{"id":498,"date":"2009-08-29T12:00:12","date_gmt":"2009-08-29T15:00:12","guid":{"rendered":"http:\/\/pensamentoextemporaneo.wordpress.com\/?p=498"},"modified":"2009-08-29T12:00:12","modified_gmt":"2009-08-29T15:00:12","slug":"a-vida-segundo-0-espirito-como-autentico-existir-humano","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/?p=498","title":{"rendered":"A vida segundo o esp\u00edrito como aut\u00eantico existir humano"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align:justify;\"><strong>Alex Martins de Freitas<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">O objetivo deste artigo \u00e9 mostrar, na perspectiva do fil\u00f3sofo brasileiro Henrique Cl\u00e1udio de Lima Vaz (1921-2002), que o homem, devido \u00e0 dimens\u00e3o estrutural do seu ser, \u00e9 essencialmente um ser espiritual, e que a sua vida s\u00f3 tem sentido quando vivida segundo o esp\u00edrito. Entretanto, para se falar da vida segundo o esp\u00edrito ser\u00e1 preciso, antes de tudo, compreender como se d\u00e1 o discurso sobre o homem no pensamento de Lima Vaz.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Em primeiro lugar, ele apresenta o homem como um ser estrutural (categorias de estrutura), isto \u00e9, um ser constitu\u00eddo de corpo pr\u00f3prio, psiquismo e esp\u00edrito. \u00c9 devido a essa estrutura trial que o homem pode ser entendido como um ser aberto para a rela\u00e7\u00e3o. Nesse ponto, o discurso antropol\u00f3gico passa a se ocupar da dimens\u00e3o relacional do homem (categorias de rela\u00e7\u00e3o), na qual o sujeito humano se relaciona com o mundo (objetividade), com outro sujeito humano (intersubjetividade) e com o Absoluto (Transcend\u00eancia). Em segundo lugar, \u00e9 apresentada a unidade fundamental do ser humano, onde o homem \u00e9 chamado a assumir o seu <em>em-si<\/em> (estrutura substancial) e o seu <em>para-o-outro<\/em> (dimens\u00e3o da abertura) num <em>para-si.<\/em> Em outras palavras, cada indiv\u00edduo deve assumir aquilo que \u00e9. Aqui entra o tema da realiza\u00e7\u00e3o humana (busca da felicidade e do sentido) e da Pessoa, (subst\u00e2ncia individual, natural e racional).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Sendo assim, esta pesquisa se limitar\u00e1 ao aspecto estrutural do ser humano e se desdobrar\u00e1 em dois momentos: o primeiro diz respeito \u00e0 unidade estrutural do homem, isto \u00e9, uma s\u00edntese das categorias de estrutura, aquilo que o homem \u00e9 substancialmente. O segundo momento refere-se ao tema do artigo, que tem por finalidade apresentar a vida espiritual como vida propriamente humana, como verdadeiro existir do homem, que tem a sua express\u00e3o \u00faltima na manifesta\u00e7\u00e3o dos atos espirituais.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\"><strong>1. UNIDADE ESTRUTURAL DO SER HUMANO<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">A dimens\u00e3o estrutural do homem constitui sua ess\u00eancia, pois \u00e9 a partir da unidade substancial \u2013 corpo, psiquismo e esp\u00edrito &#8211; que ele pode ser chamado propriamente humano. Nessa perspectiva, antes de discorrer sobre o tema deste artigo, v\u00ea-se a necessidade de fazer uma breve apresenta\u00e7\u00e3o das categorias que constituem a estrutura do homem.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\"><strong>1.1 Corpo pr\u00f3prio<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">O corpo \u00e9, por excel\u00eancia, o ponto de partida da Antropologia filos\u00f3fica, isso porque ele \u00e9 o modo imediato da presen\u00e7a do homem no mundo (espa\u00e7o e tempo). No discurso vazeano, o corpo propriamente humano se difere dos outros corpos, entendidos como corpo f\u00edsico e corpo biol\u00f3gico. O corpo humano \u00e9 denominado assim, corpo pr\u00f3prio, isto \u00e9, a compreens\u00e3o do corpo enquanto meio pelo qual o homem n\u00e3o somente est\u00e1 no mundo, mas tamb\u00e9m \u00e9 no mundo e d\u00e1 significado ao mundo.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Nesse sentido, ele \u00e9 compreendido como dimens\u00e3o da intencionalidade, enquanto as outras distin\u00e7\u00f5es do corpo correspondem \u00e0s condi\u00e7\u00f5es naturais do corpo, como dado pela natureza. De acordo com Lima Vaz, o corpo pr\u00f3prio e o corpo f\u00edsico-biol\u00f3gico s\u00e3o significados pelo sujeito num movimento dial\u00e9tico de suprassun\u00e7\u00e3o [*], dando \u00e0 corporalidade do homem o estatuto de categoria constitutiva do discurso antropol\u00f3gico. Assim, O corpo n\u00e3o \u00e9 apenas uma massa corp\u00f3rea, mas um corpo vivente pr\u00f3prio. (VAZ, <em>Antropologia Filos\u00f3fica<\/em>, p.165 \u2013 doravante AF)<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Por conseguinte, a ess\u00eancia do corpo n\u00e3o \u00e9 o fato de ele ser um corpo f\u00edsico ou biol\u00f3gico, dado pela natureza, mas \u00e9 o significado que o sujeito lhe d\u00e1 ao assumir estes na dial\u00e9tica da suprassun\u00e7\u00e3o em corpo propriamente humano. \u00c9 por esse motivo que o corpo pr\u00f3prio \u00e9 entendido como parte constitutiva do ser do homem, \u00e9 atrav\u00e9s dele que o homem se situa no mundo e expressa o seu ser-no-mundo.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">No entanto, n\u00e3o se pode reduzir o homem ao seu aspecto som\u00e1tico, pois este n\u00e3o revela a sua totalidade. H\u00e1 elementos que est\u00e3o al\u00e9m do simples som\u00e1tico. A presen\u00e7a da corporeidade pr\u00f3pria aponta para a exist\u00eancia de uma vida interior, que anima e dirige o corpo, que o pode tomar como instrumento de express\u00e3o, de a\u00e7\u00e3o e de interven\u00e7\u00e3o na realidade. Aqui se abre o horizonte da segunda parte constitutiva do homem: o seu psiquismo.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\"><strong>1.2 Psiquismo<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Diferente do corpo pr\u00f3prio, o psiquismo n\u00e3o \u00e9 a presen\u00e7a imediata do homem no mundo, mas mediata, isto \u00e9, situa o homem no mundo externo atrav\u00e9s do mundo interno (AF, p.169). Na perspectiva vazeana, o psiquismo se d\u00e1 em dois eixos principais, a saber, o da representa\u00e7\u00e3o, que est\u00e1 ligado \u00e0 imagina\u00e7\u00e3o, que permite ao homem captar o mundo externo, e o eixo da afetividade, que est\u00e1 relacionado ao desejo. Esses eixos s\u00e3o modos de manifestar as media\u00e7\u00f5es do psiquismo, que se d\u00e3o atrav\u00e9s de um <em>eu percipiente<\/em> e de um <em>eu apetente<\/em>.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Desse modo, pode-se afirmar que o psiquismo \u00e9 o modo de interioriza\u00e7\u00e3o da realidade no contato com o mundo externo. Sua posi\u00e7\u00e3o \u00e9 mediadora do corpo pr\u00f3prio (exterioridade) com o Esp\u00edrito (interioridade absoluta). Diz-se aqui que h\u00e1 um movimento dial\u00e9tico entre interioridade e exterioridade. A primeira \u00e9 constru\u00edda a partir da realidade exterior. Assim, o psiquismo capta o mundo exterior e reconstr\u00f3i o mundo intra-psiquico. Citando o pensamento de Edith Stein, os autores Achilles J\u00fanior e Miguel Mahfoud dizem que: \u201cA psique pode ser compreendida como a dimens\u00e3o da interioridade que se expressa na corporeidade e como express\u00e3o dos atos espirituais que podem direcionar as viv\u00eancias propriamente ps\u00edquicas\u201d (J\u00daNIOR e MAHFOUD, <em>A rela\u00e7\u00e3o pessoa-comunidade na obra de Edith Stein<\/em>).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Compete dizer ainda, que apesar do homem ser constitu\u00eddo de apetites e desejos, mem\u00f3ria e emo\u00e7\u00e3o, o seu ser n\u00e3o se limita ao psiquismo. Al\u00e9m disso, a dimens\u00e3o ps\u00edquica do homem, n\u00e3o dialetizada, fecha-se num egocentrismo sem precedentes. O psiquismo \u00e9 parte constitutiva do ser do homem e n\u00e3o a sua totalidade. H\u00e1 outros aspectos que transcendem a pr\u00f3pria interioridade do homem, que o lan\u00e7am para fora em busca de algo mais. \u00c9 aqui que se apresenta a dimens\u00e3o espiritual do homem, caracterizando-o como ser propriamente humano.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\"><strong>1.3 Esp\u00edrito<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Na categoria do esp\u00edrito se encontra o \u00e1pice do discurso sobre o homem. Esta dimens\u00e3o permite ao homem uma abertura radical. Reconhecer a dimens\u00e3o espiritual do homem significa apreender o esp\u00edrito como um \u201csair de si mesmo\u201d e uma \u201cabertura para\u201d o mundo objetivo da natureza, para o mundo intersubjetivo da experi\u00eancia da rela\u00e7\u00e3o com outros seres humanos ou com o pr\u00f3prio Absoluto (<em>ibidem<\/em>).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Para se compreender o homem enquanto ser propriamente humano \u00e9 preciso, antes de tudo, pressupor a categoria de esp\u00edrito. \u00c9 esta que d\u00e1 ao ser do homem o estatuto de humano. O esp\u00edrito, num movimento dial\u00e9tico e circular, suprassume a exterioridade do som\u00e1tico e a interioridade do ps\u00edquico, elevando-os a uma dignidade humana. Percebe-se aqui que h\u00e1 um progresso na unidade estrutural do homem. Ele n\u00e3o \u00e9 um ser qualquer, ele possui a dignidade de ser espiritual. Nesse sentido, dizer que o homem \u00e9 esp\u00edrito significa afirmar sua abertura transcendental \u00e0 universalidade do ser segundo o duplo movimento de acolhimento e dom, da raz\u00e3o e da liberdade (AF, p.212).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">\u00c9 pelo esp\u00edrito que o homem, em busca da ess\u00eancia das coisas, se abre para a busca da verdade e do bem: \u201c[&#8230;] em sua estrutura espiritual o homem se abre, enquanto intelig\u00eancia (no\u00fbs), \u00e0 amplitude transcendental da <em>verdade<\/em>, e, enquanto liberdade (pne\u00fbma), \u00e0 amplitude transcendental do <em>bem<\/em> [&#8230;]\u201d(AF, p.182). \u00c9 atrav\u00e9s do esp\u00edrito que o homem constr\u00f3i seu horizonte de sentido e percebe, por meio desse mesmo esp\u00edrito, a sua abertura \u00e0 Transcend\u00eancia.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">\u00c9 importante dizer ainda, que a categoria de esp\u00edrito s\u00f3 pode ser aplicada ao homem por analogia, pois este termo pertence \u00e0 Teologia e se refere ao Ser Absoluto. Assim se expressa Lima Vaz:<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;padding-left:90px;\"><em>Se a no\u00e7\u00e3o de esp\u00edrito transcende os limites da conceptualidade antropol\u00f3gica, \u00e9 claro que sua atribui\u00e7\u00e3o ao homem s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel segundo uma analogia de atribui\u00e7\u00e3o, na qual o princeps analogatum \u00e9 o Esp\u00edrito infinito ou Absoluto, e o esp\u00edrito, no homem, \u00e9 um <\/em>analogatum inferius<em>.<\/em> (AF, p.183)<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Aqui, pode-se perceber tamb\u00e9m que a no\u00e7\u00e3o de esp\u00edrito corresponde \u00e0 no\u00e7\u00e3o de Ser, uma vez que o ser espiritual, por meio da raz\u00e3o, acolhe os transcendentais do Ser (liberdade, bem, unidade) e pela liberdade ele adere ao Ser. \u00c9 por isso que no discurso antropol\u00f3gico h\u00e1 uma abertura para o di\u00e1logo com a Metaf\u00edsica.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Ap\u00f3s ter apresentado uma s\u00edntese sobre as categorias de estrutura, mostrando como se d\u00e1 o movimento do esp\u00edrito que suprassume a exterioridade do corpo e a interioridade do ps\u00edquico, efetuando a unidade estrutural no homem, cabe agora apresentar a vida segundo o esp\u00edrito, tema desta pesquisa.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\"><strong>2. A VIDA SEGUNDO O ESP\u00cdRITO<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">A vida segundo o esp\u00edrito \u00e9 denominada aqui como vida propriamente humana. Viver segundo o esp\u00edrito pressup\u00f5e a compreens\u00e3o da dial\u00e9tica estrutural do esp\u00edrito, isto \u00e9, o seu movimento de suprassun\u00e7\u00e3o das demais categorias. N\u00e3o se pode dizer numa vida \u201csegundo o corpo\u201d ou \u201csegundo o psiquismo\u201d, estas n\u00e3o manifestam a totalidade do ser do homem, ao contr\u00e1rio, o limita a exterioridade do corpo e ao egocentrismo do ps\u00edquico. Todavia, o viver corporal e ps\u00edquico n\u00e3o s\u00e3o extr\u00ednsecos \u00e0 unidade estrutural do homem, mas fazem parte do n\u00facleo ontol\u00f3gico do seu existir espiritual. Nesse sentido, se afirma que \u201c[&#8230;] \u00e9 vivendo segundo o esp\u00edrito que o homem vive <em>humanamente<\/em> a vida corporal e ps\u00edquica\u201d (AF, p.218).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">De acordo com Lima Vaz, a vida espiritual s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel devido \u00e0 correspond\u00eancia transcendental entre o esp\u00edrito e o ser:<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;padding-left:90px;\">[&#8230;] <em>como o homem existe em sua abertura transcendental para a universalidade do ser ou em adequa\u00e7\u00e3o ativa com o ser, o homem existe verdadeiramente enquanto esp\u00edrito, ou a vida propriamente humana \u00e9 vida segundo o esp\u00edrito<\/em>. (AF, p.217)<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">O esp\u00edrito proporciona ao homem um <em>excesso ontol\u00f3gico<\/em>, ou seja, o sujeito humano \u00e9 um ser de abertura, de possibilidades, que n\u00e3o se satisfaz com o que \u00e9 no aqui e agora, mas se pr\u00f3-jeta em busca de algo mais. Nesse sentido, o homem \u00e9 um \u201ceterno insatisfeito\u201d. O fato ainda, de ele ser estruturalmente determinado \u2013 corpo, psiquismo e esp\u00edrito \u2013 n\u00e3o impede a total abertura de seu ser, pelo contr\u00e1rio, \u00e9 justamente esta natureza determinada que permite ao homem essa abertura radical. Sendo assim, \u00e9 correto afirmar que o homem possui uma \u201cdetermina\u00e7\u00e3o intrinsecamente indeterminada\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Pode-se dizer tamb\u00e9m, que a autenticidade do viver humano \u00e9 dada pelo esp\u00edrito. \u00c9 atrav\u00e9s dele que o homem tem a experi\u00eancia de conhecer-se a si mesmo. Isso possibilita a ele um reconhecimento dos aspectos essenciais do seu ser, suas necessidades e exig\u00eancias, de modo que se possa agir humanamente. A vida segundo o esp\u00edrito \u00e9 para o homem vida racional e livre, \u00e9 o campo mais aut\u00eantico da liberdade, onde o indiv\u00edduo toma iniciativa de se posicionar diante da realidade que lhe \u00e9 oferecida, expressando-se e atuando de forma criativa e racional (JUNIOR e MAHFOUD).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Cabe dizer ainda, que a vida espiritual se manifesta no agir humano dentro da sociedade, sobretudo no campo da Religi\u00e3o, \u00c9tica e Pol\u00edtica.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;padding-left:90px;\"><em>Os valores e significados apreendidos pelo esp\u00edrito provocam uma tomada de posi\u00e7\u00e3o espont\u00e2nea atrav\u00e9s dos sentimentos (dimens\u00e3o ps\u00edquica) e, reconhecendo-os, a pessoa pode agir de forma concreta posicionando-se ou atuando no seu ambiente e adotando o corpo pr\u00f3prio como instrumento do esp\u00edrito. Agindo assim, a pessoa pode viver a partir do seu centro, configurando sua personalidade e assumindo uma aut\u00eantica exist\u00eancia<\/em>. (<em>ibidem<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Segundo Lima Vaz, \u00e9 aqui que a vida espiritual tem a sua raz\u00e3o de ser: \u201cA vida segundo o esp\u00edrito ser\u00e1, portanto, para o homem, o exerc\u00edcio dos atos que manifestam o esp\u00edrito como o princ\u00edpio mais profundo e essencial da vida humana\u201d (AF, p.218).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\"><strong>2.1 Atos espirituais<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Ser\u00e1 atrav\u00e9s dos atos espirituais (racionais e livres) que o homem conferir\u00e1 uma dire\u00e7\u00e3o definida \u00e0 suas a\u00e7\u00f5es e dirigir\u00e1 a sua vida em busca de um prop\u00f3sito. A origem do ato espiritual estaria, provavelmente, na no\u00e7\u00e3o grega de <em>aret\u00e9<\/em>, que \u00e9 a excel\u00eancia do ser que se manifesta em seu operar, ou ainda, na sua transposi\u00e7\u00e3o socr\u00e1tico-plat\u00f4nica para o plano moral. Ent\u00e3o, ato espiritual \u00e9 denominado ato pelo qual se exerce e se manifesta no homem \u00e0quilo que lhe \u00e9 pr\u00f3prio, ou seja, a vida do esp\u00edrito que, essencialmente, se expressa como ato humano. Assim, s\u00f3 o homem age espiritualmente, pois este agir se fundamenta na estrutura de seu ser. (AF, p.219)<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Pode-se dizer tamb\u00e9m, que o ato espiritual \u00e9 caracterizado pela liberdade que est\u00e1 submetida \u00e0s leis da raz\u00e3o. \u00c9 com rela\u00e7\u00e3o a esse atributo que o homem, mediante as vicissitudes da vida, pode orientar-se no mundo e realizar efetivamente sua condi\u00e7\u00e3o humana, deixando-se guiar pela raz\u00e3o e construindo seu futuro a partir de seus atos livres, como a decis\u00e3o, a aceita\u00e7\u00e3o ou rejei\u00e7\u00e3o de um pensamento ou impulso frente \u00e0 sociedade.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\"><strong>2.2 Intelig\u00eancia e amor: atos sublimes do ser espiritual<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Assim como o esp\u00edrito, em seu movimento dial\u00e9tico de puro acolhimento do ser e dom ao ser pela intelig\u00eancia e liberdade, a vida espiritual deve tamb\u00e9m fazer este duplo movimento atrav\u00e9s dos atos mais elevados do esp\u00edrito humano: a intui\u00e7\u00e3o intelectual e o <em>amor<\/em> [**]\u201cO esp\u00edrito, pois, sendo abertura transcendental ao ser, \u00e9, no ritmo mais profundo de sua vida, intelig\u00eancia e amor\u201d (AF, p.223). Assim, aquele que age segundo o esp\u00edrito, direciona sua vontade para a contempla\u00e7\u00e3o (<em>theoria)<\/em> do bem.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">A vida espiritual deve estar orientada para esses atos supremos. Desta feita, raz\u00e3o e liberdade devem ser entendidas, num processo gradual da vida espiritual, como tend\u00eancia profunda que aponta para o ato de contempla\u00e7\u00e3o como intelig\u00eancia espiritual e para o ato de dom de si mesmo como amor propriamente espiritual. Aqui se encontra o \u00e1pice da vida do esp\u00edrito, onde a intelig\u00eancia se doa ao seu bem (verdade) e o amor contempla o bem que \u00e9 a sua verdade.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">No entanto, n\u00e3o se pode pensar intelig\u00eancia e amor como atos isolados dos outros atos espirituais. Eles fazem parte da din\u00e2mica estrutural do esp\u00edrito. Est\u00e3o inseridos no processo de crescimento da vida espiritual. A intelig\u00eancia espiritual e o amor espiritual s\u00e3o, todavia, no ser humano, a marca de sua finitude e sua abertura \u00e0 participa\u00e7\u00e3o da intelec\u00e7\u00e3o perfeita e ao amor perfeito do Esp\u00edrito infinito (AF, p.224).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">\u00c9 interessante destacar ainda, que o ato de amar \u00e9 o mais sublime do ser espiritual. \u00c9 esse ato que permite ao homem uma aproxima\u00e7\u00e3o da perfei\u00e7\u00e3o do Esp\u00edrito Absoluto e o torna semelhante a Ele. S\u00f3 o homem ama. Uma cadela, por exemplo, estando com muita fome, n\u00e3o \u00e9 capaz de repartir o seu alimento com seus filhotes. O homem, por outro lado, por mais faminto que esteja, \u00e9 capaz de dar toda sua refei\u00e7\u00e3o ao semelhante que se encontra na mis\u00e9ria. Nesse sentido, \u00e9 pelo amor que o homem se humaniza. Quem ama exterioriza sua pr\u00f3pria humanidade. Desse modo, o amor manifesta a ess\u00eancia do ser do homem, a sua totalidade.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Assim sendo, o <em>outro<\/em> se torna possibilidade de realiza\u00e7\u00e3o humana, pois \u00e9 no outro \u2013 sujeito espiritual \u2013 que o homem pode expressar-se como ser que ama. O amor espiritual \u00e9 aqui possibilidade de rela\u00e7\u00f5es rec\u00edprocas entre totalidades intencionais (dois ou mais sujeitos espirituais), n\u00e3o como forma de objetiva\u00e7\u00e3o do outro, mas como reconhecimento deste enquanto um <em>alter ego<\/em> (outro eu)<em>, <\/em>que do mesmo modo que o sujeito individual, possui, em si, potencialidades para o ato de amar.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">O desejo de plenitude do homem \u00e9, acima de tudo, desejo de amar e se sentir amado, de ser preenchido por uma presen\u00e7a que revele em si a sua pr\u00f3pria ess\u00eancia. Desta feita, o amor pode ser entendido como uma esp\u00e9cie de lei existencial, que fundamenta e regula as rela\u00e7\u00f5es entre os seres humanos, que os conduz a escolherem o bem e a praticarem a justi\u00e7a, possibilitando o respeito mutuo entre os sujeitos espirituais. Numa perspectiva agostiniana, pode-se dizer que \u201co come\u00e7o do amor \u00e9 o come\u00e7o da justi\u00e7a, o progresso no amor \u00e9 o progresso da justi\u00e7a, a perfei\u00e7\u00e3o do amor \u00e9 a perfei\u00e7\u00e3o da justi\u00e7a\u201d (PINHEIRO, <em>O peso do amor<\/em>).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\"><strong>CONCLUS\u00c3O<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Ao longo deste artigo, discorreu-se sobre a unidade estrutural do homem, tendo como objetivo desvelar a ess\u00eancia de seu ser. Dado o problema, a resposta que se chegou foi a verifica\u00e7\u00e3o de que o homem \u00e9 um ser espiritual, que sua vida s\u00f3 \u00e9 autentica quando vivida segundo o esp\u00edrito. Viu-se ainda, que a manifesta\u00e7\u00e3o do esp\u00edrito no homem se d\u00e1 de uma forma din\u00e2mica. H\u00e1 um movimento de descida e subida do esp\u00edrito que suprassume as categorias de corpo pr\u00f3prio e psiquismo, elevando-as a uma dignidade maior, dando ao homem o estatuto ontol\u00f3gico de ser espiritual.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Assim, o esp\u00edrito, al\u00e9m de expressar a ess\u00eancia estrutural do homem, possibilita uma abertura radical do seu ser pela raz\u00e3o e liberdade. Essa abertura o faz transcender os pr\u00f3prios limites do espa\u00e7o-temporal, lan\u00e7ando-se em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 meta suprema: a contempla\u00e7\u00e3o do bem atrav\u00e9s dos atos espirituais mais elevados, a intelig\u00eancia e o amor.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Neste ponto, viu-se que o amor \u00e9, por excel\u00eancia, modo de realiza\u00e7\u00e3o humana, pois \u00e9 amando que o homem manifesta aquilo que realmente \u00e9. Ora, \u201cquem ama, ama alguma coisa\u201d, j\u00e1 dizia Agostinho de Hipona. Assim, a figura do outro entra no discurso antropol\u00f3gico como possibilidade de o homem externalizar a sua ess\u00eancia. Nota-se que o amor \u00e9 a forma de expressar a si mesmo no outro, reconhecendo-o como um <em>alter ego<\/em>, onde o \u201ceu\u201d que ama vai ao encontro do outro e a\u00ed, deixa o seu expressar-se tal como \u00e9. Assim, o respeito m\u00fatuo se d\u00e1 pelo reconhecimento da identidade dos outros sujeitos espirituais, manifestando-se no querer bem o outro.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Contudo, pode-se dizer que, \u00e9 a vida espiritual que manifesta a autenticidade do ser do homem. Uma vida que n\u00e3o considera o esp\u00edrito, na perspectiva vazeana, nega a pr\u00f3pria ess\u00eancia do ser humano. Isso porque o esp\u00edrito promove a unidade substancial do homem, integrando-o em corpo pr\u00f3prio, psiquismo e esp\u00edrito. \u00c9 atrav\u00e9s desta unidade que se pode falar em rela\u00e7\u00e3o objetiva e intersubjetiva, al\u00e9m de possibilitar ao homem uma rela\u00e7\u00e3o com o pr\u00f3prio transcendente.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">O viver segundo o esp\u00edrito \u00e9, ainda, o campo mais aut\u00eantico da liberdade humana, onde o indiv\u00edduo, inserido na sociedade, toma iniciativa de se posicionar diante da realidade que lhe \u00e9 oferecida, expressando-se e atrav\u00e9s dos atos espirituais, que tem na intelig\u00eancia e no amor o ponto mais sublime do agir humano. Deste modo, o tema aqui trabalhado abre espa\u00e7o para poss\u00edveis pesquisas no campo da \u00e9tica, no sentido de que o ser humano n\u00e3o pode ser interpretado como um ser qualquer, mas deve-se reconhecer aquilo que ele \u00e9 por excel\u00eancia, ser espiritual, compreendendo aqui toda din\u00e2mica do esp\u00edrito no seu movimento dial\u00e9tico de suprassun\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\"><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">VAZ, H. C. L.. <em>Antropologia Filos\u00f3fica<\/em> <em>I<\/em>. 8. ed. S\u00e3o Paulo: Loyola, 2006.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">J\u00daNIOR, A. G. C.; MAHFOUD, M.. <em>A rela\u00e7\u00e3o pessoa-comunidade na obra de Edith Stein<\/em>. Artigo dispon\u00edvel em: <a href=\"http:\/\/www.fafich.ufmg.br\/%7Ememorandum\/a11\/coelhomahfoud01.htm\">http:\/\/www.fafich.ufmg.br\/~memorandum\/a11\/coelhomahfoud01.htm<\/a>. Acesso em 20 de Out. 2008.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">PINHEIRO, Jorge. <em>O peso do amor<\/em>. Artigo dispon\u00edvel em: <a href=\"http:\/\/www.monergismo.com\/textos\/biografias\/agostinho_peso_amor\">http:\/\/www.monergismo.com\/textos\/biografias\/agostinho_peso_amor<\/a>. Acesso em 20 de Out. 2008.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">___________________________________________<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">[*] O movimento de suprassun\u00e7\u00e3o refere-se ao movimento aspiral do sujeito ao assumir numa outra dimens\u00e3o categorial a categoria anterior sem anul\u00e1-la.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">[**] O amor deve ser compreendido aqui como ato de doa\u00e7\u00e3o. Amor <em>\u00e1gape,<\/em> desinteressado: total entrega.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Alex Martins de Freitas &nbsp; O objetivo deste artigo \u00e9 mostrar, na perspectiva do fil\u00f3sofo brasileiro Henrique Cl\u00e1udio de Lima Vaz (1921-2002), que o homem, devido \u00e0 dimens\u00e3o estrutural do seu ser, \u00e9 essencialmente um ser espiritual, e que a sua vida s\u00f3 tem sentido quando vivida segundo o esp\u00edrito. 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