{"id":648,"date":"2009-11-14T08:01:41","date_gmt":"2009-11-14T11:01:41","guid":{"rendered":"http:\/\/pensamentoextemporaneo.wordpress.com\/?p=648"},"modified":"2009-11-14T08:01:41","modified_gmt":"2009-11-14T11:01:41","slug":"o-homem-e-seu-corpo-a-interpretacao-vazeana-da-categoria-de-corpo-proprio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/?p=648","title":{"rendered":"O homem \u00e9 seu corpo?: a interpreta\u00e7\u00e3o vazeana da categoria de corpo pr\u00f3prio"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align:justify;\"><strong>Philipe Fernandes Nogueira<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\"><strong>Introdu\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Uma Antropologia Filos\u00f3fica que se preze, deve buscar responder a pergunta b\u00e1sica: \u201co que \u00e9 o homem?\u201d levando em considera\u00e7\u00e3o todos os aspectos humanos de um modo geral. Tendo em vista obter a resposta desta pergunta, Pe. Henrique Cl\u00e1udio de Lima Vaz [1] elabora a sua obra <em>Antropologia Filos\u00f3fica<\/em>, constitu\u00edda de dois volumes.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Nesta obra, dividida em parte hist\u00f3rica e sistem\u00e1tica, o pensador brasileiro intenta mostrar detalhadamente as principais dimens\u00f5es que comp\u00f5em o ser humano. Assim, divide a parte sistem\u00e1tica de sua antropologia em tr\u00eas categorias (tamb\u00e9m chamadas de modos de ser): de Estrutura, de Rela\u00e7\u00e3o e de Unidade. Sob estes aspectos, Pe. Vaz busca dar uma resposta ao problema do homem.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">As categorias de estrutura subdividem-se em: corpo pr\u00f3prio, psiquismo e esp\u00edrito. As de rela\u00e7\u00e3o subdividem-se em: objetividade, intersubjetividade e transcend\u00eancia. E finalmente a categoria de unidade que se subdivide em: rela\u00e7\u00e3o e pessoa.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">No entanto, devido a abrang\u00eancia e complexidade do tema, este trabalho se deter\u00e1 em discorrer sobre a primeira das categorias de estrutura: o corpo pr\u00f3prio. O fio condutor para a compreens\u00e3o desta categoria se dar\u00e1 a partir da seguinte pergunta: \u201co homem \u00e9 seu corpo?\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Para um melhor entendimento, utilizar-se-\u00e1 o m\u00e9todo vazeano de an\u00e1lise das categorias, tendo como suporte alguns outros autores. Num momento inicial, ser\u00e1 feita a explana\u00e7\u00e3o da pr\u00e9-compreens\u00e3o, que trata daquilo que a tradi\u00e7\u00e3o e o senso comum entendem do corpo. Posteriormente a reflex\u00e3o recair\u00e1 sobre a compreens\u00e3o explicativa, que \u00e9 o olhar da ci\u00eancia sobre o corpo. O terceiro momento \u00e9 o da compreens\u00e3o filos\u00f3fica ou transcendental, que se divide em determina\u00e7\u00e3o do objeto, atrav\u00e9s da apor\u00e9tica hist\u00f3rica e da apor\u00e9tica cr\u00edtica (momento eid\u00e9tico e momento t\u00e9tico), em determina\u00e7\u00e3o da categoria e em dial\u00e9tica (limita\u00e7\u00e3o eid\u00e9tica, ilimita\u00e7\u00e3o t\u00e9tica e totaliza\u00e7\u00e3o).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\"><strong>1. O corpo pr\u00f3prio entre as categorias de estrutura<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Sob o aspecto estrutural constituinte do ser humano, na perspectiva filos\u00f3fica de padre Henrique Cl\u00e1udio de Lima Vaz, pode-se fazer a seguinte divis\u00e3o: estrutura som\u00e1tica (corpo pr\u00f3prio), estrutura ps\u00edquica (psiquismo) e estrutura espiritual (esp\u00edrito). E estas s\u00e3o as dimens\u00f5es fundamentais do ser humano que buscam dar a resposta do que ele \u00e9 constitu\u00eddo e qual o seu ser. No entanto, o interesse aqui \u00e9 apresentar a categoria que situa o homem imediatamente no mundo: o corpo pr\u00f3prio.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">A primeira coisa com que um indiv\u00edduo que se prop\u00f5e a estudar o homem se depara \u00e9 a dimens\u00e3o da corporalidade. Percebe-se facilmente que esta dimens\u00e3o humana \u00e9 obviamente uma realidade f\u00edsica, material. Por esta raz\u00e3o pode ser aplicado a ela o m\u00e9todo experimental. No entanto, ao fazer isto, corre-se o risco de se reduzir o corpo a uma coisa, a uma m\u00e1quina, com leis mec\u00e2nicas perfeitamente calcul\u00e1veis. O corpo do homem n\u00e3o pode ser reduzido a uma simples coisa. Deve-se levar em considera\u00e7\u00e3o o aspecto do corpo vivido, que se faz presente imediatamente no mundo, que n\u00e3o pode ser objetivado, e que \u00e9 entendido como a estrutura pr\u00f3xima da subjetividade constantemente operante no seu relacionamento com o mundo.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Estudar o corpo humano do ponto de vista filos\u00f3fico, n\u00e3o se reduz a estud\u00e1-lo enquanto estrutura f\u00edsico-biol\u00f3gica como intenta a Biologia e outras ci\u00eancias. \u00c9 antes um estudo sobre a \u201cdimens\u00e3o constitutiva e expressiva do ser do homem\u201d (VAZ, 2006, p.157). Plat\u00e3o, Arist\u00f3teles, Agostinho, Tom\u00e1s de Aquino, Descartes, Spinoza, Leibnitz, Nietzsche, Heidegger, Sartre e Gabriel Marcel foram autores importantes da tradi\u00e7\u00e3o filos\u00f3fica que abriram espa\u00e7o em seus escritos para dissertarem a respeito do corpo. No entanto, \u00e9 na contemporaneidade que surge a terminologia corpo pr\u00f3prio.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Al\u00e9m de passar a ser problema fundamental da Antropologia Filos\u00f3fica com os fil\u00f3sofos contempor\u00e2neos, a categoria de corpo pr\u00f3prio tamb\u00e9m \u00e9 o seu ponto de partida. \u00c9 a partir da corporalidade que o homem torna-se capaz de auto compreender-se. \u00c9 por meio dela que o homem exterioriza-se ao mundo.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\"><strong>2. A pr\u00e9-compreens\u00e3o do corpo pr\u00f3prio<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Pe. Vaz, quando come\u00e7a o discurso sobre a pr\u00e9-compreens\u00e3o do corpo, faz a seguinte distin\u00e7\u00e3o entre as concep\u00e7\u00f5es de corpo: corpo subst\u00e2ncia material (entendido no sentido de totalidade f\u00edsica) e corpo organismo (no sentido de totalidade biol\u00f3gica que comp\u00f5e o homem) de um lado, e corpo pr\u00f3prio (entendendo-o como totalidade intencional) de outro lado (VAZ, 2006, p.158).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">\u00c9 justamente este \u00faltimo, o objeto de maior interesse da Antropologia Filos\u00f3fica do pensador brasileiro. \u00c9 pelo corpo pr\u00f3prio que o homem torna-se capaz de auto exprimir-se e pode dessa maneira falar de um \u201cEu corporal\u201d que se diferencia da dimens\u00e3o f\u00edsico-biol\u00f3gica. Levando-se em considera\u00e7\u00e3o somente estas duas dimens\u00f5es, o homem n\u00e3o se diferencia em nada dos animais. A Biologia \u00e9 a primeira ci\u00eancia onde ocorre o homem. Nesta ci\u00eancia ele ocupa um determinado lugar privilegiado no interior do sistema e recebe o nome de <em>homo sapiens. <\/em>J\u00e1 na F\u00edsica, o homem, enquanto \u00e9 um corpo em um espa\u00e7o, entra no dom\u00ednio dos objetos desta ci\u00eancia. No entanto, este dom\u00ednio n\u00e3o ocorre de modo espec\u00edfico diverso dos outros corpos, como ocorre no caso do corpo objeto da Biologia (RABUSKE, 1986, p. 21).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Por possuir o corpo pr\u00f3prio, o homem \u00e9 capaz de transcender o n\u00edvel f\u00edsico e o n\u00edvel biol\u00f3gico. Desse modo o corpo \u00e9 para o ser humano um \u201ccorpo vivido\u201d, no sentido de vida intencional. \u00c9 por ele que se nota a presen\u00e7a do homem no mundo. A apresenta\u00e7\u00e3o do homem ao mundo se d\u00e1 pelo corpo pr\u00f3prio. No entanto, o que se entende por essa presen\u00e7a, \u00e9 que ela n\u00e3o \u00e9 simplesmente f\u00edsico-org\u00e2nica. Se assim fosse, seria apenas uma presen\u00e7a natural, um simples estar-a\u00ed, ou ainda, uma presen\u00e7a passiva incapaz de modificar o meio em que est\u00e1 inserido. O corpo pr\u00f3prio \u00e9, antes de mais nada, uma presen\u00e7a intencional, um ser-a\u00ed que se situa ativamente no mundo (VAZ, 2006, p. 159).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Tanto a presen\u00e7a natural quanto a presen\u00e7a intencional do homem no mundo, surgem a partir de modalidades diferentes de sua situa\u00e7\u00e3o no espa\u00e7o-tempo. Na passagem abaixo o pensador brasileiro esclarece bem isto ao apresentar como se d\u00e1 a presen\u00e7a natural e a presen\u00e7a intencional do homem no mundo:<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;padding-left:90px;\"><em>Pela presen\u00e7a natural, o homem est\u00e1 presente no espa\u00e7o-tempo f\u00edsico e no espa\u00e7o-tempo biol\u00f3gico de seu corpo que o situa no espa\u00e7o-tempo do mundo. Pela presen\u00e7a intencional come\u00e7a a estruturar-se o espa\u00e7o-tempo propriamente humano, que tem no corpo pr\u00f3prio como corpo vivido o p\u00f3lo imediato de sua estrutura\u00e7\u00e3o para-o-sujeito, ou o lugar em que primeiramente se articulam o espa\u00e7o-tempo do mundo e o espa\u00e7o-tempo do sujeito: psicol\u00f3gico, social e cultural.<\/em> (<em>Ib.<\/em>)<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Se compreendido dessa forma, o corpo pr\u00f3prio designaria o lugar do espa\u00e7o e o evento do tempo fundamentalmente humano.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Pela pr\u00e9-compreens\u00e3o dessa categoria, o homem passa a organizar o seu ser-no-mundo. Retoma a objetividade do corpo f\u00edsico-biol\u00f3gico e d\u00e1 significado aos n\u00edveis do espa\u00e7o-tempo, imprimindo-lhes um car\u00e1ter humano. Destes n\u00edveis, Pe. Vaz destaca alguns que ser\u00e3o a seguir explicitados.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">O primeiro n\u00edvel \u00e9 o da reestrutura\u00e7\u00e3o do espa\u00e7o-tempo f\u00edsico biol\u00f3gico pelo corpo pr\u00f3prio, que interv\u00e9m na sexualidade. O segundo \u00e9 o da reestrutura\u00e7\u00e3o do espa\u00e7o-tempo ps\u00edquico do estar-no-mundo pelo corpo pr\u00f3prio, onde a sexualidade \u00e9 transposta. Um terceiro \u00e9 o do espa\u00e7o-tempo social, onde o corpo pr\u00f3prio pela comunica\u00e7\u00e3o se expressa atrav\u00e9s de sinais. Por fim, h\u00e1 o n\u00edvel da reestrutura\u00e7\u00e3o do espa\u00e7o-tempo cultural, expresso pelas atividades culturais realizadas pelo homem (VAZ, 2006, p. 160-1).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Na pr\u00e9-compreens\u00e3o da categoria do corpo pr\u00f3prio elaborada por Pe. Vaz, o sujeito suprassume o corpo Natureza na Forma de corpo pr\u00f3prio. Dessa forma, elabora-se uma compreens\u00e3o propriamente humana do corpo. A intencionalidade subjetiva do corpo reestrutura o espa\u00e7o-tempo biol\u00f3gico e ps\u00edquico. Por outro lado, existe uma intencionalidade intersubjetiva que reestrutura o espa\u00e7o-tempo social e cultural.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\"><strong>3. Compreens\u00e3o explicativa do corpo pr\u00f3prio<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Na metodologia utilizada por Pe. Vaz, a compreens\u00e3o explicativa \u00e9 a etapa utilizada para dar a explica\u00e7\u00e3o cient\u00edfica das categorias. Na categoria do corpo pr\u00f3prio esta explica\u00e7\u00e3o \u00e9 dada especialmente pela Biologia e pelas demais ci\u00eancias da vida. O objeto de observa\u00e7\u00e3o e experimenta\u00e7\u00e3o dessas ci\u00eancias \u00e9 o corpo dos seres vivos, e no caso do homem \u00e9 o pr\u00f3prio corpo humano. Entretanto, o corpo pelo qual essas ci\u00eancias se interessam, n\u00e3o \u00e9 o corpo pr\u00f3prio \u2013 objeto de interesse da Antropologia Filos\u00f3fica \u2013, mas o corpo dado, ou melhor, o corpo natural que aos poucos vai se estruturando. A transforma\u00e7\u00e3o do corpo em um objeto n\u00e3o elimina a refer\u00eancia humana do corpo e a integra\u00e7\u00e3o dele na totalidade do fen\u00f4meno da vida. Tanto os fenomen\u00f3logos, quanto as ci\u00eancias que estudam o corpo, s\u00e3o incapazes de objetivar completamente o corpo humano (VAZ, 2006, p. 162).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Na compreens\u00e3o explicativa do corpo, o sujeito \u00e9 quem faz a media\u00e7\u00e3o entre Natureza e Forma. Assim, pode-se elaborar o seguinte esquema: N \u2013 S \u2013 F. Ocorre, portanto, por esta media\u00e7\u00e3o, uma distancia\u00e7\u00e3o intencional entre o homem e o seu corpo. Isto possibilita que ele \u00a0conhe\u00e7a cientificamente o corpo segundo conceitos e leis emp\u00edrico-formais. Estes conceitos situam o homem no tempo e no espa\u00e7o e possibilitam o conhecimento dele, atrav\u00e9s da filog\u00eanese, da ontog\u00eanese e do organismo que ele \u00e9 (MARQUES, 2001, p.420).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\"><strong>4. Compreens\u00e3o filos\u00f3fica ou transcendental do corpo pr\u00f3prio<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">O corpo tamb\u00e9m \u00e9 objeto da compreens\u00e3o filos\u00f3fica. Conforme o m\u00e9todo seguido por Pe. Vaz, o primeiro passo desta compreens\u00e3o \u00e9 a chamada apor\u00e9tica hist\u00f3rica. E analisando o corpo nessa etapa, logo percebe-se que a quest\u00e3o perpassa toda a hist\u00f3ria da filosofia, chegando at\u00e9 os dias atuais. Culturas primitivas, religi\u00f5es, filosofia e ci\u00eancia interessam-se e sempre se interessaram pelo problema do corpo.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">De uma maneira geral, com exce\u00e7\u00e3o dos fil\u00f3sofos existencialistas, os autores, ao longo da hist\u00f3ria da filosofia, n\u00e3o consideraram o corpo em si mesmo, mas o viam exclusivamente em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 alma. Al\u00e9m disso, n\u00e3o se ocupavam do corpo no in\u00edcio de suas reflex\u00f5es antropol\u00f3gicas, mas no fim (MONDIN, 1980, p. 27). O interesse pela oposi\u00e7\u00e3o corpo-alma surge com o orfismo-pitag\u00f3rico, e tem ecos at\u00e9 o reducionismo moderno.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Na vers\u00e3o religiosa da oposi\u00e7\u00e3o alma-corpo, pode-se destacar os precursores dessa concep\u00e7\u00e3o: os \u00f3rficos-pitag\u00f3ricos. No pensamento deste per\u00edodo, alma e corpo eram encarados como duas realidades separadas. Ela era um princ\u00edpio divino que se hospedava no homem, e caia no corpo em virtude de uma culpa original. O corpo, por sua vez, era para eles uma tumba ou lugar de expia\u00e7\u00e3o da alma (REALE; ANTISERI, 2005a, p.19-20). A primeira reencarnava-se no segundo em sucessivas exist\u00eancias. O conhecimento desta concep\u00e7\u00e3o foi possibilitado gra\u00e7as \u00e0s narrativas de Homero e \u00e0 contribui\u00e7\u00e3o dada por Plat\u00e3o, quanto este relata aspectos desta vis\u00e3o \u00f3rfico-pitag\u00f3rica que tem reflexos em seu pensamento. Num momento posterior, j\u00e1 no final da Antiguidade, surgiram as correntes religiosas dualistas dos gn\u00f3sticos e dos manique\u00edstas.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Na vers\u00e3o filos\u00f3fica destacam-se dois autores que tamb\u00e9m estabeleceram a oposi\u00e7\u00e3o corpo-alma: Plat\u00e3o e Descartes. O fil\u00f3sofo antigo, sob forte influ\u00eancia do dualismo \u00f3rfico-pitag\u00f3rico, entendia o corpo como \u201ctumba\u201d, ou ainda \u201cc\u00e1rcere\u201d da alma. O corpo era visto como lugar do cumprimento das penas da alma. Era a dimens\u00e3o sens\u00edvel do ser humano e a alma deveria buscar a todo custo fugir dele (<em>Ib.<\/em>, p.153-6). A concep\u00e7\u00e3o cartesiana do corpo tamb\u00e9m \u00e9 dualista. Descartes distingue <em>res cogitans<\/em> (alma, pensamento) e <em>res extensa<\/em> (corpo). Para ele, estas s\u00e3o duas realidades que nada t\u00eam em comum, mas que se ligam na gl\u00e2ndula pineal. O fil\u00f3sofo moderno tamb\u00e9m tem uma vis\u00e3o mecanicista do homem, e por isso encara o corpo como se fosse uma m\u00e1quina (REALE; ANTISERI, 2005b, p.376-8).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Na vis\u00e3o b\u00edblico-crist\u00e3, alma e corpo n\u00e3o est\u00e3o em contraste como dois princ\u00edpios que comp\u00f5em uma \u00fanica realidade. N\u00e3o existe uma realidade mais importante que a outra. Os hebreus concebiam homem como um corpo animado. No entanto, o corpo significava a mortalidade e a fraqueza do homem. Para S\u00e3o Paulo o corpo era uma totalidade organizada do homem (MACKENZIE, 1983). Santo Agostinho, que em certo momento de sua vida fora adepto da corrente manique\u00edsta, superou o dualismo desta seita. Acreditava que o homem era uma unidade substancial de corpo e alma. Tom\u00e1s de Aquino via o corpo organizado como parte essencial da esp\u00e9cie humana. Pelo corpo, o homem se liga \u00e0 dimens\u00e3o material, e pela alma \u00e0 dimens\u00e3o espiritual. Por isso, o ser humano \u00e9 considerado um ser de fronteira.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Na vis\u00e3o cient\u00edfica moderna a dualidade alma-corpo recebe uma explica\u00e7\u00e3o a partir de esquemas reducionistas. Ora o corpo \u00e9 compreendido somente na perspectiva est\u00e9tica, ora como simples meio de gerar capital.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Depois de analisada a apor\u00e9rica hist\u00f3rica da compreens\u00e3o filos\u00f3fica do corpo, Pe. Vaz passa a examinar a apor\u00e9tica cr\u00edtica. Estabelece-se ent\u00e3o a oposi\u00e7\u00e3o sujeito interrogante e corpo-objeto. Esta oposi\u00e7\u00e3o \u00e9 estabelecida de acordo com duas dire\u00e7\u00f5es do estar-no-mundo pelo corpo. A primeira dirige-se para o mundo dos objetos (coisas) onde o corpo situa e submete o homem \u00e0s leis da natureza. A segunda dirige-se para a interioridade do sujeito, e \u00e9 onde o corpo torna-se corpo pr\u00f3prio. Sendo assim, fica possibilitada a coisifica\u00e7\u00e3o e a espiritualiza\u00e7\u00e3o do corpo. Pelo corpo pr\u00f3prio, o homem \u00e9 presen\u00e7a ou ser-no-mundo, aberto \u00e0 natureza e suprassumido na identidade do Eu (VAZ, 2006, p. 163).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Como proposto pelo pensador brasileiro, no momento eid\u00e9tico da apor\u00e9tica cr\u00edtica t\u00eam-se a corporalidade como ess\u00eancia independente ou como estrutura integrante da totalidade do humano. O eidos do corpo delineia-se como fundante da ess\u00eancia do \u201cEu\u201d (<em>Ib.<\/em>). Em outras palavras, a ess\u00eancia do corpo deve ser afirmada como estruturalmente constitutiva da ess\u00eancia do \u201ceu\u201d. Para que o homem seja homem \u00e9 de suma import\u00e2ncia que ele possua um corpo que o situe no mundo e o coloque em contato com a realidade.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">No momento t\u00e9tico, Pe. Vaz considera o corpo como presen\u00e7a imediata do homem no mundo. Questionar-se sobre o seu ser no movimento de autocompreens\u00e3o, leva ao surgimento da quest\u00e3o do corpo como estrutura fundamental. H\u00e1 no sujeito a suprassun\u00e7\u00e3o do corpo dado como Natureza na Forma, ou categoria de corporalidade (VAZ, 2006, p. 164).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">A categoria do corpo pr\u00f3prio resume-se no movimento dial\u00e9tico pelo qual o corpo \u00e9 suprassumido pelo sujeito no movimento dial\u00e9tico de constitui\u00e7\u00e3o da ess\u00eancia do sujeito. Situar o corpo no movimento dial\u00e9tico de constitui\u00e7\u00e3o do sujeito, \u00e9 atribuir ao corpo o estatuto de estrutura fundamental do ser do homem e \u00e0 corporalidade estatuto de categoria constitutiva do discurso da Antropologia Filos\u00f3fica (VAZ, 2006, p. 165).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Na autocompreens\u00e3o filos\u00f3fica do homem, enuncia que o corpo \u00e9 o pr\u00f3prio sujeito (Eu), que se expressa por sua presen\u00e7a exteriorizada no espa\u00e7o-tempo. O corpo tamb\u00e9m \u00e9 o sujeito que d\u00e1 significado \u00e0 rela\u00e7\u00e3o objetiva com o mundo.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">No movimento dial\u00e9tico da categoria de corpo pr\u00f3prio, leva-se adiante o discurso da Antropologia Filos\u00f3fica. Nesse movimento o corpo humano \u00e9 afirmado como ess\u00eancia do homem. H\u00e1, portanto, a identifica\u00e7\u00e3o do ser-homem e ser-corpo. Entretanto, nesta correspond\u00eancia h\u00e1 uma identidade na diferen\u00e7a, como afirma Vaz. E a media\u00e7\u00e3o feita pelo sujeito \u00e9 que possibilita a identifica\u00e7\u00e3o do homem com seu corpo. Se se pensar no corpo apenas como situado no espa\u00e7o-tempo, corre-se o risco de reduzi-lo a um mero corpo-objeto. Sendo assim, no movimento de constitui\u00e7\u00e3o do corpo pr\u00f3prio o corpo-objeto \u00e9 negado dialeticamente (VAZ, 2006, p.165-6).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Enfim, quanto ao corpo pr\u00f3prio pode-se fazer as seguintes afirma\u00e7\u00f5es: o homem \u00e9 e n\u00e3o \u00e9 o seu corpo. Ele \u00e9 o seu corpo porque o corpo tamb\u00e9m \u00e9 parte integrante de seu ser, mas n\u00e3o sua totalidade. Afirma-se igualmente que o homem n\u00e3o \u00e9 seu corpo, porque \u00e0 corporalidade devem ser acrescidas outras estruturas que constituir\u00e3o o ser humano. Mesmo que se diga que o homem esteja presente imediatamente no mundo pelo seu corpo, isto n\u00e3o significa dizer que esta \u00e9 a presen\u00e7a total do homem no mundo (VAZ, 2006, p.166). A identidade do homem vai al\u00e9m do seu corpo, e somente pode ser esgotada na defini\u00e7\u00e3o da categoria de Pessoa.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\"><strong>Conclus\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Percebeu-se, portanto, a partir deste trabalho, que o corpo pode ser entendido de diversas maneiras. Pode-se compreend\u00ea-lo do ponto de vista f\u00edsico, do ponto de vista biol\u00f3gico e do ponto de vista filos\u00f3fico. E justamente a partir deste \u00faltimo \u00e9 que se buscou responder a pergunta \u201co que \u00e9 o homem?\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Igualmente notou-se que o corpo \u00e9 uma dimens\u00e3o constitutiva do homem, e n\u00e3o apenas um ap\u00eandice que pode ser retirado a qualquer instante. Ele \u00e9 dimens\u00e3o expressiva que situa o ser humano imediatamente no mundo. Viu-se tamb\u00e9m que \u00e9 pelo corpo que o homem se torna um ser hist\u00f3rico, presente na hist\u00f3ria. O corpo \u00e9 uma dimens\u00e3o fundamental do ser humano. Compreendendo a sua dimens\u00e3o corporal, fica poss\u00edvel ao homem compreender a si mesmo.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Quanto ao questionamento levantado no in\u00edcio deste trabalho (se o homem \u00e9 seu corpo) chegou-se \u00e0 seguinte conclus\u00e3o: o homem \u00e9 e n\u00e3o \u00e9 o seu corpo. Apesar do corpo fazer parte da ess\u00eancia do ser humano, este n\u00e3o se reduz a ele. O homem \u00e9 abertura para \u201calgo mais\u201d. \u00c9 um eterno insatisfeito que se abre para a busca. Por isso, n\u00e3o se encerra o discurso sobre o homem na categoria de corpo pr\u00f3prio. A esta categoria acrescentam-se outras que comp\u00f5em a estrutura do ser humano.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Enfim, a vida humana \u00e9 uma constante busca pela transcend\u00eancia de seu corpo dado pela natureza. O homem, como diria De Financ\u00e9, \u00e9 indeterminadamente determinado. Mesmo que tenha um corpo que lhe \u00e9 dado, h\u00e1 a possibilidade de sempre ir em busca do poss\u00edvel. E assim, o homem vai dando sentido a sua vida, a cada dia construindo-se.<strong> <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\"><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">MACKENZIE, J. L.. <em>Dicion\u00e1rio B\u00edblico<\/em>. S\u00e3o Paulo: Paulinas, 1983.<br \/>\nMARQUES, L. A. <em>O conceito de pessoa em Lima Vaz.<\/em> Mariana: Instituto de Filosofia S\u00e3o Jos\u00e9, 2001. (TCC em Filosofia).<br \/>\nMONDIN, B.. <em>O homem, quem \u00e9 ele?<\/em>: elementos de uma antropologia filos\u00f3fica. S\u00e3o Paulo: Paulinas, 1980.<br \/>\nRABUSKE, E. A.. <em>Antropologia Filos\u00f3fica<\/em>. 2. ed. Petr\u00f3polis: Vozes, 1986.<br \/>\nREALE, G., ANTISERI, D.. <em>Hist\u00f3ria da Filosofia:<\/em> antiguidade e idade m\u00e9dia. 9.ed. S\u00e3o Paulo: Paulus, 2005a.<br \/>\n_____. <em>Hist\u00f3ria da Filosofia:<\/em> do humanismo a Kant. 7.ed. S\u00e3o Paulo: Paulus, 2005b.<br \/>\nVAZ, H. C. L.. <em>Antropologia Filos\u00f3fica<\/em> <em>I<\/em>. 8. ed. S\u00e3o Paulo: Loyola, 2006.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">____________________________________<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">[1] Pe. Henrique Cl\u00e1udio de Lima Vaz nasceu em 1921 na cidade mineira de Ouro Preto. Ingressou na Companhia de Jesus e doutorou-se em Filosofia pela Universidade Gregoriana de Roma. Atuou no magist\u00e9rio filos\u00f3fico universit\u00e1rio na Faculdade de Filosofia da Companhia de Jesus no Rio de Janeiro e em Belo Horizonte, e na Faculdade de Filosofia da Universidade Federal de Minas Gerais. \u00c9 considerado um dos maiores fil\u00f3sofos brasileiros e publicou in\u00fameras obras. Morreu no ano de 2002 em Belo Horizonte.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Philipe Fernandes Nogueira &nbsp; Introdu\u00e7\u00e3o Uma Antropologia Filos\u00f3fica que se preze, deve buscar responder a pergunta b\u00e1sica: \u201co que \u00e9 o homem?\u201d levando em considera\u00e7\u00e3o todos os aspectos humanos de um modo geral. Tendo em vista obter a resposta desta pergunta, Pe. 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