e3o da constitui\u00e7\u00e3o ontol\u00f3gica e a \u201ctotalidade\u201d, abriga a tarefa de uma an\u00e1lise positiva dos fen\u00f4menos da exist\u00eancia at\u00e9 aqui postergados. No centro dessas considera\u00e7\u00f5es, acha-se a caracteriza\u00e7\u00e3o ontol\u00f3gica do ser-para-o-fim em sentido pr\u00f3prio do Dasein e a conquista de um conceito existencial da morte.<\/em> (<em>Ser e Tempo<\/em>, p.17)<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">De acordo com o modo do Dasein, a morte s\u00f3 \u00e9 em um ser existencial. O verdadeiro caminho a seguir em dire\u00e7\u00e3o ao ser \u00e9 o de desvendar a exist\u00eancia aut\u00eantica do Dasein. Tal tarefa tem como centro a ang\u00fastia. Diante da possibilidade da morte, o Dasein vive a ang\u00fastia. Sendo ele determinado pela ess\u00eancia como ser que existe, caminha em dire\u00e7\u00e3o da morte. Come\u00e7a a morrer desde o dia que nasce. A morte \u00e9 a possibilidade mais pr\u00f3pria, pois diz respeito \u00e0 ess\u00eancia da exist\u00eancia, ou seja, o poder-ser. Ningu\u00e9m pode assumir a morte do outro. Ela \u00e9 ainda a possibilidade da impossibilidade.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Interpretando-se as caracter\u00edsticas do Dasein descritas por Heidegger, \u00e9 buscando-se uma aproxima\u00e7\u00e3o de sua ontologia com a antropologia, pode-se compreender quem \u00e9 o homem. A rela\u00e7\u00e3o do homem com os homens \u00e9 diferente da rela\u00e7\u00e3o com as coisas. Em sua rela\u00e7\u00e3o com os outros homens, ele \u00e9 interpelado a abrir-se, sair e provocar encontro. Na rela\u00e7\u00e3o com as coisas, o homem simplesmente faz uso do que se encontra disposto no mundo das ocupa\u00e7\u00f5es. A exist\u00eancia do homem s\u00f3 pode ser considerada quando tamb\u00e9m se considera que o homem \u00e9 em um mundo. Sem a mundaneidade n\u00e3o pode existir homem. O homem s\u00f3 pode ser compreendido lan\u00e7ado neste com o qual est\u00e1 envolvido, o mundo. Nele o homem toma consci\u00eancia de sua exist\u00eancia. Realiza os seus projetos, cria utens\u00edlios para tornar a vida mais c\u00f4moda, lan\u00e7a-se em encontros com o outro, fazendo acontecer a conviv\u00eancia. O homem necessita da presen\u00e7a do outro para viver. A conviv\u00eancia com o outro tem o papel muito importante na vida do homem, pois \u00e9 atrav\u00e9s dela que o homem se humaniza.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Diante do que foi estudado, resta afirmar que Heidegger foi muito original em seu pensamento. Heidegger em seu pensamento n\u00e3o tematiza o ser, pois sen\u00e3o estaria objetivando o ser. Falando sobre o Dasein, Heidegger pretendeu falar do verdadeiro sentido do ser. O Dasein \u00e9 o ente que se pergunta pelo pr\u00f3prio ser, s\u00f3 ele compreende os demais entes e somente ele tem a capacidade de fazer a pergunta pelo sentido do ser.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\"><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">HEIDEGGER, M. <em>Ser e Tempo<\/em>: parte II. 2\u00aaed. Trad. M\u00e1rcia de S\u00e1 Cavalcanti. Parte II Petr\u00f3polis: Vozes, 1998.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">NOBRE, Rui Jos\u00e9. <em>O ente que pensa o ser: elementos para a compreens\u00e3o do Dasein heideggeriano. <\/em>Mariana: Instituto de filosofia S\u00e3o Jos\u00e9, 2003. (TCC em Filosofia)<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">OLIVEIRA, Manfredo Ara\u00fajo de, <em>A filosofia na crise da modernidade<\/em>. S\u00e3o Paulo: Loyola, 1989.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">REALE, Giovanni.; ANTISERI, Dario. <em>Hist\u00f3ria da Filosofia<\/em>: vol. III. S\u00e3o Paulo: Paulinas, 1991.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Luciano da Silva Roberto &nbsp; Ao estudar a filosofia de Martin Heidegger (1889-1976), a partir de sua obra Ser e Tempo, percebe-se que seu pensamento se situa no centro das preocupa\u00e7\u00f5es filos\u00f3ficas da atualidade. 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