{"id":6,"date":"2009-03-11T19:33:28","date_gmt":"2009-03-11T22:33:28","guid":{"rendered":"http:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/?p=6"},"modified":"2009-03-11T19:33:28","modified_gmt":"2009-03-11T22:33:28","slug":"freud-e-a-critica-ao-narcisismo-moderno","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/?p=6","title":{"rendered":"Freud e a cr\u00edtica ao narcisismo moderno"},"content":{"rendered":"<p><strong>Eust\u00e1quio Lagoeiro Nobre<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">A psican\u00e1lise, desde a sua concep\u00e7\u00e3o por Sigmund Freud, tem tido  influ\u00eancias em \u00e1reas como a psicologia, a educa\u00e7\u00e3o, a medicina e a  psiquiatria, mas ainda assim\u00a0 Freud \u00e9 admitido como autor de uma  psican\u00e1lise\u00a0 dif\u00edcil de ser entendida n\u00e3o por uma dificuldade  intelectual, mas por uma dificuldade afetiva \u2013 \u201calguma coisa que aliena  os sentimentos daqueles que entram em contato com a psican\u00e1lise, de tal  forma que os deixa menos inclinados a acreditar nela ou a interessar-se  por ela. Onde falta simpatia, a compreens\u00e3o n\u00e3o vir\u00e1 facilmente\u201d (FREUD:  171).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">A psican\u00e1lise \u00e9 uma teoria que se fundamenta sobre a  teoria do recalcamento (repress\u00e3o de necessidades), significando,  tamb\u00e9m, o m\u00e9todo de explora\u00e7\u00e3o do psiquismo humano e terap\u00eautica para  certas neuroses. Encontramos suas origens talvez nos fil\u00f3sofos do s\u00e9culo  XIX, que j\u00e1 afirmavam a primazia da vida instintiva, assim como em  certos fisiologistas, neurologistas, psic\u00f3logos, m\u00e9dicos interessados  nos fen\u00f4menos da histeria, hipnose etc. Com as observa\u00e7\u00f5es feitas por  estes estudiosos, chegou-se \u00e0 conclus\u00e3o de que a vida ps\u00edquica  ultrapassava o consciente.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Para Freud, o homem \u00e9 visto dentro de  um contexto que abrange toda a realidade humana e seria impulsionado a  satisfazer certos instintos elementares ou impulsos t\u00e3o poderosos que o  obrigam a alcan\u00e7ar seus fins, diretamente ou por caminhos tortuosos. \u201cA  psican\u00e1lise preocupa-se com o esclarecimento e a elimina\u00e7\u00e3o dos  denominados dist\u00farbios nervosos e o ponto de partida na qual pudesse  abordar esse problema; decidiu-se procur\u00e1-lo na vida instintual da  mente. As hip\u00f3teses acerca dos instintos do homem vieram, portanto, a  formar a base da nossa concep\u00e7\u00e3o de doen\u00e7a nervosa\u201d (ib.).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Freud,  ao falar dos instintos, n\u00e3o quer o retorno de uma vida primitiva, como  pensam muitos, mas faz-nos compreender e aceitar a nossa realidade de  natureza humana; leva-nos a uma compreens\u00e3o n\u00e3o s\u00f3 de n\u00f3s mesmos, mas do  outro, da vida. Seu conceito de personalidade \u00e9 din\u00e2mico: a causa dos  nossos comportamentos devem ser buscados em for\u00e7as emocionais.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Para  Freud, a personalidade \u00e9 composta por tr\u00eas sistemas: o ID, o EGO e o  SUPEREGO, componentes biol\u00f3gico, psicol\u00f3gico e social. O ID, o  inconsciente, abrange todos os impulsos prim\u00e1rios, todo o conjunto de  conte\u00fados herdados. O EGO, a consci\u00eancia, elemento conciliador,  solucionador, planejador, intermedi\u00e1rio entre o ID e o mundo externo,  respons\u00e1vel pela combina\u00e7\u00e3o entre a imagem mental e a realidade  objetiva, busca o relacionamento com o ambiente. O SUPEREGO, por sua  vez, \u00e9 a consci\u00eancia moral, o censor. Representa as normas, as  exig\u00eancias e os valores que s\u00e3o transmitidos \u00e0 crian\u00e7a, principalmente  pelos pais, e incorporados a sua personalidade.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Da\u00ed, a atividade  ps\u00edquica ser consciente e inconsciente, sendo a consciente apenas  referente \u00e0 ponta de um iceberg. O homem, portanto, conhece apenas  algumas de suas motiva\u00e7\u00f5es, porque a maioria\u00a0 delas tem suas ra\u00edzes  lan\u00e7adas no inconsciente. O inconsciente seria a \u201czona profunda\u201d do  nosso psiquismo, da qual nada ou pouco conhecemos, para a qual lan\u00e7amos  id\u00e9ias, conte\u00fados e experi\u00eancias insuport\u00e1veis<strong> <\/strong>\u2018a  viv\u00eancia consciente. Os motivos inconscientes permanecem porque temos  interesse em n\u00e3o nos darmos conta deles. Expulsar da consci\u00eancia certos  impulsos n\u00e3o impede, entretanto, que eles existam e se tornem efetivos.  Assim, para compreendermos qualquer estrutura de personalidade \u00e9  necess\u00e1rio reconhecer a exist\u00eancia de impulsos emotivos de natureza\u00a0  antag\u00f4nica.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Segundo Freud, \u201cO consenso popular distingue entre a  fome e o amor como sendo os representantes de instintos que visam,  respectivamente, \u00e0 preserva\u00e7\u00e3o do indiv\u00edduo e \u00e0 reprodu\u00e7\u00e3o da esp\u00e9cie.  Na psican\u00e1lise fazemos uma distin\u00e7\u00e3o entre os instintos do EGO, por um  lado, e os instintos sexuais, por outro lado\u201d (ib.).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Freud  associou os dist\u00farbios neur\u00f3ticos \u00e0 fun\u00e7\u00e3o sexual, isto \u00e9, para  desenvolver ou n\u00e3o uma neurose vai depender da quantidade de sua libido  (energia sexual) e da possibilidade de saci\u00e1-la e descarreg\u00e1-la atrav\u00e9s  da satisfa\u00e7\u00e3o. Os esfor\u00e7os terap\u00eauticos, segundo Freud, com rela\u00e7\u00e3o \u00e0s  neuroses, obtiveram maior \u00eaxito em se tratando de conflito entre os  instintos do EGO e os instintos sexuais; pois o EGO nega aos instintos  sexuais a satisfa\u00e7\u00e3o que almejam for\u00e7ando-os a satisfazer por outras  vias que se manifestam como sintomas nervosos (a repress\u00e3o). Freud n\u00e3o  nega \u00a0que os desejos humanos n\u00e3o sejam meramente sexuais, mas aqui a  libido \u00e9 tarefa principal da psican\u00e1lise.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">\u201cNo in\u00edcio do  desenvolvimento do indiv\u00edduo toda a sua libido (tend\u00eancias er\u00f3ticas,  toda a sua capacidade de amar) est\u00e1 vinculada a si mesma \u2013 catexiza o  seu pr\u00f3prio EGO. \u00c9 somente mais tarde que, ligando-se \u00e0 satisfa\u00e7\u00e3o das  principais necessidades vitais, a libido flui do EGO para os objetos  externos. Para a libido, \u00e9 poss\u00edvel desvincular-se desses objetos e  regressar outra vez ao EGO. Denomina-se narcisismo a reten\u00e7\u00e3o da libido  pelo EGO. O indiv\u00edduo progride do narcisismo (amor-pr\u00f3prio) para o amor  objetal. Por\u00e9m, determinada quantidade de libido \u00e9 sempre retida pelo  EGO\u201d (id.: 173). Para a completa sanidade, \u00e9 essencial que a libido n\u00e3o  perca essa mobilidade plena \u2013 teoria da libido das neuroses.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Tendo  isso em vista, Freud afirma que o narcisismo universal dos homens, o  seu amor-pr\u00f3prio, sofreu tr\u00eas severos golpes por parte das pesquisas  cient\u00edficas:<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">a \u2013 golpe cosmol\u00f3gico \u2013 segundo Cop\u00e9rnico, a terra  n\u00e3o era o centro do universo, o que outrora dava ao homem a propens\u00e3o de  se considerar senhor do mundo;<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">b \u2013 golpe biol\u00f3gico \u2013 segundo  Charles Darwin e seus colaboradores e precursores, o homem n\u00e3o \u00e9 um ser  diferente dos animais ou superior a eles;<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">c \u2013 golpe psicol\u00f3gico \u2013  segundo o pr\u00f3prio Freud, \u201ca psican\u00e1lise tem procurado a educar o EGO de  que a vida de nossos instintos sexuais n\u00e3o pode ser inteiramente  domada, e a de que os processos mentais s\u00e3o, em si, inconscientes, e s\u00f3  atingem o EGO e se submetem ao seu controle por meio de percep\u00e7\u00f5es  incompletas e de pouca confian\u00e7a \u2013 o EGO n\u00e3o \u00e9 o senhor da sua pr\u00f3pria  casa\u201d (id.: 175).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Enfim, a \u201cpsican\u00e1lise feriu o amor-pr\u00f3prio do  homem quando demonstrou a import\u00e2ncia ps\u00edquica da sexualidade e a  inconsci\u00eancia da vida mental, principalmente nas quest\u00f5es que tocam  pessoalmente cada indiv\u00edduo e o for\u00e7am a assumir alguma atitude em  rela\u00e7\u00e3o a esses problemas\u201d (id.: 179). Da\u00ed n\u00e3o \u00e9 de se espantar que o  EGO n\u00e3o veja com bons olhos a psican\u00e1lise e se recuse obstinadamente a  acreditar nela.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">De um modo geral, Freud com a sua teoria  psicanal\u00edtica influenciou de forma significativa o s\u00e9culo XX. Dentre os  pensadores desse s\u00e9culo, Freud talvez tenha sido aquele que mais se  destacou no que se refere a atingir um p\u00fablico mais especializado e, bem  como, leigos. A sua teoria sofreu inspe\u00e7\u00f5es filos\u00f3ficas, foi criticada,  mas ao mesmo tempo inspirou movimentos art\u00edstico-liter\u00e1rios, a m\u00eddia,  etc. Freud foi mentor de movimentos de liberta\u00e7\u00e3o sexual, mudando a  compreens\u00e3o do comportamento de crian\u00e7as, jovens, adultos, influenciando  at\u00e9 mesmo termos na pron\u00fancia cotidiana advindos do vocabul\u00e1rio  psicanal\u00edtico.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Ou bem ou mal aceita, a teoria freudiana passou a  fazer parte de nossas explica\u00e7\u00f5es acerca de n\u00f3s mesmos e de nossos  comportamentos.\u00a0 No campo filos\u00f3fico, \u00e9 de se perceber que Freud gera  uma revolu\u00e7\u00e3o, ou melhor, um inc\u00f4modo quando faz pensar o sujeito n\u00e3o  mais como senhor de sua pr\u00f3pria alma, fazendo com que a filosofia  repense o seu conceito de verdade at\u00e9 em sua alteridade.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\"><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">FREUD, Sigmund. Uma dificuldade no caminho da psican\u00e1lise. In: <em>Edi\u00e7\u00e3o Standard Brasileira das Obras Completas de Sigmund Freud<\/em> [ESB]). Vol. XVII. Rio de Janeiro: Imago, 1976, p. 171 \u2013 179.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A psican\u00e1lise, desde a sua concep\u00e7\u00e3o por Sigmund Freud, tem tido influ\u00eancias em \u00e1reas como a psicologia, a educa\u00e7\u00e3o, a medicina e a psiquiatria, mas ainda assim  Freud \u00e9 admitido como autor de uma psican\u00e1lise  dif\u00edcil de ser entendida n\u00e3o por uma dificuldade intelectual, mas por uma dificuldade afetiva \u2013 \u201calguma coisa que aliena os sentimentos daqueles que entram em contato com a psican\u00e1lise, de tal forma que os deixa menos inclinados a acreditar nela ou a interessar-se por ela. 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