{"id":504,"date":"2009-08-22T12:00:19","date_gmt":"2009-08-22T15:00:19","guid":{"rendered":"http:\/\/pensamentoextemporaneo.wordpress.com\/?p=504"},"modified":"2009-08-22T12:00:19","modified_gmt":"2009-08-22T15:00:19","slug":"o-pensamento-na-era-da-liberdade-e-da-criatividade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/?p=504","title":{"rendered":"O pensamento na era da liberdade e da criatividade"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align:justify;\"><strong>Edir Martins Moreira<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\"><strong>Pr\u00f3logo<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Em grande parte dos balan\u00e7os que se fazem do pensamento p\u00f3s-moderno, ressalta-se, compensando a ru\u00edna das &#8220;grandes narrativas&#8221;, dos &#8220;mega-relatos&#8221; filos\u00f3ficos, teol\u00f3gicos, sociol\u00f3gicos e outros, percebe-se o surgimento de um &#8220;canteiro de obras&#8221; entregue \u00e0 liberdade e \u00e0 criatividade das pessoas. Se por um lado amarga-se a falta de seguran\u00e7a e dos pontos de refer\u00eancia,\u00a0 por outro, aumentam os espa\u00e7os limpos para novas constru\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Sendo assim, o fil\u00f3sofo \u00e9 solicitado a deixar os jarg\u00f5es f\u00e1ceis, os sistemas decorados, para ir construindo seu pr\u00f3prio pensamento com abund\u00e2ncia de elementos acess\u00edveis. Se o risco de errar cresce, o fasc\u00ednio da aventura entusiasma.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">A proposta desta reflex\u00e3o \u00e9 analisar a abertura de horizonte proporcionada pelo pensamento nietzscheano tomando como base para reflex\u00e3o uma frase dente seus fragmentos p\u00f3stumos: &#8220;S\u00f3 na cria\u00e7\u00e3o h\u00e1 liberdade&#8221; (<em>ver\u00e3o de 1883). <\/em>Seu pensamento se d\u00e1 de forma livre possibilitando um distanciamento dos fundamentos seguros, das leis pr\u00e9-estabelecidas, ambos aprisionados ao calculismo da <em>ratio.<\/em> Ele considera a <em>ratio <\/em>(Metaf\u00edsica \/ Religi\u00e3o) como dispositivos l\u00f3gicos j\u00e1 circunscritos num sistema arque-teleol\u00f3gico. Por\u00e9m, perceber-se-\u00e1 que n\u00e3o \u00e9 mais poss\u00edvel uma postula\u00e7\u00e3o segura de tais conceitos (<em>arqu\u00e9<\/em> e <em>telos<\/em>), que conduzem a uma reflex\u00e3o metaf\u00edsica.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Nietzsche critica esse fechamento da <em>ratio<\/em> e mostra que, com a \u201cMorte de Deus\u201d, e\u00a0 conseq\u00fcentemente, a morte dos valores e da pr\u00f3pria metaf\u00edsica, n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel mais adotar a posi\u00e7\u00e3o aceita pela tradi\u00e7\u00e3o, mas, parece que a alternativa \u00e9 assumir o niilismo, levando em conta o devir, o acaso, a tragicidade da vida humana.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Por isso, o pensamento de Nietzsche torna-se instigante, problematiza a postura \u00e9tica do homem ap\u00f3s a dissolu\u00e7\u00e3o de uma metaf\u00edsica que impunha um fundamento absoluto para regrar o agir humano. Nietzsche se apresenta por vezes pol\u00eamico, por sugerir uma radicalidade do sujeito em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 sua liberdade. Segundo ele, cada um \u00e9 respons\u00e1vel por sua pr\u00f3pria vida e encarregado de criar valores que a promova e n\u00e3o a aniquile. Nesse sentido, n\u00e3o h\u00e1 um caminho pr\u00e9-estabelecido para seguir, mas cada um faz seu pr\u00f3prio caminho.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\"><strong>1. O an\u00fancio da \u201cMorte de Deus\u201d: pressuposto para a liberdade plena<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Anunciar a \u201cMorte de Deus\u201d \u00e9 o pressuposto que motiva as reflex\u00f5es afirmativas e cr\u00edticas do pensamento nietzscheano (MACHADO, . 1994, p. 22). N\u00e3o se trata de afirmar que Nietzsche \u201cmatou Deus\u201d, mas um impiedoso diagn\u00f3stico de sua \u00e9poca, apresentando uma aus\u00eancia expl\u00edcita de Deus no pensamento e nas pr\u00e1ticas do homem. Na obra <em>A gaia ci\u00eancia, <\/em>Nietzsche apresenta o \u201clouco\u201d numa pra\u00e7a p\u00fablica com uma lanterna acesa em pleno dia e gritando sem parar: \u201cProcuro Deus! Procuro Deus!\u201d (GC, \u00a7 125, p. 129) E isso ocasionou diversas rea\u00e7\u00f5es, visto que muitos que ali estavam n\u00e3o acreditavam em Deus. \u201c\u2018Estava perdido?\u2019 \u2013\u00a0 dizia um. \u2018Ser\u00e1 que extraviou como uma crian\u00e7a?\u2019 \u2013 perguntava o outro. \u2018Ser\u00e1 que se escondeu?\u2019 \u2018Tem medo de n\u00f3s?\u2019 \u2018Embarcou? Emigrou?\u2019 \u2013 assim gritavam e riam todos ao mesmo tempo\u201d (GC, \u00a7 125, p. 129). No entanto, o \u201clouco\u201d p\u00f4s-se no meio deles e dizia enfaticamente:<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;padding-left:90px;\"><em>\u2018Para onde foi Deus?\u2019 \u2013 exclamou \u2013 \u2018\u00c9 o que vou dizer. N\u00f3s o matamos \u2013 voc\u00eas e eu! N\u00f3s todos, n\u00f3s somos seus assassinos! Mas como fizemos isso? Como conseguimos esvaziar o mar? Quem nos deu uma esponja para apagar o horizonte? Que fizemos quando desprendemos esta terra da corrente que a ligava ao sol? Para onde vai agora? Para onde vamos n\u00f3s? Longe de todos os s\u00f3is? N\u00e3o estamos incessantemente caindo? Para diante, para tr\u00e1s, para o lado, para todos os lados? Haver\u00e1 ainda um acima e um abaixo? (&#8230;) Deus morreu! Deus continua morto! E fomos n\u00f3s que o matamos! Como havemos de nos consolar, n\u00f3s, os assassinos entre os assassinos! O que o mundo possuiu de mais sagrado e de mais poderoso at\u00e9 hoje, sangrou sob nosso punhal \u2013 quem nos lavar\u00e1 desse sangue? Que \u00e1gua nos poder\u00e1 purificar? Que expia\u00e7\u00f5es, que jogos sagrados seremos for\u00e7ados a inventar?<\/em> (GC, \u00a7 125, p. 129)<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Anunciar a \u201cMorte de Deus\u201d significa dizer que o homem matou Deus, conseq\u00fcentemente desvalorizando a Metaf\u00edsica, a Teologia e assumindo o ponto de vista antropol\u00f3gico, centralizado no sujeito. Com a \u201cMorte de Deus\u201d morreram todos os demais valores concernentes ao conceito de Deus. Convencendo-se, ent\u00e3o, de que Deus morreu, o homem pode abrir-se livremente \u00e0s novas possibilidades. A partir desta constata\u00e7\u00e3o, tudo deve ser reavaliado. A \u201cMorte de Deus\u201d \u00e9 a grande oportunidade para se valorizar a vida na sua tragicidade, espontaneidade, criatividade e liberdade.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Morrendo Deus e todos os valores tradicionais, surge um novo perfil de homem: forte, determinado, que respeita a pr\u00f3pria vontade, aberto \u00e0 vida. Ele \u00e9 um sujeito que n\u00e3o se deixa conduzir pelo \u201ctu deves\u201d, mas se conduz pelo \u201ceu quero\u201d (ZA, \u201cDas tr\u00eas metamorfoses\u201d, p. 41). O valor maior agora \u00e9 a vida livre, libertada das amarras da raz\u00e3o e da religi\u00e3o, criadora e orientadora de si mesma.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;padding-left:90px;\"><em>De fato, essas primeiras conseq\u00fc\u00eancias, contrariamente ao que se poderia talvez esperar, n\u00e3o nos aparecem de forma alguma tristes e sombrias, mas, pelo contr\u00e1rio, como uma esp\u00e9cie de luz nova, dif\u00edcil de descrever, como uma esp\u00e9cie de felicidade, de alegria, de serenidade, de encorajamento, de aurora&#8230; De fato, n\u00f3s, fil\u00f3sofos e \u2018esp\u00edritos livres\u2019, sabendo que \u2018o Deus antigo est\u00e1 morto\u2019, nos sentimos iluminados de uma nova aurora.<\/em> (GC, \u00a7 343, p. 206)<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Ao decretar a \u201cMorte de Deus\u201d, decreta-se tamb\u00e9m a morte dos valores absolutos, supremos. Morrendo Deus, os valores da moral igualit\u00e1ria s\u00e3o transmutados, esta \u00e9 a primeira condi\u00e7\u00e3o para o surgimento do \u201cOutro-Homem\u201d, o transvalorador por excel\u00eancia.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\"><strong>1.1. O niilismo<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Proclamar a \u201cMorte de Deus\u201d \u00e9 decretar o fim da moral tradicional e automaticamente promover o advento do niilismo. Na obra <em>Vontade de pot\u00eancia,<\/em> esta transforma\u00e7\u00e3o \u00e9 apresentada atrav\u00e9s da deprecia\u00e7\u00e3o dos valores supremos (VP, \u00a7 2, p. 86). Trata-se agora de viver sem Deus e sem os referenciais oferecidos pela Metaf\u00edsica e pela Moral tradicional. Para Nietzsche, tanto a moral intelectualista socr\u00e1tica quanto a metaf\u00edsica plat\u00f4nica popularizada pelo cristianismo, s\u00e3o movimentos niilistas, pois s\u00e3o tend\u00eancias da vida que visam o nada, ainda que durante muito tempo, tenham mascarado este nada com a apar\u00eancia de ser supremo. Deus era apenas a m\u00e1scara do nada (ZILLES, 1991, p. 174). Ent\u00e3o, uma Moral anteriormente pensada com rem\u00e9dio contra o niilismo, mostra-se como origem do pr\u00f3prio niilismo (ZILLES, 1991, p.175) [*].<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">O homem \u00e9 constantemente instigado a dar um sentido a tudo o que acontece, por\u00e9m, muitas vezes, n\u00e3o encontra o sentido almejado e acaba por desencorajar-se e por desistir desta busca. Aqui reside uma das principais causas do niilismo: a decep\u00e7\u00e3o por n\u00e3o alcan\u00e7ar um fim previsto, um sentido para muitos acontecimentos devido ao \u201ceterno vir-a-ser\u201d da vida. Por conseguinte, assumir uma postura niilista significa reconhecer o desperd\u00edcio dessa for\u00e7a, a tortura dessa busca \u201cem v\u00e3o\u201d (VP, \u00a7 5, p. 88); significa transvalorar os valores extirpando a viol\u00eancia da imposi\u00e7\u00e3o, respeitando as diferen\u00e7as e o curso natural dos acontecimentos, nem sempre explicados pela raz\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Outros fil\u00f3sofos contempor\u00e2neos, como o italiano Vattimo, inspiram-se na filosofia de Nietzsche para conceber o niilismo numa perspectiva positiva. Segundo Vattimo, o niilismo \u00e9 a sa\u00edda para o pensamento contempor\u00e2neo, pois, tomando o niilismo como um \u201cdeixar-ser\u201d, ele impulsiona o sujeito a viver livremente no sentido pleno de liberdade, isto \u00e9, assumindo os valores pr\u00f3prios da vida. Parece que o caminho \u00e9 assumir a instabilidade, caracter\u00edstica pr\u00f3pria do pensamento contempor\u00e2neo, derivada do niilismo, que n\u00e3o possibilita um fundamento que aprisione a reflex\u00e3o, mas trata-se de um pensar cr\u00edtico em rela\u00e7\u00e3o aos \u201csistemas\u201d tradicionais.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Ent\u00e3o, nota-se que, na verdade, o que interessa a Nietzsche \u00e9 ultrapassar o niilismo, visto que, diante deste \u201ccaos da destrui\u00e7\u00e3o de todos os valores tradicionais, s\u00f3 resta ao homem estabelecer novas metas a partir do eu que valora, que quer e que cria\u201d (ZILLES, 1991, p.177). \u201cA\u00ed est\u00e1 a barca; voga ali talvez para o grande nada. Quem est\u00e1 disposto, por\u00e9m, a embarcar para esse talvez? (ZA, \u201cDas antigas e das novas t\u00e1buas\u201d, \u00a7 17, p. 270)<strong> <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\"><strong>2. A Vontade de Pot\u00eancia: impulso criativo<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">A express\u00e3o \u201cVontade de Pot\u00eancia\u201d \u00e9, para Nietzsche, puramente simb\u00f3lica, \u00e9 o mais forte de todos os instintos. Trata-se de uma concep\u00e7\u00e3o de luta entre dois impulsos: o impulso de \u201cmais\u201d relacionado \u00e0 vida, \u00e0 pot\u00eancia; e o impulso de \u201cmenos\u201d, direcionado \u00e0 morte, \u00e0 passividade (VP, \u201cPr\u00f3logo\u201d &#8211; Vontade de Pot\u00eancia, p. 63). Na verdade, a Vontade de Pot\u00eancia \u00e9 o nome dado a uma viv\u00eancia din\u00e2mica e espont\u00e2nea no constante devir da vida. O disc\u00edpulo de Dion\u00edsio (Cf.: EH, \u201cPr\u00f3logo\u201d, \u00a7 2, p. 15) reivindica a necessidade da mudan\u00e7a, do vir-a-ser, reclama o processo permanente de aniquilamento e cria\u00e7\u00e3o (MARTON, 1994, p. 13).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Nietzsche quer lembrar que n\u00e3o existe outra vida, como prega o cristianismo, por isso deve-se abandonar o al\u00e9m e voltar-se a este mundo, \u00e9 urgente entender que eterna \u00e9 esta vida tal como a vivemos, o que existe \u00e9 um \u201ceu\u201d mergulhado nas ambig\u00fcidades pr\u00f3prias da exist\u00eancia, ambig\u00fcidades estas que devem ser assumidas no dinamismo da vida.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">A id\u00e9ia de que a vida enquanto Vontade de Pot\u00eancia \u00e9 luta permanente, sem tr\u00e9gua ou fins poss\u00edveis, constitui uma suprema exalta\u00e7\u00e3o da exist\u00eancia. No fluxo desta exist\u00eancia, o ser humano deve respeitar e ser fiel \u00e0 sua vontade, ao seu querer. \u201cViver? Significa ser cruel e implac\u00e1vel contra tudo o que em n\u00f3s se torna fraco e velho\u201d (GC, \u00a7 26, p. 62). O querer \u00e9 criador, din\u00e2mico e espont\u00e2neo. Ele humaniza o homem aprisionado por regras que brotam da raz\u00e3o ou da f\u00e9:<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;padding-left:90px;\"><em>Vontade: assim se chama o libertador e o mensageiro da alegria. (&#8230;) \u2018A n\u00e3o ser que a vontade acabe por se libertar a si mesma, e que o querer se mude em n\u00e3o querer\u2019. Mas, irm\u00e3os, v\u00f3s conheceis estas can\u00e7\u00f5es da loucura! Eu vos afastei delas quando vos disse: \u2018o querer \u00e9 criador\u2019. Tudo o que \u2018foi\u2019 \u00e9 fragmento e enigma e espantoso acaso, at\u00e9 que o querer criador declare: \u2018mas eu o quis assim. Mas \u00e9 assim que eu quero, e hei de querer assim\u2019.<\/em> (ZA, \u201cDa reden\u00e7\u00e3o\u201d, p. 191-192-193)<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Vontade de Pot\u00eancia significa converter obst\u00e1culos em est\u00edmulo; \u00e9 afirmar, com alegria, o acaso e a necessidade ao mesmo tempo; \u00e9 dizer sim \u00e0 vida, sem nenhuma meta a alcan\u00e7ar; a Vontade de Pot\u00eancia \u00e9 desprovida de qualquer car\u00e1ter teleol\u00f3gico, mas est\u00e1 presente constantemente no homem.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Certamente, assentir sem restri\u00e7\u00f5es a todo acontecer, a cada instante tal como ele se apresenta, \u00e9 aceitar amorosamente o que adv\u00e9m, \u00e9 dizer sim a este mundo vivido. Esta \u00e9 uma nova maneira de pensar a viv\u00eancia, como uma conduta criadora. A cria\u00e7\u00e3o \u00e9 uma atividade a partir da qual se produz constantemente a vida que, por sua vez, est\u00e1 em devir. Por isso, uma vez produzida, a vida deve ser reinventada:<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;padding-left:90px;\"><em>De uma maneira ou de outra, n\u00e3o cessa de ser interpretada em fun\u00e7\u00e3o de novas inten\u00e7\u00f5es por um poder que lhe \u00e9 superior, de se ver reconfigurada e reordenada para novo uso; que tudo o que acontece no mundo org\u00e2nico est\u00e1 intimamente ligado \u00e0s ideais de subjugar, de dominar, e toda a domina\u00e7\u00e3o equivale a uma interpreta\u00e7\u00e3o sucessiva, a um acomodamento da coisa, no qual o \u2018sentido\u2019 e a \u2018finalidade\u2019 que prevaleciam at\u00e9 o presente deveriam necessariamente serem suplantados ou totalmente extintos.<\/em> (GM, \u201c2\u00b0 tratado\u201d, \u00a7 12, p. 73)<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Ent\u00e3o, viver \u00e9 sempre criar novas possibilidades. Mas o que \u00e9 criar? Para Nietzsche \u00e9 colocar a realidade como devir. Para o criador, n\u00e3o h\u00e1 mundo j\u00e1 realizado. Criar n\u00e3o \u00e9 buscar um lugar ao sol, mas inventar o pr\u00f3prio sol, como o pensador inatural afirma: \u201cquero mais, n\u00e3o sou daqueles que procuram. Quero criar para mim meu pr\u00f3prio sol\u201d (GC, \u00a7 320, p. 186).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">O devir, afirmado pelo ato de querer, redimido pelo querer que quer com toda a sua vontade, transfigurado pelo poder da afirma\u00e7\u00e3o, \u00e9 possibilidade de cria\u00e7\u00e3o cont\u00ednua. Para Nietzsche, os criadores valorizam o presente, a espontaneidade, o inesperado, o acaso (A, \u00a7 109, p. 84).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Nietzsche considera a vontade como algo complexo, por isso ele afirma que \u00e9 preciso reconhecer os diversos tipos de sentimentos como ingredientes da vontade, inclusive o pensamento, pois em cada ato de vontade h\u00e1 um pensamento que manda. Acima de tudo, n\u00e3o se pode entender a vontade como simples pensar e mandar, mas algo que envolve sentimento, inclina\u00e7\u00e3o e afeto (BM, \u00a7 19, p. 34).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Segundo Marton, \u201ca Vontade de Pot\u00eancia \u00e9 o impulso de toda for\u00e7a a efetivar-se\u201d (MARTON, 2000, p. 70), ela cria novas possibilidades, mas n\u00e3o se imp\u00f5e como lei e nem se realiza num telos; na verdade, nela aparecem, ainda, subssumidos dois conceitos trabalhados pelo pensador desde o in\u00edcio de seus escritos, o apol\u00edneo e o dionis\u00edaco. Estes s\u00e3o aspectos que a express\u00e3o Vontade de Pot\u00eancia recobre, pois, enquanto o apol\u00edneo \u00e9 o que delineia, harmoniza, d\u00e1 forma; o dionis\u00edaco \u00e9 o princ\u00edpio que quebra as barreiras, rompe limites, dissolve o que se apresenta com viol\u00eancia.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;padding-left:90px;\"><em>Todo o ser sens\u00edvel sofre em mim por sentir-se prisioneiro, mas meu querer chega sempre como libertador e mensageiro de alegria. \u2018querer libertar\u2019: essa \u00e9 a verdadeira doutrina da vontade e da liberdade.<\/em> (ZA, \u201cNas ilhas bem-aventuradas\u201d, p. 120)<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">\u00c9 por isso que vive-se instintivamente uma vida elevada \u00e0 mais alta pot\u00eancia, uma vida de perigos. Nietzsche quer que a humanidade se supere cada vez mais: \u201cque a vossa vontade e a vossa decis\u00e3o de ir al\u00e9m de v\u00f3s mesmos constituam a vossa honra!\u201d (ZA, \u201cDas antigas e das novas t\u00e1buas\u201d, \u00a7 12, p. 267). E todo homem possa livremente afirmar: \u201cEu quis assim (&#8230;) assim eu quero, e hei de querer\u201d (ZA, \u201cDa reden\u00e7\u00e3o\u201d, p. 193).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\"><strong>2.1. O Outro-Homem<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">A partir do discurso sobre a Vontade de Pot\u00eancia, surge como conseq\u00fc\u00eancia inevit\u00e1vel o Outro-Homem.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;padding-left:90px;\"><em>Eis, eu vos ensino o Outro-Homem. O Outro-Homem \u00e9 o sentido da terra. Assim fale a vossa vontade: possa o Outro-Homem tornar-se o sentido da terra! Exorto-vos, \u00f3 meus irm\u00e3os, a permanecerdes fi\u00e9is \u00e0 terra, e a n\u00e3o acreditar naqueles que vos falam de esperan\u00e7as supra-terrestres. (&#8230;) Na verdade, \u00e9 o homem um rio turvo. \u00c9 preciso ser o mar para receber um rio turvo, sem tornar imundas as suas \u00e1guas.<\/em> (ZA, \u201cPr\u00f3logo\u201d, \u00a7 3, p. 19)<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Sendo assim, o Outro-Homem pode ser interpretado como uma nova cosmovis\u00e3o, um novo modo de sentir, de pensar e de avaliar. No entanto, n\u00e3o se trata de uma mudan\u00e7a de valores, uma permuta\u00e7\u00e3o abstrata, mas uma invers\u00e3o no elemento do qual deriva o valor dos valores, \u00e9 uma \u201ctransvalora\u00e7\u00e3o\u201d e n\u00e3o uma \u201crelativiza\u00e7\u00e3o\u201d (DELEUZE, 1976 p. 136-137).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">\u00c9 imprescind\u00edvel ressaltar que o Outro-Homem n\u00e3o se relaciona \u00e0 figura de um homem superpotente ou dominador. N\u00e3o se trata do homem selecionado pela \u201clei da sele\u00e7\u00e3o natural\u201d de Darwin, ou, menos ainda, do tipo de ra\u00e7a superior que justificou o nazismo [**]. Na verdade, trata-se do sujeito que transvalora, isto \u00e9, o criador de valores que promove a vida e n\u00e3o a aprisiona; \u00e9 aquele que \u201ctranscende\u201d os homens fracos, considerados como \u201cconceitos ambulantes\u201d (OLIVEIRA, 2004, p. 94). Por isso, o profeta Zaratustra denuncia: \u201cVede: eu sou o anunciador do raio, sou uma pesada gota ca\u00edda da nuvem; mas esse raio chama-se Outro-Homem\u201d (ZA, \u201cPr\u00f3logo\u201d, \u00a7 4, p. 23).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">No pensamento nietzscheano, o Outro-Homem \u00e9 a caracteriza\u00e7\u00e3o de um modo de viver sem as correntes aprisionantes da moral racional. O Outro-Homem, constantemente, coloca-se al\u00e9m das determina\u00e7\u00f5es e cria situa\u00e7\u00f5es e comportamentos que nascem da sua pr\u00f3pria \u201cde-cis\u00e3o\u201d [***].<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;padding-left:90px;\"><em>Eis o meu gosto: n\u00e3o \u00e9 um gosto bom nem mau, mas \u00e9 o meu gosto; e n\u00e3o tenho que o ocultar nem dele me envergonhar. \u2018Este \u00e9 agora o meu caminho: onde est\u00e1 o vosso?\u2019 Era o que eu respondia aos que me perguntavam \u2018o caminho\u2019. Que \u2018o caminho, na verdade&#8230; o caminho n\u00e3o existe!<\/em> (ZA, \u201cDo esp\u00edrito de pesadume\u201d, p. 258)<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Por conseguinte, o que se pretende anunciar \u00e9 o Outro-Homem, sempre com uma renovada decis\u00e3o mediante o devir. Sendo assim, n\u00e3o constitui um novo <em>telos<\/em>, mas a dissolu\u00e7\u00e3o deste no eterno retorno e na transvalora\u00e7\u00e3o dos valores. O Outro-Homem n\u00e3o \u00e9 um conceito abstrato ou metaf\u00edsico, nem tampouco uma realidade ut\u00f3pica, na verdade, \u00e9 o pr\u00f3prio homem no seu momento mais extraordin\u00e1rio. Da\u00ed emerge a proposta nietzscheana de que o Outro-Homem deve ser metamorfoseado em crian\u00e7a (ZA, \u201cA hora silenciosa\u201d, p. 201).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">A crian\u00e7a, no pensamento nietzscheano, \u00e9 s\u00edmbolo de espontaneidade, representa o recome\u00e7ar instant\u00e2neo, uma roda que gira sobre si mesma. Assim como a crian\u00e7a cai para se levantar novamente, segundo Nietzsche, \u00e9 necess\u00e1rio cair para erguer o novo. Para o homem alcan\u00e7ar a \u201coutra-humanidade\u201d \u00e9 preciso perecer nele o que \u00e9 infra-humano, a queda aqui \u00e9 um bem e deve ser estimulada (ZA, \u201cdas antigas e das novas t\u00e1buas\u201d \u00a7 20, p. 273). \u201cVamos! Coragem, homens superiores! S\u00f3 agora vai dar \u00e0 luz a montanha do futuro humano. Deus morreu: agora queremos que viva o Outro-Homem\u201d (ZA, \u201cDo homem superior\u201d, \u00a7 2, p. 359).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Dessa forma, Nietzsche instiga o homem a fazer uso pleno da sua liberdade sem se deixar aprisionar pelas violentas regras. Beleza e trag\u00e9dia, prazer e desprazer fazem parte do dinamismo da vida e todos s\u00e3o vivenciados simultaneamente: \u201cAo longe, ao longe, olhos meus! Quantos mares em torno de mim, quanto futuro humano na aurora!\u201d (ZA, \u201cA oferenda de mel\u201d, p. 306).<strong> <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\"><strong>Desfecho<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">A Filosofia n\u00e3o possui a verdade, mas procura fazer a experi\u00eancia dela.\u00a0 A verdade possu\u00edda j\u00e1 \u00e9 a sua pr\u00f3pria interdi\u00e7\u00e3o. Por isso, a Filosofia s\u00f3 se realiza quando abandona qualquer pretens\u00e3o de posse e respeita um \u201cpacto\u201d, por vezes, silencioso entre pensamento e mundo vivencial.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Ao se tratar de pensamento nietzscheano, percebe uma abertura de horizontes. Nietzsche se apresenta instigante e pol\u00eamico, pois se prop\u00f5e a denunciar todas as formas de fechamento de pensamento que se propunham totalizantes. Ele se apresenta como um anunciador de \u201cboas novas\u201d, porque percebeu que toda a tradi\u00e7\u00e3o estava amarrada a violentas conven\u00e7\u00f5es (EH, \u201cPor que sou um destino\u201d, \u00a7 1, p. 115-116).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">A grandeza de Nietzsche est\u00e1 em sua originalidade. O pensador alem\u00e3o desenvolve um m\u00e9todo dram\u00e1tico de reflex\u00e3o, pois leva em conta a tragicidade pr\u00f3pria da vida. Segundo ele, apol\u00edneo e dionis\u00edaco, necessidade e desejo, s\u00e3o constantes e n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel negar nenhum deles. Eles se incitam mutuamente e tornam a vida din\u00e2mica. A dinamicidade da vida exalta a id\u00e9ia de abertura: a cada passo dado, abrem-se diante dos olhos in\u00fameras novas perspectivas. Por isso n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel haver um discurso fechado, dogm\u00e1tico.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Ao constatar e anunciar que Deus morreu, Nietzsche chama a aten\u00e7\u00e3o para a centralidade do sujeito. Deus morreu, e com ele morreram os valores tradicionais. Conseq\u00fcentemente, tamb\u00e9m morreu o homem da tradi\u00e7\u00e3o. Instaura-se o niilismo e, a partir dele, nasce tamb\u00e9m o Outro-Homem, que, pela Vontade de Pot\u00eancia, \u00e9 capaz de amar a vida com todos os seus paradoxos. Livre das amarras das regras, este \u201cnovo-homem\u201d tem diante de si a sua vida e, simplesmente, a aurora.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Pensar a partir de Nietzsche significa dissolver o que se imp\u00f5e com viol\u00eancia. O que \u00e9 o Bem? O que orienta a vida? O crit\u00e9rio \u00e9 o eterno retorno. Nietzsche prop\u00f5e que se resgate a viv\u00eancia concreta, sem lhe estabelecer um novo <em>telos<\/em>. No processo constante de constru\u00e7\u00e3o e desconstru\u00e7\u00e3o, o mundo n\u00e3o \u00e9 mais que um jogo, \u201cbrincadeira de crian\u00e7a\u201d. A vontade potencializada, sob as caracter\u00edsticas da embriaguez, da euforia, \u00e9 o motor de todo o esfor\u00e7o de cria\u00e7\u00e3o. Trata-se, realmente, de se afirmar com um querer aut\u00f4nomo.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">\u201cO caminho n\u00e3o existe\u201d (ZA, \u201cDo esp\u00edrito de pesadume\u201d, p. 258). Por conseguinte, faz-se necess\u00e1rio constru\u00ed-lo, e isso \u00e9 responsabilidade de cada um. O pensamento contempor\u00e2neo est\u00e1 imerso numa crise de fundamento, a humanidade mergulhada no desespero da aus\u00eancia de sentido. Parece, ent\u00e3o, que o exerc\u00edcio do filosofar \u00e9 a alternativa para o homem contempor\u00e2neo, isto \u00e9, o filosofar entendido como capacidade de pensar criticamente a realidade que o circunda. O homem livre deve agir como a crian\u00e7a: com espontaneidade. Portanto, nesse jogo a que a vida est\u00e1 envolvida, o vencedor n\u00e3o \u00e9 o que se prende \u00e0s regras, mas o mais criativo em rela\u00e7\u00e3o a elas.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\"><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">DELEUZE, Gilles. <em>Nietzsche e a filosofia<\/em>. Trad. Ruth Joffily Dias e Edmundo Fernandes Dias. Rio de Janeiro: Editora Rio, 1976.<br \/>\nMACHADO, Roberto. Deus, homem, super-homem. In: <em>Kriterion<\/em>, vol. XXXV, n. 89, jan-jul 1994.<br \/>\nMARTON, Scarlett. <em>Nietzsche<\/em>: das for\u00e7as c\u00f3smicas aos valores humanos. 2.ed. Belo horizonte: UFMG, 2000.<br \/>\nMARTON, Scarlett. Por uma filosofia dionis\u00edaca. In: <em>Kriterion<\/em>, vol. XXXV, n. 89, jan-jul 1994.<br \/>\nNIETZSCHE, Friedrich Wilhelm. <em>Assim falava Zaratustra<\/em>: um livro para todos e para ningu\u00e9m. Tradu\u00e7\u00e3o de M\u00e1rio Ferreira dos Santos. Petr\u00f3polis: Vozes, 2007.<br \/>\n___________. <em>A gaia ci\u00eancia. <\/em>Tradu\u00e7\u00e3o de Antonio Carlos Braga. S\u00e3o Paulo: Escala, 2006.<br \/>\n___________. <em>A genealogia da moral. <\/em>Tradu\u00e7\u00e3o de Antonio Carlos Braga. S\u00e3o Paulo: Escala, [s.d.].<br \/>\n___________. <em>Al\u00e9m do bem e do mal<\/em>: prel\u00fadio de uma filosofia do futuro<em>. <\/em>Tradu\u00e7\u00e3o de Antonio Carlos Braga. S\u00e3o Paulo: Escala, 2006.<br \/>\n___________. <em>Aurora. <\/em>Tradu\u00e7\u00e3o de Antonio Carlos Braga. S\u00e3o Paulo: Escala, 2007.<br \/>\n___________. <em>Crep\u00fasculo dos \u00eddolos<\/em>: ou como filosofar a marteladas. Tradu\u00e7\u00e3o de Carlos Antonio Braga. S\u00e3o Paulo: Escala, [s.d.].<br \/>\n___________. <em>Ecce homo<\/em>: como se chega a ser o que se \u00e9<em>. <\/em>Tradu\u00e7\u00e3o de Antonio Carlos Braga. S\u00e3o Paulo: Escala, 2006.<br \/>\n___________. <em>Vontade de pot\u00eancia. <\/em>Tradu\u00e7\u00e3o de M\u00e1rio D. Ferreira Santos. Rio de Janeiro: Ediouro, [s.d.].<br \/>\nOLIVEIRA, Ibraim V\u00edtor de. <em>Arch\u00e9 e telos:<\/em> niilismo filos\u00f3fico e crise da linguagem em Fr. Nietzsche e M. Heidegger. Roma: PUG, 2004. (Tese de Doutorado em Filosofia)<br \/>\nVATTIMO, Gianni. <em>Il soggetto e la maschera:<\/em> Nietzsche e il problema della liberazione. 2.ed. Milano: Bompiani, 1996.<br \/>\nVATTIMO, Gianni. <em>O fim da modernidade:<\/em> niilismo e hermen\u00eautica na cultura p\u00f3s-moderna<em>.<\/em> Tradu\u00e7\u00e3o de Eduardo Brand\u00e3o. S\u00e3o Paulo: Martins Fontes, 1996.<br \/>\nZILLES, Urbano. <em>Filosofia da religi\u00e3o.<\/em> S\u00e3o Paulo: Paulinas, 1991.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">______________________________________<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">[*] Percebe-se a coer\u00eancia e objetividade do pensamento nietzscheano, pois desde a sua primeira obra <em>O nascimento da trag\u00e9dia<\/em>, Nietzsche critica a forma de moral da tradi\u00e7\u00e3o, e tamb\u00e9m, j\u00e1 na sua \u201c\u00faltima\u201d obra <em>Vontade de Pot\u00eancia<\/em>, ele mostra que estes sistemas nada mais eram que formas de niilismo negativo.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">[**] Cf.: OLIVEIRA, 2004, p. 94. Sabe-se que algumas das discrep\u00e2ncias com rela\u00e7\u00e3o ao pensamento de Nietzsche aconteceram devido \u00e0 publica\u00e7\u00e3o p\u00f3stuma de alguns dos seus escritos. A autora desse ato foi a sua pr\u00f3pria irm\u00e3 Elizabeth F\u00f6ster Nietzsche, que fez algumas interven\u00e7\u00f5es arbitr\u00e1rias e tendenciosas na escolha de seus aforismos.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">[***] OLIVEIRA, <em>2004<\/em>, p. 94. A palavra \u201cde-cis\u00e3o\u201d faz reportar ao <em>bei<\/em><em>b<\/em><em> zu<\/em> de <em>Assim falava Zaratustra<\/em>, correspondendo \u00e0 livre decis\u00e3o do jovem pastor em morder a serpente, separando-lhe a cabe\u00e7a. Interpretada como se l\u00ea no latim \u2013 <em>de coedere<\/em> \u2013 \u201cde-cidir\u201d \u00e9 separar cortando, isto \u00e9, separar-se de todos os valores preestabelecidos, cortando a cadeia hist\u00f3rica que lhes servia de liga\u00e7\u00e3o. Cf.: Gianni VATTIMO, 1996, p. 195-210.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Edir Martins Moreira &nbsp; Pr\u00f3logo Em grande parte dos balan\u00e7os que se fazem do pensamento p\u00f3s-moderno, ressalta-se, compensando a ru\u00edna das &#8220;grandes narrativas&#8221;, dos &#8220;mega-relatos&#8221; filos\u00f3ficos, teol\u00f3gicos, sociol\u00f3gicos e outros, percebe-se o surgimento de um &#8220;canteiro de obras&#8221; entregue \u00e0 liberdade e \u00e0 criatividade das pessoas. 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